Revisitação de Paix et guerre entre les nations
O opus magnumde Raymond Aron é o seu tratado deteoria das relações
internacionais ' Paix et guerre entre les nations' publicado em Paris, pela
Calmann-Lévy, há cinquenta anos, no Verão de 19622.
O livro é o resultado directo de três ou quatro anos de trabalho, cujo início
coincide com uma vontade de distanciação da política francesa, depois das
tomadas de posição frontais de Aron sobre a Guerra da Argélia3 e do regresso do
general De Gaulle ao poder. Logo em 1957, Aron publicou três «ensaios não
partidários» em Espoir et peur du siècle, um livro em três partes que começa
com dois ensaios sobre a política francesa e europeia ' «La droite» e «La
décadence» ' e termina com uma reflexão sobre a guerra nuclear, no capítulo
entitulado «De la guerre», como o tratado de Clausewitz4. No mesmo ano,
escolheu a sociedade industrial e a guerra como tema da Auguste Comte Memorial
Trust Lecture5, para fazer a passagem entre os seus cursos na Sorbonne de 1955
a 19586, cujo tema foi a industrialização e os regimes políticos, e os cursos
dos dois anos seguintes, consagrados às relações internacionais. Esses últimos
correspondem às duas primeiras partes de Paix et guerre' a teoria e a
sociologia ' enquanto a terceira e a quarta ' a história e a praxeologia '
foram escritas no regresso a Paris, depois de um semestre como Research
Professorem Harvard, em 19607.
O tratado teve uma recepção excepcional, não só em França, mas, sobretudo, nos
meios académicos norte-americanos8. Nenhum outro texto europeu de teoria das
relações internacionais ' uma «ciência americana», segundo Stanley Hoffmann, o
discípulo norte-americano de Aron9 ' teve, antes ou depois de Paix et guerre,
uma recepção comparável nos Estados Unidos, onde o livro foi publicado quatro
anos depois10. Os mais importantes investigadores norte-americanos e ingleses,
tanto da geração mais velha, incluindo Hans Morgenthau, William T. R. Fox e
Martin Wight, como da geração mais nova, incluindo Henry Kissinger, Stanley
Hoffmann e Hedley Bull, publicaram recensões de Peace and War. A Theory of
International Relations11 e, excepto no primeiro caso, todos reconheceram no
livro de Aron um marco decisivo no desenvolvimento da nova teoria das relações
internacionais como uma disciplina científica12.
Na altura, Pierre Nora disse que Aron tinha defendido a sua «segunda tese»13. A
boutadedo amigo serve para sublinhar a unidade exemplar no pensamento do
filósofo, do historiador e do analista de relações internacionais14 desde a
apresentação da sua tese na Sorbonne15 até à publicação, vinte e quatro anos
depois, de Paix et guerre, bem como a coerência da acção do académico, do
político e do jornalista16. Com efeito, o tratado de teoria das relações
internacionais não só prolonga a reflexão fundamental sobre o sentido e os
limites da história, como restaura uma linha de continuidade no conjunto dos
textos de análise das relações internacionais, que incluem os artigos da France
libre, escritos no exílio em Londres, durante a II Guerra Mundial17, a série
dos artigos semanais do Figaro18 e, naturalmente, os dois primeiros livros
sobre a história do século XX e a natureza da Guerra Fria ' Le grand schismee
Les guerres en chaîne, publicados, respectivamente, em 1948 e em 195119. Os
textos jornalísticos, os ensaios polémicos e os escritos académicos partilham
não só o rigor da análise, a crítica da ideologia e a firmeza na defesa da
liberdade, como uma visão realista da política, uma vinculação moral e uma
intuição sobre o sentido da história que encontram a sua expressão mais
completa em Paix et guerre entre les nations.
A SANTÍSSIMA TRINDADE
O tratado de Raymond Aron é um dos três clássicos que formam, entre si, o
cânone da teoria realista das relações internacionais. O acto fundador da
escola realista pertence a E. H. Carr, com The Twenty Years Crisis20, o seu
manifesto contra as utopias idealistas da segurança colectiva, mas o primeiro
marco na construção de uma teoria foi estabelecido por Hans Morgenthau com o
seu livro fundamental, Politics Among Nations, publicado em 194821. O último
marco, que não pode ser tido como definitivo, foi posto quarenta anos depois
por Kenneth Waltz, com Theory of International Politics, reconhecido como a
origem de uma escola neo-realista22. Entre os dois, Paix et guerre entre les
nationsdefine a transição entre a escola clássica, tributária da história, do
direito e da filosofia, e a vanguarda estruturalista.
Morgenthau e Aron pertencem à mesma geração, formada pela tragédia das
revoluções totalitárias e das guerras totais: quando o nazismo chega ao poder,
Morgenthau vai ter de abandonar a Alemanha23, tal como Aron vai ser forçado a
exilar-se quando a França é ocupada. Morgenthau, jurista e cientista político,
tal como Aron, filósofo e sociólogo, são ambos próximos da nova ciência social
de Max Weber. Em Chicago e em Londres, os dois intelectuais judeus são
testemunhas distantes do Holocausto e da destruição da Europa e convergem na
necessidade de conter o totalitarismo comunista depois da catástrofe do
nazismo.
Tal como a principal motivação de Carr quando escreveu o seu ensaio era a
vontade de defender a desastrosa política britânica e francesa de contenção do
nazismo, na origem do tratado de Morgenthau esteve a sua determinação em
impedir que os Estados Unidos repetissem perante a ameaça stalinista os erros
das democracias europeias que abriram caminho à fúria hitleriana. A teoria
propriamente dita veio mais tarde, quando as edições posteriores de Politics
Among Nationspassaram a incluir uma primeira parte sobre a teoria da política
internacional, ausente da versão original24.
O realismo norte-americano ' Reinhold Niebuhr, George Kennan, Hans Morgenthau '
foi decisivo tanto politicamente, com a definição da estratégia norte-americana
de contenção da ameaça soviética, como teoricamente, com a fundação de uma nova
disciplina científica, que se vai desenvolver sobretudo nos Estados Unidos25.
De certa maneira, Paix et guerredevia substituir Politics Among Nationscomo a
referência da escola realista. Por um lado, os tratados de Aron e de Morgenthau
são ambos anacrónicos, quer pela sua forma, quer pelo seu tamanho, quer pela
cultura humanista e pela erudição histórica e filosófica dos seus autores,
qualidades que não sobreviveram à tendência de especialização dominante na
disciplina das relações internacionais26. Por outro lado, o livro de Aron tem
um rigor epistemológico, uma arquitectura formal e uma definição da
problemática muito mais consistentes do que a obra inicial de Morgenthau,
demasiado próxima dos primeiros tratados de política internacional, marcados
pela tradição da história diplomática e do direito internacional27.
Aron faz a separação das águas logo com o título do seu livro, no sentido em
que Paix et guerre entre les nationsparece ser não só uma versão corrigida,
como deliberadamente incorrecta28 de Politics Among Nations. Para Aron, a
especificidade da política internacional é a legalidade e a legitimidade do
recurso à guerra nas relações entre os estados: a guerra, ou a alternância
entre a paz e a guerra, é o que separa, no essencial, a política internacional
da política interna dos estados. Nesse sentido, a «paz e a guerra» é o que
define a «política entre as nações» e o que separa a política interna dos
estados e as relações interestatais.
As críticas principais de Aron concentram-se nas traves mestras da teoria de
Morgenthau29 ' o conceito de poder, o interesse nacional e a racionalidade da
política externa dos estados ' e revelam ainda uma divergência entre ambos
sobre os limites da teoria das relações internacionais.
Em primeiro lugar, Aron entende que não é possível construir a teoria das
relações internacionais a partir do conceito de poder, partilhado com outros
domínios de investigação. Pelo contrário, a teoria das relações internacionais
só pode existir como uma teoria autónoma e separar-se da ciência política, se
começar por delimitar o seu próprio campo de análise e se demonstrar que o
«estado de natureza» da política internacional a torna inerentemente diferente
do «estado civil» da política interna30. Pela sua parte, Morgenthau não só não
faz essa separação, como entende que existe uma continuidade fundamental entre
a política interna e a política internacional, determinada pelo poder, que
domina todas as formas da política, interna ou externa31. Para Aron, o que
define a política internacional é a anarquia ' «a ausência de árbitro ou de
polícia» ' enquanto para Morgenthau o poder define toda a política32.
A divergência é, ao mesmo tempo, epistemológica e conceptual, no sentido em que
os dois autores, mau grado a sua filiação weberiana, têm diferentes concepções
do poder, nomeadamente na sua tradução nas relações sociais dentro dos estados
e nas relações políticas entre os estados. Aron critica Morgenthau por usar o
conceito de poder de formas distintas, por um lado, como uma relação entre os
indivíduos, os agentes sociais ou os estados, por outro lado, como um meio, um
objectivo imediato, ou um fim último dos estados33. Com ironia, sem se referir
a Morgenthau, Aron insinua que as limitações linguísticas podem estar na origem
da dificuldade em distinguir as formas do poder na política interna e na
política internacional, uma vez que em alemão ou em inglês existe apenas uma
distinção entre powere force,ou Machte Kraft, enquanto que em francês se pode
distinguir entre pouvoir, puissancee force, o que permite separar as formas do
poder (pouvoir) na política interna do exercício do poder (puissance) na paz e
na guerra, nas relações entre os estados34. Sem ironia, Aron critica
expressamente Morgenthau por banalizar e confundir o conceito de poder e o
transformar numa filosofia ou numa ideologia, insusceptível de falsificação e,
portanto, sem relevância para a feitura de uma teoria científica35.
Em segundo lugar, critica a noção de interesse nacional de Morgenthau. Aron
recusa a noção de que o poder (puissance) possa ser a finalidade da política
entre os estados ou que as entidades soberanas tenham sempre como objectivo
principal a «maximização do poder»: «Quem presume a vontade de "maximizar o
poder" nem sequer está bem ciente do equívoco inerente ao termo que está a
usar»36. As potências não têm um objectivo supremo permanente e unívoco que as
possa fixar na conquista, na defesa da segurança, ou na procura da
sobrevivência:
«[Os] objetivos últimos das unidades são legitimamente ambíguos. Segurança,
poder, glória, ideia são objetivos essencialmente heterogéneos que apenas
poderiam ser reduzidos a um só termo dobrando-se o significado humano da acção
diplomático-estratégica»37.
As potências não têm nem uma política externa imutável, nem objectivos últimos
permanentes que possam sustentar a lógica do interesse nacional, mas, em todo o
caso, a possibilidade da sua definição estável seria sempre prejudicada pela
pluralidade interna das sociedades complexas:
«A pluralidade dos objectivos concretos e dos objectivos últimos vedaria
qualquer definição racional do interesse nacional, pese embora em si mesmo este
não comporte o equívoco decorrente do interesse colectivo em ciências
económicas [ ] O interesse comum não é constituído pelo somatório dos
interesses dos indivíduos [e dos grupos]»38
Segundo Aron, a tese do interesse nacional de Morgenthau é uma forma de os
realistas criticarem os utopistas da paz universal, mas não é relevante, nem
como uma teoria, nem como uma política: é uma ideologia, comparável, nesses
termos, à posição simétrica dos seus adversários idealistas ou moralistas39.
Em terceiro lugar, Aron não reconhece a possibilidade de definir um quadro de
racionalidade da política externa dos estados que assenta, segundo a tese de
Morgenthau, na defesa do interesse nacional. Os estados, presos numa competição
permanente determinada pela fragmentação do sistema internacional e pela
ausência de um árbitro supremo que possa garantir o império da lei nas relações
entre as potências, podem ser vulneráveis às paixões e recusar a contabilidade
moderada dos interesses nacionais. A vontade de poder, a procura da glória, a
força das ideias são tão ou mais poderosas que a lógica da sobrevivência,
demasiado pobre, de resto, para se impor como o destino de um grande Estado.
Nesse contexto, sem a garantia da lei e sem a âncora do interesse nacional, a
racionalidade nas relações entre os estados depende da moderação política e da
prudência, virtude suprema dos estadistas40:
«A primazia da política [permite] travar a escalada a extremos [ ] Quanto mais
os chefes de Estado fazem cálculos em termos de custos e benefícios menor a sua
propensão para afastar a pena em prol da espada [ ]. Só é racional a condução
razoável da política desde que o comércio entre Estados tenha como fim a
sobrevivência tanto de uns como dos outros, a prosperidade comum e a poupança
do sangue dos povos»41.
Aron recusa ainda o pessimismo antropológico de Morgenthau, que reproduz as
concepções de Hobbes. A teoria realista das relações internacionais não tem de
assentar numa reflexão acerca da natureza do homem e deve ser edificada a
partir das entidades políticas autónomas que são as unidades constitutivas do
sistema internacional. O Estado é o centro da política internacional e da
teoria das relações internacionais e as concepções antropológicas, ou
biológicas, não devem perturbar as ciências do Estado.
Aron considera Morgenthau um «tradicionalista»42, com um interesse limitado na
elaboração dos conceitos da teoria das relações internacionais. Waltz, por sua
vez, considera Morgenthau e Aron ambos como «tradicionalistas»43, demasiado
fixados na história e na política dos estados. Nem um nem outro puderam
construir a teoria das relações internacionais, que é o propósito de Waltz, que
traduz esse desígnio no título do seu livro: Theory of International Politics.
O problema dos dois «tradicionalistas», entre outros, foi querer enunciar uma
teoria de «dentro para fora» ' das unidades para o sistema ' sem reconhecer que
só é possível fazer a teoria «de fora para dentro» ' do sistema para as
unidades44.
Tal como a teoria de Aron não pôde prescindir da crítica a Morgenthau, a nova
teoria estruturalista de Waltz não pôde dispensar a crítica a Morgenthau e a
Aron e, desse modo, completou o reconhecimento sucessivo dos membros da
«santíssima trindade» da teoria realista. Para Morgenthau, a política dos
estados define a forma do sistema internacional, para Aron, os estados e o
sistema internacional condicionam-se reciprocamente, para Waltz, o sistema
internacional e a sua estrutura determinam a política dos estados. Politics
Among Nationse Theory of International Politicsmarcam, respectivamente, o
princípio da construção de uma teoria e a possibilidade de uma «teoria das
teorias» e, entre os dois, como reconheceu Martin Wight45, o céptico que
defendia a impossibilidade de uma teoria das relações internacionais, Paix et
guerre entre les nationsé a primeira teoria das relações internacionais.
O DISCURSO DO MÉTODO
O salto em frente de Raymond Aron com Paix et guerre entre les nationsnão seria
possível sem integrar uma problemática tão complexa na sociologia histórica, na
história das relações internacionais e na filosofia das relações
internacionais. A própria estrutura, demasiado pesada, do tratado ' teoria,
sociologia, história, praxeologia ' sublinha a extensão do espectro analítico e
torna difícil classificar a teoria das relações internacionais de Aron que é,
ao mesmo tempo, uma teoria sistémica, uma teoria realista e uma teoria
normativa.
Herdeiro dos antigos, Aron não hesita em ser moderno e construir a sua teoria
como uma teoria sistémica. A primeira parte de Paix et guerretem como subtítulo
«Conceitos e sistemas» e inclui dois capítulos, respetivamente, sobre os
sistemas internacionais e os sistemas pluripolares e bipolares.
Aron começa por sublinhar a natureza do sistema internacional, a anarquia
imposta pela pluralidade de centros autónomos de poder que não reconhecem
nenhuma autoridade superior à sua soberania e aceitam a legitimidade do recurso
à guerra nas relações entre si. A anarquia determina a especificidade única do
sistema internacional, a alternância entre a guerra e a paz, ponto de partida
da teoria enunciada em Paix et guerre46, sob o signo de Clausewitz.
Depois, define o sistema internacional como «o conjunto constituído por
unidades políticas que mantêm umas com as outras relações regulares e
suscetíveis de se envolver numa guerra geral»47. A fórmula evita incluir a
referência a uma estrutura, ou a um padrão, e indica que o conjunto é
fragmentado e plural, que as relações entre as «unidades políticas» são
«regulares» ' os estados reconhecem-se e mantêm relações diplomáticas entre si
' e que estas se podem envolver numa guerra geral ' a ordem anárquica
caracteriza o «estado de natureza» nas relações internacionais, que as separa
do «estado civil» na ordem hierárquica interna dos estados. A definição procura
também delimitar o campo do sistema internacional, que representa apenas uma
parte da política internacional, concentrada na análise das relações
interestatais, e não trata nem das relações transnacionais, nem das relações
internacionais, ou das relações entre as nações propriamente ditas48: «os
sistemas internacionais revestem o aspeto interestatal da sociedade a que
pertencem as populações submetidas a distintas soberanias»49
Em seguida, propõe uma tipologia dos sistemas internacionais, em que separa a
estrutura de distribuição do poder do processo de distribuição das ideologias
de que depende a homogeneidade ou a heterogeneidade dos princípios de
legitimidade política.
A «configuração da relação de forças» refere-se a duas dimensões distintas: o
limite espacial do sistema internacional e a distribuição do poder na política
internacional. As duas questões são cruciais para Aron definir a especificidade
da conjuntura diplomática. Pela primeira vez na história, depois da II Guerra
Mundial, há um sistema internacional que engloba todo o planeta e, também pela
primeira vez, existe uma divisão bipolar, com uma concentração sem precedentes
de poder em duas grandes potências.
A unidade do sistema internacional cria novas incertezas e levanta o problema
da «distância moral» nas relações entre as culturas históricas50: as
civilizações não se podem reconhecer sem se destruírem, como defendeu Oswald
Spengler, ou pode ser possível uma convergência, ou um diálogo, entre as
civilizações, como admitia Arnold Toynbee51? Para lá das divisões da Guerra
Fria, o futuro do sistema internacional está na resposta a essas questões, na
altura ausentes dos estudos de relações internacionais.
As duas configurações da distribuição do poder, pluripolar e bipolar,
condicionam as condições de estabilidade do sistema e as estratégias de
alianças dos estados. A multipolaridade é o regime comparativamente estável em
que um conjunto de unidades com um peso semelhante definem o equilíbrio
internacional pelo método dos alinhamentos flexíveis, enquanto a bipolaridade é
inerentemente instável: os dois estados dominantes são naturalmente inimigos,
uma vez que o equilíbrio só pode existir se cada um deles pertencer a um campo
oposto, e a permanência desse equilíbrio exige uma rigidez dos alinhamentos das
potências menores52. Os enunciados sobre as relações entre a estrutura de
distribuição do poder, a estabilidade internacional e o padrão das alianças são
típicos de uma teoria sistémica, embora Aron se recuse a reconhecer nessas
regularidades uma forma de determinismo.
A distinção fundamental entre sistemas homogéneos e heterogéneos é única nos
estudos teóricos das relações internacionais53. Os sistemas internacionais são
condicionados não só pela distribuição do poder, mas também pelas ideias, pelas
ideologias e pelos tipos de regime político. Na sua definição, são homogéneos
os sistemas em que os estados têm o mesmo tipo de regime e obedecem à mesma
concepção da política e heterogéneos os sistemas em que os estados se organizam
segundo diferentes princípios e se reclamam de valores contraditórios. Os
sistemas homogéneos são mais estáveis e previsíveis, os sistemas heterogéneos
são mais instáveis e imprevisíveis54.
A diferença entre sistemas homogéneos e heterogéneos é crucial e tende a
determinar o grau de probabilidade da guerra, incluindo as guerras civis, maior
nos segundos do que nos primeiros. As guerras gerais ' a Guerra dos Trinta
Anos, as Guerras da Revolução e do Império, as guerras totais do século xx '
tendem a coincidir com os períodos em que o princípio de legitimidade da
organização dos estados foi posto em causa pelas revoluções civis ou
religiosas55.
Por último, esboça uma classificação das formas de mudança no sistema
internacional, que decorrem da evolução da estrutura do poder ou da dimensão
ideológica. Uma mudança na natureza da estrutura, pluripolar ou bipolar, ou a
passagem da homogeneidade para a heterogeneidade (e reciprocamente), implicam
uma «mudança de sistema», enquanto uma acentuação ou uma atenuação da estrutura
ou da heterogeneidade (ou da homogeneidade) representam uma mera «mudança no
sistema»56.
Aron ressalva constantemente que o comportamento das «unidades políticas» nunca
depende de uma única causa, embora todos os estados se submetam à regra da
alternância entre a paz e a guerra, que define a natureza do sistema
internacional. Nesse sentido, não subordina a política dos estados à estrutura
de distribuição o poder ou de distribuição das ideologias no sistema
internacional57, mas reconhece a importância de ambas tanto na definição das
estratégias de alianças dos estados, como nas condições de estabilidade do
sistema internacional.
A sua teoria é uma teoria sistémica tanto pelo reconhecimento de que é possível
definir e delimitar um sistema interestatal, não obstante a competição, a
conflitualidade e a guerra serem a regra nas relações entre os estados, como
pelo rigor na definição dos tipos de sistema internacional e dos
condicionamentos impostos quer pela distribuição do poder entre as unidades
soberanas, quer pela distribuição das ideologias políticas ao comportamento
diplomático e estratégico dos estados58.
Aron não se refere a si próprio como um realista, mas nem por isso a sua teoria
das relações internacionais deixa de ser uma teoria realista. O seu realismo é,
de resto, notório quando critica o realismo norte-americano como uma ideologia
simétrica das doutrinas jurídicas, idealistas ou moralistas. Mais precisamente,
Aron, tal como E. H. Carr, Reinhold Niebuhr, George Kennan e Hans Morgenthau, é
um realista clássico59 e é também um realista liberal, tal como John Herz
definiu a espécie60.
Os dogmas da escola realista, na medida em se possa admitir a sua existência,
são pouco numerosos: o sistema internacional é anárquico e fragmentado,
composto por uma pluralidade de centros de poder autónomos e as suas unidades
constitutivas são entidades separadas, independentes e soberanas. As diferenças
profundas entre Morgenthau, Aron e Waltz não os impedem de assentar as suas
teorias nesses três pilares e, no caso da «santíssima trindade» realista, pode
acrescentar-se um quarto pilar ' a balança do poder ', não obstante os
equívocos que possam ser associados a esse conceito.
Orealismo crítico de Aron separa-se do realismo de Morgenthau pela sua
relutância em reconhecer um sentido racional na história internacional, pela
rejeição do reflexo ideológico do «realismo norte-americano» e pela valorização
da ideologia como um factor crucial na análise do sistema e da conjuntura
internacional. O realismo sofisticado de Aron não reconhece a validade
científica do realismo norte-americano, que não só «pensa contra», como resvala
para os mesmos defeitos de manipulação que caracterizam os seus opositores.
Aron, um polemista formidável, mais político do que Morgenthau, partilha, em
geral, os mesmos adversários ' os utopistas idealistas, os tiranos
totalitários, os intelectuais niilistas ' mas, sem ceder na firmeza da defesa
dos princípios da liberdade, pratica a crítica da ideologia sem recorrer aos
argumentos da ideologia ou à tentação da simplificação.
O realismo crítico de Aron procura compreender e analisar todas as ideologias,
incluindo o realismo, o idealismo e o moralismo que são parte integrante da
retórica das potências na sua luta pelo poder61. Enquanto qualifica Morgenthau
como «cruzado do realismo»62, Aron critica o «irrealismo do realismo» que não
tem em conta as ideias, as ideologias e os regimes políticos como parte
integrante da teoria das relações internacionais. Nesse sentido, na fórmula de
Pierre Hassner, é «demasiado realista para ser um realista»63. A concepção de
Aron começou a formar-se desde as primeiras análises de política internacional,
quando definiu a II Guerra Mundial como uma guerra imperial e ideológica64,
consolidou-se na crítica dos totalitarismos e na construção de uma teoria dos
regimes políticos65, antes de se traduzir, em Paix et guerre, como um conceito
estruturante da sua teoria das relações internacionais66. As ideias, a
competição ideológica e a natureza dos regimes condicionam a probabilidade da
guerra e da paz, definem o tipo de sistema internacional, homogéneo ou
heterogéneo, e caracterizam a natureza das grandes potências, conservadoras,
revisionistas ou revolucionárias67.
Aron define a sua teoria como uma praxeologia, uma «teoria da prática», ao
mesmo tempo explicativa e normativa. Na quarta e última parte de Paix et
guerre, a praxeologia é posta sob o signo das «antinomias da acção diplomático-
estratégica», à procura de uma moral e de uma estratégia que tornem possível
transcender a política do poder68.
A referência às antinomias (ou antíteses) serve para sublinhar o método
dialéctico de Aron69, que, mais uma vez, é praticado sem ser nominalmente
reconhecido como tal70. Aron constrói os seus argumentos a partir de
contradições ' entre a teoria e a prática, a paz e a guerra, os fins e os
meios, os interesses e as paixões ' para as ultrapassar à procura de um
compromisso. Atensão entre a guerra e a paz, levada aos extremos na era nuclear
pela heterogeneidade radical que separa o império comunista e a República
imperial não exclui uma trégua ' «nem paz, nem guerra», ou «paz impossível,
guerra improvável»71. No mesmo sentido, a lógica da sobrevivência não deixa que
a oposição dos Estados Unidos e da União Soviética se traduza numa «ascensão
aos extremos» de que nenhum dos contendores poderia sair vencedor, tal como a
capacidade recíproca de destruição, o impasse do equilíbrio bipolar e a
competição estratégica entre as duas superpotências não impede os duelistas da
Guerra Fria de serem «irmãos inimigos».
Aron quer resolver o dilema da oposição entre Maquiavel e Kant, que define a
tensão permanente entre o realismo e o idealismo, a guerra e a paz, a política
e a ética, a «moral de combate» e a «moral do direito».
A moral possível na «sociedade dos estados» ' uma «sociedade associal», na
fórmula kantiana de Aron, ou uma sociedade única, de «tipo misto» e
contraditória, que impõe regras aos seus membros e tolera o recurso à força
armada ' só pode ser uma moral igualmente imperfeita: «A ambiguidade da
sociedade internacional impede que se siga até ao fim uma lógica parcial, quer
se trate de direito ou de força»72. Nesse impasse, o compromisso é uma «moral
da sabedoria», que impõe ao teórico das relações internacionais ' conselheiro
do Príncipe ou estratega, diplomata ou «espectador empenhado» ' a prudência, a
moderação e a humildade:
«[A] moral da sabedoria procura não somente considerar cada caso enquanto tal
[mas] também, sem desconhecer nenhum dos argumentos de princípio e
oportunidade, não esquecer a relação de forças nem as vontades dos povos. O
juízo da sabedoria não satisfaz plenamente os moralistas nem os vulgos
discípulos de Maquiavel.»73
Contra a corrente, isolado entre os extremos, refém da tragédia da história, o
teórico da praxeologia quer «armar a sabedoria»74 para poder garantir, na
medida das suas possibilidades, que os estadistas estão preparados para evitar
o pior. O «discurso do método» da teoria das relações internacionais, como lhe
chamou Stanley Hoffmann75, ficaria incompleto sem uma teoria da moral,
indispensável para dar um sentido de esperança ao «maquiavelismo ponderado» de
Aron.
A HISTÓRIA DO SÉCULO XXI
O tratado de Raymond Aron é uma teoria clara, original e coerente das relações
internacionais e inclui tanto uma construção teórica, como uma tese sobre a
conjuntura diplomática e estratégica da Guerra Fria, que preenche a terceira
parte de Paix et guerre, ironicamente dedicada à História76.
A teoria geral de Paix et guerree a «power politics» de Morgenthau partem ambas
de Max Weber, mas Aron vira do avesso a definição clássica do sociólogo alemão
sobre o Estado como o monopólio da violência legítima que assegura o «estado
civil» entre os indivíduos e os grupos que constituem uma sociedade: o que
define o sistema internacional constituído por estados soberanos é,
precisamente, a ausência de uma entidade que detenha o monopólio legal da
violência legítima e os meios para impor uma ordem jurídica às unidades
políticas que formam a «sociedade associal».
Nesse sentido, Aron constrói a sua teoria sobre um princípio de separação
radical entre a ordem hierárquica do Estado que detém, internamente, o
monopólio da violência legítima, e a ordem anárquica dos estados, uma sociedade
onde esse monopólio não existe e o recurso à guerra é legítimo (e legal) nas
relações entre as unidades políticas. Uma vez definido esse princípio
essencial, Aron vai demonstrar que a própria separação entre as duas dimensões
' o sistema interestatal e o sistema político interno ' as torna inseparáveis.
O sistema internacional é, por definição, plural, e os estados, por serem
soberanos, definem o seu próprio regime político: a heterogeneidade ou a
homogeneidade do sistema internacional depende, por sua vez, da afinidade ou da
oposição entre os princípios de legitimidade dos regimes internos dos actores
estatais77. A «ausência de árbitro» torna legítima a guerra entre os estados,
que fazem o seu próprio direito, e a heterogeneidade dos regimes aumenta a
probabilidade da guerra entre os estados e no interior dos estados.
De certa maneira, Rousseau, com a sua distinção precisa entre o «estado de
natureza» nas relações entre os estados e o «estado civil» nas relações entre
os agentes sociais dentro do Estado, exprime melhor o princípio essencial da
separação do que a fórmula de Clausewitz sobre a guerra com que abre o primeiro
capítulo do tratado. Na sua última reflexão sobre Paix et guerre78, Aron começa
com Rousseau:
«Considerando a posição do género humano, a primeira coisa que verifico é uma
contradição óbvia na sua constituição, o que a torna sempre vacilante. De homem
para homem, vivemos num estado civil e submetidos a leis; de povo para povo,
cada um goza da liberdade natural.»79
Rousseau tem ainda a vantagem de iluminar, por contraste, a diferença entre o
sistema homogéneo que existia antes da Revolução Francesa e o sistema
heterogéneo que dominou o século das guerras totais e das revoluções
totalitárias:
«O tipo ideal que o texto de Rousseau resume não reflete a realidade atual; bem
pelo contrário, a sua função consiste em realçar a imperfeição do sistema
interestatal devido à extrema heterogeneidade intrínseca a unidades que
pretendem ser soberanas e independentes das demais.»80
A terceira parte de Paix et guerretraduz a teoria numa análise da conjuntura
que se prolonga desde o impasse criado pela dupla vitória dos Estados Unidos e
da União Soviética na IIGuerra Mundial, que se institucionalizou com a
estabilização do equilíbrio bipolar e se consolidou com o estatuto nuclear das
duas «superpotências». Aron enunciou os dilemas da Guerra Fria81 com a sua
fórmula célebre ' «paix impossible, guerre improbable» ' que, de certa maneira,
definia os fundamentos teóricos da estratégia de containmentenunciada, paralela
e separadamente, por George Kennan. Em 1947, ambos partilhavam a tese de que a
guerra não era inevitável entre o império comunista e o império liberal, embora
a oposição radical dos regimes e das ideologias tornasse impossível fazer a paz
entre as duas superpotências internacionais. Em 1962, e ao contrário do
diplomata norte-americano, o filósofo francês não tinha mudado de ideias e a
crise dos mísseis de Cuba, que teve lugar em Outubro, imediatamente a seguir à
publicação de Paix et guerre, veio demonstrar, de forma dramática, que a
competição nuclear, no limite, tornava mais provável a solidariedade
estratégica dos Estados Unidos e da União Soviética, mesmo à custa dos seus
aliados, do que a «ascensão aos extremos» entre as duas potências nucleares. No
momento crítico, os «irmãos inimigos»82 de Aron escolheram a «paz do terror» ao
terror da guerra nuclear. De certo modo, entre os extremos da «paz pelo
direito» e da «paz pelo império», a «paz pelo medo» era uma hipótese optimista
na trégua armada, ou na «ausência de guerra» que prevalecia entre os dois pólos
do sistema heterogéneo83.
Nos últimos anos, o pessimismo de Aron aumentou cada vez mais, mas a Guerra
Fria acabou exactamente como devia84, confirmando tanto a previsão de que nem
os dirigentes norte-americanos, nem os dirigentes soviéticos preferiam a guerra
à paz, como a hipótese de que a liberdade era «o mais forte e constante desejo
de todos os homens»85. O fim do império comunista marcou o fim da instabilidade
bipolar e da dupla ameaça do terror nuclear e ideológico, a vitória dos Estados
Unidos e dos seus aliados tornou possível ultrapassar a extrema heterogeneidade
do sistema internacional.
Ateoria de Aron ainda é pertinente para analisar o sistema internacional do
pós-Guerra Fria? As mudanças dos últimos vinte anos foram profundas, mas as
linhas de continuidade não são menos importantes. Desde logo, a dualidade entre
a «homogeneidade jurídica» das Nações Unidas e a heterogeneidade histórica dos
estados continuou a definir a ordem da anarquia internacional86. A
heterogeneidade ideológica imposta pela oposição entre as democracias liberais
e os totalitarismos deixou de ser a clivagem central entre as principais
potências industriais, mas subsiste o perigo de um «choque das civilizações»
que passaram a viver no mesmo tempo histórico e num único sistema diplomático.
Os Estados Unidos, a China e a Índia partilham uma mesma concepção formal do
Estado moderno, no sentido em que reconhecem, pelo menos em palavras, o
princípio da legitimidade democrática, a neutralidade secular e a regra da
intermediação burocrática, mas pertencem a culturas históricas separadas.
A dinâmica de industrialização que, como Aron antecipou há mais de cinquenta
anos87, trouxe a Rússia e a China para a primeira linha na hierarquia das
potências, teve um efeito de convergência das economias e das sociedades, mas
não anulou a heterogeneidade política e cultural. A industrialização não
significa a «ocidentalização» dos velhos impérios, como a China ou a Índia, e a
sua ressurgência implica um retraimento do centro ocidental, especialmente no
caso europeu. Aron, que acreditava no progresso e na força da industrialização,
nunca ignorou que a Europa Ocidental estava condenada a ficar reduzida à escala
da sua geografia, do seu peso demográfico e do valor dos seus recursos88.
Por outro lado, a vitória dos Estados Unidos e da aliança ocidental não se
traduziu na criação de um império universal, ou sequer na integração dos
antigos adversários, como sucedeu no fim da II Guerra Mundial em cada um dos
dois blocos89. O fim da União Soviética não forçou o desarmamento da Rússia e,
aparentemente, a teoria dos grandes espaços é mais uma teoria da regionalização
internacional do que uma fórmula da unificação universal. No pós-Guerra Fria, o
«momento unipolar» coexistiu, desde o início, com a «estrutura o
ligopolística»90 típica do sistema internacional das grandes potências ' os
«estados-continentes» que Tocqueville anunciou há quase duzentos anos e que
Aron reconheceu como a nova medida, do estatuto de potência91. A preponderância
norte-americana ressuscitou as tendências imperiais referidas no estudo sobre a
política externa da «República imperial»92, quando a resposta aos atentados
terroristas do «11 de Setembro» revelou uma dupla vontade de demonstrar a força
do império e de impor o império pela força93. A «guerra global contra o
terrorismo», além de se cometer o erro crasso de confundir um inimigo com um
método94, prefigurou uma mudança de sistema, no face a face directo entre o
império e as redes terroristas pan-islâmicas para lá do sistema dos estados.
Mas a «paz imperial», mesmo dentro das fronteiras limitadas do «Grande Médio
Oriente», nunca chegou a existir, e a aventura serviu, sobretudo, para
ultrapassar as ilusões temporárias sobre a «hegemonia democrática».
Paralelamente, a Europa Ocidental continuou presa dos seus velhos dilemas:
«Oscilando entre nostalgia e grandeza, tentação de não envolvimento e vontade
de integração supra-nacional, os outrora Grandes da Europa carecem dos recursos
necessários às potências de primeira linha, não obstante conservam demasiados
recursos para encontrar a sua segurança pela renúncia.»95
A Alemanha unificada não deixou de ser nem europeia, nem democrática, nem tem o
poder, nem a autoridade indispensáveis para unir a Europa e ultrapassar as
resistências da França e do Reino Unido, reféns da grandeza do seu passado ou
das ilusões sobre o seu destino. Naturalmente, tanto os excessos da «paz pelo
império» norte-americana, como os limites da «paz pelo direito» europeia,
estimulam a ambição das potências emergentes e as estratégias revisionistas da
China ou da Rússia, animadas também pelas divisões entre as democracias
ocidentais. O próprio conceito de «potência revisionista», parte integrante da
teoria aroniana, eliminado pela regra estruturalista, fez o seu regresso aos
estudos de relações internacionais96 para interpretar as políticas de
restauração do estatuto de grande potência que a China iniciou sob o signo da
«ascensão pacífica» e a Rússia com a palavra de ordem da «união euro-asiática».
Porém, tal como no passado, as potências revisionistas podem exagerar a
vulnerabilidade das democracias ' as potências de status quo' e interpretar as
suas crises recorrentes como sinais de uma decadência irreversível. Aron, ele
próprio pessimista sobre o destino das democracias ocidentais, nunca se deixou
tentar pelas teses da decadência, mesmo depois do ciclo da descolonização: os
impérios europeus que fizeram a unificação do mundo ' portugueses e espanhóis,
franceses e ingleses ' eram, ao contrário dos impérios tradicionais, ou
continentais, «essencialmente transitórios»97, o que pode explicar a inesperada
renascença da Europa no pós-II Guerra mundial.
Por último, a guerra entre as grandes potências continuou a ser improvável,
enquanto a paz deixou de ser impossível num sistema internacional onde as
democracias pluralistas adquiriram uma supremacia impressionante98. A
preponderância singular dos Estados Unidos, a «paz separada» entre as
democracias europeias e ocidentais que formam a «comunidade de segurança
transatlântica» e a maioria democrática na «comunidade internacional» tornaram
improváveis não só uma guerra hegemónica, mas também as guerras entre as
potências. A dissuasão nuclear não perdeu a sua eficácia e os Estados Unidos e
a Rússia puderam conter os piores perigos da proliferação nuclear, não obstante
a excepção da Índia e do Paquistão. As potências revisionistas não podem querer
iniciar uma guerra se for uma terceira parte, como os Estados Unidos, a
escolher o vencedor e a decisão da vitória não depender das qualidades
estratégicas dos contendores. Durante a Guerra Fria, as convenções impediram os
Estados Unidos e a União Soviética de entrar directamente em conflito, mas as
forças armadas norte-americanas, com a bandeira das Nações Unidas, e chinesas,
com o uniforme dos voluntários internacionalistas, lutaram na Coreia, a China e
a Índia travaram uma guerra nas suas fronteiras e a União Soviética e a China
estiveram no limiar de uma escalada nuclear. Depois da Guerra Fria, mais uma
vez com excepção da Índia e do Paquistão na Guerra do Kargil, em 1999, não
houve nenhum conflito armado entre potências relevantes. Os Estados Unidos e os
seus aliados multiplicaram as intervenções na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo, em
Timor-Leste, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia ou no Índico, a Rússia
recuperou a sua capacidade de intervenção militar no «espaço pós-soviético» e a
China quer consolidar o exercício da sua soberania tanto nas periferias
terrestres como marítimas, mas não há notícia de incidentes que oponham, sem
intermediários, os exércitos de duas potências relevantes. Naturalmente, as
guerras locais e as guerras internas não diminuíram e a guerra regressou mesmo
às marcas europeias: as guerras internas na Bósnia-Herzegovina, as duas guerras
da Chechénia, as guerras civis na Somália, no Uganda ou no Sudão, as guerras do
Kosovo, do Afeganistão, da Líbia ou da Síria servem para confirmar, se tal
fosse necessário, a permanência da guerra no sistema internacional. Não
obstante, houve uma limitação significativa da violência interestatal nos
últimos vinte anos.
Mais importante, o fim da divisão entre os impérios universais que impos a
heterogeneidade extrema do sistema internacional durante a Guerra Fria, em
conjunto com a posição única dos Estados Unidos e dos seus aliados, abriu a
possibilidade de consolidar um «regime misto», em que a aliança entre as
democracias pode coexistir com a concertação entre todas as grandes
potências99, que garante às democracias e às não-democracias condições para
encontrar os compromissos necessários para garantir os seus interessses sem
recorrer às armas. Nesse quadro, a velha máxima de Montesquieu pode voltar a
fazer sentido:
«O direito de pessoas e nações assenta naturalmente neste princípio: na paz, as
diversas nações devem fazer o maior bem, e, na guerra, o menor mal possível,
sem prejudicar os seus interesses genuínos.»100
NOTAS
1
A pedido do autor este texto não adopta as normas do Novo Acordo Ortográfico.
2
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations. Paris: Calmann-Lévy, 1962.
3
Aron, Raymond ' La tragédie algérienne. Paris: Plon, 1957;
Aron, Raymond ' L'Algérie et la République. Paris: Plon, 1958.
4
Aron, Raymond ' Espoir et peur du siècle. Essais non partisans. Paris: Calmann-
Lévy, 1957.
5
Aron, Raymond ' War and Industrial Society. The Auguste Comte Memorial Trust
Lecture. London School of Economics, 24 de Outubro de 1957;
Aron, Raymond ' La société industrielle et la guerre. Paris: Plon, 1958.
6
Esses cursos estão na origem de uma trilogia célebre, publicada mais tarde:
Aron, Raymond ' Dix-huit leçons sur la sociéte industrielle.Paris: Gallimard,
1962; Aron, Raymond ' La lutte des classes. Paris: Gallimard,
1964; Aron, Raymond ' Démocratie et totalitarisme. Paris:
Gallimard, 1966.
7
Aron, Raymond ' Mémoires. Paris: Robert Laffont, 2003, p. 452.
8
Raymond Aron registou, entre outras, as cartas de Leo Strauss e Carl Schmitt,
bem como as recensões de Jean-Baptiste Duroselle, Henry Kissinger, Alfred
Grosser e Stanley Hoffmann. Aron, Raymond ' Mémoires, pp. 455-459.
9
Hoffmann, Stanley ' «An American social science: international relations». In
Daedalus. Vol. 106, N.º 3, 1977, pp. 41-60.
10
Colloquhon, Robert ' Raymond Aron. The Sociologist in Society (1955-1983).
Londres: Sage, 1986, pp. 191-197; Frost, Bryan-Paul '
«Raymond Aron's Peace and War. Thirty years later». In International Journal.
N.º 51, 1996, pp. 339-361.
11
O título norte-americano dispensa a referência às nações e acrescenta ao título
original que se trata bem de uma teoria das relações internacionais. A tradução
da primeira edição em inglês é assinada por Richard Howard e Annette Baker Fox,
esta última investigadora no Institute of War and Peace Studies da Universidade
de Columbia e mulher de William Fox. Aron, Raymond ' Peace and War. A Theory of
International Relations.Nova York: Doubleday, 1966.
12
Morgenthau, Hans ' «Review of Peace and War». In American Political Science
Review. N.º 61, 1967, p. 1111; Fox, W. T. R. ' «Book
Reviewed». In Journal of International Affairs. Vol. 21, N.º 2, 1967, pp. 303-
307; Wight, Martin ' «Tract for the nuclear age». In The
Observer, 23 de Abril de 1967; Kissinger, Henry ' «Fuller
explanation». In New York Times Book Review, 12 de Fevereiro de 1967; Hoffmann, Stanley ' «The international system». In The New Republic.
Vol. 156, N.º 9, 4 de Março de 1967; Bull, Hedley ' «Book
Reviews». In Survival. Vol. 9, N.º 11, 1967, pp. 371-383.
13
Aron, Raymond ' Mémoires, p. 455; Baverez, Nicolas ' Raymond
Aron. Un moraliste au temps des idéologies.Paris: Flammarion, 2005, p. 308.
14
Hassner, Pierre ' «La philosophie des relations internationales». In Audier,
Serge, Baruch, Marc Olivier, Simon-Naum, Perrine (dir.) ' Raymond Aron,
philosophe dans l'histoire. Paris: Editions de Fallois, 2008, pp. 63-70; Launay, Stephen ' «Raymond Aron: from the philosophy of
history to the theory of international relations». In Mahoney, Daniel, e Frost,
Bryan-Paul (coord.) ' Political Reason in the Age of Ideology. Essays in Honor
of Raymond Aron. New Brunswick: Transaction Publishers, 2007, pp. 147-174.
15
A tese principal de Aron enunciava a sua filosofia da história, enquanto a tese
secundária apresentava os seus estudos sobre os estudos de história na Alemanha
contemporânea. Ambas foram publicadas em 1938. A tese principal, bem como o
relato da defesa de tese, foram reeditados por Sylvie Mesure. Aron, Raymond '
Introduction à la philosophie de l'histoire. Essai sur les limites de
l'objectivité historique. Paris: Gallimard, 1986. A tese
secundária foi reeditada em 1970: Aron, Raymond ' La Philosophie critique de
l'histoire. Paris: Le Seuil, 1970.
16
Aron, Raymond ' Mémoires, p. 53.
17
Os textos publicados na France libre, entre 1940 e 1944, estão reunidos em
Aron, Raymond ' Chroniques de guerre. Paris: Gallimard, 1990.
18
Os artigos do Figaro, publicados entre 1947 e 1977, estão reunidos em três
volumes. Aron, Raymond ' La Guerre Froide (1947-1955). Paris: Editions de
Fallois, 1990; Aron, Raymond ' La co-existence (1955-1965).
Paris: Editions de Fallois, 1994; Aron, Raymond ' Crises
(1965-1977). Paris: Editions de Fallois, 1997. Os artigos de
L'Expressestão reunidos em Aron, Raymond ' De Giscard à Mitterrand (1977-1983).
Paris: Editions de Fallois, 2005.
19
Aron, Raymond ' Le grand schisme. Paris: Gallimard, 1948;
Aron, Raymond ' Les guerres en chaîne. Paris: Gallimard, 1951.
20
O título original do livro de Edward Hallett Carr era Utopia and Reality, uma
variante de Ideology and Utopia,de Karl Mannheim, mas o editor, Harold
MacMillan, preferiu um título mais prosaico. Carr, E. H. ' The Twenty Years
Crisis. An Introduction to the Study of International Relations. Londres:
Macmillan, 1939. Ver também Haslam, Jonathan ' The Vices of
Integrity. E. H. Carr (1892-1992).Londres: Verso, 1999; Cox,
Michael ' «Introduction». In Carr, E. H. ' The Twenty Years Crisis. Londres:
Palgrave, 2001.
21
Morgenthau, Hans ' Politics Among Nations. The Struggle for Power and Peace.
Nova York: Alfred Knopf, 1948.
22
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics. Nova York: McGraw Hill,
1979.
23
Frei, Christoph ' Hans J. Morgenthau. An Intelectual Biography. Baton Rouge:
Luisiana State University, 2001.
24
Na edição original, a primeira parte intitula-se «International politics: a
dual approach», enquanto a terceira edição abre com a «Theory and practice of
international politics», dividida por dois capítulos ' «A Realist theory of
international politics» e «The science of international politics». Morgenthau,
Hans ' Politics Among Nations. The Struggle for Power and Peace, pp. 3-12; Morgenthau, Hans ' Politics Among Nations. Nova York: Alfred
Knopf, 1961, pp. 3-26.
25
Smith, Michael Joseph ' Realist Thought from Weber to Kissinger. Baton Rouge:
Louisiana State University, 1986.
26
As edições originais dos livros de Morgenthau e de Aron têm, respectivamente,
489 e 794 páginas, enquanto o livro de Waltz, que assume a parcimónia como uma
virtude científica, se fica pelas 251 páginas. Nos estudos de política
internacional, só o velho tratado de Quincy Wright, com 1623 páginas, consegue
ser maior do que o livro de Aron. Wright, Quincy ' A Study of War. Chicago:
Chicago University Press, 1942 e 1965.
27
Sobre e evolução dos estudos de relações internacionais, cf. Schmidt, Brian '
The Political Discourse of Anarchy. Nova York: State University of New York
Press, 1998.
28
Aron raramente admite correcções aos seus textos, mas, neste caso, admite uma
imprecisão ' «je pensais aux Etats» ' e, nesse sentido, o título correcto do
tratado seria Paix et guerre entre les Etats. De certa maneira, é um problema
linguístico ' na tradição anglo-saxónica, «nação» pode ser usado como sinónimo
de «Estado», o que não é nada evidente na tradição continental. A escolha
original do título francês torna irresistível a comparação com o tratado de
Morgenthau e, não por acaso, não foi retomada pela edição norte-americana, que
escolheu como titulo Peace and War. A Theory of International Relations,
omitindo a referência anglo-saxónica às «nações». Aron, Raymond ' Paix et
guerre entre les nations, p. ii; Aron, Raymond ' Peace and War.A Theory of
International Relations.
29
O sentido crítico de Aron na Paix et guerreem relação a Morgenthau é não só
explícito em várias passagens do livro, em que, por exemplo, o filósofo francês
encontra afinidades paradoxais entre o idealismo romântico alemão de Von
Treitschke e o espírito de cruzada de Morgenthau e da escola realista norte-
americana, como foi sublinhado na altura, nomeadamente por Stanley Hoffmann.
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 567-596; Hoffmann, Stanley ' «Minerva and Janus». In Hoffmann, Stanley ' The
State of War. Nova York: Praeger, 1965, pp. 22-53.
30
Aron, Raymond ' «What is a theory of international relations?». In Journal of
International Affairs.Vol. 31, N.º 2, 1968; Farrell, John, e
Smith, Asa (coord.) ' Theory and Reality in International Relations. Nova York:
Columbia University Press, 1968, pp. 5-6. Este número
especial do Journal of International Affairsé o único caso em que foram
publicados juntos textos de Aron, Morgenthau e Waltz, por essa ordem. O texto
de Aron resume os pressupostos teóricos do seu tratado e foi, mais tarde,
publicado em francês. Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations
internationales?». In Revue Française de Science Politique, Vol. 17, N.º 5,
1967, pp. 837-861.
31
Morgenthau, Hans ' Politics Among Nations. The Struggle for Power and Peace,
pp. 13-15. As citações de Morgenthau referem-se sempre à
primeira edição de Politics Among Nations, não obstante terem sido entretanto
publicadas duas novas edições, com modificações significativas.
32
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 583.
33
Ibidem, p. 584; Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations
internationales?», pp. 842-843.
34
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations,pp. 58-61.
35
Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations internationales?», p.
843
36
Ibidem, p. 368.
37
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations,p. 101.
38
Ibidem, p. 101.
39
Ibidem, p. 586.
40
Ibidem, p. 573.
41
Ibidem, p. 57. A nota final do tratado retoma o tema: «Stratégie rationelle et
politique raisonable» (Ibidem, pp. 751-772).
42
Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations internationales?», p. 5.
No mesmo texto, Aron também aceita para si essa classificação, com um grão de
sal: «Que la définition théorique rejoigne d'elle-même l'expérience vécue, que
les hommes d'Etat, les juristes, les moralistes, les philosophes, les guerriers
aient, à travers les siècles, aperçu l'essence des relations internationales là
même où je vois le point de départ de la théorie, peut-être certains
modernistes m'en tiendront-ils rigueur. Sur ce point, je suis un
traditionaliste» (Ibidem, p. 850).
43
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, pp. 61-62.
44
Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics; Waltz, Kenneth ' «Realist
thought and Neo-Realist theory». In Waltz, Kenneth ' Realism and International
Politics. Londres: Routledge, 2008, cap. 5, pp. 67-82.
45
Wight, Martin ' «Tract for the nuclear age». In The Observer, 23 de Abril de
1967; Hall, Ian ' The International Thought of Martin
Wight.Londres: Palgrave, 2006.
46
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 33-57.
47
Ibidem, p. 103.
48
Aron, Raymond ' Leçons sur l'histoire.Paris: Editions de Fallois, 1989, pp.
337-341.
49
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 113. Aron, de resto,
duvida que se possa definir um conceito de «sociedade internacional», ou
«sociedade mundial», ou falar de um sistema internacional que inclua todas as
formas da vida internacional. Aron, Raymond ' Les dernières années du siècle.
Paris: Commentaire Julliard, 1984, pp. 25-26.
50
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 104.
51
Ibidem, pp. 320-324.
52
Ibidem, pp. 106-107.
53
Mas não é original: em nota de rodapé, Aron remete para a tese de Panoyis
Papaligouras (1941), que nunca foi publicada, a distinção entre sistemas
homogéneos e sistemas heterogéneos. Guglielmo Ferrero emprega o conceito de
homogeneidade no mesmo sentido no seu ensaio sobre a diplomacia de Talleyrand e
a invenção do princípio de legitimidade, sobre o qual Aron escreveu em Londres.
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 108; Ferrero, Guglielmo '
Réconstruction. Paris: Editions de Fallois, 1942; Aron,
Raymond ' «De la violence à la loi». In Aron, Raymond ' Chroniques de guerre,
p. 374.
54
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. 108-109.
55
Ibidem, p. 110.
56
Ibidem, p. 156.
57
Puchala, Donald ' Theory and History in International Relations.Nova York:
Routledge, 2003, p. 26
58
Como refere Waltz, os primeiros ensaios de análise sistémica das relações
internacionais de Morton Kaplan e Stanley Hoffmann têm uma posição semelhante
e, ao contrário da teoria fundadora do neo-realismo, não estabelecem o primado
do sistema (ou da estrutura) na determinação do comportamento dos estados.
Kaplan, Morton ' System and Process in International Politics. Nova York:
Wiley, 1957; Hoffmann, Stanley ' «International systems and
international law». In Hoffmann, Stanley ' «Minerva and Janus», pp. 88-122; Waltz, Kenneth ' Theory of International Politics, pp. 60-78.
59
Hedley Bull define a escola clássica como uma «teorização que decorre da
filosofia, da história e do direito e que se caracteriza, sobretudo, pela
dependência explícita no exercício do julgamento» e no reconhecimento de que a
imperfeição «das percepções e das intuições impede que as suas posições possam
ter mais do que um estatuto tentativo e inclusivo, dadas as suas origens
duvidosas». Hedley Bull inclui na sua lista tanto realistas, como liberais '
Alfred Zimmern, E. H. Carr, Georg Schwarzenberg,Raymond Aron e Martin Wight '
embora não seja claro que estes se possam todos reconhecer na sua descrição.
Bull, Hedley ' «International theory. The case for a classical approach». In
Knorr, Klaus, e Rosenau, James (coord.) ' Contending Approaches to
International Politics. Princeton: Princeton University Press, 1966, p. 20. Mais recentemente, com os estudos teóricos (e biográficos)
aprofundados sobre as origens do realismo, o realismo clássico adquiriu um novo
estatuto. Ver inter aliaCozette, Murielle ' «What lies ahead: classical realism
of the future of international relations». In International Studies Review. N.º
10, 2008, pp. 667-679.
60
Herz, John ' Political Realism and Political Idealism. Chicago: Chicago
University Press, 1951, pp. 129-153
61
Aron, Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations internationales?», p.
20.
62
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 586.
63
Hassner, Pierre ' «Too realistic to be a realist». In Constellations. Vol. 14,
N.º 4, 2007, pp. 498-505.
64
Aron diz que é por ser imperial que a II Guerra Mundial também é ideológica.
Aron, Raymond ' «Destin des nations». In Aron, Raymond ' Chroniques de guerre,
p. 320.
65
Launay, Stephen ' «Genèse et actualité de la théorie aronienne des régimes
politiques». In Audier, Serge, Baruch, Olivier, e Simon-Nahum, Perrine (dir.) '
Raymond Aron, philosophe dans l'histoire, pp. 113-123.
66
O capítulo x do tratado intitula-se «Nations et regimes». Aron, Raymond ' Paix
et guerre entre les nations, pp. 282-307.
67
Ibidem, pp. 93-94.
68
A última (quarta) parte do tratado tem três divisões que se intitulam «En quête
d'une morale», «En quête d'une stratégie» e «Au-delà de la politique de
puissance», por essa ordem. Cada uma das três divisões tem, por sua vez, dois
capítulos.
69
Rengger, Nicholas ' International Theory and the Problem of Order. Nova York:
Routledge, 2000, p. 110.
70
Nas Mémoires, Aron cita uma passagem da carta de Carl Schmitt sobre o tratado,
em que o jurista alemão refere o seguinte: «J'admire la dialectique supérieure
par laquelle vous faites paraître au jour le paradoxe insurmontable, le
paradoxe qui conduit les deux puissances mondiales ennemies a une solidarité à
l'égard de leurs propres alliés et je trouve que le déroulement de la crise de
Cuba confirme brillamment votre analyse.» Aron, Raymond ' Mémoires, p. 456.
71
Aron, Raymond ' «Stupide résignation». In Le Figaro, 21-22 de Setembro de 1947; Aron, Raymond ' Le grand schisme, pp. I, 13-31.
72
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 596.
73
Ibidem, p. 596.
74
Aron termina com essa fórmula a conferência de homenagem ao seu mestre, Léon
Brunschvicg, em Londres, no dia 12 de Março de 1944: «Nous tâcherons d'armer la
sagesse mais nous ne laisserons pas prescrire les valeurs humaines qu'ils nous
enseigna et dont il fut le vivant modèle.» Aron, Raymond ' «La philosophie de
Léon Brunschvicg». In Revue de Métaphysique e de Morale. Vol. 55, N.os 1-2,
1945, p. 140. Cf. Baruch, Marc Olivier ' «Armer la sagesse.
Les années 1940 de Raymond Aron». In Audier, Serge, Baruch, Olivier, e Simon-
Nahum, Perrine (dir.) ' Raymond Aron, philosophe dans l'histoire, pp. 47-48.
75
Hoffmann, Stanley ' The State of War, p. 22.
76
Aparentemente, essa ironia foi mal entendida por Henry Kissinger: «Henry
Kissinger a jugé paradoxal que je baptise histoire la partie de mon livre
consacrée à l'analyse du système planétaire à l'âge thermonucléaire.» Aron,
Raymond ' «Qu'est-ce qu'un théorie des relations internationales?», p. 852.
77
Ibidem, p. 846.
78
Aron, Raymond ' La société internationale. Esse texto póstumo foi publicado na
introdução à última edição de Paix et guerre entre les nationse como capítulo
inicial de Aron, Raymond ' Les dernières années du siècle. Paris: Julliard,
1984, pp. 17-32; Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les
nations, pp. i-xiii.
79
Rousseau, Jean-Jacques ' «Ecrits sur l'Abbé de Saint-Pierre». In Rousseau,
Jean-Jacques ' Oeuvres complètes III. Paris: Gallimard, 1970, p. 610 apudAron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. i.
80
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, pp. vi e 23.
81
Gaspar, Carlos ' «Raymond Aron and the origins of the Cold War». In Mahoney,
Daniel, e Frost, Bryan-Paul (coord.) ' Political Reason in the Age of Ideology.
Essays in Honor of Raymond Aron, pp. 175-194.
82
É o título do capítulo xxviii. Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les
nations, pp. 527-559.
83
A «paz pelo medo», parceira da dissuasão nuclear, é outra fórmula que evoca
Guglielmo Ferrero e as suas «grandes peurs» que marcam os momentos críticos na
história ocidental ' o fim do império romano, a revolução francesa, as guerras
do século xx ' sobre as quais Aron escreveu em Londres: para pôr fim ao ciclo
vicioso do medo ' «La peur suscite la violence, la violence exaspère la peur» '
era preciso restaurar o princípio da legitimidade, pelo que a restauração da
liberdade democrática seria a etapa decisiva da reconstrução europeia no fim da
II Grande Guerra. Aron, Raymond ' Op. Cit., 1943, pp. 373, 383 ; Aron, Raymond
' Paix et guerre entre les nations, pp. 403 e 425.
84
Hassner, Pierre ' Raymond Aron Lecture. Transcript, Brookings Institution, 22
de Novembro de 2004.
85
Aron, Raymond 'Démocratie et totalitarisme, p. 229.
86
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 369.
87
Aron, Raymond ' «La décadence». In Espoir et peur du siècle. Essais non
partisans, p. 221.
88
Aron, Raymond ' Espoir et peur du siècle. Essais non partisans, pp. 227-231.
89
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 721.
90
Ibidem, pp. 103-104.
91
Ibidem, pp. 527-528.
92
Aron, Raymond ' République impériale. Les Etats-Unis dans le monde (1945-
1972).Paris: Calmann-Lévy, 1973.
93
Hassner, Pierre ' «L'empire de la force ou la force de l'empire?», In Cahiers
de Chaillot. N.º 52, Paris: EUISS, 2002.
94
É essa a critica que Aron faz a Carl Schmitt. Aron, Raymond ' Penser la guerre.
Clausewitz. L'Age planétaire II. Paris: Gallimard, 1976;
Hassner, Pierre ' Raymond Aron on the Use of Force and Legitimacy. U.S.-Europe
Analysis Series. Washington: Brookings Institution, 2005, p. 5.
95
Aron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 398.
96
Ver interaliaSchweller, Randall ' «Bandwagoning for profit. Bringing the
Revisionist State Back In». International Security. Vol. 19, N.º 1, 1994, pp.
72-107.
97
Aron, Raymond ' Espoir et peur du siècle. Essais non partisans, p. 211.
98
Hassner, Pierre ' «La philosophie des relations internationales», pp. 68-69.
99
Hassner, Pierre ' Raymond Aron on the Use of Force and Legitimacy, 2005, p. 4.
100
Essa citação de Motesquieu abre o tratado de Aron. Montesquieu ' L'Esprit des
loisI, p. 3 apudAron, Raymond ' Paix et guerre entre les nations, p. 13.
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