Descolonização e Guerra Fria: a ONU, os Estados Unidos e a crise do Congo
(1960-1963)
Durante a Administração Eisenhower, a política americana para as colónias
europeias na África Negra caracterizou-se por diversas opções tácticas
destinadas a ultrapassar as contradições inerentes à Guerra Fria. Ao mesmo
tempo que procuravam preservar os seus aliados europeus da NATO, os Estados
Unidos viram-se na necessidade de reafirmar as suas tradições anticoloniais.
Era também necessário impedir que os soviéticos tirassem partido do facto de os
poderes imperialistas da Europa utilizarem o colonialismo para negar a
liberdade a um grande número de povos. Os britânicos não haviam recebido com
bons olhos a pressão diplomática sobre eles exercida para que agissem com
celeridade no sentido da transferência de poder dentro de períodos de tempo
determinado1; no caso francês, os Estados Unidos exerceram pressão para que
fosse adoptado um compromisso geral visando um objectivo último de
autodeterminação
2
. No que diz respeito ao Congo, esta pressão internacional foi acompanhada pelo
desenvolvimento da oposição política ao domínio colonial belga, que sucedera ao
Estado Livre do Rei Leopoldo.
Os belgas nunca fizeram qualquer esforço para suavizar a imagem e realidade
coloniais com políticas «progressistas». Pouco fizeram para reduzir os aspectos
mais nefastos da exploração colonial dos recursos africanos, para justificar as
desigualdades resultantes do colonialismo ou sequer para assegurar a sua
aceitação por parte das elites africanas emergentes. Desta forma, não só o
Congo era um dos principais exemplos de como os recursos africanos podiam ser
explorados para grande benefício dos europeus, como as principais empresas na
província congolesa do Catanga não tinham razões para pensar que os benefícios
do colonialismo teriam de ser sacrificados para ir de encontro às exigências
políticas que haviam surgido nos últimos anos da década de 1950. Esta era a
principal característica do legado colonialista ao qual os Estados Unidos e a
ONU tiveram de reagir ' juntamente com a Grã-Bretanha e a Bélgica ' à medida
que esta área se tornava rapidamente o principal foco da Guerra Fria no início
da década de 19603.
OS LEGADOS ECONÓMICOS DO DOMÍNIO BELGA
Durante o Estado Livre de Leopoldo, o capital britânico assegurara em 1899 uma
série de direitos de exploração mineira através das Concessões de Tanganhica,
mas o Catanga ficara sob a alçada da Compagnie du Katanga. O Comité Spécial du
Katanga (CSK) foi estabelecido em 1900 e encontrava-se em funcionamento quando
Leopoldo teve de aceitar, em 1904, uma comissão de inquérito parlamentar de
carácter internacional. O relatório demolidor desta comissão fez com que a
Bélgica anexasse o Congo em 1908, e a subsequente necessidade de capital
privado levaria a Société Générale de Belgique a assumir um papel importante no
Catanga, à imagem do que sucedera na Bélgica após 1830. Em 1906, as
cumplicidades económicas entre o Estado Livre e o novo capital privado de
origem europeia resultaram na criação de uma companhia a partir das actividades
de Leopoldo e das Concessões de Tanganhica ' a Union Minière du Haut Katanga
(UMHK, União Mineira do Alto Catanga). Ao atribuir uma face mais humana ao
legado de Leopoldo, a principal preocupação era criar uma máscara e não
efectuar qualquer mudança profunda ' ainda que o capital para a nova companhia
pudesse ser fornecido, em parte, pela Société Générale. O grau de continuidade
era também evidente na preservação da Compagnie du Katanga e do Comité Spécial
du Katanga, que mais tarde teriam uma influência determinante no processo de
independência e constituiriam, depois de 1960, um elemento importante na
questão das transferências económicas e financeiras da Bélgica para o Congo
independente ' ou, mais precisamente, na ausência das mesmas. As questões
económicas «contenciosas» assumiram um grande relevo após a concessão da
independência política, e são fundamentais para compreender devidamente o
processo de descolonização do Congo.
No início do século XX, a Compagnie du Katanga e o Comité Spécial du Katanga
surgiram como símbolos da fusão entre a exploração capitalista de Leopoldo '
com a participação de companhias privadas que asseguravam lucros elevados aos
europeus ' e a intervenção do Estado colonial com capitais da metrópole, que se
verificou a partir de 1908. A ligação entre o governo colonial e as companhias
privadas podia ser também constatada na criação, por parte do Estado colonial,
do Portefólio do Congo, que incluía as entidades paraestatais e as acções e
obrigações emitidas por companhias privadas como títulos sobre direitos de
propriedade ou direitos de exploração. O Comité tinha, obviamente, atribuído
concessões anteriores, e na altura da independência ainda possuía 25 por cento
das acções da umhk. As entidades paraestatais, incluindo a Administração
Fluvial e o Banco Central, eram geridas por conselhos de administração a partir
de Bruxelas, e em 1958 encontravam-se avaliadas em 37,5 mil milhões de francos.
Os rendimentos do Portefólio foram de mil milhões de francos em 1959, mas não
foram tomadas quaisquer medidas visando a sua transferência para o governo
independente.
O que foi transferido para o novo governo foi a dívida resultante dos esforços
belgas no sentido de melhorar as condições no Congo ' o que constituiria uma
parcela importante dos assuntos «contenciosos». O Comité Spécial du Katanga foi
dissolvido seis dias antes da independência através de um acordo entre o
Governo belga e a Compagnie du Katanga. Um terço das acções do CSK seria
transferido para a companhia, que passava a fazer parte da Société Générale,
com os outros dois terços a passarem para o Portefólio e não para o novo
governo ' de modo a funcionarem como moeda de troca durante a negociação dos
contenciosos. O Governo de Bruxelas reconhecia que o Portefólio pertencia ao
Governo independente de Léopoldville, mas enquanto não se resolveram os
contenciosos insistiu em mantê-lo sob a sua alçada, assim como os dividendos
resultantes das suas acções. O novo governo recusou-se a reconhecer o acordo '
e, como veremos, este iria pouco tempo depois assumir um papel mais decisivo
nos assuntos do Congo4.
AS REACÇÕES À ELEIÇÃO DE LUMUMBA
Após as eleições democráticas no Congo Belga terem tido um desfecho não
desejado pelos belgas, a questão que se colocava no imediato, dada a situação
económica, era a de evitar que o nacionalista radical Patrice Lumumba se
tornasse primeiro-ministro. As consequências económicas da emergência do
Mouvement National Congolais (MNC) de Lumumba à posição de maior partido
político eram vistas em Bruxelas e no Catanga como extremamente prejudiciais se
Lumumba conseguisse assumir controlo sobre a governação5. Algumas pessoas,
tanto no Congo como na Union Minière du Haut Katanga, e com apoiantes em
Bruxelas, acreditavam que as rápidas mudanças políticas de 1959 e 1960 iriam
deixar intacto o sistema socioeconómico. Contudo, o nacionalismo de Lumumba
fez-se acompanhar de ideias radicais e nacionalistas de esquerda, e é pouco
provável que este visse com bons olhos a manutenção das relações económicas
coloniais, bem como a sua institucionalização nos acordos postos em prática sob
a égide do Estado Livre de Leopoldo. Por conseguinte, assim que os resultados
das eleições foram conhecidos, Ganshof van der Meersch, o ministro no Congo,
foi incumbido da tarefa de nomear o formateur do novo governo, de acordo com a
loi fondamentale belga na qual se baseava a Constituição do Congo. E, em vez de
nomear Lumumba, o líder do principal partido, Van der Meersch, voltou-se para
Joseph Kasavubu, o líder bacongo, que não foi capaz de assegurar o apoio
necessário para formar um governo sem Lumumba6. A estratégia anti-Lumumba foi
posta em prática antes sequer de se poder verificar que este era comunista ou
que estava a ser instrumentalizado pelo comunismo soviético.
Os Estados Unidos não tinham o mesmo interesse que Bruxelas e Londres nos
pormenores económicos do acordo de independência e no futuro dos interesses
capitalistas europeus. Em vez disso, desejavam aproximar-se dos africanos
através do estabelecimento de um Estado capitalista e democrático de sucesso,
que aplicasse os princípios do capitalismo americano na África pós-
independência ' em oposição às práticas capitalistas coloniais que
caracterizavam o capitalismo europeu. As opiniões de Washington sobre Lumumba
variavam, mas a opinião maioritária era certamente a de que ele não era um
comunista. Porém, à medida que se subia na hierarquia governamental norte-
americana, por exemplo, até ao Conselho Nacional de Segurança ' se é possível
dizer que havia de facto uma hierarquia ' maior era a tendência, durante os
meses de Julho e Agosto de 1960, para descrever Lumumba como um comunista ou
alguém passível de ser instrumentalizado pelos soviéticos7.
O INÍCIO DA SECESSÃO DE LUMUMBA
Porém, a ameaça mais imediata ao novo Estado ' que se tornou independente a 30
de Junho de 1960 ' não provinha dos soviéticos mas sim da secessão do Catanga,
que ocorreu a 11 de Julho. Moishe Tshombe, o líder desta província rica em
cobre, beneficiou de um motim na Force Publique, registado na noite de 5 para 6
de Julho nas imediações de Léopoldville. Na sequência de diversos ataques e
violações dirigidos a europeus, os belgas reforçaram a sua presença militar no
Congo, ainda que as atrocidades e distúrbios não tivessem atingido proporções
generalizadas. Através da intervenção do primeiro-ministro, um acordo para a
resolução da disputa foi alcançado a 8 de Julho8. Porém, no dia seguinte, a
Bélgica anunciou o envio de 1200 militares destinados a reforçar o contingente
de 2500 militares belgas já presentes em Kamina e Kitona. O cenário estava
montado para o envolvimento das Nações Unidas enquanto garante do Estado de
direito e da ordem pública ' ainda que a intervenção pessoal de Lumumba já
tivesse assegurado um acordo9.
Desta forma, e à semelhança do que acontecera no Suez, a ONU deveria assumir as
funções de manutenção de paz que estavam confiadas a militares europeus, cujo
envolvimento não respeitava necessariamente o direito internacional ou a
soberania do Estado recém-independente. A necessidade de evitar a utilização de
militares belgas num Estado africano com poucos dias de independência foi
crucial para a intervenção da ONU. Claire Timberlake, embaixadora dos Estados
Unidos em Léopoldville, reconheceu que não poderia haver sinal mais claro de
neocolonialismo do que a presença de militares belgas sem a autorização do novo
Governo10. Timberlake pressionou Lumumba a aceitar que as forças da ONU
ajudassem a polícia e a Force Publique a repor a ordem pública11. No entanto,
os problemas do novo Estado iriam acentuar-se no dia seguinte, 11 de Julho, com
a secessão do Catanga ' devido a um alegado governo neocomunista em
Léopoldville ' e com o massacre de 12 congoleses em Matadi às mãos de militares
belgas12.
O papel da ONU baseava-se na interpretação de um mandato definido na resolução
do Conselho de Segurança que autorizava o envio de uma força sob o controlo
político do secretário-geral Dag Hammarskjöld13. Infelizmente para o Ocidente,
e em particular para os belgas e Tshombe, as Nações Unidas foram formalmente
obrigadas a colaborar com o Governo de Lumumba. Na prática, a ONU mostrou-se
relutante a consultar com Léopoldville sobre a maioria das questões ' o que se
revelaria muito problemático. A prestação de assistência militar, nos termos da
resolução, fez que os assuntos prioritários da agenda de conversações fossem a
secessão do Catanga e a consequente presença não desejada de militares belgas.
Com as Nações Unidas a apelarem à retirada da presença militar belga, tornou-se
particularmente problemático o facto de estas forças se encontrarem na posição
de apoiar a secessão. Assim, embora a ONU e Hammarskjöld em particular não
tivessem razões para apoiar a posição de Moishe Tshombe no Catanga, o
secretário-geral da ONU tinha objectivos claros que, em Julho de 1960,
coincidiram exactamente com os objectivos da Administração Eisenhower em
relação à Guerra Fria. Em primeiro lugar, era necessário impedir a influência
soviética ' mas sem qualquer interferência às claras nos assuntos internos do
Congo. O facto de o governo radical de Lumumba ser visto como neocomunista '
por mais imprecisa que esta designação fosse ' tinha, potencialmente,
consequências graves para os interesses ocidentais. Ao mesmo tempo, Moishe
Tshombe ' ainda que muito desejável pelas suas credenciais anti-soviéticas e de
direita ' desafiava a lógica ocidental de descolonização através da criação de
estados unificados e viáveis. Deste modo, nem os Estados Unidos nem sequer a
Bélgica se podiam dar ao luxo de reconhecer a secessão do Catanga ' dadas as
prováveis consequências ao nível da opinião pública africana. A dificuldade
estava em reconciliar, por um lado, os objectivos declarados dos países
ocidentais descolonizados e, por outro, os compromissos para com democracias
viáveis e ' particularmente para os americanos, no caso do Congo ' para com um
capitalismo mais abrangente e menos eurocêntrico.
Ainda antes de Léopoldville pedir o apoio dos Estados Unidos, a ONU era vista
em Washington como um instrumento para atingir os objectivos americanos. A ONU
era um organismo através do qual se podia exercer pressão sobre os poderes
coloniais; para além disso, as Nações Unidas eram ainda bastante susceptíveis à
influência dos Estados Unidos, dados os números reduzidos no bloco afro-
asiático em comparação com os países da América Latina. O principal objectivo
dos Estados Unidos ' uma espécie de sine qua non da Guerra Fria ' era manter os
soviéticos fora da África, ainda que em 1960 a influência de Moscovo neste
continente fosse muito reduzida. Outro objectivo, relacionado com este mas mais
específico, era o de assegurar que a África Negra se mantinha livre de qualquer
«influência» da esquerda radical. Procurava-se assim permitir que africanos
«responsáveis» fossem ajudados, de forma adequadamente «moderada», a chegar ao
poder no processo de descolonização ' abrindo desta forma as portas ao
capitalismo e, se possível, à democracia. Este objectivo era diferente de
manter a influência soviética fora da África; de facto, a ONU e Hammarskjöld
insistiram numa solução democrática mas foram muito menos veementes no que
respeitava ao tipo de capitalismo enfatizado pelos americanos ' para não falar
do tipo de capitalismo que tanto beneficiara belgas e britânicos no Catanga.
OS PROBLEMAS DA GUERRA FRIA PARA AS NAÇÕES UNIDAS E PARA O OCIDENTE
Em 1960, tanto Hammarskjöld como a maioria dos membros da Administração
americana tinham consciência dos problemas que se avizinhavam. As colónias
africanas da França tornaram-se independentes nesse ano. A futura composição da
ONU, bem como a sua influência numa África em processo de independência,
tornaram-se, no contexto da Guerra Fria, importantes peças que tanto poderiam
beneficiar um bloco como outro. O principal problema para os Estados Unidos e
para o Ocidente era o facto de os belgas se recusarem a obedecer às resoluções
das Nações Unidas de Junho e Agosto de 1960. A presença militar belga servia
como apoio directo a Tshombe e ao seu regime secessionista, e permitia ao mesmo
tempo que ex-combatentes do Exército belga e oficiais europeus da Force
Publique transferissem as suas lealdades para um Catanga independente.
Inicialmente, os americanos tentaram obter uma resolução do Conselho de
Segurança que não incluísse um pedido de retirada das forças belgas; porém, a
13 de Julho foi aprovada uma resolução tunisina que acabou por fazê-lo14. Após
a aprovação desta resolução, e não se verificando qualquer actuação por parte
dos belgas, Lumumba e o Presidente Kasavubu enviaram um telegrama conjunto a
Moscovo. Nele pediam a Khruchtchev que monitorizasse a situação e afirmavam
que, caso a atitude da Bélgica se mantivesse, um pedido de ajuda aos soviéticos
seria necessário15. Bruxelas tomou conhecimento deste telegrama e descreveu a
situação como «uma crescente ameaça soviética»; o embaixador belga em
Washington pretendia que os Estados Unidos evitassem uma terceira guerra
mundial, avisando a União Soviética que uma intervenção no Congo levaria a um
confronto com os americanos16.
Nos seus pontos essenciais, a resposta dos Estados Unidos afirmava que Bruxelas
necessitaria de retirar as suas tropas do Congo ' ou pelo menos iniciar o
processo e afirmar de forma inequívoca que a retirada era o objectivo final. A
Bélgica continuou a não acatar a resolução, e a 17 de Julho Lumumba ameaçou
pedir uma intervenção soviética se os belgas não retirassem em quarenta e oito
horas. A embaixadora Timberlake afirmou que se as forças belgas não fossem
«colocadas sob o controlo da ONU, registar-se-á uma grande e desnecessária
perda de vidas um pouco por todo o interior do Congo»17. Na sequência de
contactos com Guy Weber ' um oficial belga que recebera instruções para
«obedecer a todas e quaisquer ordens de Tshombe» ' o cônsul norte-americano em
Elisabethville, a capital do Catanga, afirmou que na sua opinião a comunidade
europeia local tinha a esperança de criar um aparelho governamental dominado
por brancos, com o beneplácito de Tshombe, de forma a gerir a região por detrás
da fachada de um conselho ministerial do Congo18. Na ONU, e dada a recusa belga
em acatar a primeira resolução, o Conselho de Segurança aprovou uma outra. A
segunda resolução, de 22 de Julho, pedia à Bélgica para «implementar
rapidamente a resolução do Conselho de Segurança de 14 de Julho acerca da
retirada das suas tropas e autorizar o Secretário-Geral a adoptar todas as
medidas para este efeito»19.
Uma semana depois, o Pravda afirmava que «na eventualidade da continuação da
agressão... a União Soviética tomará medidas resolutas para contrariar os
agressores»20.
Hammarskjöld estava tão decidido quanto Washington a manter a influência
soviética fora de África. No entanto, mesmo com a pressão das Nações Unidas e
dos Estados Unidos, os belgas continuavam a não dar sinais de que iriam acatar
as resoluções do Conselho de Segurança ' o que levaria, a 9 de Agosto, a uma
terceira resolução21. A interpretação dada por Hammarskjöld ao texto desta
resolução, bem como a sua recusa continuada em consultar com o Governo do Congo
acerca do envio de tropas para o Catanga, fizeram com que Lumumba perdesse a
paciência22. O primeiro-ministro do Congo cometeu então o erro de descarregar a
sua fúria em Hammarskjöld, exigindo a retirada de todos os militares brancos da
ONU e acusando Hammarskjöld de ser um fantoche dos belgas. Ao mesmo tempo,
estes anunciavam que as suas bases no Congo não seriam totalmente evacuadas23.
Para além disso, Lumumba exigiu a substituição do secretário-geral, pediu que
os aviões do Governo do Congo fossem colocados à disposição do seu Governo e
propôs-se assumir o controlo sobre as bases aéreas então sob a alçada das
Nações Unidas24. Na verdade, Hammarskjöld era menos influenciado pelos ditames
de Bruxelas do que pela política de Guerra Fria dos Estados Unidos; porém, as
críticas avançadas por Lumumba em Agosto levaram os americanos a acreditar que
um pedido de retirada da ONU estava no horizonte. Desta forma, temendo que
soviéticos, comunistas ou nacionalistas radicais ganhassem terreno no Congo,
responsáveis nos governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha chegaram à
conclusão que, em vez de obrigar a Bélgica a obedecer às resoluções da ONU, o
melhor seria afastar Lumumba. Nas palavras de Hammarskjöld, «o esforço da ONU
não poderia prosseguir com Lumumba no poder ' um dos dois teria de sair»25.
Ainda que não se saiba se teve um incentivo financeiro por parte da CIA,
Kasavubu não perdeu tempo a demitir Lumumba, que, recorrendo ou não a subornos
a deputados, contestou a legalidade da sua demissão e provocou uma crise
constitucional ao, ele próprio, demitir Kasavubu. Lawrence Devlin, o
responsável da CIA em Léopoldville, tinha laços próximos com o coronel Mobutu,
uma figura de proa na Force Publique ou Armée Nationale Congolaise. Por
coincidência ou não, o golpe de Mobutu de 14 de Setembro, que teve o apoio não
oficial dos Estados Unidos através da intervenção de Devlin, levou a uma
governação extraparlamentar por intermédio de um grupo de comissários. A queda
do Governo democrático, ao qual Hammarskjöld dera tanta importância, levou ao
fim do acordo entre a Administração Eisenhower e as Nações Unidas, apesar de
ter impedido, a curto prazo, uma influência de Moscovo sobre Léopoldville ' o
que foi simbolizado pelo encerramento das embaixadas soviética e checa26.
No essencial, a ideia predominante nos Estados Unidos era a de que enquanto o
Parlamento estivesse suspenso o Congo não seria influenciado por Lumumba e seus
apoiantes. Este era o principal objectivo até à tomada de posse de John F.
Kennedy em Janeiro de 1961. Contudo, nessa altura já se tornara óbvio que a
ausência de democracia era algo que Hammarskjöld não estava disposto a aceitar
' ainda que este tivesse visto com bons olhos o afastamento de Lumumba por
acreditar que isso impediria os soviéticos de ganharem influência em África. Ao
mesmo tempo, Hammarskjöld tinha de lidar com a secessão do Catanga e com a
retirada das forças belgas ' questões determinantes para que se alcançasse um
bom resultado para a África no contexto da Guerra Fria. Para além disso, o
parlamento do Congo não poderia estar permanentemente suspenso, caso contrário
a credibilidade da ONU enquanto defensora dos estados africanos independentes
ficaria abalada. Rajeshvar Dayal, o principal representante de Hammarskjöld em
Léopoldville, assumira um compromisso bastante claro para com os princípios de
governação democrática. Ainda que não tivesse uma opinião muito favorável dos
africanos, Dayal era uma espécie de bête noire para Mobutu e para os
americanos, devido ao facto de ter protegido Lumumba e de desejar um regresso
rápido à normalidade parlamentar27.
AS INICIATIVAS DA ADMINISTRAÇÃO KENNEDY
A nova Administração americana teria um impacto enorme num mundo africano que
se encontrava em transformação durante este período crucial da descolonização.
Com Kennedy, a estratégia dos Estados Unidos para a Guerra Fria passou a
centrar-se nos novos estados africanos independentes. A Administração
Eisenhower só com alguma relutância teria aceite esta estratégia; a
Administração Johnson, por seu lado, tê-la-ia rejeitado terminantemente, apesar
de as circunstâncias internacionais serem outras. Quando chegou à Casa Branca
em 1961, Kennedy ordenou uma revisão da política para o Congo, revisão essa que
se tornou urgente quando em Fevereiro o assassinato de Lumumba se tornou
público28. Ainda que as opiniões em Washington se encontrassem como sempre
divididas acerca das vantagens para os interesses americanos de uma
reinstauração do parlamento, a balança pendia agora para o lado das Nações
Unidas e de Hammarskjöld, e do compromisso destes para com a democracia
enquanto pilar fundamental da estratégia ocidental para o Congo. O período de
vigência do Governo dos comissários de Mobutu expirara no final de Dezembro; o
Conselho de Comissários demitiu-se em Fevereiro de 1961, quatro dias antes do
assassinato de Lumumba vir a público e doze dias depois de a Administração ter
produzido um «novo caderno de iniciativas» para o Congo29. O Parlamento seria
reposto seis meses depois, com alguns dos seus deputados a receberem quantias
avultadas da CIA para apoiarem Cyrille Adoula, o candidato a primeiro-ministro
preferido pelos americanos.
Por essa altura, distúrbios no Kasai haviam resultado numa secessão em 1960, e
em Stanleyville um regime de esquerda dominado por Antoine Gizenga começara a
estabelecer contactos com os soviéticos, contribuindo significativamente para
uma eventual desintegração do Estado congolês. Adoula era preferido pelos
americanos não obstante as suas ligações à esquerda moderada ' ou talvez por
causa destas mesmas ligações. Ainda que fosse um candidato aceitável para a
Administração Kennedy, é pouco provável que outras administrações do pós-guerra
partilhassem esta opinião30. Esta era uma indicação bastante clara, não só da
influência dos africanistas (liderados inicialmente por Chester Bowles e G.
Mennen Williams) no seio do Departamento de Estado de Kennedy, mas também do
compromisso da Administração para com valores liberais enquanto componentes
fundamentais da batalha pelos «corações e mentes» nos países em
desenvolvimento.
O principal problema que Adoula teve de enfrentar foi a secessão do Catanga,
que enquanto se arrastou tornou ainda mais problemática a situação económica no
Congo, já de si bastante frágil. Independentemente das consequências para
Adoula do arrastar da situação, o eventual fracasso de um Estado independente
unificado era, devido ao seu impacto na opinião pública em África, um motivo de
grande preocupação para uma Administração Kennedy que pensava em termos de
Guerra Fria.
Esta secessão estava estreitamente relacionada com o papel da Union Minière
durante o domínio colonial dos belgas sobre o Congo. Na sequência da dissolução
do CSK, o Governo do Catanga exigiu uma terça parte das verbas destinadas ao
Governo do Congo e recebeu a totalidade dos dividendos do UMHK, com os impostos
a serem pagos a Elisabethville. Estes impostos não foram pagos ao Governo
legítimo de Léopoldville, e o UMHK beneficiou com isso porque o regime de
Tshombe permitiu-lhe aceder a uma fatia maior das divisas estrangeiras
resultantes das suas exportações, em comparação com o que aconteceria se o
dinheiro fosse pago a Léopoldville. Por outras palavras, a percentagem de
divisas estrangeiras distribuídas aos catangueses e ao UMHK era muito maior por
causa da secessão31. Isto contribuía para explicar por que razão o sucesso dos
empreendimentos económicos catangueses e a propagação de valores capitalistas
ocidentais eram vistos de maneira diferente pelos europeus no Catanga e pelos
capitalistas da metrópole, por um lado, e pelos seus congéneres americanos, por
outro.
A Administração Kennedy acreditava que os mais altos responsáveis de empresas
como a Mobil32 estariam dispostos a aceitar que os seus negócios teriam de se
adaptar à realidade política da África no início da década de 1960, bem como ao
seu papel crucial no desenrolar da Guerra Fria nos países em desenvolvimento. A
libertação da África Negra do jugo do colonialismo europeu era uma parcela
essencial da descolonização, que por sua vez fazia parte do panorama mais
abrangente da Guerra Fria ' algo que os altos responsáveis americanos faziam
questão de relembrar aos seus congéneres europeus. Dito de outro modo, com o
advento da independência política as actividades das empresas europeias nestas
regiões teriam de se adaptar a estas novas realidades. Esta questão era
particularmente pertinente dado o envolvimento britânico com a UMHK através das
Concessões de Tanganhica, e dado o papel crucial que estas haviam desempenhado,
em conjunto com a Companhia Britânica da África do Sul, no financiamento ao
Partido Conservador que esteve no governo entre 1960 e 196433.
Quando o Governo de Adoula tomou posse, a prioridade dos Estados Unidos era
lidar com os movimentos no Congo identificados com a esquerda, em particular
com o Governo de Antoine Gizenga em Stanleyville, que tinha ligações a
Moscovo34. Porém, a Administração Kennedy apercebeu-se a dada altura que a
credibilidade dos Estados Unidos iria obrigar a uma reintegração do Catanga no
Congo. A questão que se colocava era como alcançar este objectivo. A partir do
momento em que o Governo parlamentar do Congo fosse aceite pelas principais
figuras em Washington e pelos funcionários americanos no exterior, e não
obstante o papel da CIA, a subida de Adoula ao poder poderia abrir as portas a
uma reconciliação entre a ONU e Washington relativamente a um regime
democrático no Congo. Neste contexto, a questão era promover esta reintegração
ao mesmo tempo que se lidava com os diversos problemas que afectavam o Congo em
1961. Os Estados Unidos permaneceram fiéis à estratégia de lidar primeiro com
Stanleyville e Gizenga e só depois com a questão do Catanga, uma vez que esta
era vista como a melhor forma de assegurar a manutenção dos valores
socioeconómicos do capitalismo americano e europeu na África. Ora, esta
estratégia tinha dificuldades políticas evidentes35.
No Verão de 1961, a situação política mudara significativamente, não só na
Europa como nas Nações Unidas. Os políticos de direita que então lideravam as
capitais europeias não conseguiram compreender de que forma a Guerra Fria e a
descolonização haviam afectado os seus interesses económicos no Catanga. Em
particular, a UMHK e os colonos belgas não tiveram em conta a relação entre o
capitalismo e a necessidade de atrair os africanos para o bloco ocidental. Pelo
contrário, os colonos no Catanga comprometeram-se com Tshombe devido aos
benefícios financeiros que este lhes prometera, mas ao mesmo tempo continuavam
a revelar uma atitude sobranceira e racialmente discriminatória para com os
africanos. Por outro lado, após as eleições na Primavera de 1961, o belga Paul-
Henri Spaak tornara-se ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro
adjunto no Governo Lefèvre. Washington tinha um grande apreço por Spaak, que
era visto como um interlocutor ideal para a política europeia da Administração
Kennedy. Para aqueles que não tinham noção da sua posição precária na política
de coligação belga, Spaak tinha o potencial de encontrar uma solução para a
questão do Catanga.
Nas Nações Unidas, a situação parecia ser muito menos favorável para os
americanos. Ainda que a saída de Dayal em Maio36 e a reorganização da operação
da ONU no Congo (UNOC) fossem boas notícias, a má notícia foi a nomeação do
irlandês Conor Cruise O'Brien como representante civil da ONU em
Elisabethville37. O'Brien tinha plena consciência das resoluções das Nações
Unidas contra a presença de militares belgas no Congo, e não via qualquer razão
para que resoluções do Conselho de Segurança não fossem cumpridas. Para além
disso, Tshombe tinha conseguido recrutar um grande número de mercenários em
1961, e a quarta resolução da ONU, ainda que as três anteriores não tivessem
sido cumpridas, insistia para que «medidas fossem tomadas para a retirada e
evacuação imediatas do Congo de todo o pessoal militar e conselheiros
políticos, belgas e de outros países, que não estejam sob a alçada das Nações
Unidas, bem como dos mercenários»38. Alguns mercenários tinham ligações claras
às Forças Armadas regulares da Bélgica, outros haviam servido nas Forças
Armadas Francesas durante a Guerra da Argélia, e juntaram-se-lhes ainda
mercenários brancos da Rodésia do Sul e da África do Sul. Para O'Brien, as
forças militares que faziam parte da missão da ONU constituíam uma oportunidade
de obrigar ao cumprimento das resoluções da ONU se a secessão não terminasse
voluntariamente. Esta situação levou a que se reacendesse o debate acerca da
melhor forma de reintegrar o Catanga no Congo e do papel da força da ONU em
Elisabethville. No que constituiu um desenvolvimento importante, a 24 de Agosto
de 1961 Kasavubu promulgou a Ordenação 70, que no seguimento da resolução de
Fevereiro previa a expulsão, do seio da gendarmerie catanguesa, de todos os
oficiais e mercenários não congoleses. O Presidente do Congo pediu a
assistência da ONU na aplicação desta directiva, o que deu às Nações Unidas um
direito legal para a aplicação da resolução em nome do Governo do Congo, em
complemento da autorização do Conselho de Segurança. A 28 de Agosto, a operação
«Rumpunch» foi lançada por O'Brien, com as forças da ONU a ocuparem os Correios
e a emissora de rádio em Elisabethville39.
Estes desenvolvimentos causaram inevitavelmente preocupação em Londres e
Bruxelas, e fizeram que o Governo de coligação liderado por Théo Lefèvre, no
qual Spaak desempenhava as funções de ministro dos Negócios Estrangeiros,
tivesse maiores dificuldades em apoiar as operações da ONU no Congo. De igual
modo, estes acontecimentos fizeram com que fosse mais difícil ao Governo
conservador britânico ignorar o apoio que muitos conservadores haviam
manifestado a Tshombe. A rentabilidade da UMHK dependia em última instância do
funcionamento normal das instalações de Jadotville e Kolwezi, onde o cenário
catastrófico incluía a destruição ' com ou sem sabotagem ' da barragem de
Lufira, que fornecia energia hidroeléctrica a Kolwezi. Por conseguinte, os
europeus ficavam apreensivos sempre que se levantava a possibilidade do uso da
força no Catanga. Em Washington, vacilava-se entre o apoio à operação de
O'Brien e a preocupação face à possibilidade de esta resultar num
enfraquecimento das posições políticas conservadoras, que poderiam revelar-se
necessárias para contrabalançar uma esquerda dominada por Antoine Gizenga40. No
entanto, a posição oficial americana referia a «compreensão» dos Estados Unidos
relativamente à decisão do secretário-geral de implementar na totalidade a
resolução de Fevereiro e de assegurar a cooperação de Tshombe com o Governo
central, retirando os instrumentos militares que aquele tinha ao seu dispor41.
Quando se decidiu lançar uma segunda operação ' denominada «Morthor» ' as
preocupações tornaram-se mais prementes porque desta vez Tshombe resistiu às
forças da ONU e a resistência dos mercenários tornou-se uma realidade. Os
confrontos continuaram ao longo de vários dias, e responsáveis em Washington
procuraram que a delegação americana em Nova Iorque comunicasse ao secretário-
geral a «impaciência» dos Estados Unidos42. Não se sabe ao certo quem autorizou
esta segunda intervenção da ONU, e Spaak ficou furioso por acreditar que esta
ia contra um compromisso escrito por parte do secretário-geral de que não seria
utilizada qualquer força em relação à reintegração do Catanga. Para Spaak,
Hammarskjöld era um mentiroso (menteur). Três dias mais tarde, o secretário-
geral morreu num acidente de avião para o qual ainda não há explicação
satisfatória43.
Tanto em público como em privado, a estratégia de Washington passava por apoiar
os esforços da ONU para travar a secessão do Catanga. Porém, o objectivo
imediato era agora assegurar um cessar-fogo na região, uma vez que as medidas
pacíficas eram vistas como a melhor forma de assegurar a reintegração. Quantos
mais esforços fossem feitos nesse sentido, mais possibilidades tinha Tshombe de
os atrasar na esperança de uma política de tolerância em relação à sua
presença, enquanto que uma tentativa de terminar a secessão faria com que esta
continuasse, assegurando desta forma benefícios económicos às empresas com as
quais os accionistas britânicos lucravam. Enquanto que a posição de Tshombe
permaneceu segura, a de Adoula enfraqueceu. Para piorar a situação, registaram-
se confrontos no Catanga Norte, causados em parte por opositores de Tshombe, e
a possibilidade de uma intervenção do ANC levantou o espectro de maior
violência e instabilidade. Uma outra reunião do Conselho de Segurança da ONU
levou a outra resolução sobre o Congo, destinada a reforçar o mandato das
Nações Unidas no sentido da tomada de uma posição de força no Catanga ' ainda
que os americanos continuassem preocupados com a posição de Gizenga em
Stanleyville. A Administração Kennedy esperava que esta situação colocasse mais
pressão sobre Tshombe para este aceitar a reintegração, ainda que de certa
forma constituísse um compromisso para evitar um afastamento significativo dos
britânicos. A resolução do Conselho de Segurança de 24 de Novembro apoiava o
uso da força contra os mercenários de Tshombe, e um mês depois registou-se em
Elisabethville uma nova vaga de confrontos44. O início das hostilidades a 5 de
Dezembro resultou em 21 mortes das Nações Unidas, em grande medida devido a
actos de provocação por parte de mercenários da gendarmerie, e obrigou ao uso
da Força Aérea dos Estados Unidos para transportar militares e veículos da ONU
de Léopoldville para Elisabethville. Na sequência desta intervenção, Tshombe
viu-se obrigado a enveredar pela paz e apelar a um cessar-fogo. Uma nova pausa
nas hostilidades foi aprovada, apesar de apelos por parte do National
Intelligence Estimate do Departamento de Estado, de Dean Rusk e do embaixador
Ed Gullion para que a intervenção militar continuasse, e apesar de ter sido
feita uma avaliação que indicava que impedir as Nações Unidas de implementar o
seu mandato iria «abrir as portas ao comunismo na África Central ao destruir
qualquer possibilidade de um controlo sustentável por parte dos moderados em
Léopoldville»45. Esta decisão ' para a qual terá contribuído significativamente
o facto de os britânicos terem ameaçado retirar o seu apoio à ONU se os
confrontos se alastrassem por Léopoldville ' levou, com o apoio belga ao fim
das hostilidades, a um novo cessar-fogo no processo de implementação da
resolução das Nações Unidas. Daqui resultou, a 19 de Dezembro, um encontro
entre Tshombe e Adoula em Kitona, na presença de representantes dos Estados
Unidos e da ONU, e que conduziu a um acordo de princípio para o fim da
secessão.
AS CRESCENTES DIFERENÇAS ANGLO-AMERICANAS E HESITAÇÃO EM WASHINGTON
Existia, claro está, uma grande diferença entre aceitar um acordo de princípio
e tomar medidas concretas para a sua implementação. No início de 1962, as
opiniões no seio da Administração americana, e nas suas discussões com os
aliados europeus, dividiam-se acerca da necessidade de políticas assertivas de
carácter não militar, como a cobrança por parte das Nações Unidas de impostos
sobre as exportações de cobre do Catanga. Este tornar-se-ia o pomo da discórdia
em 1962, quando se tornou óbvio que Tshombe apostava em deixar arrastar as
negociações. Com a chegada da Primavera, a opinião dominante nas Nações Unidas
era a de que Tshombe teria de atingir determinados objectivos para a
reintegração ' como o pagamento de impostos a Léopoldville, o fim da circulação
do franco catanguês e a reintegração da gendarmerie no Exército de Mobutu. No
entanto, não havia consenso acerca das medidas concretas para levar à
prossecução destes objectivos. Deveria recorrer-se a pressões económicas?
Poderia a UMHK ser obrigada a recusar pagamentos ao Estado secessionista? Seria
necessário ameaçar ou utilizar a força para exercer pressão sobre Tshombe, que
se mostrava relutante em implementar medidas práticas para terminar a secessão?
O dilema acentuou-se ao longo de 1962, em particular no que diz respeito à
prioridade que deveria ser dada a medidas que pudessem conduzir ao uso da
força, dada a possibilidade de desentendimentos com Bruxelas e Londres. Deveria
Tshombe ser pressionado a implementar o acordo de Kitona através de pressões
económicas e/ou sanções, mesmo que daí resultassem confrontos?46
Durante os meses de Maio e Junho, Washington envidou esforços para alcançar um
acordo tripartido com os britânicos e os belgas; porém, estes esforços fizeram
com que a natureza e a extensão das diferenças se revelassem de forma mais
evidente. Partindo de uma posição de fraqueza, Spaak conseguiu lidar
simultaneamente com a pressão de Washington e com as dificuldades políticas que
sentia no plano interno, derivadas em particular do lóbi pró-Catanga, cuja
oposição à intervenção militar das Nações Unidas ameaçou derrubar a coligação.
O sucesso de Spaak foi de tal modo evidente que no início do Verão os belgas
eram vistos em Washington como o parceiro internacional mais importante em
qualquer questão que necessitasse da intervenção americana e da ONU para a sua
resolução47. À medida que se acentuavam as diferenças de opinião no seio da
ONU, em Washington e nos seus aliados em Londres e Bruxelas, começou a tornar-
se mais evidente para Washington que algo teria de ser feito. No entanto, os
Estados Unidos vacilavam entre, por um lado, a necessidade de terminar a
secessão de forma a salvar o Governo de Adoula, e deste modo agradar aos
africanos, e, por outro, a necessidade de não ofender Spaak ou Lord Holme com
pressões sobre Tshombe para este colocar um ponto final na secessão.
KENNEDY E AS INICIATIVAS DA ONU PÓS-KITONA
Ao mesmo tempo, há que ter em consideração a posição das Nações Unidas, uma
organização que os americanos viam inicialmente como uma forma de prosseguir as
suas políticas de Guerra Fria e disfarçar os seus interesses. Embora o golpe de
Mobutu tenha revelado divergências, a colaboração e consultas mantiveram-se, e
o Departamento de Estado chegou a preparar documentos importantes para a ONU em
1961 e 1962. Assim, em Agosto de 1962, quando uma vez mais a Administração
Kennedy discutiu um pacote de medidas a tomar em relação a Tshombe, um
documento americano ' com ligeiras alterações introduzidas por funcionários da
ONU em Nova Iorque ' acabou por se tornar na receita para alcançar uma mistura
equilibrada de persuasão e pressão para que Tshombe implementasse os princípios
de integração acordados em Kitona. O chamado «Plano de Reconciliação Nacional
da ONU» continha quatro fases ou modos de actuação para pressionar Tshombe caso
não fosse implementado. Este plano foi apresentado a Tshombe a 24 de Agosto de
1962 e exigia uma resposta num prazo de dez dias48.
Não deixa de ser irónico que os funcionários das Nações Unidas fossem agora
adeptos incondicionais de políticas destinadas a exercer uma pressão clara
sobre Tshombe. Ninguém acreditava que Tshombe iria desistir da secessão de
livre vontade; por outras palavras, e uma vez que a persuasão deixara de ser
viável, tornara-se necessário privá-lo de assistência económica ou militar. A
situação foi dificultada por membros da Administração em Washington, incluindo
George McGhee ' que ficara encarregado de apresentar a Tshombe o programa de
medidas de pressão da ONU e dos Estados Unidos no caso de este não obedecer. A
outra complicação era a Grã-Bretanha ' ainda mais do que a Bélgica ' que
permaneceu contrária à aplicação de qualquer tipo de pressão ou sanções.
Independentemente dos riscos para instalações de um eventual uso da força, ou
do impacto ao nível dos preços das acções, as exportações de cobre do Catanga
eram efectuadas através da Bolsa de Metais de Londres, e uma perturbação no
fornecimento de cobre teria efeitos bastante adversos nos interesses comerciais
britânicos49.
Porém, é provável que McGhee tenha sido o escolhido para persuadir Tshombe a
aceitar o plano porque era visto como mais aceitável para o líder africano,
tendo desse modo mais hipóteses de conseguir convencê-lo de que os Estados
Unidos estavam determinados a obter a reintegração. Era pouco provável que Ed
Gullion, o embaixador americano no Congo, tivesse qualquer sucesso, uma vez que
não tinha qualquer simpatia para com o líder do Catanga ' uma opinião
partilhada por Gardiner, o representante máximo da ONU no local. Gullion e os
funcionários das Nações Unidas tinham plena consciência de que Tshombe não
colaboraria com o plano de reintegração enquanto a secessão tivesse alguma
hipótese de sobrevivência50.
A intensidade da pressão a aplicar sobre Tshombe estava no centro da discórdia
entre Nova Iorque e Washington, entre membros da Administração Kennedy e entre
Londres, Bruxelas e Washington51. Deve ser ressalvado que McGhee não foi
nomeado por Kennedy, que estava associado aos prestigiados elementos
africanistas do Departamento de Estado. Ao mesmo tempo, a crise do Congo não se
tratou simplesmente de uma batalha entre os europeístas e os africanistas.
De facto, quando a crise atingiu o seu clímax em Dezembro, George Ball era o
principal apoiante de uma linha de actuação que não seria bem-vista pelos
governos europeus52. Anteriormente, Ball tentara convencer o regime de Salazar
a aceitar a autodeterminação de Angola, colaborando dessa forma com os
objectivos da Administração Kennedy no contexto da Guerra Fria53. Kennedy
precisava de confiar que as pessoas à sua volta lhe dariam conselhos adequados
' e Ball era uma das pessoas em quem Kennedy confiava ' e um dos principais
testes era o nível de compromisso, não para com a Europa ou para com a África,
mas sim para com políticas eficazes que ajudassem a alcançar os objectivos da
Guerra Fria que a Administração Kennedy via como essenciais. Por outras
palavras, o «europeísta» Ball participou activamente na prossecução dos
objectivos de Kennedy no mundo em desenvolvimento ' objectivos esses que, no
início da década de 1960, estavam centrados no continente africano. Ball estava
permanentemente ao telefone com Kennedy, e desempenhou um papel fundamental em
Dezembro, quando se procurou desenvolver uma estratégia para lidar com a
relutância de Tshombe em implementar o plano de reconciliação conjunto dos
Estados Unidos e da ONU54. Foi realizada uma reunião de conselheiros, que
discutiram um documento que Ball preparara após ter em consideração uma série
de recomendações. Para Harlan Cleveland, o chefe do Gabinete de Organizações
Internacionais no Departamento de Estado, o maior desafio era evitar que as
Nações Unidas e a maior potência do planeta se tornassem impotentes devido ao
desejo de:
Proteger a posição ilegal de um político tribal [Tshombe]
Proteger um sistema de taxas e lucros de uma companhia mineira considerada
por muitos como o protótipo de um monopólio de exploração imperialista e
capitalista55.
Independentemente do possível impacto dos argumentos que lhe foram
apresentados, Ball explicou a Kennedy que McGhee fracassara na sua missão de
convencer Tshombe a implementar o plano das Nações Unidas. Tornara-se claro que
uma solução «não poderia ser atingida pela via negocial», uma vez que Tshombe
não tinha qualquer incentivo para enveredar por esse caminho. A reintegração
teria de ser imposta e «devemos decidir-nos por uma demonstração de força»56.
O uso da força mostraria que os americanos estavam comprometidos de forma séria
para com a reintegração do Catanga no Congo através do plano conjunto da ONU e
dos Estados Unidos. Depois da reunião de 14 de Dezembro, Ball foi encarregue de
fornecer elementos mais específicos até segunda-feira, dia 17 de Dezembro, de
forma a implementar um pacote de medidas de pressão. Tendo em conta que o
Catanga dispunha agora de aviões, o próprio Kennedy sugeriu o envio de um
esquadrão da Força Aérea dos Estados Unidos para garantir o controlo, por parte
das Nações Unidas, do espaço aéreo do Congo57. O papel de Kennedy nas decisões
americanas respeitantes ao Congo, depois de quase dois anos de uma crise que
culminaria em Dezembro de 1962, reflectia simultaneamente uma cautela ponderada
e uma determinação em correr riscos sempre que o contexto da Guerra Fria assim
o exigia. Kennedy foi o último Presidente dos Estados Unidos a solicitar
informações aos seus conselheiros, em vez de permitir que os mesmos lhe
apresentassem e justificassem políticas para que entre elas pudesse escolher
enquanto presidente. Ball analisou as questões do Congo com Stevenson,
Cleveland e McGhee durante uma conversa telefónica de quatro horas, que teve
lugar no fim-de-semana de 15 e 1658. O objectivo de terminar a secessão do
Catanga de acordo com o Plano de Reconciliação poderia ter sido atingido
através de um processo de tomada de decisão que alinhasse as políticas dos
Estados Unidos e da ONU. Porém, não foi isto que aconteceu.
Para começar, foi U Thant que de facto impediu o envio dos esquadrões aéreos
dos Estados Unidos, pela sua determinação em contrariar a política de
Hammarskjöld de apenas utilizar forças de membros das Nações Unidas e não dos
Estados Unidos e da União Soviética. Apesar de os seus representantes na região
defenderem intervenções decisivas, o secretário-geral relembrou que uma
intervenção por parte das grandes potências poderia levar a Síria a pedir ajuda
à União Soviética na sua disputa territorial com Israel, para reforçar as
forças de manutenção de paz que lá se encontravam59. O Conselho Nacional de
Segurança dos Estados Unidos analisou as propostas de Ball em duas sessões, das
quais resultaram algumas reservas às medidas sugeridas para pressionar
Tshombe60. No mesmo dia, começou a Conferência de Nassau, o que fez com que as
comunicações presidenciais sobre o Congo tivessem de passar por Nassau. Rusk,
em particular, apoiou com algumas reservas a oposição britânica, especialmente
em relação a um esquadrão aéreo dos Estados Unidos, enquanto que um novo pacote
de propostas económicas apresentado por Spaak constituiu uma nova tentativa de
evitar confrontos61.
O FIM DA SECESSÃO DO CATANGA
No final, quaisquer acções decisivas que Kennedy estivesse preparado a adoptar
continuaram a deparar-se com desentendimentos e dúvidas respeitantes ao dilema
americano Guerra Fria/descolonização. Estas hesitações acabariam por ser
ultrapassadas pelo decorrer dos eventos, e as causas imediatas do fim da
secessão não resultaram dos Estados Unidos, da ONU ou de qualquer acordo sobre
prioridades. O que levou as Nações Unidas a tomarem áreas-chave de
Elisabethville, bem como de Jadotville e Kolwezi ' centros de produção de cobre
' não foi uma decisão acordada e coordenada mas sim o resultado das acções de
bêbedos. O contexto destes acontecimentos foi a tensão resultante de
preocupações em Elisabethville de que as Nações Unidas estavam próximas de
chegar a uma decisão acerca da crise da secessão, bem como os constrangimentos
económicos à continuação da UNOC, que indiciavam a necessidade de acções
imediatas para garantir uma implementação irrevogável do Plano de
Reconciliação. A sobrevivência do regime de Tshombe teria de passar por uma
resistência à actuação da ONU. No entanto, os eventos que precipitaram o fim da
secessão do Catanga começaram com as acções de um soldado embriagado da
gendarmerie de Tshombe em Elisabethville. Até então, nenhuma altercação se
registara entre este indivíduo e os militares tunisinos às ordens da ONU, que
se encontravam numa colina de cerca de 60 metros, basicamente um depósito de
lixo industrial junto às instalações da UMHK de Lumumbashi. Na véspera de
Natal, já sob o efeito do álcool, o soldado começou a subir esta colina
enquanto chamava pelos seus amigos tunisinos. Ora, os militares tunisinos
tinham acabado de ser rendidos por um contingente etíope. Uma vez que os
soldados deste contingente não estavam familiarizados com a língua francesa,
não se conseguiram fazer entender e ao mesmo tempo não compreenderam as
saudações embriagadas do soldado da gendarmerie. Após o terem mandado parar
várias vezes, sem sucesso, os etíopes acabaram por disparar para o ar. O
soldado da gendarmerie entrou em pânico e escorregou pela colina abaixo. Os
seus companheiros, pensando que ele tinha sido atingido, começaram a disparar
sobre os etíopes. Não se sabe se Tshombe utilizou este incidente como um foco
de resistência, ou se a agitação alcoólica das celebrações de Natal encorajou
ataques a outras posições etíopes. De qualquer modo, os tiroteios
multiplicaram-se e um helicóptero das Nações Unidas, pilotado por um indiano,
acabaria por ser abatido, o que provocou uma morte62.
Enquanto as celebrações de Natal continuavam, os Estados Unidos tentaram que
Adoula apresentasse uma alternativa razoável à secessão de Tshombe '
alternativa que, se rejeitada, levaria os americanos a apoiar uma intervenção
mais resoluta das Nações Unidas. Porém, a 26 de Dezembro, Kimba, um dos
assessores de Tshombe, fez um discurso inflamado no qual acusava os Estados
Unidos e a ONU de planearem uma guerra no Catanga. No dia seguinte, registaram-
se tiroteios intermitentes por parte da gendarmerie, e Tshombe visitou postos
de controlo das Nações Unidas, tendo prometido colocar um ponto final nos
confrontos até à manhã seguinte. Não conseguiu fazê-lo, e o cônsul em
Elisabethville afirmou que não havia controlo sobre a gendarmerie do Catanga63.
O general Prem Chand, comandante militar das Nações Unidas em Elisabethville,
aceitou encontrar-se com Tshombe e com os cônsules americano e britânico na
casa de Mathu, o representante civil da ONU. Ao chegarem à casa, encontraram o
representante da ONU «completamente embriagado». Cambaleando até chegar a uma
cadeira e bebendo uma garrafa de cerveja Simba, Mathu informou Tshombe que as
resoluções da ONU de 1961 iriam ser implementadas na sua totalidade. De
seguida, levantou-se e gritou ao general Chand «ordeno-lhe que o ataque
imediatamente», antes de cair de novo na cadeira e dizer aos cônsules que ia
disparar sobre Tshombe64. Desta confusão alcoolizada resultou o texto de um
acordo, preparado pelos indianos e posteriormente apresentado a Tshombe, que
estipulava que todos os postos de controlo em Elisabethville seriam
desmantelados até às oito horas da manhã de 29 de Dezembro. O objectivo era
assegurar a liberdade de movimentos na cidade. Uma vez que os indianos eram, de
longe, os melhores militares na ONU, esta política começou a ser implementada
no dia 29 com a ocupação da principal emissora de rádio65. A principal
preocupação do embaixador americano era que o cônsul britânico «começasse a
espalhar a ideia de que as operações em curso, cruciais para as políticas dos
Estados Unidos e da ONU, tinham começado com uma ronda de bebidas»66.
Os eventos em Elisabethville obrigaram Tshombe a fugir da cidade; ao mesmo
tempo, o restabelecimento da livre circulação de forças da ONU fez com que
Tshombe perdesse o controlo sobre o resto da região produtora de cobre.
Imediatamente surgiram preocupações nos círculos americanos, nem que mais não
fosse pelo facto de ser difícil obter informação sobre a actuação das forças da
ONU. Se as Nações Unidas não estabelecessem limites às suas operações
militares, o risco de sabotagem às instalações da UMHK iria aumentar. Não
obstante ordens das Nações Unidas, provenientes de Nova York, para que se
colocasse um ponto final nas operações, o avanço das tropas indianas da ONU em
Jadotville continuou devido a uma avaliação militar que apontava para a
necessidade de se assegurar uma travessia segura do rio, de forma a evitar
ameaças às posições militares alcançadas. Necessidades militares no terreno,
identificadas através das análises operacionais do comandante local, tomaram o
lugar do álcool ao leme dos acontecimentos que ditaram o fim da secessão de
Tshombe. A sua gendarmerie e os seus mercenários não tiveram qualquer hipótese
perante militares indianos bem treinados. A 2 de Janeiro, Kolwezi era a única
zona que não estava sob controlo da ONU.
Depois do fim da secessão, decorreram negociações que levariam a uma vitória de
Pirro das Nações Unidas e da Administração Kennedy. Esta foi uma vitória de
Pirro porque o tempo que decorreu até ao fim da secessão agravara
significativamente os problemas económicos do Congo. A corrupção tinha também
aumentado. Mais do que isso, o caos económico impossibilitara a criação de um
Estado viável a partir da descolonização económica. A competição por recursos
decrescentes impedira o estabelecimento de um consenso socioeconómico alargado
no seio de um sistema político estável. O capitalismo continuava a trazer
benefícios, quer em termos práticos, quer em termos de estratégia de Guerra
Fria, mas não para a maioria da população do Congo ' e isto apesar da ajuda
significativa enviada pelos Estados Unidos. O desastre estava iminente, ainda
antes de Tshombe regressar no ano seguinte, com o apoio da Administração
Johnson para o regresso dos mercenários que Kennedy pretendera expulsar do
Congo.
As Nações Unidas também partiram, para não mais regressarem em condições
semelhantes. Com a partida da ONU, a comunidade internacional começou a
desligar-se do continente africano. O papel das Nações Unidas fora difícil e
polémico a partir do momento em que começou a dissolver-se a aliança com os
Estados Unidos para impedir a presença soviética em África. Este sucesso
estratégico no contexto da Guerra Fria ' numa interpretação muito estreita do
que de facto era a Guerra Fria ', foi acompanhado por um fracasso mais alargado
no sentido de alterar o funcionamento do capitalismo tendo em conta um novo
contexto africano de estados independentes. O Congo desempenhou um papel
importante neste contexto: em última instância, a Guerra Fria jogou-se
exactamente ao nível dos sistemas socioeconómicos e das suas manifestações
políticas. A secessão do Catanga foi um símbolo de como estas transformações se
desenrolaram no contexto da descolonização, nem que mais não fosse pelo papel
fundamental desempenhado pelos Estados Unidos e pela ONU.
Na sequência dos desentendimentos entre a Administração Eisenhower e as Nações
Unidas acerca da democracia no Congo, as relações entre os Estados Unidos e a
ONU ficaram marcadas por uma relação amor-ódio, à medida que ambos envidavam
esforços para definir e implementar as medidas mais eficazes para atingir o
objectivo acordado da reintegração do Catanga. As personalidades assumiram um
papel importante, e as relações externas com os britânicos e os belgas ' e seus
interesses «especiais» ' constituíram sempre uma complicação adicional para os
responsáveis em Washington e Nova Iork. Hesitações e mudanças de posição foram
outros problemas que impediram a formulação e implementação de políticas
claras. Não é de estranhar que as acções mais eficazes tenham resultado de
iniciativas tomadas sob o efeito do álcool, seguidas de exigências operacionais
de âmbito militar que não tiveram em conta eventuais consequências políticas.
Tradução: João Reis Nunes
NOTAS
1 KENT, John ' «United States reactions to Empire, Colonialism, and Cold War in
Black Africa, 1949-1957». In Journal of Imperial and Commonwealth History.
Vol. 33, N.º 2, 2005.
2 Cf. IKEDA, Ryo ' French Policy towards Tunisia and Morocco: The International
Dimensions of Decolonisation, 1950-1956. Tese de doutoramento, Universidade de
Londres, 2006.
3
A relevância desta questão para Washington e para a ONU resultou da
emergência, entre 1958 e 1960, de uma série de estados africanos independentes
cuja captação para a órbita norte-americana era vista como particularmente
importante para a Administração Kennedy ' quanto mais não fosse pelo impacto
deste alinhamento no «controlo» da ONU por parte de Washington.
4 John F. Kennedy Presidential Library (JFKL) National Security Files (NSF) Box
30A, Memo «UMHK dividend payments» for McGeorge Bundy, 8 de Junho de 1962.
5 A estratégia inicial da administração colonial passava por impedir Lumumba de
se tornar primeiro-ministro através de uma coligação anti-Lumumba ou de um
governo de União Nacional.
6 US National Archives and Records Administration College Park Maryland (NARA)
RG 59 755A:00 1960-63 Box 1831, Memo by James Penfield (AF), 7 de Junho de
1960; HOSKYNS, C. ' The Congo since Independence Jan 1960-Feb 1961, 1965,
pp. 74-77; RG 59 755A:00 1960-63 Box 1831, Tel 482 Leopoldville to S of S, 18
de Junho de 1960; Tel 494 Leopoldville to S of S, 14 de Junho de 1960; a
perspectiva e documentação de Van der Meersch podem ser consultadas em MEERSCH,
W. J. Ganshof Van der ' Fin de la Souveraineté Belge au Congo, 1963, pp. 191-
299.
7 Algumas das opiniões norte-americanas sobre Lumumba podem ser consultadas em
FRUS 1958-60. Vol XIV, Tels 26 e 27 de Julho de 1960; Memo Implications of the
Congo Crisis' from the Board of National Estimates to Allen Dulles, 22 de
Agosto de 1960; NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1955, Tel 438 State Dept to
Leopoldville, 12 de Agosto de 1960.
8
Dwight D. Eisenhower Library (DDEL) White House Office Files, Office of the
Staff Secretary (General Godpaster), International Series Box 4, Tel 58
Brussels to S of S, 8 de Julho de 1960.
9
DDEL White House files Office of the Staff Secretary (General Goodpaster)
International Series Box 4, Tel 58 Brussels to S of S, 8 de Julho de 1960.
10
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1954, Tel 88 Leopoldville to S of S, 10 de
Julho de 1960.
11
FRUS 1958-1960. Vol XIV Africa, Tel 113 Brussels to S of S, 10 de Julho de
1960.
12
Os arquivos norte-americanos não fornecem uma explicação clara para este
massacre. Matadi era uma cidade portuária de importância estratégica, situada a
cerca de 130 quilómetros da foz do rio Congo ' uma extensão navegável por
navios de longo curso. A montante, a navegação era impossível até ao Malebo, o
lago fluvial onde se situam Brazzaville e Léopoldville, embora se pudesse
navegar entre Léopoldville e Stanleyville. O rio deixa de ser navegável até à
extremidade ocidental do Malebo porque o nível das suas águas desce cerca de
270 metros ao longo de uma série de 32 cataratas conhecidas como cataratas
Livingstone. Desta forma, o transporte por terra é necessário para bens
provenientes de Matadi com destino a Léopoldville e outros pontos a norte e
oeste. Porém, é possível que a Force Publique tenha capturado oficiais europeus
que foram libertados aquando da chegada de Lumumba a 9 de Julho.
13
A Resolução S/4387 da ONU pode ser consultada em http://www.un.org/documents/
sc/res/1960/scres60.htm.
14
Ibidem. Resolução da ONU 146 de 9 de Agosto.
15
O telegrama de Lumumba de Kasavubu foi interceptado ' não se sabe como ' e
chegou ao Departamento de Estado no dia seguinte. NARA RG 59 770G:00 1960-63
Box 1954, Tel 136 State Dept to Brussels, 15 de Julho de 1960.
16
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1954, Tel 137 State Dept to Brussels, 15 de
Julho de 1960.
17
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1954, Tel 134 Leopoldville to S of S, 18 de
Julho de 1960.
18
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1954, Tel 13 Elisabethville to S of S, 20 de
Julho de 1960; HOSKYNS, op cit citando Tom Hopkinson In the Fiery Continent
(1962), p. 369.
19
Disponível em: http://www.un.org/documents/sc/res/1960/scres60.htm
20
KALB, Madeleine ' The Congo Cables, 1982, p. 41.
21
S/4405, 22 de Julho de 1960; KALB, Madeleine ' The Congo Cables, 1982, p.33.
22
FRUS 1958-1960. Vol XIV, Tel 372 USUN to S of S, 10 de Agosto de 1960.
23
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 1955, Tel 412 Leopoldville to S of S, 16 de
Agosto de 1960.
24
NARA RG 59 State Dept Congo Chronology' Second phase, Agosto de 1960.
25
KALB, Madeleine ' The Congo Cables, 1982, p. 41.
26
Sobre os problemas com que se defrontou a Administração Eisenhower face à
tomada de posição de Lumumba, cf. KENT, John ' America, the UN and
Decolonisation: Cold War Conflict in the Congo, 2010, pp. 32-41; KALB,
Madeleine ' The Congo Cables, 1982, pp. 101-103.
27
NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1956, Tel 1006 Leopoldville to S of S, 19
de Outubro de 1960.
28
Lumumba foi assassinado em Dezembro de 1960 por apoiantes de Tshombe e membros
da Sûreté belga que ainda se encontravam no Catanga.
29
JFKL NSF Congo Box 27, Memo for the president Suggested New US Policy on the
Congo', 1 de Fevereiro de 1961. Reproduzido em FRUS 1961-1963. Vol. XX, pp. 40-
45.
30
Sobre as opiniões acerca de Gizenga e Adoula, cf. KENT, John ' America, the UN
and Decolonisation: Cold War Conflict in the Congo, pp. 57-59.
31
NARA RG 59 770G:00 1960-63 Box 19575, Tel 248 Elisabethville to S of S, 12 de
Setembro de 1962; Tel 631 Leopoldville to S of S, 14 de Setembro de 1962.
32
JFKL NSF Congo Box 31, Tel 382 State Dept to London, 18 de Julho de 1962.
33
Sir Brian Urquhart, um alto-representante britânico na ONU, dissera aos
americanos que o Governo britânico estava a adoptar uma atitude tão complicada
relativamente ao Congo porque os principais financiadores do Partido
Conservador eram, «quase até ao último homem», as figuras dominantes nas
Concessões de Tanganhica. Os mesmos estavam também profundamente envolvidos na
UMHK, que, segundo um representante do Departamento de Estado, possuía uma
espécie de «círculo de confiança». JFKL NSF Congo Box 30, Tel 3657 USUN to S of
S, 4 de Maio de 1962.
34
MAZOV, Sergei ' «Soviet aid to the Gizenga government in the former Belgian
Congo 1960-61». In Cold War History. Vol. 7, N.º 3, 2007.
35
KENT, John ' America, the UN and Decolonisation: Cold War Conflict in the
Congo, p. 57.
36
Sobre Dayal, cf. NARA RG 59 State Department Congo Chronology' second phase.
37
O'Brien chegou ao Congo a 11 de Julho. Cf. O'BRIEN, Conor Cruise ' To Katanga
and Back, 1962.
38
A resolução da ONU de Fevereiro de 1961 pode ser acedida em http://www.un.org/
documents/sc/res/1960/scres60.htm.
39
JFKL Harland Cleveland Papers Box 68, Report of the Officer in Charge of the
Congo Operation S/4940, 14 de Setembro de 1961; O'BRIEN, Conor Cruise ' To
Katanga and Back, pp. 216-18.
40
NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1964, Tel 341 State Department to
Leopoldville, 1 de Setembro de 1961.
41
NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1964, Tel 419 State Department to USUN, 1
de Setembro de 1961.
42
Ibidem.
43
NA NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1964, Tel 721 Leopoldville to S of S, 18
de Setembro de 1961; Tel 719 Leopoldville to S of S, 18 de Setembro de 1961.
44
UN Security Council Resolution 169 24 November 1961. Disponível em http://
www.un.org/documents/sc/res/1960/scres60.htm.
45
FRUS 1961-1963. Vol XX Special NIE Possible Developments in Katanga', 7 de
Dezembro de 1961; NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1967, Tel 1470
Leopoldville to S of S, 11 de Dezembro de 1961; JFKL NSF Congo Box 27A, Memo
for the President Courses for the US Policy in view of Fighting in Katanga' by
Rusk, 9 de Dezembro de 1961.
46
KENT, John ' op cit, 2010, Capítulo 4.
47
Ibidem.
48
JFKL NSF Congo Box 31, Tel 768 State Dept to London, 7 de Agosto de 1962.
49
National Archives Kew (NA) CAB 128/36CC(62) 53rd (3), 3 de Agosto de 1962.
50
JFKL NSF Congo Box 31, Tel 246 USUN to S of S, 25 de Julho de 1962.
51
Os britânicos não concordavam que se fosse para além da segunda fase dos Modos
de Actuação se Tshombe não cumprisse com o plano de reconciliação.
52
Em Dezembro de 1961, Ball sucedera a Chester Bowles no cargo de subsecretário,
e era visto por Kennedy como alguém capaz de considerar os dois lados da
questão de uma forma razoável e equilibrada.
53
Ball tornar-se-ia um dos principais representantes de Kennedy nas discussões
com Salazar e com o ministro dos Negócios Estrangeiros português.
54
A 10 de Dezembro, quando se tornou clara a dificuldade em distinguir as
diferenças entre as promessas de implementação e uma implementação efectiva mas
parcial (bem como os efeitos decorrentes das duas), e uma vez que três meses
haviam passado desde a apresentação do plano dos Estados Unidos e da ONU, o
Presidente Kennedy pediu que lhe fossem apresentadas todas as opções possíveis
para assegurar a reintegração do Catanga no Congo. Documentos foram então
preparados por diversos departamentos, e Ball apresentou uma nova política para
o Congo num memorando ao presidente que seria discutido a 14 de Dezembro.
55
JFKL Harland Cleveland Papers Box 68, Cleveland to Ball (Personal), 14 de
Dezembro de 1962.
56
FRUS 1961-1963. Vol XX, Record of meeting with Kennedy and Ball, McGhee,
Hilsman, Bowles, Williams, Gilpatric, Cleveland, McGeorge Bundy, Col. Greene,
Bronson Tweedy (CIA), Admiral Anderson (Chief of Naval Operations) and Kaysen,
14 de Dezembro de 1962.
57
Ibidem.
58
JFKL George Ball Papers, Telcon Ball, Stevenson, Cleveland and McGhee, 15 de
Dezembro de 1962.
59
NARA RG 59 CDF 755A:00 1960-63 Box 1831, Memo Report of Conversation with
Secretary General U Thant on the Congo' Cleveland to Ball, 16 de Dezembro de
1962.
60
JFKL Harland Cleveland Papers Box 70, NSC Executive Committee Record for 3.45
meeting, 17 de Dezembro de 1962.
61
FRUS 1961-1963. Vol XX, Tel 31 for Kennedy, State Dept to Nassau delegation,
20 de Dezembro de 1962. O memorando de Rusk para o Presidente foi preparado por
Joseph Sisco (director dos Assuntos Políticos e de Segurança das Nações Unidas,
parte do Gabinete de Organizações Internacionais), e revisto por Mennen
Williams, Cleveland Andrews e McGhee antes de ser aprovado por Rusk. Rusk deu
instruções para que o telegrama não fosse copiado para Stevenson, nas Nações
Unidas, ou para Gullion, em Léopoldville.
62
JFKL Harland Cleveland Papers Box 69, cronologia de eventos sem assinatura nem
data.
63
NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1976, Tel 999 Elisabethville to S of S, 28
de Dezembro de 1962.
64
NARA RG 59 CDF 770G:00 1960-63 Box 1976, Tel 1010 Elisabethville to S of S, 30
de Dezembro de 1962.
65
FRUS 1961-1963. Vol XX, Memo by Brubeck to Kaysen [Assistente Especial de
Kennedy para os Assuntos de Segurança Nacional], 28 de Dezembro de 1962.
66
JFKL NSF Congo Box 33A, Tel 1573 Leopoldville to S of S, 29 de Dezembro de
1962.
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