Nota Introdutória
ARTIGO
Nota Introdutória
Maria Constança Vasconcelos, José Duarte & Sara Bahia
"Consideramos que las expectativas de futuro de la Educación Artística
nos permiten ser optimistas dada su imprescindible función social, función que
se fundamenta en palabras clave como 'democracia', 'sociedad
plural', 'tolerancia', 'educación para la paz',
'ocio', 'calidad de vida' y 'cultura
estética' entre otras". Juanola y Calbó (2005, p. 99).
A reflexão sobre o ensino das Artes Visuais (fundamentos pedagógico-didáticos,
currículos, estratégias e práticas pedagógicas) revela-se imprescindível face
às mudanças e incertezas que em termos sociais, culturais e económicos
caraterizam as sociedades contemporâneas. Essa reflexão, promovida através da
investigação e de abordagens críticas que se possam partilhar, é um instrumento
fundamental para a vitalidade da área no âmbito das Ciências Sociais, no
sentido de corresponder aos desafios que surgem, à escala global na formação de
cidadãos. As novas exigências na formação de professores em Artes Visuais, um
pouco por todo o mundo e recentemente em Portugal, abriram um debate alargado
na área e contribuíram para o avanço da investigação e para a produção
científica num campo relativamente marginal do sistema educativo português.
Assim, este Dossier temático da Revista Lusófona de Educação visa contribuir
para a discussão e disseminação de novos conhecimentos e experiências, na
tentativa de participar de uma comunidade ativa de reflexão, de crítica e
inovação.
Reconhece-se o papel estruturante das artes na formação de crianças, jovens e
adultos, pelo desenvolvimento que promove de aspectos cognitivos, sociais,
emotivos e criativos. Por outro lado, a visualidade crescente do mundo atual,
enfatiza a necessidade da educação em artes, literacia e cultura visual. A
imaginação, criatividade e inovação, são reconcetualizadas nas sociedades
atuais, como competências imprescindíveis, incorporando estruturas e
estratégias de pensamento que lidam com a ambiguidade, pensamento crítico,
resolução criativa de problemas, flexibilidade, aceitação da diferença, que
caracterizam a complexidade do pensamento e do trabalho em artes. A preservação
de valores culturais a diferentes escalas, no contexto da globalização, exige o
desenvolvimento duma consciência crítica que as artes promovem.
No entanto e de um modo paradoxal, as políticas educativas transpostas nos
currículos em muitos sistemas educativos atuais tendem a enfatizar a eficiência
do ensino, a racionalidade técnica e a normalização, que através do
desenvolvimento de competências de curto prazo, permitem a obtenção de bons
resultados em testes e exames. Esta postura que descura valores, atitudes e
competências de nível superior, reflete-se com grande peso na desconsideração
da importância das artes nos contextos e práticas educativas. Longe de
corresponder ao real valor da educação artística e suas implicações na formação
integral do indivíduo, caminha também ao arrepio do interesse e afirmação no
campo social e económico que as artes, na sua ligação primordial à cultura, têm
vindo a despertar no mundo contemporâneo. Está igualmente em contracorrente com
as prioridades definidas pela UNESCO (2006) de "mobilizar o poder da
cultura".
Por outro lado, o ensino em educação artística permanece, em larga medida,
arredado dos grandes debates da sociedade atual, puramente formalista em muitos
casos, divergente dos novos percursos da arte contemporânea, afastado das
potencialidades das novas tecnologias e desfasado dos interesses dos alunos e
dos reais problemas da comunidade, factos que contribuem para algum incómodo e
desmotivação na área.
O ensino das artes não pode estar imune às mudanças da sociedade do
conhecimento e arredado do que se passa no mundo atual e particularmente no
mundo das artes. Se é imperioso que os alunos conheçam a linguagem do seu
tempo, a arte contemporânea com o seu alargamento de campo, hibridização de
meios, entrecruzamento disciplinar, preocupações sociais com ênfase nas
temáticas face aos conteúdos, fornece excelentes oportunidades de conhecimento,
ligadas à vida real e experiências do mundo dos alunos, com enorme potencial
para contribuir para a promoção duma cultura, agente de mudanças construtivas.
Perfilhando o otimismo que se apresenta na citação que abre esta nota
introdutória, sentimos que só através da reflexão e debate crítico, troca de
experiências e disseminação dos resultados da pesquisa, a educação artística
avança, pois cada vez menos as sociedades atuais se compadecem com prescrições
ou receitas definitivas para o seu ensino.
A organização deste Dossier - Perspetivas e desafios no ensino das Artes
Visuais - decorre da variedade temática dos artigos apresentados, que por sua
vez indicia a complexidade e vitalidade do tema com as suas inúmeras
ramificações. Uma primeira parte compila artigos que conformam estruturas
teóricas e reflexões temáticas relevantes no ensino das artes. A 2ª parte é
dedicada a projetos de base empírica, internacionais e nacionais, no âmbito da
investigação emergente.
O artigo que abre este Dossier tem o sugestivo título de Para além do
Crepúsculo das Artes Visuais na escola. A autora, Teresa Torres De Eça,
fornece-nos pistas para justificar, questionar e reposicionar a educação
artística no currículo escolar e para a reposicionar na contemporaneidade.
Argumenta-se que as rotinas e práticas no quotidiano das escolas abdicam muitas
vezes do desenvolvimento de capacidades para a compreensão cultural ou de
experiências de aprendizagem baseadas numa ação moral ou de compromisso social.
Propõe-se o repensar a educação artística e particularmente as artes visuais de
forma a promover a educação para a paz, educação para a sustentabilidade, para
a tolerância e para o respeito pelo outro. Em linha com diretivas
internacionais da UNESCO para a educação artística, esta visão do ensino das
artes também como construção ética, cívica e como prática comprometida
cultural, social e políticamente, através da integração de temas sociais
candentes, é crucial na formação de cidadãos responsáveis e ativos contrutores
dum futuro melhor.
Enrique Gervilla Castillo, no artigo seguinte, intitulado Desafíos da la
belleza corporal. Valoración y crítica educativa, justifica o valor da estética
corporal, mas também da sua rejeição, quando anula valores essenciais à
construção humana. Parte da análise do conceito de beleza física, na sua
pluralidade semântica, que é valiosa, mas que, quando sobrevalorizada (sempre
que a estética se sobrepõe à ética) pode levar à desumanização e perda de
outros valores. Fala-nos de como lidamos com a cultura do corpo supervalorizado
no séc. XXI (pois o corpo é sujeito e objeto da cultura), em que a beleza
exterior se sobrepõe à interior (o modo de ser antes do ser) e se estende a
todos os setores da sociedade. No contexto educativo formal, a importância do
tema é tanto mais relevante, quanto se confronta com as poderosas visões da
estética corporal desumanizada e estereotipada veiculada em espaços educativos
informais dos media dominantes. Conclui o autor que é através duma estratégia
reflexiva de diálogo e de pensamento crítico, que se pode ajudar a formar o
valor estético do corpo, de acordo com a integridade da pessoa.
A segunda parte, dedicada a projetos de investigação, inicia-se com o artigo de
Fernando Hernandez e Carmela Bertoni, Creative Connections: Construir un
proyecto internacional de educación artística desde la investigación-acció
participativa, dando conta de um amplo e inovador projeto europeu envolvendo 6
países, em que participam jovens de 12 escolas primárias e 12 secundárias e que
tem a duração de três anos. Neste projeto, as artes visuais consubstanciam-se
como mediador priveligiado na compreensão crítica da realidade, ligada à
promoção da cidadania europeia. Através do diálogo com obras de artistas
contemporâneos europeus que exploram questões sociais, como direitos humanos,
diversidade cultural e justiça social, propõe-se que os jovens desenvolvam, num
clima de liberdade, diálogo e reflexão, projetos artísticos sobre esses temas.
O artigo clarifica os aspetos concetuais fulcrais na base do projeto: a questão
de dar voz, como uma forma democrática de pensar e aprender; a pesquisa-ação
colaborativa, como um processo participativo, democrático, vinculando ação e
reflexão, teoria e prática com o empenho dos participantes na resolução de
problemas concretos; o sentido da educação artística como espaço de relações e
ressonâncias e a formação dos educadores.
Pretende-se divulgar processos e resultados obtidos neste projeto, para
alimentar comunidades que nas suas práticas artísticas, debatem, exploram e
questionam problemáticas relacionadas com a cidadania europeia.
Pequenas narrativas de educação artística: O uso da ilustração e de
"brinquedos de autor" na comunicação de conhecimentos e afectos
entre crianças e idosos numa pequena comunidade rural, é o artigo de Leonardo
Charréu e Daniela Bacalhau, que se constitui como um interessante relato duma
investigação-acção e estudo de caso, no âmbito dum mestrado em educação
artística. O ensino artístico é aqui materializado em ligação à comunidade,
através de ligações intrageracionais e da preservação do património duma
pequena aldeia portuguesa. Nas palavras dos autores é "uma experiência
centrada nos sujeitos que aprendem", que facilita a participação em
contextos de aprendizagem pela inclusão de tradições e histórias de vida.
Quando os processos educativos interagem estreitamente com a comunidade, a arte
torna-se um meio de preservação da cultura e identidade locais, contribuindo
para a coesão social e promoção da diversidade cultural tão necessária no
questionamento dos efeitos perversos da globalização.
O artigo de Ricardo Reis, Um olhar sobre o papel das tecnologias da visão na
construção de noções e práticas de literacia visual entre os jovens, resulta
duma investigação em curso, cujo objetivo primordial é fornecer um contributo
para a compreensão do conceito de literacia visual e o papel que a escola tem
no seu desenvolvimento e valorização social. Neste projeto foi pedida a
participação de jovens e professores no sentido de tornar visíveis os discursos
e práticas relacionados com a literacia visual. Com base no trabalho empírico
desenvolvido e na interpretação teórica das evidências encontradas, o autor
refere que os jovens evidenciam alguma facilidade em integrar processos de
análise, interpretação e apropriação de produtos visuais, mas revelam
dificuldades em processos de avaliação e criação dos mesmos, bem como
dificuldades na capacidade de relacionar diferentes saberes. Os resultados são
apresentados como preliminares permitindo, na visão do autor, alargar o debate
e possibilitar a discussão sobre metodologias, análise e interpretação das
evidências recolhidas.
Artes visuais e transdisciplinaridade é o último artigo do dossier. Da auto-ria
de Conceição Ramos, relata práticas pedagógicas continuadas, fundamentadas em
metodologias de projeto e implementadas na realidade da escola. Em alternativa
ao modelo de compartimentação curricular vigente na maioria das escolas
portuguesas, considerado desajustado das competências e conhecimentos
necessários à sobrevivência e êxito nas sociedades contemporâneas, reflete-se
sobre três projetos transdisciplinares levados à prática com modelos de
investigação participativa. Apresentam-se, em conclusão, as vantagens das
abordagens transdisciplinares que a autora relata como: a exploração de
pedagogias diferenciadas, próximas de cada indivíduo, contribuindo para
aprendizagens de maior qualidade; a perceção desenvolvida pelos alunos da
utilidade dos conteúdos ministrados, manifestada no maior interesse e
motivação; o reforço da autoexigência e espírito de cooperação; o papel do
professor como gestor de conhecimentos e, o ganho em atualização para a escola.