Mundo Árabe
Mundo Árabe
Isabel Alcario
Investigadora do ipri ' unl. Mestre em História das Relações Internacionais
pelo iscte e doutoranda em Ciência Política no ics ' ul.
Kenneth M. Pollack, Daniel L. Byman,
et al., The Arab Awakening: America and the Transformation of the Middle East
Washington, Brookings Institution Press, 2011, 381 pp.
Escrito a dezoito mãos, este é um livro incontornável para quem desejar
compreender os acontecimentos que, desde dezembro de 2010, quando Mohamed
Bouazizi se autoimolou numa pequena cidade tunisina, se sucederam em cadeia
afetando inevitavelmente todos os países do Médio Oriente e do Norte de África.
Estes acontecimentos levaram ainda à saída do poder de líderes autoritários que
governavam os seus países há várias décadas, obrigando os outros a reagir de
alguma forma para conter o potencial de contestação. Por isso, os autores do
livro que, como destacam, não é uma obra editada mas uma obra «colaborativa»,
não hesitam em afirmar que estamos perante um dos desenvolvimentos políticos
mais importantes do século xxi: a «reemergência do Mundo Árabe após décadas de
estagnação política».
Neste sentido, o objetivo desta obra não é contar os acontecimentos, mas
explicar as suas causas e quais as dinâmicas coletivas envolvidas, isto é, as
interações entre o que acontece nos diversos países da região aqui abordada,
quais os padrões que podem ser observados e, como é que os Estados Unidos
deverão reagir a este movimento regional a curto e a longo prazo.
Olivro
The Arab Awakening
integra, por isso, capítulos sobre todos os estados árabes, exceto o Líbano e o
Sudão, capítulos que exploram as reações dos estados não árabes da região bem
como das potências estrangeiras com interesses e presença na região; e
capítulos temáticos sobre as questões identificadas como estando na origem das
revoltas e que continuam no centro do debate sobre o presente e o futuro destes
países.
Apesar de este movimento regional que ficou conhecido como a «primavera árabe»
ter afetado todos os países da região, embora de forma desigual, e de cada
estado ser um caso com as suas especificidades, os autores optaram por dividi-
lo em três categorias:
a
) países onde o regime autocrático caiu;
b
) países onde o regime persiste mas que sentiu a necessidade de proceder a
reformas políticas;
c
) países onde os protestos não levaram à mudança de regime mas a um conflito
civil.
Esta obra tem, portanto, a vantagem de tratar vários temas e países de uma
forma unificada mas não unificadora. Usando um enquadramento teórico comum e
contando com uma linha condutora, consegue ultrapassar aquele que é por vezes o
maior problema das obras coletivas: a falta de coesão entre capítulos. Ao mesmo
tempo, não cai no erro de cometer as generalizações com que tantas vezes nos
deparamos nos escritos sobre o mundo árabe.
Steven A. Cook,
The Struggle for Egypt: From Nasser to Tahrir Square
Nova York, Oxford University Press, 2011, 424 pp.
Quando a 25 de janeiro de 2011 milhares de egípcios se reuniram na Praça Tahrir
num movimento de revolta que acabaria por provocar a saída de Hosni Mubarak da
Presidência, poucos acreditariam que o país mais populoso do mundo árabe e um
dos alicerces mais importantes da estratégia norte-americana na região poderia
passar por uma convulsão desta dimensão. Esta obra de Steven Cook ajuda-nos a
perceber as causas e qual poderá ser o futuro do país.
Cook, investigador sénior do Council on Foreign Relations, desenha um retrato
do país apresentando as razões do seu fraco desenvolvimento, autoritarismo e do
seu contributo para o jihadismo internacional, marcado pelo nepotismo e
corrupção, partindo da análise de diferentes momentos históricos cruciais para
este entendimento. Atese central do livro é que desde 1952 os líderes do país
nunca tiveram ideologia, baseando o seu poder num intrincado aparelho coercivo.
A análise de Cook resulta de um longo trabalho de campo no Egito, com pesquisa
arquivística e entrevistas apresentando-nos simultaneamente uma história e uma
análise política profunda do país e dos desafios que este enfrenta, explorando
as tensões que persistem entre militares, islamitas e democratas, ao mesmo
tempo que explora a relação do Egito com os Estados Unidos e Israel.
Esta obra poderá ser dividida em três partes, que correspondem a cada uma das
presidências. Na primeira parte, Cook explora a liderança nasserista,
transparecendo alguma admiração por Nasser e pela forma como expandiu o
prestígio internacional do Egito e como controlou os islamitas no país. Na
segunda parte, dedicada à presidência de Sadat, o autor destaca a forma como
este apoiou e promoveu a abertura económica (
Infitah
) do país que permitiu o crescimento da elite económica que acabaria por formar
o círculo de Mubarak, a distensão face aos islamitas da Irmandade Muçulmana e
as relações com Israel. Aterceira parte, centrada em Mubarak, denota um tom
crítico. Cook dedica o quinto capítulo do livro («Atale of two Egypts
»
) a uma descrição bastante detalhada das redes de corrupção e de repressão do
regime, destacando episódios como as relações de Gamal Mubarak com o Bank of
America e a forma como este terá beneficiado da dívida do país.
No capítulo seguinte, Cook aborda a relação com os Estados Unidos, mostrando
como esta aliança, principalmente após o Acordo de Paz com Israel em 1979, teve
um forte impacto negativo nas perceções dos egípcios (e do mundo árabe) face ao
regime, apresentando de forma bastante pormenorizada a ineficácia dos diversos
programas norte-americanos de ajuda e promoção democrática para o país.
Finalmente, o último capítulo do livro dedica-se aos acontecimentos de 2011 e
às grandes questões em suspenso, particularmente as tensões e as relações entre
militares e partidos políticos e entre islamitas e liberais, bem como as
dinâmicas da sociedade perante este momento.
O livro
The Struggle for Egypt
é um importante documento para académicos e curiosos que pretendam conhecer as
dinâmicas que têm marcado o país nos últimos sessenta anos e que continuam a
marcar os debates sobre o futuro, combinando a sua análise informada e
aprofundada com uma escrita acessível e bem recheada de pequenas anedotas e
pequenas histórias pessoais.
Marc Lynch, Susan B. Gasser e Blake Hounshell (eds.),
Revolution in the Arab World: Tunisia, Egypt and the Unmaking of an Era
Kindle Edition, Foreign Policy Magazine, 2011, 181 pp.
Reunindo relatos e análises escritos ao longo dos acontecimentos, esta obra
funciona como uma espécie de diário de bordo sobre os acontecimentos que
marcaram o ano internacional de 2011, apresentando textos de alguns dos mais
reputados especialistas norte-americanos sobre o mundo árabe como, por exemplo,
Nathan J. Brown, e textos de ativistas dos direitos humanos, políticos, e
blogueres como Issandr El Amrani, um dos mais influentes da região.
Sendo, no fundo, uma coletânea de textos escritos ao longo dos acontecimentos,
e portanto criticável, por um lado, pelo otimismo que transparece em várias
análises e, por outro, pela falta de distanciamento necessário para uma análise
mais aprofundada, esta obra não deixa de ser um estudo interessante sobre os
protestos.
O volume está organizado de forma cronológica e combina análises históricas,
culturais e políticas com relatos de âmbito mais jornalístico, escritos a
partir da rua árabe. Da mesma forma, combina a análise sobre os problemas e
fragilidades dos estados da região, com a análise da política externa norte-
americana no que respeita à sua relação com estes regimes assumindo que,
sobretudo após o 11 de setembro, e face ao reforço das políticas de promoção
democrática para o mundo árabe, estes líderes tornaram-se mais opressivos à
medida que a sua relação com os Estados Unidos se fortalecia. March Lynch,
editor do livro e um dos principais editores da revista
Foreign Policy
, defende que a instauração de regimes democráticos na região não correspondia
aos interesses estratégicos de Washington que preferiam líderes que já
conheciam, por muito corruptos ou repressivos que fossem, à alternativa:
islamitas que não conheciam e com quem o diálogo seria mais difícil.
Outro dos temas mais debatidos sobre a chamada «primavera árabe» tem sido o
papel dos novos meios de comunicação nos movimentos de revolta. Este assunto é
aqui abordado por Tina Rosenberg e Tom Malinowski, que exploram, talvez de modo
excessivamente entusiástico, a forma como o Wikileaks e outros média sociais
como o Facebook e o Twitter permitiram o desenvolvimento de parcerias entre os
«revolucionários de carreira» e os jovens revolucionários na região, dando aos
segundos os meios de comunicação e de organização que lhes permitiram
pressionar, e até mesmo afastar, líderes despóticos que governavam há várias
décadas.
Esta obra é, porém, omissa em dois temas muito relevantes: o enquadramento
histórico da região e as questões de género, dimensões que seriam
incontornáveis para um relato completo dos acontecimentos e que foram excluídas
deste volume, sobretudo quando a revista
Foreign Policy
, fonte desde livro, publicou diversos textos com eles relacionados. Os
editores da obra escolheram como casos de destaque os acontecimentos na Tunísia
e no Egito. Contudo, é incompreensível a exclusão da Líbia, que representa uma
terceira via, em que as revoltas acabaram por se converter num conflito armado
com intervenção internacional, e que foi o terceiro país cujo líder seria
afastado do poder.
Entre omissões e conclusões, este volume não deixa de ser bem-sucedido no
relato dos acontecimentos e na introdução de pequenas análises acessíveis a
qualquer leitor, captando
lato sensus
os acontecimentos mais importantes das últimas décadas na região ' como o livro
destaca, estas revoluções alteraram fundamentalmente o
status quo
regional quando nem as políticas ocidentais nem o terrorismo fundamentalista o
conseguiram fazer.
Jean-Pierre Filiu,
La Révolution arabe: dix leçons sur le soulèvement démocratique
Paris, Fayard, 2011, 264 pp.
Nos últimos meses as livrarias francesas foram inundadas de livros e números
especiais de revistas sobre as revoltas árabes. Sobressai a obra de Jean-Pierre
Filiu, um dos mais destacados politólogos franceses, especialista em política
do mundo árabe, jihadismo e terrorismo, que ousa nomear dez lições que poderão
ser retiradas da «revolução árabe», a partir do que conhece da realidade da
região e do que observa da evolução dos acontecimentos, sobretudo na Tunísia e
no Egito.
Para Filiu, estamos perante uma nova era, pelo que o autor desconstrói as
narrativas mais divulgadas sobre o mundo árabe, procurando explicar porque é
que, à data em que escreve, só a Tunísia e o Egito tinham sido capazes de
afastar, através de revoltas de natureza pacífica, os seus líderes
autocráticos, enquanto que outros países permaneceram imunes à onda de
revoltas. No que respeita a Marrocos e à Jordânia, o autor considera, e a
evolução dos acontecimentos confirmou-o, que as duas monarquias iriam ceder à
pressão das manifestações e seguir pela via da reforma constitucional para
limitar em determinado grau o poder real.
Ao longo dos dez capítulos do livro, Filiu expõe as dez lições que deverão ser
retiradas das revoluções, sendo que a maioria trata de desmentir mitos e
preconceitos que vários especialistas mais sérios já ignoravam nos seus
estudos, mas que continuavam a estar presentes na base de várias políticas e
estratégias para a região. O primeiro desses mitos é a exceção autoritária de
que a região não se poderia democratizar ' porém, de acordo com Filiu, o povo
árabe tem «lutado pelos seus direitos há mais de uma geração, mas os
preconceitos culturais e políticos têm impedido a compreensão da dimensão da
sua insatisfação» e a «revolução árabe» é a prova da vontade de liberdade,
democracia e boa governança que os cidadãos da região terão. Neste sentido, os
muçulmanos não são apenas muçulmanos e a sua religião não pode explicar a
estagnação dos regimes em que vivem.
Para Filiu, a juventude está na primeira linha e domina os protestos e, sem
líderes centrais e carismáticos, conseguiu através das redes sociais levar
milhões de pessoas às ruas, pressionando de forma sem precedentes os líderes
autoritários, pelo que a sua raiva poderá criar um
momentum
revolucionário permanente que não leva necessariamente à democracia ' e a
alternativa à democracia, é o caos. Para evitar o caos, os islamitas, os
movimentos de oposição mais organizados no mundo árabe, deverão aproveitar a
oportunidade e aceitar estabelecer coligações com forças políticas liberais e
seculares. Por outro lado, Filiu afirma ainda que a vitória da «revolução
árabe» comprova que o jihadismo e a Al-Qaida se tornaram obsoletos, na medida
em que falharam no seu objetivo de representar a única força de mudança na
região e em que os movimentos de revolta representam valores e objetivos
contrários aos seus.
Sendo um livro escrito num tom claramente otimista, a última lição de Filiu
contraria de alguma forma este espírito ao afirmar que não haverá um efeito
dominó e a «revolução árabe» será uma queda do Muro de Berlim ' a região nunca
mais será a mesma, embora países como as monarquias petrolíferas do Golfo não
sejam grandemente afetadas, e as fronteiras existentes manter-se-ão
inalteradas. Ao longo do livro, Filiu não deixa de fazer recomendações
políticas. Contudo, parece-nos estranho não ter incluído nas suas lições uma
avaliação profunda das políticas de promoção democráticas e das alianças
ocidentais no mundo árabe, nem tão-pouco ter desenvolvido uma análise à
intervenção internacional na Líbia e as consequências do seu apoio no futuro do
país.
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