História internacional
História internacional
Ana Mónica Fonseca
Doutorada em História das Relações Internacionais no Período Contemporâneo no
ISCTE ' IUL. É investigadora do IPRI ' UNL e do CEHC ' IUL. As suas publicações
incluem A Força das Armas: O Apoio da República Federal da Alemanha ao Estado
Novo, 1958-1968 (Instituto Diplomático, 2007) e vários artigos em revistas
nacionais e internacionais.
Christian Nuenlist, Anna Locher e Garret Martin (eds.), Globalizing de Gaulle.
International Perspectives on French Foreign Policy, 1958-1969
Plymouth, Lexington Books, 2010, 318 pp.
O principal objectivo deste trabalho é fazer uma reavaliação da política
externa do general Charles de Gaulle. Para tal, os editores reuniram um grupo
de investigadores que exploraram novos fundos arquivísticos, o que resultou em
trabalhos pela primeira vez publicados em inglês (fontes da Argentina, China,
Israel, entre outros).
O livro está dividido pelas regiões de actuação da política externa da V
República, segundo uma hierarquização dos interesses franceses no sistema
internacional: em primeiro lugar, a Europa, com capítulos sobre as relações
franco-alemãs, centrais no início da década de 1960, a aproximação franco-
soviética, que surpreendeu muitos dos aliados ocidentais, e um outro, da
autoria de Piers Ludlow, que se debruça sobre a política europeia de De Gaulle.
De seguida, passa para a dimensão transatlântica, com a análise das complexas
relações da França com os Estados Unidos e com a Grã-Bretanha e também da
participação francesa na NATO, em particular a sua saída das estruturas da
organização em 1966. Os capítulos seguintes focam-se na região asiática: o
reconhecimento diplomático francês da República Popular da China, a intervenção
norte-americana no Vietname e a tentativa secreta de De Gaulle de negociar a
paz na segunda metade da década de 1960. Por fim, é tratado o continente
africano e o continente latino-americano, com análises relativas à questão
colonial, nomeadamente a independência da Argélia e os conflitos na África
Subsariana.
A conclusão tenta confirmar a existência de uma grande estratégia gaulista ao
nível da política externa francesa. Segundo Garret Martin, essa grande
estratégia assentava na recuperação da França como uma grande potência e na
superação da Guerra Fria na Europa, com a constituição de um sistema de
segurança continental.
Através da leitura deste livro podemos ter uma visão de contexto da política
externa gaullista, um tópico tão interessante quanto debatido na historiografia
internacional. Particularmente interessante é a perspectiva que nos concede em
termos de distribuição dos interesses da política externa francesa durante os
dez anos de presidência de De Gaulle, que iam desde a Europa, que ocupava
claramente uma posição central, até à América Latina e o culto que a
personalidade do general aí conquistou.
Pamela Radcliff, Making Democratic Citizens in Spain. Civil Society and the
Popular Origins of the Transition, 1960-1978
Basingstoke, Palgrave Macmillan, 2011, 416 pp.
Pamela Radcliff é uma especialista na Espanha contemporânea, em particular nos
temas da transição democrática, género e sociedade civil. A obra que aqui se
apresenta debruça-se sobre a constituição de uma sociedade civil na Espanha
franquista de meados dos anos 1960, com particular destaque para o papel das
mulheres dentro desse movimento associativo. Segundo Radcliff, a sociedade
civil terá sido determinante para o tipo de transição democrática experienciada
pelo país e que culminou com a aprovação da Constituição em 1978.
Este livro tem na sua base uma longa pesquisa nos arquivos espanhóis. A sua
organização espelha os diferentes pontos focados pela historiadora norte-
americana: a apreciação teórica de sociedade civil em regimes ditatoriais, a
contextualização histórica do movimento associativista espanhol nas décadas de
1940 e 1950, e, por fim, a análise das associações existentes em Espanha a
partir de meados da década de 1960 onde é feita uma abordagem mais detalhada às
questões de género e o impacto que tiveram nas próprias associações.
A autora compara dois tipos de associações: por um lado, as associações de
família, criadas pelo Movimiento franquista, e que estavam divididas por género
e "função na sociedade"; por outro lado, as associações de
vizinhos, constituídas a partir da Lei de Associações de 1964, que estavam
abertas a homens e mulheres. Pelas suas características, estes dois tipos de
associações são comparáveis ao nível da sua dispersão no território nacional,
mas tornam-se particularmente interessantes por terem origens distintas mas
objectivos muito semelhantes. Se, por emanarem do Movimiento, as associações de
família parecerem menos autónomas, a verdade é que o próprio regime não tinha a
capacidade para exercer o desejado controlo vertical, acabando estas
organizações por terem um amplo espaço de manobra. O objectivo comum destes
dois tipos de associação é o aumento da participação popular nas políticas
públicas. Apesar de nem sempre haver uma posição consciente contra o regime, a
verdade é que, pelas suas práticas, estas associações fomentaram o
desenvolvimento de uma cultura e de uma cidadania democrática. Horizontalmente,
nos esforços que eram feitos para estreitar as ligações no seio da associação e
da comunidade e, por vezes, na realização de eleições democráticas no seio de
cada organização, e verticalmente, ao reforçar os elos da cidadania,
comunicando os desejos dos cidadãos ao Estado, nomeadamente através de petições
apresentadas. No longo prazo, estes hábitos associativos deram um precioso
treino democrático aos cidadãos espanhóis que deles faziam parte.
Segundo a autora, os verdadeiros impactos que estes movimentos associativos
tiveram na democratização espanhola apenas podem ser observados com uma análise
no longo prazo, daí que Radcliff tenha escolhido um período alargado (1960-
1978). Também o impacto que tiveram na Constituição leva a que afirme que foi
em 1978 que terminou a transição democrática espanhola, no ponto de vista
particular da participação da sociedade civil.
Mario del Pero, Victor Gavín, Fernando Guirao e Antonio Varsori, Democrazie.
L'Europa Meridionale e la fine delle dittature
Milão, Mondadori Education, 2010, 292 pp.
Este livro compara os processos de transição para a democracia da Grécia (da
autoria de António Varsori), de Portugal (Mário del Pero) e de Espanha (Victor
Gavín e Fernando Guirao) ' os três países do Sul da Europa que iniciaram os
seus processos de democratização em meados dos anos 1970. Apesar de este ser um
tema frequentemente estudado, tanto na sua dimensão doméstica como externa, o
propósito dos quatro autores é comparar os diferentes processos nestes países
dando particular atenção à dimensão externa. Para tal, partem do princípio que
a Grécia, Portugal e a Espanha tiveram três elementos comuns importantes para a
forma e ritmo dos respectivos processos de transição. Todos os países foram
integrados no sistema Atlântico Ocidental, quer através da participação na NATO
(Portugal e Grécia) ou por acordo bilateral com os Estados Unidos, no caso da
Espanha; os três encontravam-se, à data da transição democrática, em níveis
semelhantes de desenvolvimento económico, consideravelmente atrasados
relativamente à média da Europa Ocidental; e para todos os países em análise, a
Europa representava um importante parceiro comercial e financeiro. Ao que se
acrescenta a importância do contexto internacional. Os autores concordam que os
factores endógenos foram a principal causa para o fim dos regimes autoritários
da Europa do Sul, mas realçam também que os elementos externos foram
determinantes para a instauração da democracia, em particular em Portugal e na
Grécia, onde a situação doméstica tendeu para a radicalização e para a
polarização política. Nestes dois países, segundo os autores, a dimensão
externa "determinou a forma e o ritmo da transição".
Este livro consiste em três capítulos abrangentes sobre cada um dos países
analisados, baseados todos em fontes primárias e na mais recente bibliografia
acerca de cada tópico. Um dos aspectos realçados por esta obra é o facto de que
os principais actores da intervenção europeia nestes processos de
democratização foram não só os governos europeus, mas especialmente os partidos
políticos, quer os social-democratas (liderados pelo Partido Social-Democrata
alemão, em particular no caso de Portugal e da Espanha) quer os conservadores
franceses, no caso da Grécia. No entanto, também as instituições europeias
desempenharam um importante papel, condicionando o desenvolvimento político de
cada um destes países. O envolvimento europeu nos processos de democratização
da Europa do Sul representou um importante passo na sua crescente autonomia
dentro do bloco ocidental, ao mesmo tempo que permitiu o segundo alargamento e
facilitou a assunção da Europa Ocidental como uma comunidade integrada.
Bernd Rother (ed.), Willy Brandt. Neue Fragen, neue Erkenntnisse
Bona, Verlag J. H. W. Dietz, 2011, 335 pp.
Esta colecção de textos sobre Willy Brandt é o resultado de uma conferência
organizada em Março de 2010 na Fundação Willy Brandt, em Berlim, com o
objectivo de reavaliar a política e o papel de Willy Brandt e fazer um balanço
da historiografia sobre o chanceler e líder do Partido Social-Democrata alemão
(SPD).
Mas comecemos pelo fim. A conferência de encerramento deste evento, da autoria
de Martin Sabrow, dá o mote a todo o livro: a ligação entre o género biográfico
e a história contemporânea, tendo como base o exemplo de Willy Brandt. Na
realidade, a biografia de Brandt, pela sua extraordinária participação na vida
política da Alemanha do século XX, é inseparável de alguns dos principais
momentos da história recente do país, nomeadamente no período em que ocupou
alguns dos principais cargos políticos da RFA: foi chanceler entre 1969 e 1974,
tinha sido já ministro dos Negócios Estrangeiros desde 1966 e fora, entre 1957-
1966, burgomestre de Berlim Ocidental, vivendo directamente os principais
momentos de tensão da construção do Muro de Berlim e da divisão da cidade.
O volume está organizado em quatro grandes secções. A primeira centra-se na
imagem de Willy Brandt, quer durante a sua vida activa, na República Federal e
na República Democrática Alemã, quer na memória contemporânea. Segue-se uma
secção acerca da política externa e intra-alemã de Brandt, que ficou
profundamente marcada por três dimensões: a Ostpolitik, a unificação europeia e
a détente. Em terceiro lugar, uma dimensão menos trabalhada na historiografia
internacional, mas que é determinante para a própria Alemanha: a política
interna dos governos de Brandt (1969-1974), que ficaram marcados por um
aprofundamento da democratização da sociedade alemã, pela modernização da vida
política e pelas políticas sociais seguidas pela coligação SPD-Liberais. Por
fim, uma secção dedicada à vida de Brandt após a sua demissão do cargo de
chanceler, em Maio de 1974, muito adequadamente intitulada "Homem de
Estado sem cargo" (Staatsmann ohne Staatsamt). Nesta quarta secção é
analisado o papel de Willy Brandt na liderança da Internacional Socialista, o
seu compromisso com a Comissão Norte-Sul (1977-1983) e o seu papel na
unificação alemã e europeia que marcou o final da Guerra Fria.
Tal como se referiu, este volume é mais do que um conjunto de estudos sobre a
vida de Willy Brandt, é uma obra colectiva sobre a história da República
Federal da Alemanha, com os mais reputados historiadores a apresentarem a mais
recente investigação acerca do assunto, fornecendo-nos uma panorâmica dos
principais acontecimentos que marcaram não só a RFA mas também a Europa.