Ensaio bibliográfico. Estudos sobre política externa portuguesa após 2000
Ensaio bibliográfico. Estudos sobre política externa portuguesa após 2000
Maria Raquel Freire* e Rafaela Rodrigues de Brito**
*Professora auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e
investigadora do CES. Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de
Kent (2002). Autora de Conflict and Security in the Former Soviet Union: the
Role of the OSCE(Ashgate, 2003) e co-autora, com Roger Kanet, de Key Players
and Regional Dynamics in Eurasia: The Return of the Great Game'(Palgrave,
2010).
**Doutoranda em Política e Relações Internacionais na Universidade de
Southampton, Reino Unido.
Este texto faz o mapeamento da bibliografia mais relevante publicada em
Portugal, após 2000, sobre temas relacionados com política externa portuguesa.
O objectivo é essencialmente o de mapear a bibliografia, mais do que um texto
de análise aprofundada sobre a temática. Incluímos neste trabalho monografias,
livros organizados e artigos publicados em revistas científicas. Estes, por sua
vez, subdividem-se em análises históricas, bem delimitadas no tempo, que
procuram explicar dinâmicas concretas associadas a determinado processo de
política externa, e outros de cariz mais analítico e com uma matriz clara de
enquadramento de relações internacionais. Em ambos os casos, é possível
identificar uma preocupação de clarificação da relação entre desenvolvimentos
endógenos e questões exógenas na formulação e decisão em política externa.
Identificamos, neste contexto, estudos mais focados na estrutura internacional,
outros na dimensão doméstica, e outros ainda que cruzam as duas dimensões.
O ensaio está organizado tematicamente, seguindo a identificação das linhas
orientadoras da política externa portuguesa, bem como das áreas mais estudadas
nesta matéria, nomeadamente as relações de Portugal com e na Europa, bem como o
processo histórico subjacente à integração portuguesa nas estruturas europeias,
a dimensão transatlântica com predomínio das relações com os Estados Unidos,
com menção também à nato, bem como às relações com os países lusófonos, em
particular o Brasil e os países africanos. A herança colonial e o passado são,
neste contexto, temas trabalhados e relacionados em grande número de trabalhos
com o processo de integração de Portugal na Europa e na gestão da relação
transatlântica.
Uma nota final prende-se com o facto de, apesar de a organização temática que
este ensaio bibliográfico segue, muitos dos trabalhos analisados cruzarem os
diferentes temas identificados, relacionando dinâmicas nos processos de
desenvolvimento e explicitação da política externa portuguesa ao longo do
tempo. Este cruzamento torna-se visível nos apontamentos que vamos fazendo ao
longo do texto.
Com base nestes pressupostos, o artigo começa por apresentar as principais
linhas teóricas e de aplicação empírica da política externa portuguesa
identificadas na bibliografia revista. Segue-se uma secção de revisão de
contributos históricos que ajudam na compreensão das dinâmicas associadas à
actuação em política externa, e de estudos sobre o legado colonial e o modo
como este afectou a modelação de políticas. a relação de vizinhança e a
política externa portuguesa relativamente à Espanha, numa lógica não só
bilateral, mas também de expressão conjunta no plano internacional, são
abordadas na secção seguinte. O artigo prossegue com uma secção dedicada à
dimensão europeia, onde a bibliografia foca tanto no peso que o processo de
integração tem tido na modelagem da política externa portuguesa, como no modo
como as autoridades portuguesas têm procurado capitalizar a sua presença no
mesmo. Esta secção não deixa de referir a questão colonial, mencionada em
alguns estudos como variável fundamental no processo de adesão às comunidades
europeias. Esta secção é seguida pelos contributos associados às análises da
política portuguesa face ao desenvolvimento da Política europeia de segurança e
Defesa, e as suas interconexões com a NATO. O texto prossegue com a dimensão
transatlântica na política portuguesa, sublinhando as relações com o Brasil e
os Estados Unidos da América. O artigo fecha com um conjunto de reflexões
decorrentes da bibliografia analisada relativamente à política externa
portuguesa, enquanto objecto deste exercício.
A política externa portuguesa: linhas de actuação
As linhas fundamentais da política externa portuguesa são tratadas na
bibliografia analisada quer em termos das marcas fundamentais que a têm
definido, e que resultam das próprias especificidades portuguesas em diferentes
níveis sectoriais e, essencialmente, do que é entendido como interesse nacional
e a sua tradução a nível externo; quer em termos temáticos, com diferentes
análises a tratarem as diferentes linhas de política externa mencionadas.
Adriano Moreira1argumenta que a política externa portuguesa é marcada por uma
dependência estrutural em relação a factores exógenos, que se têm vindo a
alterar historicamente, referindo que Portugal enfrenta o desafio de vir a
tornar-se um estado exíguo no sistema internacional
2
. Relativamente às estruturas diplomáticas, nomeadamente a «frente diplomática
portuguesa», o autor considera que esta «foi historicamente uma linha de defesa
dos interesses nacionais, e talvez não seja excessivo comparar a qualidade do
seu exercício com a que é reconhecida à diplomacia do Vaticano»3.
Adriano Moreira assinala 1974 como ponto de redefinição dos elementos
essenciais do estado, e por consequência da política externa. Se, com a
descolonização, a fronteira geográfica deixou de ser multicontinental, com a
entrada na Europa acabaram as fronteiras à circulação. Actualmente, a fronteira
de segurança é a da aliança atlântica, a fronteira económica é a União Europeia
(UE) e a fronteira cultural pretende abranger os países de língua oficial
portuguesa. Para o autor, este pluralismo de fronteiras exige teorização, a
definição de um conceito estratégico e um aparelho de execução4. O autor
argumenta ainda que a coordenação da política externa do País com a política
das organizações colectivas a que este pertence, exige também inovação, reforço
do aparelho diplomático e coordenação interna
5
.
Nesta linha da necessidade de reforço da estrutura diplomática encarregue da
implementação da política externa, face ao contexto de maior complexidade em
que esta tem lugar, Ernâni Rodrigues Lopes defendia que «a multiplicidade
crescente, na segunda metade do século XX, dos actores da política externa [ ]
implica a necessidade de uma sofisticação acrescida do aparelho de concepção e
execução da própria política externa»
6
.
Relativamente às grandes linhas da política externa portuguesa, Manuel
Fernandes Pereira7sublinha que estas têm sido marcadas por uma grande
continuidade e coerência nas duas últimas décadas. O autor identifica como
linhas mestras da política externa portuguesa a plena participação de Portugal
na construção europeia, uma presença continuada e activa na NATO, a manutenção
de fortes ligações transatlânticas, em particular com os estados unidos e com o
Brasil, o empenho na afirmação crescente da comunidade dos Países de língua
Portuguesa (CPLP), o reforço dos laços multifacetados com a África, em
particular com os PALOP, e a valorização das comunidades portuguesas espalhadas
pelo mundo
8.
Nesta mesma linha, Pedro Catarino identifica como prioridades da política
externa portuguesa as relações transatlânticas, as relações com a CPLP e os
seus países membros, as relações com os países com quem Portugal tem um
relacionamento especial, como Marrocos, china e índia, e os países onde residem
importantes comunidades emigrantes, como a Venezuela e a África do Sul
9
.
José Palmeira, seguindo Jaime Gama, identifica duas ordens de razões em que se
fundamenta a política externa portuguesa: uma ordem «defensiva», que consiste
em manter a liberdade de Portugal no contexto internacional, contrariando
pressões de ordem económica, diplomática, política, militar ou cultural; e
outra de ordem «ofensiva», que passa pela afirmação da acção portuguesa no
mundo, reforçando a sua influência e abrindo os valores nacionais ao contacto
exterior
10
. O autor considera que as prioridades estratégicas de Portugal assentam hoje
na tríade UE ' Aliança Atlântica ' CPLP, espaços onde a presença de Portugal é
determinante para o seu posicionamento nas relações internacionais.
Num registo mais temático, Elisabete Palma trabalha a ajuda pública ao
desenvolvimento como «evidência primeira da sua correlação aos interesses de
política externa, já que foram sobretudo estes últimos que a motivaram»
11
. Segundo a autora, o desenvolvimento não é um fim, mas antes um meio para
promover estabilidade política e fornecer orientação para a acção de acordo com
os blocos políticos dominantes, não descurando a existência de interesses
económicos. Na sua prossecução, os países doadores promovem culturas e imagens,
e é nesta perspectiva «de aumentar o poder de influência para níveis superiores
ao que o peso económico e militar do estado português sugeriria, que a ajuda
pública ao desenvolvimento cultural, enquanto opção incluída na definição do
respectivo interesse nacional, é equacionada»12. O objectivo consiste em
construir uma imagem positiva de Portugal e aumentar o grau de atractividade
que este exerce em terceiros, incluindo as antigas colónias portuguesas.
Abordando a mesma temática, Luís de Almeida Sampaio defende a cooperação para o
desenvolvimento como um instrumento e elemento vital no quadro da política
externa portuguesa, fundamental em termos de afirmação nacional e de presença
portuguesa no contexto internacional. Segundo o autor, «o lugar de afirmação de
Portugal no mundo é o espaço da língua e da cultura portuguesas»
13
. Assim, os PALOP e Timor Leste são o contexto primário da política portuguesa
de cooperação para o desenvolvimento.
Rui Machete e António Luís Vicente identificam também a língua e a cultura
portuguesas como importantes recursos estratégicos globais e defendem que a sua
promoção além-fronteiras se traduz em vantagens políticas e económicas
relevantes para o País. Consequentemente, os autores advogam que a promoção
cultural deve ser um eixo central da política externa14, sublinhando deste modo
a componente cultural como expressão fundamental da política externa
portuguesa.
O peso da história e a herança colonial na política externa portuguesa
Várias obras analisam o passado histórico e a forma como a política externa se
vai modelando de acordo com os tempos e contextos. Neste exercício, procuramos
inserir tematicamente os diferentes contributos, facilmente identificados ao
longo das próximas secções, elencando nesta secção obras colectivas cujo
contributo é claro para a compreensão histórica de desenvolvimentos centrais na
definição de linhas de orientação da política externa portuguesa
15
. Note-se, no entanto, que sempre que pertinente, alguns dos trabalhos
incluídos nestas obras colectivas são referenciados noutras secções do texto,
por uma razão de coerência temática, não sendo evidenciados textos de cariz
mais específico e cuja relevância para este trabalho de revisão não seja
fundamental.
O livro Revoluções, Política Externa e Política de Defesa em Portugal ' Séc.
XIX-XX, organizado por João Marques de Almeida e Rui Ramos, analisa o impacto
das revoluções na política externa portuguesa, desde a Revolução Liberal até ao
25 de Abril de 1974. Na sua contribuição, Maria de Fátima Bonifácio defende que
as revoluções liberais não alteraram os parâmetros essenciais da política
externa portuguesa, mas pelo contrário reforçaram-nos e cristalizaram-nos. A
autora destaca a política de distanciamento em relação às querelas europeias
que Portugal adoptou após as Guerras de restauração de 1641-166816.
Estudando a revolução republicana de 1910, Rui Ramos defende que no princípio
do século XX, a tendência «natural» da política externa portuguesa não seria a
aliança inglesa mas o equilíbrio entre a Grã-Bretanha e o continente17. Nesta
altura, o grande dilema da política externa portuguesa era a manutenção da
aliança com a Inglaterra versusa aproximação à França ou outra nação europeia
uma vez que, embora a Grã-Bretanha continuasse a ser necessária para a defesa
das colónias, a relevância desta era contrabalançada pelo peso económico-
militar da Alemanha e a influência financeira da França. A revolução
republicana de 1910 vinculou finalmente Portugal à Inglaterra. Apesar de o
Governo republicano reivindicar a ruptura com todos os outros sectores de
governação, a política externa pautou-se por uma absoluta continuidade, uma vez
que as boas relações com a Grã-Bretanha eram tidas como essenciais para a
consolidação do novo regime em Portugal.
O livro Diplomacia & Guerra. Política Externa e Política de Defesa em
Portugal do Final da Monarquia ao Marcelismo, coordenado por Fernando
Martins,inclui um conjunto de análises de política externa, organizadas
cronologicamente. Ao analisar a política externa desde a segunda metade do
século XIX à implantação da república, Fernando Costa defende que a história da
política externa portuguesa deste período é essencialmente a história das
relações luso-britânicas
18
. Segundo o autor, Portugal entrou no século XX perfeitamente enquadrado pela
aliança inglesa e sublinha que nem mesmo a mudança de orientação da política
externa portuguesa da África para o atlântico, devido à importância estratégica
que os açores passam a assumir, ou a aproximação anglo-espanhola no
Mediterrâneo após a conferência de Algeciras de 1906, alterou essa realidade.
Na sua contribuição, Maria Alice Samara analisa a política externa portuguesa
em articulação com a política de defesa. A autora aponta as razões da entrada
de Portugal na I Guerra Mundial, nomeadamente a ambição de que esta
participação desse visibilidade a Portugal e a necessidade de defesa do
património colonial. A manutenção da aliança inglesa teria sido também uma
razão, uma vez que Portugal continuava politicamente dependente da Inglaterra,
por não ter logrado estabelecer nenhuma aliança significativa com outro país19.
Ainda com referência ao mesmo período histórico, luís farinha enumera as três
opções estratégicas principais de Portugal na época do sidonismo, nomeadamente
a modernização e desenvolvimento do País, a reconstrução e consolidação das
estruturas administrativas do império colonial, e a consolidação do novo regime
republicano20. Uma vez que a falta de meios materiais e humanos impunha a
procura de uma política de alianças que permitisse a valorização dos vastos
espaços atlânticos e africanos, por razões históricas mas também
geoestratégicas, a república desde cedo optou por reforçar a aliança inglesa na
defesa dessa política externa
21
.
Analisando o não envolvimento português na II Guerra Mundial, Fernando Martins
argumenta que o êxito da política externa portuguesa se deveu a uma aplicação
rigorosa do bilateralismo. Assim, ao relacionar-se de forma bilateral com a
Espanha, o Reino Unido, a Alemanha e os Estados Unidos, Portugal logrou manter-
se à margem do conflito mundial
22
. Após o final do conflito, a participação portuguesa na criação da NATO
marcou, segundo o autor, o encerramento de um ciclo, ao romper com a orientação
essencialmente continental da política externa portuguesa iniciada no Verão de
1936, e que de uma forma atenuada se mantinha ainda em 1949. O autor
caracteriza o processo então vivido pela política externa portuguesa como uma
revolução tranquila23.
O peso do passado colonial é sublinhado em vários estudos como marcando
profundamente a política externa portuguesa no tempo, quer nas suas
manifestações directas em relação às colónias, quer nas relações com outros
actores internacionais, particularmente os estados unidos e as comunidades
europeias. Pedro Aires Oliveira argumenta que o Estado Novo não trouxe ruptura
relativamente às linhas de força da política externa portuguesa, nomeadamente o
nacionalismo imperial, a projecção atlântica e colonial e a preferência pela
aliança inglesa. O autor argumenta ainda que as motivações ideológicas tinham
grande peso na formulação da política externa do estado novo e que a própria
natureza autoritária do regime foi elemento importante na prossecução de uma
política de resistência cega à descolonização24.
A política externa portuguesa no período da ditadura revelou simultaneamente um
grande desejo de autonomia face a desenvolvimentos entendidos como não
correspondendo ao interesse nacional, nomeadamente face a políticas de apoio à
autodeterminação num contexto de descolonização (no qual, as relações com os
estados unidos vão sofrer um revés, e a proximidade histórica com a Grã-
Bretanha também vai ser afectada), mas também o receio de isolamento do País,
com implicações claras ao nível do desenvolvimento económico e, naturalmente,
do próprio regime. De facto, era sentida a «necessidade de garantir o
desenvolvimento económico e, assim, a estabilidade social e a sobrevivência da
ditadura do Estado Novo»
25
.
Neste quadro, a «opção colonial não era uma opção política rival, mas sim
subordinada»
26
ao processo de integração europeia, enquanto condição necessária à manutenção
do império e também devido ao facto de a economia portuguesa estar muito
dependente do comércio europeu, o que se reflectiu na própria história do
envolvimento de Portugal em organizações económicas, incluindo a OECE, a EFTA
e, mais tarde, a CEE27. Note-se que as colónias são neste período da ditadura
excluídas das negociações a este nível como forma de protecção de privilégios
políticos e económicos. A questão da opção entre a via europeia ou o império
colonial é no entender de Nicolau Andresen Leitão uma falsa dicotomia, pois «o
estabelecimento de laços com a Europa era uma condição necessária da manutenção
do império, e não uma ameaça ao mesmo»28.
Mas as implicações desta procura de conjugação de políticas são visíveis na
deterioração de relações com países tradicionalmente aliados, como referido,
nomeadamente com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. No caso da primeira, as
relações externas sofreram substancialmente com o apoio português à declaração
unilateral de independência da Rodésia do Sul em Novembro de 1965, numa leitura
de que este apoio se traduziria na protecção das suas próprias colónias
29
. Luís Barroso argumenta ainda que «com as acções das guerrilhas oriundas da
Tanzânia a pressionar a norte e com um possível governo nacionalista negro na
Rodésia, Moçambique ficaria rodeado de inimigos contra os quais dificilmente
conseguiria lidar»
30
. Além do mais, as independências da Rodésia do Norte (Zâmbia) e da
Niassilândia (Malawi) constituíam uma ameaça à luta contra-subversiva em Angola
e Moçambique.
Contudo, este apoio à Rodésia implicava naturalmente consequências no
relacionamento de Portugal com os britânicos, os estados unidos e mesmo países
africanos, aumentando o seu isolamento internacional. As relações com a Grã-
Bretanha passavam já por um período difícil após a não inclusão dos territórios
ultramarinos na aliança Luso-Britânica (1958) e face ao contexto de críticas
portuguesas à actuação britânica na Índia. Deste modo, Barroso procura entender
o apoio português ao Governo de Ian Smith face à posição internacional de
fragilidade que Portugal atravessava na ONU, e relativamente aos estados unidos
e à Grã-Bretanha. O livro segue uma metodologia histórica, descritiva e assente
numa explicação sistémica, analisando o comportamento de Portugal a partir do
contexto internacional da altura. As principais conclusões apontam para a
defesa dos interesses nacionais, e em particular da dimensão colonial na
política externa portuguesa, conduzida com base nas capacidades de um estado
médio como Portugal, como o autor o define31.
Victor Marques dos santos analisa as relações entre Portugal e a Grã-Bretanha
no período que vai da conferência de Berlim até ao início da I Guerra Mundial.
O autor constata que a partir da conferência de Berlim em 1884-1885 se dá um
agravamento da situação portuguesa em África, uma vez que são aprovadas as
teses que advogavam a ocupação efectiva como base de direitos adquiridos, em
vez dos direitos históricos defendidos por Portugal32. O autor descreve o
período de instabilidade das relações luso-britânicas devido ao mapa cor-de-
rosa e ao Ultimatumde 1890 e a reaproximação dos dois países devido aos avanços
da Alemanha na África Austral33. A necessidade de encontrar resoluções para
pontos comuns da problemática africana vai gerar um reforço efectivo da aliança
através da celebração de novos tratados34.
Contudo, nas vésperas da I Guerra Mundial, Portugal enfrentava dificuldades de
aproximação à Europa, quer devido à instabilidade política interna e à falta de
preparação da diplomacia portuguesa, quer devido à progressiva desvalorização
das posições portuguesas na áfrica
35
. O Partido republicano Português vai voltar-se para a aliança inglesa, vista
como possibilidade concreta de participação portuguesa no contexto
internacional europeu
36
. Marques dos Santos argumenta que esta coerência estrutural em termos de
definição de objectivos e de acções que marcou a política externa portuguesa da
altura apenas pode ser compreendida tendo em conta a relação intrínseca que se
estabeleceu entre o processo político interno e a evolução das condicionantes
externas
37
.
Se até ao século XIX Portugal tinha optado tradicionalmente pela componente
atlântica, a participação de Portugal na I Guerra Mundial significou uma
aproximação do País à problemática fundamental europeia e o fim do afastamento
geoestratégico em relação à Europa. A participação de Portugal na guerra
contribuiu também para o estreitamento das relações luso-britânicas, o que teve
efeitos positivos relativamente à preservação da soberania portuguesa na África
38
.
De acordo com António Costa Pinto e Nuno Severiano Teixeira, após o 25 de Abril
de 1974 o primeiro grande desafio internacional da democracia portuguesa seria
o fim do ciclo imperial e o segundo a abertura ao mundo e o restabelecimento de
relações diplomáticas alargadas
39
.O período de transição vai ser caracterizado pela indefinição da política
externa portuguesa: há a necessidade de definir objectivos e opções
estratégicas para a inserção nacional da nova democracia. Apesar da
indefinição, a política externa tendeu para a opção terceiro-mundista e para o
desenvolvimento de relações privilegiadas com os novos países saídos da
descolonização portuguesa.
José Manuel Duarte de Jesus introduz a temática de Macau no quadro das relações
bilaterais entre Portugal e a china caracterizando-as como simultaneamente
antigas e ambíguas. Segundo o autor, a antiguidade e a ambiguidade advêm de uma
«ignorância mútua e de avaliações equivocadas» de cada uma das partes
relativamente à outra
40
. No que toca à situação específica de Macau, o autor considera que esta
constituiu em momentos uma mais-valia evidente, outras um obstáculo suplementar
a contribuir para o equívoco nas relações entre Portugal e a China41. O autor
aponta para uma ausência de estratégia política de Portugal relativamente a
Macau e à China, considerando que «depois de um século XIX de desencontros e de
um século XX de hesitações, a política realista de ambas as partes que conduziu
a uma descolonização exemplar constitui uma janela promissora para o futuro»
42
.
De facto, as dinâmicas associadas ao legado colonial e à forma como Portugal
lida com este no tempo, permitem a afirmação de que a política externa
portuguesa sofreu alterações significativas no período pós-revolução de Abril,
essencialmente abrindo-se a novas áreas geográficas e contemplando novas
temáticas. Mas velhos assuntos permanecem na agenda da política externa
portuguesa, entre os quais o das relações com a vizinha Espanha é essencial,
como analisado em seguida.
Relações de vizinhança: a Espanha na política externa portuguesa
Os estudos sobre a relação de vizinhança Portugal-Espanha abordam não só o
contexto bilateral, mas também a forma como esta relação pode, eventualmente,
traduzir-se em esforços a nível internacional, ou seja, para além do quadro de
entendimento da Península ibérica. De facto, é reconhecida a importância da
Espanha na definição da política externa portuguesa. António José Telo defende
que a pressão da fronteira terrestre com a Espanha levou a que Portugal
procurasse desde muito cedo valorizar a fronteira marítima
43
. Segundo o autor, o equilíbrio tradicional entre fronteiras traduzia-se na
existência de laços económicos e culturais pouco fortes com a Espanha44. À
semelhança de amado, o autor considera também que a adesão de Portugal e da
Espanha à CEE alterou drasticamente a situação das relações entre os dois
países, sendo que a Espanha é hoje o principal parceiro comercial e financeiro
de Portugal, bem como a principal fonte de investimento estrangeiro. Em
contrapartida, o autor sublinha que as relações culturais continuam a ser
reduzidas45.
Luís Amado analisa a política externa de Portugal em relação à Espanha,
sublinhando que as posições portuguesas revelam frequentemente uma atitude
defensiva face às espanholas. No entanto, o autor defende que a matriz de
relacionamento foi profundamente alterada pela entrada dos dois países na união
europeia (UE), sendo que na Espanha esta mudança do cenário estratégico foi
melhor antecipada do que em Portugal. O autor advoga a necessidade de passar a
olhar para a Espanha como oportunidade do ponto de vista económico, e não como
ameaça. Segundo Luís Amado, existem já sinais que apontam para uma compreensão,
por parte de importantes sectores portugueses, de que o mercado espanhol é uma
oportunidade, mas é ainda necessária uma mudança profunda no paradigma da
relação económica46.
O autor enumera alguns desafios da política externa portuguesa em relação à
Espanha, nomeadamente o desenvolvimento de políticas activas do ponto de vista
da língua e da cultura portuguesas, e o desenvolvimento da política externa de
segurança e defesa de forma a aumentar a visibilidade internacional do País,
evitando que Madrid represente Lisboa
47
. Segundo o autor, Portugal deve apostar numa diferenciação em relação à
Espanha que deve passar pelo reforço da dimensão atlântica, investindo na
política africana e na relação com a Cplp
48
.
No trabalho de antónio José Telo e Hipólito de la Torre Gómez sobre Portugal e
Espanha nos sistemas internacionais contemporâneos, e relativamente a Portugal,
Telo assume que este é um país que «consegue normalmente desempenhar um papel e
realizar funções que estão acima da sua força aparente. Consegue, dito por
outras palavras, canalizar apoios imateriais e recursos materiais para a
prossecução de políticas, estratégias e modos de vida próprios»
49
. O uso do conceito de «disfunção» pretende explicar o comportamento de
Portugal no sistema internacional, conceito este entendido como «um órgão com
funcionamento perturbado, anómalo e difícil de entender»50, e que é ilustrado
com vários exemplos ao longo da história portuguesa. A disfunção é explicada
pela capacidade do País em conseguir apoios, projectar acções e canalizar
recursos externos para além da sua força aparente
51
, justificada por vários factores, como por exemplo a situação geográfica, a
importância estratégica do atlântico português, ou a capacidade de funcionar
como elo de ligação em termos culturais e sociais, entre outros.
Relativamente à questão de a Península Ibérica constituir uma unidade em termos
dos sistemas internacionais da época contemporânea, o trabalho identifica
limites sérios: a unidade estratégica peninsular depende das rivalidades
globais e da sua fronteira
52
; relações de vizinhança instáveis e procura de alianças para garantir
sobrevivência; o peso relativo dos dois países é diferenciado. Apesar das
diferenças, os autores concluem que a Península ibérica «é uma unidade
estratégica e geopolítica, num processo que sublinha a dualidade e a diferença
em termos da evolução interna e dos mecanismos concretos e de actuação»53.
No trabalho colectivo coordenado por Álvaro de Vasconcelos e Maria João Seabra,
num capítulo dedicado à relação entre Portugal e a Espanha, Maria João Seabra
sublinha que a integração europeia permitiu a consolidação de um relacionamento
mais saudável com a vizinha Espanha, estabelecendo as bases de uma cooperação
bilateral mais sustentável54.
A dimensão europeia na política externa portuguesa
Da bibliografia analisada, fica claro que a dimensão europeia constitui um
pilar central na política externa portuguesa, entendida genericamente como um
factor que permite a projecção de políticas e objectivos nacionais para além
das capacidades naturais do nosso país. Os estudos dispersam-se historicamente
pelo contexto do processo de adesão de Portugal às comunidades europeias; pelo
desenvolvimento do regime político e o processo de transição, com as devidas
ligações ao quadro europeu; e por análises do período pós-Guerra Fria e num
contexto de institucionalização das relações desenvolvidas e consolidadas no
âmbito da UE. Deste modo, a secção segue uma organização cronológica que
explicita os contextos e momentos relevantes no processo de adesão e
institucionalização da presença portuguesa nas comunidades europeias,
reforçando as dimensões de política externa que lhe estão subjacentes.
Analisando o período de 1945 a 1986, António Costa Pinto e Nuno Severiano
Teixeira expõem os princípios ideológicos subjacentes à posição suis generisque
Portugal adoptou perante o Plano Marshall, ao recusar o auxílio financeiro no
primeiro exercício do plano em 1947-1948. Segundo os autores, Salazar pretendia
que Portugal e a Europa não recorressem à ajuda externa e fizessem face à
reconstrução com recurso às relações privilegiadas com a África, evitando assim
o reforço da influência norte-americana na Europa. Além do mais, para Salazar,
o princípio da cooperação económica internacional não podia sobrepor-se aos
interesses nacionais
55
. Inversamente, no segundo exercício do plano, em 1948-1949, a estratégia de
Portugal passa a ter como objectivo a obtenção de auxílio financeiro. As razões
para esta modificação na posição de Portugal foram, segundo os autores, a
degradação da conjuntura financeira e o início da Guerra Fria que viriam a
obrigar Portugal a integrar o sistema de segurança ocidental56.
Os autores descrevem a posição complexa e a presença diferenciada que Portugal
vai manter durante a segunda metade dos anos 1940, durante o processo de
reconstrução da Europa. No plano económico, Portugal participa no Plano
Marshall e integra todas as instituições de cooperação económica europeia, e,
no plano da segurança e da defesa, acompanha desde cedo a evolução da União da
Europa Ocidental e integra desde 1949 a nato. Já no que se refere à cooperação
política, Portugal mantém-se totalmente marginalizado. A posição de princípio
antieuropeia da política externa portuguesa mantém Portugal à margem do Plano
Schuman e da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço57.
Francisco Castro, que aborda o posicionamento externo de Portugal no período
que vai do Plano Marshall (1947) ao acordo comercial com a CEE (1972), explica
que esta marginalização se deveu a um «cauteloso esperar para ver» da política
externa de Salazar. Na época, os interesses da política externa portuguesa
centravam-se na manutenção de relações de amizade na Península Ibérica,
considerada condição essencial para a afirmação portuguesa no Atlântico, a
manutenção da aliança luso-britânica e o evitar de relações no continente que
pudessem resultar no envolvimento de Portugal em qualquer conflito. o autor
assinala a assinatura do acordo de comércio livre com a CEE em 1972, durante a
liderança de Marcello Caetano, como o princípio do fim da era «face ao mar,
costas à terra» que pautou a política externa de Salazar
58
.
Na década de 1970, a opção europeia é a grande inovação da política externa
portuguesa. Em 1972, Portugal assina um acordo comercial com a CEE, sendo que a
margem de manobra da política externa portuguesa era mínima: a EFTA, que tinha
tido como efeito a densificação de relações comerciais entre Portugal e a
Europa e o seu eminente enfraquecimento ou desaparecimento, impunha outro
quadro multilateral de relacionamento económico
59
.
Ao analisar o impacto da revolução de 25 de Abril de 1974 na política externa
portuguesa, Vasco rato defende que a retirada portuguesa da África e a redução
do Estado à sua pequena dimensão continental obrigou a um «regresso à Europa»
60
. No entanto, a definição de uma nova grande estratégia nacional só foi
possível após a clarificação do processo revolucionário e teve de obedecer ao
equilíbrio de poder internacional. Após a normalização político-militar de
Novembro de 1975, formou-se um consenso sobre o duplo pilar da política externa
portuguesa, i.e., a Europa e a Aliança Atlântica.
O período de consolidação democrática que se inicia então caracterizou-se pela
clarificação da política externa portuguesa. Portugal assume-se inteiramente
como país ocidental, simultaneamente atlântico e europeu. O primeiro passo após
o assumir da opção europeia é o pedido de adesão ao conselho da Europa em 1976.
Em Março de 1977, Portugal apresenta o pedido formal de adesão à CEE
61
.
Portugal transformou-se num país marcadamente europeu. «Passámos, finalmente, a
ser Europa». A «relação transatlântica e as ligações aos países de língua
portuguesa figuram como as outras prioridades externas no tríptico
consensualmente aceite pelas principais forças políticas portuguesas»,
descrevendo desta forma uma panóplia de interesses e princípios que marcam a
viragem da política externa portuguesa após o processo de democratização
62
.
Seixas da Costa identifica linhas constantes no posicionamento de Portugal nas
negociações institucionais e nas políticas comunitárias, de Maastricht ao
tratado constitucional. Segundo o autor, um conservadorismo arreigado marcou a
posição portuguesa no plano institucional, com o objectivo de preservar o
status quo. o autor defende que isto se deveu à «consciência de que Portugal se
situa frequentemente à margem de alguns interesses médios projectados em
Bruxelas»63. Já no plano das políticas comunitárias, a posição portuguesa foi
marcada por um «europeísmo utilitário», uma vez que Portugal se apoiava nas
políticas que pudessem beneficiar o País na distribuição de pacotes
financeiros, o que segundo o autor era muitas vezes confundido com uma
verdadeira vontade integradora64. O autor reconhece que a atitude portuguesa se
tem vindo a adaptar ao longo dos tempos, mas sublinha que esta sempre procurou
evitar a sedimentação de factores que pudessem vir a agravar a situação
periférica do País
65
.
Neste registo de debate mais actual, a obra colectiva Portugal: A European
Story, coordenada por Álvaro de Vasconcelos e Maria João Seabra, assenta no
pressuposto de que Portugal é um país com «vocação europeia» e que «entra no
projecto europeu para consolidar a democracia e o desenvolvimento do país,
reconciliando-se com as suas raízes históricas»
66
. No seu contributo, Álvaro de Vasconcelos refere que a adesão resulta do
desejo de consolidar a democracia portuguesa, tratando-se de uma motivação
essencialmente política de maior integração internacional e acesso a recursos
que permitam fomentar o desenvolvimento económico. Inicialmente, Portugal
mantém uma postura de reserva muito focada na obtenção e negociação de recursos
financeiros; a partir de 1992, com a presidência portuguesa começa a haver um
maior envolvimento a nível político, sendo alargada a participação portuguesa,
com base no entendimento de que Portugal ganhou poder relativo com a sua
integração na Europa
67
.
Álvaro de Vasconcelos destaca também a maior abertura da política externa
portuguesa como consequência da sua integração na Europa, identificando, por
exemplo, o facto de a fronteira de segurança portuguesa se ter descolado da
fronteira territorial portuguesa, e de assistirmos a um alargamento dos
interesses estratégicos portugueses, visível, por exemplo, no envolvimento
activo nos Balcãs68. Vasconcelos nota ainda que até à aprovação do documento da
conferência intergovernamental de 1996, a postura portuguesa em matéria de
defesa mantinha-se reservada, à sombra da Grã-Bretanha e bem assente nos
estados unidos. A partir de então, com a aceitação da integração inequívoca da
união da Europa Ocidental (UEO) na UE, é dado um passo importante no assumir de
uma postura diferenciada nestas matérias no quadro da política externa
portuguesa. Como afirma João de Vallera, no processo negocial Portugal tem
procurado soluções para regular desníveis de desenvolvimento, fomentar a
integração dos países do sul, defender a coesão económica e social como pilar
da construção europeia, pro-mover a língua portuguesa no quadro institucional,
entre outros, como meios de afirmação das linhas de política externa portuguesa
69
.
Rui Pereira concorda com este alinhamento, considerando que Portugal manteve
uma atitude «prudentemente conservadora» relativamente à Europa, devido à sua
condição periférica, postura defensiva e isolacionismo do passado
70
. No entanto, o autor reconhece que existe a consciência de que uma Europa mais
integrada dará mais peso internacional a Portugal. Numa perspectiva um pouco
diferente, e assumindo uma visão realista, Rui Machete reconhece que a
integração europeia deve ser a primeira prioridade de Portugal, mas argumenta
que a manutenção de relações desenvolvidas e diversificadas com outros países
reforça o poder negocial de Portugal71. O autor adverte que não se trata de
agir em detrimento da UE mas sim de aproveitar as especificidades portuguesas
para aumentar as suas oportunidades.
Nesta linha, vários são os estudos identificados que abordam a questão europeia
e atlântica, tecendo pontes e elencando especificidades, mas essencialmente
sublinhando que estes vectores na política externa portuguesa não precisam ser
entendidos como concorrentes, mas devem antes ser lidos numa perspectiva de
complementaridade. Um debate que a secção seguinte aborda.
Entre a Europa e o atlântico
A bibliografia analisada aponta, como referido, para uma lógica de
complementaridade entre a dimensão europeia e a dimensão atlântica, reforçando
a presença de Portugal na Europa e para além desta. De facto, para a «política
externa portuguesa, ser atlântico pode significar valor acrescentado na Europa,
tal como ser europeu pode ter valor acrescentado no atlântico e, em particular,
no atlântico sul, onde se desenvolvem as os vectores atlântico e europeu
relações com o Brasil e as antigas colónias permanecem centrais, embora com
pesos africanas»72. Os vectores atlântico e europeu permanecem centrais, embora
com pesos diferenciados em termos temporais. Tradicionalmente, a prioridade era
atlântica e colonial, actualmente é mais voltada para a Europa, mas não
descurando estas dimensões, as relações com os estados unidos e a nato, bem
como as relações pós-coloniais. Portugal parece deste modo estar a ensaiar os
primeiros passos num novo modelo que tem por base a europeização
73
.
Muitos dos estudos em questão recorrem em ampla medida à análise da articulação
entre a Política Europeia de Segurança e Defesa e a nato na promoção da
segurança euroatlântica, como exemplo fundamental desta dinâmica. Álvaro de
Vasconcelos refere a questão da «falsa dicotomia entre a Europa e o Atlântico»
74
, argumentando que a integração de Portugal na Europa lhe confere mais força
nas suas relações neste quadro geográfico e para além dele, como, por exemplo,
na relação com os países lusófonos, na relação com Madrid e mesmo nos maiores
contactos que vem a desenvolver na área do Mediterrâneo
75
.
Nesta mesma linha, João de Vallera refere o desenvolvimento da Política externa
e de segurança comum no quadro da UE de forma compatível com o atlântico e a
dimensão multicontinental da política externa portuguesa como um bom exemplo.
Acrescenta ainda que Portugal tem, nas negociações, projectado estas diferentes
valências em termos de amplitude geográfica, capitalizando deste modo o seu
posicionamento no quadro da UE e para além desta
76
. No que se refere à NATO, uma das querelas mais profundas e persistentes no
historial do desenvolvimento da PESC, foi sempre claro para Portugal que o
desenvolvimento de uma necessária política de segurança da UE não seria
incompatível com a aliança atlântica desde que se aceitassem mecanismos de
coordenação e cooperação adequados77.
O desenvolvimento da PESC, neste registo de complementaridade com a aliança
atlântica, é reforçado no trabalho colectivo organizado por luís Moita sobre as
consequências para Portugal dos desenvolvimentos na política externa europeia
78
. O estudo avança com a identificação dos desafios para as políticas
portuguesas decorrentes das capacidades e recursos limitados de Portugal, da
sua localização periférica, das exigências de adaptação, que ora constituem uma
janela de oportunidade e de promoção dos interesses portugueses na sua acção
externa por via da UE, ora condicionam a sua actuação neste mesmo quadro.
Ainda relativamente à PESC, Seixas da Costa argumenta que Portugal entrou na
cooperação política europeia com duas preocupações essenciais: manter a questão
de Timor Leste na agenda internacional, à época tarefa central da diplomacia
portuguesa; e salvaguardar a preeminência da nato no seu quadro de segurança e
defesa. Relativamente a este segundo ponto, o autor refere que desde o século
XX a matriz tradicional de comportamento da diplomacia portuguesa assentou
sempre no pressuposto de que o laço transatlântico constituía um eixo
determinante no posicionamento externo do País, essencial para evitar a sua
fragilização estratégica. Assim, no contexto da UE, Reino Unido e Países Baixos
foram os aliados preferenciais de Portugal na tentativa de garantir que o
desenvolvimento da PESD não tivesse consequências prejudiciais para a Aliança
Atlântica
79
.
O autor analisa as consequências do aprofundamento da PESC na política externa
de Portugal, uma vez que os países menos poderosos são mais condicionados pelo
processo de decisão. No entanto, o autor argumenta que, ao contrário do que
sucede com a dimensão económico-social, os objectivos de política externa de
Portugal não são essencialmente distintos dos restantes membros da UE. Acresce,
no entendimento do autor, que Portugal já conseguiu ver contemplados na PESC
alguns dos seus principais objectivos e prioridades de política externa,
nomeadamente o reforço das relações com a África Subsariana e com a América
Latina, e as questões dos Direitos Humanos. Segundo Seixas da Costa, o grande
desafio que a PESC coloca a Portugal situa-se no âmbito da PESD, sendo que
devido às fracas capacidades militares do País, este deve favorecer a
comunitarização da PESD a fim de adquirir maior capacidade de influência no
processo de decisão
80
.
Por seu turno, Manuel Pereira defende que havendo um largo consenso em Portugal
em matéria de integração europeia, o desenvolvimento da PESC corresponde também
a um desígnio nacional. Além do mais, nos objectivos da PESC não se encontram
elementos que colidam com os interesses nacionais de Portugal, nem que impeçam
a defesa desses mesmos interesses81. Analisando a possível influência da
política externa portuguesa na evolução da PESC/PESD, o autor assinala a
importância crescente que tem vindo a ser conferida às relações da União com os
países da América do Sul e do continente africano, como correspondente aos
interesses próprios que ligam Portugal a ambas as regiões82.
Segundo este mesmo autor, «o obrigatório envolvimento português nos assuntos
englobados pela PESC, contrariamente ao que se poderá pensar numa análise
superficial, não veio retirar importância ou conteúdo ao tradicional exercício
diplomático das relações bilaterais»
83
. Assim, este sustenta que a afirmação política de Portugal no quadro europeu e
na comunidade internacional passa por uma actuação eficiente quer a nível
individual, quer integrado em acções da PESC/PESD ou outras resultantes da sua
pertença a organizações multilaterais, sendo que para tal os responsáveis pelas
orientações da política externa portuguesa têm necessariamente de estar
habilitados com os meios adequados84.
Rui Pereira analisa as vertentes europeia-continental e atlântico-global na
política externa portuguesa. Segundo o autor, este dilema entre a dimensão
atlântica e europeia gera um equilíbrio geopolítico instável entre o continente
e o mar
85
. O autor aborda a evolução histórica da inserção internacional de Portugal,
identificando três grandes modelos. Assim, até ao século XV, período que
corresponde ao Portugal medieval, as relações externas desenvolviam-se no
quadro da Península ibérica. Após este período, e até 1974, dá-se um
afastamento estratégico em relação ao continente e a procura de uma compensação
marítima no atlântico. Finalmente, o processo de democratização de 1974 dá
início a uma europeização da política externa portuguesa, mantendo-se contudo o
atlântico como mais-valia para a Europa.
O autor adverte que Portugal não deve limitar o seu posicionamento estratégico
à vertente europeia-continental, mas sim prosseguir uma articulação entre os
dois vectores que lhe permita superar a sua condição periférica em relação à
Europa. Neste sentido, chama a atenção para a importância dos países da CPLP,
na ponte que Portugal pode estabelecer entre a UE e o continente africano, e
entre a UE e o Brasil86. Sublinha aliás esta perspectiva como central para a
existência nacional no novo quadro multilateral.
O autor identifica elementos que podem potenciar a capacidade de Portugal para
conquistar uma soberania funcional, nomeadamente a língua, o mar e a sua
vocação universalista. Finalmente, rui Pereira considera que a diplomacia
portuguesa carece de uma mudança de enfoque, da política para a economia, vendo
na relação com os países mediterrânicos e os BRIC (Brasil, Rússia, Índia,
China) uma oportunidade de diversificação.
Ernâni Rodrigues Lopes também aponta a capacidade para articular a vertente
europeia-continental e a vertente atlântico-global como um dos eixos principais
da política externa de Portugal. Outros eixos centrais referidos pelo autor são
os enquadramentos geopoliticamente necessários, nomeadamente a UE e a NATO, a
necessidade de não ficar estrategicamente reduzido ao espaço europeu,
preservando e desenvolvendo uma perspectiva ampla, e a valorização do potencial
económico. Relativamente a este último ponto, o autor defende que este
potencial reside na gestão estratégica do jogo de forças entre a integração
europeia e a articulação Portugal/Europa/África/Brasil
87
. Para o autor esta é uma questão estratégica fundamental para Portugal
juntamente com o aprofundamento, para além da dimensão económica, da rede
global constituída pela CPLP. Entende que Portugal deve assumir de vez a
resolução da sua questão estratégica fundamental: a articulação entre os seus
vectores geopolíticos dominantes, na ligação entre Portugal, a Europa, a UE, a
África a Sul do Sara, sobretudo os PALOP, e a América Latina, sobretudo o
Brasil
88
.
A dimensão transatlântica na política externa portuguesa
A dimensão transatlântica assume relevância na política externa portuguesa,
pela ligação de amizade que Portugal mantém com os Estados Unidos e pelos laços
históricos com o Brasil, focando essencialmente nas afinidades e oportunidades
que esta relação sugere. As relações de Portugal com os Estados Unidos são
tratadas na bibliografia quer em contextos históricos específicos, quer em
análises mais abrangentes, seja em termos temporais ou temáticos, incluindo o
período de rivalidade bipolar e a realidade pós-Guerra Fria. Os temas cruzam
aspectos particulares como o impacto da relação transatlântica no processo da
transição democrática em Portugal, ou a questão colonial, com aspectos
relacionados com a gestão desta relação no quadro da integração europeia, e
para além deste.
No quadro das relações com Washington, Pedro Catarino considera que as relações
de Portugal com os estados unidos assumem uma posição cimeira entre as
prioridades da política externa portuguesa, complementando e potenciando outros
vectores fundamentais como a UE. O autor defende que «contribuir para o reforço
da relação transatlântica é mais do que um objectivo, é uma vocação nacional,
ditada por uma conjugação de interesses que não são conjunturais e temporários,
mas permanentes»89. Para o autor, a presença de uma comunidade portuguesa nos
Estados Unidos constitui uma importante componente da relação bilateral com
este país.
Durante os anos 1950, a vertente atlântica e o peso dos estados unidos crescem
na política externa portuguesa. Até ao início da década de 1960 as relações
bilaterais com os estados unidos vão dominar as preocupações da ditadura
90
. Com a entrada na ONU em 1955, a questão colonial torna-se a preocupação
dominante. A partir da década de 1960, a ONU será o principal campo de batalha
diplomática contra o colonialismo português
91
. No entanto, Luís Nuno Rodrigues critica o mito da solidão na política externa
portuguesa durante a década de 1960. Segundo o autor, no que diz respeito às
relações luso-americanas o período de maior fricção e isolamento foi bastante
curto, durando pouco mais de um ano. Assim, o autor conclui que «no que
respeita às suas relações políticas e diplomáticas com os americanos durante o
período em análise, os portugueses não se encontraram orgulhosamente sós, mas
antes temporariamente sós»
92
.
Num trabalho que analisa as especificidades deste período, Luís Nuno Rodrigues
analisa a relação transatlântica entre 1961 e 1963, demonstrando as
descontinuidades inerentes a uma relação genericamente descrita como de
cooperação. Neste período, com John F. Kennedy na presidência, os Estados
Unidos alteram a sua política externa para a África assumindo «uma política
anticolonialista e abraçando a causa da autodeterminação e da independência dos
povos africanos, para assim evitar o aumento da influência soviética no
continente africano»93. A administração Kennedy assume também problemas no
relacionamento com regimes ditatoriais, como é o caso do Estado Novo, em
Portugal. O ano de 1961 é marcante na política portuguesa, com efeitos a nível
internacional por três razões essenciais: internamente, pelo movimento
conspiratório organizado pela própria hierarquia militar do regime; a nível da
política colonial com o início da Guerra colonial em Angola e a perda do
«estado Português da Índia»94, no final do ano; e na crescente dificuldade de
participação em organismos internacionais como a ONU e a NATO, especialmente ao
nível das relações com os Estados Unidos.
A partir de 1961 a questão colonial torna-se central, e «o factor determinante
da política externa passa a ser a manutenção do império colonial»
95
. Se no início de 1961 as relações bilaterais se deterioram, no ano seguinte e
com o reconhecimento da importância estratégica da Base das Lajes nos Açores,
um curso de aproximação vai tendo lugar. O livro analisa as relações Portugal-
Estados Unidos desde o final da II Guerra Mundial até ao início dos anos 1960,
identificando neste período as mudanças no relacionamento bilateral e o porquê
das mesmas, bem como as implicações concretas que estas tiveram. O trabalho faz
uma chamada de atenção para as vicissitudes na relação bilateral e para o facto
de a política colonial portuguesa e do regime ditatorial não se coadunarem com
as abordagens da política externa dos estados unidos, contribuindo para uma
leitura mais adequada dos processos de (des)continuidade inerentes à relação
bilateral e ao modo como estes têm implicações na política externa portuguesa
da altura.
Tiago Moreira de Sá trabalha as relações entre Portugal e os Estados Unidos no
período da transição democrática portuguesa, centrando o estudo entre 25 de
Abril de 1974 e 23 de Julho de 1976, aquando da tomada de posse do I Governo
constitucional. O estudo centra-se na intervenção de Washington no processo de
transição e portanto «na luta entre aqueles que queriam um regime comunista
alinhado com a URSS, os que pretendiam um socialismo de inspiração terceiro-
mundista e os que propugnavam uma democracia representativa alinhada com o
ocidente»96. Este trabalho analisa as políticas dos estados unidos e o seu
impacto no processo de democratização, focando na dimensão externa do processo
de transição, num quadro de Guerra Fria.
O estudo conclui que os Estados Unidos se envolveram de facto no processo de
transição, através do seu apoio às forças político-militares anticomunistas, e
da concessão de ajuda política e económica aos partidos democráticos.
Simultaneamente, pressionaram as autoridades portuguesas, especialmente a nível
militar, com a ameaça de isolamento e eventualmente exclusão da NATO, mas
também através da «arma económica», tornando os apoios dependentes da
consolidação de um regime democrático no poder; e pressionaram também a URSS
com a questão de suspensão da política de dissuasão e dos acordos de Helsínquia
caso esta não cessasse o seu apoio ao Partido Comunista Português
97
.
O autor sublinha, no entanto, que os desenvolvimentos internos foram
fundamentais na orientação do apoio dos Estados Unidos à transição, assumindo a
inter-relação entre as dinâmicas internas e o envolvimento dos Estados Unidos
no processo. Fica ainda claro no estudo que a política dos Estados Unidos não
foi coesa ao longo deste período, mostrando-se mais activa a partir do momento
em que dois membros do Partido comunista são incluídos no I Governo Provisório
que tomou posse em Maio de 1974 (Álvaro Cunhal e Avelino Gonçalves). A
percepção deste desenvolvimento num país da aliança atlântica leva a um maior
envolvimento de Washington que, apesar de não ter sido imediato, foi
gradualmente ganhando consistência, com o objectivo claro de «impedir a tomada
de poder pelos comunistas e contribuir para a instauração da democracia»
98
.
Num registo mais actual, Rui Machete comenta os aspectos mais relevantes do
estado presente e das perspectivas futuras das relações luso-americanas. O
autor destaca como temas principais nas relações de Portugal com os Estados
Unidos a língua portuguesa, a cooperação científica e tecnológica, a economia e
a elevação do estatuto das comunidades portuguesas e dos luso-americanos nos
Estados Unidos. Rui Machete afirma ser difícil enquadrar teoricamente as
relações entre Portugal e os Estados Unidos, sendo o primeiro um pequeno país
da UE. No entanto, defende a importância que tem a análise destas relações, uma
vez que os interesses de Portugal nos Estados Unidos não se esgotam nos
interesses da UE e dos Estados Unidos, assim como os interesses dos Estados
Unidos em Portugal não correspondem exactamente aos interesses que os Estados
Unidos têm em relação à UE.
99
O autor vê no crescente interesse dos estados unidos em relação ao continente
africano uma oportunidade para Portugal, através do fomento de relações
trilaterais com os países africanos de língua oficial portuguesa. Neste
contexto, o autor considera que a CPLP pode desempenhar um papel mais activo de
triangulação de relações100. Deste modo, relativamente à CPLP, Machete defende
que esta deve também ser operacionalizada de forma a aproveitar os vínculos
entre Portugal e o Brasil, estimulando uma relação trilateral entre Portugal, o
Brasil e os estados Unidos101. No que toca ao Mediterrâneo ocidental, o autor
prevê que as questões migratórias e de segurança possam também abrir portas
para a cooperação luso-americana
102
.
António Bustorff analisa as relações de Portugal com os países da América do
Sul e Central, com destaque para o Brasil. O autor faz algumas recomendações
para que Portugal aproveite as oportunidades de política externa geradas pelo
recente fluxo de investimento português no Brasil, nomeadamente valorizar e
contribuir para a consolidação dos factores de identidade cultural: história,
língua, património artístico comum; apoiar as associações e agremiações locais
de origem portuguesa; incentivar as empresas portuguesas vocacionadas para o
comércio internacional a actuarem como plataforma de distribuição na UE de
produtos de origem brasileira oriundos do Mercosul
103
.
Também Leonardo Mathias analisa as relações de Portugal com esta região
geográfica, argumentando que falar de Portugal na América do Sul e Central é
fundamentalmente falar da relação com o Brasil. Segundo o autor, a
especificidade das relações entre Portugal e o Brasil teve a sua origem na ida
da corte portuguesa para o Brasil em 1807104. O Autor vê na criação da CPLP um
exemplo da renovação de laços entre portugueses e brasileiros no quadro de
desenvolvimento de instrumentos modernos de acção política
105
. Para além das relação com o Brasil e com a CPLP, o autor considera que as
cimeiras ibero-americanas e o diálogo político, económico e de cooperação
existentes entre a UE e diversas instituições do mundo latino-americano
(Mercosul, Grupo do rio, etc.) deram a Portugal ampla visibilidade e campo de
intervenção naquelas áreas e acrescentaram renovadas responsabilidades em
termos de política externa.
Um apontamento final
Este ensaio bibliográfico, reunindo contributos diversos, permite a
identificação de tendências e dinâmicas na política externa portuguesa, nas
suas dimensões temporal e espacial, traçando um quadro abrangente de leitura da
mesma. A revisão da bibliografia seleccionada para este exercício aponta como
enfoque fundamental da análise da política externa portuguesa, a sua
contextualização histórica, com destaque para o período colonial, e de modo
particular as relações de Portugal com a Grã-Bretanha, condicionante central da
política externa portuguesa. A relação de vizinhança com a Espanha constitui
também um elemento preponderante, num espectro alargado de análise que vai do
perigo espanhol à oportunidade das relações ibéricas.
Na identificação dos vectores tradicionais de política externa, a procura
constante de equilíbrio entre as relações com a Europa e com os estados unidos,
surge também como preocupação central. Esta procura de equilíbrio reflecte a
visão de que a integração europeia não deve constituir obstáculo às relações
transatlânticas, uma questão que é tratada extensivamente na bibliografia
revista no caso específico de desenvolvimento e consolidação da PESC/PESD,
actualmente PCSD. O entendimento geral é o de que Portugal tem a beneficiar na
articulação destas relações, pela posição privilegiada que pode ocupar como
ponte entre estes dois contextos.
Adicionalmente, o texto identifica, com base na bibliografia analisada, novos
vectores na política externa portuguesa, não necessariamente no seu contorno
temático, mas particularmente devido ao novo enquadramento definido para estas
relações, nomeadamente no que concerne à relação com a CPLP. De facto, apesar
da relação com as antigas colónias ser um tema dominante na história da
política externa portuguesa, devido aos laços históricos e culturais,
actualmente esta relação reveste-se de uma nova dinâmica, devido à sua
institucionalização. A focalização e as dinâmicas que sublinham a relação de
Portugal com os países da CPLP apontam para a definição de cooperação reforçada
em matérias económicas e políticas. E novos temas não deixam também de marcar a
agenda da política externa portuguesa, com o Mediterrâneo, por exemplo, a
emergir como uma área de actuação cada vez mais relevante.
Este exercício de revisão permitiu ainda a identificação de linhas de análise
negligenciadas e que podem constituir importantes avenidas de investigação
futura. Um primeiro aspecto prende-se com o enfoque que os trabalhos
desenvolvidos dão aos temas tradicionais de política externa, deixando ampla
margem para a análise de temas menos convencionais, mas que não deixam de ser
relevantes na definição e implementação da política externa portuguesa.
Exemplos que incluem as relações com os países do Magrebe, uma área geográfica
que tem sido alvo de maior atenção por parte da diplomacia portuguesa; relações
bilaterais no quadro da ue, em temas de preocupação partilhada, como as
migrações, entre outros; e mesmo o papel de Portugal no quadro institucional da
UE, em termos de áreas a promover, e das pontes e experiências com que Portugal
pode contribuir, potenciando a sua projecção a nível externo.
Também interessante é o facto de apesar de as relações com os países africanos
e com o Brasil (ou mesmo no âmbito da CPLP) serem referidas como importantes e
utilizadas essencialmente numa lógica contextual, as análises dos processos que
lhes subjazem e das linhas caracterizadoras destas relações, em quadros bi ou
multilaterais não serem aprofundadas. Claramente, existe neste âmbito espaço
para o desenvolvimento de contributos especializados.
Finalmente, a teorização sobre política externa, identificando os actores
fundamentais responsáveis pelo desenho e implementação de políticas, e a sua
relação com outros agentes activos nestas matérias, incluindo grupos económicos
e sociedade civil
106
, bem como analisando as dinâmicas endógenas ao processo de construção da
política externa, é praticamente inexistente na bibliografia revista. Além do
mais, estudos sobre a inter-relação dos contextos interno e internacional na
óptica da modelação da decisão e implementação da mesma, permanecem também
pouco explorados. Este parece-nos, no entanto, um exercício fundamental para a
compreensão dos processos e do alcance das medidas adoptadas, permitindo uma
melhor sistematização de áreas temáticas, zonas geográficas, contextos
institucionais, agentes, e outros, em matéria de política externa. Apontamentos
que ficam para reflexão futura.
Notas
1
MOREIRA, Adriano ' "O Papel da Política Externa Portuguesa no Mundo
Contemporâneo", In Visões de Política Externa Portuguesa. Lisboa:
Sociedade de Geografia de Lisboa e Instituto Diplomático do Ministério dos
Negócios Estrangeiros, 2005, pp. 13-20.
2
Ibidem, p. 13.
3
Ibidem, p. 14.
4
Ibidem.
5
Ibidem, p. 15.
6
LOPES, Ernâni Rodrigues ' "Portugal e a União Europeia", In Visões de
Política Externa Portuguesa. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa e
Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2005, pp. 38-39
7
PEREIRA, Manuel Fernandes ' "Política Externa Portuguesa e Política
Externa e de Segurança Comum da União Europeia", In Negócios Estrangeiros,
9.1, 2006, pp. 134-145
8
Ibidem, p. 134.
9
CATARINO, Pedro ' "Interesses Portugueses na América do Norte", In
Visões de Política Externa Portuguesa. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa
e Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2005, p. 54.
10PALMEIRA, José ' O Poder de Portugal nas Relações Internacionais. Lisboa:
Prefácio, 2006.
11PALMA, Elisabete Cortes ' Cultura, Desenvolvimento e Política Externa - Ajuda
Pública ao Desenvolvimento nos Países Africanos Lusófonos. Lisboa: Ministério
dos Negócios Estrangeiros, 2006, p. 28
12
Ibidem
, p. 37.
13SAMPAIO, Luís de Almeida ' "As relações de Portugal com África - A
Cooperação para o Desenvolvimento e o seu lugar central na Política Externa
Portuguesa", in Visões de Política externa Portuguesa, p. 117.
14MACHETE, Rui Chancerelle de e VICENTE, António Luís ' Língua e cultura na
política externa portuguesa: o caso dos Estados Unidos da América. Lisboa:
Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2010, p. 11
15Abrimos um parêntesis para referir o trabalho Portugal e o Magrebe (séculos
XVIII/XIX), de Eva-Maria von Kemnitz, que aborda as relações de Portugal com
Marrocos e as regências de Argel, Tripoli e Tunes desde o século XVIII ao
século XIX. A obra identifica os principais actores da diplomacia portuguesa na
relação com esta região. O estudo conclui que durante o advento da colonização
Portugal não participou na ocupação territorial nem no processo de colonização
do Magrebe, mantendo um relacionamento de boa vizinhança com Marrocos e com as
regências, consentâneo com o espírito dos tratados celebrados, vide KEMNITZ,
Eva-Maria von ' Portugal e o Magrebe (séculos XVIII/XIX). Pragmatismo, inovação
e conhecimento nas relações diplomáticas. Lisboa: Ministério dos Negócios
Estrangeiros, 2010, p. 322.
16BONIFÁCIO, Maria de Fátima ' "Relações Externas e Revolução Liberal.
Séculos XVII-XIX", In ALMEIDA, João Marques de e RAMOS, Rui (org.) '
Revoluções, Política Externa e Política de Defesa em Portugal - Séc. XIX-XX.
Lisboa: Instituto de Defesa Nacional e Edições Cosmos, 2008.
17RAMOS, Rui ' "A Revolução Republicana de 1910 e a Política Externa
Portuguesa", In ALMEIDA, João Marques de e RAMOS, Rui (org.) ' Revoluções,
Política Externa e Política de Defesa em Portugal - Séc. XIX-XX. Lisboa:
Instituto de Defesa Nacional e Edições Cosmos, 2008
18
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MARTINS, Fernando (org.) ' Diplomacia & Guerra. Política Externa e Política
de Defesa em Portugal do Final da Monarquia ao Marcelismo. Actas do I Ciclo de
Conferências. Lisboa: Edições Colibri e CIDEHUS-UE, 2001, p. 45
19
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ao Marcelismo. Actas do I Ciclo de Conferências. Lisboa: Edições Colibri e
CIDEHUS-UE, 2001, pp. 70-71
20FARINHA, Luís ' "Política Externa e Política de Defesa: do Sidonismo à
Ditadura Militar", In MARTINS, Fernando (org.) ' Diplomacia & Guerra.
Política Externa e Política de Defesa em Portugal do Final da Monarquia ao
Marcelismo. Actas do I Ciclo de Conferências. Lisboa: Edições Colibri e
CIDEHUS-UE, 2001, pp. 97-98
21
Ibidem
, p. 98.
22MARTINS, Fernando ' "Uma Revolução Tranquila? Da Política Externa da
Guerra Civil de Espanha ao Pacto do Atlântico", in MARTINS, Fernando
(org.) ' Diplomacia & Guerra. Política Externa e Política de Defesa em
Portugal do Final da Monarquia ao Marcelismo. Actas do I Ciclo de Conferências.
Lisboa: Edições Colibri e CIDEHUS-EU, 2001, p. 157
23
Ibidem
, p. 161.
24OLIVEIRA, Pedro Aires ' "Continuidade e Mudança na Política Externa
Portuguesa após o 28 de Maio", in ALMEIDA, João Marques de e RAMOS, Rui
(org.) ' Revoluções, Política Externa e Política de Defesa em Portugal - Séc.
XIX-XX.
25LEITÃO, Nicolau Andresen ' Estado Novo, Democracia e Europa, Lisboa: ICS,
2007, p. 21
26
Ibidem
.
27
Ibidem
, p. 23.
28
Ibidem
.
29BARROSO, Luís Machado ' Salazar e Ian Smith: O Apoio de Portugal à Rodésia
(1964-1968). Lisboa: Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2009, p. 16.
30
Ibidem
, pp. 16-17.
31
Ibidem
, p. 23.
32SANTOS, Victor Marques dos ' A Questão Africana e as Relações Luso-
Britânicas. 1884-1914. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e
Políticas, 2007, p. 58.
33
Ibidem
, pp. 61-62.
34
Ibidem
, p. 81.
35
Ibidem
, p. 100.
36
Ibidem
, p. 110.
37
Ibidem
, p. 153.
38
Ibidem
, p. 165.
39PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno Severiano ' "Portugal e a
integração europeia, 1945-1986", In PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno
Severiano (org.) ' A Europa do Sul e a Construção da União Europeia de 1945 aos
anos 80. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005, p.34.
40JESUS, José Manuel Duarte de ' "As relações de Portugal com a China
através dos séculos: um diálogo assimétrico, ambíguo e por vezes
incoerente", In Visões de Política Externa Portuguesa, p. 295
41
Ibidem
, p. 295.
42
Ibidem
.
43TELO, António José ' «A Dualidade de um Espaço Comum», In Visões de Política
Externa Portuguesa, p. 198
44
Ibidem
, p. 199.
45
Ibidem
, pp. 200-201.
46AMADO, Luís ' "Portugal e Espanha", In Visões de Política Externa
Portuguesa, p. 213.
47
Ibidem
, pp. 214-215.
48
Ibidem
, p. 215.
49TELO, António José e GÓMEZ, Hipólito de la Torre ' Portugal e Espanha nos
sistemas internacionais contemporâneos. Lisboa: Edições Cosmos, 2000, p. 15
50
Ibidem
, p. 17.
51
Ibidem
, p. 141.
52
Ibidem
, p. 319.
53
Ibidem
, p. 321.
54SEABRA, Maria João ' «The Portuguese-Spanish Relationship», in VASCONCELOS,
Álvaro de e SEABRA, Maria João (org.) ' Portugal: A European Story. Lisboa:
Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais e Principia, 2000, p. 189.
55PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno Severiano ' "Portugal e a
integração europeia, 1945-1986", In PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno
Severiano (org.) ' A Europa do Sul e a Construção da União Europeia de 1945 aos
anos 80. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005, p. 20.
56
Ibidem
, p. 20.
57
Ibidem
, pp. 21-22.
58CASTRO, Francisco ' "Do Plano Marshall ao Acordo com a CEE", In
MARTINS, Fernando (org.) ' Diplomacia & Guerra. Política Externa e Política
de Defesa em Portugal do Final da Monarquia ao Marcelismo. Actas do I Ciclo de
Conferências. Lisboa: Edições Colibri e CIDEHUS-UE, 2001, p. 188.
59PINTO, António Costa, e TEIXEIRA, Nuno Severiano ' «Portugal e a integração
europeia, 1945-1986», pp. 32-33.
60RATO, Vasco ' "A Revolução de Abril na Política Externa", In
ALMEIDA, João Marques de e RAMOS, Rui (org.) ' Revoluções, Política Externa e
Política de Defesa em Portugal - Séc. XIX-XX.
61PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno Severiano ' «Portugal e a integração
europeia, 1945-1986», p. 35
62BRITO, Nuno Filipe ' Política Externa Portuguesa. O Futuro do Passado, In
Relações Internacionais, n.º 5, 2005, p. 147
63COSTA, Francisco Seixas da ' Uma Segunda Opinião: Notas de Política Externa e
Diplomacia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006, p. 29
64
Ibidem
, p. 29.
65
Ibidem
, p. 30.
66COSTA, Francisco Seixas da ' «A European Vocation», In VASCONCELOS, Álvaro de
e SEABRA, Maria João (org.) ' Portugal: A European Story, p. 7
67VASCONCELOS, Álvaro de ' "Portugal: The European Way", In
VASCONCELOS, Álvaro de e SEABRA, Maria João (org.) ' Portugal: A European
Story.
68
Ibidem
, p. 32.
69VALLERA, João de ' «The Negotiating Process», In VASCONCELOS, Álvaro de e
SEABRA, Maria João (org.) ' Portugal: A European Story.
70PEREIRA, Rui ' "A Vertente Europeia-Continental e a Vertente Atlântico-
Global na Política Externa Portuguesa", In Nação e Defesa, 116, 2007, pp.
107-115
71MACHETE, Rui Chancerelle de ' Sobre as Relações Portugal - Estados Unidos.
Lisboa: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2010, p. 42
72
TEIXEIRA, Nuno Severiano ' O 25 de Abril e a Política Externa Portuguesa, In
Relações Internacionais, n.º 1, 2004, p. 11
73
Ibidem, p. 12.
74VASCONCELOS, Álvaro de ' «Portugal: The European Way», p. 30.
75
Ibidem
, p. 32.
76VALLERA, João de ' «The Negotiating Process».
77PEREIRA, Manuel Fernandes ' «Política Externa Portuguesa e Política Externa e
de Segurança Comum da União Europeia», In Negócios Estrangeiros, 9.1, 2006, p.
136.
78MOITA, Luís (org); TELES, Patrícia Galvão; ABREU, Marisa; TOMÉ, Luis '
Política Externa Europeia? Consequências para Portugal. Lisboa: Observatório de
Relações exteriores, UAL, 2007, p. 201.
79COSTA, Francisco Seixas da ' Uma Segunda Opinião: Notas de Política Externa e
Diplomacia.
80
Ibidem
, p. 67.
81PEREIRA, Manuel Fernandes ' «Política Externa Portuguesa e Política Externa e
de Segurança Comum da União Europeia», p. 136.
82
Ibidem
, p. 138.
83
Ibidem
, p. 144.
84
Ibidem
, p. 145.
85PEREIRA, Rui ' "A Vertente Europeia-Continental e a Vertente Atlântico-
Global na Política Externa Portuguesa", In Nação e Defesa, 116, 2007, pp.
107-115.
86
Ibidem
.
87LOPES, Ernâni Rodrigues ' «Portugal e a União Europeia», in Visões de
Política Externa Portuguesa, pp. 38-39
88
Ibidem
, p. 38.
89CATARINO, Pedro ' «Interesses Portugueses na América do Norte», in Visões de
Política Externa Portuguesa, p. 54
90PINTO, António Costa e TEIXEIRA, Nuno Severiano ' «Portugal e a integração
europeia, 1945-1986», p. 26.
91
Ibidem
, p. 26.
92RODRIGUES, Luís Nuno ' «A 'Solidão' na Política Externa Portuguesa no Início
da Década de 60: O Caso dos Estados Unidos». in martins, Fernando (org.) '
diplomacia & Guerra. Política externa e Política de defesa em Portugal do
Final da Monarquia ao Marcelismo. actas do I Ciclo de Conferências, pp. 189-
224.
93RODRIGUES, Luís Nuno ' Salazar-Kennedy : a crise de uma aliança. As relações
luso-americanas entre 1961 e 1963. Lisboa: Editorial Notícias, 2002, p. 8.
94
Ibidem
.
95
Ibidem
, p. 9.
96SÁ, Tiago Moreira de ' Os Estados Unidos da América e a democracia Portuguesa
(1974-1976). Lisboa: Ministério dos Negócios Estrangeiros, Instituto
Diplomático, 2009.
97
Ibidem
, p. 505.
98
Ibidem
, p. 513.
99
MACHETE, Rui Chancerelle de ' Sobre as Relações Portugal - Estados Unidos, p.
38.
100
Ibidem
, p. 26.
101
Ibidem, p. 27.
102
Ibidem, p. 26.
103
BUSTORFF, António Espírito Santo ' «Portugal na América do Sul e Central», In
Visões de Política Externa Portuguesa.
104
MATHIAS, Leonardo ' «Portugal na América do Sul e Central», in Visões de
Política Externa Portuguesa, p. 81.
105
Ibidem, p. 84.
106
cf. MACHETE, Rui Chancerelle de e VICENTE, António Luís ' Língua e cultura na
política externa portuguesa: o caso dos Estados Unidos da América.
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