The West and the rest: reflexões sobre uma década de guerra contra o terror
The West and the rest - reflexões sobre uma década de guerra contra o terror
Os fatídicos acontecimentos do 11 de Setembro assumiram um estatuto icónico na
narrativa da modernidade ocidental: a sua presença não pode ser negada, nem
ignorada. No entanto, mais do que falar dessa presença óbvia, ou do impacto do
11 de Setembro na política externa americana, o objectivo deste breve artigo é
chamar a atenção para as ausências e silêncios da última década no que toca ao
11 de Setembro e às suas consequências políticas. Especificamente, o objectivo
destas breves linhas é complexificar a narrativa do 11 de Setembro, alargando-
a no tempo e no espaço, e tentar pensar a década pós-11 de Setembro de uma
perspectiva descentrada ' isto é, uma perspectiva diferente das narrativas
dominantes nos centros de poder do mundo ocidental.
Uma das narrativas dominantes é precisamente a de que o 11 de Setembro pertence
ao cânone histórico americano, e ' secundariamente ' ao cânone histórico do
"Ocidente". Deste ponto de vista, os ataques terroristas de 11 de
Setembro de 2001 inserem-se na memória colectiva dos cidadãos do "Norte
global" dentro de uma linha de acontecimentos extraordinários que
afectaram o curso da história americana, como o ataque a Pearl Harbour em 1941.
Esta singularização e "americanização" dos ataques tornou-se uma
narrativa de tal forma dominante nos discursos políticos e mediáticos da última
década que efectivamente "apagou" outros pontos de referência
históricos, geográficos e políticos1. Toda a narrativa sobre os ataques do 11
de Setembro se tornou um momento mediático ' a destruição das Torres Gémeas.
Esta tendência reduz um processo extraordinariamente complexo, longo e global
aos terríveis eventos de um dia; e elide uma série de acontecimentos
politicamente salientes ' como o assassinato de Ahmed Shah Massoud, as várias
mensagens de Osama bin Laden, ou a promulgação do Patriot Act ' numa só
imagem2.
Mas as consequências dos ataques vão muito para além da tragédia nova-yorkina,
ou americana. Efectivamente, a esmagadora maioria das vítimas do 11 de Setembro
provém da Ásia do Sul, mas países como o Afeganistão e o Paquistão foram desde
o início caracterizados como os pontos de origem da violência terrorista, e não
como as suas maiores vítimas. Infelizmente, e ao contrário dos números das
vítimas dos atentados em si ' 30663 ' não há estatísticas confiáveis e
sistemáticas para o número de civis mortos no Afeganistão e no Paquistão como
resultado das operações americanas e da NATO em resposta ao 11 de Setembro. No
entanto, as estatísticas de que dispomos sugerem um número não inferior a três
mil vítimas civis por ano no conjunto destes países4. Isto significa, portanto,
mais de 30 mil civis mortos nesta região, como resultado do 11 de Setembro, das
estratégias regionais da Al-Qaida, e da Guerra contra o Terror desencadeada
pelos Estados Unidos. Em resposta a pressões americanas, em 2009 e 2010 o
Governo do Paquistão lançou várias ofensivas militares na região fronteiriça
com o Afeganistão5, resultando em mais de 2,7 milhões de deslocados internos
(IDP)6. Onde estão os memoriais ' as estátuas, os documentários, os discursos
sentidos de políticos europeus, as peças de teatro e filmes ' dedicados a essas
outras vítimas de uma mesma catástrofe?
AS OUTRAS CONSEQUÊNCIAS DO 11 DE SETEMBRO
Os acontecimentos do 11 de Setembro tiveram, no entanto, outras consequências,
eventualmente tão nefastas como a trágica perda de vidas de civis
"apanhados" entre as estratégias dos Estados Unidos e de uma série
de grupos extremistas, incluindo a Al-Qaida. Uma dessas consequências foi o
(re)aparecimento de um discurso de confrontação entre o "Ocidente"
e o mundo islâmico7, e uma série de narrativas sobre os perigos do islão
político ' se quisermos, a ideologização ou culturalização da guerra contra o
terrorismo. Visto desta perspectiva, os factores que mais cabalmente explicam
os atentados, e actos terroristas mais geralmente, não são os percursos
biográficos dos seus autores, nem dinâmicas de grupo que levaram à
radicalização e eventualmente ao uso de violência, nem agravos políticos
legítimos, e sim factores "culturais" como a ideologia ' muitas
vezes entendida de forma simplista8. Esta perspectiva ' que resultou numa
verdadeira indústria académica de "peritos", muitas vezes de
credenciais intelectuais duvidosas, sobre o islão político e/ou terrorismo9 '
teve várias consequências funestas, entre elas a indelével associação entre
terrorismo e islão político10.
Outra grave consequência, a longo prazo, dos ataques do 11 de Setembro e da
Guerra contra o Terror, global mas sentida desproporcionalmente por muçulmanos,
foi o que poderíamos chamar o reordenamento legal global, baseado num ethos
excepcionalista ' a ideia de que medidas extraordinárias e porventura ilegais
são necessárias e justificadas para garantir a segurança de estados ocidentais,
ainda que às expensas das liberdades civis dos cidadãos11. A última década
trouxe-nos um triste número de episódios específicos que ilustram esta
tendência excepcionalista, como os abusos dos direitos humanos e o uso de
tortura em Guantánamo e Abu Ghraib, uma série de assassinatos extrajudiciais, e
números indeterminados de "rendições extraordinárias".
Significativamente, os dez anos de Guerra contra o Terror evidenciaram também a
tendência crescente para qualificar a soberania de estados, em particular
estados de maioria muçulmana (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen, Somália) '
empregando conceitos como estados frágeis ou falhados ' legitimando assim uma
série de pressões e intervenções, muitas vezes violentas, por parte de estados
liberais ocidentais, liderados pelos Estados Unidos.
No Paquistão, por exemplo, os Estados Unidos implementaram desde 2004 uma
política de ataques a alvos da Al-Qaida e dos taleban paquistaneses (Tehrik-e-
Talieban ou TTP) através de veículos aéreos não tripulados (drones), sob a
liderança da CIA12. Até agora ocorreram mais de 260 ataques, que resultaram num
número de vítimas estimado entre 1600 e 250013. O impacto destes ataques na
opinião pública e na segurança da população paquistanesa, bem como no
comportamento e estabilidade do governo democraticamente eleito do Paquistão,
não pode nem deve ser descontado. O Governo de Asif Ali Zardari encontra-se
numa posição extremamente precária ' entre as pressões do estabelecimento
militar, afastado do poder pela primeira vez em décadas; dos sectores políticos
e religiosos mais radicais; e as pressões americanas derivadas da estratégia da
guerra contra o terror. E se, por um lado, não pode simplesmente virar costas
aos aliados americanos, por outro também não pode ignorar violações egrégias da
sua soberania, nem o crescente descontentamento popular com as notícias diárias
de mortes de civis nas regiões fronteiriças. Mais recentemente, o assassinato
de bin Laden em solo paquistanês por elementos das forças especiais americanas
levantou novamente questões sobre a legalidade e as consequências a longo prazo
de tais acções. Do ponto de vista americano, estas iniciativas foram cruciais
para a prossecução da Guerra contra o Terror, e os seus qualificados sucessos
contra a Al-Qaida justificam não só os custos humanos, mas também a inexorável
deterioração da relação com o Paquistão, o aliado mais crucial na região. A
perspectiva paquistanesa sobre a "guerra contra o terrorismo" nunca
é portanto levada seriamente em conta, ou sequer estudada, sobretudo a
perspectiva dos cidadãos do Paquistão ' que, contra todas as probabilidades
conseguiram uma democratização pacífica do seu país, e genericamente tem
demonstrado uma notável moderação no seu comportamentos eleitoral.
Outro exemplo desta separação radical de perspectivas, e de ignorância
relativamente ao contexto local foi o pânico evidenciado pelos media e pela
liderança política e militar americano em 2009, relativamente a uma putativa
tomada de poder dos taleban no Paquistão, uma fantasia absolutamente
implausível e arredada das realidades daquele país. Como observa astutamente
Manan Ahmed, este medo americano/ocidental está baseado numa "versão
comicamente exagerada da realidade":
"Existem aproximadamente 400 a 500 guerrilheiros taleban
paquistaneses na região de Buner [...] e 15 000 a 20 000 a operar na
região entre Peshawar e as fronteiras noroeste do Paquistão.
Entretanto, o número de pessoal do Exército paquistanês no activo
atinge cerca de 500 000 efectivos, apoiados por um orçamento anual a
rondar os 4 biliões de dólares. [...] O Paquistão não é a Somália nem
o Sudão, nem mesmo o Iraque ou o Afeganistão. É um Estado
completamente moderno com vastas infra-estruturas; uma imprensa
ferozmente crítica e distinta; uma economia activa e global; e laços
fortes com as potências regionais como a China e o Irão. Não é um
"Estado falhado". [...] Possui uma burocracia civil profundamente
enraizada. A retórica do "Estado falhado" obscurece estas realidades.
Esconde o facto de que partidos de base religiosa nunca obtiveram
mais do que 10 por cento dos lugares em qualquer eleição."14
As análises mediáticas, e uma larga maioria das análises académicas, nas
capitais europeias e norte-americanas caem no mesmo erro, apenas reconhecendo
agência aos terroristas ou aos indivíduos e organizações envolvidos na Guerra
contra o Terror, e caracterizando regularmente os cidadãos e países no Sul
global como incapazes de resistir ou lutar contra o extremismo e o terrorismo
nos seus próprios termos. Se os acontecimentos da última década demonstram
alguma coisa, é que esta perspectiva eurocêntrica dominante e a subalternização
dos conhecimentos, práticas, aspirações e projectos do Outro que ela implica,
ainda que eventualmente apelativa pela simplicidade, limita severamente o nosso
entendimento do complexo contexto político da Guerra contra o Terror, e da
segurança internacional genericamente. A nossa responsabilidade ' enquanto
analistas políticos, mas também enquanto cidadãos ' passa por desenvolver um
espírito mais crítico, por desenvolver narrativas mais descentradas e menos
estereotípicas.
NOTAS
1
Um claro exemplo desta tendência é a forma como a própria expressão "11
de Setembro" ou 11/9 se tornou unívoca, apagando qualquer referência
histórica a qualquer outro 11 de Setembro, como por exemplo a data do golpe de
Estado no Chile que derrubou o Governo democraticamente eleito de Salvador
Allende e instalou a ditadura do general Augusto Pinochet com o apoio cúmplice
do Governo de Nixon (MAXWELL, Kenneth ' "The other 9/11 ' The United
States and Chile, 1973". In Foreign Affairs. N.º 82, p. 147, 2003).
2
Uma imagem de tal forma poderosa que efectivamente secundarizou ou apagou na
memória colectiva outros aspectos do 11 de Setembro, incluindo o ataque contra
o Pentágono, e o ataque falhado devido à coragem dos passageiros do voo da
United Airlines 93, que se despenhou num descampado da Pensilvânia.
3
Conforme as estatísticas oficiais apresentadas no relatório final da Comissão
do 11 de Setembro.
4
Por exemplo, e segundo dados das Nações Unidas, só em 2009 e só no Afeganistão
foram mortos ou feridos 5978 civis (2412 mortos confirmados, dos quais um
quarto ' 596 ' foram mortos por forças da NATO ou do governo afegão). Em 2010
foram mortos 2770 civis, 440 dos quais (16 por cento) por forças governamentais
ou da NATO, e 2080 (75 por cento) por forças antigovernamentais. No Paquistão,
as estimativas de civis mortos por atentados terroristas em 2009 oscilam entre
os 2123 e os 2670 (CIVIC ' Civilian Harm and Conflict in Northwest Pakistan,
p. 13. [Consultado em 20 de Julho de 2011]. Disponível em: http://
www.civicworldwide.org/storage/civicdev/documents/
civic%20pakistan%202010%20final.pdf).
5
ROGGIO, Bill ' "Taliban and Pakistan military battle in Swat". In
Long War Journal. [Consultado em: 20 de Julho de 2011]. Disponível em: http://
www.longwarjournal.org/archives/2009/05/taliban_and_pakistan.php. Cf. também PANDE, Aparna ' Explaining Pakistan's Foreign
Policy: Escaping India. Londres: Routledge, 2011, p. 79.
6
HRCP (Human Rights Commission of Pakistan) ' Internal Displacaement in
Pakistan: Contemporary Challenges, p. 5. [Consultado em 20 de Julho de 2011].
Disponível em:
www.hrcp-web.org/pdf/Internal%20Displacement%20in%20Pakistan.pdf
7
BAWER, Bruce ' While Europe Slept: How Radical Islam is Destroying the West
from within. Nova York: Doubleday, 2006. PHILLIPS, Melanie
'Londonistan. Nova York: Encounter Books, 2007. Mas, para
análises críticas que desconstroem esta narrativa, cf. HALLIDAY, Fred ' Islam
and the Myth of Confrontation: Religion and Politics in the Middle East. I. B.
Tauris, 2002, e DABASHI, Hamid ' Islamic Liberation Theology:
Resisting the Empire. Londres/Nova York: Routledge, 2008.
8
MARRANCI, Gabriele ' Understanding Muslim Identity: Rethinking Fundamentalism.
Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2009, pp. 2-4.
9
MUELLER, John ' Overblown: How Politicians and the Terrorism Industry Inflate
National Security Threats, and Why We Believe Them. Nova York: Free Press,
2006; JACKSON, Richard; SMYTH, Marie Breen, GUNNING, Jeroen,
e JARVIS, Lee ' Terrorism: A Critical Introduction.Basingstoke: Palgrave
Macmillan, 2011, pp. 11-14.
10
Cf. JACKSON, Richard ' "Constructing enemies: "Islamic terrorism" in
political and academic discourse". In Government and Opposition. Vol. 42,
N.º 3, pp. 394-426, 2007. STEUTER, Erin, e WILLS, Deborah '
"Making the Muslim enemy: the social construction on the enemy in the War
on Terror". In CARLTON-FORD, Stephen, e ENDER, Morton G. (coord.) ' The
Routledge Handbook of War and Society. Nova York: Routledge, 2010.
11
ARADAU, Claudia, e MUNSTER, Rens van ' "Exceptionalism and the "War on
Terror"". In British Journal of Criminology. Vol. 49, N.º 5, 2009, pp.
686-701; FOOT, Rosemary ' "Exceptionalism again: the
Bush Administration, the global war on terror and human rights". In Law
and History Review. Vol. 26, N.º 3, 2008, pp. 707-725; NEAL,
Andrew W. ' Exceptionalism and the politics of counter-terrorism: liberty,
security, and the War on Terror. Londres: Taylor & Francis, 2010.
12
WILLIAMS, Brian Glyn ' "The CIA's Covert Predator Drone War in
Pakistan, 2004-2010: The History of an Assassination Campaign". In
Studies in Conflict & Terrorism. Vol. 33, N.º 10, Setembro de 2010, pp.
871-892.
13
Conforme as estimativas apresentadas pela New America Foundation e
considerando que as estatísticas são de Julho de 2011. NEW AMERICA FOUNDATION '
The Year of the Drone - an analysis of U.S. drone strikes in Pakistan 2004-
2011. [Consultado em 20 Julho 2011]. Disponível em: http://
counterterrorism.newamerica.net/drones
14
AHMED, Manan ' Where the Wild Frontiers Are: Pakistan and the American
Imagination. Charlottesville, VA: Just World Books, 2011, p. 251.
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