Associações de professores e sindicatos em Espanha, durante a transição da
ditadura de Franco para a democracia (1970-1983)
Introdução
Apresentamos neste artigo uma primeira reflexão de uma investigação neste
período histórico, atendendo, apesar de tudo, aos poucos estudos específicos em
Espanha nesta matéria, ao contrário de outros países. Trata-se de uma abordagem
dentro da complexidade de uma questão tão sensível como é a relação entre o
associativismo e a construção da identidade dos professores, o que exige
conhecimentos especiais necessários em cada momento histórico.
No entanto, ainda podemos revisitar alguns trabalhos que nos ajudam a
introduzir o tema do associativismo, dos sindicatos e dos movimentos de
professores, consciente dos limites, e, acima de tudo, por ser uma grande
caminhada que se deve ir percorrendo com a ajuda de muitas investigações
posteriores. Dispomos de estudos isolados que nos permitem obter uma imagem
suficiente sobre as associações, os sindicatos e as reformas educacionais, que
são elevados, e sobretudo, trata-se de um convite para ir mais além neste
trabalho, com a consciência de que ainda há muitas matérias para estudar1.
Duas perguntas prévias e alguns esclarecimentos necessários. Quando falamos da
transição para a democracia em Espanha, o estrito e rigoroso sentido histórico
que devemos reduzir este período histórico situa-se desde a morte do ditador,
em novembro de 1975, até a aprovação da Constituição em dezembro de 1978. Mas,
em educação, é frequente muitas vezes lidar com um critério mais largo, a
partir da Lei Geral de Educação (LGE), em 1970, tecnicamente inovadora sobre a
maioria dos padrões educacionais do regime de Franco, até à chegada do governo
do PSOE em outubro 1982 através de eleições, e a implementação de reformas
educativas muito substanciais a partir de 1983 (Mayordomo Perez, 2002, 19-47).
Nós também somos apologistas deste critério historiográfico.
Estamos conscientes do grau de influência e importância do uso de nomes (como
nos disse Umberto Eco na sua hermenêutica semiológica), neste caso, docentes,
profissionais da educação, os professores. Ao contrário do que acontece em
outras línguas em castelhano distinguimos claramente entre os professores
primários - "maestros" e os restantes professores. Professores
nesse contexto "os maestros" são os professores das escolas
primárias. Os professores são os do ensino secundário e universitário.
Historicamente, como indicado Giner de los Rios nos finais do século XIX, era
comum referir-se a "professores primários e a catedráticos", porque
representavam papéis muito diferente em termos profissionais e sociais. É
verdade, também, que na terminologia da LGE dos anos setenta do século XX, um
tanto retórica e modernizadora, era frequente e oficial o uso do termo
"Professor de Educação Básica Geral" para se referir aos
professores das escolas primárias, e mantinha-se o nome do professor do ensino
secundário, geralmente catedrático. No caso das Universidades, sempre e sem
hesitação se fala de professores, ainda que muitas sejam as actuais categorias
de diferenciação existentes.
Um segundo esclarecimento. O associativismo é uma componente fundamental da
identidade de qualquer profissão, também da docente, como o é o grau de
sensibilidade e capacidade organizativa sindical, e a possibilidade de adotar
mecanismos autónomos de auto-renovação e de intercâmbio pedagógico. Isso é o
que define o núcleo essencial da nossa proposta de interpretação histórica, que
propomos aos leitores, que nos anos do seu estudo desde a transição até à
democracia em Espanha, adopta a forma de um amplo movimento de professores, com
nuances muito originais e às vezes subtis do ponto de vista da sociabilidade
dos professores, da sua capacidade organizacional, da sua proposta
transformadora da educação a partir da base, e sempre num contexto de ruptura e
novidade independentemente das práticas estabelecidas pelo regime de
franquista.
1. A herança associativa e sindical do franquismo para os professores
O associativismo e o sindicalismo docente no período da transição espanhola tem
pouca semelhança com o período anterior existente antes da guerra civil de
1936-1939, uma vez que os contextos sócio-históricos eram muito diferentes: a
Segunda República é uma explosão de liberdade, vitalidade social e diversidade
associativa para os professores primários e educadores de todos os tipos, a
transição é ainda, em grande medida, um período de muito medo e prudência
associativa depois de uma ditadura brutal. No entanto, a transição também pode
ser identificada como uma outra explosão de liberdade e de recuperação muito
ansiada para se associarem, organizarem, sindicalizarem para professores
primários, e outros professores em geral, terminologia muito específica ao
tempo, ainda que desacertada como se viria a comprovar.
Também não podemos falar de continuidade sindical ou actividade associativa
entre as duas fases, uma vez que os dois sindicatos de professores mais
influentes serão eliminados do mapa espanhol, deixando pequenas bolsas de CNT e
FETE-UGT num longo exílio, principalmente na França e na América, mas sem
nenhuma possibilidade de influência entre os professores espanhóis no país, e
apenas a continuidade organizativa, durante os longos e pesados anos de
ditadura militar. O regime de Franco tinha sido particularmente duro no campo
do ensino, para o qual ele foi acusado pelos rebeldes de 1936 (ultraconservador
militar, eclesiástico e falangista) de todos os males que havia causado a
administração republicana. Se para a Segunda República a escola representou o
seu coração, era necessário atacar diretamente o coração (a escola e seus
professores) para destruir todo vestígio republicano.
O antigo primeiro-ministro da Educação Nacional, com Franco, Pedro Sainz
Rodríguez, ainda durante a guerra, em 1938, quando se dirigia a um grupo
selecionado de professores adeptos da rebelião, anunciaria as chaves que iriam
caracterizar a sua linha de acção educativa: a combinação de um estado
totalitário de base militar que atuaria impiedosamente para atingir seus
objetivos, e o protagonismo que a Igreja Católica deveria ter na organização da
educação no novo Estado2. A partir daí, se explicará a organização com um
sistema controlado sobre o associativismo, que se aplicou aos professores
durante a longa e exasperante ditadura, e liberdade dos elementos da igreja
para atuar na educação, nas escolas, escolas particulares, universidades, e em
toda a vida pública através da prevenção e controlo dos costumes e práticas
sociais.
O regime totalitário na Espanha estabeleceu ama ditadura militar franquista com
a sua vitória na guerra civil (1936-1939) e, que permanecerá em vigor até a
morte de Franco, em Novembro de 1975. No que diz respeito ao campo de
associativismo e sindicalismo dos professores, adopta duas vias de atuação bem
definidas, diferentes mas que se complementam, que não abandonarão em momento
algum, ainda que com graus de intensidade na sua aplicação variáveis, sem
dúvida.
Em primeiro lugar, havia que proibir a liberdade de expressão e de todos os
tipos de liberdade de reunião, de associação, de sindicalismo dos professores,
e incrementar os avisos prévios, a depuração, a prisão, o assassinato e a
eliminação em muitos casos, ou forçar a saída para o exílio de milhares de
professores primários, professores do ensino secundário e universitário
considerados contrários ao novo regime de Franco, ou que não estivessem em
sintonia com os vencedores da guerra civil. Se bem que a fase de repressão aos
professores espanhóis contrários ao franquismo foi particularmente dura e
rigorosa durante o período de guerra e no imediato do pós-guerra, nos anos
quarenta do século XX, o controlo, a vigilância e a repressão de qualquer
expressão associativa de professores permaneceram firmes e constantes até o fim
da ditadura. O desmantelamento do modelo de escola republicana necessitava de
uma cirurgia muito combativo que exigia a remoção de todos os professores
considerados dissidentes, o que levou à implementação de procedimentos
depuradores de milhares de professores espanhóis3.
Em segundo lugar, era necessário construir um novo estado franquista, desde
logo pela educação e um novo aparelho ideológico de informação e cultura,
regulando minuciosamente todos os detalhes da vida e atuação dos professores
primários e das escolas e também dos novos mecanismos de associativismo
controlado e sindicalismo domesticado dos professores, que deviam estar sempre
de acordo com as ordens hierárquicas que emanavam desde o vértice do novo
estado totalitário. Daí que se considere imprescindível a organização do
Sindicato Espanhol dos Professores, criado pela falange de Saragoça em agosto
de 1936, pouco depois da rebelião militar de 18 de julho desse ano, e que mais
tarde se converterá no chamado Serviço Espanhol do Magistério (SEM), destinado
a enquadrar os professores das escolas primárias, de forma equivalente a como
se organizam todos os ramos de produção e administração. Era um sindicato
vertical, não livre, de estilo falangista primário e mais tarde de orientação
católica, concebido para colocar os professores primários dentro das estruturas
ideológicos do novo regime político.
O Sindicato Espanhol do Magistério dura durante duas décadas. Depois da morte
do ditador em 1975, só desaparecerá quando nasce em 1978 o Sindicato ANPE
(Associação Nacional de Professores do Estado), no entanto os sindicalizados no
SEM integram a ANPE com outros professores de orientação claramente
conservadora. Durante todo o regime de Franco o SEM desempenhou uma função
específica de regulação, vigilância e controlo, enquadramento, formação de
todos os professores do ensino primário ao serviço dos interesses do aparelho
educativo do regime franquista. Se num primeiro momento prevaleceram no seu
seio orientações falangistas, pouco depois com a própria evolução da correlação
de forças políticas e ideológicas do franquismo, o SEM pautar-se-á pelas
directrizes da hierarquia da igreja católica muito comprometida e beneficiada
com a chamada cruzada4 de Franco.
De igual modo, mas de outra forma, que o professor primário, os professores do
ensino secundário e universitário, ficariam enquadrados nas respectivas
associações de professores que se criariam desde o cimo através da
Administração Educativa do novo Ministério de Educação Nacional. Assim nascem
quase ao mesmo tempo do SEM, o Serviço de Professores do Ensino Médio (SEPEM) e
o Serviço de Professores do Ensino Superior (SEPES), com a concordância das
associações de professores, pois o conceito de professores adjuntos,
colaboradores e ajudantes era residual e complementar para a política da
educação nacional do franquismo (Canales Serrano, 2012, pp.219-239).
No setor do sistema de ensino público orientada à formação das elites
dirigentes ao menos até à Lei Geral de Educação de 1970, o enquadramento que
procura o regime de Franco completa-se com a função reguladora dos Colégios
Profissionais, que no caso dos professores do ensino secundário representam os
Colégios de Doutores e Licenciados. E também para os professores primários no
que se refere à sua atualização didática e ao controlo dos métodos de ensino
utilizados, implementa-se nos anos cinquenta, aqueles que ficaram conhecidos
como Centros de Colaboração pedagógica, que mais à frente comentaremos. A
vigilância, o controlo e a prisão, se adoptarmos a hermenêutica foucaultiana,
estão perfeitamente articulados para o professor primário e os restantes
professores ficarem bem enquadrados, e para não terem a facilidade de sair dos
trilhos estabelecidos pela administração franquista com as suas aspirações
associativas e pelas publicações periódicas pedagógicas e as profissionais
minuciosamente submetidas à censura e à repressão.
Em qualquer destas situações comentadas era necessário para os professores
primários e professores do ensino secundário e universitários canalizar as suas
aspirações, e que fazer co que as suas reclamações, ou propostas fossem feitas
de forma ordenada para que fossem vistas e revistas, e atendidas pelas
hierarquias e quando fosse oportuno fossem respondidas. A associação livre e
muito menos a vida sindical estavam proibidas e eram perseguidas pela ditadura.
No entanto, não foi possível de todo evitar que nos últimos anos de vida da
ditadura e de forma clandestina, funcionassem associações de grupos de esquerda
que reivindicavam e procuravam alternativas democráticas para os graves
problemas da educação espanhola e dos próprios professores.
2. Os Colégios de Doutores e Licenciados e as Associações Profissionais de
Professores durante a transição para a democracia
A formação pedagógica dos professores durante o franquismo veio a sofrer de
deficiências graves, como resultado do mau funcionamento das escolas normais,
dos seus recursos limitados e, pela ausência de outras iniciativas que
assegurassem a atualização profissional do exercício do magistério em Espanha,
a sua educação contínua, científica e educacional.
Mas também se percebia por parte dos responsáveis do Ministério da Educação que
era necessário canalizar alguma necessidade de participação e enquadramento
para os professores primários, pelo que o franquismo criou em 1957 os Centros
de Colaboração Pedagógica5, para tentar preencher desta forma am-bas as
lacunas. Estes grupos de professores, liderados pelos inspectores, foram
constituídos em primeiro lugar como instrumentos técnicos de melhoria da
qualidade da escola primária, de fraca qualidade em função da débil formação
pedagógica de docentes, das baixas remunerações e também como mecanismo de
controlo ideológico e associativo, garantido pela segurança das autoridades do
Ministério da Educação Nacional franquista. O regulamento de funcionamento
destes grupos de professores, a lei de 21 de fevereiro de 1964, definia-os
assim: "Chamam-se Centros de Colaboração Pedagógica os grupos de
professores primários da mesma ou de diferentes localidades, organizados e
dirigidos, dentro de cada província pela inspeção respectiva para se reunir
regularmente, com o objetivo geral de discutir doutrinas e experiências,
investigar e verificar todas as questões relativas a recursos e de melhorar o
desempenho das escolas de ensino primário".
Apesar da falta de estudos específicos sobre seu desempenho real nos anos
sessenta e início da transição, sabemos que os Centros de Colaboração
Pedagógica se converteram em pequenas estruturas de duvidosa e eficácia
pedagógica, e muito diferentes no seu dinamismo em função do talento e estilo
de cada inspector de educação e de cada grupo específico de professores.
Ainda no início da transição política os Centros de Colaboração Pedagógicos são
considerados úteis pelos responsáveis da administração franquista para
implementar a LGE a Lei de 1970, argumentando que outros países alcançaram
êxitos em modelos semelhantes de colaboração entre os professores. Mas, a
verdade, é que eles não são bem aceitos pelos professores espanhóis mais
inovadoras e com aspirações democráticas, dado o grau de controle exercido pela
inspecção escolar sobre eles, e a falta real de autonomia de associação que
reclamavam os professores cada vez mais de forma explícita e que estes Centros
Colaboração Pedagógico não garantiam.
Faltando então sindicatos livres de professores, por estarem proibidos pela
polícia de Franco, e quando os Movimentos de Renovação Pedagógica são
desprezados e perseguidos pelo tardofranquismo, alguns membros do tecnocratismo
oficial de ensino, pensavam ingenuamente, que poderiam enquadrar os professores
em Centros de Colaboração Pedagógica, e através deles também garantir um maior
sucesso técnico na implementação real da Lei Geral de Educação (LGE) 1970. Mas
os professores espanhóis mais ativos e inovadores não caminhavam nessa direção,
quando estava prestes a desaparecer e a desmoronar-se o projeto político e
educacional do franquismo. Finalmente estes Centros de Colaboração Pedagógicos
fracassam e desaparecem, ainda que para certos grupos de professores estes
passassem a tornar-se um incentivo para a sua vitalidade profissional e
participativa, e ainda para outros inclusive representassem um passo decisivo
para a transição nos finais de 1976 face aos incipientes movimentos sindicais e
de renovação educacional.
A tecnocracia franquista, pressionada por diferentes organismos internacionais,
decide transformar o inoperante sistema escolar que possui a Espanha dos anos
sessenta, depois de anos de uma longa ditadura em que a educação e a cultura
não ocupavam posições de interesse para os governantes do regime de Franco. Por
isso em Setembro de 1970 apareceu a LGE defendido Villar Palasí, membro do
grupo dos tecnocratas da Opus Dei que saíram triunfantes da remodelação do
governo de 1969. O novo Ministro da Educação pensava que se deveria modernizar
a educação do país para se ajustar às novas exigências de desenvolvimento
económico iniciado em Espanha nos anos cinquenta e fortemente impulsionado
desde 1959. Essa era a grande aposta educativa do franquismo posterior:
organizar tecnicamente o sistema educativo espanhol no seu conjunto para
adaptá-lo à procura do capitalismo já instalado no país, mas sem aceitar as
formas de participação e gestão democráticas que pediam insistentemente
milhares de professores e ainda muitos mais cidadãos fartos de não ter as
liberdades democráticas básicas de expressão, associação e participação.
Ao concluir-se a fase inicial do franquismo, em que começam a ruir as suas
rígidas e duras estruturas, com a necessidade de se dotar de alguns mecanismos
técnicos inovadores para poder desenvolver a implementação da LGE de 1970,
verificamos que neste período, que denominamos de transição educativa longa,
emergem algumas iniciativas associativas de tipo profissional, técnica ou
didáctica que merecem ser tomadas em consideração. Conectam-se de forma direta
com grupos de professores do ensino secundário, e em menor grau com professores
universitários, e munem-se de meios e apoios provenientes dos recém-criados
Institutos de Licenciados de Educação.
Os ICEs são criados pela BOE de 15 de Agosto de 1969, uma cada universidade com
três objectivos principais, para colmatar as lacunas que precisava a reforma
educativa: formar pedagogicamente professores universitário e de educação
secundária, promover a investigação educativa que era precária e assessorar
tecnicamente todo o sistema educativo, naquilo que fosse necessário para ser
reformulado. Os ICEs convertem-se assim em instrumentos de apoio decisivo para
o êxito da implementação da futura LGE que se aprovaria um ano mais tarde, em
1970. Pelo menos sobre o papel oficial, a administração propunha-se atuar dessa
forma, mas na realidade iria ser bastante diferente, e muitas das aspirações o
objectivos dos ICEs ficariam sem efeito, não só por falta de apoio económico,
mas também pelas muitas rasteiras que se colocam ao êxito da aplicação da
reforma educativa por parte dos sectores mais retrógrados do regime franquista,
Para o tema que nos ocupa, a associação profissional de professores, neste
caso, em todos os níveis do sistema educativo, e deixando aqui por um lado os
aspectos de formação pedagógica, é-se obrigado a reconhecer que à volta dos
ICEs vão-se construindo grupos de professores primários e sobretudo professores
do ensino secundário e universitário, que manifestam interesse em agrupar-se,
para melhorar a formação científica e organizar grupos de investigação
didáctica de participação ativa nas suas respectivas sociedades científicas que
então florescem ou se revitalizam em Espanha, ao incrementar-se os contactos
com outros colegas do contexto europeu6. Assim, aparecem na maioria dos IECs ou
à sua volta grupo de professores interessados em trocar as suas experiências na
aplicação da reforma pedagógica desde o seu campo de especialidade didáctica e
científica, em particular nalgumas das sociedade científicas, muito embora não
muito ativas em Espanha no princípio dos anos setenta, e alguns também nos
recém-criados Movimentos de Renovação Pedagógica, que mais tarde comentaremos.
Apesar das suas limitações, os ICEs desempenharam em diversas ocasiões, com
êxito, uma função de plataforma de apoio técnico a estes grupos de
profissionais através do seu campo de especialidade científica e docente, mas
sempre dependente da abertura e capacidade de aglutinação dos seus diretores,
pelo menos até à criação dos Centros de Professores e Recursos em 1985.
Faltam em Espanha muitos estudos detalhados sobre a vida associativa das
criadas sociedades científicas nestes anos setenta do século XX7, e na tímida
mas constante transformação de outras que haviam sido criadas antes e
controladas pelo regime de Franco (caso da Sociedade espanhola de Pedagogia,
criada em 1948, para citar um exemplo concreto, de cujo tronco inicial nasceram
outras, como a Sociedade Espanhola da Historia da Educação - 1989 -
desde a secção com o mesmo nome - 1977). Mas, é um dado verificável, que
desde 1970 para diante, começam a criar-se e a expandir-se um grande número
delas, a relacionar-se com as suas homólogas europeias e a cultivar o
associativismo profissional e científico para além também dos aspetos
sindicais. É evidente que ao associativismo profissional e científico dos
professores durante estes anos deve juntar-se a reforma sistema educativo, a
melhoria docente e os progressos na investigação.
Por outro lado, os Colégios de Doutores e Licenciados nasceram em Espanha como
grupos de interesse para procurarem para os seus membros a defesa dos seus
interesses profissionais, cooperativos e em determinadas ocasiões até
sindicais. O de Madrid, o mais importante de todos, nasceu em 1899 com esse
objectivo e manteve-se por mais de um século até aos nossos dias, representando
às vezes de uma forma brilhante os interesses dos professores, em pleno regime
franquista (Puelles Benítez, M. de, 2000). Seguindo a esteira do Colégio de
Doutores e Licenciados de Madrid, e a de outros Colégios Profissionais
(médicos, advogados, arquitectos, economistas, sociólogos, engenheiros e outras
profissões liberais), configuram-se por toda a Espanha como grupos de interesse
e defesa profissional, como parte constitutiva de identidade profissional, tal
como explicaria Max Weber ao falar dos elementos identificadores de uma
profissão. Criam-se Colégios Profissionais de Doutores e Licenciados em todos
os distritos universitários de Espanha (além de Madrid, Barcelona, Valência,
Granada, Santiago, Oviedo, Valladolid, Salamanca, Sevilha, Múrcia, Laguna,
Saragoça) e chegam a formar um Conselho Geral de Colégios de Doutores e
Licenciados de Filosofia, de Letras e Ciências, orientados principalmente para
defender, canalizar e controlar todas as professoras do ensino secundário que
trabalham em instituições privadas, ou por iniciativa particular. A publicação
em cada Colégio de um Boletim converte-se num instrumento extraordinário de
difusão de todo o tipo de actividades e novas ideias e de vínculo associativo
entre os seus membros8.
Durante o franquismo as Associações de Doutores e Licenciados desempenharam
plenamente esta tarefa de regular e controlar as associações profissionais de
milhares de professores do ensino secundário em Espanha. Todavia em 1974, o
regime de Franco irá elaborar uma lei para os Colégios Profissionais para
enquadrar e garantir ainda mais os seus interesses ideológicos e políticos
entre os membros de diferentes profissões, muito embora desde logo esta lei é
revogada no contexto de transição e implementação dos princípios
constitucionais de 1978. As Associações Profissionais e, especificamente, as
Associações de Doutores e Licenciados Faculdades de Ciências e Letras,
continuarão a existir até hoje, mas a partir de um regime de completa autonomia
(de acorde com as forças progressistas), sem colidir com outras estruturas
associativas e sindicais de professores, que nasceram depois.
É interessante notar, no entanto brevemente, que essas estruturas colegiais,
mais especificamente a do Colégio de Doutores e Licenciados de Madrid, vai
desempenhar durante os anos críticos de transição, uma posição-chave no
desenvolvimento e difusão de uma alternativa democrática para escola pública,
uma vez que os setores democráticos de oposição ao regime começam a controlar
as juntas diretivas dessas organizações. Assim sucede em Madrid, entre os anos
de 1971 e 1976, quando a partir dessa plataforma se vai desenvolver e produzir
em toda a Espanha uma propagação alternativa para a escola pública (documento
publicado em 1976), em grande parte de ambientes profissionais docentes
diferentes aos oficiais do franquismo. Essa denominada alternativa para a
escola pública representava uma posição unitária de esquerda (uma espécie de
ideologia ou programa estratégico básico) sobre o modelo de sistema educativo
necessário para a mudança social e política que precisava Espanha, numa fase
histórica em que ainda não eram permitidos, nem eram reconhecidos, os canais de
representação dos sindicatos e dos partidos políticos. É este um documento de
referência quase mítica, inolvidável, para estes anos da transição educativa e
política em Espanha na década de setenta do século XX, que foi de generalizar e
democratizar a educação e todas as suas estruturas, superando a estagnação e o
atraso produzido durante os longos anos de ditadura. A influência do presidente
do Colégio de Doutores e Licenciados de Madrid, Eloy Terrón Abad, membro do
Partido Comunista de Espanha, foi decisiva nesta fase. Notável também é a
contribuição do Colégio de Doutores e Licenciados de Barcelona, em conexão com
o compromisso de escola pública, definido no documento Madrid, como o de
Valencia e depois as restantes Faculdades.
Em suma, as associações profissionais de professores, criadas e estabelecidas
em Espanha, com o objectivo de limitar, defender os interesses da profissão
docente, a sua ética e apoiar a melhoraria da sua formação, vão viver durante
os anos de transição política na década de 70 do século XX, um período de
profunda transformação, adaptação e democratização, em linha com o novo
contexto democrático que se abre, e superadora da função estritamente
coercitiva, controladora, e de limitação que lhes havia sido atribuído por
Franco. De fato, até a amnistia de 1977 e a liberdade sindical e política de
todos os partidos, incluindo até a Constituição de 1978 aprovada em Dezembro,
estes Colégios de Doutores e Licenciados recém-formados tiveram uma função pré-
sindical decisiva e unificadora das iniciativas unitárias. Desde então começou
a desmoronar-se de maneira irremediável no seu protagonismo político e
sindical, ainda que mantenham algumas iniciativas formativas, reivindicativas,
de defesa e deontológicas para os seus membros. Com o passar do tempo, em
poucos anos, os Colégios de Doutores e Licenciados vão ficando como figuras
associativas residuais para os docentes do sector privado de ensino, como
entidades facilitadoras de serviços.
3. Movimentos de Renovação Pedagógica
O fenómeno mais original, específico e genuíno do associativismo principalmente
dos professores primários e em menor medida dos professores do ensino
secundário e universitário em Espanha, durante o período de transição do
franquismo para a democracia, em nossa opinião, é conhecido como o Movimento de
Renovação Pedagógica (MRP), dentro da mais ampla denominação de
"movimento dos professores", muito identificador do mundo dos
professores com propostas para mudar a educação espanhola nos anos de
transição.
Enquanto que noutros países vizinhos europeus na mesma altura, podemos observar
práticas de associações profissionais de professores e sindicatos de
professores, em Espanha produz-se um movimento novo e diferenciado de
professores e educadores (o MRP), relativamente grande e influente, constituído
por professores comprometidos com a inovação educacional, mas também que
acolhem reivindicações sindicais, associativas e políticas de defesa da escola
pública. Desejam transformar a escola a partir da base.
Este é um movimento amplo e heterogéneo, que se vai estabelecendo em toda a
Espanha na década de setenta do século XX, envolvendo de forma diferente
dezenas de milhares de professores a favor de uma orientação progressista de
âmbito social e aspirações democráticas e de liberdade, principalmente da
escola primária, e, em menor medida do ensino médio e superior. É um movimento
de professores primários e professores autónomos, predominantemente
associativista, não muito organizado, mas atraente à primeira vista e que
nesses anos atinge um enraizamento relativamente fácil entre os profissionais
da educação, muito voluntarioso, que consegue combinar aspirações tradicionais
de muitos professores pela melhoria da escola, pela sua inovação pedagógica, e
que catalisa de uma forma muito intuitiva e pouco formalizada, o desejo dos
professores primários para oferecer aos espanhóis uma escola pública e
democrática para todos.
Os MRP representam um modelo de organização e de defesa de uma pedagogia que
não é equivalente noutros países mais próximos, porque as suas condições
sociais e políticas são muito diferentes. Mesmo o modelo de transição da
ditadura para a democracia, como sucede quase ao mesmo tempo em Portugal, é
diferente, porque em Espanha se aposta na reforma e na transição pacífica, e
não pela ruptura, como a Revolução dos Cravos, em 1974, que felizmente acontece
de forma não sangrenta.
Dispomos atualmente de um conjunto de trabalho bastante aceitáveis sobre este
capítulo da nossa história educativa, com diferentes abordagens e extensão, mas
de consulta indispensável. Assim, temos as reflexões de Marta Mata, Martínez
Bonafé, Carmen de Eleijabeitia, Jordi Monés, Lázaro Lorente, Hernández Diaz,
Tamar Groves, entre os mais destacados, permitem-nos aproximarmo-nos de um
campo muito atraente, e peculiar, da história recente, do associativismo de
professores primários e outros professores espanhóis durante a transição
política dos anos setenta do século XX, como parte do MRP ( Groves, 2012;
Hernandez Diaz, 2011).
Além disso, são várias as contribuições monográficas, as revistas
especializadas que em diferentes momentos contribuíram com reflexões
significativas sobre este particular fenómeno associativo, político e de
renovação pedagógica que se vive de forma tão espectacular e original em
Espanha na transição política do franquismo para a democracia. Referimo-nos a
publicações como Cuadernos de Pedagogía, Escuela Española, Vida Escolar,
Revista de Educación, Guix, Perspetivas Pedagógicas, Colaboración, Kikiriki,
Apuntes de educación, algumas com uma trajetória já longa, outras nascidas
precisamente no contexto de abertura democrática em meados dos anos setenta.
Estes materiais de referência que mencionamos, em memória compartilhada com
outros atores desses momentos e o nosso envolvimento pessoal nesse processo de
reforma educativa, ajudam-nos a reconstruir uma explicação valorizada do
processo em si e do associativismo dos professores espanhóis que representam o
MRP num período crítico da história da educação contemporânea de Espanha, que
se estende desde a promulgação da Lei de 1970 até ao início das reformas
educativas do primeiro governo socialista do regime democrático no início de
1983.
Dentro do conceito genérico de grupos chamados Movimento de Renovação
Pedagógica (MRP), que reúne ao longo dos anos vários milhares de professores
espanhóis (em algum momento se fala de um intervalo entre 30 e 50 mil
participantes), podemos obeservar dois tipos de associações. Algumas, muito
poucas, são aqueles que iniciam a sua actividade e incipiente organização pouco
antes do início da transição, desempenham um papel ativo e impulsionador de
iniciativas associativas, mais amplas e de unidade, em certo sentido levam
adiante posições de vanguarda pedagógica e inquestionável protagonismo no
processo, concluido com êxito a transição, e se estendem até o presente com o
reconhecimento e dignidade, mantendo a sua autonomia da autoridade central ou
autonómica (seja elas socialistas ou conservadoras).
Estas associações pedagógicas, nos anos após 1983, têm sobrevivido a fases
complicadas, muitas vezes ostracizadas pelas administrações da educação face a
elas, sob pressão dos sindicatos de professores, pela transferência de muitos
dos seus membros mais ativos para organizações políticas, sindicais ou da
administração escolar, ou pela desmobilização em que caiu o setor dos
professores espanhóis, uma vez estabelecida a democracia e reformas educativas
pretendidas. Mas, cada um delas felizmente foi capaz de manter a sua lealdade
ao projeto original educacional de que fazia parte quando foi criada, ainda que
tendo de se adaptar às circunstâncias. Vamos referirmo-nos a algumas delas em
particular, muito significativas, cada uma com a sua própria identidade, ainda
que todas participem do projecto geral de renovação pedagógica: Rosa Sensat,
Movimiento Copoerativo de Escuela Popular (MCEP, movimento que acolhe muitos
grupos de professores primários praticantes das técnicas Freinet), Concejo
Educativo de Castilla y Léon, e Movimento de Educadores Milanianos (MEM, ou
seguidores da escola de Milani em Barbiana). Fá-lo-emos somente no que se
relaciona com os anos que ocupam este trabalho (1970-1983), que para estas
associações representam também um período constituinte, ainda que com as
nuances necessárias que comentaremos.
A associação pedagógica Rosa Sensat vai desempenhar uma posição pioneira,
protagonista e determinante no nascimento e posterior desenvolvimento dos MRP,
tanto na Catalunha e nas Ilhas Baleares de forma especial, como em toda a
Espanha9 (Codina, 2002). Desde a sua apresentação pública como Escola de
Professores Rosa Sensat em 1965, a associação impulsionadora de uma pedagogia
renovadora, com orientação catalã e catalisadora dos dispersos e ocultos (por
vezes clandestinos) professores primários renovadores que tinham sido
perseguidos ou proscritos desde 1936, vai-se erguer como promotora e defensora
da memória catalã da renovação pedagógica e no que se refere a outros grupos de
professores impulsionadores da pedagogia ativa, da língua catalã e pouco depois
da escola pública. À medida que se acentuam os processos de oposição ao
franquismo, os sectores mais dinâmicos do sector de ensino aproveitam todas as
oportunidades organizativas. Assim, no campo educativo a Associação Rosa Sensat
converteu-se desde logo numa plataforma de participação, formação e difusão de
referência para todos os sectores progressistas espenhóis, principalmente na
Catalunha, desde meados dos anos sessenta. O ponto principal e grandioso de
encontro e do impulso de alternativas de política educativa será a mítica
Escola d´Estiu de Barcelona (Escola de Verão de Barcelona). A partir dessas
conferências associativas e pedagógicas de professores primários catalãos com
objectivos renovadores e superando as fronteiras locais da cidade de Barcelona,
desde o início dos anos setenta vão-se criar numerosas Escolas de Verão por
toda a Espanha, como vamos ver, que alcançarão o seu apogeu entre 1978 e 1983.
Os seguidores das técnicas e da pedagogia de Freinet alcançaram em Espanha
antes de 1939 uma aceitável presença como inovação educativa na escola e na
defesa de uma pedagogia popular, sobretudo no período republicano. Mas a
repressão exercida pela depuração franquista sobre este grupo de professores
primários cooperativistas, defensores de uma pedagogia popular tornou-se
implacável e feroz, que conduziu ao desaparecimento deste grupo de Espanha até
aos finais do franquismo (Hernández Diaz, & Hernández Huerta, 2009, pp.
201-228). Não obstante, vários professores primários foram para o exílio após
algumas décadas, como sucedeu com Josep Alcobé; na fase final da ditadura
regressa a Espanha discretamente e, junto de professores primários jovens, com
sectores de professores freinetianos franceses a meados dos anos sessenta
(1966), começa a recompor-se o grupo. O Grupo legaliza-se de forma dissimulada
e cria-se primeiro (1974) a Associação para a Correspondência e a Imprensa
Escolar (ACIES) para não suscitar suspeitas à polícia e começam a introduzir
livros, a organizar cursos de formação e a difundir práticas escolares de
Freinet e dos cooperativistas do grupo. Será já em 1977 quando adopta o nome de
Movimento Cooperativista de Escola Popular (MCEP), mais de acordo com o
pensamento e a prática educativa dos maestros frenetianos.
Durante a transição democrática o MCEP é reconhecido como um dos MRPs mais
ativos, com estrutura e apoio governamentais e com implantação nas cinquenta
províncias de Espanha. Constituiu-se num dos grupos com mais capacidade de
animação pedagógica e de defesa de uma escola pública e popular de qualidade.
Por exemplo, várias das Escolas de Verão não tinham possibilidade de se
organizar, não fora a contribuição dos membros do MCEP. Os membros do MCEP,
defendem sempre a transformação interior do centro escolar, mas em conexão
permanente com outros colegas e dentro de um projecto mais amplo de associação
de professores primários e outros para promover uma escola e uma educação para
a transformação social (Groves, T., 2011). Até aos dias de hoje, o MCEP mantém,
não semdificuldades, capacidade organizativa e de resposta aos problemas
escolares, tal como exprimem os seus congressos anuais e a sua participação na
FIMEM (Federação Internacional de Movimento da Escola Moderna) cujo último
congresso se celebrou precisamente em 2012, em León.
O Conselho Educativo de Castilla e León (legalizado finalmente em 1980) é o
resultado organizativo do movimento de docentes (professores primários,
professores do ensino secundário e professores universitários, educadores de
colégios agrupados, educadores sociais de diferentes tendências políticas de
esquerda) que se iniciou em 1975-1976 em Castilla e León, antes de ser
reconhecida como Comunidade Autónoma pela Constituição de 1978. Na proposta
pedagógica e política do Conselho Educativo coincidem vários elementos: pré-
sindicais, políticos, associativos, autónomos, o MCEP, e juntam-se à volta da
organização dos chamados Encontros de Docentes (o primeiro tendo-se celebrado
em Salamanca, em 1977) e Escolas de Verão (o primeiro em Salamanca, em 1978).
Algumas das suas actividades juntam nesses anos mais de mil participantes, dos
quais 800 são professores primários, outros professores e educadores. Como
outros, muitos movimentos pedagógicos em Espanha nestes anos de transição, o
Conselho Educativo defende uma pedagogia ativa, o programa de uma escola
pública e democrática e um compromisso transformador desde a escola com a
realidade mais próxima, que é a região de Castilla e León. De facto, está
enraizado através de grupos de professores com sed própria em cada uma das nove
províncias (Ávila, Burgos, León, Palência, Salamanca, Segóvia, Sória,
Valladolid e Zamora), funcionando com autonomia e concordando que a celebração
de parte das suas actividades tenha caráter rotativo (Esteban Frades, 1995-
1996, pp.433-452).
O Movimento de Educação Milaniano (MEM) nasce em 1971, em Salamanca, por
iniciativa de José Luís Corzo, que se considera continuador da proposta
pedagógica do sacerdote italiano, Larenzo Milani. Este educador cristão,
ergueu-se como impulsionador de uma escola a tempo inteiro, desenvolvida em
Itália nos anos cinquenta e sessenta do século XX. Era uma escola diferente,
destinada às crianças e jovens mais desprotegidos e abandonados pelo sistema
educativo oficial, como consta do livro "Carta a um professor
primário", (1967), que recolheu a surpreendente e comprometida
experiência pedagógica vivida na aldeia de Barbiene, pequena localidade próxima
de Florença. A filosofia educativa inicial procede do pensamento radical de
Lorenzo Milani. É um movimento que durante os anos que mais estudamos, junta
professores de toda a Espanha, oriundos de internatos, professores primários do
ensino oficial, ensino secundário e profissional e professores primários do
ensino privado. Publicam desde há anos a revista "Educar-nos" e
utilizam técnicas intensivas de trabalho educativo além de outras formas, como
o debate aberto, o jornal diário, a viagem, a leitura comentada e a vida de
todos os membros do grupo. Os membros do MEM trabalham profissionalmente em
diferentes ambientes educativos e integram-se em diferentes plataformas de
atuação pública, mas além da sua tarefa transformadora e educadora com crianças
na vida quotidiana, especialmente adolescentes10. O MEM é um movimento
pedagógico renovador, original, de ascendência cristã, enraizado em sectores
humildes, que agrupa em determinadas datas centenas de membros e que exerce
impacto, e suscita interrogações pedagógicas profundas entre aqueles que se
aproximam do seu projecto pedagógico quotidiano.
Mas os MRP são realmente muito mais do que acabamos de referir, dezenas deles,
reunindo vários milhares de professores espanhóis que ocasionalmente ou
permanentemente aderiram a eles, muito influente nos anos de transição, e mais
tarde, em diferentes níveis de gestão e na reforma educativa. Assim,
considerando uma distribuição territorial por Comunidades, em 1983, o ano em
que finaliza o nosso trabalho, encontramos em Espanha, com os seguintes MRP,
correndo o risco de faltar algum na lista11, e sem mencionar os já supracitados
que tinham caracter e implementação em todo o estado espanhol: Colectivo
Andaluz de Pedagogia Popular em Sevilha (CAPP), Coletivo para la de Renovação
Pedagógica de Andaluzia (CREA) em Málaga, Associação dos Antigos Alunos da
Escola de Professores de EGB de Córdoba, Grupos Pedagógicos de Jaén, todos eles
na Andaluzia; Escola de Verão de Aragão (EVA), em Aragão; Coletico Pedagógico
de Asturias, em Astúrias; Escola de Verão de Maiorca, nas Ilhas Baleares;
Coletivo da Escola de Verão de Canarias (La Laguna, Tenerife); Coletivo de
Professores Canarios (Las Palmas da Grande Canária), Ilhas Canárias; Coletivo
da Escola de Verão de Albacete, Coletico Pedagógico de Alcazar de San Juan
(Ciudad Real), em Castilla de La Mancha; Conselho Educativo de Castilla e León
(assente em nove províncias) em Castilla y León; além de Rosa Sensat, o MCEP e
MEM, a funcionar na Catalunha (1983); os seguintes MPR com actividades de
formação e troca de experiências: Mestres das Terres de l'Ebre, Mestres
do Beguerdá, Movimento de Mestres de l`Alt Empordà, Escola de Verão das
comarcas de Gironines, Casal do Mestre de Granollers, Grupo de Mestres de
l´Anoia, Grup de Mestres de Rosa Sensat de l'Hospitalet de Llobregat,
Grupo de Mestres de Lleida, Grupo de Mestres do Bages, Movimento Educativo de
Maresme em Mataró, Grupo de Professores de Garrotxa em Olot, Movimento dos
Mestres de Ripollés, Grupo de Mestres de Penedés, Equipa de de Mestres de Santa
Coloma de Grammanet, Grupo de Mestres da Seo d'Urgel, Grupo de Mestres do
Camp de Tarragona, Escola de Mestres Alexandre Galí de Terrassa, Movimento de
Mestres da Vall do Ges; na Extremadura está ativa a Associação Pedagógica da
Escola de Verão da Extremadura; na Galiza funcionam a Nova Escola Galega, a
Associação Sócio-Pedagógica Galega AS-PG, e a Escola de Verão da Galiza; em
Madrid, além de um poderoso conjunto do MCEP, mantem grupos de atividades dos
MRP, a Ação Educativa (nascido em 1975) e Escola Coletiva de Verão de Getafe;
em Murcia temos a Escola de Verão da Região de Múrcia; no País Basco estão
activos os grupos Adarra, Associação Psicopedagógica de Bergara, além MCEP; na
Rioja está presente Everi, que é um grupo de professores primários da Rioja; em
Valência deve ser mencionado, além do MCEP, a Escola de Verão de Pas
Valencianos em Valência, o Coletivo de Mestres de la Plana, a Escola de Verão
de Pais de Valência, em Elche, o Coletivo de Professores Primários da Marina
Alta. É possível que alguns MRPs tenham ficado de fora desta lista, mas é claro
que estes são os mais importantes e conhecidos.
Independentemente da sua continuidade posterior, os MRP desempenham para
milhares de professores primários e outros professores (contados em 19791980,
cerca de cinquenta mil participantes em toda a Espanha), até esta data, de
1983, uma impressionante mobilidade pedagógica, uma função associativa de
carácter unitário e integrador, às vezes, de tipo associativista, de
capacitação para o trabalho inovador, de troca de experiência renovadoras,
políticas, e por vezes, de cariz pré-sindicais e reivindicativas, de defesa da
escola pública e da identidade nacionalista ou regionalista. Entre os grupos
permanentes, que fazem parte das associações (com menor número de membros) ou
ligados com alguma regularidade em torno de certas atividades, destacam-se os
Cursos de Verão, Reuniões de Professores, Escolas de Outono ou Inverno.
Com a chegada do PSOE ao poder nos finais de 1982, em Espanha vai iniciar-se
uma fase de declínio gradual da impressionante atividade dos MRPs, como
resultado do que temos chamado outras vezes um "abraço de urso"
"abrazo del oso". Os PRM são abraçados, amados, apoiados,
reconhecidos, são bem-vindos e apoiados explicitamente pelo Ministro da
Educação, José María Maravall, e, finalmente, submetidos e em grande parte
abafados pela estrutura da administração educativa, e especificamente a partir
de programas e atividades promovidas pelos Centros de Professores e Recursos,
lançados desde 1985 como instância preferida para reuniões e actualização
pedagógica pelos professores.
Além disso, e esta é provavelmente a principal razão para o que aconteceu na
década de oitenta do século XX na Espanha, uma vez que já se tinha entrado
noutro tempo da história. A legalização democrática dos partidos e sindicatos,
o reconhecimento das plenas liberdades de associação e de expressão, o aumento
da diversidade de associações científicas e profissionais oferecidas aos
professores, estavam em grande parte neutralizando os desejos de participação e
defesa dos direitos dos professores, que até então tinham sido canalizados, em
parte através dos PRM. Portanto, é lógico que desde os anos oitenta ocorra
entre professores espanhóis uma mudança nas opções políticas, sindicais, e
projetos de escola pública e democrática, assim como se transformem e
diversifiquem os espaços sociais e os caminhos de participação que envolvem
profissionais de educação.
Muitos destes MRPs vão desaparecer na prática, nos anos a seguir a 1985, e mais
propriamente a partir dos anos noventa, vendo muito reduzido o seu espaço de
atuação pedagógica, para um plano quase simbólico nos nossos dias. No entanto,
os MRPs mais antigos e com uma identidade própria vão continuar a intervir na
vida associativa de todo o tipo de professores, embora não como naqueles dias
gloriosos que já citamos, com aquela intensidade e capacidade de mobilização.
Aqueles trabalhos de semi clandestinidade dos professores em defesa da
liberdade, a luta sindical, a necessidade de conhecer e divulgar experiências
pedagógicas inovadoras que foram reconhecidas nos MRPs, e que formaram um
movimento espectacular de docentes , caminharam para outros meios e modos de
associação de professores, debates, defesa e formas de construir instrumentos
regulamentados de participação política face aos problemas da escola e da
educação.
4. Aparecimento dos sindicatos de professores no regime democrático
Atrás dissemos que a ditadura de Franco, proibiu e exterminou durante o seu
período histórico (1936-1975) qualquer tipo de sindicato de classe, própria dos
trabalhadores, de orientação operária e democrática, além da orientação
anarquista, socialista, comunista, republicana, e especialmente todas aquelas
que alcançaram uma notável influência social no período republicano, antes de
1939. Em particular, a repressão franquista recaiu no sindicalismo de
professores e grupos de professores partidários das ideias de progresso,
liberdade e republicanismo. O sindicalismo docente progressista espanhol tinha
sido cancelado, exterminado e perseguido durante décadas, desde o fim da guerra
civil, e só funcionavam a partir dos seus poucos redutos no exílio ou desde a
muitíssimo perigosa clandestinidade. Isto é, quando começa a transição política
e educativa no final do regime de Franco em Espanha não havia sindicatos livres
de professores, porque foram proibidos e perseguidos pela polícia de Franco até
1977, e tinha que tudo se construir "a partir do zero".
Além disso, o regime de Franco tinha inventado um sindicalismo docente muito
próprio, de raiz fascista e vertical, muito inspirado nos modelos totalitários
do nazismo da Itália de Mussolini. Tratava-se obrigatoriamente de sindicalizar
todos os professores na União Espanhola de Professores (SEM), que seguiu as
mesmas diretrizes organizacionais que todos os outros sindicatos oficiais do
regime de Franco, em cada um dos ramos de produção e da administração. A
família, o município e o sindicato tornaram-se as três instituições básicas de
enquadramento e "representação" indireta do regime de Franco (o
Movimento Nacional, na terminologia falangista) foi introduzido para substituir
o sistema parlamentar democrático que eliminou e seguiu as diretrizes do modelo
falangista, claramente influenciado pelo fascismo italiano e pelo nazismo. Como
indicava expressamente a Lei da Educação Primaria de 1945, no seu artigo 85.º,
"o Serviço Espanhol do Magistério, que representa os professores
primários no Movimento Nacional vai cooperar na melhoria da função dos
professores, de acordo com a princípios desta Lei e as normas aprovadas para o
efeito".
Durante parte da transição política espanhola, nos anos setenta do século XX,
vão coexistir o sindicalismo oficial docente e vertical, num estado de declínio
e colapso, na fase terminal da tardofranquismo, com as seções de ensino dos
emergentes sindicatos operários, ainda na clandestinidade, as seções de ensino
dos partidos políticos democráticos de esquerda, também proibidos e na
clandestinidade e com os movimentos presindicais unitários. Mas a partir do
reconhecimento de toda as expressões sindicais na primavera de 1977, e a
aprovação da Constituição em 6 de dezembro de 1978, em Espanha, vamos assistir
a uma autêntica febre do nascimento de organizações sindicais de todas as
correntes políticas, aspirações e expressões ideológicas12.
O velho SEM de franquismo desmorona-se no seu formalismo organizacional quando
se esgota o projeto político da ditadura na década de setenta, desaparece, mas
consegue adotar uma fácil continuidade, na democracia dentro do sindicato da
ANPE (Associação Nacional de Professores do Estado). Este novo sindicato de
professores, que nasceu em junho de 1976, composto principalmente de
professores primários, incorpora muitos dos membros do SEM e outras novas áreas
de professores de orientação conservadora, convertendo-se inicialmente (1978)
numa das principais forças sindicais entre os professores primários. Em março
de 1977, é publicado o número 0 da sua revista "ANPE". Este
sindicato representava uma forma muito específica de manter a continuidade do
projecto de enquadramento do regime franquista para o ensino, embora o
pretendam fazer agora em pleno regime democrático, e ao serviço das políticas
continuistas e conservadoras em matéria escolar, dos professores e da educação
em geral. Lorenzo Navarro foi o seu primeiro presidente.
De acordo com os estudos de Guerrero Serón (1990, pp.29-52), o SEM divide-se
durante a transição para a democracia em dois sindicatos diferentes: ANPE e
FESPE (Federação Estatal dos Sindicatos Professores Estatais). A segunda
mostra-se mais próxima no campo ideológico da União do Centro Democrático (UCD)
de Adolfo Suárez, que desempenhará uma função política decisiva na normalização
democrática espanhola e na aprovação da Constituição de 1978. Mais tarde a
FESPE acaba e os seus membros juntam-se e redistribuem-se no CSIF (Central
Sindical Independente de Funcionários), FETE e USO.
O CSIF nasce em 29 de dezembro de 1977, e do mesmo surge a secção de ensino, do
pessoal docente, com a declaração explícita de sindicato profissional,
despolitizado e ao serviço dos docentes. Não tarda em transformar-se como um
grande sindicato das direitas para um sector como o docente muito ancorado
nessa direcção ideológica. Depois de alguns anos, e já realizadas várias
eleições sindicais do sector, converteu-se num dos mais representativos e
maioritário sindicato do sector da educação no campo dos funcionários.
Portanto, não há um colapso fulminante no sindicalismo vertical docente do
franquismo, à maneira das trombetas bíblicas de Jericó em suas muralhas, uma
vez que o associativismo sindical anterior se retransforme de imediato através
de estruturas sindicais democráticas de continuidade, e frequentemente
resistentes (na verdade, muitas vezes erguendo-se em autênticas barreiras anti-
sindicais) aos pedidos de melhoria de trabalhadores do ensino, e às lutas
sindicais dos professores de esquerda. Estes sindicatos de professores de
orientação conservadora, beberam e alimentaram-se diretamente do legado do
sindicalismo vertical franquismo, anteriormente explicado, e irão emergir nos
braços sindicais protetores dos interesses dos partidos políticos de direita,
de forma vacilante nos aspectos organizacionais durante a sua fase constitutiva
nos anos de transição. Mas, passado algum tempo, vão-se transformar em
poderosos instrumentos, muito mais conexionados com as políticas educacionais e
sindicais do Partido Popular (PP).
O mais antigo dos sindicatos de professores espanhóis, a Federação Espanhola de
Trabalhadores da Educação (FETE), nascida em 1931 como uma continuação da
Associação Geral de Professores Primários (que tinha sido fundada em 1912, na
Casa do Povo de Madrid), funcionavam sempre sob a supervisão do Partido
Socialista Espanhol (PSOE), e sob a orientação da União Geral dos Trabalhadores
(UGT), a confederação socialista. Durante a Segunda República, a FETE-UGT
oferecia uma imagem de sindicato minoritário, mas do qual faziam parte vários
quadros influentes da administração escolar republicano socialista (inspetores
escolares, diretores de escolas, editoras educacionais, deputados, ministros).
Os efeitos devastadores da guerra, a repressão sob os professores socialistas e
o exílio de milhares de professores progressistas em 1939 conduziu ao
desaparecimento efectivo, ou a uma presença muito isolada da FETE-UGT em
Espanha, e num reduto insignificante de membros ativos no exterior.
Depois de décadas de ausência e esquecimento, é a partir de 1973, quando sentem
a presença de alguns membros deste sindicato de professores, ainda na
clandestinidade (mas já toleradas as suas atividades pela policia franquista),
e quase sempre com a presença no seu seio de membros das Juventudes
Socialistas, no processo de reorganização no início dos anos setenta. Em março
de 1976, o Sindicato Socialista FETE realiza o seu primeiro congresso em
Espanha, depois da morte de Franco. Será mais tarde, em 1988, quando a FETE se
desvincula do PSOE e funciona com mais autonomia, ainda que no imaginário
sindical permanece viva a sua tradicional ligação com os socialistas. Até 1983,
quando concluímos temporariamente o nosso estudo, a FETE é um dos sindicatos
docentes com menor representação e influência entre os professores primários
das escolas públicas, ainda que comece a atingir maior peso entre os
professores das escolas que beneficiam de auxílios e uma presença mais discreta
entre os professores do ensino secundário e universitário13.
O Sindicato das Comissões Operárias (CCOO) nasceu em 1962 no ambiente mineiro e
industrial, em plena clandestinidade e submetidos os seus militantes a uma dura
repressão, sob as orientações explícitas do Partido Comunista de Espanha (PCE),
o partido de oposição melhor organizado durante o ditadura e com uma importante
influência no movimento operário. Este sindicato contou durante anos com a
participação de líderes de movimentos de trabalhadores das comunidades cristãs
de base, inspirados no espírito conciliar do Vaticano II, alguns deles chamados
padres operários ou membros da HOAC (Irmandade Operária da Ação Católica) e a
JOC (Juventude Operária Cristólica). Marcelino Camacho, conhecido líder
sindical e membro da liderança do PCE foi eleito secretário-geral do CCOO até
1987.
Submetidos a severa perseguição, mas sustentados na disciplina, na formação
intelectual e no compromisso, os membros deste sindicato vão tornar-se na maior
preocupação dos governantes franquistas, pois eram os sindicalistas
considerados mais preparados e combativos, e certamente melhor organizados,
pela experiência adquirida no modelo de organização comunista na clandestina, e
pela sua lealdade para com o discurso ideológico comunista e operário. Desde
meados dos anos sessenta o sindicato CCOO encontra seguidores nos muitos
setores da indústria, serviços e administração.
A Federação do Ensino da CCOO foi formalmente criada em Janeiro de 1978, embora
os seus militantes estivessem operando há anos, em segredo, com a legalização
do PCE e do seu o CCOO, produzida em abril de 1977. Vinha durante a ditadura
praticando o que tem sido chamado de "entrismo", ou seja, a
política de aproveitar as estruturas sindicais, políticas e de participação
oficial do regime de Franco para a partir encetar mudanças, defender novas
soluções e14 exercer influência sobre os professores (Jiménez Jaén, M., 2000).
A União Sindical Operária (USO), nasce no início dos anos sessenta, 1961, em
plena clandestinidade, composto por uma militância progressista de origem
heterogénea (socialista, cristãos de base), e com propostas de auto-gestão nas
empresas e na administração. Não alcança uma forte presença no sector da
educação ao longo dos anos setenta, mas as suas propostas são geralmente
respeitadas, pela qualidade dos seus quadros. Com propriedade de falar-se do
OSU como um sindicato com pouca presença entre os professores de escolas
públicas e muito mais entre as escolas particulares e concertadas, uma vez que
em diversos momentos os seus membros do sector do ensino integraram a CCOO e a
FETE.
O Sindicato dos Trabalhadores da Educação (STEs) é uma confederação que nasce
do movimento associativo dos professores progressistas, principalmente
professores do ensino primário, durante a transição política espanhola. A 25 de
junho de 1977 reunem-se os representantes de diferentes assembleias provinciais
para a criação dos Sindicatos dos Trabalhadores do Ensino, que formarão a União
da Confederação de Sindicatos de Educação (UCSTE). O seu lema de referência
"para a escola pública: a unidade dos trabalhadores da educação", e
realizou a sua primeira grande conferência em 1979. É um sindicato que figura
como membro fundador da Internacional da Educação (IE) e do Comité Sindical
Europeu da Educação (CSEE). Pelos anos setenta o STE é o sindicato com a maior
implantação entre os professores primários e, em menor grau entre os
professores secundários e universitários, tal como se infere a partir dos
sistemas de representação indireta. Manteve a sua identidade associativa,
crítica, progressista, pluralista, unitária, independente de partidos,
confederativa, e com uma implementação sólida nas diferentes regiões da
Espanha. Após as eleições de 1987 da União a sua presença sindical reequilibra-
se em vários sectores do ensino, perdendo peso entre professores primários e
ganhando entre os professores do ensino médio e universitário. Em 1981, surgem
duas tendências dentro de STEs, uma do tipo de rutura e mais radical, e outra
mais propícia à negociação, e próxima das propostas do CCOO e da FETE,
produzindo uma divisão, que mais tarde se unem e se reorganizam internamente.
A história da CNT (Confederação Nacional do Trabalho), nascido em 1911, de
clara orientação anarquista, reconhecida no primeiro terço do século XX em
Espanha como o grande sindicato de todos os ramos de produção e administração,
incluindo a educação, constituindo no período republicano e da guerra, o
Sindicato Único do Ensino, que fica ligado organicamente à sua origem
anarquista. A CNT foi brutalmente abalada no final da guerra civil, os seus
bens e edifícios foram apropriados, e milhares de seus militantes reprimidos ou
exilados na França e na América. A partir dos redutos históricos a CNT
reconstitui-se em 1976, mas sofreu divisões internas complicadas, levando
novamente a que seja refundada em 1984 com o nome de CGT (Confederação Geral do
Trabalho), sendo na sua estrutura organizacionativa uma federação de sindicatos
autónomos. O sector da educação da CGT defende um sindicalismo autogestionario
e radical entre os professores, raramente chamado para a negociação e para a
elaboração de acordos, o que faz dele um sindicato minoritário entre os
professores. No período de transição política, em particular, vive perdido num
processo complicado de rupturas, divisões, debates ideológicos intermináveis,
que o impede de apresentar propostas sindicais aos professores para serem
assumidas. Por exemplo, recusaram-se a participar como parceiros no grande
acordo que representaram os Pactos da Moncloa (1977) para a estabilidade da
Espanha, e os sucessos obtidos para a melhoria da educação em todos os níveis e
sectores de ensino.
Nos primeiros anos de liberdade, durante a transição política, no período de
1977-1978, o mapa sindical dos sectores de esquerda estava muito fragmentado,
como resultado da concepção vicária que os partidos políticos mantinham sobre
os sindicatos, pela limitada experiência de negociação sindical de muitos dos
seus líderes, e pelo jovem e explosivo aparecimento de inúmeras iniciativas e
aspirações que estiveram em germinação durante a longa e castradora
clandestinidade que tinha sido imposta pela ditadura de Franco.
Exceptuando o caso muito significativo do UCSTE, que sempre defendeu uma
posição unificada e associativa nas suas decisões e propostas, naquela altura
dependente da FETE-UGT e orientado pelos socialistas do PSOE. Assim o era então
o CCOO em relação aos comunistas do PCE, ainda que mais tarde de torne num
grande sindicato aglutinador das diferentes tendências de esquerda, mais
aberto, mas sem grande implantação entre os professores, se bem que na
universidade tenha encontrado mais eco naquela altura. Da mesma forma, a seção
de ensino da Confederação Sindical Unitária dos Trabalhadores (CSUT), que
nasceu em julho de 1976, como resultado da cisão da CCOO, estava ligada ao
Parti-do dos Trabalhadores (PT) de orientação comunista (logo após a vitória
eleitoral dos socialistas em outubro 1982, este partido político e a sua
expressão sindical irá desaparecer passando os seus membros a integrar
diferentes formações políticas e sindicais de esquerda. E algo semelhante
podemos dizer da seção de ensino do chamado Sindicato Unitário (SU), também
nascido em julho de 1976 como divisão da CCOO, que dependia da Organização
Revolucionária dos Trabalhadores (ORT), formada por vários elementos de origem
socialista, comunista e muitos cristãos de base, que também desaparece no
início dos anos oitenta, quando o espaço político da esquerda começa a ser
maioritariamente ocupado pelo PSOE, embora não desta forma no aspeto sindical.
Os militantes sindicais destas duas últimas organizações vão-se integrar na
UCSTE de preferência, e alguns na CCOO e na FETE.
Um bom indicador do peso que alcançam os diferentes sindicatos dos professores
em Espanha, já em plena liberdade, fica reflectido no número de porta vozes que
tinham sido eleitos nas assembleias provinciais na greve geral do ensino que se
realizou contra o Ministério da Educação entre Abril e Maio de 1978. Então a
UCSTE tinha atingido 65% dos porta vozes provinciais; a CCOO, 13%; a FETE, 6%;
a FESPE, 3%, e os não filiados 13%.
A realização das primeiras eleições sindicais após a democracia atrasa-se até
dezembro de 1987, devido à lentidão do assentamento da democracia, da falta de
acção dos partidos políticos e do conflito de interesses patrimoniais que
reclamavam os sindicatos operários sobre bens apreendidos durante e no final da
guerra em 1939. O estudo do sindicalismo docente em Espanha depois de 1983 deve
ser objecto de outro trabalho que agora finalizamos, pela complexidade e pela
diferença do contexto em que se desenvolvem os processos políticos e sociais a
partir de então até ao presente.
Conclusão
Durante a transição coexistem em Espanha várias culturas pedagógicas do
associativismo docente, que muitas vezes se entrelaçam e se sobrepõem: a pro-
fissional, a política e a sindical. Muitas vezes são integrados de forma
unitária no MRP, quando eles estão mais fortes, e como resultado da imaturidade
dos sindicatos, associações profissionais, e do subdesenvolvimento dos partidos
políticos e programas políticos de educação. À medida que se desmembram os MRP,
como resultado dos interesses partidários, da sectorização sindical e do
desenvolvimento das comunidades científicas, desaparece uma leitura unitária e
associativa das associações de todo o tipo de professores. Os MRP deixam de ser
interlocutores, pois o espaço de formação contínua de professores será ocupado
pelos Centros de Professores desde 1985.
Os anos setenta representa o surgimento do livre sindicalismo entre os
professores, ainda que pouco consistente e organizado, entrando, por vezes, em
confronto com outras estruturas de Associação de Professores e de participação
política progressista. Mas não devemos esquecer o modelo sindical oficial do
franquismo para todos os professores através da sua transformação em novos
sindicatos de acordo com os interesses conservadores.
Finalmente, no campo associativo e mais profissional, cabe reconhecer uma
autêntica explosão de iniciativas científicas e de formação para os
professores, em linha de conta com as petições de inovação originadas pela
reforma educativa de 1970, com a melhora científico e cultural do país, e com o
aumento das relações associativas entre os professores de outros países no
contexto europeu e mundial.
O texto deste artigo retoma uma parte da Conferência que pronunciei na
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa), em abril de 2012,
no âmbito do Colóquio Internacional "Sindicatos e construção da profissão
docente. Associativismo, Sindicalismo e Investigação".