Rebelo de Bettencourt: Raízes de Basalto
RECENSÃO
Anabela Mimoso (2014).Rebelo de Bettencourt: Raízes de Basalto.Ponta Delgada:
Editora Seixo Publihers, 77 páginas.
Maria Neves Gonçalves & José Viegas Brás
Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias -CeiED
maria.neves.g@gmail.com; zevibras@gmail.com
A Editora Seixo Publishers acaba de dar à estampa o livro Rebelo de
Bettencourt: Raízes de Basalto, de Anabela Mimoso.
A autora convida-nos a uma reflexão sobre a vida e a obra de Rebelo
Bettencourt. Trata-se de uma narrativa que, no fundo, é uma história de vida.
Que vida é esta que Anabela MImoso nos dá conhecer? É de alguém que nos
surpreende desde logo por ter escrito um texto crítico sobre Fernando Pessoa,
datado de 1930, publicado na revista Pessoa Pluralda Brown Universit, numa
altura em que Fernando Pessoa era ainda um escritor ignorado por parte do
público ou depreciado por outra parte.
A autora revela o rigor e a precisão que se exige a uma narrativa de natureza
científica. Esta é uma marca significativa deste livro. Resulta de um trabalho
meticuloso, quer pela recolha, quer pela selecção, quer pelo tratamento das
fontes. Para penetrar na personalidade deste micaelense, Anabela Mimoso
recorreu a fontes orais (memórias da família da mulher, mas também das da filha
e dos netos), a documentos pessoais (como o passe do autocarro, o cartão de
estudante do conservatório, cartão de visitas,…), à correspondência de Rebelo
de Bettencourt com Antero de Figueiredo e sobretudo ao legado bibliográfico do
autor. A sua obra é vasta: cinco livros de poesia, seis livros de ensaios e
crónicas, várias traduções e revisões de traduções, um livro de contos e muitos
artigos, crónicas e ensaios dispersos por diversos jornais e revistas.
Na sua explanação, a autora vai-nos apresentando o biografado que é um
intelectual progressista conectado com as ideias que circulavam então pela
Europa. Mas reserva ao leitor a implicação intrínseca com o texto, pois este
tem que ir, ao longo do enunciado narrativo, configurando os recortes temporais
e espaciais em que Rebelo Bettencourt se vai movendo e situando. Rebelo
Bettencourt é um homem culto, cosmopolita e viajado para quem "Um navio
representa (…) o mistério e o deslumbramento de outras terras distantes e
desconhecidas, de outras ilhas, de outros povos. O mar! A volúpia das viagens!
" (p. 8). E um autor multifacetado. Foi crítico, ensaísta, jornalista e
poeta. Contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e outros
vultos da intelligentsia do seu tempo, foi um seguidor e admirador do seu
conterrâneo, Teófilo Braga, que ele conheceu na Universidade de Lisboa. Alguns
anos mais tarde, haveria de dedicar à sua cidade natal o livro Teófilo Braga,
mestre nacionalista.
O livro, que agora se apresenta, está escrito numa linguagem clara, límpida,
onde, discursivamente, afloram, de quando em vez, algumas expressões imagéticas
e metafóricas que dão cor local à narrativa e lhe incutem laivos de
literariedade, não fosse a autora também uma notável escritora de ficções
literárias1. O livro, além da Introdução e da Conclusão, estrutura-se em três
partes, cada uma delas focando-se numa das facetas deste escritor ecléctico e
cosmopolita. Assim, o leitor mergulha em três níveis de leitura, a saber: A
vida - com alguns pormenores curiosos (pp.6-11); A obra - categorizada em
poesia, contos, traduções, ensaios, crónicas em jornais e revistas (pp.11-51. E
o Pensamento de Rebelo Bettencourt(pp.51-69).
Uma das partes, que ocupa um significativo espaço na economia narrativa deste
livro, é a poesia. Mesmo tendo escrito os seus poemas respeitando sempre a
métrica tradicional, dentro de um nacionalismo muito influenciado por António
Sardinha - "o continuador de Garrett e o mentor da nova
geração" (p.27) - que ele venerava, não deixou de celebrar o modernismo
dos "rapazes do Martinho e da geração de Orfeu" (p.47)" ,
como ele chamava a Almada Negreiros, a Santa Rita Pintor, a Fernando Pessoa e a
Carlos Porfírio. Data de 1917 a sua colaboração no Portugal Futurista.Aí
publicou além de um elogioso artigo sobre Santa Rita, outro sobre o Futurismo.
Mais tarde haveria de os incluir no seu melhor livro de ensaios/crónicas O
Mundo das Imagens. Ferreira de Castro escreveria que encontrara neste livro
"páginas cheias de beleza, páginas de um brilhantíssimo recorte
literário" (Gaceta Literaria,Madrid, 1935, p.71).
Se a vida de Rebelo Bettencourt merece à autora um olhar aprofundado, o mesmo
se verifica na preocupação em fornecer ao leitor dados contextuais históricos,
culturais, artísticos, teatrais sobre a época em que ele viveu.
E assim, aos poucos, a autora foi configurando o autor a corpo inteiro. Um
autor para quem a ilha foi demasiado pequena, apesar de "nunca ter
abandonou as suas raízes de basalto e apesar das longas ausências" e da
"maioria da sua vida [ter sido] feita fora longe da ilha natal e do seio
da família. Regressaria ao lar para morrer" (p.11). Um autor que
sustentou a importância da educação para o ressurgimento e europeização do
nosso país: " O problema da instrução em Portugal tem de ser estudado e
resolvido. Sem a resolução desse problema o nosso ressurgimento não será
possível. E todos nós que amamos e sofremos por saber amar a nossa terra,
desejamos que Portugal se europeize de novo e que de novo ele venha a ser o
vasto império" (p.43).
Ao finalizamos esta recensão, socorremo-nos das próprias palavras do autor
escritas no Verão de 1948: "Quem, habitualmente, lê os meus artigos, sabe
tão bem como eu que, quando escrevo para a imprensa da minha ilha, é sempre ao
assunto açoriano que dou a minha preferência. Trinta anos de Lisboa não me
despaísaram, se me permitem a expressão. Continuo a ser o mesmo micaelense de
sempre, a tal ponto que, nos meus melhores versos, naqueles em que mais se
adivinha a paisagem natal, eu não deixo de fazer transparecer a minha qualidade
de ilhéu. Muitas vezes tenho dito e escrito que quando se nasce açoriano é para
sempre» (Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1454, de 16 de junho de 1948).