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EuPTHUHu1645-72502014000200010

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN1645-7250
Year2014
Issue0002
Article number00010

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Português para todos: a aprendizagem da língua portuguesa como facilitadora da interculturalidade e da inclusão social e educativa Esta afirmação remete-nos para a urgência na construção de uma escola que crie e consolide uma educação inclusiva e não permita preconceitos face ao bilinguismo dos estudantes. A Língua Materna [LM] não pode ser considerada um fator que diminui as potencialidades dos alunos. Por isso é que o Governo Português tem tomado sérias iniciativas, no sentido de facultar aos estrangeiros a possibilidade de compreender, falar e escrever em português facilitando assim a sua inclusão sociocultural, profissional e escolar. Destas iniciativas, destaca-se o curso PPT, coordenado a nível central pelo Alto Comissariado para a Imigração e Desenvolvimento Intercultural.

No âmbito escolar, é importante que sejam criadas todas as condições para que os filhos dos imigrantes não se inferiorizem nem se afastem em relação à língua e à cultura veiculadas pela escola. É necessário que as comunidades docente e discente aceitem e apreciem as particularidades dos novos alunos: valorizem a sua língua e cultura de origem, estimulem a participação dos pais, a aprendizagem cooperativa, entre outros aspetos, no sentido de contribuir para que as escolas se tornem eficazes no combate ao insucesso e abandono desses alunos, que por vezes são os primeiros passos para a exclusão social (Gouveia & Solla, 2004, p.20).

A aprendizagem de uma língua implica duas facetas: por um lado, conhecer o seu funcionamento, ou seja, as suas regras, os seus códigos e, por outro lado, conhecer o seu uso social (Santos, 2002). Esta correlação é imprescindível e, no ensino da língua, devemos considerar várias perspetivas metodológicas, pois não existe uma que seja a ideal. A escolha depende do momento, dos alunos e do conteúdo que se quer trabalhar. Por um lado, nem sempre devemos partir de estratégias meramente comunicativas, sendo a aprendizagem da estrutura da língua indispensável na construção de enunciados gramaticalmente corretos e aceitáveis do ponto de vista da interação comunicativa. O desenvolvimento da consciência metalinguística e contrastiva com o recurso a métodos mais tradicionais é imprescindível na eliminação dos erros interlinguísticos, por exemplo (James & Garrett, 1991). Por outro lado, é importante que o professor não trabalhe a gramática como um fim, mas antes um meio que contribui para um melhor desempenho numa situação comunicativa durante as interações sociais.

É necessário criar situações de aprendizagem em que falar, ler e escrever não aparecem como meros exercícios mecânicos, sem sentido e desnecessários, mas sim como atos comunicativos com finalidades específicas decorrentes do social.

Partir de atividades reais de comunicação é o caminho para a criação de um ambiente de cooperação e comunicação entre os alunos que assim se envolvem no uso funcional da língua (Bordón, 2007). Como nos diz Gómez de Enterría (2009), tudo parte da pergunta «para quê?» e a partir daí o docente deve dar aos seus alunos as ferramentas de que necessitam. Porém, "facultar ao indivíduo migrante o conhecimento da língua do país onde agora se encontra é uma responsabilidade da sociedade de acolhimento" (Grosso et al., 2009, p.5), entendendo por sociedade toda a comunidade e não apenas a escola. No convívio quotidiano, o cidadão estrangeiro está exposto a uma ampla quantidade de informação e à aprendizagem da língua. Este real contacto, expondo-se o mais possível, é o meio que leva o falante a adquirir o automatismo desejável quando se expressa, transitando da gramática da sua LM para a gramática da língua objeto.

2. Interculturalidade: definição e importância O panorama intercultural português é bastante diverso o que exige da sociedade um diálogo aberto, assente na tolerância, na inclusão e na cooperação. Este diálogo, como expôs Batelaan (2003, p.5), no Conselho da Europa em Estrasburgo,

suppose l'échange d'informations et d'opinions afin de promouvoir la compréhension mutuelle entre des personnes d'origines sociales, géographiques et culturelles différentes et ayant des convictions et des intérêts différents. Cette compréhension mutuelle est l'une des conditions nécessaires de la coexistence pacifique. Dans nos sociétés, pour vivre ensemble, la tolérance, l'inclusion et la coopération dans les quartiers, les lieux de travail et les institutions (écoles, centres socio- culturels et clubs), sont nécessaires.

E, para se construir este diálogo, a estratégia passa por fundar a interculturalidade, isto é, "a mentalidade aberta entre duas ou mais culturas, a um nível igualitário; a convivência fraterna entre pessoas de distintas culturas, com tolerância para com 'o outro', tendo em vista um enriquecimento mútuo" (Lopes-Cardoso, 2008, p.21). Esta educação é responsável por incutir nas crianças e nos jovens valores como a compreensão da diferença, o respeito pelo Outro como ser humano que é, a comunicação e a cooperação entre pessoas de origens diversas.

A educação intercultural é o caminho para incutir nos cidadãos sentimentos de preocupação com

o racismo e a xenofobia, com o repúdio de preconceitos, com a procura de respeito e preservação das línguas maternas, evitando que se manifeste e desenvolva a tendência para o etnocentrismo e para transformar o 'estrangeiro' no bode expiatório de tensões sociais, políticas e económicas (Lopes-Cardoso, 2008, p. 25).

E, em contraposição, aproveitando as palavras de Cochito (2004, p.16), apresentamos agora aquilo que não é educação intercultural e que se verifica em muitas escolas e associações locais do nosso país:

Educação intercultural não é incluir 'outras culturas' nos temas dos programas, nem celebrar as festas e as datas dos 'outros'; não é fazer uma campanha de sloganssobre os direitos humanos, quantas vezes [] reproduzindo um conhecimento estereotipado do outro; também não é uma forma de [] os levar, sem atrito, a comportarem-se como 'nós', a falarem como 'nós'! Educação intercultural não é 'dar voz' a minorias como forma de atenuar ou adiar o conflito enquanto 'aprendem' a integrar-se. Educação intercultural não é considerar a diferença como uma 'falha' que o próprio deve ter todo o interesse em suprir.

A interculturalidade fundamenta-se na interação e reciprocidade entre pessoas ou grupos humanos que pertencem a culturas diferentes, que coexistem no mesmo espaço e que se respeitam, resolvendo de forma não violenta os «conflitos». A educação intercultural abre a mentalidade das pessoas, ensina a comunicar com o Outro e a não lhe colocar «rótulos». Ademais, a diversidade cultural e linguística é também uma forma de conhecermos mais (sem sairmos do nosso país) e uma oportunidade para criarmos um ensino diferenciado e gerador de igualdade de oportunidades, em concordância com os parâmetros de uma escola para todos.

2.1Escola e sociedade interculturais. Que mudanças se exigem? Portugal tem cada vez mais gente de diferentes nacionalidades, línguas e tradições, devido ao nosso passado histórico e aos mais recentes fenómenos migratórios. Neste contexto, um sistema educativo de massas deve considerar essa riqueza cultural como um fator de coesão e de enriquecimento pessoal e social, procurando construir uma cidadania para todos. Uma escola e uma sociedade pautadas pela diversidade, em que todos têm direito ao sucesso educativo e à igualdade de oportunidades, exigem que a educação intercultural e inclusiva seja uma realidade. O sucesso educativo não pode ser apenas a classificação positiva na avaliação final, mas sim uma igualdade no acesso aos conhecimentos cognitivos e culturais, caso contrário, a discriminação continua, como ainda vai acontecendo com filhos de estrangeiros e alunos em situação de deficiência. Trata-se, como diz Pedro (2009), de uma exclusão mais subtil, que deve merecer uma reflexão que saia do átrios sábios das universidades. Se as leis são importantes, realmente indispensável é o trabalho de sensibilização da opinião pública, de apoio ao associativismo imigrante, a gestão inteligente do fenómeno migratório, a cooperação e a atitude humanista. As leis e os discursos tornaram-se rapidamente inclusivos, mas as práticas muito discretamente o são.

Contudo, a mudança pode acontecer. E, neste campo, a escola tem um papel de crucial importância, criando uma educação para todos que realmente aconteça: uma escola ajustada a esta nova realidade, incluindo-a nos programas de ensino, e que aposte numa pedagogia inclusiva e intercultural. É na escola em contacto com a comunidade que podemos aperfeiçoar o processo de socialização. esta comunicação entre a escola e a sociedade permite transformar a possível multiculturalidade estática numa interculturalidade dinâmica (Pedro, 2009) e construir o conhecimento e a emancipação. Daqui se depreende que as atividades pedagógicas e linguísticas praticadas na escola se devem prolongar para meio exterior (Batelaan, 2003), sendo a comunidade uma ramificação.

3. Educação Inclusiva: implicações pedagógicas O conceito de inclusão existe se pensarmos em exclusão, isto é, no impedimento de pertencer a um grupo e nele participar ativamente em comunhão com os restantes elementos. A inclusão inicia-se com o reconhecimento das diferenças entre as pessoas, a sua valorização e fazer delas o ponto de partida para novas aprendizagens (Gardou, 2011).

A educação inclusiva exige que as experiências e práticas de todas as pessoas envolvidas (professores, alunos, pais e os membros da comunidade) sejam valorizadas e que haja um trabalho colaborativo como meio que facilita a tomada de decisões e a resolução de problemas (Sanches & Teodoro, 2007). A existência de uma cultura de partilha é condição essencial para se alcançar uma educação de qualidade para todos, em que todos têm um lugar e um contributo a dar, em que o (in)sucesso seja considerado uma responsabilidade de todos. Por isso, é importante que se organizem ações de formação, palestras, debates, um trabalho em conjunto com outras escolas, instituições e associações locais que proporcionem a troca construtiva de opiniões e experiências que conduzam a uma procura partilhada de novos caminhos.

Numa educação inclusiva, o professor desempenha fundamentalmente o papel de organizador, orientador e dinamizador das atividades. A sua preocupação dominante é fazer com que a atividade seja relevante e significativa para todos, trabalhando em grupos com líderes rotativos, por exemplo, em que todos os elementos são reconhecidos, usufruem de uma participação ativa e útil e são corresponsáveis pelos progressos uns dos outros. Desta forma, em aprendizagem cooperativa, ninguém sai prejudicado da sala de aula. Nem os alunos considerados melhores ficarão prejudicados nem os apelidados de piores ficarão diminuídos (Sanches, 2011). Trata-se de uma filosofia de trabalho, de descoberta e de troca que estimula a participação e o envolvimento dos alunos nas atividades propostas; o reconhecimento e a valorização da individualidade; e a reflexão crítica de todos os intervenientes (Ainscow, 1997; Porter, 1997).

Se os alunos estão nas escolas, seja o estrangeiro, o pobre, o portador de deficiência, os cognitivamente menos capazes, por que não os melhores e mais rápidos ajudarem os outros, constituindo-se um recurso para o professor? Nesta sequência, Wang (1997) apontou certos erros graves que se cometem na tentativa de garantir a equidade no sucesso: elaborar programas baseados nas diferenças; simplificar o método educativo, reduzindo o currículo ao ensino de competências simples; manter os alunos calados e passivos, para que se diga que a turma está controlada; negligenciar as matérias fundamentais; dar menor feedback aos alunos que têm dificuldades, fazendo-lhes menor número de perguntas e/ou não esperando o tempo adequado pela resposta.

Contextualização metodológica Este trabalho de projeto desenvolveu-se na modalidade de investigação-ação durante o ano 2009-10 e com um grupo de formandos do curso de PPT de uma escola do Algarve. Os formandos eram oriundos do centro e norte da Europa; na sua maioria, tinham idades avançadas e eram reformados; tinham um baixo nível em LP; viviam um pouco isolados da comunidade local e sentiam-se desapoiados pela comunidade portuguesa. Destes fatores, resultava uma deficiente inclusão social. A própria comunidade, desconhecendo o interesse dos formandos estrangeiros pela aprendizagem da LP, culpabilizava-os pelas suas dificuldades linguísticas, considerando-os desinteressados e isolados, sem terem a noção de que, na verdade, essas dificuldades podem levar à marginalização e ao isolamento. Havia, portanto, uma situação de afastamento e culpabilização mútua não por questões xenófobas, mas antes por estereótipos.

Daqui se depreende que todo o trabalho teve de ser projetado para uma ação cujos alvos foram os formandos e a comunidade escolar e local onde estudavam e residiam. Estas comunidades foram chamadas a intervir nas ações dinamizadas em contexto.

Como alicerce de todo o plano de ação, levámos a cabo uma investigação teórica e de campo preponderantes para um cabal conhecimento do tema, das técnicas de atuação e do meio concreto em que se pretendia atuar. A parte empírica da investigação foi realizada com o recurso a técnicas de pesquisa de dados, tais como: observação, entrevista semiaberta e por questionário, avaliação documental e aplicação de testes de diagnóstico. Com este trabalho, obtivemos uma caracterização da situação inicial e da problemática, e definimos os objetivos e as estratégias de atuação que não se limitou ao investigador, mostrando que o aspeto social se sobrepõe ao individual, pois todos têm um lugar e um contributo a dar, como defendem Sanches e Teodoro (2007) e Batelaan (2003).

No âmbito da aprendizagem da LP, as estratégias desenvolvidas tinham como fim último a preparação dos cidadãos para a vida quotidiana, como aconselham Grosso et al (2008), Bordón (2007) e Santos (2004). Houve também a aprendizagem em contextos reais fora da sala de aula, de modo a reforçar a ideia de que a comunicação no meio social deve ocorrer em LP e não em inglês e que a sociedade de acolhimento deve auxiliar em todo este processo como corresponsável (Grosso et al., 2009). Esta estratégia de atuação no meio socioeducativo incluiu outrossim o apoio de instituições como a casa do povo, a Universidade do Algarve e o ACIDI.

A avaliação das aprendizagens era contínua e efetuada tanto em contexto de sala de aula como em espaços exteriores, para que fosse o mais fiel possível. Esta foi uma metodologia que serviu para contornar o facto de, na generalidade, não haver uma total transposição dos conhecimentos adquiridos na sala de aula para a vida real, em virtude de usarem maioritariamente a língua inglesa. Desta forma, ajustavam-se as metodologias à realidade da região e trabalhava-se de modo mais personalizado e direcionado para os verdadeiros interesses e necessidades dos formandos.

Intervenção socioeducativa e principais resultados A intervenção realizada teve como objetivo a inclusão social dos formandos do curso de PPT. O meio através do qual se desenvolveu todo o processo foi a aprendizagem-ensino da LP com objetivos de uso, gerando-se a capacidade de comunicar, daí que o curso não se tenha restringido à sala de aula e às atividades direcionadas exclusivamente para o grupo de formandos. Os próprios formandos notaram que este foi um curso diferente, pois tiveram a oportunidade de comparar com o que haviam feito no ano letivo anterior, que, com a exceção de um, todos os estudantes tinham participado na primeira edição do curso de PPT. O diálogo e a cooperação entre formador, formandos e outros agentes educativos da comunidade escolar e local foram um imperativo e um agrado para os formandos. Comentários como "Gostei da forma como o curso de PPT interagiu com a comunidade através dos eventos na escola, na casa do povo e na comunidade local" e "As atividades que estimularam a interação na escola e na comunidade foram úteis e agradáveis" são o exemplo da satisfação dos formandos.

A atuação recaiu sobre duas vertentes: linguística e social/intercultural (motivar os formandos para participar na sociedade, incentivar a comunidade local para que seja uma parte neste processo de ensinamento da LP e motivar as comunidades escolar e local para um trabalho colaborativo no âmbito da criação de interculturalidade e inclusão social).

Para dar cumprimento aos objetivos traçados realizou-se uma palestra sobre educação inclusiva e uma oficina de interculturalidade abertas a toda a comunidade. Além destas atividades, os formandos atuaram na comunidade local, promoveram outras que conduzissem a comunidade à escola (pais, associações escolares e instituições locais) e ainda outras que envolvessem a comunidade estudantil desde o primeiro ciclo (com o objetivo de formar novas mentalidades desde a mais tenra idade), professores e funcionários.

Percebe-se então, tal como aconselha Ainscow (1997), que o objetivo de se criar uma sociedade inclusiva exigiu uma metodologia de envolvimento que se estendeu para além da equipa pedagógica e que incluiu muitos outros agentes educativos, havendo um reforço da participação dos formandos na comunidade local com o intuito de melhorar e aprofundar as relações com os cidadãos da comunidade de acolhimento. A título exemplificativo, destacamos uma atividade que consistiu em realizar, numa manhã de sábado, um passeio pela comunidade, com paragens obrigatórias num café para tomar o pequeno-almoço e no mercado para comprar os legumes, frutas, carnes e o peixe necessários para a semana seguinte. Foi uma oportunidade de uso da língua em contexto real, colocando em prática os conteúdos gramaticais, léxicos, pragmático-funcionais e socioculturais trabalhados na sala de aula. O contacto com a língua-alvo em contextos reais, saindo da sala de aula, de maneira a expor os estudantes o mais possível (aproveitando o facto de a aprendizagem da LP ocorrer em Portugal), é uma estratégia de ensino de extrema relevância pela confiança que se aos formandos e pelos exemplos que se passam para a sociedade como coadjuvante no processo de aprendizagem-ensino da LP (Grosso et al., 2009).

Como exemplo de uma atividade que levou a comunidade à escola para se envolver na construção de uma mudança de atitude, salientamos o "Sarau de Poesia: Chá com Letras" que o departamento de línguas promoveu envolvendo vários grupos sociais na concretização desta tarefa: os formandos de PPT das duas turmas existentes, a escola (direção, funcionários, alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, suas famílias e outros docentes) e associações locais. Com esta atividade, cumpriram-se objetivos de pendor linguístico (falar em LP), intercultural (valorizar a cultura literária e linguística dos países de origem dos imigrantes) e, consequentemente, inclusivo.

Com a finalidade de formar novas mentalidades e de gerar Educação Inclusiva e Intercultural no seio dos mais novos, os formandos de PPT das duas turmas juntaram-se para organizar uma exposição de Natal em colaboração com os alunos do 2.º e 3.º ciclos. Por meio desta atividade, conheceram-se as tradições dos países de origem, contemplando todas as línguas maternas que existiam no estabelecimento de ensino, assim como as línguas estrangeiras estudadas, incluindo a LP.

Para os alunos do 1.º ciclo, os formandos organizaram várias sessões em que, semanalmente, durante o terceiro período letivo, se ouvia contar em LP histórias infantis dos países de origem dos formandos, culminando-se "A hora do conto" com a apresentação de uma narrativa criada pelos próprios formandos que consistiu numa espécie de roteiro turístico percorrendo todos os países que os alunos representavam. Assim, através de referentes culturais (como a geografia, lugares, literatura, museus, escultura) e de saberes e comportamentos socioculturais tais como as comidas e bebidas típicas, viagens, transportes e festas, os alunos ampliaram os seus conhecimentos sobre os países de origem dos imigrantes que habitualmente veem nas ruas da localidade. As crianças tiveram também a oportunidade de contactar com os cidadãos e aprender a respeitar as suas dificuldades linguísticas e as diferenças culturais. Como expressa Cochito (2004), educar as crianças na base da compreensão e respeito pela diversidade e pela diferença é uma forma de as tornar mais participativas e aptas à comunicação intercultural. Por outro lado, com esta atividade, os próprios formandos puderam manter hábitos de prática da LP desenvolvendo as destrezas de expressão escrita (fazendo traduções e criando a narrativa do percurso turístico) e de expressão/interação oral (ao contar as histórias e ao interagir com os alunos).

Os resultados finais em LP, a avaliação das atividades e a autoavaliação final do curso pelos formandos 2 mostram que os objetivos traçados foram atingidos. mesmo um formando que escreveu o seguinte: "agora sou mais capaz de interagir com a comunidade através da LP melhor do que fazia antes". Outro é da mesma opinião e diz que está mais motivado para agora continuar o seu português, o que significa que lhes foram proporcionadas as bases necessárias para que possam continuar a ser estudantes de LP em contextos formais e, principalmente, informais.

Com este trabalho no curso de PPT, foi possível construir uma grande mudança ao nível linguístico, como comprovam os resultados obtidos no teste final de nível A2 em todas as subáreas e os comentários que os formandos escreveram na sua autoavaliação: "O meu desempenho na língua cresceu"; "O diálogo básico melhorou"; e "Os meus níveis de leitura e escrita melhoraram". A mudança ocorreu outrossim ao nível social, com uma séria mutação nas atitudes. A este respeito, um formando escreveu: "As pessoas estão mais disponíveis para ajudar e isso encoraja-me a aprender mais e melhor". , neste comentário, a referência a duas grandes conquistas: a confiança em relação ao uso da LP que os formandos adquiriram durante a frequência do curso e a alteração nos comportamentos do povo graças à sensibilização «porta a porta» e do convívio que se gerou.

cinco comentários dos formandos que podem resumir, por um lado, a importância e utilidade do curso de PPT para estes cidadãos estrangeiros e residentes no Algarve e, por outra parte, o cumprimento dos objetivos: "O curso ajudou-me a comunicar com os meus vizinhos e fui bem recebida."; "O curso foi importante para a minha vida no Algarve porque me tornou mais confiante quando falo e interajo com os meus vizinhos, quando vou às compras e no fazer amigos nesta região."; "Consigo comunicar com os meus vizinhos em situações simples de comunicação e isso faz-me sentir bem.

Também sou capaz de me expressar quando faço compras no mercado ou quando vou ao restaurante."; o curso " mais confiança e oportunidade de conhecer outras pessoas na região."; o curso "ajuda a melhorar a qualidade de vida em Portugal".

Todavia, num único ano letivo, as conquistas e mudanças não são absolutamente sólidas. No final do ano, ainda permaneciam dificuldades em termos linguísticos (sobretudo ao nível da interação oral) e no aprofundamento das relações entre a escola e a comunidade. Trata-se de um trabalho que pode demorar três ou mais anos letivos sem nunca prescindir do investimento na sociedade. Um curso de PLE cuja finalidade maior é a inclusão social dos alunos deve investir fortemente na comunidade e não se limitar ao trabalho na sala de aula. Como refere Leal (2010, p.194):

Poderão ser feitos projetos de atividades cuja organização seja em conjunto tanto na escola como na sociedade, de maneira a existir uma aproximação cultural, linguística e relacional. Aproveitar os eventos da comunidade, criar situações de prática real nos contextos, promovendo uma prática da oralidade com mais entusiasmo do que acontece na sala de aula, criar atividades na escola e atrair a comunidade local são tarefas primordiais para a transmissão de bons exemplos de comportamento e operar as mudanças desejadas.

A Junta de Freguesia e a Casa do Povo, por exemplo, são instituições que devem estabelecer parcerias com a escola, não no sentido de se participar nas atividades que os outros organizam, mas também haver projetos comuns e organizados em conjunto. Por outra parte, é preciso existir um maior interesse dos professores em debater as suas próprias práticas pedagógicas.

Considerações finais Este trabalho de investigação-ação teve como finalidades essenciais o trabalho da LP em situações do quotidiano, garantindo aos formandos as melhores competências de modo a evitar que os recetores não necessitassem de responder em inglês; dinamizar a comunidade para que facilitasse a inclusão social dos estrangeiros residentes em Portugal; e fazer o intercâmbio formandos-escola- comunidade.

Conhecendo a situação inicial, houve o propósito de fazer um trabalho que conduzisse a uma situação desejável (Sanches, 2005), operada por intermédio de uma mudança ao nível das competências em LP, da inclusão social e da interculturalidade. Para se concretizarem estes passos, foi necessária uma atuação sobre/com o grupo de formandos e a sociedade, não restringindo tal atuação aos pressupostos teóricos e indo mais além dos decretos. É preciso que a lei passe para além do legislador, do investigador, das discussões académicas, sob pena de a mudança social não se verificar por não existir a intervenção dos próprios cidadãos. O próprio Estado tem noção desta necessidade, daí o apelo aos cidadãos para que sejam seus parceiros em matéria de inclusão social como se nota no Plano para a Integração dos Imigrantes. E foi este trabalho de parceria que ocorreu no curso de PPT.

Foram realizadas várias tarefas no sentido de melhorar a autoestima e a confiança dos formandos quer no que toca à sua inclusão social quer à prática da LP. Promoveu-se um intercâmbio formandos-escola-comunidade, com atividades práticas, de cariz cultural, onde os imigrantes foram chamados a intervir, envolvendo as comunidades, promovendo a troca de experiências e possibilitando o uso da LP. Além destas atividades, confirmando o que diz Cochito (2004), também a aprendizagem cooperativa em sala de aula foi uma estratégia que contribuiu para deixar os formandos mais à vontade, sem receio de intervir e de apresentar as suas ideias e opiniões. A promoção de uma maior responsabilização dos formandos e a diversificação de modelos de aprendizagem e de trabalho são sempre uma garantia de sucesso.


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