Harold Macmillan, os «ventos de mudança» e a crise colonial portuguesa (1960-
1961)
Parece indiscutível que qualquer crónica da descoloni-zação europeia no século
XX terá de reservar um lugar especial para Harold Macmillan que, entre 1957 e
1963, exerceu o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, imediatamente após o
brevíssimo e desastrado mandato de Anthony Eden. Um historiador apelidou-o de
«o grande descolonizador do império britânico em África»1, ao passo que o seu
mais recente biógrafo, D. R. Thorpe, considera que se por acaso Macmillan
tivesse sido assassinado pouco depois de proferir o célebre discurso dos
«ventos da mudança», em Fevereiro de 1960, teria o seu lugar na história
devidamente salvaguardado2.
Numa perspectiva mais ampla, o protagonismo de Macmillan na grande narrativa da
descolonização britânica necessita de ser matizado. Afinal de contas, no
imediato pós-guerra, o Governo trabalhista de Clement Attlee e Ernest Bevin
(1945-1951) foi responsável por um conjunto de decisões que ditaram a
inevitabilidade do desmantelamento do império formal da Grã-Bretanha, e nem
mesmo a mal-avisada aventura do Suez em 1956 nos deverá distrair dos
reajustamentos e reconsiderações, acompanhados de algumas cedências a forças
nacionalistas, que foram empreendidos ainda durante as administrações de
Churchill e Eden (1951-1956).
O GRANDE ACELERADOR
Macmillan deverá ser visto sobretudo como o grande acelerador, alguém que tinha
a consciência exacta das limitações do poderio britânico na década de 1950 e
uma percepção aguda dos ajustamentos que deveriam ser feitos para que Londres
pudesse continuar a desempenhar um papel relevante no plano internacional, no
momento em que as duas superpotências olhavam para o chamado Terceiro Mundo
como a arena crítica da Guerra Fria.
As suas disposições ideológicas e instintos pragmáticos equiparam-no bem para
semelhante tarefa. Em contraste com os conservadores de outra geração, não era
alguém que fosse demasiadamente sensível ao «apelo romântico» do império.
Também não seria um Little Englander, já que prezava o valor das conexões
imperiais e encarava a Commonwealth como um potencial veículo para a projecção
da influência britânica à escala mundial. Embora os seus governos tenham
reconhecido a importância do projecto europeu impulsionado pelas potências do
Tratado de Roma, apresentando dois pedidos de adesão ao Mercado Comum (vetados
por De Gaulle em 1961 e 1963), a evidência documental sugere que esse
«europeísmo» não deverá ser muito exagerado. Tal como quase todos os estadistas
britânicos da segunda metade do século XX, Macmillan não parecia muito
interessado em fazer uma escolha entre a «Europa» e os outros dois «círculos»
fundamentais das relações externas britânicas, a Commonwealth e os Estados
Unidos da América3.
Aliás, se havia questão na qual Macmillan parecia completamente comprometido,
essa era a preservação da «relação especial». Afinal de contas, ele havia sido
o responsável pelo Tesouro no momento mais dramático da crise do Suez, quando
os americanos deixaram claro o que poderia acontecer à libra esterlina se
Londres persistisse num caminho tido como inaceitável para Washington. A Grã-
Bretanha dependia também vitalmente de Washington no domínio da segurança. A
sua força de dissuasão nuclear ' a marca distintiva das grandes potências na
era contemporânea ' precisava de tecnologia americana para ser operacional, o
que fez da aquisição do sistema Polaris para a frota de submarinos da Royal
Navy uma das prioridades máximas da política externa de Macmillan no início dos
anos 1960.
Parece hoje consensual entre a historiografia que o «génio» de Macmillan terá
residido na sua capacidade em tornar aceitável para uma parte significativa do
Partido Conservador a ideia da retirada imperial, numa época em que, como já
alguém notou, essa questão era tão «fracturante» quanto a questão europeia se
viria a tornar para o mesmo partido a partir da década de 1980. Uma das razões
que tornava a discussão de uma retirada imperial tão explosiva era a situação
dos colonos brancos, que constituíam comunidades numerosas e bem organizadas em
locais como o Quénia e os territórios da Federação Centro-Africana (os actuais
Malawi, Zimbabué e Zâmbia). O sentimento de solidariedade entre muitos
lealistas imperiais em Inglaterra para com os interesses destes grupos era
forte ' e o paralelo com a situação da Argélia francesa esteve sempre presente
na mente de Macmillan e de outros ministros. Como ele próprio uma vez disse,
«Não são os africanos que são o problema na África, mas sim os europeus».
Nesse sentido, foi só após ter conseguido tornar mais segura a sua posição no
plano doméstico, na sequência da expressiva vitória alcançada nas eleições
gerais de 1959, que Macmillan se sentiu mais confiante para avançar com o tipo
de adaptações que a sua visão do futuro papel do Reino Unido exigia.
Essas adaptações, como é sobejamente sabido, foram precedidas por uma extensa
reavaliação dos compromissos britânicos em matéria de política colonial,
externa e de defesa, através de estudos elaborados por diversos departamentos
ministeriais em Whitehall. Esses estudos haviam sido encomendados por Macmillan
em 1957, poucas semanas depois de tomar posse do cargo de primeiro-ministro. O
seu propósito era o de garantir uma análise do tipo de «ganhos e perdas» em
relação às colónias que poderiam estar «maduras para a independência durante os
próximos anos»4.
Previsivelmente, as conclusões não apontavam soluções expeditas, antes
apresentavam cenários repletos de prós e contras em relação a independências
concedidas «prematuramente» ' aliás, um parecer muito em linha com aquilo que
era o sentimento geral da opinião pública britânica, mesmo após o fiasco do
Suez5. Um dos estudos de maior impacto, intitulado «Future constitucional
development in the colonies» (Setembro de 1957) colocava inclusivamente várias
reservas morais a uma política de abandono súbito das colónias. Segundo os seus
autores, as poupanças financeiras que isso poderia proporcionar teriam de ser
cotejadas com os danos morais resultantes de uma retirada precipitada. Dito
isto, a verdade é que nenhum dos funcionários envolvidos no exercício levantou
objecções sérias, do ponto de vista económico ou estratégico, a um progresso
constitucional na direcção da independência. Outro estudo ainda, o «Defense
White Paper» (1957), formulava várias recomendações em relação a economias que
poderiam ser feitas, e que se traduziriam numa redução do pessoal a um nível
tal que futuras campanhas de contraguerrilha seriam muito difíceis de
realizar6. O historiador Ronald Hyam vê nesta medida, que reduziu em cerca de
dois terços a força do Exército britânico nas colónias, um dos contributos mais
significativos para a aceleração da descolonização na década de 19607.
Um terceiro estudo, «Future policy study: 1960-1970», um ambicioso exercício de
prospectiva elaborado no rescaldo da eleição de 1959, dava como inevitável o
declínio do poder relativo da Grã-Bretanha à escala global, o que deveria levar
os seus responsáveis a concederem máxima prioridade à preservação da Aliança
Atlântica. Interdependência e partilha de esforços seriam conceitos
fundamentais no futuro imediato. Embora a área esterlina e a Commonwealth
permanecessem como importantes fontes de poder e influência, a relação com
Washington era vista como o factor crítico da posição internacional do Reino
Unido. Isto significava que as exigências da agenda anticomunista dos Estados
Unidos teriam de ser levadas muito a sério, o que implicava uma predisposição
para acomodar as aspirações nacionalistas que se iam fazendo sentir em vários
territórios coloniais, a fim de evitar que potências como a China e a URSS as
pudessem explorar para seu benefício próprio.
A CORRIDA PARA SAIR DA ÁFRICA
Mas tão importantes como estas cogitações burocráticas no antecipar das
decisões que haveriam de conduzir ao desmantelamento do império foram os
acontecimentos no terreno8. Em finais da década de 1950, para além do quebra-
cabeças que era a situação na ilha de Chipre, duas colónias em particular
captaram a atenção do público britânico: o Niassalândia e o Quénia (as «nossas
Argélias», segundo confidenciou Macmillan a Eisenhower)9. Na primeira, um rumor
acerca de uma alegada conspiração de assassinato visando os colonos europeus
conduziu à prisão do líder do Nyassaland Congress Party, Hastings Banda,
seguida de protestos, distúrbios, dezenas de mortos e a imposição do estado de
emergência. Mais tarde, um inquérito oficial aos acontecimentos referiu-se à
colónia como estando reduzida a um «Estado policial». No Quénia, uma das
colónias mais prósperas da África britânica, a morte de 11 detidos num campo de
concentração para indivíduos suspeitos de pertencerem ao movimento dos Mau-Mau,
e o ferimento de vinte outros (o «massacre de Hola Camp»), causou uma repulsa
geral, o que deu origem à realização de um inquérito e de um relatório bastante
comprometedores. Na Câmara dos Comuns, elementos da própria bancada
conservadora exprimiram o mal-estar gerado por esta situação («Na África, mais
do que em qualquer outro lugar, não podemos, não nos devemos sequer atrever, a
baixar os nossos critérios na altura de assumir responsabilidades», afirmou
Enoch Powell10), e Macmillan, com uma eleição à vista, não deixou de ponderar
as possíveis consequências adversas deste estado de coisas na competição com os
trabalhistas.
De notar ainda que estes acontecimentos coincidiram temporalmente com
importantes desenvolvimentos na política colonial francesa, como a secessão da
Guiné de Sekou Touré ou o plano do general De Gaulle de autodeterminação para a
Argélia, a par da promessa do rei Balduíno de conceder a independência ao Congo
Belga, o que reforçava a ideia de que o Reino Unido teria de responder a esta
aceleração, se não quisesse sofrer uma espécie de efeito de contágio
revolucionário ou perder a «ascendência moral» que havia de alguma forma
conquistado com a sua tradição imperial reformista e a decisão de proceder ao
desmantelamento do Raj em 1947. Em suma, nesta nova «corrida para fora da
África», a última coisa que os governantes britânicos desejavam era serem
«equiparados aos portugueses como o obstáculo a um futuro progresso» no mundo
colonial, desbaratando o prestígio que haviam acumulado com a sua «governação
benevolente»11. Gradualmente, o consenso em Whitehall apontava para a
inevitabilidade da dissolução do império formal e para a aceleração do processo
que deveria conduzir à autodeterminação dos territórios, e pouco depois à
independência, devendo esta acontecer em simultâneo com a adesão dos novos
países à Commonwealth. Esta transição gradual e controlada não apenas honraria
a filosofia paternalista e liberal que, alegadamente, constituía a marca
distintiva da experiência imperial britânica, como daria origem a uma
Commonwealth alargada, «uma família de nações partilhando os valores do governo
responsável, da liberdade, e moralidade, com um importante papel a desempenhar
no mundo»12. Desse modo, a retirada da África não teria de ser concebida como
um sinal de fraqueza; pelo contrário, seria a forma mais eficaz de garantir à
Grã-Bretanha a continuidade do seu estatuto de grande potência mundial, um
estatuto ancorado, precisamente, na sua ampla rede de conexões pós-coloniais e
no capital de influência e prestígio que isso lhe proporcionava.
No início de 1960, já com um novo governo empossado (no seio do qual se viria a
destacar o seu enérgico secretário de Estado das Colónias, Ian McLeod),
Macmillan partiu para um périplo de seis semanas por vários territórios
africanos. A viagem levou-o até à Nigéria, Gana, Federação Centro-Africana e,
por fim, à África do Sul. O seu objectivo fundamental era, precisamente, o de
tomar o pulso à maré alta do nacionalismo africano e preparar o terreno para
algumas das mudanças constitucionais que o Reino Unido tencionava introduzir
nalgumas das suas colónias. No Gana, o primeiro território da África Ocidental
Britânica a alcançar a independência, o Presidente Nkrumah sugeriu a Macmillan
que aproveitasse a sua estada na África para proferir uma declaração em que a
nova orientação para o império fosse exposta com clareza, e de preferência com
algum impacto dramático. Em Salisbúria, Macmillan teve palavras pouco
encorajadoras para os representantes dos colonos brancos que estavam
determinados a resistir às aspirações da maioria negra, e deixou-os cheios de
dúvidas quanto a um futuro apoio de Londres em relação à continuidade da
Federação Centro-Africana13. Mas seria na África do Sul que a visita de
Macmillan conheceria o seu ponto alto, nomeadamente numa sessão realizada no
Parlamento sul-africano, na Cidade do Cabo, a 3 de Fevereiro de 196014. Usando
da palavra durante perto de uma hora, Macmillan fez uma excursão histórica pela
evolução do nacionalismo, cujas origens fazia recuar ao período de dissolução
do Império Romano. Depois de um longo trajecto, o sentimento que estivera por
detrás da constituição das nações independentes na Europa triunfara na Ásia
após 1945 e agora chegara à África:
«O vento da mudança está a soprar pelo continente fora e, quer isso
nos agrade ou não, o amadurecimento da consciência nacional é um
facto político. Devemos aceitá-lo como tal e as nossas políticas
devem dar conta disso mesmo.»
E não perdendo de vista o contexto mais amplo em que as aspirações dos povos
colonizados eram articuladas, nem o perfil anticomunista dos destinatários mais
imediatos da sua mensagem, acrescentaria mais à frente:
«Tal como eu vejo as coisas, a grande questão desta segunda metade do
século XX consiste em saber se os povos não comprometidos da Ásia e
da África se inclinarão para o Leste ou para o Ocidente. Será que se
deixarão arrastar para o campo comunista? Ou será que as experiências
de autogoverno em curso na Ásia e na África, especialmente no seio da
Commonwealth, se revelarão tão bem-sucedidas que os pratos da balança
penderão a favor da liberdade, da ordem e da justiça? A disputa
começou, e é uma disputa pela mente dos homens.»15
As reacções ao discurso foram, naturalmente, díspares: de consternação, por
parte dos nacionalistas sul-africanos brancos; de regozijo por parte dos
opositores do apartheid e dos partidários da emancipação africana um pouco por
todo o continente16. A expressão «ventos de mudança» ganhou enorme notoriedade
e atormentou os poderes que continuavam a resistir às aspirações da maioria
negra na África. Menos de dois meses depois, a violenta repressão que se abateu
sobre os manifestantes das townships sul-africanas (massacre de Sharpeville)
deu azo à aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU em que o
Governo da África do Sul foi alvo de uma veemente condenação ' acontecimento
que assinalaria o progressivo isolamento internacional do regime de Pretória17.
Dirigindo-se à ONU em Abril de 1960, o ministro dos Negócios Estrangeiros da
Guiné-Conacri afirmaria que
«o vento da mudança a que o primeiro-ministro Macmillan se referiu
recentemente ameaça tornar-se um furacão. [ ] Nem as armas nem as
baionetas poderão prevalecer em face da forte consciência das
populações africanas que estão determinadas a pôr fim ao
colonialismo.»18
No próprio Reino Unido, elementos da ala mais direitista do Partido Conservador
chegariam mesmo a fundar um grupo de pressão, o Monday Club (assim designado
porque o discurso do Cabo fora proferido numa segunda-feira), com o propósito
de combater a política de descolonização do Governo de Macmillan. Mas ao
adoptar uma postura que era em tudo semelhante à que o próprio Partido
Trabalhista perfilhava, este conseguiu assentar num consenso bipartidário a
política de «avanço constitucional», que muito rapidamente se converteu num
eufemismo para a concessão da independência a vários territórios coloniais
britânicos, na África mas também nas Antilhas e na Ásia (depois da sua morte, a
campa de Macmillan no Cemitério de St. Giles, em Horstead Keynes, tornar-se-ia
inclusivamente destino de romagem de visitantes oriundos dos antigos
territórios coloniais do Reino Unido19).
DOIS IMPÉRIOS, DOIS DESTINOS
Como foram recebidos em Portugal todos estes desenvolvimentos? Que impacto
tiveram nas percepções das elites governantes relativamente ao futuro do
colonialismo na África? E como evoluíram os contactos entre Portugal e esse seu
aliado histórico?
Como é sabido, o Portugal de Salazar abordou os desafios do nacionalismo
anticolonial de forma muito diferente de uma potência como a Grã-Bretanha, cuja
política imperial (ou, se preferirmos, de descolonização), desde a
independência da Índia à crise do Suez, era encarada pelos «falcões» do regime
como uma política de apaziguamento, abdicação moral e debandada.
Embora o apego ao império não fosse um exclusivo do Estado Novo, sendo uma
herança do nacionalismo imperial da República, as suas características
intrínsecas tornavam impossível qualquer discussão aberta sobre o futuro da
presença portuguesa na África. Enfrentar as reivindicações de africanos e
asiáticos através de concessões e reformas de natureza liberal seria sempre
algo de complexo para uma ditadura. A isto acresce a completa ausência de
qualquer filosofia familiar à doutrina do trusteeship que informava a política
britânica, o que tornava os portugueses menos propensos a qualquer espécie de
diálogo acerca das medidas que pudessem capacitar politicamente os seus
súbditos coloniais. Em finais dos anos 1950, por exemplo, a correspondência de
Jorge Jardim, uma figura de grande influência na comunidade branca de
Moçambique, estava repleta de afirmações de autocomprazimento pela atitude
«dura» e «firme» dos portugueses em África, em contraste com a pusilanimidade e
vacilação de outros poderes coloniais apostados em enfrentar a contestação
através de reformas20. A sua mensagem, que Salazar parecia aceitar, era a de
que as concessões aos nacionalistas africanos não só eram inúteis, como tendiam
a minar a autoridade da potência colonizadora.
Isto não quer dizer, porém, que certos sectores das elites portuguesas fossem
insensíveis às transformações ocorridas no mundo colonial desde o final da II
Guerra Mundial, e à necessidade de desenvolver uma política mais proactiva
relativamente ao império. Ainda em finais dos anos 1940, são de assinalar os
esforços envidados por figuras como Marcelo Caetano, ministro das Colónias
entre 1944 e 1947, no sentido de «promover a progressiva autonomia
administrativa e o desenvolvimento económico-social das colónias»21, em linha
com o que outras potências imperiais europeias estavam a fazer nos seus
domínios africanos. Data dessa época, por exemplo, a tentativa de converter a
Guiné numa espécie de «colónia-modelo» do novo paradigma imperial que figuras
como Caetano pretendiam edificar, para melhor acautelar a posição de Portugal e
do Ultramar nas condições do pós-guerra22.
A partir de 1955, em particular, a participação regular nas Assembleias Gerais
da ONU, ou nas reuniões promovidas por organismos como a Comissão de Cooperação
Técnica na África, de uma série de elementos oriundos de meios universitários
ou da administração, abriria também espaço para a afirmação de uma corrente
modernizadora no seio do regime. Alguns deles, como Adriano Moreira, ou jovens
diplomatas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, como Franco Nogueira,
perceberam que o Estado estava mal apetrechado para reunir e processar
informações acerca de um contexto internacional em mudança, e conseguiram
convencer Salazar a empreender algumas reformas institucionais visando
rectificar essa deficiência. Novas políticas teriam também de ser formuladas e
implementadas, especialmente no domínio sensível das relações laborais, mas
também na educação, cuidados de saúde, planeamento urbano, economia rural e
serviços sociais. Uma parte destes «modernizadores» esteve por detrás do
rejuvenescimento de organismos como a Junta de Investigações do Ultramar (à
qual estaria ligado o Centro de Estudos Políticos e Sociais, uma espécie de
think tank desta corrente) ou o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos
(ISEU, a antiga Escola Colonial), organizou o envio de dezenas de «missões de
estudo» a diversos territórios coloniais23, e desempenharia um papel crítico na
criação de um importante departamento de coordenação política interministerial,
o Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar24.
Esta corrente, se assim lhe podemos chamar, preconizava também a adopção de uma
postura mais flexível em alguns fóruns internacionais, de modo a deixar
Portugal menos exposto a críticas recorrentes (o que se viria a traduzir, por
exemplo, na adesão portuguesa à Convenção Suplementar para a Abolição da
Escravatura, aprovada no âmbito da OIT em 1956), e alguns dos seus membros
mostraram-se mesmo dispostos a encetar contactos com líderes nacionalistas
africanos, como o moçambicano Eduardo Mondlane, a quem chegaria a ser oferecido
um posto de docência universitária no ISEU no início da década de 196025.
Em termos discursivos, foram também estes elementos que melhor terão entendido
o potencial propagandístico das teses do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre,
cujas ideias acerca da vocação excepcional dos portugueses para a mestiçagem e
o diálogo intercultural começaram a impregnar os pronunciamentos de
responsáveis do regime, incluindo o próprio Salazar26.
Até inícios dos anos 1960, esta linha mais reformadora, que de resto nunca
parece ter-se decidido entre uma orientação simplesmente descentralizadora e
gradualista e uma opção de cunho federalista, ainda logrou conservar alguma
influência nos centros decisores do regime. Mas, a partir de 1961, tanto o
endurecimento e crispação induzidos pela guerra, como as rivalidades pessoais e
de facção que constituíam um dos aspectos característicos do Estado Novo,
levaram a que os seus principais intérpretes começassem a perder terreno face
aos adeptos de uma postura mais imobilista.
A dissonância entre as abordagens britânica e portuguesa em matéria de política
colonial não deixaria também de se repercutir no relacionamento entre ambos.
Sintomático disso mesmo é a maneira como o discurso de Macmillan na Cidade do
Cabo foi recebido em Lisboa ' a imprensa praticamente ignorou-o, ou reproduziu
alguns trechos de forma deturpada27, ao passo que os responsáveis políticos
rangeram os dentes perante mais uma demonstração do «espírito capitulacionista»
que parecia ter tomado conta das elites britânicas. Reportando para o Foreign
Office as reacções de Marcello Mathias, o embaixador Charles Stirling
escreveria que
«O Dr. Mathias, e os funcionários portugueses em geral, estão
evidentemente perturbados pelos possíveis efeitos do périplo africano
do primeiro-ministro. Eles encararam sempre com algum alarme o avanço
da nossa política de promoção da independência nos nossos territórios
africanos, a qual torna obviamente mais difícil de sustentar o
argumento português de que a sua governação autoritária com uma muito
gradual assimilação dos africanos poderá depois dar origem a uma
civilização portuguesa inter-racial.»28
Aliás, os sinais de que Londres dificilmente seria um ponto de apoio seguro
para qualquer embate na frente colonial vinham-se multiplicando desde há vários
anos. Em 1954, a crise dos «enclaves» de Dadrá e Nagar Aveli demonstrara que a
aliança tinha praticamente cessado no tocante aos compromissos da Grã-Bretanha
para com a integridade das possessões ultramarinas portuguesas. Na segunda
metade dessa década, a concertação de posições na ONU tornar-se-ia cada vez
mais difícil de operacionalizar. A partir de 1959, por exemplo, os britânicos
decidiram pôr termo a uma série de conversações quadripartidas que haviam
mantido com franceses, belgas e portugueses nas vésperas de todas as
assembleias gerais pelo facto de a agenda desses encontros se encontrar
progressivamente esvaziada de sentido face à evolução da situação na África. De
visita a Londres em Março de 1960, Mathias teria a ocasião de debater os
últimos desenvolvimentos no continente africano com Macmillan, Selwyn Lloyd e
outros responsáveis. Um argumento que em breve se tornaria recorrente em todas
as trocas de impressões com Portugal (as vantagens que as potências coloniais
poderiam garantir se patrocinassem transições controladas para a independência)
foi então usado por várias figuras presentes nas audiências com o ministro
português. Mas a resposta de Mathias seria igualmente premonitória:
«O Sr. Mathias disse que não estava preocupado com o progresso em
direcção à independência, a não ser no caso dos territórios
portugueses; o perigo era o comunismo. Se os emergentes estados
independentes fossem suficientemente fortes, tivessem uma elite
capaz, recebessem assistência económica do Ocidente e sentissem a
necessidade de continuar a trabalhar com o Ocidente, então tudo
estaria bem. A dificuldade estava no facto de os gestos feitos pelos
ocidentais tenderem a ser vistos como sinónimos de colonialismo, ao
passo que as iniciativas russas eram tidas como aceitáveis.»29
Os portugueses ficariam ainda profundamente agastados quando, em Dezembro de
1960, depois de terem falhado a sua candidatura ao Conselho de Segurança
(apoiada sem grande entusiasmo pelos seus aliados), o Reino Unido se contou
entre os países que se abstiveram na votação das resoluções (1541 e 1542 [XV])
que visavam directamente a política colonial portuguesa na ONU, uma atitude que
demonstrava bem a importância que Londres atribuía à necessidade de conservar
algum crédito junto do cada vez mais influente bloco afro-asiático. No dia das
fatídicas votações, o secretário de Estado do Foreing Office, Douglas-Home,
explicou ao representante português que embora a Grã-Bretanha respeitasse
«inteiramente a posição adoptada por Portugal quanto à sua política
ultramarina», não podia alterar a sua decisão de se abster pois «estava
convencida ser [a] sua atitude a mais convincente para contrabater [sic]
propaganda russa na África e isto tanto no seu interesse como no interesse
mútuo dos nossos dois países»30.
Comentando o desfecho destas votações, o embaixador português em Londres,
general Abranches Pinto, não escondeu o seu desânimo:
«Perdemos a batalha da ONU e afinal muito mais cedo do que se
esperava. Mais uma vez se verificou que os britânicos não vão atrás
do direito nem da lógica, mas obedecem mais à força das realidades
práticas. Não julgam nem raciocinam, mas submetem-se à pressão dos
factos e circunstâncias. São mais calculistas que justos ou
generosos. [ ] A rendição na África é a linha de conduta. O receio da
Rússia e o respeito pela Índia e outros países asiáticos da
Comunidade condicionam a atitude.»31
AS MISSÕES DE ECCLES E HOME A LISBOA
A política governamental britânica acabaria, contudo, por ter um impacto mais
incisivo nos destinos imperiais portugueses em 1961, ano que testou com enorme
dureza os instintos de sobrevivência de Oliveira Salazar, e a própria relação
luso-britânica.
Noutro local tivemos já a oportunidade de descrever o posicionamento do Reino
Unido nessa conjuntura particular, pelo que não desenvolveremos aqui esse ponto
de forma detalhada32. Bastará dizer que desde o sequestro do Santa Maria, em
Janeiro, à queda de Goa, em Dezembro, o Governo de Macmillan procurou trilhar
um caminho que lhe custasse a amizade de Portugal e, ao mesmo tempo, lhe
permitisse manter uma sintonia de posições com a nova Administração Kennedy,
ela própria apostada em promover uma mudança de curso nas políticas coloniais
de Salazar, assim como não ofender alguns dos seus parceiros da Commonwealth,
com natural destaque para a União Indiana.
Nos meses seguintes, à medida que a crise em Angola ia ganhando contornos mais
dramáticos, foi-se tornando difícil discernir um sentido claro na actuação do
Reino Unido33. A reacção inicial de Londres foi a de oferecer algum conforto
moral a Portugal, mostrar-se compreensivo em relação à sua retórica colonial e
evitar qualquer crítica pública (uma orientação patente, por exemplo, na
abstenção do delegado britânico na votação do projecto de resolução da Libéria
ao Conselho de Segurança a 15 de Março, fortemente crítico da política
portuguesa em Angola). Depois, quando se tornou evidente que os americanos não
se deixariam convencer pela bondade e eficácia da política de assimilação
prosseguida por Portugal, Londres pareceu inclinar-se para uma atitude mais
exigente (a isto não foram com certeza alheias as negociações com Washington
tendo em vista a modernização da capacidade nuclear britânica, por via da
aquisição do sistema de mísseis balísticos Polaris). Finalmente, quando a
pressão americana começou a dar sinais de algum abrandamento (o que se torna
perceptível em finais de 1961), os responsáveis britânicos regressaram, também
eles, a uma posição mais contemporizadora para com o seu aliado. Em síntese, o
aspecto ambíguo que caracterizou a política britânica em relação a Portugal
resultou da dificuldade sentida pelos decisores políticos em Londres para
conciliar objectivos nem sempre compatíveis: a manutenção da «relação especial»
com Washington e o desejo de evitar um «contágio revolucionário» nos seus
territórios coloniais na África; a amizade com Portugal e a preservação de uma
imagem positiva junto dos países afro-asiáticos.
Em meados de Abril, sensivelmente na mesma altura em que o general Botelho
Moniz queimava as suas últimas hipóteses de derrubar Salazar através de um
golpe palaciano, os responsáveis britânicos tentaram perscrutar um pouco melhor
as intenções portuguesas em relação a Angola. Para esse efeito, enviaram a
Lisboa um velho conhecido de Salazar: Sir David Eccles, antigo responsável pela
condução da guerra económica na Península Ibérica entre 1940-1943, e um dos
mais sinceros admiradores do ditador português nos círculos governamentais
britânicos. À época ministro da Educação, Eccles voou até Lisboa acompanhado de
uma outra figura de proa da ala «imperialista» do Partido Conservador, o
marquês de Salisbúria, que em 1957 se demitira do Gabinete em ruptura com a
política de Macmillan face ao problema de Chipre. O pretexto da visita era
perfeitamente anódino: a participação nas celebrações do 25.º aniversário do
Colégio Queen Elizabeth, em Lisboa, e uma visita à St. Julian's English School,
em Carcavelos, seguida de conversações com o ministro da Educação português34.
Na verdade, a parte importante da estada de cinco dias de Eccles em Lisboa
consistiu num conjunto de conversas com Salazar e outras figuras dos meios
empresariais, universitários e políticos sobre os acontecimentos em Angola.
Em Lisboa, uma das facetas dos portugueses que mais impressionou Eccles foi a
tendência para encararem os seus problemas na África sob um ponto de vista
estritamente moral, ou até mesmo teológico. Ao terem-se convencido de que a sua
política de assimilação, isenta de quaisquer preconceitos raciais, era aceite
pela maioria das populações africanas, os portugueses não viam qualquer razão
para reconhecerem a estas a possibilidade de exercitarem o seu direito à
autodeterminação. No entender dos responsáveis portugueses, este seria o
caminho mais curto para a transformação das colónias em estados independentes
governados pela maioria negra (com consequências imprevisíveis para a minoria
branca). Segundo Eccles, uma coisa não decorria logicamente da outra e um dos
favores que o Reino Unido poderia prestar a Portugal era ajudá-lo a ultrapassar
esse equívoco. A segunda era convencê-lo de que a sua insistência no valor da
assimilação só poderia vingar caso o nível de vida dos africanos negros se
aproximasse significativamente do dos brancos. Caso contrário, nada de
substancial distinguiria a «assimilação» do apartheid sul-africano. O ministro
britânico não subestimava as dificuldades que o seu Governo depararia num
diálogo mais franco com Lisboa; mas o cenário de um colapso abrupto da
autoridade portuguesa na África era algo que só poderia beneficiar os
comunistas. Nesse sentido, Eccles entendia que a política britânica em relação
a Portugal deveria assentar em duas premissas essenciais:
«a) apoiar o princípio da assimilação como uma alternativa
respeitável à independência; b) ajudar o governo português na
elaboração de planos que, devidamente financiados, acelerarão o ritmo
da assimilação e torná-la-ão condizente com todos os requisitos
modernos».35
Uma segunda conversa com Salazar, realizada a 11 de Abril, confirmou as
dificuldades antevistas por Eccles. Depois de ouvir o apelo do ministro
britânico em relação à necessidade de proceder a uma «clarificação» da
finalidade da política portuguesa na África, Salazar foi peremptório ao afirmar
que jamais «poria o seu nome em qualquer declaração que fizesse referência à
autodeterminação». Do reconhecimento do direito à autodeterminação à
independência sob um governo de maioria negra ia, segundo Salazar, um pequeno
passo e isso seria o fim das relações de Portugal com as suas colónias. A única
concessão que o chefe do Governo português se mostrava disposto a fazer era a
de estudar formas de assegurar a colaboração de capitais estrangeiros com vista
à intensificação do esforço de desenvolvimento económico e social nas
províncias ultramarinas ' embora na condição de essa colaboração ser
«canalizada através de Lisboa»36.
Mas as sugestões de Eccles estavam longe de recolher o consenso em Whitehall. O
secretário de Estado das Colónias, Ian Macleod, por exemplo, entendia que os
acontecimentos na África estavam a evoluir a um ritmo demasiado rápido para que
a política de assimilação pudesse produzir resultados palpáveis. O cepticismo
em relação à retórica e à substância da política colonial de Lisboa era
partilhado por vários funcionários influentes no Foreing Office. Segundo alguns
deles, os fundamentos da posição portuguesa eram demasiado frágeis para que o
Reino Unido se pudesse associar a eles. A asserção de que os habitantes de
Angola e Moçambique não desejavam a independência, por exemplo, era impossível
de demonstrar nas presentes condições políticas daqueles territórios. Em
segundo lugar, a esperança de que uma aceleração da política de assimilação
pudesse ajudar Portugal a ultrapassar a contestação à sua autoridade era uma
ilusão ' os franceses já tinham tentado esse método em muito maior escala e com
recursos muito mais vastos, e isso não fora suficiente para extinguir as
aspirações independentistas das suas populações africanas. Aliás, na presente
conjuntura, o mais provável seria que uma expansão substancial dos serviços
sociais e educativos na África portuguesa, eventualmente financiada pelos
Estados Unidos, aumentasse os factores de tensão no relacionamento das
províncias ultramarinas com a metrópole, e não o contrário37. Por conseguinte,
o Reino Unido estaria a prestar um mau serviço a Portugal, e ao próprio
Salazar, se lhes desse a entender que os seus problemas na África poderiam ser
resolvidos através de uma canalização de fundos estrangeiros para o seu esforço
«assimilador»38.
Lord Home não se afastava muito desta avaliação. Para o responsável máximo do
Foreing Office, a dinâmica de mudança em África era demasiado forte para que os
portugueses lhe pudessem resistir pela força das armas e um maior investimento
na política de assimilação dificilmente anularia as reivindicações
independentistas. Nesse sentido, o Reino Unido subscrevia por inteiro a posição
americana segundo a qual a solução da crise angolana teria de residir no
reconhecimento formal da autodeterminação como o objectivo final da política
portuguesa. Esse era, no fundo, o desígnio que animava desde há bastante tempo
«a missão imperial» da Grã-Bretanha, pelo que o Governo português não poderia
«esperar que defendamos uma política que em muitos aspectos
consideramos desajustada. Nem podemos nós apoiar conscientemente
Portugal nos esforços que se propõe desenvolver para convencer o
mundo de proposições em que não acreditamos (por exemplo: assimilação
= sociedade multirracial; a maioria dos habitantes dos territórios
africanos não aspira à independência; o desenvolvimento económico
será suficiente para conservar os laços de lealdade, etc.). São estas
discordâncias básicas, e não qualquer contabilidade sórdida de votos
nas Nações Unidas, que nos impendem de apoiar Portugal nestes
assuntos, por muito que a nossa velha amizade e actual associação na
NATO e EFTA nos empurrasse nesse sentido.»39
Em Maio, após uma cimeira da NATO em Oslo em que a crise colonial portuguesa
foi objecto de discussões privadas entre americanos, franceses e britânicos,
Home tomou a iniciativa de se deslocar pessoalmente a Lisboa. Fê-lo com a
intenção de explicar ao primeiro-ministro português aquilo que o embaixador
Archibald Ross não fora, aparentemente, capaz de fazer: a necessidade urgente
de oferecer sinais de progresso político nas colónias africanas de Portugal,
desejavelmente no sentido da autodeterminação. Se isto fosse feito, os seus
aliados encontrar-se-iam numa posição muito mais vantajosa para exercer uma
influência moderadora junto dos afro-asiáticos ou, se isso não fosse possível,
para bloquear «as manobras antiportuguesas» que estes pudessem desenvolver40.
Home desembarcou na Portela em finais de Maio. Ao prolongar a estada até à
simbólica data de 28, permitiu que a sua visita ficasse de alguma forma
associada às celebração do movimento militar que derrubara o regime parlamentar
em 1926 (uma coincidência que a oposição trabalhista não deixou passar em
claro). Por outro lado, o facto de nas suas declarações públicas ter evitado
mencionar a autodeterminação como o único objectivo político capaz de apaziguar
o descontentamento na África, foi com certeza valorizado pelo Governo de
Lisboa. Todavia, se tivermos em mente aquelas que eram as intenções de Home
quando partiu de Londres, então o mínimo que se poderá dizer é que as
conversações com os portugueses não o levaram a parte nenhuma. Na verdade,
foram um autêntico diálogo de surdos.
No recato dos gabinetes diplomáticos, Home, um político fleumático e de
extracção aristocrática, deparou-se com o discurso endurecido e pouco maleável
de Salazar e Franco Nogueira, o seu novo ministro dos Negócios Estrangeiros.
A primeira conversa teve lugar no Palácio das Necessidades, juntando à volta de
uma mesa Home, Nogueira e respectivas equipas. Num tom «pedagógico», o
secretário de Estado britânico tentou alertar os seus interlocutores para o
facto de o nacionalismo africano ser um fenómeno demasiado poderoso para ser
ignorado e, sobretudo, esforçou-se por desdramatizar as consequências da
independência das colónias do ponto de vista dos interesses das metrópoles
europeias e do Ocidente ' na sua opinião, os portugueses tinham uma imagem
demasiado negativa dos jovens nacionalistas africanos e subestimavam o apelo
universal dos ideais e valores ocidentais. Segundo Home, era explorando as
expectativas frustradas das massas africanas que o comunismo poderia fazer a
sua penetração no continente, muitas vezes fomentando insurreições armadas
contra as potências administrantes. Havia duas maneiras de responder a esses
desafios:
«A solução militar era uma delas, mas muito difícil. Podia-se dominar
uma revolta, mas controlar um território indefinidamente pela força
das armas seria praticamente impossível. A alternativa era encorajar
o patriotismo local, por forma a que o comunismo não progredisse.
Isto pressupunha que se fizessem concessões capazes de exercer algum
apelo a nível local.»41
Sempre cuidadoso, Home acentuou que o seu Governo não esperava a realização de
qualquer plebiscito nos territórios ultramarinos portugueses, mas tão-somente
que de Lisboa surgisse um sinal claro de que reformas políticas substanciais
estavam na iminência de ser introduzidas.
Da parte de Franco Nogueira, pouca ou nenhuma abertura houve a estas sugestões.
Como tratou de explicar ao seu interlocutor, Portugal não podia pensar em
descolonizar uma vez que, ao contrário do Reino Unido ou da França, não
dispunha de meios e recursos para prolongar a sua influência económica,
política e cultural na África para lá das independências (ou seja, para
«neocolonizar»). Por outro lado, mesmo que Portugal manifestasse a intenção de
patrocinar uma evolução gradual das suas províncias no sentido da
independência, o simples anúncio dessa intenção iria quase de certeza
desencadear uma dinâmica política idêntica à que mergulhara o antigo Congo
Belga no caos42.
A audiência com Salazar foi mais curta e, lendo o seu registo, é difícil
escapar à impressão de que a reputação do ditador português deverá ter exercido
um efeito inibidor no secretário de Estado britânico. Home voltou a insistir
nos riscos inerentes ao menosprezo do nacionalismo africano e, timidamente,
tentou identificar os pontos onde Portugal estaria aberto a fazer algumas
cedências. Aceitando o pressuposto de que Lisboa manteria os seus laços
constitucionais com as províncias ultramarinas, isso daria azo a uma
participação mais activa dos africanos na governação de Angola? Mais uma vez, a
resposta portuguesa foi pouco encorajadora. Salazar reconhecia que o número de
angolanos habilitados a participar nos órgãos políticos da província era
diminuto, mas considerava que o investimento na formação de novas elites
africanas teria de ser prudente e proporcional aos recursos limitados do País.
Por fim, a uma observação de Home sobre a necessidade de demonstrar a
existência de algum progresso político nas províncias ultramarinas, e de
convencer os americanos de que isso compensaria de alguma forma o não
reconhecimento do princípio da autodeterminação, Salazar não prometeu nada de
concreto e aludiu à «ignorância da maior parte dos americanos a este género de
assuntos»43.
Num balanço da visita enviado por telegrama ao seu colega de gabinete, Edward
Heath, Home reconhecia que as suas observações pareciam ter produzido pouco
efeito.
«Ouviram as minhas sugestões educadamente e até me dizem que elas
serão objecto de uma reflexão séria; mas a atitude básica é ainda a
de que nenhum destes remédios democráticos é relevante no contexto
da filosofia africana de Portugal, e de que na realidade nós e eles
falamos línguas diferentes.»44
UM NICHO NA GUERRA FRIA
Nos meses seguintes, a política de linha dura de Salazar pareceu ser validada
pelos sucessos militares portugueses em Angola, mesmo se, em Dezembro, a queda
de Goa voltasse a lançar uma sombra sobre a capacidade do regime para resistir
às pressões a que o império se encontrava submetido. Em finais de 1962, os
defensores de uma política mais flexível em relação ao Ultramar estavam
nitidamente em perda. O afastamento de Adriano Moreira em Dezembro desse ano, e
a aprovação de uma nova Lei Orgânica do Ultramar de sentido integracionista em
1963, assinalariam a derrota desta corrente.
Uma vez abrandada a pressão internacional, o ditador parece ter acreditado na
viabilidade da resistência aos «ventos da mudança» anunciados por Macmillan.
Através de entendimentos vários, complexas manobras diplomáticas, e da
exploração da fraqueza dos seus adversários, o Portugal salazarista, a Rodésia
de Ian Smith e a África do Sul do apartheid baralharam algumas certezas que no
início dos anos 1960 existiam a respeito da inevitabilidade da derrocada do
poder branco no continente45.
Portugal encontrou o seu «nicho» em 1962
46
, em boa medida por causa das energias que o regime foi capaz de mobilizar em
termos domésticos, mas também porque desenvolvimentos na Guerra Fria acabaram
por favorecer o entrincheiramento de regimes anticomunistas que não colocassem
em perigo os desígnios estratégicos dos Estados Unidos e de outros parceiros
ocidentais. Em Washington, Salazar pôde contar com o apoio de muitos elementos
do establishmentda política externa e de segurança norte-americanos que nunca
se haviam mostrado convencidos das vantagens de uma abordagem às questões da
descolonização e da igualdade racial que pudesse retirar o tapete a aliados
cuja utilidade se media de forma bem tangível, tanto no campo estratégico (a
base dos Açores no caso português), como no económico (o importante papel dos
minérios sul-africanos)47. Mais a mais, o desencanto da nomenklatura soviética
em relação aos parcos resultados produzidos pela ofensiva de Khruchtchev no
Terceiro Mundo acabaria por retirar a África do topo das prioridades de
política externa de Moscovo, desde logo para evitar atritos desnecessários na
ainda incipiente détente com os Estados Unidos48. Finalmente, a deslocação do
foco das principais preocupações da Administração Johnson para o Sudeste
Asiático, veio reduzir ainda mais a margem de actuação dos «africanistas» nos
centros de decisão em Washington.
Novas tentativas americanas para convencer Salazar a mudar o sentido das suas
políticas coloniais, como o «mini-Plano Marshall» com que a Administração
Kennedy lhe acenou em 1963, através da missão de George Ball, não surtiram
qualquer efeito. Pela sua parte, os britânicos abandonariam qualquer veleidade
de reeditar o seu diálogo crítico com Lisboa acerca do futuro das suas
possessões ultramarinas. Sob a liderança dos trabalhistas de Harold Wilson,
Londres prosseguiria o seu espinhoso trabalho de ajustamento ao papel pós-
imperial que as políticas de Macmillan ajudaram a preparar. Absorvidos pela
questão rodesiana, e crescentemente debilitados na sua posição económica, a sua
margem para exercer qualquer espécie de pressão significativa sobre Salazar
era, bem vistas as coisas, virtualmente nula.
NOTAS
1 BIRMINGHAM, David ' The Decolonization of Africa. Londres: UCL Press, 1995,
p. 13, cit. in HYAM, Ronald ' Britain's Declining Empire. The Road to
Decolonisation 1918-1968. Cambridge: Cambridge UP, 2006, p. 242.
2 THORPE, D. R. ' Supermac. The Life of Harold Macmillan. Londres:
Chatto&Windus, 2010, p. 458.
3 Sobre esta noção churchilliana dos «três círculos» da política internacional
do Reino Unido, cf. SANDERS, David ' Losing na Empire, Finding a Role. British
Foreign Policy since 1945. Londres: Palgrave Macmillan, 1990.
4 HARGREAVES, John D. ' Decolonization in Africa. 2.ª ed. Londres: Longman,
1996, p. 172.
5 DARWIN, John ' The Empire Project. The Rise and Fall of the British World
System 1830-1970. Cambridge: Cambridge UP, 2009, pp. 612-613.
6 Cf. HOLLAND, R. F. ' European Decolonisation: An Introductory Survey.
Londres: Macmillan, 1985, p. 204.
7
HYAM, Ronald ' Britain's Declining Empire. The Road to Decolonisation 1918-
1968. Cambridge: Cambridge UP, 2006.
8 Ibidem, p. 262.
9 OVENDALE, Ritchie ' «Macmillan and the Wind of Change in Africa, 1957-1960».
In Historical Journal. Vol. 38, N.º 2, Junho de 1995, p. 471.
10 Citado em WHITE, Nicholas J. ' Decolonisation. The British Experience since
1945. Londres: Longman, 1999, p. 32.
11 OVENDALE, Ritchie ' «Macmillan and the Wind of Change in Africa, 1957-1960»,
p. 469.
12 HEMMING, Philip E. ' «Macmillan and the end of the British Empire in
Africa», in ALDOUS, Richard, e LEE, Sabine (eds.) ' Harold Macmillan and
Britain's WorLd Role. Basingstoke: Macmillan, 1996, p. 101.
13 Sobre a digressão africana de Macmillan, cf. THORPE, D. R. ' Supermac. The
Life of Harold Macmillan.
14 Para uma análise do discurso do ponto de vista das técnicas da retórica
política, cf. MYERS, Frank ' «Harold Macmillan's Winds of Change speech: a
case study in the rhetoric of policy change». In Rhetoric & Public Affairs.
Vol. 3, N.º 4, Inverno de 2000, pp. 555-575.
15 Excertos do discurso em HANHIMÄKI, Jussi M., e WESTAD, Odd Arne ' The Cold
War. A History in Documents and Eyewitness Accounts. Oxford: Oxford UP, 2004,
pp. 356-58.
16 Sobre as relações entre a Grã-Bretanha e a África do Sul, e as percepções do
apartheid no exterior, cf. HYAM, Ronald ' The Lion and the Springbok: Britain
and South Africa since the Boer War. Cambdrige: Cambridge University Press,
2003.
17 Em 1961, um referendo participado apenas por brancos transformaria a União
Sul-Africana numa república, a qual viria a abandonar a Commonwealth pouco
tempo depois.
18 IRWIN, Ryan M. ' «A Wind of Change? White redoubt and the postcolonial
moment, 1960-63». In Diplomatic History. Vol. 33, N.º 5, Novembro de 2009,
p. 909.
19 THORPE, D. R. ' Supermac. The Life of Harold Macmillan, p. 458.
20 Cf. alguns excertos dessa correspondência em MENESES, Filipe Ribeiro de '
Salazar. Uma Biografia Política. Lisboa: Dom Quixote, 2010, pp. 478-
481.
21 SILVA, António Duarte ' Invenção e Construção da Guiné-Bissau. Lisboa:
Almedina, 2010, p. 36.
22 Ibidem.
23 Sobre isto, cf. MOREIRA, Adriano ' A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de
Vésperas. Lisboa: Almedina, 2008, e PEREIRA, Rui ' «Uma visão colonial do
racismo». In Cadernos de Estudos Africanos, 9/10, 2006, pp. 131-133.
24 Sobre isto, cf. MOREIRA, Adriano ' A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de
Vésperas, e PEREIRA, Rui ' «Uma visão colonial do racismo», pp. 131-
133.
25 Sobre estes contactos, cf. JESUS, José Manuel Duarte de ' Eduardo Mondlane.
Um Homem a Abater. Coimbra: Almedina, 2010.
26 Sobre a apropriação das ideias de Freyre pelo regime, cf. CASTELO, Cláudia '
«O Modo Português de Estar no Mundo». O Luso-Tropicalismo e a Ideologia
Colonial Portuguesa (1933-1961). Porto: Afrontamento, 1998.
27 O jornal oficioso do regime, o Diário da Manhã (órgão da União Nacional)
observou um completo silêncio em termos editoriais sobre o assunto, e na curta
notícia que reservou ao discurso preferiu destacar a passagem da intervenção de
Macmillan em que este repudiava a ideia de um boicote mundial aos produtos sul-
africanos, em consequência da política racial do Governo de Pretória (DM, 4 de
Fevereiro de 1960). Por seu turno, o Diário de Notícias, na também curta
notícia publicada, anunciava em título: «Deputados conservadores insurgem-se
contra a política africana do Governo britânico, que consideram de retirada»
(DN, 4 de Fevereiro de 1960).
28 TNA (The National Archives, UK). FO 371/147 255. Despacho de Sir Charles
Stirling para o FO, 24 de Fevereiro de 1960.
29 TNA. Fo 371/155 113. Registo da conversa no Foreing Office entre a delegação
portuguesa, chefiada por Mathias, e a delegação britânica, liderada por Sir
Alec Douglas Home, 9 de Março de 1960.
30 AHD do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Telegrama da embaixada em
Londres para Lisboa, de 14 de Dezembro de 1960. A Resolução 1542 (XV) foi
aprovada com 68 votos a favor, seis contra (África do Sul, Brasil, Bélgica,
Espanha, França, Portugal) e dois abstenções.
31 ANTT. AOS/CD-19. Carta particular de Abranches Pinto a Salazar, de 22 de
Dezembro de 1960.
32 Cf. OLIVEIRA, Pedro Aires ' Os Despojos da Aliança. A Grã-Bretanha e a
Questão Colonial Portuguesa 1945-75. Lisboa: Tinta-da-China, 2007.
33 Os parágrafos seguintes reproduzem várias passagens do capítulo V de
OLIVEIRA, Pedro Aires ' Os Despojos da Aliança. A Grã-Bretanha e a Questão
Colonial Portuguesa 1945-75.
34
«Sir David Eccles in Lisbon. School celebrations». In The Times, 7 de Abril de
1961.
35
TNA. FO 371/155 438. Telegrama de Sir A. Ross para o FO (transmitindo
impressões pessoais de D. Eccles), de 10 de Abril de 1961.
36
TNA. FO 371/155 438. Telegrama de Sir A. Ross para o FO, de 11 de Abril de
1961.
37 TNA. FO 371/155 438. Telegrama do FO para Sir A. Ross, 14 de Abril de 1961,
transmitindo ao embaixador as observações de Sir Roger Stevens e Sir Evelyn
Shuckburgh, ambos subsecretários de Estado assistentes no FO.
38 TNA. FO 371/155 438. Minuta «Portuguese Policy in Africa», de Sir Evelyn
Shuckburgh, 17 de Abril de 1961.
39 TNA. FO 371/155 438. Telegrama de Sir Alec Douglas-Home a A. Ross, 20 de
Abril de 1961.
40 TNA. FO 371/160 732. Carta de Lord Home a Sir David Eccles, 24 de Maio de
1961.
41 TNA. CAB/133 298. Record of a Meeting at the Portuguese Ministry of Foreign
Affairs at 3:15 pm on Friday, May 26, 1961.
42 TNA. CAB/133 298. Record of a Meeting at the Portuguese Ministry of Foreign
Affairs at 3:15 pm on Friday, May 26, 1961.
43 TNA. CAB/133 298. Record of a Conversation between the Secretary of State
and the Portuguese Prime Minister in Lisbon on May 26, 1961.
44 TNA. PREM 11/3924. Telegrama de Sir A. Ross ao FO, transmitindo mensagem de
Home a Edward Heath, ministro sem pasta (com responsabilidades na área dos
Negócios Estrangeiros), 28 de Maio de 1961.
45 Sobre as conexões entre o Ocidente e os poderes brancos da África meridional
desde o pós-II Guerra Mundial, cf. MINTER, William ' King Solomon's Mines
Revisted: Western Interests and the Burdened History of Southern Africa. Nova
York: Basic Books, 1988. Sobre a forma com os preconceitos e as percepções
raciais continuaram a informar a maneira como uma parte significativa das
elites políticas brancas dos Estados Unidos encaravam esses poderes, cf. o
importante livro de Thomas Borstelmann ' The Cold War and the Color Line.
Cambridge (Mass.): Harvard UP, 2001.
46 Sobre esta ideia de «nicho» na Guerra Fria, cf. DARWIN, John ' «Diplomacy
and decolonization». In Journal of Imperial and Commonwealth History. Vol. 28,
N.º 3, Setembro de 2000, p. 20.
47 Sobre a «viragem» de Washington num sentido mais favorável a um acomodamento
com Portugal, ainda durante a Administração Kennedy, cf. RODRIGUES, Luís Nuno '
Salazar-Kennedy. A Crise de Uma Aliança. As Relações Luso-Americanas entre 1961
e 1963. Lisboa: Editorial Notícias, 2002.
48 Sobre este «refluxo» na relação da URSS com a África, que se prolongará,
sensivelmente, até inícios dos anos de 1970, cf. ZUBOK, Vladislav M. ' A Failed
Empire. The Soviet Union in the Cold War from Stalin to Gorbachev. Chapel Hill:
The University of North Carolina Press, 2007, em especial pp. 247-249. Cf.
também ANDREWS, Christopher, e MITROCKHIN, Vasili ' The World was Going our
Way. The KGB and the Battle for the Third World. Nova York: Basic Books, 2005,
pp. 423-449.
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