Brasil, América Latina e Estados Unidos
Brasil, América Latina e Estados Unidos
Carmen Fonseca
Investigadora no IPRI ' UNL e assistente convidada no Departamento de Estudos
Políticos da FCSH ' UNL, onde prepara uma tese de doutoramento sobre política
externa brasileira.
Jorge I. Domínguez e Rafael Fernández de Castro (eds.), Contemporary U.S.-Latin
American Relations. Cooperations or Conflict in the 21st century?
Nova York, Routledge, 2010, 252 pp.
Este livro reúne um conjunto de contributos sobre as relações dos Estados
Unidos com alguns países da América Latina, depois de cada um dos autores ter
anteriormente publicado em livro a síntese que aqui apresenta. Tendo como ponto
de partida o ano de 2000, Contemporary U.S.-Latin American Relations.
Cooperations or Conflict in the 21st century? analisa, em cada um dos
capítulos, as relações dos Estados Unidos com o México, Cuba, Argentina,
Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela. Contém ainda um capítulo que trata
as relações dos Estados Unidos com a América Central e outro as relações com os
países do Caribe.
Jorge I. Domínguez (Universidade de Harvard), um dos organizadores da obra,
abre o volume com o capítulo que caracteriza o sistema internacional desde os
anos 2000, para introduzir o contexto internacional e regional que serve de
pano de fundo ao desenvolvimento da agenda externa norte-americana e,
consequentemente, às relações com os países da América Latina. Domínguez e
Rafael Fernández de Castro (Universidade de Harvard) tratam depois a evolução
das relações com o México. No capítulo introdutório, Domínguez ressalta a
importância da ascensão da China para o crescimento das economias dos países da
região tornando-os mais «independentes no seu comportamento internacional».
Refere que durante a Administração de George W. Bush as relações sino-
americanas foram «correctas», mas a relação da China e dos Estados Unidos com
os países do Sul desenvolveu-se em proporção desigual, passando a China a
ocupar um lugar de relevo na América Latina, especialmente em termos
económicos, através das trocas comerciais. No mesmo sentido, as prioridades
internacionais norte-americanas no início dos anos 2000 não eram contundentes
com as dos países da região, fazendo com que, de uma forma geral, terminasse «a
era da coordenação Estados Unidos-América Latina que havia florescido durante
os anos 1990». O autor aponta ainda outros dois factores para este declínio,
por um lado, o fim do «consenso liberal» que caracterizou as dinâmicas
políticas da América Latina, e, por outro lado, a securitização de alguns
aspectos da política externa norte-americana. Existem, porém, factores
específicos a cada caso em concreto e que podem ser explorados em cada um dos
capítulos que compõem o livro.
Abraham F. Lowenthal, Theodore J. Piccone e Laurence Whitehead (eds.), Shifting
the Balance. Obama and the Americas
Washington DC, Brookings Institution Press, 2011, 193 pp.
A eleição de Barack Obama em 2008 significou uma alteração das relações com o
continente latino-americano, ou uma continuidade, se tivermos em conta os
últimos anos da Administração de George W. Bush em que a América Latina não
esteve nas prioridades da agenda externa norte-americana. No prefácio de
Shifting the Balance. Obama and the Americas, Maurício Cardenas (director da
Latin America Initiative, da Brookings Institution), destaca a posição de
colaboração e parceria em vez de confrontação, adoptada por Obama, apesar de
não existirem, por enquanto, resultados práticos visíveis. Todavia ressalta
também que Obama herdou uma agenda muito complexa e com alguns assuntos
sensíveis, logo, face a essa agenda, onde encaixar a relação com os países da
América Latina (uma região que no imediato não tem representado uma ameaça para
os Estados Unidos)?
É esta evolução que Lowenthal (Universidade de Southern California e Brookings
Institution), Piccone (Brookings Institution) e Whitehead (Nuffield College da
Universidade de Oxford) reúnem em Shifting the Balance. Obama and the Americas,
seleccionando alguns dos países mais relevantes ou controversos da região. O
livro começa com um texto de Abraham F. Lowenthal onde é feito um balanço da
política externa de Obama para as Américas. Theodore J. Piccone analisa a
democracia na região e Laurence Whitehead fecha este volume apresentando a
tendência e os desafios da relação dos Estados Unidos com a América Latina.
Quanto aos estudos de caso, o livro contém uma análise de Carlos Heredia e
Andrés Rozental às tentativas de estabelecimento de uma relação estratégica com
o México, seguindo-se depois a análise de João Augusto de Castro Neves e Matias
Spektor à relação de Obama com o Brasil, caracterizada pela falta de consenso
em alguns assuntos, como o clima ou o nuclear iraniano. Michael Shifter trata a
complicada relação dos Estados Unidos com a Colômbia, Jennifer McCoy a incómoda
relação com a Venezuela, e George Gray Molina explora o impasse diplomático com
a Bolívia. Daniel P. Erikson analisa o relançamento das relações com Cuba,
Kevin Casas-Zamora explora a crise hondurenha e Juan Gabriel Valdés a situação
no Haiti. São, pois, bastante diversos os casos estudados, o que reflecte as
diferentes características de cada um dos países da região.
Ficou a faltar contudo uma avaliação da relação dos Estados Unidos com a
Argentina, e mesmo com o Chile, dois outros países importantes nas dinâmicas
regionais.
Vicki Huddleston e Carlos Pascual, Learning to Salsa. New Steps in U.S.-Cuba
Relations
Washington DC, Brookings Institution Press, 2010, 245 pp.
Com um título bastante sugestivo, o livro Learning to Salsa apresenta um
conjunto de recomendações que vise facilitar a aproximação entre os Estados
Unidos e Cuba. Este volume resulta de uma iniciativa da Brookings Institution,
iniciada em 2007, com o objectivo de desenvolver uma estratégia para «pôr fim
ao falhanço» das relações entre os dois países, embora considerando que as
iniciativas para as alterações democráticas em Cuba devam vir do seu interior,
realçam também que «o povo americano e o seu governo poderiam servir como
catalisadores» para a apresentação de alternativas aos cubanos.
Nesse sentido, Vicki Huddleston (diplomata, foi co-director do projecto) e
Carlos Pascual (embaixador americano no México, foi vice-presidente e director
de política externa na Brookings Institution) dão a conhecer os seis exercícios
de simulação levados a cabo durante um ano e meio pelos consultores do
projecto, de modo a «apresentar um processo de aprendizagem dinâmico» que
fomente as relações entre os Estados Unidos e Cuba. Os dois primeiros
exercícios centram-se na política dos Estados Unidos. O primeiro nos
«constrangimentos do legado histórico», e, o segundo, na «nova estratégia para
Cuba». Por um lado, avaliaram a forma como o Conselho de Segurança Nacional
reagiria a uma eventual morte de Fidel Castro, e às suas consequências; por
outro, avaliaram as propostas que seriam apresentadas por uma nova
administração norte-americana. O terceiro exercício centra-se na compreensão da
liderança cubana. Foi proposto aos consultores para se colocarem no papel de
conselheiros de Raúl Castro e discutirem as possíveis formas implementadas para
a consolidação da sua liderança. A quarta simulação testou a sociedade civil
cubana e a aceitação do apoio externo na promoção de uma transição, e o quinto
exercício simulou a coordenação norte-americana com a comunidade internacional
para a promoção da democracia e dos direitos humanos. Por fim, o último
exercício de simulação focou-se na possibilidade de criação de um consenso na
comunidade cubana nos Estados Unidos, especialmente em Miami.
Depois de efectuados estes exercícios foi possível verificar que os Estados
Unidos não estarão aptos a lidar com a situação cubana se continuarem a
prolongar a histórica política de isolacionismo, devendo agir o mais rápido
possível para que a sua influência não diminua ainda mais. Foi possível supor
que Raúl Castro irá continuar a aumentar a sua legitimidade e a fazer crescer
as expectativas nos cidadãos, sem reduzir, contudo, a autoridade do Estado. A
participação de Cuba em organizações internacionais foi avaliada como um factor
favorável às transformações do comportamento cubano, ao colocá-lo em relação
directa com «os padrões internacionais de democracia, transparência e direitos
humanos», assim como a comunidade cubana nos Estados Unidos parece ser capaz de
se coordenar para influenciar a atitude norte-americana.
Learning to Salsa apresenta-se como uma forma original de tratar um tema que
não é novo. A situação interna cubana, a relação da comunidade internacional
com Cuba, e, mais especificamente, a posição norte-americana quanto a Cuba são
assuntos que tendem a permanecer na agenda internacional, apesar do registo de
pequenos momentos de abertura.
Riordan Roett, The New Brazil
Washington DC, Brookings Institution Press, 2010, 178 pp.
The New Brazil não nos apresenta apenas uma análise das actuais dinâmicas
políticas, institucionais, económicas e sociais do Brasil, a isso soma-se, numa
perspectiva histórica estruturada em seis capítulos, a evolução do país desde o
período colonial até ao Governo de Lula da Silva. A estes seis capítulos
históricos junta-se a introdução, o oitavo capítulo («Brazil's emergence on the
global stage»), e por fim a conclusão. Riordan Roett, professor na School of
Advanced International Studies da Universidade de Johns Hopkins, tem como
objectivo traçar a história da modernização do Brasil e compreender o caminho
percorrido pelo país, que lhe permitiu alcançar um estatuto internacional
relevante espelhado na sua definição como um mercado emergente, com a sigla
BRIC.
O segundo capítulo apresenta o background histórico do Brasil, de colónia a
Império e a República; o terceiro capítulo gira em torno da revolução de 1930,
que «marca o início de um longo e tortuoso processo de modernização e
industrialização», até ao golpe militar de 1964, que é depois desenvolvido no
capítulo seguinte juntamente com o período do regime militar. A transição para
a democracia é tratada no quinto capítulo, Riordan Roett define-a como uma
«transição incompleta», incluindo nesse período os anos entre 1985 a 1994, a
partir de quando a democracia se consolida. Roett considera que a eleição de
Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 1994 «representou um passo crucial na
história brasileira. Durante décadas os líderes políticos do Brasil estiveram
desprovidos da visão e liderança necessárias para concretizar o vasto potencial
do país».
Roett pretende passar a ideia de que o sucesso que o Brasil alcançou durante a
Administração de Lula se deve ao processo de reformas que começou com a eleição
de FHC. Ambos se dedicaram à tarefa de modernizar o país e criaram condições
para a «emergência do novo Brasil». Por um lado, as condições económicas do
Brasil, um dos últimos países a serem atingidos pela actual crise económico-
financeira. Para Roett, o sucesso do Brasil deve-se a factores externos, como
as exportações com a China, o investimento investimento directo estrangeiro,
mas também às políticas para conter a inflação e à existência de um Banco
Central autónomo. No mesmo sentido, as descobertas de reservas de petróleo e
gás natural permitem que o Brasil se defina como uma potência energética e
detenha internacionalmente uma posição de destaque nessa área, assim como a
definição do Brasil como um «BRIC» lhe proporcionou a possibilidade de
influenciar o processo decisório internacional dominado até então pelo G7. Por
outro lado, os programas de redução da pobreza iniciados com FHC e aprofundados
com Lula foram muito bem-sucedidos, e contribuíram para o crescimento de uma
classe média consumidora. Roett considera que deste modo o Brasil conseguiu
consolidar a sua estabilidade preparando-se para encarar os desafios do futuro.
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