A campanha portuguesa para o Conselho de Segurança
A campanha portuguesa para o Conselho de Segurança
Nota prévia
Ao longo deste último ano, e com menor intensidade durante um par de anos antes
disso, dediquei uma parte importante do meu tempo de trabalho à campanha
portuguesa para o Conselho de Segurança das nações unidas (CSNU). Pareceu-me
pertinente publicar esta memória descritiva das várias etapas, argumentos,
estratégias e métodos de trabalho, partilhando ao mesmo tempo uma curta análise
dos resultados obtidos. Espero que este meu contributo tenha alguma utilidade
para os investigadores que trabalham sobre política externa portuguesa, e em
particular sobre a organização das nações unidas (ONU), ou quiçá até para
alguma outra campanha futura. Este é o ponto de vista de alguém directamente
envolvido, o que desde logo exclui qualquer veleidade de isenção, mas procurei
ser justo e tão exaustivo quanto possível. Quero, nesta nota prévia, deixar uma
palavra de especial reconhecimento para o meu gabinete, por todo o apoio que me
deu no âmbito do meu envolvimento na campanha, e quero destacar, em particular,
o trabalho do Dr. Pedro courela, que fez comigo muitas dezenas de milhares de
quilómetros de viagens em demanda de amigos e de votos. Este texto é dedicado,
naturalmente, a todos aqueles que contribuíram para esta extraordinária
campanha.
A génese da candidatura
A decisão de Portugal apresentar uma nova candidatura surgiu pouco tempo depois
da nossa anterior presença no Conselho de Segurança das nações unidas (CSNU).
Várias razões terão estado seguramente presentes no espírito do ministro Jaime
Gama e da equipa que o aconselhava, e também do primeiro-ministro antónio
Guterres, cuja anuência a este projecto era essencial. Primeiro, a presença de
Portugal no Conselho de Segurança, no biénio 1997-1998, tinha sido bem-
sucedida. A diplomacia portuguesa mostrara a sua capacidade de trabalhar neste
círculo dos «grandes», dando provas de profissionalismo e de competência nas
questões de gestão global que não tocavam directamente em interesses nacionais
' na liderança do comité de sanções sobre o Iraque, por exemplo ' e com
perspicácia e utilidade directa, quando surgiu uma questão que envolvia
inevitavelmente Portugal, o conflito na Guiné-Bissau a partir de Junho de 1998.
Portugal saiu prestigiado desse exercício, e teve uma extraordinária
oportunidade de utilizar esse prestígio quase de imediato, quando o processo de
Timor Leste registou desenvolvimentos inesperados, com a abertura de um
processo negocial. Ao longo de vários meses, durante o ano de 1999, Portugal
pôde utilizar os valiosos contactos estabelecidos no CSNU para ajudar a
resolver aquele que era o seu problema internacional mais enquistado e difícil.
Ou seja, ficou então muito claramente vincada a ideia de que as características
da inserção de Portugal no sistema internacional aconselhavam a um envolvimento
activo do nosso país na gestão das questões multilaterais, como forma de
reforçar uma voz que, de outro modo, teria dificuldade em se fazer ouvir.
Segundo, a anterior experiência representava quase que um reconhecimento da
maioridade internacional da jovem democracia portuguesa. Com efeito, Portugal
já tinha marcado presença anterior no CSNU, em 1979-1980, mas essa presença
funcionara quase como uma simples recompensa pela normalização democrática do
País. Entretanto, Portugal começara a participar em missões de paz com mandatos
das nações unidas, já tinha presidido com sucesso às comunidades europeias em
1992, e no momento do anúncio da nova candidatura, em Janeiro de 2000, viviam-
se os primeiros dias da segunda presidência portuguesa da união europeia (UE).
A actividade diplomática portuguesa tinha ganho intensidade, e a escolha do
Professor Freitas do Amaral para presidir à 50.ª sessão da Assembleia Geral das
nações unidas representava a confirmação do prestígio português em nova York.
Também por esta via, a diplomacia portuguesa tinha aprendido que uma postura de
activa participação nos principais debates internacionais era aquela que mais
favorecia a defesa e promoção dos interesses nacionais.
Por fim, era também relevante o facto de, em Outubro de 1996, na votação para
os dois lugares disponíveis para o Western European and Others Group (WEOG )1,
Portugal ter conseguido ser eleito, apesar de enfrentar dois candidatos de
peso, a Suécia e a Austrália, com a dificuldade acrescida de haver um acordo de
apoio mútuo entre essas duas candidaturas, que se traduzia não apenas numa
troca de votos, mas em campanha efectiva pelo voto na dupla suécia-austrália
2
. A eleição de Portugal, em detrimento da Austrália, reforçou a autoconfiança
da diplomacia portuguesa, consolidando a convicção de que, em termos
diplomáticos, Portugal podia efectivamente aspirar a um grau de influência
bastante superior àquele que resultaria da computação tradicional dos chamados
elementos de poder (a dimensão do PIB e das forças armadas, da população e do
território, até mesmo a própria extensão da rede diplomática, entre outros).
Por estas várias razões, fazia sentido avançar com uma nova candidatura ao
Conselho de Segurança. Mas a candidatura não era propriamente temerária. O
momento da eleição distava mais de uma década e, nesse momento, não havia sinal
de nenhum outro candidato para o biénio 2011-2012. Na ONU, há sempre vantagem
em anunciar cedo uma candidatura. e além disso, uma candidatura fornecia-nos
tema de conversa com numerosos interlocutores, subsistindo no entanto muito
tempo para uma eventual retirada com dignidade, no caso de se concluir que a
candidatura era inconveniente. Assim foi, portanto, que a 5 de Janeiro de 2000
se anunciou que Portugal era novamente candidato a um lugar no Conselho de
Segurança.
Os primeiros anos da candidatura e o aparecimento de outros candidatos
De início, o anúncio da candidatura portuguesa não passou de um exemplo de
sinalética diplomática, para marcar publicamente posição, mas ainda sem grandes
consequências no plano da actividade diplomática ou política portuguesas.
Aliás, todo o esforço da política externa portuguesa, no primeiro semestre de
2000, seria absorvido pela presidência da UE.
No plano estritamente administrativo, e no âmbito das habituais barganhas
diplomáticas, incluiu-se a candidatura ao Conselho de Segurança nas nossas
propostas de troca de apoios. De facto, as candidaturas nacionais a posições de
representação em instituições internacionais são, por hábito, objecto de um
processo de troca de apoios.
O mérito individual do candidato tem alguma relevância, quer se trate de uma
candidatura de uma personalidade com o seu currículo pessoal, ou de um país que
assume determinadas posições relacionadas com a matéria em apreço. A apreciação
do mérito individual do candidato tem maior peso nas matérias claramente
políticas do que nas matérias mais técnicas mas, em qualquer dos casos, existe
sempre um registo de troca de apoios que tem grande influência na formulação de
uma posição de voto, e existe com frequência uma formalização diplomática de
trocas de apoios, particularmente no universo das Nações Unidas.
No caso do Conselho de Segurança, existem particularidades. Primeiro, o voto é
secreto e é exercido pelo representante permanente em Nova York (ou alguém em
quem ele delegue). Isto significa que uma troca de apoios equivale apenas a uma
palavra dada, verbalmente ou por escrito, e não a uma garantia absoluta. A
situação é naturalmente diferente no caso das votações em que o sentido de voto
de cada país é público e conhecido. Segundo, o voto para o Conselho de
Segurança é considerado o apoio eleitoral mais importante no âmbito das nações
unidas, o que significa que uma troca para o CSNU é mais segura se tiver por
base um apoio mútuo. Em muitos casos, o interlocutor não é candidato ao
Conselho de Segurança num horizonte de razoabilidade
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, o que significa que a troca tem de contemplar eleições para outros órgãos, e
normalmente para mais do que um. E há também muitos casos, sobretudo de países
mais pequenos e pobres, em que não se prevê nenhuma candidatura, não havendo
assim bases para negociar uma reciprocidade de apoios.
A nossa candidatura algo madrugadora dava à abordagem diplomática, que nessa
fase se desenvolvia apenas no enquadramento proporcionado por outros assuntos
bilaterais, o mérito de ser o primeiro pedido de apoio para o biénio 2011-2012.
Ou seja, a resposta que recebíamos comportava, frequentemente, uma tendência
positiva, porque não havia então rivais para o lugar. Mas, ao mesmo tempo, os
compromissos raramente eram definitivos, exactamente por causa da distância
temporal, e também porque se sabia que iriam aparecer outros candidatos,
provavelmente mais do que um, sendo portanto demasiado precoce para a
manifestação de posições firmes. De qualquer maneira, a partir de 2006, deixou
de haver candidaturas portuguesas para outros órgãos, de forma a não dispersar
apoios no âmbito deste autêntico mercado de trocas de votos.
Ao contrário daquilo que se passa nos outros grupos, a tradição no WEOG aponta
para a apresentação de mais candidatos do que lugares disponíveis, obrigando
por isso a uma disputa eleitoral envolvendo todos os membros da assembleia
Geral. Embora haja alguns países que consideram que a disputa eleitoral é
positiva, por obrigar os candidatos a exporem ideias e fazerem campanha tal
como numa democracia, a maioria dos membros do grupo discorda e considera que
seria positivo se o WEOG conseguisse, como acontece com outros grupos, promover
um clean slatepara as candidaturas, isto é, um número de candidaturas igual ao
número de lugares em disputa. Contudo, a realidade mostra-nos que o grupo
Ocidental apresenta habitualmente três candidatos para os dois lugares que lhe
são atribuídos no Conselho de Segurança.
Pouco mais de um ano após a declaração da candidatura portuguesa, o Canadá, que
acabara de servir no Conselho de Segurança no biénio 1999-2000, declarou que
também concorreria para o biénio 2011-2012. Para o Canadá, esta candidatura
representava a continuidade da tradição de uma presença no Conselho de
Segurança por cada década. Com efeito, o Canadá estivera no CSNU em 1948-1949,
1958-1959, 1967-1968, 1977-1978, 1989-1990 e 1999-2000, um total de seis
presenças, tendo ganho sempre as eleições a que se apresentara
4
. E para além destas presenças regulares no Conselho de Segurança, o Canadá
tinha uma longa e profunda tradição de compromisso com o sistema multilateral,
contribuindo generosamente para a resolução dos desafios com que as nações
unidas se confrontavam. Em 1957, por exemplo, o ministro dos negócios
estrangeiros canadiano, Lester B. Pearson, recebeu o Prémio Nobel pelo seu
trabalho na criação da missão das nações unidas para o Suez (UNEF), um
contributo que pode ser considerado fundacional, em termos de missões de
manutenção da paz. Em suma, a candidatura canadiana era natural e poderosa, bem
ancorada na tradição histórica e na reputação internacionalista granjeada ao
longo de toda a segunda metade do século XX.
Para Portugal, este desenvolvimento não representava uma ameaça imediata, desde
que não aparecessem outros candidatos, mas, a nove anos de distância do acto
eleitoral, havia amplas possibilidades de que isso viesse a acontecer. O
desafio para a diplomacia portuguesa residia, portanto, em tentar transmitir a
noção de que os dois lugares para o biénio 2011-2012 tinham já dois fortes
candidatos, desencorajando outros que pudessem eventualmente estar
interessados, e sugerindo, desta maneira, que iria ser, finalmente, possível
apresentar um clean slateem nome do WEOG . Assim, Portugal apressou-se a
reconhecer a candidatura canadiana e a propor a troca de votos entre ambas as
candidaturas, o que foi aceite, e neste processo de diálogo os dois países
comprometeram-se a não fazer campanha negativa um contra o outro. Nesse
sentido, consolidava-se a ideia de que nenhuma das candidaturas era controversa
ou contestada, algo que ajudaria em alguma medida a inibir o aparecimento de
outras eventuais candidaturas rivais. Mas, para além disso, pouco havia a fazer
a não ser cruzar os dedos e esperar que não aparecessem outros candidatos.
Quanto mais tempo passasse melhor, porque o eleitorado em causa não aprecia
candidaturas muito tardias, mas havia ainda muito tempo pela frente.
Durante mais de cinco anos, as duas candidaturas mantiveram o clean slate,
aumentando paulatinamente a esperança de que assim se continuaria até à data da
eleição. Aliás, o facto de aparecerem diversas candidaturas no WEOG para
biénios posteriores reforçava Foi com considerável surpresa que se a
possibilidade de haver apenas dois candidatos para os dois lugares disponíveis
naquele biénio, e quando teve início a 61.ª Assembleia Geral, no Outono de
2006, começava a parecer bastante provável que Portugal e Canadá concorreriam
sozinhos. Foi assim com considerável surpresa que se recebeu a notícia da
candidatura da Alemanha, em Novembro de 2006, quase sete anos depois do anúncio
da candidatura portuguesa, e mais de cinco anos após a canadiana. A Alemanha
acabava de servir no conselho, no biénio 2003-2004, e, juntamente com a índia,
o Brasil e o Japão, fazia parte de um quarteto de países que pretendiam ser
membros permanentes do Conselho de Segurança, o G4. Durante o ano de 2005,
houve alguma expectativa quanto à possibilidade de se colocar em marcha um
processo de reforma do Conselho de Segurança que resultasse num aumento do
número de membros permanentes e não permanentes, mas, pelo final do ano, já se
percebia que não havia condições para avançar no formato pretendido pelo G4. Ao
mesmo tempo, desenvolvia-se na UE um debate sobre o aprofundamento da
integração europeia, com consequências importantes em matéria de política
externa, um processo que viria a encontrar a luz do dia no tratado de Lisboa.
Este processo implica alterações na gestão da política externa de todos os
estados-membros da UE, mas para a Alemanha em particular, enquanto candidata a
membro permanente do CSNU, colocava-se a questão de gerir, por um lado, a sua
crescente afirmação no palco internacional com o desenvolvimento de uma
abordagem europeia mais integrada, e, por outro, a percepção por parte de
muitos estados-membros da ONU de que havia uma sobrecarga de presença dos
países europeus no Conselho de Segurança.
Com toda a probabilidade, a decisão alemã terá resultado de uma reflexão sobre
estas duas dinâmicas, a da ONU e a da UE. Tratou-se de uma decisão controversa
em Berlim, que suscitou opiniões divergentes entre o Ministério dos negócios
estrangeiros e a chancelaria, acabando por vencer as teses defendidas na
chancelaria. Do lado do AA, o ministério alemão, existia a percepção de que a
candidatura era muito tardia, e que incorria forçosamente em alguns custos, por
romper o clean slate. Havia também consciência de que a anterior presença no
CSNU, ainda muito recentemente, não favorecia a votação na Alemanha, atendendo
aos critérios de rotatividade. Mas, sobretudo, entendia-se que a atitude não
podia ser vista por Portugal e pelo Canadá como um gesto amistoso. Para estes
dois países, as respectivas candidaturas tinham-se tornado de repente muito
mais complicadas, e muito provavelmente uma delas acabaria por ser eliminada no
processo eleitoral.
O certo é que, em Berlim, venceram os argumentos favoráveis à apresentação de
uma candidatura. No caso de ser eleita, a Alemanha destacar-se-ia de outros
países influentes no sistema internacional ' como o Canadá ', que tinham uma
tradição de presença regular no CSNU, e demonstrava a sua capacidade de voltar
a marcar presença, apenas seis anos depois de deixar o conselho. No fundo, o
objectivo era mostrar que a Alemanha tinha uma projecção internacional que a
colocava num patamar de influência diferente de outros países (nomeadamente, os
que se reuniam no grupo Uniting for Consensus, o que no caso do WEOG implicava
o Canadá, a Itália, a Espanha e os Países Baixos, e no caso dos outros grupos
regionais, incluía, entre outros, a Argentina, o México, a Coreia do Sul e o
Paquistão). Naquele momento, a chanceler Merkel e os seus conselheiros
consideravam importante afirmar muito claramente as pretensões internacionais
da Alemanha. Não havia muitas dúvidas, nem em Berlim nem em Nova York, de que
aquela candidatura seria vitoriosa. Efectivamente, a Alemanha dispõe de enormes
vantagens quanto aos seus instrumentos de política externa. Possui uma rede
diplomática muito extensa
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, tem relacionamentos económicos significativos com muitos países em todos os
continentes, é o segundo maior contribuinte em termos de ajuda pública para o
desenvolvimento, e é um dos principais financiadores das actividades das Nações
Unidas. É, igualmente, um país decisivo na UE, o que faz dela um interlocutor
privilegiado para todos aqueles que têm assuntos a negociar com Bruxelas, seja
no âmbito do alargamento ou do relacionamento da UE com outros continentes.
Resumindo, o jogo mudou inteiramente de figura com a decisão alemã. Para a
maioria dos analistas internacionais, a candidatura da Alemanha era de longe a
mais forte, e, de modo geral, os jornalistas e observadores internacionais que
se dedicam à matéria consideravam que a candidatura canadiana tinha mais
possibilidades do que a portuguesa.
Aliás, há fortes indícios de que era também esta a impressão dominante em Otava
e em Berlim, tanto no momento do anúncio da candidatura alemã, como durante
todo o período até à recta final da campanha. Em Lisboa, houve preocupação, mas
havia também consciência de que tínhamos uma rede de relacionamentos e de
cumplicidades que nos davam algum conforto. Sabíamos que o objectivo seria
difícil, mas também que não estávamos derrotados à partida. A nova realidade
exigiria uma reflexão, no devido momento. Porém, no imediato, toda a diplomacia
portuguesa estava concentrada na preparação da presidência da UE no segundo
semestre de 2007. Com a reflexão adiada, começaram a ganhar forma os principais
argumentos da candidatura portuguesa.
Temáticas e argumentos da campanha portuguesa
O processo de formação do voto é diferente para cada país, e se em alguns casos
se trata de uma decisão simples, em função de um só assunto, em muitos outros
casos entra em jogo um complexo conjunto de factores. Existem, por exemplo,
várias temáticas que são autênticas pedras-de-toque para a formação de alguns
votos, como é o caso do processo de paz no Médio oriente, a adopção ou não de
sanções em relação a determinados países, ou a existência de tensões binárias
(Azerbaijão-Arménia, as duas Coreias, etc.). Em certos casos, um voto pode ser
decidido exclusivamente em função da posição dos candidatos relativamente a
estas questões, em outros casos, essa posição fará parte de um cálculo mais
complexo. o que se definiu a esse respeito foi que Portugal não alteraria as
suas posições de princípio em função de tentações eleitorais. Por importante
que fosse a contenda, uma vitória valeria apenas um biénio no Conselho de
Segurança, enquanto que a consistência e a coerência da nossa política externa
representam valores fundamentais de longo prazo. Além do mais, havia a
convicção de que a nossa política externa era geralmente vista como
equilibrada, com capacidade de interlocução e de diálogo, tanto assim que, em
diversos casos de conflitualidade ou tensão internacional, foi-nos possível
obter a confiança e o voto de ambas as partes. Decidiu-se que a campanha
deveria envolver um diálogo mais aprofundado com países por todo o mundo, com o
intuito de compreender melhor as dinâmicas que animam cada estado no seu
relacionamento internacional, e em particular na sua participação na vida da
ONU. O objectivo era triplo: construir uma relação de confiança e demonstrar
que Portugal é um país que escuta, antes de tomar decisões; dar a conhecer as
posições portuguesas, em alguns casos explicando nuancessignificativas face às
posições europeias; e, também, preparar o terreno para o eventual exercício de
responsabilidades no CSNU.
Para países mais pequenos, com menor ambição e capacidade de influência no
sistema internacional, a disputa eleitoral entre membros do WEOG pode ser uma
oportunidade para a obtenção de benefícios bilaterais, particularmente através
da ajuda pública ao desenvolvimento (APD). Nesse domínio, sabíamos que não
havia qualquer possibilidade de concorrermos com os nossos rivais. A Alemanha é
o segundo maior doador mundial e contribui para o desenvolvimento de numerosos
países, tendo alguma facilidade em financiar projectos que podem fazer uma
grande diferença para países com uma população de uma ou duas centenas de
milhares de habitantes. o Canadá, não estando na mesma escala que a Alemanha,
tem uma APD que é oito vezes superior à nossa
6
. Manifestamente, este era um domínio em que partíamos em desvantagem.
Importava-nos, pois, sublinhar que os votos não devem ser «vendidos» desse
modo, e sugerir que os nossos argumentos quanto àquilo que nos propúnhamos
fazer no Conselho de Segurança podiam ser interessantes, independentemente das
propostas de novos projectos de cooperação feitas pelos nossos rivais.
Portugal tinha o mesmo tipo de desvantagem no que diz respeito a relações
económicas. A existência de fortes laços económicos pode ser um factor
relevante na formação do voto, e, no nosso caso, são relativamente poucos os
países com quem temos um relacionamento económico forte, ao contrário do que
acontecia com os nossos concorrentes. Aqui também, nos diálogos que
mantínhamos, havia que relativizar o valor eleitoral desses laços, ao mesmo
tempo que se procuravam oportunidades de reforçar o relacionamento económico
entre Portugal e outros países. (aliás, resultou desta campanha a identificação
de um conjunto alargado de oportunidades e interesses empresariais, ao qual
importa agora dar seguimento.)
Quanto às trocas de compromissos eleitorais, e com todas as reservas que é
preciso ter e que já foram referidas acima, o certo é que, em finais de 2006,
aquando da apresentação da candidatura alemã, tanto Portugal como o Canadá
dispunham já de um acervo significativo, acumulado nos vários anos que
antecederam a entrada em cena da Alemanha. Para alguns países, o novo contexto
levou à redefinição de compromissos anteriormente assumidos, mas ficou mesmo
assim um importante lastro favorável a Portugal e ao Canadá.
Se eram estas as condições de base da candidatura portuguesa, com alguns
argumentos fortes e outras tantas vulnerabilidades, o certo é que, a partir
daqui, seria decisivo o desenvolvimento de um argumentário geral e uma
metodologia rigorosa de contactos exaustivos com os estados-membros das Nações
Unidas. O argumentário, cujos principais elementos explicarei de seguida,
representa o cruzamento entre os princípios e interesses nacionais, e o
conjunto de temas que poderiam ser eleitoralmente atraentes, e funcionou como
uma espécie de manifesto eleitoral. Em nenhum caso houve linhas de argumentação
que representassem desvios em relação a posições anteriormente defendidas pela
diplomacia portuguesa, mas surgiram em algumas instâncias questões novas, que
não se relacionavam directamente com interesses portugueses, mas que se
identificavam como sendo contributos interessantes, de que Portugal poderia ser
intérprete, a partir do CSNU, em prol do bom funcionamento do sistema
internacional.
PORTUGAL COMO MEMBRO DO G-172
Portugal concorria contra dois dos países membros do G7 (mais tarde G8, com a
entrada da Rússia), e que, por inerência, são também membros do G20, que por
sua vez emergiu da grande crise financeira e económica de 2008-2009 e funciona,
para muitas matérias, como um autêntico directório internacional. Se esta
realidade era vista pela generalidade dos observadores como exemplificativa da
pujança das outras duas candidaturas ' e da relativa fragilidade da candidatura
portuguesa ', cedo foi entendida por Portugal como uma fileira interessante a
explorar. Com efeito, a esmagadora maioria de países não estão representados no
G20: tal como Portugal, fazem parte do «G172».
Tratando-se de uma eleição para um órgão das nações unidas, o argumento
português ia ao encontro da importância de se manter a relevância e
centralidade das nações unidas num contexto de cristalização de novas formas de
gestão da governação global, de que é exemplo a consolidação do G20. Por altura
da segunda cimeira G20, em Março de 2009, o primeiro-ministro Sócrates escreveu
ao Presidente Obama (enquanto anfitrião dessa cimeira) sublinhando a
importância de se criarem mecanismos de consulta e de inclusividade, através de
organizações regionais e outras instituições internacionais. Cartas semelhantes
foram enviadas pelo ministro luís amado a um conjunto de outros interlocutores
internacionais, e esta postura portuguesa foi divulgada em nova York. Para a
cimeira do G20 que se seguiu, em Londres, Sócrates voltou a escrever ao
anfitrião, Gordon Brown, sublinhando a importância da representação da África
no G20. Em 2010, deu-se a coincidência de ser o Canadá a presidir ao G20, o que
era evidentemente entendido pela diplomacia canadiana como uma forma de
demonstrar a influência do seu país. Mas, para Portugal, era também uma
oportunidade de reforçar a nossa linha de argumentação sobre a falta de
representatividade do G20. Na linha das cartas anteriores, Sócrates escreveu ao
primeiro-ministro Harper, apelando à atenção do G20 para as questões africanas,
para a relação entre o combate às alterações climáticas e a promoção do
desenvolvimento, e para a necessidade de se caminhar no sentido de uma
regulação financeira internacional mais transparente, equitativa e previsível.
Em termos pragmáticos, esta postura serviu de exemplo concreto da
disponibilidade de Portugal para dar voz às preocupações de muitos daqueles que
não se sentam à volta da mesa do G20. Em numerosas conversas no âmbito da
campanha, foi sublinhada ' frequentemente, de forma espontânea pelos nossos
interlocutores ' a inconveniência de se elegerem simultaneamente dois membros
G20 para o Conselho de Segurança. Na prática, a qualidade de membro do «G172»,
que os outros dois candidatos não podiam invocar, acabou por ser de grande
utilidade para a candidatura portuguesa. Confrontados com a questão de saber
qual dos três candidatos poderia mais fielmente compreender e transmitir as
suas preocupações sobre o funcionamento do sistema internacional, muitos países
olhavam com simpatia para Portugal. Assim, o que à primeira vista podia parecer
uma fragilidade, funcionou afinal como um importante trunfo.
ROTATIVIDADE
O sentimento de marginalização de muitos pequenos estados em relação às grandes
questões do sistema internacional foi percebido pela diplomacia portuguesa ' em
particular, pela missão em Nova York ' como tratando-se de um tema que nos era
potencialmente favorável. Um dos argumentos relacionados com esta temática
dizia respeito à necessidade de zelar pela rotatividade nos postos eleitos,
como forma de assegurar a plena e equitativa participação de todos os estados-
membros. Em cada grupo regional existem dinâmicas próprias, mas em todos eles é
perceptível a ideia de que o princípio da igualdade soberana dos estados não se
reflecte na participação no CSNU. Ora, Portugal concorria a um terceiro
mandato, enquanto o Canadá se candidatava a um sétimo mandato e a Alemanha a um
quinto mandato (sexto, se incluirmos a presença da RDA por uma vez), sendo que
as duas Alemanhas apenas entraram nas nações unidas em 1973. Acresce que tanto
a Alemanha como o Canadá faziam referência pública ao seu interesse numa
presença frequente no CSNU, como já se viu, e ambos os países haviam servido no
CSNU mais recentemente do que Portugal. Do ponto de vista da promoção da
rotatividade, um princípio importante para muitos estados-membros, Portugal era
claramente o país com os melhores argumentos.
REPRESENTATIVIDADE
Sendo, sem dúvida, o local onde se tomam as decisões mais difíceis e
significativas de todo o sistema da ONU, o CSNU é também um local pouco
acessível para quem não seja membro permanente ou temporário. Os membros
permanentes gozam o privilégio, outorgado há mais de seis décadas, de terem
assento no centro das decisões em permanência. Aos membros temporários é
facultada a cortesia de poderem partilhar e testemunhar uma parte dessa
responsabilidade, por um par de anos
7
. Ora, nestas circunstâncias, é evidente que há todo o interesse em promover
uma maior circulação de informações e transmissão de ideias entre o conselho e
a assembleia Geral, e quem melhor se posiciona para desempenhar esta tarefa são
os membros eleitos, que se submetem regularmente ao escrutínio eleitoral dos
seus pares. Contudo, é frequentemente criticada, em Nova York, a tendência de
países para «desaparecerem» da Assembleia Geral, uma vez eleitos. Isto é, a
intensidade de reuniões no âmbito do CSNU leva a que, em muitos casos, os
recursos diplomáticos dos membros temporários sejam quase integralmente
absorvidos por esse trabalho, o que os impede assim de participar activamente
em outras matérias. Por conseguinte, tende a haver uma redução dos contactos
entre os membros eleitos e os representantes de outros países, o que não
concorre para a boa circulação de informação, ou para o exercício de uma função
de real representatividade por parte dos eleitos.
A missão em Nova York identificou, certeiramente, este problema como sendo de
potencial interesse eleitoral, além de corresponder a um interesse genérico
português.
Com efeito, já em 1997-1998 Portugal tinha procurado melhorar a transparência e
a circulação de informação, porque o nosso interesse é melhor servido por um
sistema internacional inclusivo, sem que isso se sobreponha à eficácia. Afinal
de contas, os momentos de participação no CSNU são muito excepcionais na
política externa portuguesa, mal seria se os tomássemos como norma.
Em resposta a esta questão, o embaixador Moraes Cabral elaborou uma agenda de
consultas regulares com diferentes agrupamentos de estados, para que a
participação portuguesa no CSNU pudesse ser um factor de intensificação do
relacionamento entre o CSNU e esses estados. Com uma periodicidade mensal
indicativa, a ideia era fazer que estas reuniões funcionassem como um
briefingsobre as actividades e os debates no conselho, e para uma troca de
informações e ideias sobre os temas que previsivelmente estariam sobre a mesa,
nos tempos mais próximos. Sendo uma proposta obviamente benéfica para os
participantes nas reuniões, também apresentava vantagens do lado português,
pois permitiria manter um certo grau de proximidade com as preocupações dos
membros do colectivo. Este conhecimento reforçaria a nossa capacidade de
intervenção no conselho. Tratava-se, evidentemente, de uma proposta que iria
consumir uma parte importante do tempo diplomático disponível, mas era ao mesmo
tempo uma forma clara e interessante de sublinharmos um importante ponto da
nossa campanha: Portugal propunha-se ser eleito para o CSNU, não para promover
os seus interesses mais particulares ou imediatos ' não temos sequer a escala
ou a força de instrumentos para o fazer ', mas antes para contribuir para o bom
funcionamento do sistema internacional. Nessa matéria também, a nossa
candidatura distinguia-se das demais, de uma forma que era atractiva para
muitos dos nossos interlocutores.
A REFORMA DO CSNU
A questão da reforma do Conselho de Segurança não estava, nem está, na agenda
internacional imediata, mas há um consenso muito alargado quanto à natureza
anacrónica da actual configuração. Mas, apesar de não ser uma questão da
actualidade, é possível que, no horizonte de dois anos, venham a surgir
movimentações no sentido de uma reforma, e, nesse sentido, era importante que
um país candidato a membro temporário do CSNU tivesse um ponto de vista
definido sobre uma eventual reforma. Aliás, em muitos diálogos bilaterais, esta
temática aparecia de uma forma ou de outra. Não se tratando de uma trave mestra
da nossa campanha, havia um par de pontos que faziam parte do nosso discurso
habitual.
Existia, do nosso lado, um reconhecimento implícito (e ocasionalmente,
explícito) de que o impulso reformista de 2005 havia falhado, tendo soçobrado
portanto o movimento G4 que Portugal apoiara na altura, e que, recorde-se,
propunha a atribuição do estatuto de membros permanentes sem direito a veto ao
Brasil, à índia, à Alemanha e ao Japão, bem como a dois representantes do
continente africano. Retirando aquilo que, na perspectiva portuguesa,
constituía o essencial dessa tentativa de reforma, o discurso nacional passou a
referir, apenas, que não se justificava um formato do CSNU que não contasse com
o Brasil e a índia entre os seus membros permanentes, e que não reforçasse a
presença da África. O discurso nacional, mais uma vez, não tinha sido talhado
para fins eleitorais, correspondendo antes àquilo que nos parece mais desejável
e razoável em abstracto, mas a dinâmica da nossa campanha beneficiou, ao pôr de
parte os elementos mais polémicos e problemáticos do movimento G4.
A QUESTÃO EUROPEIA
Isto leva-nos a uma das questões mais frequentemente invocadas, e que
constituía uma linha constante de argumentação por parte do Canadá: o
sentimento predominante na AGNU de que a Europa está sobre-representada nos
órgãos das nações unidas, e em particular no CSNU. Este sentimento está
evidentemente radicado na presença de dois países europeus como membros
permanentes, mas tem como corolário a ideia de que, em caso de escolha, pode
fazer sentido optar-se pelo não reforço da presença europeia, através do voto
nos candidatos não europeus do WEOG .
Quanto a este tema, a posição portuguesa tinha de ser defensiva. Não era um
tema da nossa escolha, mas era um tema inevitável, e reflectia um elemento de
vulnerabilidade para as nossas pretensões. O primeiro factor a sublinhar
consistia no facto de a nossa candidatura ser portuguesa e não ser europeia,
não reflectindo portanto qualquer impulso de Bruxelas. Aliás, isto era
perfeitamente fácil de demonstrar, atendendo ao avanço tardio da Alemanha que
quebrara o clean slatee prejudicara a posição portuguesa
8
. Segundo, havia que explicar claramente que a política externa portuguesa era
concebida em Lisboa, e não em Bruxelas. Sem enjeitar o tratado que tem o nome
da nossa capital, e para o qual a diplomacia portuguesa tanto contribuíra, foi
sistematicamente sublinhado que as características específicas de Portugal não
eram replicáveis por qualquer outro país europeu, e que davam ao nosso país
posições muito próprias, independentemente das posições comuns sobre diversas
matérias. Acima de tudo, foi necessário recordar que a UE contém dentro de si
uma gama alargada de nuancesem matérias internacionais, quando não mesmo
divergências profundas em relação a alguns assuntos. No âmbito da campanha,
sublinhámos que, para Portugal, o ponto de partida para a formulação de uma
posição sobre qualquer matéria teria por base um diálogo bilateral com os
países que melhor conheciam o assunto em questão.
Finalmente, fazendo a ligação a um terreno que já nos era bem mais favorável, a
nossa resposta à questão da sobrerrepresentação europeia passava sempre por uma
pergunta sobre se não seria mais nocivo para o sistema internacional que o CSNU
tivesse a presença de mais dois membros do G8 e G20. A conjugação destes
argumentos, associados à especificidade da política externa portuguesa e à
nossa natureza «G172», acabou por reduzir muito significativamente, ou mesmo
neutralizar, o impacto dos argumentos canadianos.
Curiosamente, surgiu a determinada altura uma ideia quanto a uma eventual
partilha de mandato com a Alemanha, algo que seria inédito
9
. Esta ideia tinha um raciocínio assumido publicamente ' tratar-se-ia de uma
espécie de encarnação do «espírito» do tratado de Lisboa ' e um raciocínio
oculto ' o receio de perdermos a votação. Em qualquer dos casos, a
fundamentação era débil. No que toca à política externa europeia, o Tratado de
Lisboa cristaliza determinados avanços, mas estabelece também os limites
admissíveis. Nomeadamente, ficou assente que, para os estados da UE que tenham
assento no CSNU, o Tratado de Lisboa não põe em causa as responsabilidades que
resultam da carta das nações unidas, o que é uma forma de dizer que os lugares
permanentes da França e do Reino Unido não podem ser contestados
10
. Além disso, o Tratado estabelece especificamente que cabe ao alto-comissário
representar a união em matéria de política externa, o que é evidentemente
incompatível com a ideia de ser um ou outro, ou vários estados a desempenharem
esta tarefa em Nova York, numa base ad hoce voluntarista. A ideia da partilha
podia parecer, à primeira vista, uma proposta simpática numa perspectiva
europeísta, mas dificilmente se pode escapar à conclusão de que não tinha
fundamentação sólida. Quanto à questão da possível derrota eleitoral, é
evidente que se tratava de um risco. Mas o risco era reduzido, nomeadamente,
porque a base eleitoral já era suficientemente sólida para afastar qualquer
possibilidade de uma derrota humilhante. É possível que os defensores desta
ideia não tivessem um conhecimento detalhado da dinâmica da campanha portuguesa
no terreno. De qualquer maneira, perder contra dois pesos-pesados do sistema
internacional nunca seria uma desonra para Portugal. Em outros momentos, países
tão influentes como a Suécia ou a Austrália haviam perdido votações para o
CSNU, não deixando por isso de ser amplamente respeitados. Felizmente, e com
naturalidade, esta ideia não teve ganho de causa.
De resto, conforme se pode ver adiante na análise dos resultados, o facto de
Portugal pertencer à UE não nos beneficiou, sequer, com uma base eleitoral
relevante: o WEOG foi aquele em que obtivemos a pior proporção de votos.
UM PAÍS CONSTRUTOR DE PONTES
Todos os argumentos da campanha portuguesa ' e presume-se que dos nossos
adversários também ' concorriam no sentido de diferenciar o nosso país, e de
sublinhar aquilo que podíamos oferecer de específico. No nosso caso, não seria
seguramente apoio material, terreno onde não podíamos concorrer com os nossos
rivais, nem benefícios em termos de negócios, pela mesma razão. Antes, a
especificidade da nossa campanha assentava na ideia de que Portugal é um país
cujo interesse fundamental reside em apoiar o bom funcionamento do sistema
internacional, matéria em que já possui alguma experiência e capacidade para
oferecer contributos significativos. A nossa qualidade de país de dimensão
média, em termos das nações unidas, permitia-nos falar com representantes de
países pequenos e médios sobre a especial importância que tinha, para nós, um
sistema internacional funcional e eficaz, baseado em regras e em princípios.
Para muitos países que não estão inseridos em alianças ou organizações
regionais sólidas, como é o nosso caso, esta é a sua principal linha de defesa,
e o discurso português quanto à necessidade de contribuir para um sistema
eficaz, justo e previsível, encontrava receptividade. O segundo elemento deste
discurso residia no argumento de que tínhamos características específicas que
nos ajudavam a desempenhar esse papel.
É extraordinária a actualidade que as grandes navegações dos séculos XV e XVI
ainda têm na imagem de Portugal no mundo. No nosso diálogo com outros países,
particularmente países com quem as relações de outra natureza eram escassas,
tirávamos partido dessa imagem, sublinhando como, na condição de pioneiros da
«primeira globalização», tínhamos aprendido a respeitar e a compreender a
diversidade do mundo. Era esta base, de natureza histórica, mas profundamente
embrenhada na nossa forma de estar na vida internacional, que nos permitia
estabelecer pontos de entendimento com povos e países de todos os continentes.
Não somos dogmáticos, preferindo ouvir a sentenciar, e sabemos que o mundo é
quase sempre demasiado complexo para ser reduzido a um chavão ou palavra de
ordem. Por outras palavras, mesmo que em situações de divergência ' e as
divergências inevitavelmente acontecem ', a postura portuguesa em Nova York
caracterizou-se sempre por não querer queimar pontes ou impossibilitar o
diálogo em algum momento futuro. Esta forma de estar, que é antiga e não
inventada deliberadamente para a campanha, representava um trunfo importante.
Nunca divergimos do princípio de que não fazíamos campanha negativa (algo que
em si mesmo foi muito apreciado no seio das Nações Unidas), mas ao sublinharmos
este ponto, permitíamos que os interlocutores tirassem as suas próprias
conclusões em comparação com os nossos adversários.
Mas era também importante transmitir a noção de que Portugal não se limitava a
ser um país simpático, disponível para o diálogo e aberto ao mundo. Era também
essencial promover a ideia de que esta simpatia se podia traduzir em resultados
concretos, que por sua vez contribuíam para o bom funcionamento do sistema
internacional. Para isso serviram diversos exemplos recentes de algum sucesso
para a diplomacia portuguesa. Em particular, o facto de a presidência
portuguesa da UE ter corrido bem funcionou como um bom cartão-de-visita, com
referências ao tratado de Lisboa, e, sobretudo, à cimeira UE-África. Para os
países africanos, esta última cimeira deixou uma recordação especialmente
grata, devido à forma como correu, e devido ao simples facto de ter acontecido;
foi por diversas vezes referida a ideia (que não nos teria ficado bem sugerir,
mas que não enjeitávamos) de que nenhum outro país europeu teria conseguido
navegar as difíceis águas diplomáticas que levaram à cimeira. Ora, para nós,
este tipo de comentário funcionava como testemunho da nossa vocação para a
construção de pontes, e para a criação de consensos difíceis. Tipicamente,
aproveitávamos este momento de raciocínio para fazer referência ao papel de
Jorge Sampaio como alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das
Civilizações, também exemplificativo da importância que Portugal atribui à
redução de tensões internacionais através do diálogo.
Resumindo, uma parte importante do processo da nossa campanha tinha a ver com
esta narrativa, esta imagem de um país cosmopolita, tolerante e dialogante,
seguro da sua condição de país europeu, mas ciente também da riqueza cultural
que lhe advinha de contactos antigos e profundos com todos os outros
continentes. A conquista de simpatias era naturalmente o objectivo, mas havia
consciência de que, por si só, a simpatia é insuficiente para garantir votos;
havia que convencer os interlocutores da capacidade de transformar a simpatia
em resultados diplomáticos eficazes e úteis.
PÚBLICOS E PLANOS DE ARGUMENTAÇÃO
A campanha para o CSNU decorreu ao longo de vários anos, com interlocutores de
todos os níveis, desde chefes de estado a funcionários de segunda linha das
missões em Nova York. Como é evidente, a abordagem não podia ser igual para
todos, havia que talhar e atalhar, procurando em cada caso os argumentos que
podiam ser mais relevantes ou interessantes, em cada momento. Além disso, houve
também a preocupação de procurar compreender, para cada país, quem eram as
pessoas decisivas para a formação do voto, concentrando, sempre que possível,
os nossos esforços nesses pontos.
Os nossos argumentos relacionados com o funcionamento do CSNU, o compromisso de
realização de consultas regulares ou a preocupação com a transparência dos
métodos de trabalho tinham, naturalmente, muito maior eficácia junto dos
representantes permanentes em nova York. no diálogo que tinha lugar no plano
político, entravam em consideração questões de natureza geopolítica,
equilíbrios regionais e locais, e, em muitos casos, também havia lugar a uma
troca de impressões sobre o papel do CSNU e da ONU na governação global, face
ao surgimento do G20 e de outros processos. Aquilo que procurávamos transmitir
sobre as características e qualidades especificamente portuguesas era sempre
útil, qualquer que fosse o nível do diálogo.
ADAPTAÇÕES REGIONAIS
Diferentes grupos regionais têm, naturalmente, perspectivas e preocupações
diversas, e, no âmbito das nossas discussões ' que procurávamos que fossem
sempre biunívocas ', havia naturalmente o cuidado de dar atenção aos assuntos
que, para os nossos interlocutores, eram de importância primordial. Convém,
também, ter presente que, apesar do exercício do voto ser um acto solitário,
criam-se por vezes dinâmicas de grupo muito importantes, e do nosso lado
olhávamos para essas dinâmicas como uma das chaves para atrair os votos de
países com quem o diálogo era distante ou difícil. Assim, para além dos temas
genéricos e constantes já aqui referidos, surgiram diversas temáticas de
interesse apenas para determinados grupos de estados. É importante registar
essas variações regionais, até porque a forma com que cuidamos de corresponder
e dar sequência à nossa campanha reflectir-se-á na apreciação que é feita da
nossa passagem pelo CSNU e, por conseguinte, na aferição da nossa fiabilidade
enquanto parceiros. Vale a pena fazer uma breve referência aos diálogos
mantidos com os países do Pacífico, Caraíbas, África, liga árabe e organização
da Conferência Islâmica.
Os estados insulares do Pacífico são demasiado pequenos e marginais no sistema
internacional para terem posições fortes sobre as grandes dinâmicas
geopolíticas. Com o grupo do Pacífico, os dois principais pontos de conversa
eram as alterações climáticas e as questões relacionadas com o mar. Com efeito,
as alterações climáticas representam para alguns desses países, como Kiribati
ou Nauru, autênticos desafios existenciais. se continuar a registar-se uma
subida do nível do mar, numerosas ilhas ficarão submersas, fazendo deste
assunto uma questão de centralidade dramática. O processo de discussão, na
senda da ideia de procurar melhorar o funcionamento do sistema internacional e
a correspondência entre os assuntos tratados no CSNU e os perigos reais com que
os estados se confrontam, levou a que assumíssemos o compromisso de explorar
formas de colocar este assunto na mesa do Conselho de Segurança. Evidentemente
que não se trata aqui de propor que as negociações internacionais sobre o clima
passem a correr pelo CSNU, mas antes de levar o CSNU a debruçar-se sobre
aspectos especificamente relacionados com segurança. A questão das alterações
climáticas não tem estado de todo presente na agenda do CSNU, à excepção de um
único debate organizado pelo reino unido sobre o assunto.
O outro ponto interessante para o Pacífico dizia respeito ao mar, e às
possibilidades de colaboração técnica e política em assuntos relacionados com a
extensão da plataforma continental. Aqui, não se trata de uma matéria
directamente relacionada com o CSNU, mas antes de um assunto que é de grande
interesse mútuo e, mais uma vez, matéria em que a posição portuguesa se
diferencia da concorrência, de uma maneira muito apreciada por este conjunto de
países. Por fim, toda a argumentação portuguesa sobre a necessidade de um
sistema internacional inclusivo, e as referências à nossa dimensão de país
médio e à nossa abertura e disponibilidade para o diálogo, concorreram para a
criação de um relacionamento muito favorável com os países do Pacífico. Cabe
aqui uma referência à importância do diálogo através do agrupamento PSIS
(Pacific Small Island States), cuja presidente, a representante permanente do
Nauru, concluiu que a nossa candidatura era a que abria perspectivas mais
interessantes para o Pacífico, favorecendo por conseguinte as nossas acções de
campanha.
Nas Caraíbas, a questão das alterações climáticas era também fundamental, à
semelhança de outras «ameaças não tradicionais», como o narcotráfico e o
tráfico de armas. Naquela região, as alterações climáticas manifestam-se,
sobretudo, através de fenómenos meteorológicos mais acentuados e violentos, com
consequências graves em termos de segurança humana. a ideia de encontrar uma
forma de tratar estes temas no CSNU representava uma prioridade para as
Caraíbas. Quanto às ameaças não tradicionais, foi possível partilhar com os
países caribenhos a nossa experiência na África Ocidental, fruto da atenção que
temos dedicado à Guiné-Bissau, permitindo concluir que há uma evolução
necessária no tratamento destas questões, que passa por privilegiar em primeiro
lugar um enquadramento regional. Uma característica destas ameaças é o facto de
prosperarem a partir da fragilidade das instituições estatais, e funcionarem
numa lógica regional. As respostas da comunidade internacional ainda são
essencialmente desenvolvidas com um olhar individual sobre cada país, algo que
é um arcaísmo num contexto em rápida mutação. a representante permanente da
Grenada presidia à AOSIS (Alliance of Small Island States), um agrupamento
influente que engloba a PSIS, os países das Caraíbas, e ainda estados insulares
do atlântico e do Índico. Foi possível estabelecer com ela uma relação
profícua, que se materializou em diversos momentos de diálogo e de campanha.
Tanto nas Caraíbas como no Pacífico, ou ainda no diálogo com outros estados de
menor dimensão ou influência política, era sublinhado um argumento que terá
pesado a nosso favor: a nossa acessibilidade enquanto interlocutores, que se
manteria no caso de ser, mos eleitos para o Conselho de Segurança. Associando
ao argumento sobre a nossa pertença ao «G172», e sobretudo para melhor
ilustrarmos uma certa forma de estarmos na vida internacional, procurávamos
sublinhar o facto de a nossa postura oferecer garantias interessantes para o
«eleitorado». Mais uma vez, imperava a regra de nunca fazer campanha negativa,
embora o argumento contivesse uma comparação implícita com a postura dos nossos
rivais, comparação essa que nos beneficiava.
No continente africano, sentíamos um forte apoio, que apesar de não ser unânime
sabíamos que podia ser decisivo. Mais de um quarto dos votos na assembleia
Geral provém de África, e a nossa proximidade a esse continente constituía um
importante trunfo eleitoral. No entanto, os cinquenta e três países africanos
constituíam um grupo demasiado grande para ser objecto de uma abordagem comum e
homogénea11. Sabíamos que era fundamental falar a diversos subgrupos
individualmente, em almoços com seis ou oito embaixadores. Foi o que aconteceu
com a África Ocidental, austral e central, e, ainda, com os países francófonos.
Outros representantes permanentes foram envolvidos em momentos diversos. Os
temas de importância específica para a campanha junto de representantes
africanos tinham a ver, naturalmente, com a necessidade de se melhorar a
representação da África no CSNU e, sobretudo, com o facto de mais de dois
terços do trabalho do CSNU se centrarem no continente africano. A este
respeito, reiterámos o nosso compromisso de consultar, em primeiro lugar,
aqueles que melhor conhecem as situações que vierem a apresentar-se à mesa do
CSNU, isto é, os países africanos, e de contribuirmos para reforçar o
relacionamento entre o CSNU e a união africana (UA). Mas, mais do que qualquer
outra coisa, importava-nos recordar os nossos pergaminhos na promoção de causas
africanas, algo que era um ponto forte da nossa campanha.
A Liga Árabe, com os seus 22 membros, constituía também terreno fértil para a
candidatura portuguesa. Portugal sublinhava a sua vocação para o diálogo
internacional como uma particularidade da candidatura, e referíamos a nossa
convicção de que não é possível trazer paz e estabilidade ao Médio oriente sem
uma solução justa para o povo palestiniano, o que terá seguramente de passar
pela criação de um estado palestino, no momento certo. Entre os países árabes,
havia a convicção consensual de que, em matéria de Médio oriente, a posição
portuguesa era a mais equilibrada e sensível, e também aquela que oferecia
melhores perspectivas de diálogo e de abertura. a dinâmica de grupo pareceu-nos
particularmente forte entre os membros da liga árabe, e isto acabou por se
traduzir num apoio extremamente abrangente, mas que não terá sido unânime.
Finalmente, uma referência à Organização da Conferência Islâmica (OCI).
Reunindo 57 países em quatro continentes, a OCI é uma instituição muito
diversificada, mas há dois temas que constituem uma preocupação comum, sem que
isso implique naturalmente uma unicidade de abordagem: a questão da Palestina,
e a ideia de descriminação ocidental contra o islão e os países islâmicos. A
nossa posição sobre a Palestina, de compromisso com uma solução justa e
duradoura, em que os direitos dos palestinianos sejam plenamente respeitados,
com dois estados a viverem lado a lado, é uma posição que nos permite algum
conforto, particularmente por ser entendida como bem ancorada em princípios
universais. Na outra questão, a nossa candidatura tinha também bons
pergaminhos, que fizemos questão de sublinhar: uma experiência histórica de
convivência com o islão, que é uma componente essencial da nossa própria
identidade, e uma procura de formas de diálogo que permitam atenuar o grau de
tensão e conflitualidade entre o ocidente e os países muçulmanos, especialmente
desde os ataques de 11 de Setembro. Mais uma vez, as referências ao papel de
Jorge Sampaio revertiam a nosso favor.
Diz-se que, ao ser eleito, a primeira obrigação de um Papa é esquecer as
promessas que fez aos bispos. A boutadenão se aplica à nossa campanha. Desde
logo, porque assenta na presunção de que a campanha levou ao desenvolvimento de
promessas que, de alguma forma, podem ser custosas ou difíceis de manter; pelo
contrário, a nossa campanha representou a aplicação, a um conjunto de temas
internacionais, dos nossos princípios e orientações de fundo. Sem dúvida que
isto levou à identificação de algumas matérias que, de outro modo, poderiam não
estar no radar imediato da política externa portuguesa, mas esse facto deve ser
visto com naturalidade, porque o lugar no CSNU não faz parte das nossas
responsabilidades habituais e, ao sermos eleitos, temos oportunidades novas que
devem sempre encaixar no nosso objectivo de contribuir para o bom funcionamento
do sistema internacional. E há outra consideração fundamental: o Papa, quando
eleito, permanece nessa condição para o resto da vida; no nosso caso, serão
dois curtos anos, e a nossa credibilidade na ONU dependerá em boa medida do
seguimento que soubermos dar aos nossos compromissos de campanha.
A estratégia da campanha
Os temas da campanha portuguesa ganharam forma com alguma facilidade, o que é
reflexo de uma política externa muito estruturada, consolidada ao longo dos
anos, e de um corpo diplomático experiente e de elevada qualidade. Conforme já
vimos, no período inicial, a candidatura foi tratada dentro de uma normalidade
administrativa. Isto é, os serviços do ministério colocavam o assunto no âmbito
dos diálogos com as suas contrapartes de outros países, contrapunham a nossa
candidatura quando abordados com pedidos de apoio para candidaturas
internacionais, desenvolviam propostas de trocas de apoios com outros países e
acompanhavam os desenvolvimentos relevantes para a nossa posição. Os actores
principais deste processo eram os serviços centrais em Lisboa (DGPE e DGATE) e
a missão em Nova York. Esta fase mais rotineira do processo terminou por altura
da nossa presidência da UE, no segundo semestre de 2007, quando quase toda a
diplomacia portuguesa se concentrou nessa tarefa.
A primeira metade de 2008 voltou a ser um momento propício para nos virarmos
para a candidatura, já confortados pelo facto de a presidência da UE ter
corrido muito bem, o que em si mesmo fornecia boas indicações para a nossa
campanha. A partir desse momento, a campanha passou a funcionar a três
registos, com algum grau de coordenação, mas, sobretudo, com elevada coerência
na transmissão de mensagens: a partir da missão em Nova York, a partir de
Lisboa, sobretudo na gestão dos compromissos de trocas de apoios, e no plano
dos contactos políticos. Ao longo dos meses que se seguiram até Outubro de
2010, a tendência foi para, na sua essência, a campanha se jogar entre Nova
York e o plano político. Com efeito, dependendo dos países, importava assegurar
o apoio dos representantes permanentes em Nova York e dos decisores políticos
nas respectivas capitais. Para o primeiro, o trabalho fundamental pertencia à
missão, apoiada sempre que possível por visitas políticas a Nova York. Para o
segundo, o método mais eficaz passava por uma visita política à capital em
questão, ou contactos à margem de reuniões internacionais. Nos casos em que não
era possível efectuar uma visita a nível político, utilizaram-se enviados
especiais. Em Lisboa, realizavam-se reuniões ocasionais, presididas pelo
ministro ou, quando ele não tinha disponibilidade, por mim próprio, com o
intuito de fazermos o ponto da situação e identificarmos países necessitados de
algum esforço especial. Não houve nenhum investimento suplementar significativo
do lado dos serviços ' a exiguidade dos recursos humanos não o permitia ',
excepto aquele que resultou das horas acrescidas de trabalho de um pequeno
conjunto de funcionários dedicados.
Em Nova York, o trabalho da missão foi extraordinariamente intenso e
disciplinado, aproveitando-se todas as oportunidades não apenas para fazer
referência directa à campanha, mas também para demonstrar de forma prática a
nossa vocação para forjar pontes. Sobretudo, foi possível, com raras excepções,
criar laços de confiança com a generalidade dos representantes permanentes de
outros países, um elemento essencial do trabalho diplomático, mas que se
revestia neste caso de uma urgência e de uma objectividade muito claras.
Por outro lado, ao longo de cerca de dois anos, mas com grande intensidade no
último ano, a equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) ' o ministro
Luís Amado, eu próprio, os secretários de Estado Pedro Lourtie e a sua
antecessora Teresa Ribeiro, e em duas ou três ocasiões, também o secretário de
Estado António Braga ' fez deslocações especificamente para solicitar o voto
para o CSNU. Seguindo orientações do MNE, outros membros do Governo também
aproveitaram deslocações para fazer diligências semelhantes, sempre que
possível. Desta forma, pudemos realizar visitas de nível político a entre 80 e
90 países, onde expressamente se pediu o apoio para a candidatura portuguesa.
Ainda a nível político, houve cerca de 40 outros países com quem mantivemos
reuniões bilaterais neste período, nuns casos através de visitas a Lisboa,
normalmente de ministros dos negócios estrangeiros, noutros através de reuniões
à margem de conferências ou cimeiras internacionais. Finalmente, realizaram-se
diversas missões de enviados especiais, entre as quais valerá a pena sublinhar
as missões do embaixador Pedro Catarino (ele próprio protagonista da notável
campanha que nos levou ao CSNU, em 1997-1998) a 12 países do Pacífico, e a
vários países asiáticos, do embaixador Tadeu Soares ao Cáucaso, do embaixador
João Mira Gomes às Caraíbas, e do embaixador Luís de Barros e do Dr. Pedro
Costa Pereira, nestes dois últimos casos a países da América Central. Muitas
vezes, os emissários eram portadores de cartas do Presidente da república ou do
primeiro-ministro dirigidas aos respectivos homólogos.
A campanha incluiu, também, a nossa presença frequente em cimeiras regionais,
excelentes ocasiões para manter contactos directos com chefes de estado e de
governo ou ministros dos Negócios Estrangeiros, para além de serem um momento
privilegiado para compreendermos melhor algumas dinâmicas regionais que não
constam do roteiro quotidiano da diplomacia portuguesa. No que toca à UA, a
presença portuguesa foi uma constante desde 2005. Realizando-se duas vezes por
ano, houve sempre um membro do Governo português presente em 12 cimeiras
consecutivas da UA, seis das vezes o ministro Luís Amado, as outras seis eu
próprio. Em bastantes casos, Portugal foi o único país não africano
representado politicamente. Como é óbvio, este registo nada tem a ver com a
presença de representantes dos países concorrentes apenas no último ano.
Portugal marcou também presença, a nível político, nas cimeiras do PIF (Pacific
Island Forum) em dois anos consecutivos, através da secretária de estado Teresa
Ribeiro, em Cairns, em 2009, e comigo, no Vanuatu, em 2010. Estivemos,
igualmente, presentes por duas vezes consecutivas na cimeira do Caricom
(António Braga em 2009, eu próprio em 2010), e José Sócrates e Luís Amado
participaram num conjunto de eventos entre a UE e grupos regionais como a ASEAN
ou a América Latina e Caraíbas. Tudo somado, a política externa portuguesa fez
um enorme esforço de presença e de visibilidade, criando um clima propício ao
diálogo bilateral e desenvolvendo uma familiaridade pessoal com os decisores
políticos de outras regiões.
Obviamente que as circunstâncias económicas do País em 2009 e 2010 não
permitiam uma campanha dispendiosa. Com um orçamento inicial de 1,5 milhões de
euros, mas com instruções para conter ao máximo os custos, a despesa total da
campanha acabou por ficar na casa de um milhão de euros. No que diz respeito à
parte financeira, a principal aposta da campanha centrou-se na realização em
Portugal de um conjunto de seminários, com temáticas relevantes para o CSNU ou
para a imagem de Portugal, dirigidos aos representantes permanentes em Nova
York. Organizados pela nossa missão em nova York, que tratou de identificar os
temas e os convidados, os seminários trataram de: «reforma dos Métodos de
trabalho do Conselho de Segurança» (Estoril, Abril de 2010); «energias
renováveis e alterações climáticas» (Porto, Junho de 2010); e «Manutenção e
consolidação da Paz» (cascais, Julho de 2010). Os seminários permitiram debater
aprofundadamente os temas escolhidos, num ambiente agradável, sem fazer
referência explícita ou pesada à nossa candidatura. No caso dos dois seminários
realizados na região de Lisboa, os embaixadores foram recebidos pelo Presidente
da república em Belém, e houve sempre jantares formais, nestes dois casos
oferecidos pelo ministro no Palácio das necessidades, no outro caso oferecido
por mim no Palácio da Bolsa do Porto. Para além destes seminários para
diplomatas, organizou-se também um seminário técnico, recorrendo ao apoio do
Ministério da Defesa, sobre questões relacionadas com a extensão da plataforma
continental, um assunto que é da maior importância para Portugal e para muitos
outros países, como forma de prestar assistência a nações com menos recursos
neste domínio. Finalmente, realizou-se também uma iniciativa sobre turismo em
que foi possível dar a conhecer e partilhar a experiência portuguesa com
representantes de países interessados nesta temática. Em suma, creio que é
possível dizer que houve um retorno significativo deste investimento em soft
power, nomeadamente porque cada exercício foi bem pensado e estruturado, e
impecavelmente executado, confirmando a notável capacidade de que Portugal dá
mostras na organização de eventos internacionais.
Há uma outra iniciativa que merece referência, e que poderá ter rendido algum
apoio para o CSNU, muito embora tenha um elevado valor intrínseco, pelo que
deverá ser repetido, sempre que financeiramente possível: o curso de formação
para jovens diplomatas estrangeiros que se realizou ao longo de doze semanas,
na Primavera de 2010. Idealizado a partir de uma conversa que tive com o
ministro dos negócios estrangeiros do Lesoto, o curso trouxe a Lisboa 28 jovens
diplomatas de países com quem temos relações menos intensas: do próprio Lesoto
ao Uzbequistão, da Micronésia à Geórgia ou ao Botswana. De manhã, os jovens
diplomatas tinham aulas de formação diplomática (em inglês), em alguns casos em
comum com jovens diplomatas portugueses; à tarde, tinham três horas de língua
portuguesa. A importância desta experiência ' intensa ' no início de uma
carreira diplomática que, em princípio, durará várias décadas, não deve ser
subestimada, e não duvido que terá reverberações favoráveis para Portugal ao
logo desse tempo. E para os países beneficiados, que na grande maioria dos
casos têm dificuldades na formação adequada do seu corpo diplomático, a
iniciativa foi obviamente entendida como um gesto muito amigo da nossa parte.
O último evento aproveitado pela nossa campanha teve lugar já no início de
Outubro, depois da intensíssima abertura da assembleia Geral12, e poucos dias
antes da votação, com a realização em Lisboa da conferência ministerial dos
Países Menos Avançados. Este evento, que trouxe a Portugal ministros e
representantes permanentes em Nova York de cerca de três dezenas e meia de
países, tinha como objectivo debater alguns dos temas de maior importância para
esses países, e foi um êxito no sentido de ter permitido debates muito úteis,
na preparação de uma cimeira que se realizará em Istambul, em Maio-Junho de
2011. Mas é evidente que o simples facto de se realizar em Lisboa permitiu
chamar a atenção de um importante conjunto de decisores para a campanha
portuguesa. À margem deste evento, realizaram-se várias reuniões ou conversas
bilaterais, em alguns casos derradeiros esforços de persuasão, em outros,
momentos de verificação ou calibragem das posições dos interlocutores.
Quanto à actividade em Nova York, verdadeiro epicentro da campanha, pode dizer-
se que, durante vários anos, toda a actividade da missão tinha como pano de
fundo o objectivo de obter o lugar no CSNU. O embaixador Moraes Cabral expôs as
nossas posições a 188 colegas13; este trabalho tinha lugar em visitas de
cortesia ou de trabalho aos colegas, em almoços a sós ou em pequenos grupos, em
jantares e recepções sociais, enfim, em todas as oportunidades que se
apresentassem. Os outros elementos da missão, cada um a seu nível, faziam o
mesmo, o que permitia cruzar informações e conhecer mais rigorosamente o
raciocínio e as tendências de voto de cada país.
Já assinalámos que, em muitos casos, talvez um terço do total, é em Nova York
que se formam as decisões de voto, sendo portanto fundamental a presença e a
visibilidade na sede das nações unidas. A própria missão assegurou este
trabalho ao longo de vários anos, com particular intensidade nos últimos dois.
Mas era essencial reforçar esta presença quotidiana do embaixador e demais
diplomatas em Nova York, com frequentes visitas políticas de Lisboa. Assim, a
presença do ministro nas Assembleias Gerais, e em Junho de 2010 para um
conjunto de contactos bilaterais com representantes permanentes, foi importante
para demonstrar que a missão tinha todo o apoio da capital. e no meu caso, fiz
visitas a Nova York, directamente relacionadas com a campanha, em Junho e
Setembro de 2009, e em Março, Maio, Junho, Setembro e Outubro de 2010,
normalmente participando em algum evento ao qual queríamos dar destaque, e
aproveitando para reuniões de trabalho ou conversas mais descontraídas e em
formato social com representantes permanentes.
A CONTABILIZAÇÃO DOS APOIOS
Ao longo de todo este período, a nossa candidatura desenvolveu três formas de
contabilização dos votos, que ocasionalmente se comparavam, e que ofereciam
diferentes ângulos de visão. A primeira, mais tradicional, era a contabilidade
dos serviços do MNE, que se baseava nos apoios formalmente comprometidos
através de notas verbais ou cartas. Este sistema dividia os países em cinco
categorias: os que tinham manifestado apoio por escrito, os que tinham dado
«apoio verbal», as predisposições favoráveis, os que não apoiavam, e os que não
tinham ainda decidido um sentido de voto (ou esse sentido era desconhecido para
nós). Apesar da lógica formal impecável, no caso de um voto secreto este
sistema acaba por ser um pobre avaliador das tendências de voto. Sabemos bem
que há muitos países que prometem o apoio aos três candidatos, mesmo por
escrito, baseando-se no pressuposto mais do que razoável de que as candidaturas
não partilham estas informações entre si. Além disso, há indícios claros de que
houve um aumento grande, nos últimos quinze ou vinte anos, da mendicidade
diplomática nos votos para o CSNU. Este método tinha, no entanto, uma vantagem:
permitia comparar a situação da nossa campanha com o momento equivalente da
nossa anterior campanha.
A segunda forma de cálculo foi elaborada por mim e actualizada permanentemente
no meu gabinete. Partindo do princípio de que, antes do depósito do voto nas
urnas, temos apenas probabilidades de voto, atribuiu-se a cada país uma
pontuação de zero a cinco, dependendo daquilo que considerávamos ser a
probabilidade de virmos a receber efectivamente o voto desse país. Pontuando de
forma conservadora, apenas atribuímos cinco pontos quando havia certezas
absolutas ' os países da CPLP, por exemplo. Quatro pontos significava que havia
uma forte probabilidade de voto em nós, três indicava um certo grau de
confiança mas insuficiente solidez, dois pontos sugeria que no estado actual o
voto poderia escapar-nos mas não era inacessível; uma pontuação de um
representava fortes dúvidas sobre a probabilidade de voto na nossa candidatura,
e um zero traduzia esperanças nulas de obter o apoio desse país. Transformando
a pontuação em ponderações de voto, obtinha-se um resultado global. Para a
atribuição das pontuações, utilizava-se toda a informação disponível: as
discussões entre representantes políticos e diplomáticos; o raciocínio sobre as
motivações estratégicas ou políticas de cada país; o acolhimento que
imaginávamos para os nossos temas de campanha; a existência ou não de
relacionamentos pessoais relevantes; enfim, tudo aquilo que nos parecia
subjectivamente significativo para o efeito.
Por fim, o embaixador Moraes Cabral, em nova York, desenvolveu a sua própria
contabilidade, baseado no conhecimento pessoal que ele tinha de cada
representante permanente, ou seja, das pessoas que têm a responsabilidade de
depositar o voto na urna. Este conhecimento permitia identificar alguns casos
em que sabíamos poder contar com o voto, independentemente das instruções da
capital, e também desconfiar de alguns casos em que o apoio da capital parecia
seguro a nosso favor. Em qualquer um dos casos, a actualização que ia sendo
feita permitia um acompanhamento da evolução da candidatura. Nenhum dos métodos
era perfeito ' embora me pareça, naturalmente, que a minha metodologia era a
mais adequada, dependendo apenas da qualidade da informação utilizada para
atribuir as pontuações. De qualquer dos modos, a comparação ocasional entre as
três formas de cálculo permitia ver que a evolução ia sempre no mesmo sentido,
o que dava algum conforto quanto à fiabilidade dos nossos conhecimentos, e os
números globais não eram muito diferentes, muito embora houvesse algumas
divergências significativas quanto aos apoios individualmente considerados.
Ao terminar esta secção sobre a estratégia da campanha, devo realçar um factor
que os diplomatas conhecem bem, e que a análise da anterior campanha permitiu
identificar como fulcral: a importância dos relacionamentos pessoais na criação
de laços de confiança. São esses laços que dão credibilidade aos nossos
argumentos de campanha, evitando que sejam entendidos como simples propaganda
interesseira. A confiança pessoal exige, evidentemente, um investimento grande
em termos de tempo, energia e disponibilidade pessoal, seja da parte da missão
em nova York, seja no plano político. Houve a este respeito um trabalho
consciente e objectivo ao longo de vários anos.
A importância dos aliados activos
Por razões já exploradas em secções anteriores deste texto, acredito que
Portugal gozava de grande credibilidade diplomática, e tinha argumentos
interessantes e ponderosos para arregimentar votos. Mas a nossa candidatura era
também vulnerável, nomeadamente porque a nossa concorrência dispunha de certos
instrumentos de política externa com os quais não podíamos concorrer. Para
neutralizar essa vulnerabilidade, percebemos que era possível pôr em campo uma
estratégia de valorização de relacionamentos especiais com um conjunto de
países que se dispunham não apenas a votar por nós, mas a fazer campanha
activa. Nenhum dos nossos rivais podia pôr em campo uma aliança activa
comparável com aquela que nós mobilizámos. Aliás, são poucos os países que
teriam a capacidade de o fazer. Vale a pena referir alguns desses nossos
aliados, sendo que para cada um havia naturalmente um raciocínio próprio que os
levou a contribuir para a nossa campanha.
Comecemos pela CPLP. Demos por adquirido, à partida, o apoio eleitoral dos sete
outros países membros, mas na realidade a importância da CPLP ultrapassou
largamente esse conjunto de votos. A concertação diplomática é um dos pilares
originários da CPLP, e todos os membros da organização acolheram de forma
entusiástica a nossa candidatura. Com a maturidade que tem hoje a CPLP, e o
sentimento de cumplicidade que une os seus representantes diplomáticos e
políticos, a verdade é que ela contém uma capacidade de mobilização em torno de
objectivos diplomáticos comuns que é muito superior à das outras comunidades
linguísticas, a Commonwealth e a Francofonia. Através da CPLP, Portugal passou
a dispor de informação privilegiada, complementar à nossa, sobre o estado de
espírito eleitoral de muitos países africanos, asiáticos, latino-americanos, do
Pacífico e das Caraíbas. O valor estratégico destas informações foi imenso. A
nosso pedido, à medida que identificávamos necessidades específicas, houve
numerosas diligências, algumas diplomáticas outras políticas (incluindo a nível
de chefe de estado), a sugerir o voto na nossa candidatura. Foi também notório
que podíamos sempre contar com intervenções favoráveis de representantes da
CPLP, quando organizávamos eventos temáticos ou regionais. A título de exemplo,
recordo-me do impacto que tiveram as palavras do vice-primeiro-ministro
timorense, José luís Guterres, que estava de passagem por Nova York e que
participou num almoço que fizemos em Junho de 2009 com representantes de países
do Pacífico. Guterres explicou, dando o exemplo da luta pela independência de
Timor Leste, que Portugal era um país que não abdicava dos seus princípios e
que não faltava à sua palavra. Esse testemunho de um distinto representante da
própria região teve um efeito que nós nunca alcançaríamos falando em causa
própria. E outras vozes da CPLP fizeram o mesmo em múltiplas ocasiões. A CPLP
não valeu apenas os oito votos dos seus membros; terá valido qualquer coisa
como quinze a vinte votos, prova evidente da relevância prática da tal
concertação diplomática de que falam os estatutos.
Em diversas regiões do mundo, tivemos a felicidade de poder contar com apoios
muito activos e mobilizadores, envolvendo em alguns casos representantes
permanentes em Nova York, muito activos e prestigiados entre os seus pares. Em
reconhecimento do nosso apoio pela sua candidatura a membro permanente do CSNU,
a índia promoveu a nossa candidatura de forma entusiástica, exercendo
influência sobre alguns países da sua região. Mas a influência da índia não se
esgota na Ásia do sul; trata-se de um dos países mais activos do Movimento dos
não-alinhados e do G77, agrupamentos que são de importância estratégica para
qualquer candidato ao CSNU. A Turquia, com quem temos um excelente entendimento
político e diplomático, foi igualmente generosa em relação à candidatura
portuguesa, utilizando a sua capacidade de persuasão no Cáucaso, nos países de
língua túrquica, e entre os países muçulmanos. A Espanha apoiou igualmente a
nossa candidatura na América Latina (tal como o Brasil), uma região onde aliás
dispúnhamos já de bastantes apoios por via dos contactos com a comunidade
ibero-americana, sem desprimor para a utilidade destes apoios. Outro país muito
influente, e que prestou um grande serviço à candidatura portuguesa, foi o
Egipto, voz amiga e activa na liga árabe e no G77. Nas organizações
multilaterais, contámos com o envolvimento directo e militante a nosso favor de
Amr Moussa e de Jean Ping, à frente da liga árabe e da UA, respectivamente.
Talvez mais inesperadamente, encontrámos aliados regionais no Pacífico e nas
Caraíbas que foram imensamente úteis. No Pacífico, dois países exerceram uma
influência decisiva a nosso favor: Timor Leste e Nauru. O primeiro caso não
requer explicação; já o segundo, relaciona-se com a centralidade do Nauru como
presidente dos PSIS, como já foi referido. Os países do Pacífico são muito
pequenos, e sentem-se marginalizados do sistema internacional. Enquanto
presidente do grupo, a representante permanente do Nauru revia-se nos nossos
argumentos quanto à importância de dar voz ao «G172» e quanto às possibilidades
de colocar o CSNU a trabalhar sobre as implicações do fenómeno das alterações
climáticas ao nível da Segurança. Por outro lado, era persuasivo o nosso
argumento (que traçava uma comparação implícita ' nunca explícita ' com os
outros candidatos) de que a nossa porta estaria sempre aberta, o nosso ouvido
sempre disponível, porque, por mais pequenos que sejam, todos os países são
iguais na sua dignidade soberana. Em Agosto de 2009, e em Agosto e Setembro de
2010, houve reuniões com o ministro dos negócios estrangeiros do Nauru14, que
produziram um bom entendimento, dando respaldo político à representante
permanente. Mas foi, sobretudo, devido à personalidade dela e ao relacionamento
estabelecido com o embaixador Moraes Cabral que foi possível trabalhar de forma
intensa com o Nauru, mobilizando os estados do Pacífico em torno da nossa
candidatura.
Nas Caraíbas, a nossa posição de partida era muito difícil. O Canadá tem uma
relação muito forte com grande parte dos países caribenhos através de laços
culturais, uma grande influência económica e importantes actividades de
cooperação. Quanto à Alemanha, a pujança dos seus instrumentos económicos
marcava a diferença com Portugal. Contudo, um factor fortuito deu-nos um aliado
activo e influente: são Vicente e Grenadinas. De ascendência portuguesa, o
primeiro-ministro Ralph Gonsalves estabeleceu uma boa relação com José
Sócrates, tendo feito uma visita oficial a Lisboa e à Madeira, donde provinham
os seus antepassados. Sendo importantes, a ascendência e o relacionamento
pessoal não bastavam por si só para justificar o voto desse país, muito menos o
seu envolvimento activo na campanha. Mais uma vez, os nossos argumentos de
substância foram decisivos, e a personalidade militante de Ralph Gonsalves (que
é muito influente na sua região) fez o resto. Não sendo fácil contabilizar os
votos nesta região, este apoio pode ter valido diversos votos entre os países
da OECS (Organization of Eastern Caribbean States).
Não se esgotam aqui os países que apoiaram activamente a nossa campanha, mas
estes foram sem dúvida os mais influentes e activos. Em última análise, uma
campanha para o CSNU é sempre um exercício solitário, em que um país sabe que
depende sobretudo de si próprio. Mas o desenvolvimento de um conjunto de
âncoras regionais, aliados activos e militantes pela nossa causa foi, sem
qualquer dúvida, um factor decisivo para o sucesso da nossa candidatura. E vale
a pena tomar nota desta realidade para outros efeitos da nossa política
externa: Portugal tem uma capacidade muito rara de estabelecer entendimentos
frutuosos e de grande intensidade com países em outras partes do mundo, e se é
certo que esta capacidade se radica nas particularidades da nossa história, é
também o caso que ela se tornou muito mais operacional nestes últimos anos.
A votação e a análise dos resultados
A VOTAÇÃO
Ao entrar no edifício das Nações Unidas, na manhã de 12 de Outubro, eu sentia
que havia boas razões para estarmos confiantes, um sentimento partilhado por
todos os membros da missão. Nos últimos dias, tínhamos feito as contas por
inúmeras vezes, utilizando cada novo elemento de informação ' uma conversa, por
vezes mesmo um olhar ou uma interpretação nossa da linguagem corporal de um
representante permanente ', para de novo calcularmos os nossos apoios. Além
disso, tinham chegado notícias muito interessantes da parte de países aliados
sobre contagens de cabeça a nosso favor ou a favor dos nossos rivais. De acordo
com essas informações, Portugal seria certamente eleito, podendo mesmo ser o
país mais votado. Era também possível ' as nossas contas sugeriam essa
possibilidade ' sermos eleitos à primeira volta, mas a existência de três
candidatos muito qualificados tornava esse objectivo mais difícil. No entanto,
sabíamos também que as votações para o CSNU são por vezes muito surpreendentes,
havia que salvaguardar-nos contra excessos de optimismo; enfim, a essa hora
restava tempo apenas para uns rápidos apelos de último minuto, e depois esperar
a proclamação dos resultados.
As regras para a votação são simples: havendo dois lugares disponíveis para o
WEOG, cada Estado-membro das nações unidas tem direito a dois votos, sendo-lhe
no entanto vedado votar duas vezes no mesmo candidato. Para serem eleitos, os
candidatos precisam de obter dois terços do número de países presentes, e que
estes exerçam o seu direito de voto (o que exclui, evidentemente, estados
ausentes ou que se abstenham). No caso, estavam presentes na assembleia Geral
191 estados (houve um país ' eleitor nosso! ' que chegou atrasado, e entre os
191 presentes, houve uma abstenção), o que significa que a fasquia para a
eleição situava-se nos 127 votos. O universo total de votos em liça era 380,
dois votos por cada país. No caso de uma segunda volta entre dois candidatos
apenas, tendo um sido eleito à primeira volta, cada país passa a dispor de um
único voto, correspondendo ao único lugar ainda disponível. Neste caso, o
universo total de votos é 191, um por país.
Apesar da considerável surpresa de muitos observadores, ninguém na delegação
portuguesa se espantou quando os resultados foram anunciados: 128 votos para a
Alemanha, 122 para Portugal e 114 para o Canadá. A Alemanha passara à primeira
volta, conforme quase todas as previsões; mas com um voto de folga, apenas.
Portugal tinha ficado a cinco votos da eleição à primeira volta, apenas seis
votos atrás da Alemanha.
A votação do Canadá, que apesar de tudo foi relativamente alta para uma
primeira volta, situava o país a oito votos de distância de Portugal. Tratava-
se de uma distância significativa, mas ainda não decisiva; dava a Portugal a
condição de favorito para a segunda volta, apesar de ter havido casos no
passado em que a dinâmica da segunda volta inverteu a tendência inicial. a
votação para a segunda volta teve lugar imediatamente depois do anúncio dos
resultados da primeira, não havendo portanto tempo para novos esforços
eleitorais. Nós tínhamos aproveitado os cerca de quarenta minutos depois da
primeira votação, e antes do anúncio dos resultados, para fazer a ronda da
sala, sublinhando a importância de se manter a fidelidade de voto em nós no
caso de haver uma segunda volta, e naturalmente que canadianos e alemães.
Fizeram o mesmo. Tratava-se, no entanto, de um exercício de descarga de
consciência, que no nosso caso estava aliás muito tranquila, porque sabíamos
que a nossa campanha tinha sido eficaz até ao limite das nossas possibilidades
físicas, de forma a compensar a exiguidade dos nossos recursos comparados com
os dos nossos adversários. E, de facto, a segunda volta foi absolutamente
decisiva: 113 votos para Portugal, 78 para o Canadá. Com um universo de votos
que correspondia a metade daquele que havia na primeira volta, nós perdemos
apenas nove votos, o que demonstra uma fidelidade de voto absolutamente
notável. O Canadá, pelo contrário, sofreu uma erosão considerável. A eleição
estava decidida. Portugal ainda não tinha atingido os dois terços, mas a
diferença de 35 votos já não era recuperável para o Canadá; tudo indicava que
facilmente atingiríamos os dois terços na terceira volta, já que a dinâmica de
vitória era muito clara e a tendência é sempre no sentido de uma transferência
de votos para o previsível vencedor (a não ser que haja, por alguma razão,
fortes anticorpos, o que não era o nosso caso).
O presidente da Assembleia Geral deu então instruções para o início da terceira
ronda de votação, enquanto a delegação canadiana conferenciava entre si e fazia
telefonemas, presumivelmente para Otava. Quando a urna já tinha percorrido
cerca de dois terços da sala, o representante permanente do Canadá pediu a
palavra e anunciou que o Canadá se retirava, reconhecendo a derrota. A
contabilidade final foi esclarecedora: 150 para Portugal, 32 para o Canadá. Foi
infeliz que o Canadá não tivesse anunciado a sua retirada antes do início da
votação, pois teria evitado o visível colapso a nosso favor dos seus apoios
eleitorais, mas presume-se que a delegação canadiana aguardava autorização de
Otava.
ELEMENTOS DE ANÁLISE
A análise mais cuidada dos dados eleitorais permite tirar algumas conclusões.
Uma delas é de que houve 16 países que votaram em apenas um dos candidatos na
primeira volta, em vez de utilizarem os dois votos. Alguns dos nossos apoiantes
já nos tinham dado a conhecer essa intenção; é provável que Portugal tenha sido
beneficiado por esta prática, mas a verdade exacta nunca será conhecida. Quando
isto acontece, o país que recebe o único voto utilizado beneficia duplamente,
porque ganha uma vantagem em relação a ambos os concorrentes, e não apenas em
relação a um deles. Já na segunda volta, verificamos que todos os países
exerceram a sua preferência, votando por Portugal ou pelo Canadá.
No rescaldo, utilizando agora não só os elementos já anteriormente disponíveis
para as nossas previsões, mas também alguns dados novos (os resultados da
votação, um conjunto de comentários e confissões pós-eleitorais), podemos
chegar a algumas conclusões interessantes. No que diz respeito à distribuição
geográfica dos nossos apoios, há razões para estarmos muito satisfeitos.
Obtivemos uma forte base de apoio em todos os continentes. Sem total segurança
(porque o voto é secreto ), as minhas contas pessoais apontam para a seguinte
distribuição:
Algumas considerações saltam à vista. A primeira é a de que se confirma a nossa
forte implantação na África. Representando mais de um quarto do universo
eleitoral, um bom resultado entre os países africanos constitui um factor da
maior importância nas eleições para o CSNU. Efectivamente, os nossos
pergaminhos africanos eram muito bons, mas não se deve imaginar que havia da
nossa parte qualquer complacência. Sabíamos que os nossos rivais iriam fazer um
grande esforço para a captação de votos na África, e sabíamos que se
perdêssemos muito terreno nesse bastião eleitoral, dificilmente poderíamos ser
eleitos. Desenvolvemos, portanto, um esforço constante ao longo da campanha, no
sentido de assegurar votos africanos.
Segundo, é interessante verificar que, em termos percentuais, o nosso melhor
resultado ocorre no grupo da Europa de leste. É o mais pequeno dos grupos
eleitorais, e congrega um conjunto de países com quem não temos relações
bilaterais muito fortes, mas o trabalho de diálogo constante, e muitas vezes de
parceria, no âmbito da UE, deu-nos uma notável capacidade de captação de votos.
O resultado não foi inesperado, porque correspondeu plenamente aos sinais que
fomos acumulando durante a campanha, mas é um indicador muito interessante para
a nossa política externa.
Terceiro, é também muito interessante verificar que tivemos um resultado muito
respeitável na Ásia, quando temos também pouca implantação no que diz respeito
às relações bilaterais. Ou seja, foi um resultado obtido através da campanha,
apesar de não haver com esta região o mesmo tipo de intensidade de
relacionamento que temos com o continente africano. Tratando-se do maior grupo
eleitoral, era fundamental para as nossas pretensões termos um resultado
apreciável no grupo asiático; ao contrário daquilo que se passa na África, não
há um conjunto homogéneo de argumentos que se possa aplicar a todo o
continente; o diálogo ali tem de ser mais individualizado. Soubemos reconhecer
estas especificidades, e trabalhámos de forma consentânea. Terá também contado
para este bom resultado o facto de termos obtido o apoio de muitos países do
Pacífico, que também se integram neste grupo.
Quarto, os resultados mais fracos registaram-se na América Latina e Caraíbas, e
no nosso próprio grupo da Europa Ocidental, mas, ainda assim, obtivemos o voto
de mais de metade dos países em cada grupo. Pensávamos que o nosso resultado
poderia ser um pouco superior no GRULAC, mas admito que pode ter havido uma
decisão por parte de um conjunto de países caribenhos no sentido de votar
apenas no Canadá, por perceberem que esse país, com quem todos os estados
caribenhos têm importantes ligações, corria o risco de não ser eleito. Quanto
ao nosso próprio grupo, o WEOG, não houve surpresas.
Por todas as razões, julgo indispensável deixar aqui um comentário sobre a UE.
Por razões históricas, os 27 estados-membros da UE estão divididos em três
agrupamentos eleitorais: WEOG, Europa de leste, e, muito exoticamente, Chipre
vive no grupo asiático. Nos dois grupos europeus convivem também diversos
países que não são membros da UE. E, como é sabido, há dois países europeus que
são membros permanentes do CSNU. Por outras palavras, as condições de base para
uma concertação europeia em votações para o CSNU são débeis. Mas, para além
dessas condições, há que reconhecer que a solidariedade europeia é um critério
menor, inexistente para um certo número de estados-membros. Basta reparar no
seguinte: entre 10 e 12 países da UE não votaram nos dois candidatos europeus.
É certo que a entrada tardia da Alemanha teve responsabilidade por isto em
alguns casos, porque houve países que não quiseram quebrar compromissos antigos
com Portugal e com o Canadá, mas, mesmo assim, o facto é iniludível: não há uma
identidade europeia clara em nova York, e seguramente que a pertença à UE não
constitui uma vantagem eleitoral.
Quanto aos membros permanentes, o mais importante foi o facto de eles valeram
apenas cinco votos. Embora haja a tradição entre os membros permanentes de não
comprometerem formalmente o sentido do seu voto, por razões que se prendem com
o exercício das suas responsabilidades especiais
19
, o diálogo com esses países, e o simples uso da lógica, permite-nos pensar que
obtivemos o apoio de três dos cinco membros permanentes. No caso do reino
unido, há uma ligação umbilical ao Canadá, sobrando a dúvida sobre se terá
também votado na Alemanha; no caso dos estados unidos, os três candidatos são
aliados, mas o nosso registo histórico de votações em questões do Médio Oriente
mostra um maior grau de divergência das posições americanas quando comparado
com os outros dois concorrentes, sendo esta questão provavelmente decisiva para
o sentido de voto americano. Não há razão para pensar que não obtivemos os
votos dos restantes membros permanentes. Mas, em todo o caso, não houve nenhuma
campanha negativa contra a nossa candidatura, o que mostra que todos os membros
permanentes olham para Portugal como um país com quem se pode trabalhar bem no
CSNU.
O resultado final, sendo embora extremamente positivo, ficou ligeiramente aquém
das nossas previsões em véspera do acto eleitoral, e creio que isso se deve a
uma pequena perda de votos no último par de semanas. Efectivamente, nos
derradeiros momentos da campanha, a diferença de recursos tem consequências
significativas, nomeadamente em termos de apoios para o desenvolvimento, ou de
promessas que dizem respeito a interesses económicos. São domínios em que temos
dificuldade em concorrer. Tanto a Alemanha como o Canadá perceberam ' pelo
menos, nas últimas semanas ' que Portugal tinha uma base eleitoral muito forte,
o que significava que tinham de apostar forte nos últimos dias. Sendo
impossível obter provas, estou convencido de que os nossos adversários
conseguiram, nesse esforço final, «desviar» um certo número de votos que vinham
na nossa direcção20. Creio que perdemos assim alguns apoios nas Caraíbas, na
Ásia Central e na África. Por outro lado, isto demonstra também a grande
solidez da campanha, porque, apesar da erosão tardia, o resultado foi aquele
que se viu.
Finalmente, uma breve palavra sobre os resultados dos outros dois candidatos.
Para o Canadá, derrotado pela primeira vez após seis presenças no Conselho de
Segurança, este resultado foi entendido como desastroso. Porém, a partir da
entrada na campanha da Alemanha, o lugar canadiano estava em perigo, algo que a
campanha canadiana terá demorado demasiado tempo a reconhecer. Em 1996,
Portugal derrotou a Austrália; salvaguardando algumas diferenças, a base
eleitoral do Canadá não era assim tão distinta ' embora se deva admitir que o
Canadá era um rival mais forte que a Austrália, por diversas razões, incluindo
o facto de ter um excelente representante permanente em nova York, o que não
era o caso da Austrália na campanha anterior. Será, no entanto, em Otava que se
deverão tirar conclusões, restando-nos a esperança (mais do que justificável, a
meu ver) de que atribuam parte da responsabilidade da derrota à elevada
qualidade da nossa campanha, e não apenas a eventuais deméritos da campanha
canadiana.
Por fim, deixando por um momento de parte a perspectiva portuguesa, e
procurando entender o significado deste resultado para o sistema internacional,
não hesito em dizer que a mais importante consequência destes resultados foi o
enorme ponto de interrogação que se levantou quanto à pretensão alemã de ter um
lugar permanente no Conselho de Segurança. Como referi anteriormente, a decisão
alemã de avançar relacionava-se com essa problemática, e, nessa medida,
constituiu uma aposta com um certo grau de risco: um bom resultado poderia
consolidar as pretensões alemãs; um mau resultado teria o efeito contrário.
Ora, o que dizer de uma votação em que a Alemanha consegue ser eleita como
membro temporáriodo CSNU por uma margem de um voto apenas, distanciando-se de
Portugal por uns escassos seis votos, quando a diferença de recursos entre os
dois é abissal? Talvez haja um fundo de verdade naquilo que dizia um embaixador
de outro país G4: que este resultado significou «uma derrota alemã»
O que é, no entanto, certo e indiscutível é que se tratou de uma vitória
portuguesa. Conseguida com grande esforço e mérito de todos aqueles que
trabalharam na campanha. Sem eles, sem essa dedicação e sem esse esforço, este
resultado não seria pensável. Mas não se deve perder de vista uma verdade ainda
mais profunda: este resultado aconteceu, porque um grande número de países em
todos os continentes concluiu que a política externa portuguesa o merece. Há
nesta constatação muitas pistas para a reflexão.
Notas
1
Western European and Others Group: trata-se do grupo regional no qual portugal
está inserido, e que conta com os países da Europa ocidental e ainda a
Austrália, o Canadá, Israel, a Turquia e a Nova Zelândia. Para além do WEOG há
mais quatro grupos regionais: África, Europa de Leste, Ásia (que inclui também
todo o pacífico e um país da UE, Chipre) e GRULAC (América Latina e Caraíbas).
Como se pode ver, a marca da Guerra Fria é muito visível.
2
Para uma análise detalhada da campanha de 1996, cf. paixão, João Quintela '
«Candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança das nações unidas». In
Política Internacional. vol. 1, n.º 14, Primavera-Verão de 1997, pp. 67-87.
Neste artigo, Quintela Paixão assinala a natureza inédita da atitude da Suécia
e da Austrália, mas mostra como acabou por ser um erro que a candidatura
portuguesa soube aproveitar.
3
No grupo Ásia existe já uma escala de candidatos ao Conselho de Segurança com
um horizonte de três décadas, mas quanto mais distante no tempo, maior o
desconto que é preciso dar à fiabilidade de um compromisso de apoio.
4
Para o biénio 1999-2000, o Canadá foi eleito à primeira volta com 131 votos em
175, sendo o país mais votado do grupo. Os Países Baixos foram também eleitos à
primeira volta em detrimento da Grécia.
5
Cerca de 226 representações diplomáticas.
6
Em 2009, em milhões de dólares, a APD total portuguesa foi 512, a canadiana foi
4,012, e a alemã foi 12,079. Cf. estatísticas da OCDE (http://stats.oecd.org/
index.aspx).
7
Dentro do próprio CSNU existe uma distinção muito clara entre os membros
permanentes e os temporários, e mesmo dentro do grupo dos permanentes. Como me
disse um dos mais graduados diplomatas britânicos, a elaboração de resoluções
do CSNU era um assunto dos «P3» (Estados Unidos, Reino Unido e França), e assim
continuaria a ser no futuro previsível.
8
Mas veja-se que, depois da eleição para o CSNU, ressurgiu a tese de que a
vitória de Portugal e da Alemanha foi fruto de uma conspiração bem urdida pela
UE, com o apoio da votação em bloco por parte de países da UE. (David Frum, no
Frumforum, um blogue que aparenta ser influente apesar da exuberante ignorância
das opiniões aí expressas).
9
Houve experiências de partilhas de mandato mas apenas antes de 1965, data em
que se levou a cabo uma reforma do Conselho de Segurança, ampliando-o,
precisamente para responder ao problema que tinha levado à partilha de
mandatos. Foi nessa altura que se consolidaram os grupos eleitorais regionais.
Desde então nunca mais houve qualquer caso de partilha de mandato, havendo
diversas dúvidas sobre a própria exequibilidade da ideia.
10Artigo 34.º do Tratado de Lisboa.
11O que não impediu que eu tivesse feito uma apresentação dos nossos pontos de
vista a todo o grupo de embaixadores africanos em Nova York em Março de 2010.
12O ano de trabalho da AGNU inicia-se cada ano na segunda metade de Setembro.
Hoje em dia, na abertura da Assembleia Geral os países fazem-se representar, na
maioria dos casos, a nível de chefe de estado ou de governo, sendo por
conseguinte o mais importante momento anual da diplomacia internacional.
13Há 192 países com assento nas nações unidas. Por razões óbvias não valia a
pena fazer campanha junto do Canadá e da Alemanha, com quem as relações eram
cordiais (particularmente com o Canadá), e o Kiribati não dispõe de nenhum
diplomata acreditado em Nova York.
14Respectivamente, com a então secretária de estado Teresa Ribeiro em Cairns, e
comigo no Vanuatu e em Nova York.
15Calculei a percentagem com base na estimativa inferior.
16Na realidade há 53 votos de países africanos, mas houve um país africano que
chegou atrasado, não podendo utilizar o seu voto.
17América Latina e Caraíbas.
18Europa Ocidental e outros.
19Algo bizarramente, a Suécia agora afirma que também não revela o sentido do
seu voto.
20Houve um representante permanente de um país das Caraíbas que me informou na
véspera da votação que lamentava que não iria poder votar por nós,
acrescentando com grande candura que eu compreenderia sem dúvida o voto nos
outros dois, um por causa da importância directa para a região, o outro porque
«we have made them pay highly for it».
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1000-155 Lisboa
Portugal
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