Médio Oriente
Médio Oriente
Ana Santos Pinto
Investigadora do IPRI ' UNL, desde 2004, e assistente convidada no Departamento
de Estudos Políticos da FCSH ' UNL, onde é doutoranda em Relações
Internacionais. Tem como principais áreas de investigação académica os estudos
europeus, geopolítica do Médio Oriente e questões de segurança e defesa
internacional.
Whalid Phares, The Coming Revolution ' Struggle for Freedom in the Middle East
Nova York, Threshold Editons, 2010, 383 pp.
O Médio Oriente é, desde a queda do Império Otomano, palco de uma intensa luta
entre duas correntes ideológicas que determina o cenário geopolítico da região:
os reformadores, que pretendem a modernização e desenvolvimento dos estados
através da criação e consolidação de sociedades democráticas; e os islamitas,
que pretendem a instauração de um califado, a longo prazo global, bloqueando
qualquer forma de governo ou identidade que contradiga este objectivo. É com
base neste argumento que Whalid Phares, libanês residente nos Estados Unidos e
comentador da cadeia televisiva Fox News, constrói a obra The Coming Revolution
' Struggle for Freedom in the Middle East, onde analisa as dinâmicas que
poderão estar na origem de um movimento revolucionário no Médio Oriente e de
uma alteração estrutural na região.
A obra gira em torno de duas dinâmicas que, na opinião do autor, se encontram
em permanente competição: por um lado, a promoção da democracia; e, por outro,
a promoção do califado global. No que concerne à primeira, Phares considera
que, no Médio Oriente, foram desperdiçadas três importantes janelas históricas
para a instauração de regimes democráticos: (i) o pós-II Guerra Mundial, já que
durante a segunda metade do século XX, em lugar de revoluções liberais
conducentes a regimes políticos assentes na participação popular, ocorreram
diversos golpes de Estado, de matriz nacionalista, que levaram ao poder regimes
autoritários e repressivos; (ii) o pós-fim da Guerra Fria, porque enquanto a
democracia proliferava na América Latina e na Europa Central, o Médio Oriente
assistia a uma maior penetração de forças jihadistas ' com a competição entre
salafitas e seguidores da teocracia iraniana, a radicalização da cultura
política e a alienação das minorias, mulheres e jovens; e, finalmente, (iii) o
pós-11 de Setembro de 2001, quando a intervenção militar americana e aliada
derrubou "dois dos regimes mais brutais" da região e provocou um
"choque nas fundações do sistema regional autoritário". Ainda no
que concerne ao contexto político, Phares salienta que em todo o Médio Oriente
existe uma estrutura política semelhante, em que no topo da hierarquia está o
líder político, seguido pelos movimentos islamitas, em constante desafio ao
status quo, e tendo na base as sociedades civis, impedidas de aceder aos mais
básicos instrumentos de participação política.
No que diz respeito ao conceito de califado, o autor salienta duas dimensões
fundamentais: uma de natureza teológica e legal, segundo a qual o califado
consiste na estrutura de apoio ao líder espiritual da comunidade dos crentes
(Ummah), comparável ao papado; e uma de natureza geopolítica, que consiste no
conjunto do território, e dos seus recursos, coberto pela autoridade do califa.
O califado é, no quadro do argumento de Phares, entendido como uma instituição
religiosa, política e militar, geradora e legitimadora da autoridade do líder,
e cuja contestação implica uma verdadeira revolução no pensamento político do
islão. Na obra, o autor desenvolve as raízes históricas do conceito, bem como
as suas implicações numa aplicação à actualidade, designadamente de legitimação
da chamada jihad. Com base nestes pressupostos, Phares considera que um dos
elementos que explica a ausência de regimes democráticos no Médio Oriente
assenta na inexistência, até ao século XX, de um movimento revolucionário
interno que contestasse a centralidade do califado na cultura política do
islão. Por outro lado, salienta que se existem semelhanças entre o poder
cristão e islâmico ' entre o papado e o califado ' existe também uma diferença
fundamental: no "império islâmico" não existiram reformas ou
revoluções, ao longo da história, que transformassem um império religioso em
sociedades plurais e seculares.
Sem a preocupação do registo académico, e com uma investigação assente,
essencialmente, nas actividades do autor em think-tanks e fóruns de debate, em
particular promovidos por muçulmanos a residir no Ocidente, Walid Phares
percorre, ao longo da obra, as experiências no Afeganistão, Iraque, Líbano,
Síria, Irão, Sudão e Magrebe, defendendo a existência de movimentos pró-
democracia em todos estes contextos que, se apoiados pela comunidade
internacional, poderão construir, com sucesso, verdadeiras sociedades
democráticas no Médio Oriente.
Trata-se de uma obra muito actual e adequada à compreensão das dinâmicas
políticas que se vivem no designado Grande Médio Oriente.
Mehran Kamrava, The Modern Middle East
2.ª edição, Berkeley, University of California Press, 2011, 520 pp.
Dizia Heródoto (484 a. C.- 425 a. C.), geógrafo e historiador grego, que é
necessário "pensar o passado para compreender o presente e idealizar o
futuro". É na senda deste princípio que Mehran Kamrava, académico de
origem iraniana da Universidade Georgetown, estruturou a obra The Modern Middle
East, publicada pela primeira vez em 2005 e reeditada, com actualizações, no
início de 2011.
Kamrava organiza a obra em duas secções: história política do Médio Oriente; e
principais desafios que se colocam à região no século XXI. No que concerne à
história política, e referindo que se centra no período contemporâneo, o autor
começa por remeter ao século VII e ao nascimento do islão para sustentar a
definição de Médio Oriente, de acordo com algumas características partilhadas:
língua, etnicidade, religião e herança histórica. O autor argumenta que foram
divisões resultantes destes elementos que originaram importantes conflitos na
região e constituem, ainda na actualidade, catalisadores de lealdades e
mobilizadores de movimentos políticos de base subnacional. Seguindo uma
narrativa histórica, Kamrava dá particular enfoque ao período entre as duas
guerras mundiais, fundamental para a compreensão da construção dos actuais
estados da região. O autor considera que após a queda do Império Otomano e o
período de colonialismo europeu, o Médio Oriente não estava preparado para
enfrentar o ambiente de competição internacional, ao qual tinha de responder
com um rápido crescimento económico e industrial, fundamental para satisfazer
as crescentes aspirações nacionalistas das populações. Assim, o autor sintetiza
este capítulo considerando que a história política do Médio Oriente, clássica e
moderna, tem sido caracterizada pelo aparecimento e queda de grandes poderes,
por um domínio colonial, pela criação de novos estados com base em movimentos
nacionalistas e por um desenvolvimento económico e político profundamente
desigual.
É com base nestes princípios que Kamrava identifica os três principais desafios
que se colocam ao Médio Oriente no século xxi: o conflito israelo-palestiniano;
o desenvolvimento económico; e a promoção de regimes democráticos.
No que concerne ao conflito israelo-palestiniano, Mehran Kamrava considera que
ocupa um papel central na promoção de instabilidade e conflitos regionais. Para
o autor, trata-se de um conflito em que o conceito de identidade, de cada uma
das comunidades envolvidas, está em permanente competição, sendo a ligação ao
território um factor fundamental da construção dessa mesma identidade. Este
factor não só dificulta a prossecução do processo de paz, como acaba por
envolver outras comunidades que partilham valores identitários, à escala
global.
Um segundo desafio reside no desenvolvimento económico. O autor considera que a
região se depara, actualmente, com as consequências negativas de uma revolução
industrial acelerada, designadamente um crescimento populacional descontrolado,
a escassez de recursos hídricos e elevados índices de poluição.
Finalmente, no que diz respeito à consolidação política e promoção de regimes
democráticos, Kamrava refere que, historicamente, no centro das relações entre
Estado e sociedade no Médio Oriente está um constante regateio assente em três
pressupostos: a garantia, pelo Estado, da segurança nacional e física dos
cidadãos; o provimento estatal de bens e serviços essenciais, enquanto trade
off pela ausência de responsabilização das elites; e, quando necessário, o
recurso, pelo Estado, à repressão enquanto instrumento de manutenção do poder.
Porém, o autor salienta que a inserção internacional da região, resultado do
processo de globalização, traz importantes alterações a estas premissas e
origina uma pressão no sentido da liberalização política e reforço dos
movimentos populares de apoio à democracia, em detrimento dos poderes
conservadores e autoritários.
Mehran Kamrava conclui referindo que são questões económicas, sociais e
políticas, decorrentes de eventos históricos, que determinam, actualmente, os
comportamentos dos diversos actores do Médio Oriente, designadamente o recurso
à violência política. Apesar de se manterem algumas constantes regionais, os
desafios de hoje são diferentes dos do passado, desde logo porque, para além da
consolidação política, incluem o desenvolvimento económico, progresso
científico, a competitividade global e a melhoria da qualidade de vida das
populações.
Bryant Wright, Seeds of Turmoil ' The Biblical Roots of the Inevitable Crisis
in the Middle East
Nashville, Thomas Nelson, 2010, 222 pp.
Poderá a decisão de um só homem mar- car, definitivamente, o rumo da
Humanidade? Bryant Wright, pastor de uma igreja baptista em Atalanta, acredita
que sim. Na obra Seeds of Turmoil ' The Biblical Roots of the Inevitable Crisis
in the Middle East, Wright considera que a conflitualidade no Médio Oriente tem
origem não na criação do Estado de Israel, em 1948, mas nos tempos bíblicos e
pode ser encontrada numa escolha de Abraão: ao contrariar, por sugestão da
mulher Sarah, a vontade de Deus (de que ambos teriam um filho e este estaria na
origem de uma "grande nação") e conceber o seu primeiro
descendente, Ismael (que mais tarde teria como descendente Maomé), com a
escrava Hagar. Para o autor, tal "pecado" determinou a História do
Médio Oriente.
Conta o livro de Génesis que Deus prometeu a Abraão, em troca da sua profunda
fé, uma descendência de futuro grandioso com a sua esposa Sarah. Porém, já com
idade avançada, Abraão e Sarah permaneciam sem filhos, pelo que Sarah sugeriu
ao marido procurar descendência com a sua escrava Hagar. Desta relação nasce
Ismael e uma profunda rivalidade entre as duas mulheres. Mais tarde, contra
todas as expectativas, Sarah dá à luz o filho prometido por Deus, Isaac, que
seria o patriarca do povo hebraico. Com ele, nasce uma rivalidade entre os dois
homens e, posteriormente, entre duas interpretações teológicas.
Neste livro, o pastor Bryant Wright procura sustentar, através da interpretação
dos textos bíblicos, que a rivalidade entre Isaac e Ismael, e todos os eventos
que lhe sucederam, têm consequências na actualidade, designadamente na
conflitualidade existente entre o Estado de Israel e os países árabes vizinhos.
No mesmo sentido, também a relação com o Irão, que o autor considera ser
"a maior ameaça a Israel e à paz no Médio Oriente", pode ser
justificada pelo Antigo Testamento, designadamente as relações entre o Império
Persa e o povo judeu.
O argumento de Bryant Wright assenta no facto de Abraão, e dos seus
descendentes, constituírem um elemento de importância fundamental para as três
religiões monoteístas ' judaísmo, cristianismo e islamismo, às quais dedica os
três últimos capítulos da obra ' e destas constituírem um elemento essencial
nas sociedades que as professam.
A obra Seeds of Turmoil, narrada em tom de pregação aos fiéis, é, naturalmente,
um exercício de interpretação teológica, que nos esclarece sobre os termos de
argumentação de algumas correntes do conservadorismo cristão, face ao conflito
no Médio Oriente.
Margarida Santos Lopes, Novo Dicionário do Islão ' Palavras, Figuras e
Histórias
2.ª edição, Lisboa, Casa das Letras, 2010
Poucas são as obras publicadas por autores portugueses sobre o islão, e menos
as que têm como preocupação central esclarecer conceitos e clarificar mitos. O
Novo Dicionário do Islão ' Palavras, Figuras e Histórias, da autoria da
jornalista Margarida Santos Lopes, é uma delas e, por isso, uma referência.
Trata-se da reedição da obra publicada, pela primeira vez, em 2002, com um
esforço de inclusão de um mais vasto número de conceitos, personalidades e
referências históricas.
Com prefácio de Jorge Sampaio, esta é uma obra que define como objectivo
fundamental "contribuir para descodificar uma religião que nasceu há 1400
anos ' em 610 da era cristã ', mas ainda provoca desconfiança". Nas
palavras do antigo Presidente da República e alto-representante das Nações
Unidas para a Aliança das Civilizações, trata-se de uma compilação que
"aparece no momento oportuno, numa altura em que crescem, na Europa,
sinais inquietantes de uma recrudescência de atitudes e comportamentos que se
designam, recorrendo a um neologismo que alguns consideram pouco feliz, de
"Islamofobia"". Porque é um dicionário ' "que por isso não se lê,
mas consulta-se" ', adopta um registo eminentemente pedagógico e
acessível, sem cair em simplificações, tendo por isso a capacidade de chegar a
um público potencialmente mais vasto.
Tendo como ponto de partida a interrogação "Porque é que o islão atrai e
amedronta?", a autora lista várias centenas de conceitos, personalidades,
eventos históricos e lendas, que procura esclarecer tendo como base uma extensa
lista bibliográfica (útil a quem pretende aprofundar os conhecimentos) e
informações obtidas em entrevistas a 30 especialistas na temática do islão.
O Novo Dicionário do Islão ' Palavras, Figuras e Histórias é, por isso, uma
obra a consultar, para esclarecer dúvidas e inquietações.
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