Reformas educativas, Educação Superior e globalização em Brasil, Portugal e
Espanha
Ramalho, Betania, Beltrán, José, Carvalho, Maria Eulina & Diniz, Adriana
(org.) (2011). Reformas educativas, Educação Superior e globalização em Brasil,
Portugal e Espanha. Valencia: Editorial Germânia, S.L.
Anabela Mimoso & Lurdes Valentim
CeiEF - ULHT
A obra Reformas educativas, educação superior e globalização em Brasil,
Portugal e Espanhaé o resultado de dois projetos de investigação, de formação e
de cooperação sobre políticas educativas de âmbito internacional, envolvendo
Portugal, Espanha e Brasil.
Esses projetos de investigação desenvolveram-se entre 2007 e 2010 e abordam
temas como reformas educativas, inclusão social, impacto da globalização no
acesso ao ensino superior, etc. O desenvolvimento dos referidos projetos
permitiu a realização de cursos de doutoramento e de pós-doutoramento, assim
como intercâmbios académicos de docentes das universidades parceiras.
Os programas de cooperação interuniversitária são convergentes em alguns dos
seus objetivos e metas, colocando o enfoque numa maior equidade e coesão
social, no contexto da educação superior, reconhecendo-a como um bem público.
Esta conceção atende a critérios universalistas, baseados na igualdade de
oportunidades e numa educação para todos. A universidade é definida como uma
instituição cosmopolita que contribui para uma cultura comum, ao serviço de uma
cidadania plena.
O livro em análise está estruturado em três níveis de leitura: o primeiro
aborda as reformas de educação superior no âmbito da globalização; o segundo
coloca questões relativas ao perfil dos estudantes da educação superior e do
modo como vivenciam a universidade; o terceiro centra-se numa perspectiva
histórica e conceptual da educação.
O primeiro artigo da primeira parte é da autoria das professoras Edineide
Jezine e Maria da Trindade, da Universidade Federal de Paraíba (UFPB) e
intitula-se Democratização do Acesso à Educação Superior no Brasil. O artigo
aborda as políticas de acesso à universidade, a expansão da universidade e os
processos de privatização como marco das reformas de educação superior no
Brasil.
José Beltrán Llavador, da Universidade de Valência, assina o artigo seguinte:
Los Efectos de la Educación Superior en España: Dilemas y Tendencias. Perante a
subserviência da educação à lógica mercantil, o autor defende que a educação
deve, ao contrário, "fortalecer la vinculación social en pos de
sociedades más justas y más democráticas" (p. 82).
Betania Leite Ramalho, Isauro Beltrán Nuñez, Claudia Pereira de Lima, Aliete
Cavalcante Bormann da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, subscrevem o
artigo: Universidade Pública como bem Público: Avanços e Contradições na
Política de Acesso e Inclusão Social (PAIS) na Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Os autores salientam um novo conceito de universidade pública,
verdadeiramente modelar, praticado nessa universidade e fundamentado na
igualdade de oportunidades e na formação para a cidadania, proporcionado pelo
programa PAIS.
Carla Galego, Fátima Marques e António Teodoro, da Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologia, assinam o artigo: Reforma do Ensino Superior e a
Implementação do Processo de Bolonha em Portugal. Mudanças e Encruzilhadas.Os
autores, depois de analisarem a trajectória da implementação do Processo de
Bolonha no nosso país, levantam questões sobre o futuro da nossa Universidade
face à competitividade, à ditadura dos rankings. Mas lembram também que Bolonha
veio proporcionar reformas estruturais no E.S. e que cabe agora às
universidades continuar esse processo tendo em vista um melhor ensino.
Afonso Celso Scocuglia, da Universidade Federal de Paraíba, em A Construção de
uma Pedagogia Contra-hegemónica a partir da Educação de Jovens e
Adultos,analisa alguns dos impactos da globalização hegemónica na educação
contemporânea brasileira e conclui, socorrendo-se de Freire, que a educação dos
jovens e adultos, face ao neoliberalismo, só será fator de mudança social se
tiver como base a construção de uma nova identidade educativa e docente, guiada
pela ética e pela justiça social.
O professor Julio Hurtado, da Universidade de Valencia (Reformas Educativas y
Profesionalización Docente: el Plan Bolonia) encerra a primeira parte,
mostrando os aspectos mais relevantes que Bolonha trouxe ao sistema educativo
espanhol no que diz respeito à formação de professores.
O primeiro artigo da segunda parte é de Alícia Villar Aguilés da Universidade
de Valência, Formas Emergentes de Incorporación y de Vinculación del
Estudiantado en el Sistema Universitario. A autora analisa nele uma nova forma
de vinculação dos estudantes à universidade, a que ela chama ubiquação.
Adriana Valéria Santos Diniz, da Universidade Federal de Rio Grande do Norte,
num artigo intitulado Transición o Transiciones? Una Aproximación conceptual a
partir del Contexto de Educación Superior, conclui que a maioria dos alunos não
tem uma progressão linear na transição escolar, mas experimentam vários tipos
de transições que têm em conta não só a vontade individual, mas também as
oportunidades reais que surgem ao estudante.
Emília Maria da Trindade Prestes, da Universidade Federal da Paraíba, e Diet-
mar K. Pfeiffer da Universidade de Munique, em Os Adultos e o Ensino Superior.
O Caso da Universidade Federal da Paraíba, Brasil, analisam a problemática que
a abertura do E.S. aos alunos adultos levanta.
Maria Eulina Pessoa de Carvalho e Glória Rabay da Universidade Federal da
Paraíba, no artigo Gênero e Carreiras Universitárias em 50 Anos na Universidade
Federal da Paraíba, examinam o caso de uma universidade brasileira, comparando
os dados da distribuição dos estudantes por sexo e curso de 1961 a 2011.
Concluíram as autoras que o feminismo tem pouca expressão nas instituições
académicas brasileiras, devido à falta de uma política adequada.
O primeiro artigo da terceira parte é da autoria de Maria Neves Gonçalves e de
José Viegas Brás da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Inti-
tula-se Fenomenologia das Representações: a Universidade de Coimbra nos alvores
do Século XX.Aí se analisa, à luz da fenomenologia, as várias representações
que, nos inícios do século XX, se configuravam sobre a Universidade.
Finalmente, Francesc J. Hernàndez i Dobon da Universidade de Valência, em Verba
Educationis Manent: un Glosario, tece uma profunda análise sobre a evolução dos
conceitos relacionados com a educação.
A riqueza e originalidade destra obra reside sobretudo na pluralidade de
abordagens que proporciona ao leitor/investigador sobre diversas realidades
políticas, organizacionais e administrativas da educação superior, a partir de
um olhar sociológico plural sobre a universidade enquanto organização educativa
complexa e multifacetada. É, sem dúvida, um trabalho de referência, cuja
leitura se re-vela intelectualmente estimulante, pela plêiade de investigadores
(portugueses, brasileiros e espanhóis) que, compulsando quadros teóricos,
epistemológicos e conceptuais diversos, analisam, discutem e interrogam-se
sobre a importância das instituições de educação superior num tempo de
incerteza crescente, num cenário de transformações constantes e num contexto
crise (de valores, da escola,…). A reflexão acerca da dimensão social da
universidade e do impacto que a globalização exerce sobre ela suscita, pois, a
necessidade de redefinir o(s) seu(s) significado(s) e o(s) seu(s) papel(eis).
É uma obra essencial para os cientistas sociais que queiram (re)interrogar a
importância da universidade num mundo globalizado, e reequacionar o seu papel
para a emancipação e coesão social. Terminemos com a voz dos organizadores: La
universidad es un actor relevante para construir y anticipar escenarios
alternativos, encaminados a logar una mayor equidad y cohesión social. Sin
embargo, para que la universidad sea realmente transformadora, tiene que estar
dispuesta a transformarse a sí misma, tiene que ser ella misma una institución
abierta a la formación y al aprendizaje, una institución que aprenda desde el
compromiso y para el compromiso social (p.11).
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