A revolução do Solidariedade e o fim da União Soviética
«O Comunismo encaixa na Polónia como uma sela encaixa numa vaca», disse uma vez
José Estaline. Esta opinião do ditador do Kremlin foi muitas vezes confirmada
pelos polacos ' em 1956, 1968, 1970 e 1976 ' em protestos contra o regime
totalitário imposto pelo Exército Vermelho. O movimento pela democracia
generalizou-se com o aparecimento do Solidariedade em 1980, que era muito mais
do que um sindicato: representava a sociedade civil. Em dezembro de 1981, o
general Jaruzelski tentou restabelecer a ordem comunista. No entanto, apenas
alcançou uma parte do seu objetivo: o movimento de libertação foi proibido, mas
sobreviveu. Na década seguinte, a Polónia testemunhou a luta pacífica do
Solidariedade pelo direito à representação e, por outro lado, a defesa, pelas
armas, dos comunistas do monopólio de poder.
Os dois lados opostos não tinham o mesmo peso, mas nenhum poderia alcançar uma
vitória total. Neste contexto é importante referir que as autoridades não
conseguiam lidar com uma crise económica estrutural. Assim, na segunda metade
da década de 1980, o regime começou a considerar a possibilidade de chegar a um
compromisso com a oposição.
O fator determinante para a mudança na política do regime comunista polaco foi
a situação em Moscovo. Em 1985, Mikhail Gorbachev tornou-se o líder do Partido
Comunista na União Soviética, mas, antes de tomar posse, Gorbachev não era
conhecido como um reformador. Em 1984, Gorbachev desconfiava dos seus camaradas
polacos, afirmando no Politburo: «devemos também verificar as verdadeiras
intenções de Jaruzelski [ ] se de alguma forma ele não quer um sistema
pluralista de governo na Polónia».1
Mas em abril de 1985, durante um encontro de líderes comunistas em
Varsóvia,Gorbachev declarou que cada partido no poder era inteiramente
responsável pelo que estava a acontecer nos seus próprios países, deixando
claro que os partidos comunistas eram independentes. Foi um primeiro sinal do
abandono da chamada «doutrina de Brejnev», segundo a qual a União Soviética
tinha o direito à intervenção militar nos países comunistas. A partir daí, as
capitais do Bloco Soviético tinham liberdade de ação na questão das reformas
internas.
A FILOSOFIA DO COMPROMISSO E O FIM DA DOUTRINA DE BREjNEV
A oposição democrática na Polónia não tinha consciência da dimensão das
mudanças que aconteciam nas políticas soviéticas. O programa do Solidariedade
era moderado e tendo como referência o princípio da autolimitação, em que o
movimento se baseou desde o início, não procurava tomar o poder ou derrubar o
sistema. O ponto de partida era a convicção de que as reformas necessárias
seriam bem-sucedidas apenas com a cooperação entre a oposição e a ala
reformista do regime. A fórmula para o compromisso seria o reconhecimento do
sistema existente e das regras do Partido Comunista (pzpr) em troca da
aprovação de sindicatos independentes e liberdade de associação. De acordo com
este princípio, os dois lados tiveram de limitar-se: as autoridades
satisfizeram as aspirações sociais de liberdade, enquanto que a sociedade teve
de perceber que não conseguiria ter tudo aquilo a que tinha direito.
Com o objetivo de evitar uma intervenção soviética que poderia ter
consequências terríveis, os líderes da oposição consideraram que o
Solidariedade não deveria violar «interesses soviéticos básicos». Nestes
incluíam-se o poder do Partido Comunista e a adesão da Polónia ao Pacto de
Varsóvia. Uma questão em aberto eram os limites dos direitos civis: eram
reivindicados direitos humanos básicos, incluindo liberdade de expressão,
liberdade de religião, liberdade de associação, o direito à greve e, claro, o
direito a sindicatos independentes. O Solidariedade rejeitava o caminho da
revolução violenta e estava constantemente a pressionar o Governo para iniciar
conversações e chegar a um acordo que respeitasse as exigências dos dois lados.
Um argumento importante para o compromisso com os comunistas foi a queda
económica do país. Para os líderes do movimento democrático era impossível
realizar uma reforma económica sem o mínimo de confiança para o Governo, e isso
exigia a restauração da liberdade sindical e outras formas de pluralismo. Por
seu lado, já em meados dos anos 1980, o movimento propunha o apoio a reformas
pró-mercado ' uma ideia que ficou sem resposta. Até ao verão de 1988, o Governo
tentava estabilizar sozinho a situação social e política.
O Big Brother soviético não incentivava os comunistas polacos a chegarem a um
compromisso com o movimento do Solidariedade. No entanto, também não levantava
obstáculos nesse sentido. Jacques Levesque, no seu livro sobre a libertação da
Europa Central e de Leste do domínio soviético, descreve o plano de Gorbachev
em relação aos estados-satélites de Moscovo como uma política do laisser-faire.
De acordo com o investigador canadiano, a política da Perestroika não incluía a
Europa de Leste porque não tinha um efetivo programa de transformação para
estes países2. Gorbachev não desenvolveu qualquer esforço para promover
mudanças, com o objetivo de democratizar o sistema fora da urss, embora
simpatizasse com reformadores como Mieczyslaw Rakowski, que se tornou primeiro-
ministro polaco em 1988. No entanto, o aspeto mais importante foi o facto de
Gorbachev não contrariar esta vontade de mudança.
Obviamente, para os comunistas que governavam em Varsóvia, a posição de Moscovo
era muito importante. É difícil avaliar se eles teriam arriscado negociações
com a oposição democrática sem a aceitação tácita do Big Brother. É claro,
porém, que as concessões à oposição não teriam sido possíveis se o ponto de
vista de Moscovo ainda estivesse marcado pelas ideias de Brejnev. Apolítica de
Gorbachev centrou-se na reforma do sistema soviético e no desenvolvimento de
uma relação construtiva com o Ocidente. Isto permitiu uma liberalização
cautelosa em Varsóvia. No entanto, foi apenas em dezembro de 1988, no seu
discurso na Assembleia Geral da onu, que Gorbachev rompeu finalmente com as
políticas de poder exercidas pela urss desde o tempo de Estaline. Neste
discurso, Gorbachev afirmou que nas relações internacionais, como nas relações
entre países comunistas, a força ou até a ameaça da força não poderiam ser
utilizadas. E com isto anulou a doutrina de Brejnev.
Estas declarações verbais foram pela primeira vez testadas na prática política
na Polónia, onde existia o mais forte movimento democrático e a maior erosão do
sistema comunista. Foi um teste difícil para a política de Gorbachev: o
consentimento para a legalização do movimento Solidariedade e o início das
negociações da Mesa-Redonda. Era o início de um conjunto completamente
diferente de reformas, que enfraqueceram os dogmas do socialismo real e que
poderiam levar à divisão ou mesmo à perda de poder dos comunistas. O exemplo da
Polónia podia também encorajar outros países do Bloco a envolverem-se em
experiências semelhantes. Poderia Moscovo assistir passivamente a estes
acontecimentos?
O ESPECTRO DA DEMOCRACIA
A liderança soviética avaliou a situação na Polónia sem entusiasmo mas também
sem pânico. Nos documentos soviéticos relativos a este tema não existem
feitiços ideológicos ou acusações contra as forças da contrarrevolução; em vez
disso é evidente o reconhecimento sóbrio da realidade que, na Polónia da
altura, significava uma profunda crise económica e política. O Partido
Comunista Polaco não sabia como ultrapassar estes problemas sozinho, o que
levou os observadores soviéticos a aceitarem a introdução de uma oposição
moderada na estrutura do Estado. Em janeiro de 1989, Gorbachev pediu um
conjunto de opiniões de especialistas sobre possíveis desenvolvimentos nos
países da Europa Central e Oriental. Em fevereiro, a liderança do partido
recebeu análises de três instituições. Os documentos mostravam uma atitude
surpreendentemente pragmática entre os reformadores soviéticos sobre a
perspetiva da democratização do sistema nos países da chamada «democracia
popular», e até mesmo sobre a liberalização do controlo de Moscovo3.
Peritos do Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da
União Soviética (pcus), num documento que avaliava vários cenários, sublinhavam
como o melhor possível (ou melhor, menos negativo) aquele que reconhecia uma
abordagem planeada, controlada pelos partidos do Governo, direcionando a
sociedade rumo à democracia e a uma nova forma de socialismo. O documento
reconhece a possibilidade de «transformação da oposição construtiva em uma das
forças presentes na corrida pelo poder», mas a possibilidade de uma intervenção
armada foi rejeitada. Mesmo no caso de um forte agravamento da situação em um
dos países, os analistas de Moscovo escreveram que
«nós não podemos recorrer a esse tipo de medidas como fizemos em 1956 ou em
1968, por questões de princípio e por causa das evidentes consequências
desagradáveis para nós. Medidas forçadas seriam justificadas apenas numa
situação ' uma intervenção óbvia e direta de forças armadas estrangeiras nos
assuntos internos do país socialista»4.
Assim, foi proposto o total afastamento da doutrina de Brejnev, e a adoção não
só do princípio da independência de cada um dos partidos, mas também a
aprovação de mudanças na direção do pluralismo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros soviético demonstrou um pragmatismo
similar. O ministério encorajou os líderes a iniciarem contactos com os grupos
da oposição. Os diplomatas soviéticos não tinham ilusões sobre o estado
político dos seus aliados. Sérias dificuldades tinham surgido nos países
socialistas «com a crise do modelo administrativo e obrigatório do socialismo».
Todos se confrontavam com «uma necessidade objetiva para implementar a mudança
fundamental», tanto política como económica. Os camaradas polacos e húngaros
foram forçados a fazer concessões para entrar no caminho do pluralismo político
e sindical.
A incorporação da oposição nas instituições do Estado envolveu riscos
significativos: «tendo alcançado o acesso aos órgãos parlamentares e do
governo, a oposição poderia retirar do poder ' parcial ou totalmente ' os
comunistas e os partidos dos trabalhadores». Especialistas do Ministério dos
Negócios Estrangeiros sublinharam que a tarefa mais importante seria manter
todos os países do Bloco «no caminho do desenvolvimento socialista». No
entanto, o próprio conceito de socialismo e a sua aplicação prática passaram
por uma grande evolução. Em 1989, esta fórmula não continha, como aconteceu em
1981, aspetos ameaçadores. Tratou-se de um testemunho de impotência à medida
que um conjunto de medidas antes usadas para manter o país «no caminho
socialista» foi drasticamente reduzido.
«Deve ser assumido», afirma o documento do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, «que o uso da força nas nossas relações com países socialistas,
principalmente a força militar, está completamente excluída mesmo nas situações
mais extremas»5. Os diplomatas soviéticos consideravam como principal objetivo
a proteção da nova autoridade da União Soviética no contexto internacional,
como resultado da ofensiva de paz de Gorbachev. As ações militares em defesa do
comunismo nos países vizinhos destruiriam de imediato essa imagem.
Peritos do Instituto da Economia Socialista da Academia de Ciências Soviética
foram mais longe nas suas previsões. O esforço para manter o status quona
Polónia e noutros países não tinha sentido, afirmando que «tentativas para
contrariar tendências de crescimento significariam lutar contra moinhos de
vento e contra o curso objetivo da História [ ] Uma intervenção militar direta
da União Soviética iria significar claramente o fim da Perestroika. E isso não
vai evitar a desintegração de sistemas socioeconómicos e sociopolíticos nesses
países, ou protestos em massa que poderiam levar em último caso a confrontos
armados».
Na avaliação dos académicos soviéticos, a situação nos países comunistas da
Europa foi evoluindo para a posição da Finlândia: um país democrático e
soberano nos seus assuntos internos e políticos, mas cuja política externa é
subordinada às relações com a Rússia. Permitir a Varsóvia, Budapeste e Praga
uma substancial autonomia interna e a transformação dos seus sistemas políticos
não significava a quebra das ligações com a União Soviética e não provocaria o
abandono do Pacto de Varsóvia. Haveria, no entanto, a questão da sua
proximidade do Ocidente: da esfera exclusiva de Moscovo, estes países passariam
para a esfera em que a influência da União Soviética estaria acompanhada pela
influência da cee. Iria permitir-lhes desempenhar um papel de intermediário ou
até de liderança na integração do Oriente e do Ocidente.
«Este processo não só não ameaça os interesses da União Soviética, mas, pelo
contrário, irá ampliar e multiplicar os benefícios que nós neste momento
retiramos da cooperação com a Finlândia e com a Áustria, dando-nos acesso aos
mercados do Ocidente e às conquistas da ciência, engenharia e tecnologia do
Ocidente.»
Até a perspetiva da perda de poder dos partidos comunistas em alguns países não
originou qualquer tipo de preocupação entre os investigadores soviéticos. Eles
consideravam que os comunistas deviam conseguir a legitimação para governar a
partir do consentimento voluntário das suas nações. «Teriam de pagar pela perda
de confiança como em qualquer outro partido de uma sociedade democrática»
escreveram, num tom provavelmente nunca antes ouvido no Kremlin. Desta forma,
os conselheiros de Gorbachev não temiam que o fantasma da democracia pairasse
sobre a Europa Oriental. O documento indicava que o resultado mais favorável
dos desenvolvimentos na Polónia previa um compromisso vago entre o partido e o
Solidariedade. Esse aspeto levaria à construção gradual de uma economia de
mercado e à privatização das empresas do Estado. Previam também «uma mudança no
sentido do pluralismo político-partidário real» ' eleições livres, a
redistribuição de assentos no Parlamento, trazendo representantes da atual
oposição no Governo, e a liberdade de imprensa. Uma situação que aumentaria o
apoio da população e o reconhecimento do Ocidente, que por sua vez facilitaria
na questão da dívida externa e na obtenção de novos empréstimos para melhorar a
situação económica.
Os observadores de Moscovo sabiam que, na Polónia, o domínio comunista estava a
chegar ao fim ' «No rescaldo da crise ideológica e no atrito entre os partidos
deverá ocorrer um progressivo enfraquecimento do Partido Comunista»,
escreveram. Este processo, no entanto, iria desenvolver-se lentamente, de forma
pacífica, o que evitaria uma explosão. «O que eles mais receavam era um
conflito aberto entre o Governo e o movimento cívico. Consideravam como o pior
cenário a imposição da lei marcial e uma situação próxima a uma guerra civil. A
Polónia poderia assim transformar-se no Afeganistão da Europa Central»6. Este
foi o argumento final para a tolerância face à evolução democrática nos países-
satélites. A União Soviética não tentava escapar da armadilha do Afeganistão
apenas para criar a ameaça do confronto armado na Europa Oriental. Todos os
estudos rejeitavam uma interferência direta ' política ou militar ' soviética
na região. A exclusão da possibilidade do uso da força na defesa do status quo,
no entanto, também era resultado de um cálculo político. O Kremlin estava
disposto a aceitar a derrota dos seus vassalos comunistas em Varsóvia e em
outras capitais porque acreditava que iria manter a sua influência, ainda que a
fórmula de relacionamento se alterasse no sentido de uma muito maior autonomia.
Os líderes soviéticos contavam com a perseverança do Pacto de Varsóvia e a
evolução de alguns dos seus membros ' principalmente a Polónia ' na direção de
uma «finlandização».
Do ponto de vista da geopolítica soviética, o aceitar deste cenário para os
países do lado oriental da Cortina de Ferro foi uma mudança revolucionária.
Jaruzelski era certamente consciente dessa mudança, embora, provavelmente, não
estivesse familiarizado com os memorandos descritos anteriormente. Rakowski
compreendeu o facto de, com a chegada de Gorbachev, ter sido atenuado o
controlo do Kremlin. «Pela primeira vez estamos completamente livres para
fornecer a nossa casa», declarou o primeiro-ministro no início de 19897. As
conversações com o Solidariedade na Mesa-Redonda foram realizadas pelo Governo
na crença de que Moscovo lhes tinha dado liberdade para chegarem a um acordo
com a oposição.
Muitos historiadores da Guerra Fria ' Tony Judt, Archie Brown e John Lewis
Gaddis, entre outros ' viam na Perestroika levada a cabo por Mikhail Gorbachev
o mais importante impulso para as mudanças que tiveram lugar na Europa
Oriental8. Na conclusão do seu livro sobre a história da União Soviética
durante a Guerra Fria, Vladislav Zubok escreveu que quando, no final de 1988,
Gorbachev rejeitou a justificação ideológica da política externa de Estaline e
renunciou ao uso da força e das barreiras isolacionistas para suportar o
império socialista, este caiu no espaço de um ano9. No entanto, também
sublinhou a falta de um «envolvimento soviético positivo» no processo de
democratização na Europa Central e Oriental10. Moscovo não tentou coordenar as
suas atividades com os reformadores na Polónia e Hungria, mas problemas
financeiros graves forçaram a União Soviética a reduzir a sua presença militar
nos estados-satélites. Em janeiro de 1989, Gorbachev anunciou uma redução
unilateral das Forças Armadas na Europa Central e Oriental, não estando, no
entanto, pronto para a retirada completa do Exército Vermelho ou para desistir
da esfera de influência soviética na Europa estabelecida por Estaline. Tudo
isto aconteceu apenas por causa das exigências no sentido da plena
independência das nações do Bloco Oriental depois do colapso do regime
comunista nesses países.
Gorbachev foi muitas vezes surpreendido pelo desenvolvimento dos acontecimentos
que estavam fora do seu controlo. A sua atitude para com os países da Europa
Oriental foi determinada pela regra de não interferência que aplicou às forças
reformadoras e às forças conservadoras. Este foi, portanto, um papel passivo em
vez de ativo, ainda que ele próprio simpatizasse com os reformadores, e
especialmente com Jaruzelski.
Para que as reformas tentadas tomassem a forma de democratização e não apenas
uma liberalização limitada do sistema, foram decisivas as atitudes das nações
sob o regime comunista, bem como as ações da oposição democrática. Sem o
reconhecimento do Solidariedade, não havia possibilidade de abertura de novas
linhas de crédito com o Ocidente, ou de renegociação de uma gigantesca dívida
externa. Quando as tentativas no sentido de reformas económicas liberais
falharam, os comunistas não tiveram outra escolha para além de um compromisso
com a oposição.
ACORDO DA MESA REDONDA OU O MAL MENOR
A causa imediata para a mudança na direção de um compromisso por parte das
autoridades da Polónia foi a maior onda de greves desde a imposição da lei
marcial. Depois de conversas preparatórias nos bastidores, em fevereiro de 1989
começaram as negociações da Mesa-Redonda. Os dois lados procuravam a garantia
de segurança política. Para as autoridades, essa garantia foi a participação da
oposição nas eleições que deveriam legitimar a governação do Partido Comunista,
e apoiar as reformas económicas. Para o movimento democrático a garantia mais
importante era recuperar o direito à representação, ou seja, a legalização do
Solidariedade.
O general Jaruzelski foi forçado por causa do desastre económico a assumir este
passo arriscado. Face a uma explosão social eminente, um acordo com um
adversário ideológico era para as autoridades um mal menor. Para o outro lado,
um compromisso com os comunistas fazia parte da estratégia da oposição desde
1980, como um preço necessário para a democratização do sistema. Apolítica de
Lech Walesa e dos seus conselheiros baseava-se no princípio da «revolução
autolimitada» e a luta pela representação na forma de um sindicato independente
foi realizada sem violência. O objetivo não era derrubar o sistema, mas
liberalizá-lo. Este era um fator crucial: os representantes do regime
concordaram com as negociações porque não estavam ameaçados com a extinção.
Nos sete anos que se seguiram à lei marcial, os membros do Solidariedade não
desistiram das suas exigências democráticas, criando uma sociedade civil com
centenas de jornais independentes, casas secretas de impressão e publicação,
sindicatos secretos, e uma vida científica e artística independente. Ao criarem
esta sociedade «paralela» não permitiram que o general Jaruzelski estabilizasse
o poder. O movimento pacífico de resistência polaco, no qual participaram
dezenas de milhares de pessoas, foi o maior desafio para o sistema comunista.
Com uma organização independente e um programa de mudanças democráticas, o
Solidariedade criou uma alternativa credível. Por essa razão, foi combatido
pelo regime monopolista ' e foi também por isso que eventualmente conseguiu
tornar-se um parceiro do contrato político.
O Acordo da Mesa-Redonda, assinado no dia 5 de abril de 1989, previa a
participação da oposição nas eleições parcialmente livres ao Parlamento (as
primeiras em quarenta anos com a participação de uma força política
independente). A oposição podia concorrer a 35 por cento dos assentos do Sejm
(câmara baixa) e a todos os assentos do Senado. O partido e os seus satélites
foram garantindo uma maioria técnica no Parlamento. Era suposto que o general
Jaruzelski se tornasse presidente, enquanto garantia da preservação do poder
pelo Partido Comunista. Em troca, o Solidariedade seria novamente legalizado,
ganhando uma maior liberdade de ação do que em 1980. Com o acordo da Mesa-
Redonda, o Governo admitiu a oposição no sistema sublinhando que os dois
partidos concordaram em reformar o país em conjunto. No entanto, na curta mas
bem organizada campanha, a oposição fez do voto um plebiscito: a favor ou
contra o comunismo.
As eleições de 4 de junho de 1989 deram uma clara resposta. O Solidariedade
ganhou quase todos os lugares para os quais concorria. A vitória foi tão grande
que mudou o equilíbrio de poder, apesar de o Partido Comunista e dos seus
aliados manterem ainda uma maioria no Parlamento. Lech Walesa recusou juntar-se
a um governo liderado pelos comunistas. Em meados de agosto, criou uma
coligação com dois pequenos partidos no Parlamento (até aí aliados dos
comunistas) e declarou que o Solidariedade estava pronto para formar um
governo. Jaruzelski, o presidente eleito, agora encostado contra a parede,
aceitou o novo primeiro-ministro ' Tadeusz Mazowiecki, um membro da oposição.
Foi o fim da ditadura e do comunismo na Polónia. Como é que Moscovo respondeu a
esta cadeia de acontecimentos inesperados?
A cadeira soviética na Mesa-Redonda estava vazia mas os negociadores dos dois
lados tinham consciência das limitações decorrentes do domínio soviético11.
Assim, assuntos da política externa, a participação polaca no Pacto de Varsóvia
e a presença militar soviética no país estavam, por acordo tácito, excluídos
das discussões. Lech Walesa, numa entrevista sem precedentes a um jornal
soviético, na véspera da reunião da Mesa-Redonda, declarou que o Solidariedade
queria ser independente das autoridades e não procurava o poder. Não se sabe se
a liderança soviética acreditou nesta afirmação, mas as suas reações ao acordo
foram positivas. O jornal Izvestiaescreveu que o acordo polaco demonstrou que o
socialismo pode ser reformulado e receber um novo sistema baseado numa
«democracia socialista parlamentar»12.
Do ponto de vista de Moscovo, o compromisso entre o partido e o Solidariedade
não era a pior forma de sair de uma situação complicada. O modelo polaco de
democratização, acima de tudo, trouxe mudanças numa forma evolutiva gradual que
era controlada pelo partido, na medida em que podia servir como modelo para
outros países do Bloco. O próprio Jaruzelski destacou que aquele modelo
mostrava que se pode manter um diálogo com a oposição sem o risco de se
desencadear uma campanha de descomunização e de «terror branco»13.
A opinião da União Soviética manteve-se inalterada mesmo depois da derrota
eleitoral dos comunistas. O conselheiro de Gorbachev para os Negócios
Estrangeiros, questionado a 3 de julho sobre a reação da União Soviética face à
possibilidade de um governo liderado pelo Solidariedade, declarou que Moscovo
iria manter relações com qualquer governo escolhido pela Polónia. A6 de julho,
durante um discurso no Conselho da Europa, o próprio Gorbachev sublinhou que a
ordem constitucional pode mudar num determinado país mas que essa é uma questão
de autodecisão de uma sociedade, referindo que «Qualquer interferência nos
assuntos internos, qualquer tentativa de restrição da soberania das nações é
inaceitável». Gorbachev confirmou esta posição no dia seguinte num encontro de
líderes do Pacto de Varsóvia em Bucareste, excluindo o recurso à violência nas
relações «fraternais» com os países socialistas.
O anúncio de Walesa, de que o Solidariedade estava pronto para formar um
governo, causou alguma ansiedade a Moscovo. O vice-ministro soviético dos
Negócios Estrangeiros deixou um alerta contra a quebra da política de
compromisso. No entanto, os russos foram tranquilizados com a promessa de
Walesa de que haveria espaço para os reformadores do partido num novo governo e
pela sua declaração de que o Solidariedade não ia esquecer a participação
polaca no Pacto de Varsóvia. No período difícil de formação de um novo governo,
Moscovo manifestou a sua neutralidade. A 16 de agosto, o Ministério Soviético
dos Negócios Estrangeiros anunciava que «A União Soviética não pretende
interferir nos assuntos internos da Polónia», acrescentando que «Os polacos
devem resolver os seus próprios problemas». Gorbachev recusou inclusivamente
aceitar Rakowski, que se tornou no chefe do partido no poder depois de
Jaruzelski se tornar presidente, em Moscovo, de forma a evitar dar a impressão
de que ele queria interferir nos assuntos polacos. No dia 22 de agosto,
Gorbachev chamou Rakowski que assistiu impotente ao fim da liderança de
quarenta e cinco anos do seu partido, e disse-lhe que era impossível uma nova
variante da lei marcial. Os camaradas polacos foram aconselhados a manter a
linha de compromisso14.
Jack Matlock, na altura embaixador dos Estados Unidos em Moscovo, afirmava que
os russos preocupavam-se com a estabilidade na Polónia e que o que mais queriam
era evitar um surto de sentimento antissoviético. «Se o Solidariedade conseguir
assegurar isto, Gorbachev pode não gostar, mas terá de se ajustar à nova
ordem», telegrafou para Washington, em meados de agosto. Escreveu que «apesar
da formação de um governo pelo Solidariedade poder ser um comprimido amargo
para os russos, eles vão ter de o engolir mesmo se sufocarem ao fazê-lo»15.
O embaixador norte-americano tinha razão. Nomeado a 24 de agosto, o primeiro-
ministro Mazowiecki recebeu os parabéns formais da capital russa e um convite
para visitar Moscovo. Pela sua parte, assegurou que o novo governo manteria o
compromisso do país para estabilizar as relações polaco-soviéticas com base nos
princípios de soberania e de cooperação. No Kremlin as suas declarações foram,
ao que parece, aceites de boa-fé. De acordo com Jacques Levesque, Gorbachev
acreditava que a estabilização polaca, obtida com a permissão da chegada do
Solidariedade, primeiro ao Parlamento, depois ao Governo, foi um sucesso e
permitiu aos comunistas olharem com otimismo para o futuro. O líder do pcus não
percebeu que isto era o princípio do fim do império soviético16.
NOTAS
1
General Pavlov: I was a KGB resident in Poland.Varsóvia, 1994, p. 385.
2
Levesque, Jacques ' 1989. La fin d'un empire. L'URSS et la liberation de
lEurope de l'Est. Paris: Presses Fondation Sciences Politiques, 1995, p. 74.
3
«Documents». In Dudek, Antoni, e Friszke, Andrzej (org.) ' Poland 1986-1989:
The End of the System. Varsóvia, 2002. Comunicações da conferência
internacional realizada em Miedzeszyn, 21-23 de fevereiro de 1999.
4
«Notes on strategy for relations with the European socialist countries». In
Dudek, Antoni, e Friszke, Andrzej (org.) ' Poland 1986-1989: The End of the
System, pp. 215-226. Oautor analisa os três documentos no
livro Revoluçãoda Mesa-Redonda, Cracóvia, 2009.
5
«Political processes taking place in European socialist countries. Suggestions
of practical steps». In Dudek, Antoni, e Friszke, Andrzej (org.) ' Poland 1986-
1989: The End of the System, pp. 227-233.
6
«Changes in Eastern Europe and their influence on the USSR». In Dudek, Antoni e
Friszke, Andrzej (org.) ' Poland 1986-1989: The End of the System, pp. 233'251.
7
Orszulik, A.' Czas przelomu. Notatki z rozmów z wladzami PRL w latach 1981-1989
(Notes from the talks wit the authorities of Popular Republic of Poland).
Varsóvia, 2006, pp. 449-462.
8
Cf. Brown, Archie ' The Rise and Fall of Communism. Londres: The Bodley Head,
2009; Judt, Tony ' Postwar. A History of Europe since 1945.
Londres: Penquin Press, 2005; Gaddis, John Lewis ' The Cold
War: A New History. Londres: Penguin Press, 2005.
9
Zubok, Vladislav ' Failed Empire: The Soviet Union in the Cold War from Stalin
to Gorbachev. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2007, p. 331.
10
Ibidem, p. 312.
11
Levesque, Jacques' 1989. La fin d'un empire. L'URSS et la liberation de
lEurope de l'Est, p. 147.
12
Citado em Ibidem, p. 149.
13
Ibidem, p. 151.
14
Rakowski, Mieczyslaw ' Political Journals 1987-1990. Varsóvia, 2005, pp. 497-
498.
15
Domber, Gregory F. (org.) ' Towards the Victory of Solidarity. Correspondence
of the U.S. Embassy in Warsaw with the Department of State. January-September
1989. Varsóvia: Instytut Studiów Politycznych, 2006, pp. 352-356.
16
Levesque, Jacques' 1989. La fin d'un empire.L'URSS et la liberation de lEurope
de l'Est, p. 163.
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