História
História
Thiago de Almeida Carvalho
Investigador do ipri ' unl e do Centro de Estudos de História Contemporânea
(cehcp) do iscte ' iul. Doutorando em História no ics ' ul, onde prepara uma
tese sobre as relações luso-brasileiras entre 1974 e 1985. Autor de Do Lirismo
ao Pragmatismo. A Dimensão Multilateral das Relações Luso-Brasileiras: 1974-
1976. (Instituto Diplomático, 2009).
Amado Luiz Cervo, A Parceria Inconclusa. As Relações entre Brasil e Portugal
Belo Horizonte, Fino Traço, 2011, 142 pp.
Publicado no âmbito da série «Parcerias Estratégicas do Brasil», editado pela
Fino Traço, o livro de Amado Luiz Cervo reflete sobre os sentidos, limites e
potencialidades das relações luso-brasileiras. O autor define o conceito de
parceria como o conjunto de interpenetrações entre um país e outro, que
concorre para moldar a sua identidade nacional e internacional. No que diz
respeito a Portugal e ao Brasil, a interpenetração manifesta-se por meio de
fatores de ordem étnica, cultural, económica, institucional, estratégica e
política. Ao longo de seis capítulos, Amado Cervo analisa, no tempo longo, como
esses fatores têm influenciado a parceria entre Lisboa e Brasília e propõe um
modelo explicativo para a sua compreensão.
As relações luso-brasileiras são percebidas de modo distinto no tempo e no
espaço, ora desempenhando centralidade na elaboração da política externa,
outrora apresentando um baixo perfil. Esta ambiguidade decorre da diferenciação
do interesse nacional português e brasileiro e da coexistência entre os fatores
de interpenetração e de divergência. Gradualmente o tradicional culto à
fraternidade foi substituído pelo realismo político, e a complementaridade dos
vínculos bilaterais pela sua instrumentalização com benefícios cada vez menos
evidentes. Segundo Amado Cervo, a parceria inconclusa resulta de relações
económicas incipientes e de opções externas diferentes. Esse quadro é
pontualmente invertido quando ocorre a «simbiose logística» entre o Estado e a
sociedade, e se adotam modelos de desenvolvimento económico e de inserção
internacional convergentes. Portanto, a parceria é inconclusa na sua forma e
efeitos e não na sua substância. Não depende apenas das contingências políticas
e económicas do momento mas, também, das perceções e estratégias adotadas pelos
decisores.
Olivro recenseado distingue-se metodologicamente por elaborar uma análise
diacrónica e transdisciplinar das relações luso-brasileiras, que faculta ao
leitor uma síntese valiosa da escassa bibliografia sobre o objeto. Identifica
os seus elementos de continuidade ' o lastro histórico--cultural que favorece o
diálogo ' e de descontinuidade ' a variação nos objetivos externos a atingir.
De modo consistente, o autor demonstra como os elementos de continuidade
permanecem importantes no processo de decisão política e económica, e são um
traço de diferenciação das relações luso-brasileiras. Por sua vez, os elementos
de descontinuidade refletem perceções distintas acerca do outro e do
significado dos vínculos bilaterais, fazendo com que os mesmos fatores possam
aprofundar ou obstruir as relações, e que a parceria oscile entre a eficácia e
a ineficácia.
Eli Alves Penha, Brasil-África e Geopolítica do Atlântico Sul
Salvador, EDUFBA, 2011, 244 pp.
Olivro Brasil-África e Geopolítica do Atlântico Sul
resulta da tese de doutoramento em Geografia de Eli Alves Penha, defendida na
Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1998. O facto de o trabalho só vir a
lume em 2011 é elucidativo das transformações pelas quais passaram a política
externa e a agenda científica brasileira nos treze anos que separam a defesa da
tese e a sua publicação.
A diplomacia de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) atribuiu pouco relevo às
relações com a África, priorizando os vínculos com o hemisfério Norte, de
acordo com o modelo de desenvolvimento neoliberal adotado. Essa estratégia foi
alterada durante o Governo Lula (2003-2011), que enfatizou as relações Sul-Sul,
nomeadamente o seu vetor africano, com o propósito de dinamizar a cooperação
horizontal. A inflexão na política externa brasileira foi concomitante à
ascensão do país ao estatuto de potência emergente e ao interesse renovado pelo
Atlântico Sul, enquanto nova fronteira de recursos naturais, em boa medida
devido às reservas de petróleo offshore. Este é o contexto político e económico
em que a obra recenseada foi publicada.
Eli Alves Penha estuda, no tempo longo, o pensamento geopolítico brasileiro
sobre o Atlântico Sul e a África. Na primeira parte do livro, examina a
importância geopolítica do oceano a partir do eixo Brasil-África. Na segunda,
avalia as estratégias de poder implementadas pelos países lindeiros e a sua
interação com o sistema internacional. Na terceira, analisa os diversos
significados que a África assume para o Brasil desde os anos 1960, percebida
inicialmente como fronteira ideológica e de segurança e atualmente como área de
cooperação e de afirmação de uma identidade internacional específica. Por fim,
o autor considera a centralidade geoestratégica que o Atlântico Sul volta a
desempenhar na primeira década do milénio.
O trabalho de Alves Penha colmata a ausência de informação sistematizada e
atualizada sobre o pensamento geopolítico brasileiro em relação ao Atlântico
Sul e à África, e permite ao menos três conclusões: nas últimas décadas o
Brasil foi substituído pela China e pela Índia enquanto exportador alternativo
de bens, serviços e tecnologia para o continente; o regresso à África decorre
de uma decisão política secundada pelos agentes económicos não estatais; a nova
política africana do Brasil assenta no incremento substancial das relações
comerciais e no êxito da cooperação, em especial com os palop. Como no passado,
a África continua a sero espaço onde o Brasil redefine e projeta a sua
identidade internacional.
José Flávio Sombra Saraiva, África Parceira do Brasil Atlântico. Relações
Internacionais do Brasil e da África no início do Século XXI
Belo Horizonte, Fino Traço, 2012, 166 pp.
Durante o Governo Lula (2003-2011) a diplomacia brasileira atribuiu ênfase ao
continente africano, recuperando um vetor que perdera influência na década de
1990. O recente livro de José Sombra Saraiva incide nas relações do Brasil com
a África no princípio do século xxi, procurando identificar e concetualizar o
modo como esses vínculos se têm desenvolvido nos últimos anos. Autor de
referência sobre a história da política externa brasileira, a sua obra OLugar
da África, publicada em 1996 pela Universidade de Brasília, é incontornável
para compreender o despertar do interesse do Brasil pelo continente africano na
segunda metade do século passado, bem como a importância que o Atlântico Sul
assume na geopolítica brasileira. Em África Parceira Atlântica do Brasil,
Saraiva revisita as intermitentes relações entre as duas margens do oceano, do
pós-guerra à passagem do milénio, aprofundando o estudo sobre a década passada
quando os vínculos afro-brasileiros receberam novo impulso. Segundo o autor, o
regresso do atlantismo -brasileiro, na sua vertente africana, decorreu da
reformulação da política externa, que, refletindo o compromisso de inclusão
social assumido no plano interno, procurava delinear uma nova geografia
política internacional. Sombra Saraiva observa que a construção da identidade
internacional do Brasil possui uma dimensão utópica de reconciliação com as
forças, internas e externas, que estiveram até então na periferia do processo
decisório.
A tese central do autor é a de que no princípio do século xxi os interesses
globais do Brasil e da África voltaram a coincidir, justificando o renovado
ímpeto nos contactos bilaterais. O Estado brasileiro empenhou-se em identificar
os pontos de convergência na agenda política ' autonomia decisória, inclusão
social, desenvolvimento sustentável; e agricultura ' para implementar um novo
paradigma de cooperação com o continente. Em contraposição às relações
desenvolvidas com as antigas potências coloniais, e mais recentemente com a
China, o Brasil propõe à África maior equidade na parceria, de modo a que essa
seja percebida como mutuamente benéfica.
Sombra Saraiva salienta que o vetor africano da política externa brasileira é
parte de uma estratégia mais ampla que pretende revigorar as relações Sul-Sul,
consubstanciando o ideal de cooperação horizontal. Nesse sentido, as relações
afro-brasileiras recuperam o seu conteúdo político. Já não são perspetivadas
segundo os limites ideológicos da Guerra Fria ou com o desinteresse da década
de 1990, mas sim como o veículo para a instituição de um novo paradigma de
cooperação e de desenvolvimento que questiona a ordem global.
Enrique Krauze, Redentores, Ideas y Poder en América Latina
Barcelona, Debate Editorial, 2011, pp. 584
O mais recente livro do historiador mexicano Enrique Krauze não é apenas um
ensaio sobre a cultura política da América Latina. Ao biografar doze
personalidades latino-americanas de nacionalidades, períodos e espectros
ideológicos distintos, o autor escreve a sua interpretação da história das
ideias políticas do subcontinente, desde finais do século xix até ao presente.
Como refere o título, o livro versa sobre a relação entre as ideias e o poder,
as controvérsias e dilemas do debate político e cultural latino-americano,
muitas vezes polarizado pelo enfrentamento histórico entre a democracia liberal
e a revolução, à direita ou à esquerda. Segundo Krauze, as elites latino-
americanas foram propensas a acreditar numa conceção difusa de redenção por via
da revolução, independente do campo político-ideológico em que se situavam.
Neste contexto, o autor observa que fenómenos tão distintos como o peronismo e
o bolivarianismo, representam ruturas com a democracia liberal e constituem
experimentos que questionam o Estado de direito ao procurar estabelecer uma
nova ordem.
No momento em que existe algum pessimismo quanto ao futuro de vários países
latino-americanos, Enrique Krauze relativiza a imagem de um continente onde as
instituições democráticas são frágeis e o Estado incapaz de cumprir as suas
funções, e entende a América Latina como um espaço dinâmico em que o conflito
resulta da busca pelo progresso. Em primeiro lugar, o autor observa que o
subcontinente é composto por realidades distintas, o que impede que a resposta
aos desafios que se lhe colocam seja dada ao mesmo tempo e do mesmo modo. Em
segundo, defende que os estados estão a meio de um processo modernizador ' de
que a transição para a democracia e para a economia de mercado são um exemplo '
aparentemente irreversível.
O livro de Krauze analisa o legado político e cultural da América hispânica ' o
autor não contempla o Brasil no seu estudo ' e questiona alguns estereótipos
que persistem sobre a região. As biografias selecionadas demonstram o empenho
das elites políticas e culturais em formular um projeto coerente e racional
para o continente. Em contraposição à imagem de uma América Latina propícia a
regimes autoritários e populistas, o autor argumenta que ao longo do século xx
o ideal de redenção pela força foi sendo substituído pelo da conciliação. Neste
sentido, defende que a história da América Latina, quando comparada com o que
foi na realidade e não com uma visão idealizada do seu passado, progrediu em
direção à modernidade.
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