Portugal e as relações Brasil-União Europeia(1986-2007)
Este artigo analisará em que medida a adesão de Portugal à Comunidade
EconómicaEuropeia (CEE) concorreu para a aproximação entre o Brasil e a Europa
e como conferiu maior densidade política e económica às relações luso-
brasileiras. Dividir-se-á em três partes correspondentes a três períodos
distintos. A primeira, que compreende a segunda metade da década de 1980, foi
marcada pela expectativa de que a adesão portuguesa às Comunidades poderia
influenciar positivamente o diálogo entre Bruxelas e Brasília, e pela ausência
de uma estratégia eficaz que consubstanciasse este propósito. A segunda, que
abrange os anos 1990, diz respeito ao período em que se estabeleceram novos
vínculos institucionais que permitiram uma relação mais complexa entre
Portugal, o Brasil e a Europa. A terceira, corresponde à intensificação das
relações entre o Brasil e a União Europeia (UE), resultou na realização da
primeira cimeira bilateral e na celebração da parceria estratégica em 2007.
EXPECTATIVAS E CONDICIONALISMOS
A adesão de Portugal e da Espanha à CEE, em 1986, suscitou expectativas de que
poderia influenciar positivamente o diálogo entre a CEE e a América Latina. As
relações estreitas de Lisboa e Madrid com o subcontinente constituiriam uma
mais-valia, no momento em que Bruxelas começava a delinear uma política
comunitária para a região. Esta percepção advinha não só dos sucessivos acordos
celebrados com vários países latino-americanos nos anos anteriores1, como do
comunicado emitido pela Comissão Europeia ' meses após a adesão portuguesa e
espanhola ' recomendando a reactivação e consolidação dos laços com a América
Latina2.
As relações entre Brasília e Bruxelas foram marcadas por avanços e recuos no
princípio da década de 1980. Por um lado, existia uma conjuntura económica e
legal adversa aos interesses brasileiros. Em 1981 foram suspensas as
preferências comerciais concedidas ao Brasil e nos anos seguintes sucederam-se
as acusações mútuas de proteccionismo e de concorrência desleal3. Por outro, a
CEE foi sensível às oportunidades que a democratização brasileira proporcionava
ao relacionamento bilateral, nomeadamente o interesse renovado de Brasília em
dinamizar as relações com as Comunidades. Neste sentido, Bruxelas empenhou-se
na convergência política e na cooperação com o Brasil ' especialmente no sector
das telecomunicações e das pequenas empresas ' conferindo-lhe um ritmo
assinalável apesar dos diferendos económicos existentes4.
A entrada de Portugal na CEE foi imediatamente percepcionada por Lisboa e por
Brasília como uma oportunidade quer ao nível bilateral ' conferindo densidade
política e económica aos vínculos comuns ', quer multilateral ' agregando valor
às respectivas políticas externas. A ideia de que o Portugal comunitário
poderia actuar como um elo entre a Europa e o Brasil foi rapidamente
incorporada pela retórica diplomática dos dois países e manter-se-ia presente,
ressurgindo com as nuances que o tempo impunha. A expectativa, como manifestou
o então Presidente do Brasil, José Sarney, durante a sua visita a Lisboa em
1986, era a de que «Portugal nos abra mais uma janela de entendimento e
cooperação com a Europa»5. Naquele momento, esta aproximação era concebida,
sobretudo, através de parcerias económicas luso-brasileiras e da eventual
influência portuguesa em Bruxelas a favor de Brasília6.
Contudo, a adesão de Portugal à CEE não proporcionava per si o incremento das
relações económicas bilaterais, nomeadamente os anunciados investimentos
conjuntos tendo em vista o mercado europeu. Em primeiro lugar, as razões do seu
baixo perfil mantinham-se, e rapidamente a expectativa de que a integração
europeia traria maior substância às relações luso-brasileiras transformou-se
numa promessa por cumprir. Em segundo lugar, em meados da década de 1980 o
Governo brasileiro enfrentava uma grave crise económica e financeira que
condicionava os investimentos internos e externos o que limitou o êxito dos
acordos celebrados com a CEE. Apesar de as Comunidades serem o principal
parceiro económico do Brasil, as trocas bilaterais eram demasiado assimétricas
a favor da Europa e concentravam-se em poucos países-membros7. Ainda que a
balança comercial com Portugal fosse positiva, para o Brasil, em valores
globais, era pouco expressiva8.
Ao contrário do que inicialmente se esperava, a adesão de Lisboa e de Madrid à
Comunidade agravou o intercâmbio económico entre o Brasil e a CEE ao invés de o
fomentar. Por um lado, as anunciadas transferências de capitais e de tecnologia
assim como a criação de empresas mistas não tiveram um efeito apreciável. Por
outro, o ingresso de novos membros nas Comunidades levou ao alargamento da
Convenção de Lomé afectando as exportações brasileiras de produtos
manufacturados (têxteis e siderúrgicos) e agrícolas (açúcar, carne, café e
cacau) destinados à Europa9.
Para o Governo brasileiro, Portugal poderia ser um aliado importante na Europa,
mas não constituía o único e tão-pouco o principal vínculo político e económico
com a CEE. A política externa brasileira para o continente europeu oscilava
entre a aposta nas relações bilaterais, com os parceiros mais promissores, e a
ênfase no diálogo multilateral com a CEE, com a qual as relações económicas nem
sempre eram fáceis. Em ambos os casos não era claro como os estreitos vínculos
com Lisboa poderiam constituir uma mais-valia para o Brasil. Não obstante as
palavras do então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, de que a adesão à CEE
teria «inefáveis reflexos políticos» para «os países amigos» e de que os
investidores brasileiros deveriam olhar para Portugal como um mercado com «mais
de 300 milhões de consumidores», faltava à diplomacia portuguesa uma estratégia
eficaz para as relações com o Brasil, que fosse capaz de oferecer vantagens
comparativas no relacionamento entre Brasília e Bruxelas10.
Apesar de não ser evidente em que medida a pertença de Portugal à CEE
contribuiu no imediato para as relações entre o Brasil e a Europa, parece certo
que Lisboa trouxe uma nova sensibilidade quanto às questões relacionadas com o
Brasil. Pelo menos, era este o intuito das autoridades portuguesas, que por
várias vezes manifestaram junto do Governo brasileiro que este poderia contar
com o seu apoio em Bruxelas. Um exemplo esclarecedor deste empenho foi dado
pelo então Presidente Mário Soares que durante a sua visita ao Brasil (1987)
ofereceu-se como «advogado» dos interesses brasileiros na comunidade
internacional, particularmente junto da CEE e dos Estados Unidos11. Segundo
Soares, Portugal actuaria no interior das Comunidades como um defensor da
«solidariedade irrecusável, que é devida aos países que ainda se debatem com
graves problemas de subdesenvolvimento, de assimetrias sociais e regionais, de
dívida externa»12. Dispor de contactos privilegiados com o Brasil e ser capaz
de projectá-los na Europa, conferiria maior protagonismo a Lisboa na CEE e
concorria para conjugar os desígnios nacionais com as prioridades europeias. A
partir de 1986 esta seria uma das linhas de força da diplomacia portuguesa. Por
sua vez, ainda que Portugal não fosse um dos actores com maior capacidade de
decisão na CEE, o interesse renovado de Brasília pelas relações com Lisboa
atesta que a adesão portuguesa era ao menos vista como uma oportunidade a
explorar.
A AFIRMAÇÃO DOS VÍNCULOS INSTITUCIONAIS
Na transição da década de 1980 para a de 1990 o paradigma neoliberal substituiu
as políticas desenvolvimentistas na maior parte da América Latina13. No caso
brasileiro, teve início um período de liberalização da economia, de reformas
estruturais do Estado, e de reajuste da agenda diplomática à volta de três
eixos: integração regional; restabelecimento da credibilidade internacional do
país; e abertura da economia. Apesar de atravessar um período de elevada
conflitualidade política e de grandes incertezas, estas directrizes foram
razoavelmente cumpridas e concorreram a curto prazo para a revisão do estatuto
internacional do país.
O ano de 1991 foi marcado pelo estabelecimento de novos vínculos institucionais
que permitiriam uma relação mais complexa entre a Europa e o Brasil. Em
primeiro lugar, a criação do Mercosul (Março de 1991) proporcionou um novo
canal de diálogo entre Bruxelas e Brasília ' agora no âmbito de duas
organizações multilaterais ' e conferiu maior poder de barganha à diplomacia
brasileira. Em segundo, a realização da I Cimeira Ibero-Americana (Julho de
1991) confirmou a prioridade atribuída por Lisboa e Madrid às relações com a
América Latina e à cooperação inter-regional. Em terceiro, a assinatura do
Acordo-Quadro de Cooperação entre Portugal e o Brasil (Maio de 1991) instituiu
as cimeiras luso-brasileiras e definiu como uma das prioridades a promoção da
relação entre a CE e o Grupo do Rio14.
O Mercosul era o interlocutor colectivo que as Comunidades há muito desejavam
no seu relacionamento com a América do Sul e por isso apoiaram a sua
constituição desde o princípio15. A presidência portuguesa do Conselho Europeu
(1992) interpretou esta prioridade ao promover a primeira reunião entre os
ministros dos Negócios Estrangeiros do Mercosul e da CE e ao assinar os novos
acordos-quadro com o Paraguai e o Brasil16. Como afirma o antigo chanceler
brasileiro, Celso Lafer, o apoio de Lisboa fora determinante para a pronta
celebração do acordo entre Brasília e Bruxelas17. Uma das suas características
inovadoras era a inclusão da cláusula democrática ' que condicionava a parceria
ao respeito pelos princípios pluralistas ' e da cláusula evolutiva ' que
permitia ampliá-lo parcialmente sem ser preciso renegociá-lo na íntegra18. Para
um país cuja transição para a democracia era recente e que atravessava uma
grave crise política e económica, o acordo poderia constituir um estímulo e uma
prova de confiança da CE nas instituições brasileiras.
O êxito do Plano Real e a conseguinte estabilização da economia brasileira em
meados da década de 1990 favoreceu um fluxo de investimentos europeus sem
precedentes para o país. Em 1994 o Governo brasileiro assinou com o Banco
Europeu de Investimentos (BEI) um acordo que viria a concorrer para transformar
o Brasil no principal destino dos investimentos directos da UE na América
Latina e que contribuiria para a progressiva horizontalização das relações
bilaterais19. Esta aproximação política e económica entre Brasília e Bruxelas
terá contribuído para impulsionar a assinatura do Acordo-Quadro Inter-regional
de Cooperação entre a UE e o Mercosul20 (assinado em 1995 e em vigor desde
1999) cujo propósito era preparar uma futura associação entre os dois blocos, o
que contrapunha a proposta norte-americana de criação da Área de Livre Comércio
das Américas (ALCA)21.
A intensificação da relação entre a UE e o Brasil foi acompanhada por Portugal.
No plano económico, ocorreu um aumento exponencial dos investimentos
portugueses no Brasil a partir de 1996, impulsionados por uma conjuntura
favorável e por uma acção assertiva do Executivo. Pela primeira vez o fluxo da
balança comercial inverteu-se, posicionando Portugal como um dos principais
investidores estrangeiros no Brasil22. Tratou-se de um momento de ruptura em
que a relação bilateral deixou de estar assente exclusivamente nos laços
históricos e culturais e passou a ser pautada por uma estratégia económica
eficaz. No domínio político, o Governo português apoiou a realização de uma
Cimeira União Europeia-América Latina23 ' que veio a ocorrer pela primeira vez
em 199924 ' e secundou as objecções brasileiras quanto à ALCA. A posição
portuguesa quanto a este assunto foi claramente expressa pelo então primeiro-
ministro, António Guterres, durante a sua visita ao Brasil em 1997. Para
Guterres, Lisboa e Brasília deveriam «combater em conjunto o tropismo nortista
da União Europeia e a dissolução do Mercosul no seio de um continente americano
com um único pólo»25. O reforço do bloco sul-americano assegurava os interesses
europeus no subcontinente e o protagonismo regional do Brasil, o que ia ao
encontro das prioridades portuguesas. Mais uma vez, Lisboa conciliava os seus
interesses com os de Brasília e os de Bruxelas.
Esta consonância de perspectivas entre as três capitais demonstra como os
mecanismos institucionais estabelecidos ao longo da década de 1990 permitiram
construir convergências. Quanto a Portugal e ao Brasil, as cimeiras luso-
brasileiras afirmaram-se como um fórum de concertação no que diz respeito às
relações entre a UE e o Mercosul e à cooperação entre Brasília e Bruxelas26. A
maior densidade política e económica dos vínculos bilaterais conferiu-lhes
complexidade. Ao contrário dos anos 1980, em que Portugal era visto como um elo
entre o Brasil e a CEE, a partir da década de 1990 tanto Lisboa quanto Brasília
procuram actuar como interlocutores entre a UE e o Mercosul. Prevalece a ideia
de que os dois países teriam a ganhar ' no plano bilateral e multilateral ' se
fossem capazes de influenciar a definição das regras de relacionamento entre os
blocos em que se inseriam27.
A CONCRETIZAÇÃO DA APROXIMAÇÃO
Enquanto as negociações para a associação entre o Mercosul e a UE chegavam a um
impasse, em 2004, Bruxelas e Brasília celebravam o Acordo de Cooperação
Científica e Tecnológica cujos termos confirmavam a diagonalização das suas
relações28. A aproximação bilateral acelerar-se-ia nos anos seguintes
evidenciando a importância crescente do Brasil no sistema internacional. Com
uma economia próspera e uma política externa ambiciosa, o Governo brasileiro
procurava afirmar-se nos principais fóruns mundiais enquanto líder regional e
actor global29.
Que outro país poderia actuar como parceiro regional da UE, sendo capaz de
promover a estabilidade política e económica no seu entorno e de influenciar
favoravelmente as relações com o Mercosul? O Brasil posiciona-se como um
interlocutor fiável, com o qual a UE partilha valores e percepções políticas,
com o qual mantém relações económicas intensas e interdependentes, com o qual
celebrou sucessivas gerações de acordos, e que almeja o protagonismo que
Bruxelas está disposta a reconhecer. Por sua vez, a UE é o principal parceiro
comercial do Brasil e um aliado importante para a sua afirmação enquanto actor
global. Na impossibilidade de superar os contenciosos existentes no quadro
multilateral Mercosul-UE, Brasília vê no relacionamento directo com Bruxelas
uma oportunidade de fazer avançar a sua agenda diplomática para a Europa.
É neste contexto que se realizou em Lisboa, em Julho de 2007, a I Cimeira União
Europeia-Brasil que resultou na parceria estratégica. A opção da Comissão
Europeia pela parceria estratégica ' até então só celebrada com os Estados
Unidos, com a Rússia, com o Japão, com a China, com o Canadá, com a África do
Sul e com a Índia ' e não por um acordo de associação ou de cooperação, é
significativo do modo como o Brasil é percepcionado em Bruxelas e da
progressiva horizontalização desta relação30.
A parceria estratégica previa um conjunto de iniciativas de âmbito
multilateral, regional e bilateral, e abrangia um espectro alargado de
sectores, revelando a ambição europeia e brasileira em desempenhar um papel
mais activo na governação mundial. As áreas prioritárias de acção incluíam: o
reforço do multilateralismo; a reforma do sistema financeiro internacional; a
gestão dos recursos naturais e a questão ambiental; a implementação dos
Objectivos de Desenvolvimento do Milénio; a dinamização dos vínculos económicos
e culturais; e o aprofundamento da cooperação inter-regional tendo em vista a
conclusão do acordo comercial UE-Mercosul31.
Não terá sido por acaso que a concretização da parceria estratégica ocorreu
durante a presidência portuguesa da UE. Há muito que Lisboa definira a
aproximação entre a Europa e o Brasil como uma prioridade da sua acção externa.
Para a diplomacia portuguesa, o protagonismo internacional alcançado pelo
Brasil e o impasse nas negociações UE-Mercosul impunham a revisão das
prioridades europeias no subcontinente que deveriam centrar-se na parceria com
Brasília. A opinião do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, era a de
que «na relação entre a UE e a América Latina fazia falta uma trave mestra, um
pilar, e esse pilar só poderia ser o Brasil»32. A ideia de que as boas relações
com o Governo brasileiro constituíam a chave para relançar as conversações
entre os dois blocos regionais era partilhada por Bruxelas, como demonstram as
palavras da comissária europeia para as Relações Externas, Benita Ferrero-
Waldner: «Estou convencida de que ao activar o diálogo motivaremos o Brasil a
avançar no sentido de uma maior integração regional no Mercosul, encorajando-
o a mostrar maior abertura nas nossas negociações.»33
A presidência portuguesa da UE empenhou-se em convencer os demais membros da
União de que a parceria estratégica com o Brasil conferiria «profundidade e
coerência» à política externa europeia34. Em primeiro lugar, asseguraria
relações privilegiadas e complementaria o conjunto de parcerias já celebrado
com outras potências emergentes. Em segundo, concorreria para a defesa dos
interesses europeus na América Latina num momento em que o equilíbrio regional
era incerto. Esta aproximação demonstrava ser tanto mais pertinente se
considerarmos que a visão das elites brasileiras sobre o lugar do país e da UE
no sistema internacional estava a mudar. Passaram a ver-se como actores globais
e a terem uma percepção menos convicta da Europa enquanto um dos pólos de
influência mundial. Por sua vez, para que o Itamaraty se envolvesse na
formulação da parceria estratégica, foi preciso assegurar que a proposta
apresentada pela presidência portuguesa contava com o apoio inequívoco da UE e
que iria ao encontro das aspirações brasileiras. Isto é, permitiria estreitar
os vínculos políticos com a Europa, principal parceiro comercial do Brasil e
apoio indispensável para a institucionalização do seu estatuto de potência
mundial.
A realização da primeira Cimeira UE-Brasil, com a celebração da parceria
estratégica, aprofundou a identificação entre a política externa portuguesa e a
europeia. Ao explorar os pontos de convergência existentes entre as duas
diplomacias, Lisboa inscreveu como metas da presidência portuguesa da UE três
prioridades da política externa nacional: o aprofundamento da relação Bruxelas-
Brasília; a aprovação do Tratado Europeu; e a organização da Cimeira UE-África.
Ao conciliar a agenda diplomática portuguesa com a europeia, Portugal
amplificava a sua capacidade de influência internacional e participava
activamente na elaboração da política externa da UE. O êxito da actuação
portuguesa no que diz respeito à aproximação entre a UE e o Brasil é explicado
pelo primeiro-ministro José Sócrates: «provavelmente nenhum país tinha mais
sensibilidade, estava em melhores condições de perceber que era com o Brasil
que deveria estabelecer uma parceria estratégica que não fosse Portugal.»
Afinal, terá sido «por pressão portuguesa, por sugestão portuguesa, por
insistência portuguesa que esta cimeira se realizou»35.
A parceria estratégica foi o culminar de um longo processo de aproximação entre
a UE e o Brasil, no qual Portugal se envolveu desde a sua adesão às Comunidades
em 1986. Ainda que tenha decorrido de uma decisão conjunta dos membros da União
o empenho de Lisboa na sua concretização é assinalável. No plano bilateral,
Portugal soube interpretar e ajustar a proposta de parceria às aspirações
brasileiras. No plano multilateral, contornou reticências e assegurou o apoio
dos líderes europeus. Igualmente importante terá sido a actuação da Comissão
Europeia que atribuiu especial atenção ao Brasil.
CONCLUSÃO
Ao analisar o papel de Portugal na relação entre o Brasil e a UE, constata-se
que houve um empenho contínuo em aproximar as duas partes. Em primeiro lugar, a
adesão de Portugal à CEE trouxe uma nova sensibilidade, contribuindo para a
relevância do Brasil na agenda europeia. Em segundo lugar, a diplomacia
portuguesa envolveu-se na formulação e no aprofundamento de vínculos
institucionais com o Brasil ' bilaterais e multilaterais ' que concorreram para
estreitar as relações entre Brasília e Bruxelas e entre o Mercosul e a UE. Em
terceiro lugar, Lisboa dispôs dos mecanismos de influência e das oportunidades
que estiveram ao seu alcance para proporcionar um ambiente favorável ao diálogo
entre a Europa e o Brasil, como ficou evidente durante as presidências
portuguesas da UE.
A aproximação do Brasil à Europa resulta da sua crescente importância
internacional e das relações intensas que tem desenvolvido com o continente.
Apesar de Portugal não ser um dos membros da UE com maior projecção política e
tão-pouco com o qual o Brasil mantém os vínculos económicos mais expressivos,
foi seguramente um dos países europeus que mais se empenhou no relacionamento
entre Brasília e Bruxelas. Fê-lo, pois assim impunha a sua dupla inserção
europeia e atlântica. Como certa vez observou o antigo embaixador de Portugal
em Brasília, Francisco Seixas da Costa: «embora o Brasil tenha as portas
abertas de toda a Europa, Portugal é na Europa o país mais abertamente
preocupado com o Brasil.»36