O poder e as relações internacionais: Entrevista com Joseph Nye
O poder e as relações internacionais.Entrevista com Joseph Nye
Bruno Cardoso Reis
Licenciado e mestre em História (Faculdade de Letras de Lisboa). Tem o mestrado
em Historical Studies pela Universidade de Cambridge (2003). É doutor em
Segurança Internacional (War Studies, King's College) desde 2008, e a sua
tese sob o título Big Armies and Small Wars deverá ser publicada durante o
próximo ano. Em 2007 publicou Salazar e o Vaticano que recebeu os prémios Vítor
de Sá e Aristides de Sousa Mendes. É actualmente investigador no ICS ' UL e do
IDN e investigador associado do King's College. É membro do CEHR ' UCP,
do IISS e da APCP.
Continuamos esta série de entrevistas com uma conversa com Joseph Nye,
University Distinguished Service Professor, e antigo Dean da Kennedy School.
Com um BA da Universidade de Princeton, fez estudos de pós-graduação na
Universidade de Oxford e recebeu o seu PhD em Ciência Política pela
Universidade de Harvard. Trabalhou como Assistant Secretary da Defesa para os
assuntos internacionais de segurança e foi Chair do National Intelligence
Council.
Entre os seus livros podemos destacar Soft Power: The Means to Success in World
Politics (2004), Understanding International Conflict (5.ª edição, 2004), The
Powers to Lead(2008) e The Future of Power (2011).
Bruno Cardoso Reis [BCR]> O tema da convenção da International Studies
Association é teoria e política. Esteve envolvido nestas duas áreas. Qual é ' e
qual deve ser ' a relação entre as duas? Considera que a teoria informa a
política de forma adequada? Acha que tal é possível?
Joseph Nye [JN] > A minha experiência tem sido bastante positiva, na medida em
que comecei com a teoria e desenvolvi teorias antes de entrar no mundo da
política. Mas apercebi-me de que à medida que me confrontava com problemas
concretos, a forma como lhes respondia era frequentemente afectada ou
influenciada pelas teorias que estudara em ciência política ou em relações
internacionais. Por exemplo, quando tive a responsabilidade de formular a
política dos Estados Unidos para o Leste Asiático durante a Administração
Clinton, dei por mim a combinar realismo e liberalismo.
A questão na altura era saber como lidar com a ascensão da China. Uma resposta
era integrar a China ' esta seria a resposta liberal. Porém, caso a China não
se portasse bem, caso se tornasse um agressor, tínhamos de ter uma salvaguarda,
que passou pelo reforço do Tratado de Segurança Estados Unidos-Japão. Desta
forma, desenvolvemos uma estratégia através da qual procurámos simultaneamente
integrar e manter salvaguardas ' uma combinação de pensamento liberal com
pensamento realista. Em suma, a teoria influenciou o meu pensamento de uma
forma ecléctica ' e não rígida.
BCR > Na sua opinião, continua a ser a política adequada no contexto da relação
entre os Estados Unidos e a China?
JN > Penso que sim. Penso que tem funcionado relativamente bem. É óbvio que a
China está, neste momento, muito bem integrada na economia mundial. Apoiámos a
sua adesão à Organização Mundial do Comércio. Mas a China também sabe que, se
tentar tornar-se um agressor, deparar-se-á com uma situação em que o Japão e a
Índia se irão preocupar com o aumento do poder militar chinês. Na minha
opinião, isso condiciona o contexto no qual a China faz as suas escolhas.
BCR> E o mesmo tipo de estratégia aplicar-se-ia também à Índia?
JN > Sim.
BCR > Voltemos à questão da teoria versus política, ou teoria e política.
Concorda que, hoje em dia, por exemplo nos Estados Unidos, a academia ' ou
seja, as universidades tradicionais como Harvard, e mesmo a Kennedy School '
está a perder influência face a think-tanksque tendem a produzir papers muito
curtos, frequentemente orientados por agendas políticas ou ideológicas?
Concorda com esta leitura?
JN > Sim, considero que os departamentos tradicionais nas universidades têm
orientado a maior parte dos seus esforços para formar pessoas em teorias e
indicadores científicos cada vez mais refinados, mas com reduzida ligação à
política. Infelizmente, uma grande parte dos responsáveis políticos acha que
esta [literatura académica] é escrita numa linguagem incompreensível, que não
lida com os assuntos que mais os preocupam. Temos portanto um vácuo, que acaba
por ser preenchido pelos think-tanks, focalizados num horizonte temporal mais
imediato, nos meios de comunicação social e na resposta aos interesses dos
responsáveis políticos. Escrevi um texto sobre esta questão no Washington Post,
com o título "Scholars on the sidelines". Espero que a geração mais
nova de académicos compreenda que é possível fazer teoria e política1.
BCR > De certa forma, isto demonstra que as ideias desempenham sempre uma
função. Precisamos constantemente de ideias para orientar a acção, mesmo que
estas ideias não estejam muito desenvolvidas ou tenham tendências ideológicas.
Os políticos podem achar que não estão a usar ideias, mas a verdade é que têm
de fazê-lo.
JN > Keynes tem aquela frase famosa segundo a qual os homens práticos são
prisioneiros de um escrevinhador cujo nome esqueceram ' na minha opinião, uma
grande verdade. E acho que é importante para as universidades continuarem
envolvidas em assuntos políticos, porque as universidades tendem a ser mais
rigorosas na sua análise do que os think-tanks, devido aos processos de
arbitragem científica a que estão sujeitas.
BCR> Referiu-se a estas designações agora comuns ' realismo, liberalismo. Tem
sido categorizado por diversas vezes como um institucionalista liberal.
Considera que estas "etiquetas" são úteis?
JN > Não, acho que as etiquetas atrapalham. No meu livro Understanding
International Conflict escrevi que, muitas vezes, é útil começar pelo realismo
porque se trata da teoria mais parcimoniosa ' porém, é raro que o realismo
tenha a resposta definitiva2. Na verdade, precisamos de combinar o realismo, o
liberalismo e o construtivismo para obter uma ideia completa do que está a
passar-se no mundo. As pessoas que se restringem a uma única escola de
pensamento acabam por chegar a conclusões de reduzida utilidade. Os neo-
realistas, tão populares durante a década de 1980, fizeram previsões acerca do
futuro da Europa no pós-Guerra Fria que apontavam para um regresso ao passado:
a Alemanha iria sair da NATO e desenvolver uma política externa independente.
Esta previsão, baseada obviamente em proposições teóricas datadas e muito
simplistas, acabaria por revelar-se errada.
BCR> Abordou muitos temas no seu trabalho. Acho isso muito interessante, mas
algumas pessoas parecem pensar que isso é mau, e desencorajam os académicos
mais novos de fazê-lo. Cada vez mais, estes são aconselhados a especializar-se.
Qual a razão para ter feito tantas coisas?
JN > Segui a minha curiosidade intelectual, o que me levou a procurar a
explicação para coisas que me pareciam anomalias ' coisas que não encaixavam
nas teorias existentes. Neste contexto, interessei-me pela integração: pela
forma como a economia e a política se conjugam nos mercados comuns em países em
desenvolvimento. Isto levou-me a trabalhar sobre a África Oriental, a América
Central, o Mercado Comum Europeu, e depois sobre a UNCTAD, e ainda sobre o
comércio nuclear e outros assuntos nucleares3. Cada um destes temas levou-me a
outro problema. Assim, a razão da minha itinerância foi o facto de estar em
busca da solução de problemas para os quais não tinha resposta.
O livro que estou a escrever neste momento, que poderá intitular-se Smart
Power, prossegue uma temática que tenho vindo a explorar desde 1990, quando
publiquei Bound to Lead: Qual o significado do poder no mundo moderno?4 O que
irá acontecer ao poder americano? A que nos referimos quando falamos sobre
transição e transferências de poder, e o que sabemos sobre isso? Quais as
implicações estratégicas? Por conseguinte, o livro que estou a escrever agora é
essencialmente uma continuação de um tema no qual tenho vindo a trabalhar
durante vinte anos. Portanto, tenho explorado muitos assuntos mas também tenho
mantido certas temáticas durante duas décadas.
BCR > O que diria a um jovem académico que está a iniciar agora a sua carreira
de investigação? Qual é, na sua opinião, o "segredo" de uma boa
teoria ou análise de relações internacionais?
JN> Evite ser dogmático e deixe que a sua curiosidade intelectual o leve a
problemas que outras pessoas não conseguem explicar bem ' o que eu chamo de
anomalias, coisas que não encaixam bem ' e tente compreendê-los. À medida que
os compreende, ou que tenta compreendê-los, irá atravessar muitas fronteiras e
paradigmas teóricos, e é talvez aí que o trabalho mais interessante tem de ser
feito.
BCR > Falemos do seu trabalho sobre integração e sobre a socialização de grupos
de especialistas à escala internacional. Hoje em dia parecem existir mais
grupos transnacionais, desde sindicatos, associações empresariais, tecnocratas
e mesmo activistas antiglobalização. Diria que a integração é o caminho do
futuro, ou acha que a globalização em geral pode ser travada?
JN > Pessoalmente, devo dizer que acho que a Europa tem sido um grande sucesso.
Se pensarmos bem, se não fosse Bruxelas e o processo de integração europeu a
Europa poderia ter tido uma situação infeliz. O facto de Bruxelas ter
funcionado como pólo de atracção para a Europa do Sul, em primeiro lugar, e
depois para a Europa Central e de Leste fez com que se constituísse uma zona de
paz e confiança na qual a ideia do uso da força entre os seus membros é
verdadeiramente impensável. Trata-se de uma conquista extraordinária, que criou
na Europa uma comunidade política sui generis. Não vamos ter uns Estados Unidos
da Europa nem outro Estado-Nação. Contudo, não vejo reunidas as condições para
que este processo possa ser replicado noutras partes do mundo. Se me
perguntasse se a Ásia poderia reproduzir...
BCR > A Ásia ou o Mercosul ou...
JN > Pois. A minha primeira investigação incidiu sobre a África Oriental e
sobre o mercado comum desta região, e baseou-se na ideia de que talvez a África
pudesse seguir o exemplo europeu. De igual modo, os meus estudos sobre a
América Latina procuravam saber se esta região poderia imitar a Europa.
Infelizmente, não havia condições para tal. Se a globalização pode ser
revertida, a resposta é, claramente, sim. Já aconteceu antes... Irá isso
acontecer? Duvido, mas na história nada é inevitável.
BCR > Falou do Leste Asiático, da América Latina e de África no contexto do
modelo europeu. Não vê reunidas as condições nestas regiões para esse tipo de
desenvolvimento?
JN > Não. Pensemos na Europa depois de 1945: verificou-se um processo
extraordinário, que começa com Monnet, Schumann e outros, e que junta países
que eram inimigos acérrimos, primeiro através da Comunidade Europeia do Carvão
e do Aço e que se expandiu gradualmente. Se olharmos para a Ásia do Leste
depois de 1945, estes países nunca conseguiram reconciliar-se com a década de
1930. Até hoje, quando um primeiro- -ministro japonês visita o templo de
Yasukuni [dedicado aos mortos da guerra], cria enormes problemas com a China, a
Coreia... Não vejo o Leste Asiático a repetir o exemplo europeu.
BCR > Talvez não no Sudeste Asiático, mas em partes da América do Sul ou da
América Central, ou mesmo em partes de África...
JN > Os africanos de Leste estão agora a tentar reconstituir o Mercado Comum da
África Oriental. Há coisas interessantes a acontecer na América do Sul: o Cone
Sul é uma boa ideia, o Mercado Comum Centro-Americano ainda funciona ' tudo
isto é positivo mas não é a mesma coisa que a União Europeia.
BCR > No que diz respeito à União Europeia, acho que tem toda a razão quando
diz que não é um Estado. A UE falha sempre a esse respeito. Pensa no entanto
que a UE pode tornar-se uma força importante a nível internacional, com o
Tratado de Lisboa, por exemplo, a fazer a diferença?
JN > O problema é o seguinte: conseguirá a Europa definir uma política externa
comum? Em termos das relações entre os estados europeus, a Europa tem sido um
grande sucesso. Saber se a Europa irá conseguir congregar esforços e, como lhe
compete, alcançar um papel importante a nível global ' essa é uma questão mais
problemática. O Tratado de Lisboa definiu uma moldura possível, mas não é claro
que irá resultar numa Política Externa Europeia Comum. De certa forma, existiu
uma política comum durante a liderança de Javier Solana; porém, neste momento,
e a curto prazo, não creio que ocorra uma grande mudança no sentido de uma
Política Externa Europeia mais robusta.
BCR> A defesa europeia tem-se revelado um grande desafio à integração. De
acordo com alguns responsáveis em Bruxelas, um dos problemas é os Estados
Unidos e o acordo "Berlim Plus" entre a NATO e a UE. Considera esta
crítica justa?
JN > Acho que isso já não constitui problema, apesar de no passado ter sido. Na
minha opinião, o problema é que a Europa tem tido muito poder suave (soft
power) e deveria investir mais em poder duro (hard power). Falando do ponto de
vista americano, não devíamos estar preocupados com uma Europa demasiado forte
mas sim com uma Europa demasiado fraca. Penso que as atitudes em Washington
face à defesa europeia são agora muito mais positivas.
BCR > Falou no conceito de transição hegemónica. Alguns autores defendem que é
isto que está a ocorrer com a China e outros poderes emergentes. Pensa que é
possível que esta transição ocorra sem guerra ou conflito significativo? A
existência de armas nucleares e instituições internacionais marcará a diferença
em relação ao passado?
JN > Não prevejo um conflito sério entre os Estados Unidos e a China. Também
não dou muito crédito às pessoas que dizem que a China vai liderar o século
XXI. Se me perguntar se o PIB da China vai superar o dos Estados Unidos, é
claro que sim, porque a China está a enriquecer e tem uma população muito
maior. Contudo, em rendimento per capita isso não vai acontecer antes do fim do
século. No que diz respeito ao comportamento da China, vale a pena reparar no
que mencionei anteriormente em relação à Ásia. A Índia, o Japão e outros países
como o Vietname e a Indonésia estão bastante preocupados com o crescimento do
poder chinês. Neste contexto, uma presença americana acaba por ser útil ' e
isto irá depender em parte da forma como a China se comportar. Finalmente,
enquanto a China continuar a ser um regime repressivo isso irá minar a sua
mensagem e reduzir o seu poder suave. As pessoas que vêem a China a liderar o
século XXI por causa do seu PIB estão a olhar apenas para uma dimensão do
poder, e isso não é suficiente na minha opinião.
Penso também que há áreas de interesse comum para os Estados Unidos e a China.
Estas irão abrir as portas à cooperação, mas não a um G2 ' uma ideia que não
faz sentido. Não se pode lidar com os assuntos de interdependência sem incluir
a Europa, o Japão e tantos outros. Porém, será possível encontrar interesses
comuns aos Estados Unidos e à China? Penso que a resposta é afirmativa. Lembro-
me neste contexto das palavras de Henry Kissinger que, ao comentar a China
actual, afirma que esta não é um poder revisionista; sim, a China pretende ter
uma voz mais forte, um papel mais importante nas instituições, mas não estamos
a falar da Alemanha do Kaiser.
BCR > Conheci recentemente um académico chinês ' cujo nome não vou revelar '
que me disse que os chineses pretendiam uma ascensão pacífica, nem que mais não
fosse por causa da geopolítica regional que acabou de mencionar. Existem
também, é claro, as pressões por parte dos jovens e de diversos sectores da
sociedade. Com todas estas assimetrias internas, parece-me muito optimista
pensar que a China não enfrentará quaisquer problemas no seu desenvolvimento
futuro. Porém, em termos da posição do Ocidente, dos Estados Unidos e do resto
do mundo no G20, por exemplo, parece-lhe que este poderá ter uma contribuição
positiva? É necessário e suficiente abordar esta questão como um esvaziamento
do poder do Ocidente?
JN > Bem, o G20 é uma ideia muito boa, e é certamente muito melhor do que
tentar viver com um G8 que deixou de ser representativo. A ascensão da Ásia vai
ser uma das grandes transformações, um dos eventos marcantes do século XXI.
Ainda assim, e uma vez mais, é importante relembrar que a ascensão da Ásia não
é o mesmo que a ascensão da China. A Ásia compreende pelo menos três grandes
potências. Por conseguinte, acho que a coordenação dos outros estados poderosos
no contexto de uma cimeira ou organismo é um passo muito positivo.
BCR > Isso leva-nos à questão do multilateralismo e da sua eficácia. Há algum
tempo surgiu um artigo de Richard Haass sobre "Multilateralismo
desordenado"5. Qual é a sua opinião sobre o futuro do multilateralismo '
poderá este ser eficaz?
JN > Penso que em relação ao multilateralismo teremos de nos confrontar com uma
geometria variável: o mesmo tamanho não vai servir a todos, mas por vezes estas
diferentes instituições podem complementar-se entre si. Tentar negociar a
questão das alterações climáticas no quadro da ONU leva a uma política de
blocos, como o Grupo dos 77 que nem sempre reflecte os interesses dos seus
membros. No entanto, é possível imaginar negociações entre um grupo mais
restrito de, por exemplo, oito entidades que representem 80 por cento das
emissões ' com eventuais acordos entre estas a serem posteriormente levados ao
âmbito mais alargado da ONU para legitimação. Concluindo, penso que temos de
ser mais flexíveis na forma como pensamos sobre as instituições.
BCR> O seu trabalho inclui também estudos sobre guerra e conflitos. Considera
que o conceito de novas guerras é uma contribuição positiva, que reflecte a
transição das guerras tradicionais e convencionais, de grande dimensão, e a
proliferação de pequenas guerras? Trata-se de um fenómeno novo?
JN > As pessoas têm lutado umas com as outras em unidades de tamanho variado ao
longo da história, mas se pensarmos nas guerras do século XX, creio que é
possível afirmar que no século XXI estamos a assistir à chamada guerra do povo
' uma nova forma de conflito que não substitui totalmente o conflito entre
estados. O conflito entre estados continua a ser possível, mas um outro tipo de
conflito está a tornar-se mais prevalente.
BCR> Por vezes diz-se que a crescente importância do terrorismo e das
insurreições coloca um desafio ao realismo. Mas também é possível dizer que o
neo-realismo, o liberalismo ou outras escolas das relações internacionais não
lidam necessariamente melhor com estas questões.
JN > Penso que o problema com o neo-realismo é o facto de dar demasiada
importância à distribuição estrutural de poder duro, enquanto que o
neoliberalismo dá demasiada importância às forças económicas. Neste contexto
surge o construtivismo, que se debruça sobre a importância das ideias e que
leva à noção de poder suave ' em muitos aspectos, uma versão da teoria
construtivista.
BCR > Considera que o terrorismo constitui um grande desafio à teoria das
relações internacionais e à sua ênfase tradicional no Estado?
JN > O terrorismo é um exemplo da difusão de poder, do papel cada vez mais
importante de actores não estatais. Não é que o terrorismo seja novidade, é o
facto de o terrorismo ser agora possibilitado por tecnologias de informação que
lhe permitem fazer mais do que no passado. O terrorismo não pode vergar um
grande Estado mas pode fazer com que este cometa actos muito autodestrutivos.
Desta forma, a análise convencional, baseada no realismo, segundo a qual o
terrorismo não pode levar um Estado ao colapso sendo por isso pouco importante,
ignora o facto de o terrorismo poder levar um Estado a fazer coisas que são
contra os seus próprios interesses.
BCR > De igual modo, o terrorismo não pode ser compreendido através dos
indicadores tradicionais de poder na política internacional.
JR > Exacto. Costumo dizer que os terroristas são como lutadores de jiu-jitsu,
um desporto no qual o concorrente mais pequeno tenta usar a força do maior
contra este.
BCR > Tem reflectido sobresoft powerehard power. Qual é, na sua opinião, a
grande novidade ou contribuição do conceito desoft power? E porque é que está a
debruçar-se neste momento sobre a ideia desmart power?
JN > Desenvolvi a ideia de soft power quando estava a escrever Bound to Lead em
1989. Nessa altura, a opinião generalizada era a de que os Estados Unidos
estavam em declínio, e o paradigma dominante na ciência política e nas relações
internacionais era o neo-realismo, que olha unicamente para o poder militar e o
poder económico. Enquanto analisava o poder económico e militar dos Estados
Unidos, apercebi-me que faltava alguma coisa: a capacidade de atingir os
resultados desejados através de atracção e persuasão, em vez de coerção ou
pagamento. Desenvolvi assim a ideia de soft power como um conceito analítico
para resumir esta ideia.
Utilizei o termo smart power em 2004 para fazer ver às pessoas que o meu
argumento não era o de que o soft power estava a substituir o hard power, mas
sim que era necessário descobrir a melhor forma de combinar recursos de soft e
hard power em estratégias eficazes ' e essas estratégias constituiriam smart
power. Portanto, utilizei o termo não com o intuito de substituir soft power,
mas apenas para recordar que o objectivo do poder é atingir os resultados
desejados. Por vezes fazêmo-lo com recursos duros e outras com recursos suaves;
por vezes os dois reforçam-se um ao outro, e outras vezes podem atrapalhar-se
um ao outro.
BCR > Não haverá talvez uma espécie de lado negro do soft power, na medida em
que é possível ter atracção mas também repulsa? Os Estados Unidos são uma
grande fonte de atracção em muitos aspectos, mas enquanto que muitas das suas
dimensões culturais atraem alguns, provocam também repulsa noutros ' o exemplo
extremo é a Al-Qaida. Ao mesmo tempo, tentar influenciar outros provoca
frequentemente reacções. Concorda?
JN> Tentei deixar claro que o soft power não é bom ou mau em si. Por exemplo,
bin Laden tinha soft power: ele não apontou uma arma à cabeça das pessoas que
atacaram as Torres Gémeas, e também não lhes pagou. Pelo contrário, atraiu-os
com um conjunto de ideias ' embora eu ache que eram ideias muito más. Portanto,
o soft power não é bom nem mau, é apenas uma forma de poder. A questão de saber
se um dado recurso ' por exemplo, uma determinada cultura ' produz atracção ou
repulsa depende da audiência. A cultura americana é atractiva nalguns locais e
noutros não é. Um filme de Hollywood no qual as mulheres vão trabalhar pode ser
atractivo na América Latina e repulsivo na Arábia Saudita. E, por vezes, pode
ser atractivo e repulsivo no mesmo país, para diferentes grupos. Os mulás que
lideram o Irão vão sentir repulsa por um filme de Hollywood, mas as gerações
mais jovens não querem outra coisa a não ser um vídeo para ver estes filmes em
suas casas.
BCR > O que me parece interessante é o facto de as grandes potências terem
normalmente este tipo de poder suave, e uma espécie de visão providencial ou
positiva de si próprias que tentam promover. Ao mesmo tempo, há sempre uma
"lenda negra" que lhe está associada.
JN > Concordo, é muitas vezes verdade. Mas também importa ter em conta que os
indivíduos, as empresas, os actores não estatais e os estados pequenos podem
usar o soft power. Este não pertence unicamente aos grandes estados. Porém, os
grandes estados têm de facto um probema estrutural, o facto de serem vistos
como uma ameaça devido à sua dimensão.
BCR> Uma última questão. Qual é o seu interesse de investigação no momento? Por
outro lado, quais são os grandes temas que, na sua opinião, ainda não foram
suficientemente explorados, e que talvez devam sê-lo?
JN> Estou agora a tentar escrever um livro em que me questiono sobre como será
o poder no século XXI, e como devemos pensar sobre o poder6. Outro assunto que
creio merecer muito mais atenção são as condições para um poder com, em vez de
um poder sobre. Muitas questões da governação global, como as alterações
climáticas, irão exigir mais poder com em detrimento de poder sobre. Por
conseguinte, ao terminar este livro debruçar-me-ei provavelmente sobre esta
questão.
Nova Orleães, 18 de Fevereiro de 2010
Transcrição: Raquel Duque
Tradução: João Reis Nunes
NOTAS
1 NYE Jr., Joseph S. ' "Scholars on the sidelines". In The
Washington Post, 13 de Abril de 2009. Disponível em: http://
www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/04/12/
AR2009041202260_pf.html
2 NYE Jr., Joseph ' Understanding International Conflicts: An Introduction to
Theory and History. 7.ª edição. Londres: Longman, 2008; edição portuguesa: NYE, Joseph ' Compreender os Conflitos Internacionais. Lisboa:
Gradiva, 2002.
3 Criada em 1964, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e
Desenvolvimento (UNCTAD) é um órgão da Assembleia Geral das Nações Unidas.
4 NYE Jr., Joseph ' Bound to Lead: Changing Nature of American Power. Nova
York: Basic Books, 1991; o livro mais recente acabaria por
chamar-se Future of Power (Nova York: Public Affairs, 2011).
Ver também NYE, Joseph ' Soft Power: The Means of Success in Modern Politics.
2.ª edição. Nova York: Public Affairs, 2005.
5 HAASS, Richard ' "The case for messy multilateralism". In The
Financial Times, 5 de Janeiro de 2010. Disponível em: http://www.ft.com/intl/
cms/s/0/18d8f8b6-fa2f-11de-beed-00144feab49a.html#axzz1QgRGoHh0
6 NYE Jr., Joseph ' Future of Power.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
1000-155 Lisboa
Portugal
ipri@ipri.pt