História vintage
História vintage
Alexandra Dias Santos
Licenciada em História pela FCSH ' UNL e mestre em Comunicação, Cultura e
Tecnologias da Informação pelo ISCTE ' IUL. É actualmente doutoranda no ICS '
UL, onde desenvolve uma tese sobre a obra do escritor angolano Pepetela, a
partir de contribuições da sociologia, da história e da ciência política, bem
como dos estudos literários.
Douglas Wheelere René Pélissier
História de Angola
Lisboa, Tinta-da-China, 2009, 472 páginas
Editada pela Tinta-da-China em 2009, a História de Angola não constitui, no
sentido próprio do termo, uma novidade. Com algumas adaptações e acrescentos,
recupera um livro muito anterior, da autoria de Douglas Wheeler e René
Pélissier, intitulado Angola. Tendo sido publicado em 1971 e reeditado em 1977
(sempre em inglês), este livro encontrava-se esgotado desde os anos 1980, e em
grande medida esquecido. A ausência prolongada do mercado constitui desde logo
motivo para saudar o reaparecimento da obra, para mais porque, graças à
tradução, o texto se torna agora acessível ao público português. Mas há mais
motivos para contentamento. Tendo sido escrito na segunda metade da década de
1960, em plena Luta de Libertação Nacional (ou Guerra Colonial, conforme o
ponto de vista), poder-se-ia esperar de Angola que fosse um livro datado, capaz
de despertar interesse apenas enquanto objecto da historiografia. Em vez disso,
deparamo-nos com uma obra do seu tempo, é certo, mas ainda actual em muitos dos
conteúdos. Fundamentada numa investigação minuciosa, conduzida por um
pensamento rigoroso, escrita num estilo vigoroso, pode dizer-se de Angola '
agora História de Angola ' que em grande medida resistiu à prova do tempo.
EM TORNO DAS ORIGENS DO NACIONALISMO ANGOLANO
Do livro que deu origem a História de Angola mantém a divisão em partes
independentes entre si, acrescentando às duas antigas uma parte nova, de muito
menor dimensão. A primeira, da autoria de Douglas Wheeler, compreende seis
capítulos, dos quais os três primeiros parecem destinados a justificar a
ambição do livro a constituir uma história de Angola no sentido tradicional do
termo. Estes capítulos abarcam um vasto arco temporal e neles se incluem, entre
outros temas, referências às deslocações das primeiras populações que habitaram
o espaço angolano (pp. 32-36); descrições sucintas de alguns reinos africanos
(pp. 48-58), bem como de algumas das campanhas militares travadas pelos
portugueses contra eles (pp. 59-76); alguns dados sobre a expansão do domínio
português ao longo do século XIX (pp. 89-104) e referências às expedições
científicas e comerciais dessa época. Nestes primeiros capítulos inclui-se
ainda uma breve história do país colonizador (pp. 36-48), na qual pode ver-se
um esforço para definir aquilo que trabalhos mais recentes chamam de «mística
do Império». Esta tentativa de compreender o modo como o destino de Portugal
foi simbolicamente associado ao das colónias africanas é levada a cabo, porém,
de um modo que definiria como tendencioso ' veja-se por exemplo a crítica ao
«nacionalismo e patriotismo intensos» dos portugueses que não toma em
consideração a difusão dessa mesma ideologia noutros países europeus (pp. 41-
42).
Depois destes capítulos de índole generalista, Wheeler passa a uma abordagem
mais especializada, procurando apreender certos aspectos da emergência do
nacionalismo em Angola, com especial atenção para os sentimentos de identidade
colectiva que se desenvolveram no seio da chamada elite crioula de Luanda entre
finais de Oitocentos e princípios de Novecentos1. Vale a pena salientar o
contributo de Wheeler, que a este respeito escreveu também alguns artigos2,
para a discussão em torno da origem do nacionalismo angolano. Depois de
considerar várias publicações da imprensa angolana nas quais se expressaram
jornalistas como José Fontes Pereira e outros assimilados, Wheeler conclui:
«Desta pungente crítica ao governo português nasceu um sentimento colectivo de
nacionalismo entre a pequena intelligentsia angolana» (p. 165). As implicações
desta afirmação são desvendadas num texto posterior3, no qual Wheeler afirma
que se avolumam «as provas que sugerem que o nacionalismo angolano começou mais
como um movimento assimilado do que como um movimento africano»4. Revela então
estar, com esta asserção, a posicionar-se contra duas teses então dominantes: a
de Ronald Chilcote, para quem o nacionalismo emergente seria uma extensão de
anteriores movimentos regionais de resistência à dominação portuguesa; e a de
James Duffy, para quem o nacionalismo angolano remontaria ao Congresso Pan-
Africano de Lisboa de 1923. Saliento ' a jeito de justificação pelo modo como
estou a empolar este assunto ' que esta discussão, que havia de se polarizar em
torno de duas posições, uma defendendo a origem crioula do nacionalismo
angolano, a outra a sua origem nos movimentos de resistência regionais,
extravasou o âmbito da história e estendeu-se até à actualidade, em grande
medida devido a implicações políticas que um estudioso da situação angolana
compreenderá facilmente.
NACIONALISMOS E NACIONALISTAS EM COMPETIÇÃO (ANTES, DURANTE E DEPOIS DE 1961)
Da segunda parte de História de Angola, escrita por René Pélissier, vale a pena
salientar que antecipa um trabalho posterior do autor, no qual a análise do
nacionalismo angolano de meados do século XX será muito desenvolvida5. Já a
versão condensada com que aqui nos deparamos, se perde em pormenor, possibilita
por outro lado uma visão abrangente dos acontecimentos. Vale a pena chamar a
atenção para o oitavo capítulo, que de forma breve, mas com suficiente detalhe
e sem descurar as motivações de cada grupo de intervenientes, descreve a
sucessão de acontecimentos que tornaram 1961 um ano de importância única: a
sublevação da população da zona algodoeira da Baixa do Cassanje; os
acontecimentos de Fevereiro em Luanda, relativamente aos quais põe em dúvida
(bem, sabemo-lo agora) as reivindicações do MPLA à autoria dos ataques; a
insurreição na zona noroeste a partir de Março; a repressão levada a cabo pelos
colonos portugueses como resposta; finalmente, a recuperação militar dos
territórios ocupados pela UPA. Um reparo relativamente ao capítulo 9: se as
lutas internas da UPA//FNLA e as ameaças à liderança de Holden Roberto são
descritas com algum pormenor (pp. 290, 294-296), o mesmo não acontece
relativamente ao MPLA e à contestação sofrida por Agostinho Neto (que se
agravaria nos anos subsequentes à escrita da obra).
ANGOLA PÓS-COLONIAL ' A GUERRA INTERMINÁVEL E O QUE VEIO DEPOIS
O livro tem uma terceira parte, nova, escrita por Douglas Wheeler. Destinada a
preencher a lacuna de quase quatro décadas que separa do livro actual a
primeira edição, divide-se em dois capítulos. O primeiro compreende sobretudo
reflexões em torno das possibilidades de futuro que se perspectivavam em Angola
nos inícios da década de 1970. O segundo é porventura demasiado ambicioso no
seu âmbito, já que pretende fazer «uma breve História de Angola entre 1971 e
2008» em apenas 20 páginas. Esta verdadeira missão impossível é levada a cabo
em cinco partes, sendo as duas primeiras dedicadas ao fim da Guerra Colonial e
ao período de transição pós-Alvor. Como seria de esperar, o quadro traçado é
muito resumido, incidindo sobre o posicionamento político dos principais
intervenientes, sobretudo de Portugal, bem como sobre a formação de redes
internacionais de apoio (logístico e militar) aos movimentos armados de
libertação, que transformaria a breve trecho Angola num dos principais palcos
da Guerra Fria. Chama-se a atenção para a referência de Wheeler a uma polémica
recente entre historiadores em torno da vitória ou derrota de Portugal em
Angola (p. 356). Como bem salienta, numa advertência de ressonâncias
clausewitzianas, a vitória militar pertence à esfera da táctica, e não da
estratégia, de tal modo que as operações militares não determinam por si só o
desfecho da guerra: «o futuro de Angola seria modelado de acordo com o que
viesse a acontecer na guerra em Moçambique e na Guiné-Bissau, e depois em
Lisboa» (p. 357).
Sobre a situação no pós-independência em Angola, Wheeler mais uma vez descreve
o jogo de forças, local e internacional, bem como os desenvolvimentos,
sobretudo diplomáticos, que levaram à breve trégua de 1991-1992 (pp. 364-366).
Foca depois as eleições e o recrudescer da actividade militar que se lhes
seguiu e que marcou duramente a década de 1990 (pp. 367-370). De certa forma
neutro nestas passagens em que se move no terreno da diplomacia, Wheeler
mostra-se menos isento quando o abandona. Assim, quanto ao regime instaurado
pelo MPLA, refere que a destruição da economia angolana se deveu ao «êxodo da
maior parte da população europeia» e que, «apesar da tentativa de colmatar
essas lacunas com pessoal enviado por Cuba, pela União Soviética, pela Alemanha
de Leste, pela Polónia e por outros estados comunistas, a economia continuava
num estado desastroso» (p. 362, itálicos meus). A culpabilização dos antigos
colonizadores é acompanhada de silêncio relativamente à tomada do aparelho de
Estado pelo partido e à gestão neopatrimonialista dos cargos públicos. Sobre as
desastrosas medidas económicas então implementadas e o seu impacto na vida da
população refere abstractamente «políticas austeras do governo marxista-
leninista de Luanda» (p. 365). Quanto à situação social e política, o episódio
em torno de Nito Alves, que para outros analistas da situação angolana
constituiu um marco fundamental na consolidação do regime autoritário do
partido-Estado, consistiu para Wheeler numa «breve crise», sendo equiparado à
«crise» (qual crise?) provocada pela morte de Agostinho Neto. Igual silêncio
sobre o autoritarismo da UNITA, descrita como um movimento de «resistência
rural» (p. 363).
Esta descrição da situação política angolana dos últimos trinta anos que não
inclui palavras como «autoritário», «clientelista», «(neo)patrimonialista»,
«privilégio» ou «corrupção» termina com referências a «mudanças promissoras,
ainda que incipientes, na frente política», decorrentes de um «esforço
desenvolvido para introduzir a política multipartidária no país» (p. 375), o
qual se teria concretizado nas eleições parlamentares de 2008. Como modo de
equilibrar tanto wishful thinking recomendo a leitura de outro Angola, este
mais recente, editado por Patrick Chabal e Nuno Vidal6.
O livro que acaba de se apresentar não constituirá a «história de referência de
Angola» que a contracapa anuncia. Diria até que essa ambição, plasmada em
alguns capítulos mais generalistas, dá azo aos momentos menos felizes da
narrativa. Isso não impede, porém, que História de Angola constitua uma
referência importante no que respeita a dois momentos marcantes do nacionalismo
angolano, um situado na viragem do século XIX para o século XX, o outro em
torno da data de 1961. Mais ainda, este livro apresenta-se como um sólido ponto
de partida para quem quiser, a partir dele e tomando como referência a
excelente bibliografia recomendada, aprofundar os seus conhecimentos sobre a
história de Angola.
NOTAS
1
A este respeito vale a pena assinalar a tendência de Wheeler para tomar as
opiniões expressas pelos jornalistas da época como representativas da posição
dos assimilados, assumindo-os como um grupo. Ao tomar em consideração um
trabalho (posterior) de Jill Dias, percebe-se ser necessária alguma cautela
neste extrapolamento. A título de exemplo, Wheeler afirma que «os assimilados
sofisticados de Luanda não tinham qualquer influência sobre os patrões
portugueses nas fazendas e nas fazendas do interior os seus protestos eram
largamente ignorados» (p. 169). Segundo o conhecido artigo de Dias ' «Uma
questão de identidade: respostas intelectuais às transformações económicas no
seio da elite crioula da Angola portuguesa entre 1870 e 1930», de 1984 ' muitos
desses patrões seriam eles próprios assimilados, considerando a autora que este
grupo foi dos mais relutantes a pôr fim às práticas de trabalho serviçal.
2
Por ordem cronológica esses textos são: «Nineteenth century African protest in
Angola: Prince Nicolas of Kongo (1830?-1860)» (In African Historical Studies.
Vol. I, N.o 1, 1968, pp. 40-59; «Angola is whose house? Early stirrings of
Angolan nationalism and protest, 1822-1910» (InAfrican Historical Studies. Vol.
2, N.º 1, 1969, pp. 1-22; «An early Angolan protest: the radical journalism of
José de Fontes Pereira (1823-1891)» (In Protest and Power in Black Africa.
Coord. R. Rotberg e A. Mazrui. Oxford, 1970, pp. 854-874); «Origins of African
Nationalism in Angola: Assimilado protest writings, 1859-1929» (In Protest and
Resistance in Angola and Brazil. Ed. Ronald H. Chilcote. Berkeley: University
of California Press, 1972, pp. 67-87).
3
O artigo em questão é «Origins of African nationalism in Angola: Assimilado
protest writings, 1859-1929», pp. 67-87.
4
Ibidem, p. 70.
5
Refiro-me a La Colonie du Minotaure. Nationalisme et Révoltes en Angola. 1926-
1961, que seria publicado por Pélissier em 1977, sob a chancela das Éditions
Pélissier.
6
Refiro-me ao livro publicado pela Columbia University Press em 2008, Angola.
The Weight of History.
Rua Dona Estefânia, 195, 5 D
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Portugal
ipri@ipri.pt