«E tudo isto porque o inglês não deixa»: A questão colonial pós-Ultimatum nas
crónicas de Fialho de Almeida (1890-1892)1
No último quartel do século xix, África surge como um território cada vez mais
apetecível, tanto para Portugal como para as principais potências europeias.
Por detrás deste interesse encontravam-se, possivelmente, alguns motivos
económicos ' necessidade de matérias-primas, assim como de mercados onde
colocar a sua produção ' mas, acima de tudo, político-ideológicos. Com efeito,
as tendências imperiais de uma Grã-Bretanha, ou de uma Alemanha, por exemplo,
não estavam alheias a esta atitude, especialmente quando a possibilidade de
expansão territorial na Europa pós-Guerra Franco-Prussiana parecia bloqueada.
Assim, o jogo de equilíbrio de poderes estende-se à África, a partir de então
espaço de confronto do orgulho e prestígio das grandes potências do Velho
Continente. Ao mesmo tempo, a evolução científica e tecnológica do Ocidente
oitocentista permite não só o aparecimento de um otimismo positivista que se
considerava destinado a civilizar o indígena ' o «fardo do homem branco» '
como, igualmente, pôr em prática essa missão, graças aos avanços no campo dos
transportes e comunicações, do armamento e da medicina2.
Se bem que a exploração do interior africano já viesse a ser feita em anos
anteriores, é a partir de meados da década de 1870 que se intensifica,
sobretudo após a Conferência de Bruxelas, em 1876. Portugal não foge à regra.
Embora as possessões em África tenham sido sempre alvo de uma atenção
particular por parte dos seus governantes ao longo de todo o liberalismo3, é
nessa altura que Portugal, atento àquela realidade e para não se atrasar no
processo, cria, em 1875, a Sociedade de Geografia de Lisboa e lança expedições
científicas e militares de exploração e manutenção do território, como as de
Serpa Pinto, primeiro sozinho (1877-1879), depois com Augusto Cardoso (1885-
1886), de Brito Capelo e Roberto Ivens (1877-1879, 1884-1885) e de Dias de
Carvalho (1884-1887)4. A Conferência de Berlim, que decorreu entre 1884 e 1885,
foi outro momento impulsionador para a ação portuguesa em África. De facto, a
perda de controlo sobre o Baixo Congo, a instauração da livre navegação nos
rios Níger e Congo e a cada vez maior importância dada à ocupação efetiva dos
territórios em detrimento do direito histórico, por exemplo, tudo resoluções
tomadas na conferência5, motivam Portugal a prosseguir os seus esforços
colonizadores. Surge, então, o projeto que visava ligar Angola a Moçambique, o
famoso «Mapa Cor-de-Rosa». Para o realizar, Portugal joga em duas frentes: no
terreno, com várias expedições entre 1888 e 1890 (Serpa Pinto, António Maria
Cardoso, Vítor Córdon, Paiva de Andrade, entre outros); na diplomacia,
procurando o apoio da Alemanha e da França6. No entanto, as expedições,
avançando para o interior, começam a chocar com os interesses dos britânicos na
zona, nomeadamente com o projeto do «corredor» que Cecil Rhodes, presidente da
British South Africa Company, pretendia criar entre o Norte e o Sul do
continente7. A11 de janeiro de 1890, o Governo da Grã-Bretanha envia o célebre
Memorandum, transformado em Ultimatumpor relevantes setores das opiniões
públicas portuguesas. Neste, ameaça cortar as relações diplomáticas com
Portugal, deixando mesmo entrever uma possível ação de força, caso os
portugueses não se retirassem da região do Chire e das terras dos Macololos e
dos Machonas8. Após reunião do Conselho de Estado, o Governo acaba por ceder.
Os efeitos desta decisão são explosivos: manifestações de rua, comícios,
tentativas de boicote a tudo o que era britânico, ações simbólicas de
desencanto, uma subscrição nacional para a compra de um navio de guerra e uma
frustrada insurreição republicana, cerca de um ano mais tarde9.
O escritor e jornalista José Valentim Fialho de Almeida (1857-1911) viveu e
sentiu de perto todos esses acontecimentos. Aliás, a sua própria politização,
surgida mais ou menos nessa altura, tal como aconteceu a outras
individualidades da sua geração, ganhou uma formidável dimensão a partir do
Ultimatumbritânico e deu origem a uma constante reflexão sobre a questão
colonial ' e, inevitavelmente, de igual modo, sobre a questão política em
geral, a qual não abordaremos aqui ' nas páginas de Os Gatose do periódico de
Rafael Bordalo Pinheiro Pontos nos ii. É acerca dessa reflexão, agressiva, por
vezes violenta, mas sempre pertinente e perspicaz, que procuraremos falar neste
artigo.
NO OLHO DO FURACÃO
Os textos de Fialho sobre a questão colonial escritos entre janeiro e fevereiro
de 1890, em pleno centro da tempestade pós-Ultimatum, são, inevitavelmente,
contagiados pelo discurso de alguns setores republicanos, dos quais, nesse
período, se encontrava muito próximo. Daí a conotação que desde logo estabelece
entre monarquia (e classe dirigente que a suportava) e traição, e entre
república e patriotismo: «Aqui há dois meses, ainda no país o grito de viva a
pátria! era distinto do viva a república! Agora estas duas expressões são
solidárias, confundem-se e podem-se substituir uma por outra.»10
Num artigo publicado no dia 23 de janeiro de 1890, em Pontos nos ii, Fialho,
sob o nome de guerra de Irkan, duvida da solidariedade do rei e das classes
mais altas para com a ação patriótica que o povo e os estudantes tinham vindo a
levar a cabo11. Cerca de um mês mais tarde, no mesmo jornal, perante a
proibição de uma manifestação cívica, já não tem escrúpulos em afirmar que
Portugal estava «nas mãos duma quadrilha de espiões» e corria o risco de se
tornar num protetorado britânico com a conivência do rei e dos seus
ministros12.
Quanto às páginas d'Os Gatos, o ataque dirige-se, em especial, ao rei e à
dinastia de Bragança. Na sua opinião, esta era tradicionalmente subserviente
aos britânicos13, tendo-lhes entregue, ao longo dos séculos, os seus direitos
coloniais sob as mais terríveis humilhações14. Para além das acusações
habituais de Fialho à monarquia ' anacronismo, parasitismo e inutilidade ' esta
surge, agora, também, como uma instituição traidora da Pátria, responsável pela
descida de mais um degrau na escada da decadência do País, ou seja, pela perda
dos nossos direitos históricos à ocupação dos territórios africanos.
No fundo, durante esta época turbulenta, que se estenderá, depois, até ao 31 de
janeiro de 1891, sempre que Fialho aborda a questão colonial fá-lo como
continuação da sua campanha contra a monarquia, o sistema político e a classe
dirigente. O pós-Ultimatumaparece como o momento ideal para a demonstração
prática e inequívoca de que os interesses do rei e dos políticos não
correspondiam aos interesses da nação, ideia na qual assenta uma boa parte da
crítica político-institucional fialhiana. Os seus textos publicados em Pontos
nos iie n'Os Gatosbuscam criar essa fratura, sendo que o povo aparece como o
defensor dos verdadeiros interesses da nação. Era uma forma de o mobilizar no
sentido dos objetivos antimonárquicos e republicanos.
É importante, ainda, referir um texto ficcional de Fialho publicado na época,
«O corvo», o qual, quanto a nós, constitui uma alegoria das relações político-
diplomáticas anglo-lusas no pós-Ultimatum15. Relata as tentativas de um corvo-
marinho em se alimentar de um cadáver que anda à deriva no mar. A nosso ver, o
corvo funciona como símbolo da Grã-Bretanha, e o cadáver como símbolo de
Portugal. A ave, tal como os britânicos, ataca e tortura o cadáver, que, como
os portugueses, lá se vai mantendo graças a um simulacro de resistência
proporcionado pelo acaso.
O TRATADO DE 20 DE AGOSTO
A20 de agosto de 1890 é assinado um tratado anglo-luso que pretende estabelecer
a convivência colonial entre os dois países na África Austral. Desvantajoso
para Portugal e, por isso mesmo, encarado como mais uma espoliação britânica do
território nacional, o tratado foi desencadeador de uma nova fase de maior
agitação política e social. É nesta altura que a reflexão de Fialho sobre a
problemática africana se aprofunda, tendo-lhe dedicado dois longos artigos16.
Na opinião do autor de Os Gatos, o tratado, que considera uma traição, pois
chama aos responsáveis pela sua assinatura os «três Miguéis de Vasconcelos»17
(devia referir-se ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Hintze Ribeiro, ao
ministro plenipotenciário português em Londres, Barjona de Freitas, e ao chefe
do Governo, António de Serpa Pimentel, ou então, ao próprio D. Carlos),
constituía um desastre para os interesses nacionais. Por duas razões
principais: primeiro, a perda de uma grande parte do território moçambicano;
depois, o facto de, devido a certas cláusulas do acordo, não exercermos uma
verdadeira soberania nas áreas que nos continuavam atribuídas.
Assim, segundo ele, os britânicos haviam roubado 460 mil quilómetros quadrados
da província de Moçambique, escolhidos criteriosamente tendo em conta a
distância e a ferocidade das tribos que os ocupavam, e onde se incluíam algumas
das zonas mais desenvolvidas pela ação portuguesa, com florestas, jazigos de
ouro e terras férteis, com organização civil e militar, e com atividade
agrícola e comercial instalada ao longo de décadas18. Fialho sente esta perda
como uma injustiça, visto aquelas terras significarem vários séculos de esforço
e heroicidade e o investimento de grande quantidade de vidas e dinheiro19.
Perdia-se aquilo que era historicamente português para as mãos dos britânicos,
os quais pouco possuíam na África Central até então e se impunham no continente
através do uso e abuso da sua força militar20.
No entanto, mais do que as perdas territoriais ou materiais, a verdadeira causa
da humilhação portuguesa eram algumas das cláusulas incluídas no tratado. Estas
punham em causa uma plena soberania nacional nas terras que nos haviam restado:
«É ver as cláusulas que nesse horrível documento estabelecem a chamada
reciprocidade de concessões, para se advir na conclusão de que melhor teria
sido entregar tudo [ ] É o inglês quem goza, nós quem pagamos.»21De facto, o
tratado previa que os britânicos gozariam de toda uma série de privilégios na
área formalmente reservada a Portugal: navegação e comércio livre sem cobrança
de taxas diferenciais, portagens ou outros impostos «além do que for
conveniente e que a Inglaterra fixará, pela arbitragem ' caso Portugal
exorbite»; um imposto sobre a importação e exportação inglesa que não podia
exceder os três por cento; comércio livre para todo o mundo; possibilidade de
circulação, também livre, pelas estradas, rios e vias férreas portugueses,
etc.22De acordo com Fialho, não havia dúvidas que se tratava de uma estratégia
para, mesmo sem ocupar oficialmente os territórios atribuídos a Portugal,
exercer uma dominação económica e financeira sobre eles, os quais acabavam,
assim, por se tornar numa espécie de protetorados britânicos23. Segundo Fialho,
estes ficavam com um estatuto semelhante ao do sultanato de Zanzibar24. Tal
como em Zanzibar, também nos territórios africanos portugueses eram os
britânicos quem decidia o valor dos impostos, quem indicava as obras públicas a
serem feitas e quem impunha a liberdade de comércio, religião e ensino. Porém,
para o escritor, os portugueses eram «vinte vezes mais espoliados do que esse
sultanato bárbaro»25. Zanzibar, apesar de ter de respeitar o domínio da Grã-
Bretanha, recebia um pagamento anual pelo «uso» do seu país e não gastava
dinheiro em obras públicas, em exército ou polícia26. Já os portugueses, para
além de dominados, viam-se obrigados a custear aquilo que os britânicos
desejavam construir ou organizar e nada obtinham em troca27. Tudo isto, a que
se juntava o recurso ' consagrado na Ata Final da Conferência de Berlim de 1885
' a uma arbitragem internacional pressionada e influenciada pelo poderio da
Grã-Bretanha sempre que esta não concordasse com uma medida estabelecida por
Portugal, bem como a falta de capacidade comercial e de iniciativa lusa na
zona, tornava o país num servo das vontades britânicas, trazendo-lhe, para além
do vexame, fortes prejuízos económico-financeiros28. A seguinte passagem
ilustra bem a indignação que Fialho sentia face a esta deliberação específica
do tratado:
«Não poderemos beneficiar com um direito protecionista, este ou aquele
distrito, este ou aquele artigo. Porque apesar de estarmos em nossa casa, o
inglês não deixa! Não poderemos criar mercados nossos, vulgarizar produtos
nossos, dar vazante a coisas da nossa indústria. O inglês não deixa! emos de
construir a viação por aquele traçado, e não por este, porque o inglês não
deixa! emos de educar a nossa mocidade fora da religião que o Estado se adota
na Metrópole, sofrer que em nossa casa o protestante nos infame à vista de
nossos filhos, e que o estrangeiro nos explore as necessidades, nos
sobrecarregue com as despesas, nos mine a terra, nos amachuque o orgulho, e nos
emporcalhe a tradição! E tudo isto porque o inglês não deixa, e sempre porque o
inglês não deixa!»29
Alongo prazo, o autor d'Os Gatosprevia a espoliação completa dos territórios
portugueses em África por parte da Grã-Bretanha30. A razão era, no fundo, o
struggle for life, que decorria não só entre os indivíduos, como, também, ao
nível das nações, sobretudo, a partir do momento em que fora estipulado o
direito por ocupação efetiva:
«a África tornou-se, já disse, o grande campo de feira da futura atividade
colonizante da Europa, e não resta dela hoje um palmo de terra fértil, onde uma
potência colonial não tenha posto a sua insígnia. Platós centrais, costas,
montanhas, rios, lagoas, tudo a febricitante cobiça de três ou quatro nações
repartiu entre si furiosamente, pelos recentes tratados diplomáticos, ' as
fortes esgatanhando as fortes, com as patas sobre o peito das mais fracas, as
manhosas deixando às simples a guarda dos bocados que ora não podem abarcar, e
jungindo-as a si de pés e mãos, té ao dia em que alijadas de mores encargos,
livremente possam apropinquar-se então esses depósitos».31
Assim, para os britânicos, o domínio sobre aquelas parcelas de terra era «uma
questão de vida ou de morte» se queriam impedir o avanço alemão no Sul do
continente32. Portugal era «o selvagem da Europa», uma pedra no sapato nos seus
projetos e nos das outras grandes potências33. Tinha demasiada presença em
África, mas, ao mesmo tempo, era uma nação demasiado fraca para merecer
respeito na corrida às fatias territoriais. Por isso, tinha que ser esmagada no
processo. Fialho, tal como em relação ao funcionamento das sociedades, mostra-
se contra o struggleselvagem nos processos de ocupação de territórios
coloniais, struggleesse simbolizado na corrida à ocupação efetiva e ao qual
contrapõe o direito histórico como uma espécie de legitimação moral das
pretensões portuguesas34. No seu discurso, surge mesmo a presença de um vício
moral ' a inveja ' como estando na base do comportamento britânico para com
Portugal ao longo dos séculos35.
O tratado deu um novo impulso à contestação ao Governo e, no caso republicano,
também à contestação ao próprio regime. O Governo de António de Serpa Pimentel
não resistiu e caiu, seguindo-se quase um mês de vazio de poder. O que lhe
sucedeu, liderado por João Crisóstomo, assina novo acordo com o Governo
britânico, em novembro. Porém, as alterações trazidas por essa revisão não
agradaram à British South Africa Company, que, em dezembro, em Manica, deteve
uma força portuguesa onde pontificavam Paiva de Andrade, João de Resende e
Manuel António de Sousa, na região, ao que parece, em missão de policiamento36.
A situação acabou por ser resolvida graças à intervenção dos governos britânico
e português, mas o episódio foi suficiente para motivar novo artigo exaltado de
Fialho. Neste, parece acreditar na possibilidade de enfrentar militarmente os
britânicos em África. Não as forças governamentais, mas as companhias
comerciais, que, segundo as autoridades da Grã-Bretanha, agiam à sua revelia37.
Sugere, assim, o reforço da presença militar na região, não apenas com os
«batalhões patrióticos», mas com tropas do próprio exército regular da
metrópole38.
Um segundo governo de Crisóstomo voltou a assinar novo e definitivo convénio a
11 de junho do ano seguinte39. A verdade é que este, apesar de ser mais
penalizador para Portugal, pouca contestação terá sofrido40. Os motivos desse
silêncio poderão ter sido, por exemplo, o jogo estratégico dos partidos
monárquicos, a repressão pós-revolta republicana do Porto de 31 de janeiro de
1891 e as divisões no seio do Partido Republicano41, ou mesmo, nas palavras de
Maria Manuela Lucas, «da consciência já então dominante nas várias correntes de
opinião, da incapacidade portuguesa de travar as ambições imperiais
britânicas»42.
OS PORTUGUESES PERANTE O CONFLITO ANGLO-LUSO
Assim como no seu pensamento geral, em todo o discurso fialhiano sobre o
assunto colonial deparamo-nos com um duplo posicionamento perante o papel do
povo. Em janeiro de 1890, Fialho parece acreditar na sua capacidade para mudar
o estado de coisas, sendo que o problema está apenas na atitude das classes
mais altas43. Todavia, logo no mês seguinte, as suas esperanças começam a ser
rebatidas44. No artigo «Cobardes!», Fialho relata que se havia convocado uma
«reunião popular» no Coliseu, com o objetivo de se decidir sobre o modo de
agradecimento às imprensas espanhola e francesa pela sua solidariedade com
Portugal na contenda com a Grã-Bretanha45. Apesar de haver autorização para a
realização do encontro, quando chegou a hora do seu início, o governador-civil
mandou fechar o Coliseu, colocando umas dezenas de guardas à sua porta, que
dispersaram as pessoas fazendo uso da violência46. Fialho indigna-se com a
forma cobarde como toda a gente fugiu, sem resistir, sem lutar:
«Vimos esse povo voltar, rua Nova da Palma abaixo, apático e moído, cheio de
prudência e de medo, e com um amor à vida e às comodidades, que nenhuma ilusão
nos deixa mais acerca do futuro de infâmia e de lodo em que o temos de ver
acabar de estiolar-se. [ ] e viram-se correr de novo os clubes dispersados,
agregar-se de roda de Manuel de Arriaga um rudilhão de decididos, dois, três
mil, todos veementes, vigorosos, cheios de saúde e força física ' que trinta
polícias de chanfalho embaínhado, dispersaram num abrir e fechar de olhos, sem
outra reação mais do que a fuga de todos esses cobardes que momentos antes
bramaram contra o ministério e contra o rei!»47
O mesmo acontecera, nessa noite, aquando de uma concentração junto ao monumento
a Camões, com o intuito de nela colocar uma coroa de flores, forma de assinalar
a passagem de um mês sobre o Ultimatum. Alguns milhares de pessoas não foram
capazes de furar um cordão de pouco mais de uma centena de guardas e polícias,
e, pior, dispersaram logo aos primeiros apitos da autoridade48. Este evento,
ocorrido a 11 de fevereiro, ficou, deste modo, conhecido como «campanha dos
apitos»49. Em sua «homenagem», Fialho, juntamente com outros companheiros do
Martinho, colocou uma coroa de alhos e palha na estátua de D. José, da qual
pendiam duas fitas que diziam: «11-2-1890 ' Manifestação autorizada pelo
Governo. Homenagem do povo português à dinastia dum rei que numa hora de luto
público lhe proibiu de ir abraçar-se à estátua do seu poeta»50.
Em jeito de conclusão, Fialho critica toda aquela gente que, nas últimas
semanas, muito havia protestado e discursado, mas que, chegado o momento de
agir, fugia51. Tal atitude só poderia significar uma total falta de convicções
e de verdadeiro patriotismo, o que o leva a apelidar o povo de «lama
plástica»52. Este juízo terá a sua continuação, por exemplo, em «À La
Lanterne!», outro artigo de Pontos nos ii, datado de setembro de 1890. Aí, fala
em «massa avulsa, sem direção, nem ideal, de braços cruzados, à espera que lhe
digam paga! pra pagar, e à espera que lhe digam foge! pra fugir!»53. No fundo,
efeitos da inexistência de uma opinião pública esclarecida, capaz de pensar por
si própria e de defender os seus interesses e os da nação, bem como de uma
elite intelectual que a orientasse54.
Pouco tempo antes, n'Os Gatos, Fialho ridicularizara a atitude dos portugueses
a propósito de uma manifestação patriótica inserida no protesto contra o
tratado de 30 de agosto. Esta incluía a cobertura da estátua de Camões com
crepes, uma replicação do que acontecera a 15 de janeiro. Porém, antes de o
fazerem, os organizadores foram, cordialmente pedir autorização ao Governo
Civil, o qual, como é óbvio, não a deu55. Para Fialho, esta situação era o
cúmulo da indolência, o símbolo de uma mentalidade caquética, no fim de
contas56, da própria civilização liberal portuguesa, assente no compromisso, na
paz e na ordem acima de tudo, mesmo do interesse nacional.
Ao longo do ano, as grandes iniciativas patrióticas de reação ao
Ultimatumforam, gradualmente, perdendo fôlego: a Grande Subscrição Nacional, a
Liga Patriótica do Norte, a Liga Liberal, etc., tudo a culminar com a última e,
porventura, mais desesperada de todas elas, a insurreição republicana do Porto,
já em 189157. De facto, ainda em maio, já Fialho denunciava a falência das três
linhas essenciais da «guerra patriótica»: o boicote aos produtos britânicos, a
subscrição nacional para aquisição de material de defesa militar, a propaganda
antimonárquica58. O primeiro havia durado apenas o obrigatório período de nojo;
a segunda, após a euforia dos dias iniciais, começou a ser cada vez menos
concorrida; a terceira, revelara-se completamente incipiente59. Na origem do
destino das duas primeiras linhas vislumbra-se a «praga moral» do egoísmo e do
egocentrismo. Oque parecia ser importante para os portugueses não eram as
grandes questões nacionais, mas os seus interesses pessoais. Não se lutava
contra a decisão governamental de ceder à Grã-Bretanha por medo de se perder o
emprego ou de se ser preso60. Nem mesmo os jornais pareciam dar a importância
suficiente ao tratado, dando mostras de um certo conformismo61. O povo, afinal,
acabava por seguir os exemplos da classe dirigente.
A falta de verdadeiro empenho na defesa dos interesses nacionais em África não
resultava apenas do «que cinquenta anos de paz», «de governos infames e de
educações deprimentes» haviam feito «dum povo forte» e «duma raça acostumada a
não tolerar injúrias nem mordaças»62. Aqueles que tinham o dever de estar
sensibilizados para o assunto, os políticos, os diplomatas, os cientistas,
também se mostravam incompetentes e desconhecedores da sua crucialidade. De
acordo com Fialho não havia qualquer plano organizado para a colonização dos
territórios africanos, apenas a realização de algumas expedições, a construção
ao acaso de vias férreas e outras obras públicas, concessões de terrenos a
companhias corruptas e a nomeação para cargos administrativos de pessoal
incapaz63. Não existia uma biblioteca colonial, o arquivo do ministério da
Marinha não estava organizado e era, por isso, inconsultável, os relatórios dos
governadores ultramarinos eram ignorados, e os parlamentares nem sabiam onde se
situavam geograficamente os territórios de que se falava nos debates64. É
possível que algumas destas afirmações até tivessem correspondência na
realidade, mas também é bem sabido que existiram projetos estratégicos de
colonização africana desde pelo menos o início do liberalismo e que o interesse
pela problemática colonial cada vez mais se vinha a expandir entre as elites
portuguesas desde meados da década de 7065 Provavelmente, Fialho, por motivos
político-ideológicos inerentes a alguns dos objetivos da sua «campanha»
cronística, leia-se denunciar a incompetência dos políticos portugueses,
procurasse associar a cedência dos governantes na defesa dos interesses
nacionais em África perante os britânicos com a falta de interesse e
conhecimento do assunto, quando essa cedência, na realidade, provinha, acima de
tudo, do facto de existir um enorme, e difícil de aceitar, desequilíbrio de
forças ' político, económico, militar, colonial, diplomático ' entre Portugal e
a Grã-Bretanha.
A ADMINISTRAÇÃO COLONIAL
Numa fase posterior, ultrapassada a tempestade de 1890-1891, a atenção de
Fialho vira-se para a forma como o Governo pretendia colonizar e administrar os
territórios africanos. A sua reflexão sobre a matéria surge a propósito de um
relatório apresentado em finais de 1891 pelo então ministro da Marinha e
Ultramar Júlio de Vilhena (embora, desde julho, fosse o conde de Valbom quem
ocupava interinamente o cargo).
Fialho começa por criticar o Governo por ter ordenado o cessar da atividade de
expedições portuguesas no hinterlandde Angola quando sabia que os belgas se
encontravam em missões de exploração exatamente na mesma zona66. Arriscava-se,
assim, a vê-la anexada pelo Congo, o que significaria a perda do comércio
angolano67.
Mas o seu ataque dirige-se, sobretudo, ao caso moçambicano, para o qual havia
sido adotada uma política de concessões desastrosa. O Governo distribuíra de
forma anárquica milhões de hectares de território por companhias e indivíduos,
concedendo-lhes tais privilégios que punha em perigo a sua continuação em mãos
portuguesas68. Os contratos previam privilégios que, para além das óbvias
possibilidades de construir infraestruturas básicas e utilizar os rios para
navegação, incluíam a autoridade para fundar bancos e emitir ações e
obrigações, organizar o exército e os tribunais, lançar impostos e negociar
concessões de terras e afins com os indígenas69. Ora, a quase total
descentralização de poder demonstrava um desinteresse do Governo perante as
colónias africanas e poderia significar a médio, ou a longo prazo, que estas,
caso os concessionários as desejassem trespassar, corriam o risco de ser
adquiridas por companhias ou indivíduos britânicos70. Segundo Fialho, os
concessionários não eram homens de confiança e facilmente se «venderiam» aos
ingleses71. Para além disso, o plano de ocupação governamental tinha afastado
de África o «capitalismo sério», os banqueiros e as casas de comércio credíveis
e poderosas, as quais, desse modo, haviam cessado a participação de capital
nessas empresas que «a leviandade ministerial tornou suspeitas à nascença»72.
Portanto, das duas, uma: ou os concessionários trespassavam os territórios aos
ingleses, ou, não o fazendo, acabavam por não dar qualquer lucro ao Estado,
visto serem «burgueses pobres» ou «capitalistas risíveis», que, sem o apoio do
grande capital, agora desconfiado, não tinham capacidade para se aguentarem
sozinhos73.
Em conclusão, este sistema de arrendamento a companhias não era o indicado para
a colonização portuguesa visto ser pouco lucrativo, sujeito a abusos por parte
dos concessionários e perigoso para a continuidade de Moçambique sob domínio
português. O Governo procurava imitar o que os britânicos haviam feito com
sucesso, por exemplo, no Sul de África, mas, em zonas onde a civilização
ocidental já havia chegado há muito, como em Moçambique, tal não era viável74.
A substituição do Estado pelas companhias na ação colonizadora não era algo que
Fialho rejeitasse completamente. A grande questão era a completa alienação do
Estado em todo o processo, circunstância explicável pelo beco sem saída a que o
Governo havia chegado após o último tratado com a Grã-Bretanha. Para Fialho, o
Governo, apesar de não possuir os recursos necessários para tal, vira-se
obrigado pelo tratado de 11 de junho a civilizar e a desenvolver Moçambique, o
que o levara a apostar naquele sistema na esperança de poder satisfazer esses
compromissos e, ao mesmo tempo, fazer pouca despesa75.
Era, de facto, isso que se estava a passar. Dada a falta de fundos financeiros
estatais suficientes (e provavelmente, também, de recursos humanos), o Governo,
pressionado pela necessidade de pacificar, ter uma presença efetiva no terreno
e construir uma linha de caminho de ferro entre o litoral de Moçambique (Beira)
e as posses britânicas no interior (Rodésia) ' medida prevista no convénio
atrás referido ' não teve outra hipótese senão promover a ocupação e
desenvolvimento daquele território por meio de concessões a companhias de
capital maioritariamente estrangeiro e com largos poderes de soberania76.
OS DIPLOMATAS
Importa ainda chamar brevemente a atenção para a visão fialhiana sobre os
diplomatas portugueses em geral, e sobre os que estiveram envolvidos nas
negociações com a Grã-Bretanha em particular.
Primeiro de tudo, é fundamental percebermos qual era, na sua opinião, a função
de um diplomata no mundo moderno. Fialho tinha a consciência que estes já não
tinham a importância e o poder de outros tempos. Antigamente, os diplomatas
tinham larga autonomia e, por vezes, apenas pelo seu prestígio ou inteligência,
conseguiam grandes vantagens para os seus países nas negociações que
conduziam77. Naquela época, tal já não sucedia. Os governos tratavam
diretamente dos assuntos mais importantes, e o poder supremo estava nas mãos da
opinião pública, o que deixava para os diplomatas apenas as questões menores78.
Com a perda de boa parte do conteúdo da sua função, os aspetos formais
tornavam-se cada vez mais fundamentais79. Assim, o diplomata deveria ser, para
além de «regulador da pressão política entre dois povos», «a imagem viva da
Pátria, o espelho das virtudes e das aspirações da nação que lhe dá plenos
poderes, o puro escorço moral duma família, a síntese filosófica, fumegante,
flagrante, duma raça»80. Como em muitos outros tópicos da reflexão fialhiana,
encontramos aqui a presença da importância da estética numa matéria que, à
partida, pouco tem a ver com ela. A isso não deve ser alheia a faceta mais
dandesca de Fialho, ainda para mais quando o dandismo surgia, muitas vezes,
associado à posição de diplomata. Um dos seus modelos nacionais no campo do
dandismo, António da Cunha Sotto-Mayor, havia sido embaixador, por exemplo.
Porém, os representantes portugueses no estrangeiro não respondiam a estas
exigências. Desde logo, porque eram gente «desnacionalizada». A sua função era
representar Portugal, mas tudo faziam para não parecerem portugueses,
disfarçando o seu ar latino e usando «sotaques exóticos» mesmo quando de lá
regressavam81. Depois, porque eram simplesmente incompetentes. Desconheciam as
matérias em questão e pareciam pouco empenhados em pugnar pelos interesses do
país82. Viviam na indolência, pouco ou nada fazendo a não ser gastar os
dinheiros públicos, passear-se por festas e jantares e fazer figuras ridículas
pelo mundo fora83. Era o preço a pagar pela forma como eram nomeados. Tal como
noutros cargos políticos, a sua nomeação era feita por compadrio e não por
mérito84. Encarava-se a diplomacia como mais uma forma de escoar os filhos dos
homens ricos e influentes, e, desta maneira, agradar às clientelas85. Mais uma
vez, surge a ideia de que os homens públicos, em vez de se baterem pelos
interesses nacionais, usavam os seus cargos para defenderem os seus interesses
pessoais86. De tudo isto, Fialho infere as nossas derrotas constantes quando se
tratava de defender os interesses nacionais no estrangeiro87e nem sequer
demonstra receio em apontar nomes de bons exemplos de diplomatas incompetentes:
Henrique de Macedo, em Bruxelas, Miguel Martins Dantas, em Paris, o marquês de
Penafiel, em Berlim, o conde de São Miguel, em São Petersburgo, Vicente
Pindela, na Haia, Alfredo Anjos, em Berna, e o conde de Valenças, em Viena88.
Em relação ao caso específico dos negociadores do tratado de 20 de agosto de
1890, Hintze Ribeiro e Barjona de Freitas, a crítica de Fialho é ainda mais
devastadora. Para ele, tratava-se de «dois imbecis»89. O primeiro é apelidado
de «estúpido furriel da diplomacia indígena» e «banalíssimo e grotesco
charlatão da arlequinada monárquica», num texto que o apresenta como alguém
abaixo das responsabilidades exigidas pela missão e culpado da humilhação
portuguesa consubstanciada naquele acordo90. No entanto, é no segundo, a quem
chama o «patusco homem de pau do sr. Hintze»91, que Fialho centra o seu fogo.
Começa por afirmar que Barjona havia sido escolhido para ministro
plenipotenciário em Londres como forma de o afastar da Câmara dos Deputados, na
qual poderia mover uma feroz oposição ao Governo92. De facto, Barjona, um
dissidente do Partido Regenerador, agora no poder, havia formado a Esquerda
Dinástica há cerca de dois anos e meio, e, com a nomeação diplomática, o
agrupamento acabou por se dissolver, resolvendo um problema aos seus antigos
correligionários.
Mas é com o enfoque no aspeto estético da diplomacia, ao qual, como já vimos,
dava extraordinária importância, que Fialho se torna demolidor. Começa por
descrevê-lo como
«uma bestinha mansa e pegadiça, sem entusiasmo, porque nem a idade nem a índole
permitem que ele se entusiasme: sem proficiência, porque tirante escamoteações
forenses, não consta que o homenzinho tomasse gosto por outras questões que não
revistam a forma de charutos de seis vinténs, e de baixos ventres de sopeiras
[ ] sem a menor familiaridade com os instrumentos que poderiam facilitar-lhe a
tarefa, verbi gratiao manejo da língua falada pelo diplomata com quem havia de
entender-se»93.
Depois, passa para a análise das suas origens familiares e do seu aspeto
físico. Recorre a Lombroso para traçar uma figura simiesca, fruto de maus
cruzamentos sanguíneos, e que denunciava «uma inferioridade atávica» semelhante
à dos criminosos estudados e compilados pelo cientista italiano94. Os hábitos
de socialização viciosos de Barjona, baseados no gosto pelas mulheres, pelo
jogo e pela comida, confirmavam a degenerescência, assim como a sua forma de
vestir, sem gosto, o fazia em relação às suas raízes plebeias95. Tudo isto para
dizer que, em termos da mise-en-scèneexigida pelo ofício de diplomata, Barjona
era completamente inadequado. Não possuía um porte aristocrático na forma de
vestir, de conversar, de estar. Bem pelo contrário: comportava-se de forma
subalterna, reverente, grosseira, desleixada96.
Para além da parte formal, havia o componente técnico, e, no que lhe diz
respeito, Barjona também chumbava no teste. Fialho considerava-o um indivíduo
sem qualquer preparação, pouco esclarecido acerca do problema colonial e que
partira para as negociações sem um plano definido97. No fundo, por mais que
tentasse disfarçar e passar por um homem culto e civilizado, não conseguia
escapar ao «cavador» encerrado dentro dele, tendo feito, perante o primeiro-
ministro britânico Lord Salisbury, «a figura de um orangotango ao pé de
Júpiter»98. Desta forma, Barjona tinha sido incapaz de, perante os políticos
britânicos, impor-se como uma figura de respeito e, assim, defender
verdadeiramente os interesses do seu país.
Como sabemos, e já atrás referimos, não é legítimo atribuir as culpas da
cedência portuguesa nas negociações com os britânicos aos diplomatas nacionais.
À época, a Grã-Bretanha era a maior potência mundial. Portugal nunca poderia
sair como principal beneficiário de qualquer tratado que com ela assinasse.
Este discurso de Fialho só pode ser compreendido à luz da exaltação do período
pós-Ultimatum, em que todos os ressentimentos antibritânicos acumulados ao
longo do século xix, e até anteriormente, explodiram99. Fialho nunca sequer viu
Barjona em pessoa100e muito menos assistiu às negociações que o ex-chefe da
Esquerda Dinástica desenvolveu com o primeiro-ministro britânico. Ainda assim,
escreve toda uma crónica à volta do aspeto físico de Barjona, da sua
personalidade, hábitos, origens familiares e conversações com Lord Salisbury
sem qualquer conhecimento de facto sobre os assuntos, a não ser sobre o
desfecho do esforço diplomático em causa. Mas isso não era o fundamental: o que
importava era usar Barjona como bode expiatório da pequenez nacional, como
objeto de descarregamento da sua raiva e como forma de melhor transmitir uma
ideia, a ideia de que a classe política estava decadente e que não era capaz de
defender os interesses nacionais. Para o fazer, nada melhor do que, através de
um quadro marcante ' pela feição grotesca, satírica, caricatural, mesmo cómica,
a tempos ' personificar, numa personalidade e comportamento, todos os defeitos
dos dirigentes portugueses101.
CONCLUSÃO
Até por volta de 1889, Fialho não era um homem politizado. O seu amigo
Fortunato da Fonseca revela mesmo que, «de política», o grupo de boémia de
Fialho apenas sabia «que existia o Fontes»102. Porém, como já dissemos, com o
Ultimatuma sua escrita cronística ganha uma dinâmica verdadeiramente
interventiva a nível político, por vezes, até mesmo panfletária. O ambiente de
exaltação que então se vivia e a frequência de espaços de conspiração
republicana ' como o Café Martinho e a redação do jornal A Pátria' embora não
tenham sido os únicos elementos favorecedores desse fenómeno, tiveram, com
certeza, uma influência decisiva. É no contexto desse repentino despertar para
o fenómeno político, marcado pelo aparecimento de uma jovem geração de
republicanos de tendência revolucionária ' a «geração ativa» ' e pela
contestação ao regime monárquico e ao sistema liberal, que o conteúdo da visão
fialhiana sobre a problemática diplomático-colonial deve ser entendido. Por sua
vez, é no âmbito desse ambiente emocionalmente descontrolado e de uma tentativa
de transmitir aos leitores, de modo eficaz, uma ideia crítica do País, que a
forma dessa mesma visão deve ser compreendida. É importante referir, ainda,
embora não lhe tenhamos aludido no desenvolvimento deste artigo por não ser
oportuno, que as próprias frustrações pessoais de Fialho ' relacionadas com a
sua situação económica e socioprofissional ' também desempenharam um papel nas
suas motivações enquanto crítico do status quodo País, marcando, de modo
inevitável, tanto a forma, como o conteúdo do seu discurso.
Embora, por limites de espaço, não tenhamos abordado o seu envolvimento
extrajornalístico na questão, é fundamental recordar que Fialho esteve sempre
na linha da frente, no terreno, quando se tratou de manifestar desagrado pela
situação então vivida. Logo desde o dia 12 de janeiro, participou em diversas
manifestações de rua, como a de 15 desse mês, que culminou com a cobertura da
estátua de Camões com crepes103. Esteve presente na famosa «assaltada ao
Martinho», em setembro, e terá sido ele, inclusive, juntamente com Marcelino
Mesquita, quem teve a ideia de organizar a Grande Subscrição Nacional104.
É necessário, igualmente, lembrar que Fialho de Almeida não se limitou a
criticar, tendo sido alguém que também apresentou soluções para os males que
diagnosticava, inclusive no que diz respeito à questão colonial. Considerando
que a independência portuguesa dependeria da presença em África, defendeu uma
política colonial cuidadosamente estruturada, assente numa efetiva presença no
terreno de militares, colonos e companhias comerciais portuguesas, no
desenvolvimento de infraestruturas e na sensibilização da sociedade
metropolitana para a essencialidade de encarar as colónias como uma fonte
inesgotável de riqueza e um garante de autonomia, sobretudo quando se tratava
de um país pequeno e pobre como Portugal105. Mas o que estava em causa não era
apenas a importância económica das colónias. Fialho acreditava que Portugal era
um país destinado a civilizar o mundo através da sua ação colonizadora. O povo
português tinha uma aptidão natural para essa tarefa, aptidão essa provada pela
história da sua ação ultramarina ao longo dos séculos106. Há aqui, também, uma
tentativa de distinguir o tipo de colonização portuguesa das outras. Impedido,
pela inferioridade face às grandes potências da altura, de ter um papel
semelhante ao do século xvi, o Portugal colonial de Fialho é pacífico e
humanitário, de ação, sobretudo, espiritual e cultural. Em todo o caso, não
deixa de ser uma conceção imperialista que busca a afirmação geopolítica de
Portugal no mundo. Aquando do anúncio, em dezembro de 1890, da realização de
uma expedição a Manica, em Moçambique, o escritor vila-fradense declara:
«Querem estas coisas dizer que a África principia a ser de novo o sonho
colonial dum país que toda a vida foi colonizador; que a África principia a ser
o campo de parada entressonhado para a desinvolução dalguma empresa grandiosa,
como o foram o Brasil e o Império da Índia [ ] Pois que a paixão das colónias
se acende entre nós, lance o Governo as bases gerais do futuro Império
Português nas duas costas.»107
Os territórios africanos surgem, deste modo, também, como uma hipótese de
Portugal sair da sua decadência e tornar a ser poderoso e influente no mundo,
funcionando como uma substituição moderna da Índia e do Brasil.
Podemos, assim, dizer que Fialho reúne no seu pensamento as duas ideias que
estão na base do projeto colonial português oitocentista e a que Valentim
Alexandre chamou o «mito do Eldorado» e o «mito da herança sagrada»108. O
primeiro, prendia-se com a convicção de que o continente africano seria uma
nova fonte de riquezas para a metrópole, substituindo o Brasil, permitindo a
resolução dos problemas económicos do País e facilitando a sua independência e
afirmação como potência; o segundo, para além de intimamente ligado com a
conceção das possessões ultramarinas como territórios inalienáveis da metrópole
por direito histórico, relacionava-se com a ideia de que essas mesmas
possessões, constituídas em império, «corporizava[m] o espírito de missão que
dava à nação a sua razão de ser», missão, essa, de civilização e
evangelização»109.
Ao mesmo tempo, e para finalizarmos, é importante localizar o posicionamento
fialhiano perante os acontecimentos pós-11 de janeiro de 1890 entre o resto da
intelligentsiaportuguesa. Se é verdade que toda ela se indignou com o
Ultimatume com as consequências político-diplomáticas que se prolongaram até ao
ano seguinte, também o é que não o fez toda da mesma forma. Se para
republicanos como Teófilo Braga, Guerra Junqueiro e Basílio Teles, o problema
estava, sobretudo, no regime monárquico, para outros como Antero de Quental,
Eça de Queirós ou Oliveira Martins, tratava-se de algo de mais profundo, com
causas mais remotas e essencialmente ligadas à cultura e às mentalidades do
povo português, mas também ao sistema (não confundir com regime) político-
económico liberal ' no caso de Martins ou Antero ' e que todos vinham vindo a
abordar nas suas obras desde os anos 70110. Assim, a solução para a crise '
sim, porque esta também era vista pelos intelectuais portugueses como uma
oportunidade de mudança ' passaria, no caso dos primeiros, pela substituição da
monarquia por uma república, e, no dos segundos, por uma série de reformas
profundas, mas que não passavam pela alteração de regime111. Eça, por exemplo,
também não via com bons olhos todas aquelas manifestações e campanhas
antibritânicas, as quais encarava como contraproducentes e infrutíferas112.
Quanto a Fialho, existe, no seu pensamento, desde sempre, uma preocupação
omnipresente com os aspetos extrapolíticos da crise/decadência portuguesa '
culturais, mentais, ético-morais, educacionais ' não obstante esta ser mais
visível a partir de meados da década de 90. Aqui, podemos estabelecer uma
relação entre o autor de Os Gatose figuras como Antero, Eça ou Martins. Porém,
as críticas violentas e muito centradas na monarquia e no rei que desenvolve ao
longo desses anos de 1890-1892, colocam-no, por sua vez, e por razões já atrás,
nesta mesma conclusão, afloradas, muito mais próximo do discurso e atitude
político-ideológica revolucionária dos republicanos, do que dos intelectuais
mais moderados ligados à Geração de 70.
NOTAS
1
Este artigo é constituído, na sua quase totalidade e com algumas adaptações,
por um capítulo da tese de doutoramento do autor em História Cultural e das
Mentalidades Contemporâneas intitulada A Ideia de Decadência Nacional em Fialho
de Almeida, a qual foi defendida em setembro de 2010 na fcsh ' unl. O nosso
agradecimento a Pedro Aires Oliveira pela leitura da versão original do artigo
e pelas suas sugestões daí advindas, as quais, estamos certos, em muito
ajudaram a melhorá-lo. Todas as citações foram submetidas a uma atualização
ortográfica. Sempre que colocamos várias referências de fontes ou bibliografia
numa única nota de rodapé, e na seguinte surge a indicação idem, ibidem, ou
apenas ibidem, estamos a reportar o leitor apenas para a última dessas
referências anteriores. Sempre que colocamos várias referências de fontes ou
bibliografia numa única nota de rodapé e esta começa com cf., a expressão
aplica-se a todas as referências da nota. Os textos de Fialho inseridos nas
obras Os Gatose Vida Irónicanão têm propriamente um título. Têm sim, no índice
de cada capítulo, que, no caso d'Os Gatos, corresponde a um número da
publicação original, uma série de frases que constituem uma espécie de resumo
do conteúdo dos textos. Para uma melhor identificação dos textos cada vez que
os citamos em nota de rodapé, optamos por lhes atribuir como título a primeira
e a última dessas frases que lhes correspondem nos índices, separadas por um
travessão. Por vezes, o texto é tão breve que tem apenas uma frase no índice.
Nesse caso, só colocamos essa frase.
2
Para a elaboração deste parágrafo baseámo-nos em Teixeira, Nuno Severiano '
«Colónias e colonização portuguesa na cena internacional (1885-1930)». In
História da Expansão Portuguesa, dir. de Francisco Bethencourt e Kirti
Chaudhuri. Lisboa: Círculo de Leitores, s. d. [imp. 1998], vol. iv, p. 496; Proença, Maria Cândida, e Manique, António Pedro ' «Da
reconciliação à queda da Monarquia». In Portugal Contemporâneo, dir. de António
Reis. Lisboa: Publicações Alfa/Selecções do Reader's Digest, 1996, vol. i, p.
450; Telo, António José ' «Um sonho cor-de-rosa? Portugal, a
Europa e a África (1879-1891)». In Medina, João (dir.) ' História de Portugal.
Amadora: Ediclube, s. d. [2004], vol. xi, pp. 451-455.
3
Cf. Alexandre, Valentim ' «Portugal em África (1825-19704): uma visão geral».
In Velho Brasil, Novas Áfricas. Portugal e o Império (1808-1975). Porto:
Edições Afrontamento, 2000, p. 235.
4
Cf. Teixeira, Nuno Severiano ' «Colónias e colonização portuguesa na cena
internacional (1885-1930)». p. 498; Alexandre, Valentim ' «O
Império Português (1825-1890): ideologia e economia». In Análise Social. Vol.
xxxviii, N.º 169, 2004, pp. 968-969; Alexandre, Valentim ' «A
questão colonial no Portugal oitocentista». In Serrão, Joel, e Marques, A. H.
de Oliveira (dir.) ' Nova História da Expansão Portuguesa, vol. x, O Império
Africano (1825-1890), coord. de Valentim Alexandre e Jill Dias. Lisboa:
Editorial Estampa, 1998, p. 96; Medeiros, Carlos Alberto '
«Os exploradores africanos do último quartel do século xix». In Medina, João
(dir.) ' História de Portugal. Vol. xi, pp. 435-437; Telo,
António José ' «Um sonho cor-de-rosa? Portugal, a Europa e a África (1879-
1891)», p. 469.
5
Cf. Telo, António José ' «Um sonho cor-de-rosa? Portugal, a Europa e a África
(1879-1891)», p. 470; Alexandre, Valentim ' A Questão Colonial no Parlamento,
vol. i, 1821-1910. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 156-158; Alexandre, Valentim ' «A questão colonial no Portugal oitocentista»,
p. 113. Nesta última obra, na mesma página, o autor explica ainda que
«contrariamente à lenda, a Conferência não consagrava o princípio da ocupação
efetiva para o reconhecimento da soberania de qualquer potência no continente
africano (exigindo-a apenas para o litoral)». Mas, mesmo assim, escreve, na
penúltima obra citada, na p. 158, que «era contestável inferir daí a
persistência dos direitos históricos como fundamento da soberania europeia em
África».
6
Cf. Alexandre, Valentim ' «O Império Português (1825-1890): ideologia e
economia», p. 975; Telo, António José ' «Um sonho cor-de-rosa? Portugal, a
Europa e a África (1879-1891) (cont.)», pp. 10-11.
7
Cf. Alexandre, Valentim ' «O Império Português (1825-1890): ideologia e
economia», p. 976.
8
Cf. Alexandre, Valentim ' «O Império Português (1825-1890): ideologia e
economia», p. 976; Alexandre, Valentim ' «A questão colonial no Portugal
oitocentista», p. 117; Proença, Maria Cândida, e Manique, António Pedro ' «Da
reconciliação à queda da Monarquia», pp. 455-456. Sobre a
ação de Cecil Rhodes em todo o processo que desemboca no Ultimatum, cf.
Birmingham, David ' Portugal e África.S. l.: Vega, 2003, pp. 146-158, e Lucas, Maria Manuela ' «A ideia colonial em Portugal (1875-1914)».
In Revista de História das Ideias. Vol. 14, Coimbra, 1992, pp. 307-311.
9
Sobre os efeitos do Ultimatum na população e opinião pública cf. Homem, Amadeu
Carvalho ' «OUltimatum inglês de 1890 e a opinião pública». In Revista de
História das Ideias. Vol. 14, Coimbra, 1992, pp. 281-296;
Leal, Ernesto Castro ' «Opinião pública na província em 1890. Elementos de
agitação e antropologia do português durante a crise do Ultimatum inglês». In
Clio ' Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. Lisboa. Nova
série, Vol. iii, 1998, pp. 39-57; Teixeira, Nuno Severiano '
O Ultimatum Inglês. Política Externa e Política Interna noPortugal de 1890.
Lisboa: Publicações Alfa, 1990, pp. 105-153.
10
Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «O cortejo de dois de março». In
Pontos nos ii. Lisboa. Vol. vi, N.º 244, 27 de fevereiro de 1890, p. 67.
11
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «Ao Povo!». In Pontos nos ii.
Vol. vi, N.º 239, 23 de janeiro de 1890, p. 26.
12
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «O cortejo de dois de março», p.
66.
13
«O paço tornou-se numa dependência da legação britânica: os reis de Portugal,
bonecos de palha dos plenipotenciários do país dos bêbados, das prostitutas e
dos ladrões» (Almeida, Fialho de ' «Carta a D. Carlos sobre as magnificências
da sua aclamação ' Amanhã». In Os Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à Vida
Portuguesa. Nova edição ' revista, prefaciada e anotada por Álvaro J. da Costa
Pimpão. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1945, vol. i, p. 254.
14
Ibidem, pp. 254-255.
15
Publicado originalmente em Pontos nos ii. Vol. vi, N.º 278, de 23 de outubro de
1890. Foi coligido em O País das Uvas(1893).
16
Este tratado e suas consequências foram também esmiuçados por Oliveira Martins
em Portugal em África, publicado originalmente em 1891.
17
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «À La Lanterne!». In Pontos nos
ii. Vol. vi, N.º 273, 18 de setembro de 1890, p. 299.
18
Cf. Almeida, Fialho de ' «O tratado anglo-luso, e delimitação do novo
Moçambique ' O Sr. Hintze Ribeiro, cigano e mau ladrão». In Os Gatos '
Publicação Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa, vol. iii, 1947, pp. 29-30, p.
33.
19
Cf. Ibidem, pp. 25-26.
20
Cf. Ibidem.
21
Cf. Ibidem, p. 30.
22
Cf. Ibidem, pp. 30-31.
23
Cf. Ibidem, p. 32.
24
Cf. Almeida, Fialho de ' «A espoliação portuguesa na África (Panfleto aos
fracos)». In Os Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa. Vol.
iii, p. 88. p. 90. «Queiram agora pôr a par os dois
convénios, o do sultão Bargash com as duas companhias coloniais [...] e o do
sultão Bragança com o governo inglês: e digam-me depois se ambos eles não são
concebidos no mesmo espírito absorvente, e ditados no mesmo fundo de desprezo
absoluto». In Ibidem, p. 92.
25
Cf. Ibidem, pp. 95-96.
26
Cf. Ibidem, p. 96.
27
Cf. Ibidem.
28
Cf. Almeida, Fialho de ' «O tratado anglo-luso, e delimitação do novo
Moçambique ' O Sr. Hintze Ribeiro, cigano e mau ladrão», pp. 32-33.
29
Ibidem, p. 37.
30
Cf. Almeida, Fialho de ' «A espoliação portuguesa na África (Panfleto aos
fracos)», p. 93.
31
Ibidem, p. 87.
32
Cf. Ibidem, p. 95.
33
Cf. Ibidem, pp. 88, 94, 97.
34
Cf. Ibidem, pp. 76-82.
35
Cf. Ibidem, pp. 78-80.
36
Cf. Mattoso, José (dir.) ' História de Portugal, vol. vi, Ramos, Rui ' A
Segunda Fundação (1890-1926).2.ª edição revista e atualizada. Lisboa: Editorial
Estampa, 2001, p. 121; Serrão, Joaquim Veríssimo ' História
de Portugal.2.ª edição revista. S. l.: Editorial Verbo, s. d. [imp. 1990], vol.
x, p. 31; Neves, Olga Iglésias ' «Moçambique». In Serrão,
Joel, e Marques, A. H. de Oliveira (dir.), Nova História da Expansão
Portuguesa, vol. x, O Império Africano (1825-1890), p. 478.
37
Cf. Almeida, Fialho de ' «Aespoliação de África e o exército». In Vida Irónica
(Jornal de um Vagabundo). S. l.: Círculo de Leitores, s. d. [imp. 1992], p. 30.
38
Cf. Ibidem, pp. 30-31.
39
Cf. Mattoso, José (dir.) ' História de Portugal, vol. vi, Ramos, Rui ' A
Segunda Fundação (1890-1926), p. 121.
40
Cf. Ibidem; Alexandre, Valentim ' «O Império Português (1825-1890): ideologia e
economia», p. 977; Teixeira, Nuno Severiano ' O Ultimatum Inglês. Política
Externa e Política Interna no Portugal de 1890, p. 70.
41
Cf. Mattoso, José (dir.) ' História de Portugal,vol. vi, Ramos, Rui ' A Segunda
Fundação (1890-1926), p. 121; Homem, Amadeu Carvalho ' A
Propaganda Republicana (1870-1910). Coimbra: Coimbra Editora, 1990, p. 54.
42
Lucas, Maria Manuela ' «Aideia colonial em Portugal (1875-1914)», p. 311.
43
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «Ao Povo!», p. 26.
44
Omesmo processo de ilusão ' desilusão aconteceu com Basílio Teles, por exemplo.
Cf. Leal, Ernesto Castro ' «Opinião pública na província em 1890. Elementos de
agitação e antropologia do português durante a crise do Ultimatum inglês»,
pp. 53-54.
45
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «Cobardes!». In Pontos nos ii.
Vol. vi, N.º 242, 13 de fevereiro de 1890, p. 50.
46
Cf. Ibidem.
47
Ibidem, p. 50. As maiúsculas são de Fialho.
48
Cf. Ibidem.
49
Cf. Homem, Amadeu Carvalho ' «OUltimatum inglês de 1890 e a opinião pública».
In Revista de História das Ideias, p. 290.
50
Cf. Ibidem, pp. 103-104; Teixeira, Nuno Severiano ' O Ultimatum Inglês.
Política Externa e Política Interna no Portugal de 1890, pp. 133-134.
51
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «Cobardes!», p. 50.
52
Cf. Ibidem, p. 51. A Pátriaresponderia a este artigo com a seguinte declaração:
«O número dos Pontos nos iisaído ontem, insere uma crónica brilhante, como
todas do sr. Fialho de Almeida, em que o nervosismo do escritor o leva a
asserções que precisam de retificação e esclarecimentos. Assim, diz o notável
escritor que a mocidade académica não tem sangue nas veias para reagir contra
as prepotências da autoridade, como o provou, não realizando as manifestações
que estavam projetadas para o dia 11 do corrente. É preciso que se saiba que os
estudantes de Lisboa apenas foram convidados para se agregarem à comissão que
levava a coroa para ser deposta no monumento de Camões; ora os estudantes
embalde esperaram todo o dia que essa coroa aparecesse para se incorporarem no
préstito. É evidente que os estudantes não haviam de ir forçar as linhas de
tropa que guarneciam o largo de Camões para ficarem de mãos a abanar defronte
da estátua. Agora o ilustre escritor, que tão simpático é a toda a classe
académica e que nós nos permitimos ainda considerar como um colega, fique certo
que, quando os estudantes de Lisboa projetarem uma manifestação há de efetuar-
se, dê por onde der, custe o que custar, haja o que houver, enquanto um
estudante só que seja, tiver os braços desembaraçados» («AIrkan». In A Pátria.
N.º 17, 14 de fevereiro de 1890, p. 1 [artigo não assinado]).
53
Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «À La Lanterne!», p. 298.
54
Fialho fala em «classe culta dormindo ou mofando longe dos focos onde a sua voz
poderia valer como conselho ou como protesto» (Ibidem, p. 298).
55
Cf. Almeida, Fialho de ' «Patriotas que põem e tiram crepes ' Abram os guarda-
chuvas, meus senhores!». In Os Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à Vida
Portuguesa. Vol. iii, pp. 40-41.
56
Ibidem. «O amor da pátria aguou-se de reflexão encanecida, e as comissões
patrióticasquando querem arvorar nas estátuas o crepe do protesto, e esfuriar
por ele a revindicta do povo, vão primeiro de chapéu na mão, pedir licença à
autoridade» (Ibidem, p. 45).
57
Cf. Homem, Amadeu Carvalho ' «O Ultimatum inglês de 1890 e a opinião
pública», p. 295.
58
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «O fim do fim». In Pontos nos ii.
Vol. vi, N.º 255, 16 de maio de 1890, p. 154.
59
Cf. Ibidem, pp. 154-155. Escreve Ernesto Castro Leal: «O jornalista bracarense
Dias Freitas, professor de língua inglesa, fez publicar no bissemanário A
Correspondência do Norteuma nota de recorte espalhafatoso: Morra a Inglaterra!
Morram os Piratas! Sendo, desde longa data, professor de Inglês, protesto, sob
minha palavra de honra, nunca lecionar essa língua, que procurarei esquecer.
Apesar de tudo, sete meses depois, Dias Freitas, então redator do bissemanário
Correio de Braga, anunciava a abertura de um externato (do qual era
coproprietário) onde se lecionaria, entre outras disciplinas, o Inglês» (Leal,
Ernesto Castro ' «Opinião pública na província em 1890. Elementos de agitação e
antropologia do português durante a crise do Ultimatum inglês», p. 47).
60
«E como tudo lhe seja indiferente, a Inglaterra e a África, o futuro do país e
o tratado, a república e o rei ' quem tudo isto defenda ou quem tudo isto
vergaste ' e como à suadeira de fazer a revolução com um tempo destes, acresça
o perigo de se perder o amo ou de se perder o lugar, toca a fazer as coisas com
prudência, por modos que os jornais nos chamem patriotas sem os polícias nos
levarem catrafilados». In Almeida, Fialho de ' «Patriotas que põem e tiram
crepes ' Abram os guarda-chuvas, meus senhores!», in Os Gatos ' Publicação
Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa, vol. 3, p. 45. No texto inédito «A
catástrofe», em que Portugal é invadido e ocupado por um país estrangeiro, Eça
de Queirós, numa primeira parte, parece recriar este ambiente de abulia
nacional descrito e sentido por Fialho: «Foi esta sonolência lúgubre, este
tédio, esta falta de decisão, de energia, esta indiferença cínica, este
relaxamento da vontade, creio, que nos perderam [ ] O ódio ao inimigo era
violento, menos pela perda possível da pátria livre do que pelos desastres
particulares que traria a derrota: um, tremia pelo seu emprego, outro, pelo
juro das suas inscrições [ ] No fundo de todos eles havia a ideia da
capitulação, o horror da luta, a ansiedade de ficar sem emprego, o terror de
perder as inscrições!». In Queirós, Eça de ' «A catástrofe», apudMónica, Maria
Filomena ' Eça de Queirós. 4.ª edição. Lisboa: Quetzal Editores, 2001, p. 284.
61
Cf. Almeida, Fialho de ' «Patriotas que põem e tiram crepes ' Abram os guarda-
chuvas, meus senhores!», p. 44.
62
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «Cobardes!», p. 50.
63
Cf. Almeida, Fialho de ' «Patriotas que põem e tiram crepes ' Abram os guarda-
chuvas, meus senhores», p. 42.
64
«Aignorância do Parlamento era pelo menos o dobro da do público, havendo
deputados que punham o Chire na Índia, e antigos Pares do Reino que localizavam
a Mashona, aproximadamente na península de Macau» (Ibidem, p. 41).
65
Cf. Alexandre, Valentim ' «O Império Português (1825-1890): ideologia e
economia», pp. 959-979; Alexandre, Valentim ' «Portugal em África (1825-1974):
uma visão geral». In Velho Brasil, Novas Áfricas. Portugal e o Império (1808-
1975), pp. 236-237.
66
Cf. Almeida, Fialho de ' «O relatório do sr. Júlio de Vilhena sobre o estado
da África oriental ' A Cooperativa-Colonizadora-Fúnebre-Familiar, e
civilização por cinco tostões ao mês». In Os Gatos ' Publicação Mensal de
Inquérito à Vida Portuguesa, vol. v, [imp. 1951], p. 43.
67
Cf. Ibidem.
68
Cf. Ibidem, pp. 45-46.
69
Cf. Ibidem, pp. 48-49.
70
Cf. Ibidem, pp. 50-51.
71
Cf. Ibidem.
72
Cf. Ibidem, pp. 51-52.
73
Cf. Ibidem, p. 53.
74
Cf. Ibidem, p. 58.
75
Cf. Ibidem, pp. 57-59.
76
Cf. Alexandre, Valentim ' A Questão Colonial no Parlamento, vol. i, 1821-1910,
p. 183; Neves, Olga Iglésias ' «Moçambique», pp. 492-493; Telo, António José '
«Um sonho cor-de-rosa? Portugal, a Europa e a África (1879-1891) (cont.)», p.
19.
77
Cf. Almeida, Fialho de ' «Em que se pedem ilustrações ao Livro Branco, para
explicação das nossas derrotas diplomáticas ' Perde-se Moçambique por S. Ex.ª
nunca ter tido bons casacos». In Os Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à
Vida Portuguesa, vol. iii, pp. 137-138.
78
Cf. Ibidem; cf., também, Almeida, Fialho de ' «Um juízo do ano». In «Barbear,
Pentear» (Jornal de um Vagabundo). 4.ª edição. Lisboa: Livraria Clássica
Editora, 1923, p. 7.
79
Cf. Almeida, Fialho de ' «Em que se pedem ilustrações ao Livro Branco, para
explicação das nossas derrotas diplomáticas ' Perde-se Moçambique por S. Ex.ª
nunca ter tido bons casacos», p. 138.
80
Almeida, Fialho de ' «O novo ministro de Portugal em Paris». In Vida Irónica
(Jornal de um Vagabundo), p. 172.
81
Cf. Almeida, Fialho de ' «A tríplice aliança no conflito anglo-luso ' Razões
por que o nível desce, e por que escasseia o pessoal». In Os Gatos ' Publicação
Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa. Vol. iii, pp. 194-195.
Fialho exemplifica, depois, na p. 195: «Um chamado barão da Costa Ricci,
diretor da nossa agência financial de Londres, e que enriqueceu à custa do
País, gaba-se publicamente de há trinta anos não vir a Portugal, e de haver
esquecido completamente o nosso idioma. Tanto a origem alfacinha lhe faz asco,
que sendo trigueiro, pinta desde tempos imemoriais as suíças, de loiro,
proibindo que em sua casa se fale o português. De sorte que as filhas não
conhecem uma palavra só da nossa língua, e têm de Portugal a suasão de que é um
sultanato onde as senhoras usam pera, e os cavalheiros roubam diligências nos
pinhais».
82
Cf. Ibidem, pp. 192, 194.
83
Cf. Ibidem, pp. 193-194; Almeida, Fialho de ' «Necessidade de rasgar o
testamento ' Arroio na casota do guarda-portão. Dito profético: Final». In Os
Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa. Vol. iii, p. 180; Almeida, Fialho de ' «Os salvadores da salva brava: suas
primeiras inércias, tibiezas e empenhocas ' A conclusão terrível». In Os Gatos
' Publicação Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa. Vol. v, pp. 134-135.
84
Cf. Almeida, Fialho de ' «Atríplice aliança no conflito anglo-luso ' Razões por
que o nível desce, e por que escasseia o pessoal». In Os Gatos ' Publicação
Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa, vol. iii, pp. 187-189.
85
Cf. Ibidem.
86
Cf. Ibidem, p. 194.
87
Cf. Ibidem.
88
Cf. Ibidem, pp. 189-191. Sobre Henrique de Macedo e o conde de Valenças,
escreve, nas pp. 189-191: «Está em Bruxelas o sr. Henrique de Macedo, que é uma
espécie de tatu desentusiasmado doutra posição que não seja a horizontal, e
doutra lucidez que lhe não venha das quebreiras digestivas, aos roncos, nas
poltronas das casas de jantar. Querem fazer deste medíocre o sucessor do Sr.
Barjona, nas novas negociações com Salisbury. Vejam que lástima! O Sr. Henrique
de Macedo tem quase todos os defeitos públicos do Sr. Barjona, acrescentados
doutros que por bem de nós todos, devem pô-lo a cem léguas de tal cargo. [ ] e
finalmente em Viena o nobre conde de Valenças, cujos méritos julgamos fixar,
mencionando a única coisa que de positivo se sabe, acerca de S. Ex.ª ' venho a
dizer ' que é um mamífero. Digam-me pois se com tal quadro, algum governo pode
ter sequer um serviço de informações e de polícia diplomática, capaz, e se as
nossas legações, com todos os seus contos de réis de custeio, servem para mais
alguma coisa do que dar nicho a preguiçosos, e passar contrabando nas
bagagens.»
89
Cf. Almeida, Fialho de ' «A espoliação portuguesa na África (Panfleto aos
Fracos)». In Os Gatos ' Publicação Mensal de Inquérito à Vida Portuguesa, vol.
iii, p. 75.
90
Cf. Almeida, Fialho de ' «O tratado anglo-luso, e delimitação do novo
Moçambique ' OSr. Hintze Ribeiro, cigano e mau ladrão», pp. 39-40.
91
Cf. Almeida, Fialho de ' «Em que se pedem ilustrações ao Livro Branco, para
explicação das nossas derrotas diplomáticas ' Perde-se Moçambique por S. Ex.ª
nunca ter tido bons casacos», p. 147.
92
Cf. Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] ' «A má língua». In Pontos nos ii.
Vol. vi, N.º 256, 22 de maio de 1890, p. 167.
93
Almeida, Fialho de ' «Em que se pedem ilustrações ao Livro Branco, para
explicação das nossas derrotas diplomáticas ' Perde-se Moçambique por S. Ex.ª
nunca ter tido bons casacos», p. 139.
94
Cf. Ibidem, pp. 140-141.
95
Cf. Ibidem, pp. 141-143.
96
Cf. Ibidem, pp. 146-152.
97
Cf. Ibidem, p. 147.
98
Cf. Ibidem, pp. 140-142, 147.
99
Segundo Rui Ramos, havia uma tradição antibritânica que vinha desde, pelo
menos, a perda da Índia, passando pelo Tratado de Methuen e pela execução de
Gomes Freire de Andrade [cf. Mattoso, José (dir.) ' História de Portugal, vol.
vi, Ramos, Rui ' A Segunda Fundação (1890-1926), p. 40]. Acrescentaríamos, já
no século xix, e por razões, agora sim, ligadas com as colónias africanas, a
Questão de Ambriz (1853), a Questão da Baía de Bolama (1870), a Questão da Baía
de Lourenço Marques (1875), o Tratado de Lourenço Marques (1879) e o Tratado do
Zaire (1884).
100
Cf. Brandão, Raul ' Memórias. Edição de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa:
Relógio d'Água, 1998, tomo i, p. 68.
101
Oseu amplo conhecimento das teorias dos principais autores de psicologia das
massas, como Gustave Le Bon (1841-1931) e Gabriel Tarde (1843-1904), poderá ter
fortalecido esta consciência do papel das palavras e das imagens marcantes na
transmissão de uma ideia. Diz Le Bon: «Ao estudarmos a imaginação das
multidões, vimos quanto ela é impressionada, sobretudo por imagens. Nem sempre
estão à nossa disposição estas imagens, mas é possível evocá-las pelo judicioso
emprego de palavras e fórmulas. Manejadas com arte possuem, na verdade, o poder
misterioso que outrora lhes atribuíam os sequazes da magia; fazem rebentar na
alma das multidões as mais formidáveis tempestades, mas sabem também acalmá-las
[ ] A razão e os argumentos não podem, em certos casos, lutar contra
determinadas palavras e fórmulas». In Le Bon, Gustave ' A Psicologia das
Multidões. 2.ª edição. Lisboa: Edição da Tipografia de Francisco Luís
Gonçalves, s. d., p. 80.
102
Cf. Fonseca, Fortunato da ' «Fialho de Almeida ' I». In Novidades. Lisboa, N.º
8166, 29 de abril de 1911, p. 1. Mesmo quando se refere a
eventos ou personalidades políticas, Fialho fá-lo de uma forma distante e
objetiva.
103
Cf. «Monumento a Fialho de Almeida». In ABC: Revista Portuguesa. Lisboa. N.º
309, 17 de junho de 1926, p. 18 [artigo não assinado: provavelmente da autoria
de Rocha Martins]; Teixeira, Nuno Severiano ' O Ultimatum Inglês. Política
Externa e Política Interna no Portugal de 1890, pp. 108-109.
104
Cf. Carvalho, Cristiano de ' Revelações. Barcelos: Portucalense Editora, 1932,
pp. 70-79; Irkan [pseudónimo de Fialho de Almeida] '
«Aassaltada ao Martinho». In Pontos nos ii. Vol. vi, N.º 274, 25 de setembro de
1890, pp. 306-307.
105
Cf. Almeida, Fialho de ' «Patriotas que põem e tiram crepes ' Abram os guarda-
chuvas, meus senhores!», p. 42.
106
«Somos naturalmente um povo colonizador, dissemos, e quatro séculos de
emigração fecunda, que deu talvez ao mundo dois décimos da sua atual população,
são prova cabal da maravilhosa aptidão colonizante da raça portuguesa». In
Almeida, Fialho de ' «Se querem colonizar a África ». In Vida Irónica (Jornal
de um Vagabundo), p. 61.
107
Ibidem, p. 60.
108
Cf. Alexandre, Valentim ' «A África no imaginário político português (séculos
xix-xx)». In Penélope. Vol. xv, Lisboa, 1995, pp. 40-41.
109
Cf. Ibidem, pp. 40-41, 50 (transcrição); Alexandre, Valentim ' «O Império
Português (1825-1890): ideologia e economia», p. 978.
110
Cf. Coelho, Maria Teresa Pinto ' Apocalipse e Regeneração. O Ultimatum e a
Mitologia da Pátria na Literatura Finissecular. Lisboa: Edições Cosmos, 1996,
pp. 88-99.
111
Cf. Ibidem.
112
Cf. Ibidem, pp. 95-97; Mónica, Maria Filomena ' Eça de Queirós, pp. 273-276.
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