História dos Estados Unidos
História dos Estados Unidos
Daniel Marcos
Investigador de pós-doutoramento do ipri ' unl. É doutor em História Moderna e
Contemporânea, especialidade em História das Relações Internacionais no Período
Contemporâneo pelo Instituto Universitário de Lisboa (iscte ' iul), onde
desenvolveu uma tese sobre as relações luso-americanas no princípio da Guerra
Fria. É assistente convidado no Departamento de Estudos Políticos da fcsh '
unl.
Jean Edward Smith
Eisenhower in war and Peace
Nova York, Random House Publishers, 2012, 950 pp.
Um «militar estadista», foi assim que o marechal Montgomery qualificou o
comandante supremo das Forças Aliadas na Europa durante a II Guerra Mundial. Na
mais recente biografia do general Dwight David Eisenhower, que mais tarde se
tornou o 34.º Presidente dos Estados Unidos, esta é, talvez, a caracterização
que mais justiça lhe faz.
O historiador Jean Edward Smith, que anteriormente havia escrito as biografias
dos generais Ulysses Grant e Lucius Clay, bem como do Presidente Franklin D.
Roosevelt, procura, nesta nova obra, desafiar definitivamente a ideia de que
Eisenhower foi um líder militar bem-sucedido, mas antes um político medíocre.
Para Smith, tal não foi assim e Ike é colocado, a par de Roosevelt, como um
presidente bem-sucedido, capaz de comandar os destinos do seu país ao longo dos
oito anos em que os Estados Unidos não se viram envolvidos em conflitos
militares. Quer ao nível doméstico como em termos externos, Eisenhower reforçou
o papel internacional dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. Fazendo
uso dos seus atributos como comandante militar, capaz de delegar ao mesmo tempo
que assumia totalmente a responsabilidade pelas decisões mais difíceis, foi
durante a sua presidência que a Guerra da Coreia chegou ao fim em 1953 após um
arrastado conflito que se mantinha desde o início da década. No tocante às
relações com a União Soviética, Eisenhower contribuiu para não agravar o
conflito sem, contudo, ser capaz de evitar a corrida aos armamentos de ambas as
potências. Adicionalmente, Eisenhower foi capaz de reforçar a aliança
transatlântica ao mesmo tempo que tomou uma posição de força contra os seus
aliados durante a crise do Suez, em 1957. De forma menos bem-sucedida, Smith dá
crédito a Eisenhower por ter sido capaz de retirar progressivamente o apoio das
potências ocidentais em relação à questão colonial. Já no plano interno, Ike
fica com os louros de ter evitado que o Partido Republicano retornasse à defesa
do isolacionismo, ao mesmo tempo que equilibrou o défice norte-americano e
apostou no desenvolvimento tecnológico do país. Finalmente, a sua presidência
facilitou a aplicação das políticas de dessegregação.
Mas o que ressalta desta biografia é a ligação que Smith faz entre a vida
profissional de Eisenhower e a sua ascensão ao mais alto cargo político norte-
americano. Para este biógrafo, o percurso militar de Eisenhower é fundamental
para compreender a sua presidência. Ao longo de quarenta anos, o jovem do
interior do estado do Kansas tornou-se um hábil oficial de Estado-Maior, que
serviu com os mais nomeados generais norte-americanos, desde o herói da I
Guerra John Pershing até Douglas MacArthur, passando por George Marshall. O
serviço no staff destes generais ensinou a Eisenhower a arte da liderança e
diplomacia que muito contribuiu para o seu sucesso como comandante supremo
aliado. Mais do que um comandante de exércitos no terreno, Eisenhower era um
conciliador que constantemente buscava o equilíbrio e o compromisso, fazendo o
difícil parecer fácil.
Steven Brady
Eisenhower and Adenauer: Alliance Maintenance under Pressure, 1953-1960
Lanham, MA, Lexington Books, 2010, 277 pp.
Até 1945, nenhuma razão histórica apontava para a necessidade ou vantagem de um
aprofundamento da relação entre os Estados Unidos e a Alemanha. Para além de
uma relação comercial sólida e um tradicional movimento migratório da Alemanha
para o Novo Mundo poucos poderiam antever que, após o final da II Guerra
Mundial, as relações entre os Estados Unidos e a República Federal da Alemanha
iam caminhar para o estabelecimento de uma aliança. O mais recente livro de
Steven Brady propõe-se analisar os desafios, dificuldades e crises que a
aliança germano-americana teve no seu período de consolidação, após o
estabelecimento da República Federal da Alemanha em 1949. Por outras palavras,
Brady pretende preencher o vazio na historiografia norte-americana e germânica
no tocante aos anos em que Dwight Eisenhower e Konrad Adenauer lideravam os
destinos dos seus países, entre 1953 e 1961.
Partindo de uma análise focada na forma como as pressões internacionais no
princípio da Guerra Fria moldaram a evolução da questão alemã e o
estabelecimento de uma arquitetura de segurança no Ocidente cuja base foi a
nato, o livro realça as grandes tensões existentes entre os principais aliados.
Assim, ficamos a perceber a importância que a Administração Eisenhower sempre
deu à necessidade de conciliar o reforço da ligação com a Alemanha sem pôr em
causa os interesses e os receios franco-britânicos. Fazendo uso de uma pesquisa
multiarquivística, com a utilização de fontes norte-americanas, alemãs e
russas, podemos dizer que um dos principais pontos fortes deste livro assenta
na ligação que o autor fez entre a importância dos fatores internos para a
formulação da política externa alemã e norte-americana. Tal é exemplificado
pelo apoio que a Administração Eisenhower deu à defesa de Adenauer em relação à
reunificação da Alemanha. A defesa desta ideia foi fundamental para a eleição
do chanceler ao longo dos anos 1950.
O trabalho desenvolvido por Steven Brady acaba por demonstrar que, apesar da
liderança norte-americana no Ocidente durante a Guerra Fria, tal não implicava
que Washington ditasse aos seus aliados as políticas a seguir. Se durante o
período da détente esta perceção era clara, com este livro ficamos a perceber
que mesmo durante os anos áureos das relações transatlânticas, isto é, os anos
1950, tal já era assim. Ainda que a rfa estivesse, de certa forma, refém das
potências ocupantes, Brady demonstra de que forma Konrad Adenauer procurou
esquivar-se de uma relação de tutelagem em relação aos Estados Unidos,
procurando influenciar a política norte-americana nas cimeiras entre as quatro
potências ocupantes e onde se debateu a possibilidade da reunificação alemã. O
mesmo sucedeu em 1955, com o chanceler alemão a envidar esforços no sentido de
garantir a inclusão da rfa na nato, numa ação que claramente reposicionou a
jovem república alemã no sistema de arquitetura europeu da Guerra Fria.
John Lewis Gaddis
George F. Kennan. An American Life
Nova York, The Penguin Press, 2011, 784 pp.
Desde 1981, o historiador John Lewis Gaddis preparou cuidadosamente a biografia
do diplomata e historiador George Frost Kennan. Trinta e um anos depois, o
resultado foi a publicação de uma monumental monografia, onde estão retratados
os mais importantes momentos da vida de Kennan. Para tal, Gaddis teve acesso
privilegiado quer com o próprio biografado, quer com os seus papéis pessoais
pessoais, dos quais se destacam os seus diários e cerca de trezentas e trinta
caixas de materiais agora disponibilizados na biblioteca da Universidade de
Princeton.
Esta obra teve, no seu início, um objetivo claro de retratar o percurso
político e académico de Kennan, mas, à medida que o tempo foi passando,
rapidamente se tornou um trabalho com um forte enfoque pessoal. Acompanhando a
cronologia da vida do biografado, Gaddis concentra-se naturalmente no período a
partir dos anos 1930, quando Kennan é nomeado para estabelecer a nova Embaixada
dos Estados Unidos na União Soviética, em 1933. A partir deste momento, o jovem
Kennan aprofundou as suas capacidades diplomáticas, ao mesmo tempo que adquiriu
uma importante capacidade de análise dos assuntos soviéticos, tornando-se um
verdadeiro especialista nas questões relacionadas com Moscovo. Ao longo da II
Guerra Mundial, Kennan percorreu várias chancelarias europeias, acompanhando a
evolução e internacionalização da posição norte-americana no mundo, em
particular na Europa. Desta experiência destacamos a passagem pela legação
norte-americana em Lisboa onde, por dois anos, Kennan muito contribuiu para o
estabelecimento de uma base norte-americana nos Açores. Ainda que de forma nem
sempre ortodoxa (Kennan, em dado momento, recusou seguir uma diretiva
presidencial para abordar diretamente o Governo português sobre as necessidades
norte-americanas nos Açores, em detrimento de uma aproximação mais cautelosa
onde os britânicos desempenhariam um papel de intermediários dos interesses de
Washington), foi em Lisboa que os dotes de grande estratega despontaram em
Kennan, salienta Gaddis.
De volta à União Soviética em 1944, Kennan acompanhou o final da guerra e o
princípio da Guerra Fria em Moscovo, consolidando a sua posição enquanto
especialista em questões soviéticas. Daí a importância que o famoso Longo
Telegrama que Kennan escreveu em fevereiro de 1946 teve para a política externa
norte-americana até à queda do Muro de Berlim. Para Gaddis, o alerta de Kennan
sobre a necessidade de os Estados Unidos reformularem a sua política em relação
à União Soviética no pós-guerra, procurando um meio caminho entre uma proposta
de appeasement e a confrontação aberta, muito contribuiu para que em Washington
a doutrina da contenção soviética acabasse por vigorar. Para o biógrafo, o
papel desempenhado por Kennan no princípio da Guerra Fria deu-lhe totalmente o
crédito como um dos maiores estrategas da política externa norte-americana.
Neste sentido, Gaddis acabou por desvalorizar que entre 1960 e 1980 Kennan se
tenha tornado um dos principais críticos da posição internacional dos Estados
Unidos, em particular do envolvimento no Vietname e na corrida aos armamentos
nucleares.
Nicholas Thompson
The Hawk and the Dove. Paul Nitze, George Kennan, and the History of the Cold
War
Nova York, Picador, 2010, 403 pp.
Tal como George F. Kennan, Paul Nitze esteve profundamente envolvido desde o
princípio ao fim da Guerra Fria na formulação da política externa norte-
americana. Ambos emergiram para uma posição de proeminência política nos
agitados dias em que a Cortina de Ferro caiu sobre a Europa, assistindo à
divisão da Alemanha em duas e à passagem da União Soviética de aliada a inimiga
dos Estados Unidos. Nas décadas seguintes, os dois estiveram envolvidos, direta
ou indiretamente, nos grandes marcos do conflito bipolar, dos quais se destacam
o Plano Marshall, a Guerra da Coreia, a corrida aos armamentos nucleares, o
Vietname, a détente, os acordos salt e, por fim, a glastnot e a dissolução da
urss. O grande objetivo deste livro é explicar, de forma comparativa, as
carreiras públicas destas duas figuras que, apesar de terem opiniões bastante
divergentes, tinham a uni-los a amizade e o respeito mútuo. Para o autor,
Nicholas Thompson, neto de Paul Nitze, as duas personalidades eram
diametralmente opostas. Enquanto Nitze era um insider diligente, que
considerava ser fundamental trabalhar com as burocracias para as poder
transformar, Kennan era um pensador, que baseava as suas ideias na história. As
diferenças entre os dois são salientadas no título da obra. Paul Nitze é
descrito como um falcão que acreditava que a melhor forma de os Estados Unidos
evitarem o holocausto nuclear era superiorizarem-se, pela quantidade e
desenvolvimento tecnológico, em relação à União Soviética. Com uma invejável
capacidade de organização, Nitze trabalhou ou foi consultor de todos os
presidentes norte-americanos desde Franklin Roosevelt até George H. W. Bush.
Contudo, devido a características pessoais truculentas,nunca chegou a alcançar
postos ministeriais, apesar das suas qualidades. Não raras vezes acabou
despedido, despromovido ou forçado a demitir-se ao longo da sua preenchida
carreira.
Já Kennan é aqui descrito como uma pomba, que ao longo de quarenta anos
defendeu que os Estados Unidos deviam pôr fim à dependência da sua segurança
nacional no armamento nuclear e contra o envolvimento norte-americano em
guerras de baixa intensidade, como o Vietname. Colocou-se, assim, como um dos
principais críticos da política externa norte-americana durante a Guerra Fria
ainda que tenha sido, indiscutivelmente, um dos seus principais ideólogos. Se
Kennan via o containment como uma estratégia política que tinha como objetivo
combater uma ameaça política, Nitze transformou-a numa estratégia militar cujo
fim último era pôr cobro a uma ameaça de cariz militar.
Apesar disto, as suas divergências quanto à estratégia dos Estados Unidos
acabaram por diminuir com o passar dos anos. Como Thompson salienta, o final da
Guerra Fria libertou a veia mais liberal de Nitze, levando-o a condenar o
envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Golfo em 1991 (considerava que o
regime iraquiano poderia ser contido através de sanções e de um bloqueio
económico). Mas foi o apelo público para a diminuição do arsenal nuclear dos
Estados Unidos em 1999, que Nitze ajudara a construir, que juntou
definitivamente os dois homens no mesmo lado da barricada, ainda que no final
das suas vidas (Nitze e Kennan morreram com apenas seis meses de diferença).
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