Obama e o Iraque de guerra maldita a aliado perdido?
Poucas intervenções militares terão suscitado tanta crispação e divisão entre
aliados como a do Iraque em 2003. Foi um processo de decisão com argumentações
ideológicas, polémicas, discutíveis, fruto de convicções sobre o futuro xadrez
do Médio oriente, algumas em consequência da ferida aberta pelos ataques de 11
de setembro de 2001, outras ainda aproveitando a transição nos equilíbrios do
sistema internacional para marcar uma agenda própria.
Nos quatro anos seguintes à intervenção, o Iraque viveu entre o caos e a
instabilidade, entre a ingerência externa e a fratura étnica interna, entre o
derrube de uma ditadura e uma transição para uma democracia em cima de estacas.
Todo o quadro do pós-guerra só teria uma inversão quando a estratégia
norte-americana foi redefinida e a surgefoi posta em marcha em 2007. Desde
então, o quadro interno melhorou significativamente, a estabilidade foi
progressivamente alcançada em muitas regiões e Washington acabaria por
traçar um calendário de retirada, acordado com o Governo iraquiano, em Novembro
de 2008: até 31 de Dezembro de 2011, todas as tropas estrangeiras teriam de
sair do Iraque, a quem seria restituída a soberania total sobre as diversas
dimensões do poder. Perceber a visão da administração Obama sobre o Iraque e o
Médio Oriente, avaliar as consequências da retirada norte-americana, os efeitos
nos equilíbrios de poder regionais e suscitar alguns cenários é o que se propõe
neste artigo.
ENTRE O CAOS E A SURGE
Outubro de 2006 foi o mês mais mortífero para as tropas americanas desde
Janeiro de 2005. Uma média de 180 ataques por dia nesse trágico mês resultaram
em cento e dois militares americanos mortos. Em comparação com Janeiro do mesmo
ano, a atividade insurgente no Iraque operava mais de setenta ataques diários,
enquanto as forças de segurança iraquianas viram duplicar os ataques contra si
próprias em apenas dez meses. Morriam no ano de 2006 perto de três mil civis
iraquianos por mês. A estratégia americana não estava a resultar e o Iraque
estava à beira de uma guerra civil incontrolável1.
Diversos fatores contribuíram para este quadro. Destaquemos os três mais
relevantes. Primeiro, face à predominância da linha protagonizada por Donald
rumsfeld e pelo Vice-Presidente Dick Cheney, defendeu-se a desbaathizaçãodo
Iraque. Seguindo o modelo de desnazificaçãona alemanha do pós-Guerra, o recém-
nomeado diretor para a reconstrução do Iraque, Paul Bremer, procedeu a uma
perseguição a todo e qualquer indivíduo que, forçado ou voluntariamente, tenha
servido o regime de Saddam Hussein. Influenciado pelas ideias de Ahmed Chalabi
' o líder da resistência iraquiana no exílio e pré-ponderante nas decisões do
Pentágono ', este processo pôs em causa a relação de confiança desejável entre
quem tenta libertar e quem se vê perseguido.
Segundo, mas na mesma linha, o desmembramento das forças de segurança revelouse
catastrófico. Culpados por servirem Saddam ' mesmo que não lhes restasse outra
hipótese ', aqueles que garantiam a ordem pública passaram a estar no
desemprego de um momento para o outro. Com um crescente grau de insubordinação,
tornou-se praticamente galopante o descontrolo da situação em Bagdade, sob
domínio norte-americano, ao contrário, por exemplo, de Bassorá, onde os
britânicos iam garantindo uma situação bem mais estável. Terceiro, a descoberta
do escândalo de Abu Ghraib. Se a confiança iraquiana e internacional na
estratégia americana do pósguerra já não era grande, pior ficou quando foram
publicadas imagens na imprensa sobre abusos e maus tratos a prisioneiros
iraquianos na prisão de Abu Ghraib, às mãos de tropas norte-americanas2.
Para inverter este cenário de caos, foi criado a 15 de março de 2006, pelo
Congresso norte-americano, um grupo de trabalho focado na avaliação da situação
do Iraque com a tarefa de estudar soluções viáveis para serem operacionalizadas
pela administração Bush. Originalmente proposto pelo congressista republicano
do estado da Virgínia, Frank Wolf, este painel era composto por dez
personalidades de reconhecidos méritos profissionais, indicados pelos dois
grandes partidos. entre eles estavam Robert Gates (que abandonou o grupo de
trabalho ao ser nomeado secretário da Defesa em dezembro de 2006), James Baker
(antigo secretário de estado de George Bush), William Perry (antigo secretário
da Defesa de Bill Clinton), leon Panetta (antigo chefe de gabinete de Bill
Clinton, exdiretor da cia e atual secretário da Defesa) e Lawrence eagleburger
(ex-secretário de estado de George Bush). A 6 de dezembro de 2006, o Iraq Study
Group Reporttornava públicas as suas setenta e nove recomendações com vista a
preencher quatro grandes desafios para o Iraque: melhorar a segurança interna,
reforçar o governo eleito, reconstruir a economia e as infraestruturas e manter
a estabilidade regional. Entre estas recomendações, destacamos as seguintes: a
criação de uma nova ofensiva diplomática que permita regionalizar a solução
(dialogando com o irão e a Síria); não existindo uma solução exclusivamente
militar para o terreno, Washington deve prestar todo o auxílio ao Governo
iraquiano com vista a uma reconciliação nacional; apostar no treino e formação
das forças de segurança iraquianas de forma a aumentar a soberania nacional e a
reduzir a presença americana; aumentar a assistência económica americana até
cinco mil milhões de dólares por ano, com vista à criação de emprego, captação
de investimento estrangeiro e envolvimento de organismos como o Banco Mundial,
as Nações unidas e a União Europeia; um aumento na ordem dos dez a 20 mil
tropas americanas para treino e formação às forças de segurança iraquianas quer
na manutenção da segurança quotidiana, quer em operações de contra-terrorismo
contra a Al-Qaida. Vale a pena aprofundar este ponto.
O grupo de trabalho rejeitava a retirada das tropas americanas pura e simples,
pois isso só prejudicaria as debilidades funcionais das autoridades iraquianas
e poria em risco os esforços levados a cabo anteriormente. Mas opunha-se
liminarmente ao aumento de tropas na ordem dos 100 mil a 200 mil homens, como
muitos propunham, por isso ser encarado como reforço da ocupação do Iraque e
não como uma melhoria da soberania iraquiana3. Além disso, o Iraque não esgota
as preocupações de segurança dos Estados Unidos e a frente afegã arriscar-se-ia
a ficar prejudicada por escassez de recursos militares, humanos e financeiros.
Reforço cirúrgico de tropas para efeitos de treino e formação, sim; reforço
militar maciço, não. Mais: todas as tropas que não se destinem a treino e
melhoria das forças de segurança iraquianas devem estar fora do Iraque até ao
final do primeiro quartel de 2008.
No final de 2006, o Iraque estava à beira da guerra civil. Dezenas de milhares
de iraquianos tinham abandonado as suas casas e Bagdade era palco de uma luta
entre enclaves que se digladiavam. insurgentes, criminalidade organizada e
milícias ligadas a fações político-religiosas usavam a violência entre si e
contra as forças da coligação. Com apoios do exterior, fomentava-se assim o
terreno propício para acelerar a retirada americana com vista à reocupação
desse eventual vazio. A questão estava, nesta altura, num ponto decisivo: devem
os Estados Unidos sair do turbilhão iraquiano o mais depressa possível ou
implementar uma nova estratégia que reduzisse a violência sectária e desse
condições ao poder político iraquiano para fazer o seu trabalho? E mesmo na
ressaca da derrota eleitoral nas midtermsde novembro de 2006, onde os
republicanos perderiam as maiorias no Senado e na Câmara dos representantes '
um dos tópicos da agenda democrata era a redução de tropas no Iraque ', George
W. Bush daria uma resposta a 10 de janeiro de 2007, depois de maturar o plano
em reuniões com os mais importantes conselheiros do Departamento de estado, com
um conjunto de expertsdo mundo académico e militar (11 de dezembro de 2006),
com o Vice-Presidente Dick Cheney e o Joint Chiefs of Staff (13 de dezembro).
Num discurso à nação, o Presidente americano traçaria a nova estratégia para o
Iraque nos seguintes moldes4. Como introdução, colocou o falhanço do Iraque
como desastroso para os Estados Unidos. Porquê? Primeiro, porque o radicalismo
islâmico ganharia espaço de manobra e novos recrutamentos. Segundo, o irão ver-
se-ia mais livre para levar avante o seu programa nuclear, com os riscos que
tal acarreta para a região e para a segurança americana. Terceiro, o Iraque
seria um santuário para todos aqueles que se dedicam a criar o pânico aos
Estados Unidos, quer no Médio oriente, quer em território americano.
E para não correr nenhum destes riscos, Bush deu conta da sua estratégia. O
foco seria o arco territorial em redor de Bagdade, palco de 80 por cento de
toda a violência. Como para a administração a causa desta insurgência resultava
do número reduzido de tropas e forças de segurança iraquianas e americanas no
terreno, Washington comprometeu-se a enviar mais 20 mil tropas, a grande
maioria destinada precisamente a Bagdade e com uma missão muito clara: ajudar
os iraquianos a reforçar a segurança, a proteger as suas populações e a
garantir que as forças de segurança locais fossem capazes de progressivamente
providenciar as condições de estabilidade e segurança que sobretudo Bagdade
precisava.
Uma outra diretriz dizia respeito à neutralização e eliminação das ações da Al-
Qaida, sobretudo a partir da província de Anbar. Para tal, os Estados Unidos
comprometiam mais quatro mil homens para trabalhar em conjunto com as forças
de segurança iraquianas e líderes locais para que a ação terrorista não se
alastrasse a outras províncias, nem comprometesse o processo de transição
político e de segurança em marcha. E, ao contrário das recomendações do iraqi
Study Group, Bush não via vantagens no diálogo com teerão e Damasco, antes
preferia endurecer a abordagem através de uma maior atenção às fronteiras com o
Iraque de maneira a prevenir apoios aos grupos insurgentes. Aliás,
nesta declaração ao país, os aliados regionais estavam bem identificados:
turquia, arábia Saudita, egito, Jordânia e estados do Golfo. A estratégia era
de isolamento da Síria e do irão, não de aproximação diplomática. Em paralelo
com esta abordagem de segurança, Washington pretendia desenvolver uma de
caráter económico, impulsionando os esforços iraquianos sobretudo
na criação de emprego, dando ênfase a uma estratégia integrada para o curto e
médio prazo no Iraque.
Mas não foi só no plano das ideias que a inversão do caos no Iraque se deveria
dar. Era também preciso mudar as caras desta nova orientação. Assim, nesse
mesmo mês de janeiro, o Presidente Bush faria alterações profundas na estrutura
de comando responsável pelo Iraque. O diretor da agência nacional de
informações, John Negroponte, era substituído pelo almirante na reforma John
McConnel. Ryan Croker era nomeado embaixador no Iraque e o seu antecessor no
posto, Zalmay Khalizad, iria para embaixador nas Nações unidas. Seria o
muçulmano de nacionalidade americana a ascender ao cargo mais elevado na
hierarquia do estado na história dos Estados Unidos. Mas a mais importante
alteração deu-se na liderança da coligação militar no Iraque, com o general
George Casey a ser substituído pelo general David Petraeus, tendo como número
dois o general raymond odierno. Os dois seriam cruciais no desenho de toda a
estratégia militar a partir de 2007 e no sucesso da surge.
E é a partir destas alterações metodológicas, estratégicas e de liderança que a
situação interna no Iraque se inverte. A iminência da guerra civil e a
incapacidade americana no terreno foram dando lugar à melhoria da segurança e
da economia nos anos 2007 e 2008. Importa perceber como.
DA SURGEÀ RETIRADA
Já com robert Gates na chefia do Pentágono e com o general Petraeus no comando
operacional da situação, a Guerra do Iraque durava já há mais tempo para os
Estados Unidos do que tinha durado a sua participação na II Guerra Mundial.
Começava a ficar mais ou menos evidente que a intervenção não tinha surtido os
efeitos pretendidos e que tinha desviado esforços e recursos da frente afegã. A
estratégia alargada do Presidente Bush ' mudança de regime, democratização,
alteração do quadro regional ' daria agora lugar a uma política de pequenos
passos para se inverter a sensação de derrotismo. Petraeus queria mais respeito
pelas populações iraquianas, menos agressividade nas patrulhas feitas por
militares americanos, mais operações conjuntas com as forças de segurança
locais. À chegada das primeiras brigadas americanas, em fevereiro, responderam
os insurgentes com uma média de um carro armadilhado por dia em Bagdade5. De
acordo com a análise feita no terreno, concluiu-se que o modus operandida Al-
Qaida atacava sobretudo de dia, usando carros-bomba em zonas xiitas perto de
mercados, enquanto que as milícias xiitas retaliavam à noite quando as
populações sunitas dormiam. Esta guerra civil paralela aos ataques a alvos
americanos implicava uma abordagem específica para cada situação. Foram
erguidas mais barreiras e checkpointspara evitar que os terroristas chegassem
perto de zonas civis populosas e em hora de grande movimento e, à medida que os
alvos foram passando para fora das comunidades civis, a confiança nas tropas
americanas aumentava.
Além destas melhorias diárias, Moqtada AlSadr, o líder das milícias xiitas
antiamericanas, declarou um cessar-fogo e pôsse em marcha um conjunto de
pagamentos regulares aos líderes tribais das principais comunidades para que
largassem a luta armada e partilhassem os destinos políticos do país. Por fim,
dava-se ainda importância ao fator externo, ou seja, para Petraeus e a sua
equipa era evidente que o Irão, a Síria e a Turquia eram playerscom influência
nas comunidades iraquianas e que uma frente diplomática forte teria que estar
na agenda de Washington. Todas estas dimensões do teatro iraquiano centravam o
objetivo da administração Bush na inversão do caos, na neutralização da Al-
Qaida local, na diminuição da influência iraniana na política do Iraque e da
região e, por fim, tendo esta estratégia grande protagonismo no State of the
Union Addressde 2007 (o primeiro depois da derrota republicana nas midtermsde
novembro de 2006), colocá-la-ia no topo da agenda externa de Washington para os
tempos mais próximos.
De acordo com dados da Brookings institution, comparando números entre
novembro de 2006 e novembro de 2008, verificamos que as mortes civis iraquianas
passaram de 3450 para 500, o número de forças de segurança iraquianas passou de
323 mil homens para 558 mil, e o número de tropas americanas mortas diminuiu de
69 para 126. A surgetinha invertido a situação, não deixando esta de ser, já
com Barack Obama na presidência, ainda de alguma fragilidade. O final de 2008
foi também marcado por dois factos de enorme relevância para o Iraque. Por um
lado, terminara o prazo para a presença militar externa, ao abrigo da resolução
1790 do Conselho de Segurança7. Por outro, foram assinados os dois acordos-
quadro bilaterais entre o Iraque e os Estados Unidos que traçariam o calendário
final para a presença americana no território até 31 de dezembro de 2011.
George W. Bush abordaria precisamente este quadro em julho de 20088. O
Presidente deu conta aos americanos do sucesso da surgena pacificação interna
iraquiana e na segurança das tropas americanas, ao mesmo tempo que transmitiu a
vontade da administração em estabelecer um compromisso estratégico com o
Governo iraquiano liderado por Nuri alMaliki no sentido de se precaverem de um
cenário de ilegalidade na presença militar estrangeira cujo prazo terminava no
final do ano. Além disso, era a forma de Washington enviar um sinal de início
do fim de um processo duríssimo que desencadeara em 2002-2003 e que tantos
custos financeiros, políticos e militares comportara.
OBAMA E O IRAQUE
Era ainda Barack Obama senador pelo illinois, e num célebre discurso em Chicago
colocara a sua posição num plano de singularidade dentro do Partido Democrata.
Estávamos em outubro de 2002, num momento em que o uso da força estava cada vez
mais presente no debate político como solução para derrubar o regime de Saddam
hussein. Obama foi dos primeiros responsáveis políticos a insurgirse contra a
intervenção, por esta levar «a uma ocupação americana de duração indeterminada,
custo indeterminado e com consequências indeterminadas»9. No entanto, Obama
seria claro quanto a um ponto importante e que marcaria posteriormente o seu
mandato presidencial:
«não sou contra todas as guerras»10. Com isto, embora longe de qualquer disputa
interna para a nomeação partidária, o senador definia duas bases importantes na
construção daquilo que mais tarde passou a ser a sua narrativa na corrida à
nomeação democrata e à Casa Branca. Em primeiro lugar, não era um pacifista e
estava disposto a usar a força para defender os interesses norte-americanos no
exterior. Segundo, o uso da força devia ser um recurso bem aplicado e suportado
por argumentos fortes, não um instrumento rotineiro capaz de desgastar a imagem
e os recursos norte-americanos. Com este segundo argumento definia a fronteira
mais tarde evidente na campanha interna democrata de 2007 e 2008. De um lado,
hillary Clinton, Joe Biden, John Edwards, Christopher Dodd, todos votantes da
resolução do Senado que autorizou o uso da força no Iraque, aprovada em
novembro de 2002. Do outro, Barack Obama, senador que votou contra a mesma
resolução e que soube aproveitar a impopularidade da intervenção e do pós-
guerra entre os eleitores para vincar a sua razão e coerência. Este argumento
foi fundamental para ganhar as primárias e, mais tarde, marcar uma forte
clivagem com John McCain, o candidato republicano e apoiante da intervenção.
Ainda em 2007, há dois momentos importantes que dão corpo à posição de Obama
sobre o Iraque. O primeiro é um discurso no Chicago Council on Global affairs,
em abril, talvez o primeiro grande discurso da sua campanha sobre política
externa. Nele sublinhou o compromisso de retirar do Iraque e focar recursos e
esforços políticos no restante Médio oriente, Irão e Afeganistão, este último
«onde são precisas mais tropas americanas para combater a Al-Qaida, derrubar
Ossama Bin Laden e travar a deriva do país rumo à instabilidade»11.
O segundo é o artigo publicado na Foreign Affairsde julho-agosto. Aqui associa
expressamente a «renovação da liderança americana no mundo» a uma «retirada
responsável do Iraque», permitindo assim uma recentragem de atenção num Médio
oriente alargado. Enquanto opositor da surgede 2007, a sua proposta é
consequente com essa posição: retirada total até fim de março de 2008. Para
Obama, só esta retirada transmite o sinal à sociedade iraquiana capaz de travar
a clivagem mortífera entre sunitas e xiitas. Aliás, neste artigo, a retirada é
condição para a existência de uma solução política entre os iraquianos e o
calendário proposto é convergente com as disposições do Iraq Study Group12. Por
outras palavras, Obama queria marcar uma viragem radical sobre os anos de Bush,
sair do Iraque rapidamente e focar recursos no Afeganistão e na luta contra a
Al-Qaida.
Podemos considerar que uma narrativa eleitoral tem uma lógica muito particular,
permitindo um conjunto de posições mais táticas do que efetivamente assentes em
todas as variáveis presentes no exercício do poder executivo. a posição
assumida pelo candidato Obama e depois pelo Presidente Obama entronca, como se
sabe, neste raciocínio. Com um acordo bilateral assinado entre Bush e Maliki
prevendo a retirada total em finais de 2011, uma crise económica interna e uma
guerra sem fim à vista no Afeganistão, Obama foi moldando a sua posição face ao
Iraque.
Quando chega à Casa Branca, a «sua» guerra é a do Afeganistão. É sobre ela que
a revisão estratégica se vai dar, que o aumento das tropas será aprovado, que a
cooperação com os aliados da nato, rússia e Paquistão se tornará prioritária.
recebe mesmo aconselhamento no sentido de reforçar o contingente no Afeganistão
à medida que as fases de retirada do Iraque se vão fazendo13. a sua disposição
inicial é cumprir a promessa de terminar a presença militar no Iraque e abordar
o Médio oriente com uma iniciativa diplomática forte e presente. era preciso,
na sua perceção, inverter a má imagem dos Estados Unidos na região e reforçar a
liderança no sistema. É o que propõe no Cairo, em junho de 2009, quando se
dirige à região propondo «um novo princípio de relação entre os Estados Unidos
e os muçulmanos em todo o mundo», baseado no «respeito mútuo», «na verdade que
os Estados Unidos e o islão não se excluem», «nem têm de estar em
competição»14. esta ideia de normalizar os Estados Unidos no exterior era vista
por alguns como a negação do excepcionalismo americano, que pauta a postura e o
comportamento de muitas administrações na abordagem externa. o papel da américa
não era mais fruto de um desígnio divino, inerente à sua própria fundação e
basilar nas suas boas intenções para o resto do mundo, mas de retração
estratégica e recentragem nas prioridades da recuperação económica nacional,
como é notório na National Security Strategy de 2010 ou na Defense Strategic
Guidance de 201215.
Obama tem uma visão menos voluntarista do uso da força que, por exemplo, Bill
Clinton e George W. Bush, encara com enorme ceticismo as intervenções
humanitárias que têm conduzido a longas permanências militares no exterior e,
sobretudo, quer focar a agenda norteamericana na ásiaPacífico, como hillary
Clinton bem sublinhou num importante artigo em finais de 201116. este quadro
ideológico, mas também os constrangimentos materiais de uma américa em crise
financeira e a ascensão da China na região mais competitiva do mundo, ajudam a
interpretar, resumidamente, a política externa da administração Obama. É
visível a ausência de uma abordagem integrada para as revoltas árabes em curso
e a preferência por uma estratégia caso a caso; mas foi também visível a
tentativa de reforçar o pilar diplomático com o irão, quer quando este passou
por turbulência interna em 2009, quer quanto à gestão do dossiê nuclear, mesmo
sob pressão de israel para a endurecer. ou seja, temos mais ceticismo no
excepcionalismo americano, mais noção dos equilíbrios de poder globais em
curso, mais consciência dos limites do poder americano, da deslocação do centro
nevrálgico económico e securitário do ocidente para o Pacífico, ou da
importância da diplomacia como reforço da ação militar17. a questão que se
coloca é se este realismo é compatível com a liderança dos Estados Unidos no
sistema nas próximas décadas.
A HERANÇA DE BuSH E A ESTRATÉGIA DE OBAMA
Os acordos bilaterais assinados a 17 de novembro de 2008, entre o governo
eleito do Iraque e os Estados Unidos, tinham objetivos estratégicos concretos e
um calendário para a retirada americana definido. De forma a substituir a
autorização da onu sobre a presença de forças estrangeiras, depois de expirar a
data de 31 de dezembro de 2008,
Foi determinado o prazo da retirada das forças de combate americanas até 30 de
junho de 2009, salvaguardando a data de 31 de dezembro de 2011 como terminusda
presença das restantes forças destacadas por Washington (50 mil). era este o
articulado mais importante do Status of Forces Agreement (sofa). toda a
arquitetura de segurança bilateral, o combate ao terrorismo e às ameaças
externas ou o apoio americano ao desenvolvimento económico e político, estavam
inscritos no Strategic Framework Agreement for a Relationshipof Friendship and
Cooperation, também ele assinado a 17 de novembro18. Por outras palavras, o
momento proporcionado pela surgede 2007 acabou por facilitar o entendimento
entre as partes. Do lado de Bagdade, garantiase a presença americana crucial
para a estabilidade interna, evitando-se o caos e potenciando o treino das
forças de segurança. Do lado de Washington, traçava-se um calendário de
retirada perante a pressão política, além de se estabelecer um acordo com um
aliado na região.
Vale a pena sublinhar que nenhum dos acordos definia um calendário exato em que
ambos vigorassem para lá do final da presença militar americana, garantindo o
cumprimento temporal alargado de aliança ou mera cooperação. Talvez tenha sido
este o motivo que levou a administração Obama, em maio de 2012, a estabelecer
um quadro de dez anos depois da saída das suas tropas do Afeganistão, quando
assinou um acordo de parceira estratégica bilateral com este país. Reconhece,
com isso, um erro político de Bush e que limitou bastante a capacidade negocial
de Washington quando tentou, junto de Bagdade, a permanência de uma pequena
força militar depois de dezembro de 2011 que assegurasse a segurança do pessoal
diplomático norte-americano no terreno19.
Já com o general Odierno no lugar de David Petraeus (destacado para chefiar o
Central Command norte-americano em setembro de 2008), e com Barack Obama na
Casa Branca, a estratégia para o Iraque não foi invertida, mas antes afinada.
Assim, Odierno e Obama tiveram em conta dois grandes grupos de opiniões. Por um
lado, os que defendiam ser apenas necessária uma força residual no Iraque. Por
outro, os que alertavam para o facto de se traçar um calendário definitivo
que servisse de motivação aos insurgentes para se resguardarem até à saída das
tropas americanas20. Obama optou por seguir uma via intermédia, traçando o fim
das operações de combate e a redução para 50 mil homens até agosto de 2010. De
acordo com emma Sky, conselheira do general Odierno entre 2008 e 2010, esta
decisão deu ao comandante das forças americanas a flexibilidade que ele
desejava para alterar a missão de contrainsurreição, muito em foco no último
par de anos, para uma outra de estabilização mais focada na parceria e treino
com as forças de segurança iraquianas e na sua capacidade para proteger as
populações21. De acordo com esta visão, era importante estar consciente da
realidade do país, independentemente das melhorias alcançadas nos últimos
meses. o Iraque tinha deixado de ser um estado falhado, mas ainda era um estado
frágil.
E para inverter essa fragilidade era extremamente importante alcançar dois
patamares. Por um lado, um clima de segurança local e diário que restituísse a
normalidade à atividade económica e às relações sociais, diminuindo a tensão
entre xiitas e sunitas, entre árabes e curdos, entre autoridades locais e
governo central. Por outro, a existência de um processo político nacional capaz
de progressivamente fortalecer a coesão nacional depois de uma intervenção
militar estrangeira e de um cenário de guerra civil inter-étnica. O papel de
Washington era cada vez mais o de assumirse como parceiro maior nestes caminhos
e cada vez menos como intromissor nas decisões iraquianas.
Obama fez um importante discurso em Camp lejeune sobre o Iraque, o primeiro que
dedica ao tema enquanto Presidente e onde discorre sobre a forma «responsável
de terminar a guerra». Primeiro, alargar a dezoito meses a proposta que tinha
lançado nos debates da campanha eleitoral: ou seja, a missão de combate
terminada a 31 de agosto de 2010. Segundo, ter todas as restantes tropas de
auxílio, treino e aconselhamento às forças de segurança locais, de regresso aos
Estados Unidos no final de 2011. Terceiro, integrar o Iraque aliado de
Washington como peça fundamental da segurança e estabilidade de todo o Médio
oriente daí em diante e que passaria por travar as intenções nucleares do irão,
inverter a insegurança no af/Pak e chegar a bom porto no processo de paz
israeloárabe. Por outras palavras, à medida que a força militar ia sendo
reduzida, a capacidade política e diplomática teria de ser fortalecida. Este
foi o grande teste que se colocou, na prática, à restituição da total soberania
de todas as funções de estado aos iraquianos, depois de estes terem sido
chamados às urnas em legislativas (janeiro de 2005) e regionais (janeiro de
2005 e janeiro de 2009).
A verdade é que entre o anúncio da estratégia de Obama e o final de agosto de
2010 ' já depois das legislativas iraquianas de março de 2010 ', a situação no
Iraque estabilizou. De acordo com um relatório do Congresso norte-americano
sobre a satisfação dos iraquianos por alturas da retirada das tropas de combate
americanas, pode-se verificar a opinião favorável sobre a segurança sentida na
sua zona (90 por cento) ou a confiança com o seu governo local (70 por
cento)22. Neste contexto de melhoria, Robert Gates daria conta a David
Petraeus, através de memorando interno, da alteração do nome da missão no
Iraque, que a partir de 1 de setembro de 2010 se passaria a chamar «operation
New Dawn», precisamente para sinalizar o fim efetivo da «operation iraqi
freedom» iniciada em 2003, e do reforço do compromisso americano pelos acordos
assinados com Bagdade que previam o calendário de retirada e os mecanismos de
ajuda às forças armadas e de segurança locais23. Obama, exatamente no final
desta operação, discursaria na Sala oval em horário nobre, anunciando
oficialmente o fim das operações de combate no Iraque e a transferência para a
soberania local de um conjunto de tarefas que até então tinham estado sob
reserva internacional. A partir desse momento e até ao final de 2011, a missão
norte-americana ficaria limitada a treino e aconselhamento às forças de
segurança iraquianas quer nas operações de contraterrorismo, quer na proteção
quotidiana às populações. Para o Presidente americano, esta guerra durava há
demasiado tempo, tinha consumido demasiados recursos, desviado muitos outros da
prioridade afegã, e estava na hora de serem os iraquianos, com o auxílio do
aliado norte-americano, a «construírem a sua democracia»24.
Mas nesse último semestre de 2010, outros factos marcaram a transição de um
Iraque fortemente condicionado pelo exterior, para um Iraque mais livre para se
autogovernar. os principais passos deramse com os levantamentos das sanções das
Nações unidas impostas aos programas de desenvolvimento de armas biológicas e
químicas, ao fim do programa petróleoporalimentos, para além de lhes ser
permitida a restituição do controlo da soberania sobre os recursos energéticos,
a partir de meados de 2011. Como salientava a resolução 1956, de 15 de dezembro
de 2010, a «situação agora existente no Iraque é significativamente diferente
daquela que existia aquando da resolução 661 (1990)», ou seja, desde o início
do regime de sanções impostas pelas Nações unidas em virtude do comportamento
agressivo de Bagdade e do seu incumprimento dos padrões de segurança interna e
regional25.
A progressiva transferência de soberania para o Iraque nas mais diversas
atividades estatais não foi isenta de percalços, sobretudo no âmbito da
segurança interna. À medida que era reforçada uma esfera própria de soberania
iraquiana no plano político, no funcionamento das instituições parlamentares e
judiciais, na administração pública e na operacionalidade das polícias e forças
armadas, os ataques terroristas foram mostrando uma realidade ainda instável e
que requeria atenção internacional. O propósito foi muito claro, fruto dos
alvos preferenciais: assustar os iraquianos na fase de retirada norteamericana,
travar os seus anseios soberanos, descredibilizar as suas forças de segurança.
importa, por isso, avaliar alguns dos maiores riscos em volta do processo de
retirada americana do Iraque.
CONSEQUÊNCIAS DA RETIRADA AMERICANA
David Petraeus normalmente não se engana quando publicamente avalia o peso das
ameaças. em abril de 2007, estava a surgeno seu início, o general definiu a Al-
Qaida no Iraque (aqi) como «o provável inimigo número um» dos americanos. Em
três anos, esse inimigo tornou-se no número um também dos iraquianos. Se
contabilizarmos os ataques assumidos quer pela organização terrorista
individualmente, quer os da autoria do estado islâmico no Iraque ' composto,
entre outros grupos, pela Al-Qaida, por federações de insurgentes sunitas como
o Mujahideen Shura Council e o Jeish altaiifa alMansoura ' podemos apontar um
padrão nos últimos três anos: bombistas suicidas fazem-se explodir em zonas
densamente povoadas, em horas movimentadas de mercados, vias públicas ou
restaurantes, provocando a morte a civis iraquianos com o claro objetivo de
gerar pânico e minar a normalidade social; carros-bomba apontados a alvos
militares (campos de recruta), esquadras de polícia, edifícios governamentais,
sobretudo de administração interna, justiça e defesa.
Por outras palavras, o terrorismo no Iraque passou de um mecanismo de violência
contra as tropas estrangeiras para se focar nas esferas de segurança interna,
cada vez mais ao abrigo da soberania iraquiana, ao mesmo tempo que a vida
quotidiana era minada por ataques contra civis. A partir das eleições gerais de
março de 2010, houve mesmo um acréscimo de ataques reivindicados pela
organização, a qual, de acordo com um relatório do Pentágono, passou a
privilegiar ataques mediatizados e de grande impacto visual. A aqi tem sido
responsável por 80-90 por cento dos ataques terroristas no Iraque e calcula-se
que 60 por cento dos seus militantes sejam estrangeiros, nomeadamente sauditas
que entram em território iraquiano via Síria26.
Em tempos liderada pelo carismático Al-Zarqawi (morto em 2006), a sua ausência
foi notada quando a liderança passou por uma fase de indefinição com efeitos na
orientação da organização. Como nota Brian fishman, especialista na Al-Qaida no
Iraque, esta não deixa de ser uma ameaça ao quadro bilateral entre Washington e
Bagdade, mas as tensões que a organização no Iraque tem com a rede
internacional fundada por bin laden (por motivos de liderança, metodologia,
organização) devem levar os Estados Unidos a adotar uma postura focada nas
especificidades do Iraque e considerar que a violência extremista não se esgota
nas práticas do terrorismo jihadista27. Além disso, os ataques terroristas
estão cada vez mais concentrados em Bagdade ' onde está o poder político e as
instituições de segurança ' tendo a estratégia de colocar as
comunidades sunitas contra a Al-Qaida dado frutos noutras regiões violentas
como Anbar, a maior província do Iraque e fronteiriça com a Jordânia, Síria e
arábia Saudita.
O cenário de violência interna, a ser potenciado pela retirada das tropas
norteamericanas, pode ter origem também no sectarismo entre sunitas, xiitas,
curdos e secularistas. Se tivermos em conta os duzentos e sete dias que o
Iraque levou desde as eleições de março de 2010 até à formação de um governo '
recorde mundial, entretanto ultrapassado pela Bélgica ' podemos retirar duas
conclusões: é difícil e instável o relacionamento entre partidos sunitas e
xiitas; o Governo tomou posse após o bloco político afeto ao clérigo xiita
Muqtada alSadr ter apoiado a coligação xiita do até aí primeiro-ministro Nuri
alMaliki, político bem relacionado com teerão e que seria reconduzido no cargo.
Ou seja, influência iraniana, preponderância xiita com base num apoio de um
líder religioso responsável pelo período de violência contra sunitas entre 2004
e 2007, sunitas com peso reduzido e curdos com autonomia. Vale a pena recordar
que no dia seguinte à saída do último soldado americano do Iraque, o primeiro-
ministro Maliki mandou prender de imediato o Vice-Presidente sunita, tariq
alhashimi, tendo este fugido para o Curdistão28.
O receio do regresso da violência maciça está espelhado em dois parâmetros. O
primeiro, no número imediato de ataques terroristas que se deram entre novembro
de 2011 e janeiro de 2012: de 302 para 561. Só na província de Mossul, um
grande bastião sunita fronteiriço com a Síria, no mesmo período os ataques
registados passaram de 21 para 10529. O segundo diz respeito ao calendário
eleitoral. O Iraque terá eleições locais em 2013 e legislativas em 2014 o que,
tendo em conta o histórico recente, motivará acesas clivagens de
representatividade e acusações mútuas entre xiitas e sunitas. As forças de
segurança iraquianas têm, assim, um duplo desafio: reduzir a insegurança até às
elei ções e garantir estabilidade aos atos eleitorais. Dois desafios de sucesso
totalmente imprevisível.
O contexto regional é suficientemente heterogéneo e complexo para tirarmos
conclusões definitivas sobre o caminho que os países do Norte de áfrica e Médio
oriente irão percorrer. No que toca às motivações das revoltas árabes que desde
janeiro de 2011 têm percorrido a região, há certamente anseios por melhores
condições de vida, emprego e liberdades políticas, mas haverá também impulsos
suscitados por etnias religiosas que não se consideram representadas na elite
que as governa. É o caso do Barém, cujo poder é ocupado por sunitas numa
sociedade maioritariamente xiita, ou da Síria, cuja liderança alauita provém do
ramo xiita, embora a maioria da população seja sunita. É ainda crescente a
força que os xiitas têm no líbano e a influência que o irão exerce sobre o
hezbollah, o regime de Damasco
E as revoltas no Barém. A perceção que existe em Washington é a da existência
de um potencial de conflitualidade violenta ' como se tem visto na Síria e no
iémen, por exemplo ' que pode ir do antiautoritarismo ao sectarismo religioso '
e cujo epicentro está numa projeção de poder do irão na região, com especial
incidência no Iraque.
Mark N. Katz, do Middle east Policy Council, alerta para a perda de influência
objetiva e real que os Estados Unidos terão nos destinos do Iraque após a sua
retirada do terreno. Independentemente do acerto ou não da decisão, a sua
implicação direta está relacio nada com a incapacidade dos Estados Unidos face
a um crescimento da violência sectária, por estarem militarmente ausentes30.
Para o mesmo analista, uma outra consequência da retirada americana dar-se-á
ao nível da perceção que muitos playersda região terão sobre o declínio dos
estados unidos no território quer na redução da influência sobre líderes e
cenários internos, quer na menor predisposição para intervir militarmente por
motivos semelhantes à intervenção no Iraque em 2003. Em último caso, pode dar-
se o caso de a perceção sobre o declínio americano conduzir alguns dos seus
aliados à procura de outras garantias de segurança com outros atores regionais
que não os Estados Unidos. Neste ponto, pode o fator nuclear iraniano continuar
a funcionar como aglutinador de segurança, uma ameaça para muitos países do
Médio oriente que venha reforçar os laços com os Estados Unidos,
independentemente de estarem ou não tropas americanas no Iraque. É verdade que
pode. Mas também pode dar-se o caso de a comunidade internacional continuar a
ser fintada pelo regime de teerão sobre o seu programa nuclear e o cordão de
influência iraniana na região ser suficientemente ativo e desestabilizador que
tende a agrupar debaixo do chapéu nuclear iraniano todos aqueles que não se
sentem confortáveis com a presença americana ou mesmo com os laços que regimes
sunitas mantêm com Washington (arábia Saudita, egito, Jordânia, setores
libaneses).
Vale a pena recordar alguns dos factos reveladores da influência crescente do
irão na realidade interna do Iraque31. além de ter patrocinado milícias xiitas
durante os anos mais violentos a seguir à intervenção de 2003, o irão viu ser-
lhe atribuído um pedido de desculpas público por parte do ministro da Defesa
iraquiano, em 2005, quando este esteve em teerão em visita oficial. Em causa
estavam todos os atos cometidos pelo regime de Saddam hussein. este clima de
renovada relação bilateral dava já o tom da relação entre os dois países,
aproximação que encaixa na grande estratégia regional iraniana: aumentar a sua
influência num momento em que o Grande Médio oriente vive não só uma
turbulência política como um declínio de poder ocidental32.
Para além disso, o Iraque tem um extraordinário potencial económico: o
investimento estrangeiro aumentou 200 por cento em 2009; o fmi estima um
crescimento do pib de sete por cento ao ano em média nos próximos cinco anos; e
a exploração energética é considerada pelas autoridades como tendo margem para
igualar a produção diária de barris de petróleo da arábia Saudita numa década
e, numa pre visão mais conservadora, igualar a exportação do irão em 2014. além
disso, o ira que é o único membro da opep que não tem uma quota definida para
exportação33. Este quadro, aliado a divisões étnico-religiosas internas, faz do
irão um interessado nessa divisão para melhor reinar. Embora não seja do seu
interesse que o Iraque regresse à violência, o desafio de teerão irá passar por
manter o país fragilizado pelas divisões, sem chegar ao conflito. E para além
do interesse natural nas comu nidades xiitas, é histórica a proximidade e o
auxílio aos iraquianos curdos, que mantêm Jalal talabani na presidência do
Iraque. Por outras palavras, o irão é, e quer continuar a ser, um playermaior
no destino do Iraque, no seu potencial económico e no que isso representa como
alavanca à influência iraniana na região34. Se isto é aceite pelas autoridades
políticas iraquianas é uma das maiores dúvidas que se colocam no futuro
próximo.
Para os Estados Unidos, o desafio maior passará por conseguir garantir o Iraque
como seu aliado estratégico, além de garantir política e economicamente
influência numa região estratégica mas ao mesmo tempo instável, complexa e com
a qual tem despendido avultados recursos humanos, militares e financeiros. a
fasquia americana está suficientemente alta para colocarmos algumas
interrogações sobre o timing, a forma da retirada militar do Iraque e a
alteração pro funda da natureza da sua missão.A envergadura da missão político-
diplomática americana após a retirada é colossal. De acordo com o senador John
Kerry, líder do comité de relações externas do Senado, 17 mil homens e mulheres
estarão em missão no Iraque sob a autoridade da embaixada em Bagdade,
espalhados por 15 estruturas: três centros de treino policial, três bases
aéreas, dois consulados, dois escritórios de embaixada e cinco postos
Para a cooperação e segurança35. Mas Kerry também alerta para algumas questões
que devem merecer a máxima atenção da administração. Primeiro, terá o
Departamento de estado capacidade para apoiar esta ambiciosa missão diplomática
sem o suporte militar americano no terreno? Segundo, num ambiente ainda
instável do ponto de vista da segurança, qual será o futuro da relação entre os
Estados Unidos e o Iraque? Terceiro, estão os Estados Unidos em condições para
disponibilizar os recursos necessários ao sucesso desta missão civil? São
perguntas muito concretas que permanecem sem resposta.
CONCLUSÕES
A justeza, pertinência ou sensatez em redor da intervenção no Iraque em 2003
não foi o objetivo deste paper. No entanto, é aceite pela generalidade dos
analistas ' inclusive entre os que apoiaram a intervenção militar ' que o
conflito no Iraque desviou demasiados recursos humanos, militares e financeiros
dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo e a frente afegã. O primeiro
ponto a reter é a causaefeito entre o caos vivido no Iraque entre 2003 e 2007 e
a necessidade de Washington afetar mais recursos para travar a guerra civil em
curso.
Após a mudança estratégica ocorrida com a surgede 2007 e as melhorias no
terreno ' nos domínios da segurança, da legitimação política ou do crescimento
económico, Barack Obama emerge na campanha eleitoral de 2008 como um opositor
assumido da intervenção e com a promessa de terminar as operações militares e a
presença americana no Iraque durante o seu mandato. Estas promessas foram
cabalmente cumpridas. Mas, em boa verdade, Obama acabou por moldar este seu
calendário ao compromisso bilateral negociado pela administração Bush: retirada
militar completa até 31 de dezembro de 2011.
O certo é que a atual administração seguiu este rumo. A orientação estratégica
para o Médio oriente alargado foi a de afetar recursos para o af/Pak (Obama
acabou por implementar uma surgeem 2009) e assegurar uma arquitetura de
segurança estável com os aliados na região. e, naturalmente, o Iraque é um
deles. Contudo, desde o início de 2011, assistiu-se a uma turbulência endémica
na região, que fez cair ditadores (Bem ali, Mubarak), gerou violência (líbia,
Síria, iémen), assustou regimes estabelecidos (Síria, argélia), promoveu
interferências externas (líbia, Síria, Barém, iémen) e colocou a fasquia dos
desafios americanos para a região num patamar tão delicado como indefinido. As
revoltas árabes foram sobretudo materialistas, por direitos e objetivos
económicos e políticos, mas nalguns casos revelaram clivagens étnico-religiosas
supostamente adormecidas. Sunitas e xiitas não convivem livremente em muitos
destes países e a repressão é normalmente a resposta à reivindicação de melhor
representatividade política. O Iraque, enquanto exemplo recente de absoluto
caos na convivência étnica, pode sofrer com o percurso que algumas das revoltas
na região vêm mostrando (Síria, com quem tem uma fronteira de 286 quilómetros),
deitando por terra os esforços de acalmia conquistados nos últimos dois a três
anos. Saber até que ponto a ausência física de tropas americanas é colmatada
com rigor e eficácia pelas centenas de milhares de forças de segurança
iraquianas entretanto treinadas é uma das grandes incógnitas dos próximos
tempos. tendo em conta a violência que 2012 ainda revelou, o cenário não é
animador.
O terrorismo infiltrou-se no caos iraquiano e minou ainda mais a convivência
entre sunitas, xiitas e curdos. Se numa primeira fase foi direcionado contra a
presença estran geira, depois dos efeitos da surgepassou a ter como alvo a
população civil iraquiana, sobretudo comunidades xiitas e símbolos da
autoridade do estado como esquadras de polícia ou edifícios governamentais. A
morte de bin laden não deve criar entusiasmo desnecessário no ocidente, uma vez
que a Al-Qaida está suficientemente preparada para funcionar sem uma cadeia de
comando rígida e um organigrama pesado. A própria Al-Qaida no Iraque e demais
grupos que atuam no contexto interno iraquiano, atuam com grande autonomia face
ao centro ideológico e operacional de bin laden. A sua neutralização no Iraque
passa por convencer sobretudo as comunidades sunitas e res petivos líderes
religiosos dos riscos de tornar o Iraque num estado falhado e em guerra civil.
Além disso, é preciso melhorar os mecanismos de recolha e tratamento de
informação, do sistema de justiça e do controlo fronteiriço iraquiano. A
dúvida, neste ponto, permanece aberta: sem a presença militar americana, serão
estes objetivos alcançados pelos iraquianos?
Por fim, as revoltas árabes também revelaram um equilíbrio maior na influência
dos grandes playersda região. os Estados Unidos, reféns dos apoios a alguns
ditadores, como Mubarak no egito ou Saleh no iémen, foram colocados numa
situação tremen damente incómoda ao terem de manifestar simpatia por movimentos
pró-democracia sem saber se não seria o caos o grande vencedor na região. Ou
seja, vão lidando com a situação caso a caso, de acordo com a dimensão dos
problemas e as implicações que trazem para os equilíbrios e alianças na região.
a turquia e o irão viram projetada a sua influência em diversos modelos de
revoltas: a primeira, por revelar a compatibilidade de um modelo socio-
económico próspero numa sociedade muçulmana; o segundo, ao querer mostrar que o
seu projeto islâmico tem raízes na região e perdura estavelmente no tempo,
procura apoiar revoltas xiitas contra lideranças sunitas apoiadas pelos esta
dos unidos e arábia Saudita (Barém) ou evitar que os seus proxyscaiam ou
reduzam a sua influência (Síria, hezbollah, hamas). A política externa
americana para a região, independentemente da retirada militar do Iraque, terá
inevitavelmente que assegurar Bagdade como um aliado estratégico nos
equilíbrios de poder regionais, na inversão da intenção nuclear de teerão (foi
em Bagdade que as negociações sobre o nuclear regressaram no passado maio), na
garantia de sucesso do modelo de convergência multiétnica iraquiana e na luta
antiterrorista que tem não só no franchisingda Al-Qaida na península arábica um
dos focos, como num conjunto de outros movimentos jiha distas transnacionais
que operaram onde a autoridade do estado não chega.
A Guerra do Iraque foi um passo provavelmente maior que a perna dado pelos
Estados Unidos. Nove anos depois e militarmente retirados, Washington tem de
acautelar que os passos seguintes não podem ser de recuo nem tãopouco de
desinteresse, mas numa cadência certa para não arriscar perder todos os
esforços feitos nos últimos anos. a tarefa é difícil, não depende apenas de
Washington e as contrariedades aparecerão de certo. estamos ainda longe de
perceber todas as consequências da intervenção militar de 2003. Os anos mais
próximos podem darnos as primeiras respostas.
NOTAS
1
Cf. Baker, James A., e hamilTon, Lee h. ' The Iraq Study Group Report.
nova York: vintage Books, 2006, p. 3.
2
Sobre as razões do fracasso da estratégia da coligação no pós-guerra, ver,
por exemplo, RiCk s, Thomas ' Fiasco: The American Military Adventure in Iraq.
nova York: Allen Lane, 2006, e Woodward, Bob ' State of
Denial: Bush at War Part III. nova York: Simon & Schuster, 2006. Em particular, sobre o caso de Abu Ghraib, cf. hersH, Seymour M. '
«Tor ture at Abu Ghraib». In The New Yorker. vol. 80, n.º 11, 10 de maio de
2004, pp. 4247; Gl aisTer, Dan, e Borger, Julian ' «1,800 new
pictures add to us disgust». In The Guardian, 13 de maio de 2004; hirsH, Michael, e Barry, John ' «The Abu Ghraib scandal coverup?». In
Newsweek, 7 de junho de 2004.
3
Cf. Baker, James A., e hamilTon, Lee h. ' The Iraq Study Group Report.
nova York: vintage Books, 2006, p. 73.
4
BusH, George W. ' «President's adress to the nation», 10 de janeiro de 2007.
Disponível em: http://georgewbushwhitehouse.archives.gov/news/releases/2007/01/
200701107.html
5
RiCks, Thomas E. ' The Gamble: General Petraeus and the Untold Story of
theAmerican Surge in Iraq, 20062008. nova York: Allen Lane, 2009, p. 166.
6
Cf. o'hanlon, Michael E., e Campbell, Jason h. ' «The State of Iraq: an
update». In The Brookings Institution, 22 de dezembro de 2007. Disponível em:
www.brookings.edu/opinions/2007/1222_iraq_ohanlon.aspx.
7
A presença militar internacional no Iraque está consagrada pelas Resoluções do
Conselho de Segurança que foram progressivamente estendendo o seu mandato:
unsCr 1723 (28 de novembro de 2006), unsCr 1637 (8 de novembro de 2005), unsCr
1546 (8 de junho de 2004), unsCr 1511 (16 de outubro de 2003), unsCr 1483 (22
de maio de 2003).
8
Cf. BusH, George W. ' «July in Iraq», 31 de julho de 2008. Disponível em: http:
//www.presidentialrhetoric.com/speeches/07.31.08.html
9
Woodward, Bob ' Obama's Wars: The Inside Story. Londres: Simon &
Schuster, 2010, p. 374.
10
heilemann, John, e halperin, Mark ' Race of a Lifetime. Londres:
Penguin Books, 2010, p. 36.
11
Wolffe, Richard ' Revival: The Struggle for Sur vival Inside the Obama
WhiteHouse. nova York: Broadway, 2010 , p. 242.
12
Obama, Barack h. ' «Renewing American leadership». In Foreign Affairs. vol. 86
, n.º4 , julho agosto de 2007, pp. 216.
13
Cf. Woodward, Bob ' Obama's Wars:The Inside Story, p. 258.
14
Cf. SingH, Rober t ' Barack Obama's Post American Foreign Policy: The Limits
of Engagement. nova York: Bloomsbury, 2012, pp. 5152.
15
National Security Strategy of the United States of America, White house,
Washing ton DC, maio de 2010; Sustaining US GlobalLeadership:
Priorities for the 21st CenturyDefense. White house, Washington DC, janeiro de
2012.
16
Cf. ClinTon, hillar y R. ' «America's pacific century». In Foreign Policy. n.º
189, novembro de 2011, pp. 5663.
17
Cf. SingH, Rober t ' Barack Obama's PostAmerican Foreign Policy: The Limits of
Engagement; Indyk, Martin, S. LieberTHal, Kenneth G., e
o'hanlon, Michael E. ' Bending History: Barack Obama's Foreign Policy.
Washington DC: Brookings Institution, 2012; Lindsay, James M.
' «George W. Bush, Barack Obama and the future of us global leadership». In
International Af fairs. vol.87, n.º4,2011,pp. 765779.
18
os acordos podem ser lidos em EHren berg, John J., MCsHerry, Patrice, SánCHez,
José Ramón, e Sayej, Caroleen Marji (eds.) ' The Iraq Papers. nova York:
oxford university Press, 2010, pp. 336356.
19
Cf. SingH, Rober t ' Barack Obama'sPostAmerican Foreign Policy: The Limits of
Engagement, pp. 105106.
20
Cf. Sk y, Emma ' «Iraq: from surge to sovereignty». In Foreign Affairs. vol.
90, n.º 2, março abril de 2011, pp. 122124.
21
Cf. Ibidem.
22
Cf. «Measuring stability and security in Iraq». Report to Congress in
Accordance with the Department of Defense Supple mental Appropriations Act
2008, junho de 2010, p. 38.
23
Cf. GaTe s, Rober t ' «Memorandum for the commander, u.S. central command»,
Washington DC, 17 de fevereiro de 2 010. Disponível em:
http://a.abcnews.go.com/images/Politics/0814409.pdf
24
Cf. Obama, Barack ' «Remarks by the President in address to the nation on the
end of comb at op er ations in Iraq». Washington DC, 31 de agosto de 2010.
Disponível em: http://www.whitehouse.gov/thepressoffice/2010/08/31/
remarkspresidentaddressnationendcombatoperationsiraq
25
Cf. as resoluções 1956, 1957 e 1958, do Conselho de Segurança das nações
unidas, de 15 de dezembro de 2010, disponíveis em: http://www.un.org/Docs/sc/
unsc_resolutions10.htm.
26
Cf. «Measuring stability and security in Iraq». Report to Congress in
Accordance with the Department of Defense Supple mental Appropriations Act
2008, junho de 2010, p. 31.
27
Cf. fisHman, Brian ' «After zarqawi: the dilemmas and future of Al qaeda
in Iraq». In The Washington Quarterly. n.º 29, vol. 4, outono de 2006, pp.
1932.
28
Cf. Parker, ned ' «The Iraq we left behind». In Foreign Affairs. vol. 91, n.º
2, marçoabril de 2012, pp. 94110.
29
Cf. KnigHTs, Michael ' «A violent new year in Iraq». In The National Interest,
16 de fevereiro de 2012. Disponível em: http://nationalinterest.org/commentary/
violentnewyeariraq6517
30
Cf. KaTz, Mark n. ' «Implications of America withdrawing from Iraq and Afgha
nistan: war on terror in perspetive». In Middle East Policy Center, 18 de
novembro de 2010. Disponível em: http://www.mepc.org/articlescommentary/
commentary/implicationsamericawithdrawingiraqandafghanistan.
31
Cf. nasr, vali ' The Shia Revival: How Conflicts within Islam Will Shape The
Future. nova York: W. W. norton & Company, 2006, caps. 8 e 9; Baer, Robert ' The Devil We Know:Dealing with the New Iranian
Superpower. nova York: Three Rivers Press, 2008.
32
Cf. Bradle y, John R. ' After the ArabSpring: How Islamists Hijacked the
MiddleEast Revolts. nova York: Palgrave, 2012; SingH, Rober t
' Barack Obama's PostAmerican Foreign Policy: The Limits of Engagement, cap. 6.
33
Cf. naTali, Denise ' «Iraq's energy ambitions and regional relations». Event
Repor t, Institute for national Strategic Studies, national Defense univer sit
y, Washington DC, 27 de abril de 2012.
34
Cf. TakeyH, Ray ' Hidden Iran: Paradoxand Power in the Islamic Republic.
nova York: Time Books, 2006, cap. 7.
35
Cf. Kerry, John ' «opening statement at hearing on Iraq: the challenging
transition to a civilian mission». In US Senate Committee on Foreign
Relations, 1 de fevereiro de 2011.
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