Formação e supervisão: o que move os professores?
1. Introdução
Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram
inventadas.
Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram
inventadas.
Almada Negreiros (1921)
A supervisão é uma palavra em constante reinvenção. Neste estudo, partimos da
premissa de que as questões da supervisão, à semelhança das demais questões do
mundo da educação, não têm respostas claras, unívocas ou lineares. O discurso
crítico supervisivo sobre a praxis docente constitui uma linguagem reflexiva
multi-significativa e multi-funcional, que se reinventa em continuum, em
amálgama de interpretações (Pawlas & Oliva, 2007)
A supervisão que, no final do século XX, em Portugal, se reduzia à formação
inicial, no século XXI passou a designar conjuntamente a supervisão pedagógica
em formação inicial e em formação contínua, cruzando-se com a avaliação de
desempenho (Formosinho, Machado & Oliveira-Formosinho, 2010). Essa
reinvenção semântica, espelhando novas funções e práticas, acarretou mudanças a
nível profissional e organizacional, pois o conceito de supervisão,
relativamente desconhecido (Alarcão & Tavares, 1987) 1, tornou-se, na
viragem do século, omnipresente no discurso de todos os agentes educativos, com
diversas significações. Assistimos então ao fenómeno anunciado por Negreiros
(1921). Nós, professores, somos do século de reinventar outra vez a palavra
supervisão, tornando-a representação e inferência, função e símbolo de super-
Visão e de desenvolvimento profissional (Vieira, Moreira, Barbosa, Paiva &
Fernandes, 2006). Ora todos os signos linguísticos constituem formas de
interpretação e de explicação, pois a língua domina a experiência individual e
colectiva. Em consequência, essa reinvenção da supervisão provocou reacções nos
professores, de desconfiança, resistência, curiosidade, empenho. Numa mesma
comunidade educativa, coexistem hoje posições convergentes e divergentes, em
entendimento múltiplo da supervisão (Alarcão & Roldão, 2008). Neste
trabalho, será utilizada a definição poliédrica de Pawlas & Oliva (2007) 2,
de uma supervisão reflexiva, colaborativa e democrática, reguladora das
práticas, que situa o professor no contexto da Escola enquanto organização
aprendente. É neste contexto supervisivo que emerge um dado recente. Nos
últimos anos, ultrapassando as limitações da formação contínua oferecida até
então, assistiu-se a um crescimento exponencial de professores inscritos no
Ensino Superior, em 2º e 3º Ciclo de estudos. Interessa, portanto, saber quem
são e o que motiva esses professores que cumprem, a expensas próprias, um plano
individual que passaremos a designar como formação contínua e continuada.
Entenderemos doravante este tipo de formação como o conjunto de acções de
formação desenvolvidas pelos professores, seguindo um plano individual de
formação e de investigação-acção ao longo da vida, com períodos activos de
curta e de longa duração, que se inscreve num movimento mais vasto de resposta
a necessidades de formação, originadas e sustentadas em contextos supervisivos
educativos.
Em Portugal, na última década, proliferaram artigos, dissertações e teses sobre
supervisão pedagógica em formação inicial. Ultimamente, mercê do debate público
em torno da avaliação de desempenho docente, surgiram algumas publicações sobre
a relação entre formação, supervisão e avaliação (Formosinho et al., 2010) e
sobre a formação e desenvolvimento profissional de professores em contextos
colaborativos (Simão, Flores, Morgado, Forte & Almeida, 2009). Em oposição,
verifica-se a inexistência de investigação publicada sobre supervisão numa
perspectiva de formação contínua e continuada, e em especial sobre a motivação
de docentes, com larga experiência profissional, que iniciam uma formação
especializada, após um hiato de tempo considerável. O nosso estudo encaixa-se
exactamente nessa lacuna, constituindo uma pequena contribuição para uma
supervisão formativa e formadora, reinventada no quotidiano das práticas e
potenciadora do desenvolvimento profissional docente ( Huberman, 2007).
2. Supervisão pedagógica: da formação contínua à formação continuada
2.1. Novas tendências supervisivas em Portugal
Na educação portuguesa do século XXI assiste-se hoje a novas tendências da
formação e do exercício da profissão docente. Vários autores (Alarcão, 2009;
Nóvoa, 1991; Schön, 1992; Teodoro, 2006; Zeichner, 1995) têm atribuído grande
relevância à experiência pessoal e profissional dos docentes, tentando
ultrapassar uma visão da formação apenas direccionada para o sistema ou para a
formação inicial. As dimensões básicas consideradas são a pessoal, a
profissional e a organizacional, que Nóvoa (1991) denomina como trilogia da
formação continua - produzir a vida, a profissão e a escola, afirmando a
formação contínua como prioridade nas políticas públicas (Teodoro, 2006) 3. O
reconhecimento da importância da formação contínua, com cursos de curta duração
propostos, efectivados e creditados pelos Centros de Formação é hoje prática
usual. Contudo, actualmente essa formação coexiste com a frequência, pelos
professores, de segundo e terceiro ciclos de estudos nas Universidades, mercê
de uma nova dinâmica impulsionada pela implementação do processo de Bolonha.
Nesta perspectiva, a supervisão escolar moderna passou a ser entendida não
apenas como supervisão pedagógica inicial, mas, num sentido mais abrangente,
como supervisão das práticas, no âmbito da formação contínua e continuada
(Alarcão, 2009; Alarcão & Tavares, 2003; 1997; Glickman, Gordon & Ross-
Gordon, 2008; Pawlas & Oliva, 2007), no seio de uma comunidade educativa
aprendente (Nóvoa, 1992; Senge, McCabe, Lucas, Smith, Dutton & Kleiner,
2000). Esta macro-dimensão supervisiva emergiu em Portugal recentemente, em
toda a sua complexidade, mercê da avaliação de desempenho docente. A
supervisão, de essência formativa, indagadora e transformadora, foi por muitos
professores e supervisores reduzida unicamente a avaliação de desempenho,
potenciando situações de desmotivação e de recusa. Repetindo situações
similares ocorridas em outros países (Nolan & Hoover, 2004 ; Sullivan &
Glanz, 2004), a intersecção entre supervisão e avaliação concorreu para um
clima de insegurança profissional, o que levou alguns professores a procurarem
um almejado esclarecimento. A formação constituiu a aposta de muitos docentes,
que retomaram hábitos esquecidos de indagação crítica, de pesquisa e de escrita
científica, regressando às Universidades e aos Institutos Superiores de
Educação, após anos de conclusão das respectivas licenciaturas e estágios
profissionais. Aproveitando o impulso pós-Bolonha, na obtenção de
especialização, mestrado e doutoramento, muitos professores assumem hoje um
papel de investigadores, conduzindo projectos sobre as práticas (Formosinho et
al., 2010).
Um dos Cursos que mais se tem afirmado nesta vaga de formação especializada é o
Curso de Mestrado em Supervisão, que surge em diversas instituições portuguesas
de Ensino Superior com a designação de Supervisão Pedagógica, Supervisão e
Avaliação, Formação de Supervisores, e outras formulações em intersecção, em
variedade semântica. Os formandos são professores com anos, às vezes décadas de
docência, sedimentados na experiência, na acção de todos os dias no terreno
educativo, à procura de inputs teóricos e de metodologias investigativas que
lhes possibilitem a reflexão sobre, na e depois da acção. Estes professores-
investigadores vivenciam uma supervisão diária, na primeira pessoa, formada na
experiência (Alarcão, 2009), procurando dar sentido ao vivido e ao conhecido
para melhor agir.
2.2. Supervisão, um conceito multifacetado
Actualmente a supervisão revela-se uma amálgama de práticas e de atitudes,
implicando uma diversidade de percepções. Na supervisão cruzam-se inúmeros
factores, incluindo a diversidade de concepções de supervisão e de ensino
eficaz. Essa diversidade resulta não apenas da complexidade organizacional da
supervisão, mas igualmente da falta de informação e da indefinição da
perspectiva supervisiva. Neste sentido, a escola deverá ser entendida como um
todo organizacional, sendo esse o ponto de partida para analisar a supervisão
como uma macro-função (Pawlas & Oliva, 2007).
A função poliédrica da supervisão leva simultaneamente ao uso de grafismos como
super-vision (Stones, 1984, p. vii), super Vision (Waite, 1995, p. 87) e
SuperVision (Glickman, Gordon & Ross-Gordon, 2004, p. 8), sublinhando a
complementaridade conotativa de sentidos da visão, e ao emprego de metáforas de
desvendamento semântico como "caleidoscópio da supervisão" (Vieira et
al., 2006, p. 7), que cristalizam a complementaridade conotativa de sentidos,
pela transformação pessoal e social, inscrita nos valores da democracia. Face a
esta pluralidade, no estudo partiremos do modelo conceptual de supervisão
proposto por Pawlas e Oliva (2007, pp. 21-22), com três domínios: instructional
development - desenvolvimento instrucional; curriculum development -
desenvolvimento do currículo; staff development - desenvolvimento
profissional. Trata-se de uma caracterização formadora de supervisão, capaz de
potenciar as experiências educativas e a aprendizagem de alunos, professores e
de escola enquanto comunidade educativa aprendente, colaborativa e democrática.
Nesta acepção, a supervisão funcionaria como teoria e prática de auto e hetero-
regulação em meio escolar, através da reflexão dos princípios nas práticas,
incentivando o desenvolvimento profissional. A supervisão surge então, num
quarto domínio abrangente, como um processo complexo e situado, numa escola
entendida como um todo organizacional ecológico, na assunção do envolvimento de
uma comunidade educativa, reflexiva e aprendente (Alarcão & Roldão, 2008;
Oliveira-Formosinho, 2002; Senge et al., 2000).
A mudança de paradigma supervisivo, de uma supervisão durante largos anos
apenas circunscrita à formação inicial, com formandos a cumprirem o estágio
pedagógico, para uma supervisão alargada ao quotidiano dos professores e à
avaliação docente, tem levado um grupo crescente de professores-investigadores
a procurarem mais formação, mais reflexão teórico-prática, iniciando novo ciclo
de estudos. Por isso, interessa analisar as percepções destes professores face
à supervisão e ao seu desenvolvimento profissional.
2.3. Identidade e Desenvolvimento profissional
Enquanto elementos interligados e mutuamente propiciadores, a formação
profissional surge acoplada à identidade profissional, à sua busca,
desenvolvimento e evolução/alteração. Na verdade, a segunda alimenta-se da
primeira que, por sua vez, e reciprocamente, se revela como um procedimento
desencadeador essencial daquela (Dubar, 2003).
Deste modo, as constantes alterações das competências atribuídas aos docentes e
ao procedimento docencial, este último cada vez mais mutável e transversal a
todo o sistema de ensino, com o leque de competências atribuídas aos agentes
sociais nele envolvidos a aumentar, justificam a premência do investimento
pessoal na formação profissional contínua e continuada. Trata-se de uma
tentativa de acompanhar o manancial evolutivo que perpassa o sistema de ensino
- agrupamentos, escolas, turmas, alunos, professores - de modo a
que os professores possam corresponder, de forma eficaz e satisfatória, quer a
nível profissional, quer a nível pessoal (Formosinho et al., 2010; Leite &
Fernandes, 2003).
A constância e a abrangência de tais mudanças determinam, inelutavelmente, a
necessidade objectiva de formação profissional dos professores, que se vêem na
contingência de acompanhar, evoluir, instruir e de se actualizar
profissionalmente, determinando a sua identidade profissional e a sua
capacidade lectiva perante os seus pares. A exigência da actualização formativa
torna-se cada vez maior, implicando, consequentemente, um esforço acrescido no
exercício da profissão, operando uma mudança do "ser", na forma e no
conteúdo da profissão (Barroso & Canário, 1999). Destarte tais paradigmas,
a formaçã continuada consegue levar a efeito o desenvolvimento profissional e a
assimilação de novas competências, que até então eram estranhas ou mesmo de
todo alheias à profissão.
O desenvolvimento acentua-se nos professores entre os 7 e os 25 anos de
carreira, a fase da diversificação, e os 25 e os 35 anos, a fase da serenidade,
de acordo com o ciclo de vida de Huberman (2007) 4. Na fase da diversificação
os professores encontram-se num momento em que se sentem mais à-vontade para
experimentar e diversificar os seus métodos, o material que utilizam com
diversos alunos, as formas de avaliar, a ordem temporal e sequencial dos
programas. Nesta fase, consegue-se gerar um certo bem-estar na relação
pedagógica, superadas que foram as dúvidas e incertezas das fases anteriores do
ciclo de vida criado por Huberman (2007). Segundo Cavaco (1995) e Teodoro
(2006)5 são estes os professores mais motivados, dinâmicos e empenhados quer na
formação quer nas equipas pedagógicas da comunidade educativa em que se
inserem. Por sua vez, na fase da serenidade, entre os 25 e os 35 anos de tempo
de serviço, os professores sentem uma maior serenidade na necessidade de
contemplação afectiva da sua profissão, enquanto geradora de novo impulso
formativo.
Representa-se, assim, um processo de mudança, que visa influir e influenciar o
beneficiário da formação profissional, com vista à abordagem de novos pontos de
vista, novos métodos e metodologias, novas abordagens e perspectivas, novas
competências, novas formas de consciencialização e de superação dos problemas,
em suma, de novas formas de "estar" e de "ser" na
profissão, numa completa inversão epistemológica (Formosinho et al., 2010;
Rodrigues& Esteves, 1993).
3. Metodologia
Adoptando a perspectiva de uma supervisão multifacetada, alicerçada numa
formação contínua e continuada, enquanto processo de mudança da
profissionalidade docente, a finalidade deste estudo é determinar as
características dos professores que frequentam Cursos de Mestrado em
Supervisão. Interessa traçar o perfil desses professores, averiguar as suas
percepções da supervisão, e verificar o que os motiva a investirem na formação
e no desenvolvimento profissional, iniciando um segundo ciclo de estudos.
Trata-se de um estudo de caso, realizado em 2010, tendo por público-alvo um
grupo de 20 mestrandos de uma Universidade portuguesa, a frequentar o 1º ano do
Curso de Mestrado em Educação - Supervisão Pedagógica. Em contexto de
seminário, foi aplicada uma metodologia mista, qualitativa e quantitativa,
sustentada em dois instrumentos de recolha de dados: um texto reflexivo
inicial, escrito por 15 mestrandos, a propósito do conceito de supervisão, e um
inquérito por questionário, com pré-teste realizado em Fevereiro e aplicado em
Março de 2010 a um total de 19 mestrandos.
O inquérito por questionário, sobre supervisão e desenvolvimento profissional,
resultou da adaptação de um inquérito concretizado em 1975, nos EUA, pelo
Working Group on Supervisory Practices, e reformulado em 2007, com retoma e
alargamento das questões fundamentais em supervisão, issues in supervision
(Pawlas & Oliva, 2007, p. 35).
No inquérito por questionário predominam questões de resposta fechada e
específica, utilizando a escala de Likert. Interessava (1) traçar um perfil
identificativo dos professores, considerando idade, tempo de serviço, sexo,
situação profissional, ano(s) de escolaridade e disciplinas que leccionam
(questões 1 a 6); (2) verificar se desempenham cargos na escola e, em caso
afirmativo, quais (questão 7); (3) identificar quais os sentimentos que
caracterizam o estado de espírito dos professores, no desempenho da função
docente (questão 8); (4) verificar quais as funções que os professores associam
à supervisão (questão 9); (5) descobrir os motivos que levam os docentes a
inscreverem-se no Curso de Mestrado em Educação - Supervisão Pedagógica
(questão 10); (6) indagar quais as percepções dos professores sobre a
contribuição do Curso de Mestrado para o seu desenvolvimento profissional, em
questão aberta final (questão 11). Seguidamente, apresenta-se a análise e
discussão dos resultados.
3.1. Discussão dos resultados
No início do Seminário "Investigação em Supervisão", os mestrandos
foram encorajados a construírem um texto reflexivo que apresentasse a sua
concepção reflexiva de supervisão. De um total de 20 professores que
frequentaram e/ou assistiram às sessões de seminário, em Março de 2010, 15
escreveram e entregaram os seus textos. A análise do discurso escrito foi de
carácter semântico, com selecção de categorias a priori definidas por Nolan e
Hoover (2004) e Pawlas e Oliva (2007), no que se refere aos domínios da
supervisão. Os objectos da reflexão foram definidos a posteriori, de acordo com
o corpus em análise. Para a síntese quantitativa dos resultados calculou-se as
percentagens relativas ao número de ocorrências relativo a cada indicador, como
consta da Tabela 1.
Tabela 1 - Análise dos textos reflexivos dos mestrandos
Em primeiro lugar, constata-se uma interligação entre supervisão, formação e
identidade. A totalidade dos respondentes centra-se na interligação entre
formação e supervisão (100%), porém o conceito de identidade (37%) é utilizado
apenas por uma minoria. Em segundo lugar, no que se refere aos domínios da
supervisão, os mestrandos partem de uma acepção mais tradicional, de supervisão
em sala de aula, de desenvolvimento instrucional (100%), ainda muito ligada à
supervisão pedagógica inicial e com preocupações actuais de supervisão de
avaliação de desempenho. Aliás, é recorrente, nos textos dos mestrandos, alguma
sobreposição entre supervisão e avaliação docente, um problema levantado por
Glickman et al. (2008) e Pawlas e Oliva (2007). Um domínio consensual é a
supervisão enquanto motor de desenvolvimento profissional (100%). A maioria dos
mestrandos (68%) situa a supervisão não apenas num contexto micro de sala de
aula, mas num contexto macro de comunidade educativa aprendente, numa
perspectiva ecológica de desenvolvimento profissional múltiplo.
Em cruzamento de dados, interessou-nos seguidamente as respostas ao inquérito
por questionário, ao qual responderam 19 mestrandos, de um total de 20.
Na primeira parte pretendia-se obter um perfil dos professores a frequentarem o
1º ano do Curso de Mestrado em Educação, especialização em Supervisão. Num
universo de 19 professores, de género predominante feminino, a maioria (67%)
tem entre 41 e 50 anos, seguindo-se os professores com mais de 50 anos (17%).
Em concordância, impera o tempo de serviço entre 7-25 anos (61%), situando-se,
em segundo lugar, entre 26-35 anos (17%). Conclui-se que a maioria dos
mestrandos retomou o Ensino Superior após um interregno temporal considerável.
Quanto à situação profissional, a maioria dos 19 respondentes faz parte do
quadro de nomeação definitiva de Escola e de Agrupamento (82%), o que configura
uma situação profissional estável, de continuidade num mesmo contexto de
escola.
Em oposição, verifica-se uma polarização em relação aos anos de escolaridade e
disciplinas que os professores leccionam, desde o 1ºciclo ao Ensino Secundário,
passando pelos Cursos profissionais, predominando o 3º Ciclo do Ensino Básico
(37%). Alguns professores (15%) não cumprem funções lectivas, por exercerem em
exclusividade cargos de gestão na escola. Há igualmente polarização nas
disciplinas leccionadas, desde as Línguas às Ciências e à Informática, com a
particularidade da leccionação de disciplinas dos CEFs como "Aplicações de
Escritório" e "Electrónica e Técnicas Multimédia".
No que se refere a funções de coordenação e direcção, 36% dos respondentes
afirmam não desempenharem cargos na escola. Dos restantes, alguns desempenham
mais do que uma função, predominando o exercício de funções de Director de
Turma (14%). Contudo, no geral, prevalece o conjunto de Órgãos de Gestão
Intermédia/Pedagógica, com mestrandos a desempenharem funções de Coordenador de
Conselho de Docentes (9%), Coordenador de Núcleo (5%), Director de Curso (5%),
Director Pedagógico PTE (5%), Coordenador da Implementação do NPP (5%),
Delegado de Grupo (5%), Coordenador de Cursos Profissionais (5%) e
representante do Grupo Disciplinar (5%). Verifica-se, ainda, o cumprimento de
cargos de Gestão/Direcção da Escola, "Coordenador de Estabelecimento"
(5%) e "Adjunto da Direcção" (5%). Pode-se concluir que, entre os 19
respondentes, há professores com cargos supervisivos, de responsabilidade e
decisão, no domínio pedagógico e administrativo, em diferentes níveis e órgãos.
Em relação aos sentimentos que melhor caracterizam o estado de espírito dos
respondentes, no desempenho da função docente, são três os sentimentos
positivos preponderantes: "convencido da utilidade do trabalho", com
30%, "motivado", com 24% e "satisfeito", com 22%, como se
comprova pelo Gráfico 1.
Gráfico_1
: Sentimentos que caracterizam o estado de espírito dos docentes, no desempenho
da função docente
Os professores que integram o Curso de Mestrado sobre Supervisão revelam-se
profissionais motivados, demonstrando auto-estima e satisfação profissional no
exercício da sua actividade. É de realçar, em triangulação de dados, que a
constatação, já referida, de muitos mestrandos não se limitarem a funções de
docência, mas exercerem igualmente cargos de responsabilidade pedagógica e
administrativa na escola, poderá explicar uma concepção macro de supervisão, de
escola entendida como organização aprendente. O cruzamento de dados permite-nos
ainda afirmar a importância da satisfação e da motivação na construção da
identidade docente, enquanto motores do desenvolvimento profissional.
No que se refere às funções, constantes do Gráfico 2, que na percepção dos
respondentes melhor caracterizam a supervisão nas escolas de hoje, surgem, por
ordem decrescente, "crescimento profissional" (31%),
"colaboração reflexiva" (28%), "inovação das práticas"
(15%) e complexidade das actividades de ensino (9%). As respostas prefiguram
uma supervisão multi-funcional, capaz de potenciar as experiências educativas e
o crescimento profissional, através da reflexão, em comunidade colaborativa e
aprendente.
Gráfico 2: Funções que melhor caracterizam a supervisão
Se, anteriormente, os respondentes já tinham sublinhado a importância de
melhorar e inovar as práticas, quando respondem aos motivos que os levaram a
inscrever-se no Curso de Mestrado em Educação - Supervisão, reiteram a
"melhoria das práticas", com 33%, seguindo-se a "actualização
científico-pedagógica" com 22%, a "formação contínua" com 15% e
a "investigação" com 13%, como consta do Gráfico 3.Os mestrandos
evidenciam um conhecimento atento das suas necessidades formativas, em termos
de desenvolvimento profissional, face a contextos de mudança da supervisão.
Portanto, assinalam a necessidade de actualização científico-pedagógica,
reforçando o imperativo de repensar e renovar saberes e experiência
profissionais, através de um investimento nas Ciências da Educação e nas áreas
pedagógico-didácticas em que se movem. Revelam ainda a necessidade de
adquirirem, através de formação contínua, capacidade de investigação-acção
sobre as suas próprias práticas, de forma a conseguirem uma melhoria efectiva
das mesmas. São esses os motivos apresentados por 19 mestrandos para se
inscreverem e frequentarem o Curso de Mestrado em Ciências da Educação, com
especialização em Supervisão. Emerge, portanto, um perfil de professor-
investigador que faz convergir, no agir pedagógico, a teoria e a prática, tendo
por base a actualização e a reflexão.
Gráfico 3: Motivos que levaram à inscrição no Mestrado em Educação -Supervisão
Finalmente, na questão aberta final, "De que forma o Curso de Mestrado em
Ciências da Educação-Supervisão pode contribuir para o seu desenvolvimento
profissional?", era dado espaço aos mestrandos para emitirem uma opinião
individual. Não responderam à questão aberta 30% dos mestrandos. Os
respondentes (70%) apresentam como razões "implementar melhores práticas
de ensino" (15%) a par de "aumentar competências de coordenação e
supervisão pedagógica" (igualmente com 15%), o que coincide com a
responsabilidade de cargos de coordenação e de supervisão que muitos
respondentes desempenham na escola. Segue-se "maior preparação teórica e
científica" (12%), apontando para a necessidade sentida pelos professores
de se actualizarem cientificamente e recuperar a sensação de utilidade no
cumprimento da função docente (6%), o que confirma os igualmente 6% de
respondentes que apresentam a "desmotivação" como um dos sentimentos
que experienciam na profissão docente, como consta do Gráfico_1.Todos os
respondentes evidenciam consciencialização da importância de uma formação
contínua e continuada, de forma a exercerem e participarem numa supervisão
complexa, mas enriquecedora do seu desenvolvimento profissional e da comunidade
educativa em que se inserem. É o que afirmam dois mestrandos (M1 e M2), nos
exemplos que se transcrevem:
M1: "O propósito é adquirir competências para o desempenho como
Coordenadora Pedagógica e especificamente na função de supervisionar práticas,
no âmbito da melhoria da organização da qual faço parte".
M2: "O facto de me sentir mais preparada cientificamente faz-me encarar
todas as situações com mais segurança, mais tranquilidade e mais serenidade
(...). Pretendo que este conhecimento possa ter frutos na minha prática
profissional, na prática daqueles que eu posso "influenciar" e mais
tarde na escola."
Conclui-se que os professores inquiridos evidenciam uma dupla
consciencialização, quer das funções abrangentes da supervisão, quer da
relevância da formação, a nível científico, pedagógico e pessoal, procurando
mais formação para mais eficazmente agir na praxis.
4. Reflexões finais: por uma formação contínua e continuada
Analisados os resultados obtidos, verifica-se que os professores que frequentam
o Curso de Mestrado em Ciências da Educação, com especialização em Supervisão,
apresentam situação profissional estável. Os mesmos situam-se, em maioria, nas
fases de desenvolvimento da diversificação (7 a 25 anos) e da serenidade (25 a
35 anos), procurando aprofundar e valorizar a sua actividade profissional,
comprovando-se, portanto, o ciclo de vida de Huberman (2007). As respostas dos
inquiridos, quanto aos sentimentos que melhor caracterizam o estado de espírito
dos professores, recaem no desempenho da profissão, com maior incidência na
motivação, utilidade do trabalho e satisfação profissional e visando o
crescimento profissional, a colaboração reflexiva inter-pares e a inovação das
práticas.
As percepções dos mestrandos sobre as funções da supervisão nas escolas,
cruzando o texto livre inicial com as respostas à pergunta aberta final,
coincidem com as acepções defendidas por investigadores nacionais e
internacionais de uma supervisão não apenas circunscrita à formação inicial,
mas envolvendo, em interacção colaborativa, toda a comunidade educativa
(Alarcão, 2009; Alarcão & Roldão, 2008; Glickman et al., 2008; Pawlas &
Oliva, 2007 ; Vieira et al., 2006). De facto, a análise dos motivos que levaram
estes professores a inscreverem-se no Curso de Mestrado patenteou não apenas
preocupação com a melhoria das práticas lectivas, mas igualmente com o
desempenho de funções de coordenação e de supervisão6. A actualização
científica, sob a forma de theoretical inputs ultrapassa, assim, a praxis em
sala de aula e estende-se à escola, através de uma formação contínua e
continuada, assumida conscientemente.
As conclusões do estudo apontam para a interligação entre formação em
supervisão, desenvolvimento humano e desenvolvimento profissional,
possibilitando a reconstrução da identidade profissional, em contextos
supervisivos, de colaboração e inovação pedagógica. O regresso dos professores
à Universidade e a frequência do Curso de Mestrado emerge, na presente
investigação, como um catalizador de um plano de formação que parte do
individual mas que se consubstancia colectivamente em comunidade educativa.
Embora um estudo de caso não permita generalização, é possível, todavia, uma
aproximação a contextos semelhantes. As respostas configuram uma supervisão
colaborativa e inovadora, propiciadora do diálogo e da reflexão na comunidade
educativa, e impulsionadora do aperfeiçoamento de um agir pedagógico complexo
e, consequentemente, capaz de estimular o crescimento profissional ao longo da
vida. Ultrapassando o horizonte estreito da individualidade e da colegialidade,
esta acepção poliédrica da supervisão implica que o professor repense o seu
estatuto profissional, transformando-se num intelectual crítico consciente e
comprometido com uma educação enquanto tarefa de todos, que responda aos
desafios do mundo actual (Teodoro 2003).
Em síntese, convergindo com Alarcão (2009, 1996), Nóvoa (1992) e Simão et al.
(2009), consideramos que não é possível existir reforma educativa, inovação e
qualidade pedagógica, sem uma formação de professores contínua e continuada.
Assim se compreende que, a nível nacional e internacional, a formação de
professores tenha hoje uma nova abrangência, num contexto alargado e
democrático, no qual coexistem as dimensões micro (praxis em sala de aula) e
macro (interacção em comunidade escolar). Em supervisão alargada (Nóvoa, 2001;
Senge et al., 2000), a escola surge como organização aprendente. Desta forma,
enquanto teoria e prática de regulação de processos de ensino e aprendizagem, a
supervisão assume a educação como objecto de formação, na convergência do
pensamento e da acção, implicando todos os agentes educativos. A democratização
do acesso à especialização é hoje evidente nos muitos projectos de
investigação-acção desenvolvidos por professores, com ganhos desenvolvimentais,
individuais e de Escola a reflectirem-se no melhoramento do ensino e
aprendizagem (Formosinho et al., 2010). Por isso, interessa aprofundar estudos
investigativos, ainda escassos na área da Supervisão, abrangendo a formação
especializada, contínua e continuada, e aprofundar o que move os professores a
investirem em formação no Ensino Superior. Desta forma, será possível responder
às necessidades de formação, pela reinvenção de uma Super-visão capaz de
potenciar o desenvolvimento profissional docente.