Os limites da hegemonia na ordem global
Os limites da hegemonia na ordem global
Sandra Fernandes
Docente na Universidade do Minho na área de Relações Internacionais e Ciência
Política. O seu trabalho científico foi agraciado com o Prémio Jacques Delors
2005 e a sua obra Europa (In)segura. União Europeia, Rússia, Aliança Atlântica:
A Institucionalização de Uma Relação Estratégicafoi publicada em 2006 (Editora
Principia). Colaborou com o Centre for European Policy Studies (CEPS), em
Bruxelas, e é autora de publicações versando sobre a segurança europeia, a
União Europeia e a Rússia.
Didier Chaudet, Florent Parmentier e Benoit Pelopidas. When Empire Meets
Nationalism: Power Politics in the US and Russia,Aldershot, Ashgate, 2009, 216
páginas
Os autores do livro em recensão levantam, de forma renovada, uma questão
fundadora nas abordagens às relações internacionais, i.e., a análise do
comportamento dos estados explicada pela procura de poder. No entanto, a noção
de «poder» tem evoluído e tem sido revisitada pelos grandes paradigmas da área,
em reacção à dominância do postulado realista nas teorias das relações
internacionais. O conceito suscita reformulações que derivam principalmente da
dificuldade inerente à sua definição e das transformações das formas, e dos
exercícios, de poder. Quais são os elementos constitutivos de poder? Existe uma
hierarquia de factores de poder? Como medir a capacidade de um actor em função
dos seus recursos de poder? A obra When Empire Meets Nationalism: Power
Politics in the US and Russiaatende estas questões fundamentais de uma maneira
original.
Partindo de uma análise da política externa das duas antigas superpotências da
Guerra Fria, os autores questionam os desideratos imperialistas dos Estados
Unidos e da Federação Russa. Um dos principais contributos do livro reside na
análise simultânea de dois elementos que, habitualmente, são abordados
separadamente ou pouco interligados, i.e., os fundamentos ideológicos e as
orientações estratégicas das políticas externas. Segundo os autores, «em ambos
os casos, o que deve ser chamado de Império reside no coração do intelectual e
dos edifícios estratégicos. É precisamente esta convergência e interesse
renovado por uma noção fora de moda que escolhemos analisar» (p. 3). Partindo
do pressuposto de que tanto Washington como Moscovo têm inclinação para formar
impérios, os autores analisam as lógicas da sua projecção externa.
No pensamento clássico acerca das relações internacionais, o expoente máximo da
procura de poder é explicado pelo conceito de «hegemonia» e de «imperialismo».
Se, por um lado, a hegemonia refere-se à posição dominante de um Estado no
sistema internacional ou à prossecução desse fim (estatuto de grande potência),
por outro, características mais complexas subjazem à noção de império. A parte
II da obra procura fornecer, detalhadamente, uma definição de «império» e de
«nacionalismo». Tal como o título do livro em recensão sugere, a tese central
da obra reside na seguinte ideia: o imperialismo cruza-se com o nacionalismo '
«Empire Meets Nationalism». Os autores explicam como imperialismo e
nacionalismo estão, em conjunto, na base das políticas externas russa e norte-
americana, com lógicas diferenciadas para cada um dos casos. Eles distinguem o
«nacionalismo pseudo-imperial» do «nacionalismo hegemónico», os quais
representam duas categorias criadas para definir e comparar as políticas
externas dos Estados Unidos e da Rússia, as quais são sintetizadas da seguinte
maneira:
«ambos lutaram por uma dinâmica histórica de expansão. Enquanto que o primeiro
actua como uma potência transformativa em que a fertilidade histórica é tão
aberta como o seu horizonte, e não coloca limites prévios a essa expansão; o
segundo desenvolve uma política de expansão limitada a uma zona predefinida.
Enquanto que o primeiro ultrapassa a inspiração imperial que animou isso
através da negligência do outro e num fechamento em si próprio que tira todo o
significado da expansão territorial; o segundo nunca o faz. O seu processo vai
para um fim desde que nasceu e a vocação de poder é transformar-se numa força
de status quoassim que as suas ambições sejam alcançadas» (pp. 80-81).
Os autores categorizam, assim, a diferença entre o imperialismo norte-americano
e russo. Nenhum dos dois projectos é verdadeiramente imperial e são, por
natureza, distintos. Enquanto o imperialismo americano procura difundir um
modelo de sociedade com base numa crença nacional acerca da validade desse
modelo específico, o imperialismo russo não contém esse desiderato de
transformação política e social. Este último procura a expansão de poder, numa
base territorial. Ele não contém o universalismo norte-americano mas, pelo
contrário, a ideia de controlo territorial.
Consideramos que, embora a parte I do livro esteja bem fundamentada e
documentada e contribua significativamente para o estudo proposto, as
«genealogias intelectuais» dos dois pensamentos imperialistas já foram alvo de
literatura abundante. Os «neoconservadores» estado-unidenses e os «neo-
eurasianistas» russos promovem uma visão imperialista do mundo sui generis. As
«genealogias intelectuais» são explicadas pelos autores em detalhe, levando a
uma clara diferenciação dos quadros conceptuais contemporâneos. O
neoconservadorismo vê o império «como a chave para a ordem mundial» (p. 38),
enquanto o neo-eurasianismo mistura a ideia de império com a necessidade de
afirmar a nacionalidade e uma civilização peculiar para além das fronteiras
russas. A segunda parte do livro complementa esta análise, explorando novas
abordagens teóricas para a noção de «império». Encontramos, no capítulo três, a
definição de «império» proposta pelos autores:
«o império é a contínua actualização por parte de uma comunidade política da
narrativa do apelo da sua história: tal comunidade comporta a dificuldade de
uma expansão indefinida da sua dominação num território crescente ligado a todo
o mundo, através do qual impõe paz e oferece-se para reunir os seus projectos
de transformação do mundo» (p. 78).
Com base nesta definição, os autores questionam até que ponto ela se aplica às
abordagens das duas potências ao imperialismo. Consideramos que é nessa parte
do estudo que reside outra das mais-valias da obra porque é analisada a maneira
através da qual as ideias de império e de nacionalismo influenciam, na prática,
as políticas externas (parte III).
A suspeita de vocação imperial por parte de Washington e de Moscovo não é uma
hipótese nova e é regularmente utilizada como variável explicativa das escolhas
externas dos dois países. No entanto, os autores oferecem uma perspectiva
minuciosa acerca dessa vocação e questionam não só os seus fundamentos
intelectuais mas também a sua operacionalização. Com essa análise em duas
vertentes do imperialismo nos dois casos, os autores alcançam comparações e
conclusões que permitem ultrapassar a visão demasiadamente simplista daquilo
que é «imperialismo» na actualidade. Em última análise, a obra demonstra que
tanto os Estados Unidos como a Rússia não conseguem projectar verdadeiros
objectivos imperialistas, conforme explicamos abaixo.
A análise dos autores vai para além da questão de saber se a Rússia quer
restaurar um império e se os Estados Unidos procuram manter o seu império. Os
autores analisam como funcionam as políticas externas russas e norte-americanas
e se são, de facto, de tipo imperialista. Desta maneira, o livro põe em
confronto os discursos e a realidade. Os casos analisados incluem o islão, a
Turquia e a Ásia Central e, por fim, o Médio Oriente. Cada categoria é
subdividida por países, sendo que a análise das abordagens russas e americanas
ao mundo islâmico revela a base ideológica que sustenta a política externa de
cada actor em relação a Ancara e às capitais da Ásia Central e do Médio
Oriente. Essa base é resumida da forma seguinte: «enquanto que o
neoconservadorismo desenvolve uma atitude suspeita face ao Islão, o outro atrai
os neo-eurasianistas que consideram o Islão como um aliado no seu projecto para
a libertação» (p. 120). Enquanto o Kremlin encara o wahhabismo como uma forma
de extremismo e uma espécie de ponta de lança anglo-saxónica, o islão
fundamentalista do Irão é considerado um trunfo. No caso russo, a procura de
alianças no «mundo islâmico», contra a dominação americana e contra um modelo
de globalização, é diferenciada quando se trata do espaço pós-soviético porque
Moscovo desenvolve aí uma política hegemónica.
A análise da Rússia enquanto potência de status quono espaço pós-soviético tem
sido conduzida noutros contextos. No entanto, a diferenciação entre os
interesses russos no espaço pós-soviético e no espaço global é colocada, nesta
obra, numa perspectiva nova que explica o comportamento do Kremlin, o qual
conheceu transformações significativas desde o segundo mandato do Presidente
Putin. Os dois casos mais visíveis da maior assertividade de Moscovo encontram-
se, porventura, nas crises energéticas desde 2006 e na guerra russo-georgiana
do Verão de 2008. A obra em recensão contribui para explicar a maior afirmação
de interesses «especiais»
1
russos nas suas fronteiras, particularmente a Sul. Por exemplo, o estudo de
caso proposto acerca da Turquia e da Ásia Central ilustra «um desejo hegemónico
de defender o seu próprio território» (p. 155). O método comparativo valorizado
ao longo do livro é também visível nesse caso: «o movimento americano espera
manter a sua supremacia regional, enquanto que o movimento russo tenta liderar
uma política de alianças para alterar o status quoque hoje é favorável aos
atlanticistas» (p. 155). A compreensão dos desafios colocados pela competição
de vários poderes pelo espaço eurasiático é, ainda hoje, uma das questões
fundamentais para a estabilidade global. Do conflito afegão à extracção de
recursos naturais, russos e americanos projectam os seus interesses com lógicas
próprias num ambiente complexo.
O estudo das projecções ideológicas e geoestratégicas em relação ao Médio
Oriente (Afeganistão, Iraque, Arábia Saudita e Irão) ilustra também as
diferenças entre Moscovo e Washington. O argumento desenvolvido no que concerne
a manipulação manipulação da noção de império é aqui retomado: «para os
neoconservadores, isso representa a ordem, sob a égide americana, mas só pode
funcionar se a periferia apoiar essa forma de legitimidade; os neo-
eurasianistas querem apresentar-se tanto como líderes de políticas anti-
imperiais como contra a globalização» (p. 156). Por um lado, os Estados Unidos
têm uma política ambígua pautada por diferentes critérios (arbitrariedade), em
que a promoção da democracia é um princípio ideológico mas encontra-se mal
definido e é usado como um mero instrumento estratégico. Por outro lado, o
cinismo americano é reciprocado pelo cinismo e misticismo russo, o qual não
consegue liderar um mundo mais plural contra a unipolaridade. Os autores
constatam que «é a capacidade de Moscovo para agir de acordo com o modelo que
torna o projecto inexequível» (p. 177). Por conseguinte, a concepção que os
dois estados têm de «imperialismo» é um obstáculo para os seus projectos.
O livro é teórica e metodologicamente rigoroso e apresenta os seus argumentos
testando cautelosamente os conceitos em análise. Embora os cinco primeiros
capítulos (partes I e II do livro) pudessem ter sido organizados de forma mais
proveitosa a fim de proporcionar um maior diálogo entre, por um lado, a
descrição das duas visões do mundo e, por outro, a definição dos conceitos de
«império» e de «nacionalismo», a terceira parte representa um estudo
comparativo original de áreas-chave na política global contemporânea. Os
autores também combinam duas perspectivas teóricas que consideram ser os dois
paradigmas dominantes na teorização actual acerca das relações internacionais:
o neo-realismo e o construtivismo social. Essa postura intelectual faz jus à
necessidade de cruzar abordagens numa área do saber em que não existem leis que
possam explicar de forma holística os comportamentos dos actores na arena
global. No entanto, apesar de o livro confrontar de forma pertinente e
detalhada os discursos e as preocupações estratégicas da Casa Branca e do
Kremlin, essa escolha teórica pretensamente ecléctica acaba por ignorar alguns
contributos valiosos da escola liberal, nomeadamente acerca dos fenómenos de
interdependência e de cooperação. Aliás, a própria perspectiva construtivista
explica a cooperação através da produção de normas e de socialização a nível
global e da procura de legitimidade internacional por parte dos dirigentes
estaduais
2
.
À questão de saber que tipo de nações imperialistas são os Estados Unidos e a
Rússia, e quais as consequências nos equilíbrios mundiais, o livro fornece,
portanto, uma resposta contrastada. O neo-eurasianismo não corresponde a um
«verdadeiro projecto imperial» (p. 179), porque ele não coincide com a
definição dessa noção, acima mencionada. Em vez da promoção de uma visão e de
uma cultura política comuns, o desejo de restauração imperial corresponde à
nostalgia do passado imperial em oposição ao predomínio dos Estados Unidos.
Pelo contrário, os neoconservadores convergem mais com o modelo imperial porque
têm o desejo de criar uma comunidade política. No entanto, o seu esforço é
limitado pelo facto de Washington não promover a legitimidade das suas
intenções para «os outros», especialmente depois do 11 de Setembro e da adopção
de uma postura mais defensiva. Em última análise, nenhum dos projectos é capaz
de promover impérios porque eles são baseados no «ressentimento», para além da
sua incompatibilidade com aquilo que um império deveria ser por natureza. Por
consequente, a desconfiança mútua é veiculada pelas duas visões do mundo, o que
diminui não só as perspectivas de cooperação entre Washington e Moscovo mas
sobretudo a capacidade de liderança à qual cada actor aspira.
Notas
1
O Presidente russo Dmitri Medvedev reforçou esta noção no contexto da guerra
com a Geórgia, em Agosto de 2008. Ele afirmou que a Rússia tem «regiões de
interesse especial» com o objectivo de referir implicitamente os países
vizinhos. Cf. MEDVEDEV, Dmitry ' «Medvedev Sets Out Five Foreign Policy
Principles in TV Interview, Vesti TV, 31 August», BBC Monitoring, traduzido em
Johnson's Russia List, JRL 2008-163, 2 de Setembro de 2008.
2
Acerca dos debates téoricos em relações internacionais cf. PETITEVILLE, Franck
' Le multilatéralisme. Paris: Montchrestien, 2009, e BATTISTELLA, Dario '
Théories des relations internationales. Paris: Presses de Sciences Po, 2003.
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