A educação e formação de adultos (1999-2010): a progressiva importância da
educação e formação para a competitividade
Introdução
Desde 1999, verificaram-se diversas mudanças que, constituindo algumas das
marcas mais evidentes da educação e formação de adultos, enquanto política
pública, impuseram uma distinta delimitação do campo, designadamente no que
remete para as finalidades das ofertas públicas. Neste artigo toma-se como base
de discussão os dados obtidos através da análise de conteúdo de dois documentos
que estabeleceram as dimensões políticas e educativas mais emblemáticas da
educação e formação de adultos: o S@ber+. Programa para Desenvolvimento e
Expansão da Educação e Formação de Adultos 1999-2006(Melo, Matos & Silva,
2001), adotado pela Agência Nacional de Educação e Formação de Adultos (ANEFA),
e a Iniciativa Novas Oportunidades (Iniciativa Novas Oportunidades, 2005),
estabelecida em 2005, da qual foi responsável a Agência Nacional para a
Qualificação e, atualmente, a Agência Nacional para a Qualificação e Ensino
Profissional. A escolha destes textos deve-se ao facto de se constituírem em
documentos orientadores, em textos de suporte da legislação, das normas e das
regras que posteriormente foram produzidas para as ofertas públicas que
resultaram desta política. Incluem as diretrizes que têm enquadrado o trabalho
levado a cabo pelos agentes da educação e formação de adultos nas entidades que
localmente promovem ações. Para além destes documentos, pontualmente, refere-se
os Programas de Governo de 1995 e 2005.
A análise de conteúdo foi efetuada a partir de categorias consistentes com três
modelos de análise de políticas públicas de educação de adultos: políticas de
educação crítica; políticas de modernização e de educação para a conformidade
social; e políticas de educação e formação para a competitividade. Estes
modelos incluem dois eixos, como se verá de seguida: um de caráter político,
aqui destacado, que acentuou as finalidades políticas e o papel do Estado; e um
outro marcadamente educativo, através do qual se distinguiu conceções e métodos
de educação de adultos. À luz destes modelos, as mudanças políticas e
educativas permitiram denotar uma progressiva valorização de traços
consentâneos com políticas que promovem a educação e formação para a
competitividade, através de uma crescente influência das organizações
internacionais, como a União Europeia (UE) na política pública mencionada,
nomeadamente no que se refere ao destaque concedido à relação entre educação/
formação e emprego e à retração do Estado. Simultaneamente, apela-se à
individualização dos percursos de educação e formação, bem como à
responsabilização dos indivíduos pelas suas escolhas (Guimarães, 2011).
1. Quadro de análise de políticas públicas de educação de adultos
A discussão da política pública de educação de adultos em vigor desde 1999 é
realizada a partir de três modelos de análise que aqui são resumidamente
abordados.
As políticas de educação crítica encerram prioridades que acentuam
preferencialmente o caráter local, endógeno e complexo da educação de adultos.
Tais prioridades procuram articular modalidades educativas distintas (a formal,
a não formal e a informal) em propostas integradas. Estas modalidades aceitam
espaços e tempos que estão para além da escola e das suas regras. Concretizam-
se em lugares e momentos alternativos de conceber a educação de adultos, em
ações que destacam o caráter social e crítico deste campo de práticas (Griffin,
1999a e 1999b). Sendo iniciativas que desafiam o status quo, traduzem-se em
oportunidades que visam a transformação social.
Complementarmente, as referidas políticas procuram promover a participação
social e constituem-se, igualmente, em políticas inclusivas. Estimulam a
discussão dos problemas e das necessidades sociais, educativas e culturais
pelos próprios indivíduos, bem como fomentam a procura coletiva de soluções.
Aqui, o papel do Estado, tal como da sociedade civil, é essencial. São por isso
políticas que contemplam diversos níveis de ação e de autonomia às organizações
(estatais e não estatais) que dinamizam iniciativas de educação de adultos.
Estando previstas margens de autonomia a nível local, nestas políticas surgem
possibilidades de recontextualização aproveitadas pelas entidades dinamizadoras
de atividades (Lima, 2008).
No que às dimensões educativas e pedagógicas respeita, a educação crítica,
política, reflexiva e problematizadora é valorizada. São enfatizados saberes
produzidos socialmente, que advêm da partilha e da procura conjunta de soluções
para os problemas enfrentados pelos indivíduos. Na articulação entre aspetos de
natureza individual e coletiva, entre conhecimento erudito e saberes do
quotidiano, é a educação de caráter abrangente e cívica, que visa a
democratização política e económica, a transformação das relações de poder
existentes e a mudança que ganha relevo (Sanz Fernández, 2006; Lima, 2008).
As políticas de modernização e de educação para a conformidade socialcentram-se
em particular nos níveis regionais e/ou nacionais e assentam no estabelecimento
de patamares mínimos de educação, de caráter universal e obrigatório, e no
desenvolvimento de conhecimentos e capacidades de natureza funcional e útil ao
desenvolvimento económico. Por isso, visam a manutenção do status quo, tal como
procuram "disciplinar os adultos e educar para obedecer" (Sanz
Fernández, 2006). São políticas que apostam na educação como um direito social,
numa lógica de serviço público, tendo igualmente como finalidade a formação
mínima da mão de obra, a partir de prioridades de modernização social e
económica (Lima, 2008).
A adoção destas políticas envolve a valorização da escola e dos conhecimentos
nela privilegiados. Estas políticas vêm acompanhadas da institucionalização (na
organização escolar ou em entidades que são concebidas e trabalham à semelhança
da escola) e da normalização do trabalho educativo e pedagógico. Estas
circunstâncias acarretam a formalização dos procedimentos educativos. Neste
âmbito, certas modalidades são privilegiadas, nomeadamente aquelas que se
relacionam com a educação formal (instrução, educação de segunda oportunidade e
de compensação) e a educação não formal (ações formalizadas ligadas ao
trabalho, nomeadamente à adaptação e à reconversão da mão de obra, tal como
atividades de desenvolvimento social e pessoal, promotoras de participação
social e cívica adaptativa), características dos programas dinamizados pelo
Estado-providência (Griffin, 1999a e 1999b).
Nesta linha de ideias, estas políticas incidem sobre conceções de educação que
contribuem para a harmonização de valores e para a rigidificação das for-mas de
compreender o mundo. Em resultado, regista-se uma aposta evidente em ofertas
que se orientam para a conformidade social e para a preparação de mão de obra
que sirva o crescimento económico.
As políticas de educação e formação para a competitividade, fomentadas pelo
Estado e por organizações supra e internacionais, têm como prioridades o
aumento da empregabilidade, da produtividade, da competitividade, da eficácia,
da eficiência e da modernização económica, a partir de lógicas de programa.
Nelas, o desenvolvimento do setor produtivo e das organizações de trabalho é
fulcral (Griffin, 1999a e 1999b). Consequentemente, valorizam-se os recursos
humanos, sendo a educação perspetivada como um instrumento de promoção do
capital humano, da qualidade do trabalho, de cariz técnico e racional (Lima,
2008).
Diversas ofertas promovem a educação, a formação, a aprendizagem e a
qualificação de base, estando orientadas para a inserção dos sujeitos no
mercado de trabalho. Para além destas, outras iniciativas especializadas
dirigem-se a grupos sociais específicos, sendo apoiadas quer pelo Estado, quer
por certos setores profissionais e da atividade económica. Assim, a educação de
adultos envolve "uns" e "outros". Num primeiro grupo,
encontram-se aqueles que estão em situações vulneráveis e precárias perante o
trabalho. Detentores de baixos níveis de escolarização, em muitos casos não são
participantes habituais das ações de educação de adultos e não perspetivam a
educação e a formação como processos para melhorar as suas condições de vida e
de trabalho. Num segundo grupo estão aqueles que detêm empregos estáveis, que
participam de forma voluntária nas iniciativas que lhes são oferecidas e que
estão melhor preparados para as mudanças científicas e tecnológicas que se
registam nas organizações do trabalho (Sanz Fernández, 2006).
Relativamente às conceções de educação de adultos, nestas políticas sublinha-se
a centralidade dos indivíduos e dos processos de aquisição de conhecimentos e
de competências, em particular os saberes acumulados fora do âmbito escolar. As
experiências realizadas pelos adultos ao longo da vida, mesmo que em espaços
muito diversos, resultam em competências certificáveis que procuram acompanhar
as evoluções científicas e tecnológicas nas organizações de trabalho. Outras
ofertas enfatizam os saberes que visam a participação individual e privada nas
escolhas educativas. Neste cenário, a educação de adultos acentua processos de
individualização, instrumentalização face à economia e privatização (Lima,
2010).
2. A política de educação e formação de adultos: progressiva influência da
União Europeia
Ao invés de políticas públicas anteriormente adotadas, justificadas pelos
baixos níveis de escolarização da população portuguesa e pelo atraso
educativonacional (por exemplo, Ministério da Educação, 1979), a educação e
formação de adultos tem sido legitimada através de uma contextualização
internacional e da apresentação de propostas consentâneas com orientações
produzidas por diferentes organizações internacionais, como a Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, sobretudo, a UE. Esta
representa uma tendência que se notou desde que Portugal integrou a Comunidade
Económica Europeia, em 1986, mas que se acentuou após a adoção da aprendizagem
ao longo da vida pela UE. Estas circunstâncias denotam um esforço de
legitimação de uma política pública através de comparações de indicadores que
favorecem outros países considerados "mais desenvolvidos", razão
que reforça a urgência de intervir no nosso país e que justifica o caráter
extensivo que esta política acabou por possuir, designadamente quando a
Iniciativa Novas Oportunidades foi implementada a partir de 2005.
Se se atentar aos programas da educação e formação de adultos, no caso do
S@ber+, diversas foram as referências à CONFINTEA V e à respetiva Declaração
Final. Outras remeteram para a OCDE e para a UE, nomeadamente no que se referia
à ligação entre a educação e formação de adultos às políticas de emprego, em
particular ao Plano Nacional de Emprego e à Estratégia Europeia para o Emprego
de 1997 (Melo, Matos & Silva, 2001: 19-20). Na Iniciativa, a vinculação às
orientações da OCDE e da UE tornou-se mais evidente. O documento integrou dois
pontos, "1. Escolarização de nível secundário - o investimento
fundamental" e "2. Acelerar a qualificação dos portugueses: o
desafio estratégico para uma geração", nos quais se procurou justificar a
política. Nestas secções afirmou-se que o esforço de qualificação da Iniciativa
visava a aproximação dos indicadores portugueses aos valores apresentados por
outros países, no que respeitava, por exemplo, à qualificação profissional e
aos níveis de escolarização. Esta finalidade foi apoiada pela apresentação de
dados fornecidos quer pela OCDE, quer pela UE (Iniciativa Novas Oportunidades,
2005: 8-12), procurando-se demonstrar que a situação portuguesa era mais
problemática que aquela de outros países.
É interessante notar que a influência de organizações, como a UE, nestes dois
programas se ligou sobretudo a aspetos relacionados com o crescimento
económico, o emprego, a produtividade e a competitividade (Lima, 2010). De
resto, estas são finalidades centrais do trabalho desta entidade, bem como da
OCDE, que apelam a princípios de políticas de educação e formação para a
competitividade. Na Iniciativa verificou-se ainda uma indicação ao impacto do
aumento dos níveis de escolarização e qualificação na cidadania, na coesão
social e no desenvolvimento pessoal (Iniciativa Novas Oportunidades, 2005: 8),
valores referenciados frequentemente pela UNESCO, atribuíveis às políticas de
modernização económica características do Estado-providência e às orientações
de base crítica e social. Todavia, esta é uma referência pontual que acaba por
não ser central relativamente às finalidades de cariz económico já indicadas
que o programa enfatiza. Adicionalmente, esta referência acompanha uma
progressiva deslocação para os indivíduos da responsabilidade pelas opção que
efetuam no âmbito do percurso de educação e formação realizado e uma menor
centralidade atribuída à intervenção do Estado neste âmbito. De resto, a
educação e formação de adultos começou por incluir um forte apelo ao
envolvimento de outras entidades (que não as estatais) na promoção das ofertas
(Antunes, 2011). Favoreceu por essa via novos contextos educativos e modelos
alternativos ' relativamente à escola ' de educação e formação de adultos que,
por esta razão, obrigam a questionamentos diversos (cf. Loureiro, 2012).
Uma vez que se trata de organizações internacionais, é importante notar que
estas entidades têm defendido orientações distintas para as políticas de
educação de adultos. Pelo seu lado, desde meados da década de 1970, a UNESCO
recorreu a expressões como "éducation permanente" e "lifelong
education" na defesa de uma abordagem humanista e de caráter social da
educação de adultos. Esta abordagem concedeu prioridade política ao setor. Este
facto teve como consequências, entre outras, o reconhecimento social do campo,
a sua estruturação em termos académicos e o aumento da participação dos adultos
em ações de educação formal e não formal, em iniciativas tão diferentes como,
por exemplo, a alfabetização, o ensino, a formação profissional, a educação
cívica e política e a educação a distância. A educação informal viu-se
igualmente valorizada ao serem destacadas as aprendizagens decorrentes de
experiências significativas, o que fomentou o surgimento de ofertas educativas
centradas no reconhecimento de saberes adquiridos ao longo da vida. Seguindo
esta orientação, esta entidade tem apostado fortemente numa conceção de
educação de adultos complexa e multifacetada, na qual o papel do Estado ainda é
fundamental (cf. UNESCO/GRALE, 2009; Lima & Guimarães, 2011). Tem revelado
preocupações em articular características atribuíveis aos modelos de análise de
educação crítica e de modernização e de educação para a conformidade social nas
quais a intervenção estatal na promoção da educação de base e na implementação
de ofertas de desenvolvimento social e social é fundamental importante.
Ao invés da UNESCO, as abordagens proferidas pela OCDE e pela UE perspetivam a
educação de adultos enquanto um setor de políticas sociais e económicas. As
orientações destas organizações visam o aumento da produtividade e da
competitividade, a preservação e a criação de emprego. As preocupações destas
organizações também destacam o papel dos indivíduos na construção das suas
biografias, enquanto promovem o entendimento do adulto enquanto um indivíduo
que possui deficiências de escolarização e de qualificação e que
simultaneamente deve ser competente. As abordagens preferidas por estas
organizações enfatizam igualmente a educação, formação e aprendizagem na
promoção da adaptabilidade, empregabilidade e da flexibilidade dos sujeitos em
contexto de trabalho (Lima, 2010), acentuando características do modelo de
análise de políticas de educação e formação para a competitividade.
A reforçar o peso das orientações da UE, deve-se notar que a educação e
formação de adultos sempre foi levada a cabo com os fundos comunitários. De
facto, entre 1999 e 2006, os fundos existentes advieram da candidatura efetuada
pelo Estado português ao Fundo Social Europeu, no âmbito do III Quadro
Comunitário de Apoio. Esta circunstância permitiu que o Reconhecimento,
Validação e Certificação de Competências (RVCC) fosse apoiado pelo Programa de
Desenvolvimento Educativo para Portugal III (PRODEP III), no caso do RVCC
escolar, e pelo Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social
(POEFDS), no caso do RVCC profissional e dos Cursos de Educação e Formação de
Adultos (Cursos EFA). Mais recentemente, foram contemplados apoios no Quadro de
Referência Estratégico Nacional (QREN) 2007-2013, no âmbito do Programa
Operacional de Potencial Humano (POPH). De resto, é de destacar que estes
programas permitiram a existência de verbas que, de 1999 a 2006, favoreceram a
estruturação da educação e formação de adultos, através da experimentação e
estabilização das ofertas mais características, designadamente o RVCC e os
Cursos EFA. Consequentemente, a ligação da educação e formação de adultos às
orientações da União Europeia permitiu a inscrição da educação de adultos na
aprendizagem ao longo da vida (cf. Antunes, 2011) e, após 2007, implicou um
acréscimo significativo de recursos (1), bem como favoreceu uma elevada procura
social (desde 2002 mais de um milhão de adultos inscreveram-se nas ofertas
propostas), como se pode observar no quadro seguinte, mesmo que os valores
relativos à certificação, nomeadamente no RVCC e nos Cursos EFA, sejam mais
modestos (pouco mais de 400.000 no RVCC e de 80.000 nos Cursos EFA).
Segundo Rothes, esta circunstância indiciou um "ajustamento
condicionado" da política pública portuguesa às orientações da referida
organização supranacional. Este ajustamento foi efetuado em função dos
financiamentos disponíveis, em resultado de "uma tendência pragmática, de
um conformismo pacificamente aceite e da submissão a agendas de caráter
economicista" que a administração pública induziu (cf. Rothes, 2009).
Embora futuros estudos possam esclarecer o âmbito e o impacto da UE nas
politicas educativas nacionais, parece claro que se verifica uma forte
adequação à ligação entre educação/formação e às políticas de emprego
fomentadas por esta organização, articulação atribuível à educação e formação
para a competitividade. Parece igualmente evidente que este ajustamento
suportou o que Antunes (2011: 14-17) designou de "predomínio da evasão do
Estado" da educação de base de adultos pública, assim como a adopção de
uma "lógica gestionária centralista", visível, por exemplo, no papel
fundamental que as entidades estatais da tutela, a Agência Nacional de Educação
e Formação de Adultos e a Agência Nacional para a Qualificação, possuíram, tal
como a Agência Nacional para a Qualificação e Ensino Profissional detém na r
egulação política.
3. A educação e formação de adultos na modernização da economia portuguesa
A ligação entre educação de adultos e modernização económica, no que respeita
ao emprego e à inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, não é recente
nas políticas públicas. De facto, esta articulação foi essencial para a
consolidação das medidas de caráter redistributivo mais características do
Estado-providência, no quadro de políticas de modernização e de educação para a
conformidade social. Porém, na atualidade ela vem associada a diferentes
aspetos consentâneos com a educação e formação para a competitividade, como a
forte ligação entre educação e formação, por via das políticas ativas de
emprego. Esta conexão é efetuada num contexto económico marcado pela
reconversão da economia portuguesa no contexto da globalização, pelo desemprego
estrutural e pelo esforço de aumentar a produtividade, a competitividade e a
flexibilidade dos trabalhadores num cenário de profundas mudanças tecnológicas
e de organização do trabalho, circunstâncias que acarretam diversas
ambiguidades.
No âmbito da educação e formação de adultos, em diversos Programas de Governo
se apelou a esta ligação. Já no Programa do XIII Governo Constitucional (1995),
no Capítulo V - Educação, Ciência e Cultura, 1.Educação, 1.1 Orientações,
alínea g, se afirmou a urgência do aumento dos níveis de educação e formação da
população portuguesa, tendo como referência os indicadores europeus, o que
obrigava à adoção de opções estratégicas que passavam por "promover a
educação e formação como um processo permanente ao longo da vida de cada
cidadão, em conjugação com a formação profissional e com todos os domínios
educativos e culturais da vida das comunidades".
Esta articulação passou a ser mais notória nos Programas de Governo seguintes,
levando a que a "qualificação dos portugueses" fosse fulcral na
agenda política nacional. No Programa do Governo de 2005 (na página 7), um dos
cinco grandes eixos da política do Governo consistia em "retomar o
crescimento da economia de forma sustentada e visando a modernização do País,
fazendo do conhecimento, da inovação, da qualificação dos portugueses e da
melhoria dos serviços do Estado os caminhos do progresso".
O Plano Tecnológico, associado ao esforço de qualificação do capital humano
como fator de progresso, constituiu-se num dos suportes do alargamento do
acesso à aprendizagem ao longo da vida, nomeadamente no que respeitou à
"atualização e ao aprofundamento de competências". Este Plano teve
em vista enfrentar os desafios da flexibilidade do emprego, da reconversão e da
atualização profissionais, como se afirma no Programa do Governo de 2005 (nas
páginas 21 e 22), bem como permitiu uma clara deslocação das orientações
públicas para princípios de educação e formação para a competitividade.
Um primeiro indício desta deslocação constou num documento de 1998,
designadamente na publicação Uma Aposta Educativa na Participação de Todos.
Documento de Estratégia para o Desenvolvimento e Expansão da Educação de
Adultos, embora esta publicação integrasse também diversos pontos mais próximos
de políticas de educação crítica. É neste documento que se encontra pela
primeira vez a expressão "educação e formação de adultos". No
Prefácio deste livro, lia-se que as propostas e recomendações que poderiam ter
como único destinatário o Ministério da Educação deveriam ser lidas como
correspondendo ao campo de intervenção desse e do Ministério do Emprego e da
Solidariedade. Acrescentou-se que "Em consequência, onde se lê (…)
"Educação de Adultos", deverá passar a ler-se "Educação e
Formação de Adultos" (Melo et al., 1998: 7). Desde então, a expressão
passou a estar presente nos diversos documentos políticos, refletindo a dupla
tutela de que esta política passou a gozar. Complementarmente, no S@ber+
procedeu-se a uma definição mais precisa da expressão, quando se afirmou que
[...] entende-se por Educação e Formação de Adultos o conjunto de
intervenções que, pelo reforço e complementaridade sinérgica com as
instituições e as iniciativas em curso no domínio da educação e
formação ao longo da vida, se destinam a elevar os níveis educativos
e de qualificação da população adulta e a promover o desenvolvimento
pessoal, a cidadania e a empregabilidade. (Melo, Matos & Silva,
2001: 11).
Acentuado ideias que se referiam a diferentes modelos de políticas públicas, o
S@ber+ procurou contribuir para "elevar os níveis de qualificação da
população portuguesa", "fomentar a empregabilidade e a inclusão
social dos cidadãos em geral e muito especialmente dos que apresentavam mais
baixos níveis educativos e de qualificação, dos desempregados e dos que se
encontravam ameaçados de desemprego ou de exclusão social e cultural",
tal como "assegurar a transição do nosso país para a economia do
conhecimento" (Melo, Matos & Silva, 2001: 12). Esta circunstância
denotou a valorização de princípios consentâneos com o modelo de análise de
políticas de educação e formação para a competitividade, embora outros aspetos
apelassem a características dos modelos de educação crítica. De entre estas,
destaca-se a importância da educação e formação de adultos para o
"desenvolvimento pessoal e para a cidadania", característica esta
igualmente apontada por Monteiro (2012), por exemplo, para o caso dos Cursos de
Educação e Formação de Adultos. Simultaneamente, outros aspectos indicam
preocupações consentâneas com políticas de modernização e conformidade social,
como no caso do apelo à elevação dos níveis de educação de base.
A valorização de princípios das políticas de educação e formação para a
competitividade (bem como de modernização e conformidade social) acabou por ser
enfatizada na Iniciativa Novas Oportunidades. Neste documento, a elevação da
qualificação da população portuguesa surgiu como um tema de "importância
central para o crescimento económico e para a coesão social", tal como
para a "diminuição do atraso no esforço de modernização" que
Portugal apresentava. Pretendia-se por essa via favorecer a "convergência
com os países mais desenvolvidos". De resto, esta Iniciativa, associada
ao Plano Nacional de Emprego, teve como propósito alargar a participação dos
indivíduos ativos e das pequenas e médias empresas em processos de
qualificação. Como se afirmou, este programa "constituiu-se num pilar
fundamental das políticas de emprego e de formação profissional" no
contexto da economia do conhecimento (Iniciativa Novas Oportunidades, 2005).
Adicionalmente, desapareceram indicações a finalidades que poderiam enquadrar-
se em políticas de educação crítica, como no caso da omissão da expressão
"educação de adultos" (substituída por educação e formação de
adultos" ou por "formação e aprendizagem de adultos") ou até
do não destaque em dimensões sociais associadas aos processos educativos e
formativos.
Verificou-se assim nestes dois documentos preocupações com a garantia da
educação de adultos, enquanto direito social, de acesso alargado e com base em
prioridades de modernização, através do desenvolvimento de conhecimentos e
capacidades úteis à economia. Estas ofertas envolveram assim objetivos de
adaptação e reconversão da mão de obra que servissem o crescimento económico, o
aumento da produtividade e da competitividade. Complementarmente, a educação e
formação de adultos integrou ofertas de educação de base inovadoras, quando
comparadas com atividades de anteriores políticas, que passaram a enfatizar a
individualização das ofertas, enquanto fomentavam a responsabilização dos
adultos pelas suas opções e pelos percursos educativos e formativos efectuados
(Lima, 2010), devido às características de dispositivos, como o Reconhecimento,
Validação e Certificação de Competências, enquanto propunham uma certificação
formal. É assim neste cruzamento entre preocupações consentâneas com políticas
de modernização e de educação para a conformidade social com outras de educação
e formação para a competitividade que muitos estudos apontaram para uma
crescente institucionalização (até em organizações de educação formal),
formalização e normalização do trabalho educativo e formativo de ofertas que
inicialmente eram percebidas como revelando um forte pendor humanista e
informal (entre outros, Guimarães, 2011).
É ainda neste quadro de finalidades muito distintas que as justificações
associadas à reconversão da economia portuguesa no contexto da globalização
levantam sérias interrogações. Por um lado, assiste-se a uma preocupação em
fomentar o surgimento de setores económicos de elevada componente tecnológica e
exigentes em mão de obra qualificada. Todavia, estes são setores emergentes e
com uma presença ainda pouco consolidada na economia. Por outro lado, têm
desaparecido muitas empresas de baixa componente tecnológica, que recorriam a
mão de obra intensiva e pouco qualificada. Nesta relação entre os empregos
criados e aqueles que são extintos, o número de desempregados re-vela que a
maioria são pouco escolarizados, não possuindo qualquer nível ou detendo a
escolaridade básica (9º ano) (Pordata, 2012). Como indicam Almeida, Castro e
Félix (2009), a evolução da estrutura do produto, bem como da estrutura do
emprego desde 1986 contribuem para a compreensão destas mudanças. No que
respeita à estrutura do produto, assistiu-se a uma diminuição do setor da
agricultura (de 9,2% em 1986 para 2,5% em 2007) e da indústria (de 27,1% em
1986 para 17,9% em 2007), bem como a um aumento do setor dos serviços (de 57,4%
em 1986 para 73,1% em 2007). O emprego seguiu o mesmo padrão, com o peso dos
trabalhadores agrícolas e da indústria a diminuir (de 16,1% em 1986 para 9,3%
em 2007, bem como de 27,6% em 1986 para 19% em 2007, respetivamente) e o peso
dos trabalhadores dos serviços a aumentar (de 46,8% em 1986 par a 61,1% em
2007).
Na verdade, estas mudanças aproximaram Portugal da situação de outros países da
zona do euro. Porém, não deixam de suscitar dúvidas quanto aos objetivos da
educação e formação de adultos na preparação da mão de obra portuguesa, num
momento em que as empresas criadas são geradoras de poucos empregos para
pessoas pouco escolarizadas e que os empregos existentes dirigem-se
preferencialmente a certos grupos, muito qualificados. Adicionalmente, as
prioridades desta política têm desvalorizado as dimensões educacionais dos
processos de educação de adultos, quer se esteja a pensar em qualificação ou
aquisição de competências. Consequentemente, uma política de educação, global e
integrada, que integre ofertas de natureza técnica e instrumental, promotoras
de competências profissionais ou vocacionais, mas também dimensões culturais,
sociais e políticas dirigidas para a interpretação crítica do mundo em que
vivemos, e também para a participação ativa no processo da sua transformação,
surge secundarizada. Emergem assim interrogações sobre a subordinação a que se
assiste da educação de adultos a um pedagogismo de raiz económica e gerencial
(Lima, 2010; Lima & Guimarães, 2011). Ressaltam igualmente dúvidas quanto
ao impacto da progressiva valorização da educação e formação para a
competitividade e quanto à responsabilização dos indivíduos pelas suas opções
no quadro de uma política de educação de base que se devem à evasão do Estado
da educação de base de adultos pública (Antunes, 2011).
Considerações finais
A política educativa em análise neste artigo revela que, no quadro da
aprendizagem ao longo da vida proposta pela UE, a educação e a formação de
adultos redefine o campo da educação de adultos e a intervenção do Estado neste
domínio, ao privilegiar princípios atribuíveis ao modelo de análise de
políticas de educação e formação para a competitividade. Nesta redefinição, é
atribuído maior relevo a finalidades difundidas por organizações
internacionais, designadamente a UE, e é acentuada a ligação entre educação/
formação e políticas de emprego. No esforço de reconversão da economia
portuguesa no contexto da globalização, estas finalidades legitimam uma
política pública de um setor que, desde 1974, tem assistido à adoção e ao
abandono de diferentes programas e orientações. Sem tempo suficiente para se
observarem permanências, estas intermitências políticas têm tido efeitos
fragmentadores num setor cada vez mais dividido e marcado por discursos
ideológicos que atribuem maior fragilidade a finalidades educativas fulcrais
para a construção de sociedades mais justas e preparadas para os desafios
contemporâneos.
A opção por integrar uma forte ligação entre educação/formação de adultos e
desenvolvimento da economia/promoção do emprego (ou da
"empregabilidade") não é inocente, até porque esta articulação é
efetuada num cenário económico complexo e crítico. Esta ligação favorece a
"construção pelos próprios adultos dos seus destinos", em processos
de "autonomização responsável e co-responsabilização", como nota
Monteiro (2012), mas igualmente leva à atribuição da "culpa" das
dificuldades em encontrar ou manter o trabalho aos próprios indivíduos em
resultado das (más) escolhas educativas e formativas efetuadas, da falta de
formação ou da indisponibilidade para estar sempre a aprender. Assiste-se à
responsabilização dos indivíduos por opções (ou por falta delas) que noutras
políticas eram efetuadas pelo Estado. Aliás, parece assistir-se a mudanças no
envolvimento estatal na provisão do bem-estar, cada vez mais desvinculado da
criação de um sistema público, alterações estas consentâneas com as
"reformas do Estado gestionário promotor da nova gestão pública de
inspiração neoliberal", como afirma Antunes (2011). Assim, mesmo que a
educação e formação de adultos tenha originado um forte investimento público
(apoiado pela UE, bem como pelo Estado português), implicando o envolvimento de
muitos agentes (promotores, profissionais e participantes) (cf. Loureiro, 2012)
como nunca se tinha visto antes neste país, este esforço não favoreceu a adoção
de um sistema capaz de estabelecer um serviço público que assegurasse a
concretização (para lá dos tempos dos projetos e dos programas) do direito à
educação de adultos através de ofertas de educação de base estáveis e
sustentáveis.
No quadro de intermitência política que se vive na atualidade, acresce a
circunstância de ainda se conhecer pouco sobre o nível de correspondência entre
as orientações mega (oriundas da UE) e as políticas nacionais. Alguns trabalhos
(como, por exemplo, aqueles da UE sobre os desenvolvimentos da aprendizagem ao
longo da vida) identificam semelhanças nas políticas públicas dos diferentes
Estados-membros, mas são pouco evidentes as diferenças nas prioridades, nas
abordagens, nos métodos, nos instrumentos, etc. nos diferentes países. No
entanto, o que parece claro, do ponto de vista político e educativo, é que,
sendo a educação de adultos um campo de práticas complexo e multifacetado,
seriam necessárias outras políticas, de caráter global e integrado, de adoção
num eixo temporal mais longo que cruzassem princípios atribuíveis aos três
modelos de análise propostos neste artigo (cf. Lima, 2008; Sanz Fernández,
2006), como, de resto, foi também recentemente defendido pela UNESCO (GRALE/
UNESCO, 2009), tal como um envolvimento do Estado que garantisse a
concretização da educação (para todos) enquanto direito social.
Ao invés, em Portugal, nos últimos anos, tem-se assistido à valorização de
características atribuíveis à educação e formação para a competitividade,
evidentes na concentração de recursos no RVCC e nos Cursos EFA, que se orientam
sobretudo para o reconhecimento de competências e o aumento de qualificações.
Esta situação retira possibilidades de intervenção a outros setores, como o
desenvolvimento local, a educação cívica, a educação popular, a animação
comunitária e sociocultural, alguns destes com uma rica e longa tradição, bem
como acarreta riscos de uma fraca promoção da justiça social, da inclusão, da
igualdade de oportunidades e de democracia. Em boa verdade e apesar das
inovações introduzidas, na atualidade, a educação e formação de adultos pública
encerra fragilidades que fazem dela uma política potencialmente descontínua e
que, apesar dos esforços (meritórios) realizados nos tempos mais recentes
debilitam mais uma vez um setor a necessitar de intervenções consistentes (em
termos de promoção da democracia, da justiça social e de ofertas
problematizadoras e socialmente transformadoras) e de longo prazo.