A construção da cidadania participativa através da educação
Introdução
Pensar em participação é pensar sobre democracia, especialmente em países como
o meu, com um passado recente, obscuro e sombrio abalado por uma ditadura
sangrenta.
Na primeira linha da primeira página da introdução de um livro sobre a figura
de John Dewey, Virgínia Guichot afirma: "Falar de democracia é falar de
justiça social" (2003, p. 17). A obra de John Dewey é fundamental para
entender toda uma corrente de pensamento - sobretudo anglo-saxónica
- e de ação relacionada com a construção de uma sociedade e de uma escola
mais justa, democrática e participativa. Talvez um dos principais
representantes desta corrente, que a relaciona com a cultura e a educação de
adultos, tenha sido o pensador galês Raymond Williams.
Curiosamente, esta é uma viagem de ida e volta. Como observa Devine (2003),
grande parte da filosofia liberal norte-americana constrói-se graças aos
mestres escoceses que trabalham nos primeiros colleges e universidades e que se
formaram no chamado Iluminismo Escocês. É daqui que deriva grande parte da
filosofia que considera, como disse Dewey, que a democracia é um estilo de vida
para ser vivido - partilhado - e não apenas ensinado.
Gaventa (2006) fala de quatro tipos de participação: a) participação a partir
da base, como as lutas dos excluídos, claramente relacionada com o trabalho de
Freire e de Fals Borda nos países da América do Sul e em África; b)
participação dos beneficiários dos projetos, que se relaciona com os processos
de desenvolvimento dos anos 80, com o trabalho das ONGs e com um determinado
discurso a que eu chamo missionário/imperialista; c) os processos
participativos que visam comprometer as pessoas interessadas em fazer o que
deseja o Banco Mundial ou o FMI, um tipo de participação ligado ao anterior; d)
finalmente, a participação como exercício dos direitos de cidadania que fala de
direitos, de cidadania, de políticas, e não de beneficiários, de oportunidades
- novas ou antigas. É a este último tipo que me referirei a partir de
agora, focando a minha atenção na cidadania como referente de participação.
A ideia central do meu argumento é que este tipo de processos é imprevisível.
Os mecanismos que desencadeiam e são accionados quando implementamos processos
participativos são tão importantes e de um enredo tão vasto, que se torna muito
difícil poder, ou até mesmo imaginar, como será a realidade quando esses
processos avançam e conquistam novos domínios de liberdade e de democracia.
Toda esta dinâmica ocorre dentro de um quadro que é, em grande parte,
percorrido por processos educativos. Portanto, os contributos da educação e da
educação de adultos na esfera da educação formal, mas também da não formal e
informal, são essenciais e muito esclarecedores para as metodologias e
processos que estão em jogo para a construção da luta cultural e educativa que
pressupõe a construção de um tecido social rico e dinâmico, que ajude as
pessoas a sair do silêncio.
A partir destas premissas, explico, no ponto seguinte, como concebo a
participação e a construção da cidadania que, parafraseando Dewey, seria um
estilo de vida.
Sobre a cidadania e a democracia
A condição de ser cidadão - nunca cidadã - começa, tal como a
conhecemos no Ocidente, com a Grécia Antiga, na Atenas de Péricles, e continua
durante o Império Romano. A condição de cidadania tem estado sempre associada à
exclusão de outras pessoas que não eram cidadãs - no caso da antiguidade
clássica, os escravos, as crianças e as mulheres. Este é um dos ensinamentos
que podemos tirar de uma leitura moderna da História do Declínio e Queda do
Império Romano de Gibbon (edição espanhola 2004): o Império criou uma
diversidade de situações de cidadania na qual algumas pessoas tinham plenos
direitos e outras estavam privadas, até certo ponto, ou na sua totalidade,
destes mesmos direitos, o que não só gerava diferenças entre aqueles que eram
cidadãos romanos e os que não o eram, mas também entre as diferentes classes de
cidadãos.
Heller e Thomas Isaac (2003) consideram que a cidadania - para além de um
direito - é também uma forma de relacionamento. Assim, estes autores
entendem que a cidadania não é só um direito político, mas, mais do que isso,
exige uma equidade nas relações nas quais se enquadra, porque o exercício das
mesmas, tal como no Império Romano, é subvertido pelas diferenças sociais.
Desta forma, continuam os autores, o pleno exercício da cidadania e as novas
relações sociais que ela acarreta, trazem de novo para a arena política
indivíduos que estavam excluídos ou marginalizados, no que que Mohanty e Tandon
(2006) têm chamado de Cidadania Participativa.
Williams, tal como antes Gramsci, considerava que um aspeto fundamental para a
educação era o das representações culturais: o rascunho, por assim dizer, que
nos fazem da realidade. Esta realidade, marcada e construída para pensar de uma
certa maneira, encontra-se nas construções simbólicas que delimitam toda a
realidade e as relações entre as mulheres e os homens. Williams assinalava-
o claramente:
Creio que o sistema de significados e valores que a sociedade
capitalista gerou tem de ser derrotado em geral e no particular
através de uma forma de trabalho intelectual e educacional
sustentado. Este é o processo cultural a que chamei de 'Longa
Revolução' e, quando o chamo de 'Longa Revolução', quero dizer que é
uma luta genuína que faz parte da batalha necessária pela democracia
e pela vitória económica da classe operária organizada (cit. por
McIlroy & Westwood, 1993, p. 308).
Conforme Hardt e Negri (2005) afirmam, um dos elementos essenciais da atual
situação social, que eles denominam de Império, tem que ver com a exploração
que envolve toda a vida social e pessoal, toda a vida laboral e afectiva de
todos os homens e mulheres. Uma exploração que não é apenas física, como no
caso da escravatura, que não é unicamente económica, como no caso das
sociedades fordistas tradicionais, mas é sobretudo alienadora da capacidade de
criação que as mulheres e homens possuem. O Império cria-nos, diz-nos como
havemos de nos reproduzir, para depois nos dizer como havemos de morrer - mesmo
em vida. E, com certeza, apresenta-nos uma determinada visão daquilo que é e
supõe ser cidadão: uma espécie de etiqueta sem direitos.
Esta construção é baseada numa certa relação de poder e é, portanto, desigual
- já vimos antes que a cidadania é, de alguma forma, uma relação que deve
ser de equidade. Fejes e Nicoll (2008) reúnem uma série de trabalhos cujo
elemento comum é a ligação entre algumas das ideias de Foucault e as teorias
- e sobretudo as práticas - da aprendizagem ao longo da vida. Em
consonância com o que estamos apresentando, podemos assinalar algumas questões.
A primeira tem a ver com a afirmação de Rose:
O novo cidadão é solicitado para fazer parte de um trabalho
incessante de treino, formação e reformação, desenvolvimento e
reforço das ferramentas, melhorando as suas credenciais e preparando-
se para uma vida de incessante procura de emprego: a vida torna-se
numa capitalização constante do Eu (cit. por Edwards, 2008, p. 29).
Desta forma, a educação não só se torna uma mercadoria, como também o biopoder
faz com que a educação se torne uma mercantilização da própria pessoa. A
aprendizagem individualiza-se, torna-se num motivo de concorrência e não de
cooperação, um conceito centrado naquilo que a educação deve ser e não aquilo
que as pessoas e as colectividades desejariam que fosse.
Este comando imperial constrói-se e mantém-se - entre outras formas
- por meio daquilo que Fejes e Nicoll (2008) denominam de confissão.
Tomando como exemplo o modelo sueco, estes autores explicam como é moldada a
subjectividade de acordo com este modelo. Qualquer adulto que pretenda aceder a
processos de educação, deve reunir-se com o seu conselheiro educativo para
discutir questões como: Que tipo de educação? Em que lugar? Com que organizador
educativo? Quantas horas por dia? Deste modo, a partir desse processo de
confissão, a subjectividade da pessoa é moldada, criada e recriada. Assim, as
formas de cidadania estão sujeitas às pressões homogeneizadoras de um sistema
de cidadania que às vezes não é coerente com as formas tradicionais de
organização comunitária (Avritzer, 2003).
A esta luz, a cidadania e as formas de democracia participativa convertem-se de
desconhecidas (ou demasiadamente conhecidas para alguns) em perigosas, já que
estão e se constroem - segundo o esquema de significados hegemónicos
- sobre formas estranhas que não estão relacionadas com o ideal de
democracia.
Portanto, para concluir este ponto, será interessante destacar a diferença que
Torres (2005), de acordo com McPherson, propõe entre democracia como método -
representação política, separação de poderes, etc. - e democracia como conteúdo
-participação política nos assuntos públicos, direitos para todos, etc.
A substância parece, neste caso, o conteúdo da democracia.
A Investigação Participativa como metodologia
Hall entende que é necessário recuperar o ethos participativo (2001). Isto
significa que a participação torna-se num elemento prioritário e distintivo.
Não pode haver Investigação Participativa (doravante IP) sem participação. Isto
pode parecer redundante - de facto é - mas a experiência mostra
que, em muitos casos, e sob a égide de qualquer denominação, se diz uma coisa e
se faz outra. Tal é o caso de algumas práticas participativas nas quais a
execução não é participada, caindo inteiramente nas mãos dos técnicos. E a
própria participação em si é regulamentada, compartimentada para certos
momentos e não é, como se pretende com o ethos participativo, uma actuação
feita sob outros parâmetros, ideias e concepções.
Para nos situarmos, seria necessário um breve olhar sobre as principais
definições e caracterizações da IP que duas figuras indiscutivelmente marcantes
pela sua trajectória propuseram: Fals Borda e Hall. Será igualmente relevante
discutir as conexões com a educação popular que cientista sociais como Souza
realizaram.
Para Hall (1981, 2001), a Investigação Participativa pode ser definida da
seguinte forma:
• O problema surge na comunidade, que o define, o analisa e o resolve.
• O objetivo final da investigação é a transformação radical da realidade
social e a melhoria da vida das pessoas envolvidas. Os beneficiários da
investigação são os próprios membros da comunidade.
• A Investigação Participativa exige a participação plena e integral da
comunidade durante todo o processo de investigação.
• A Investigação Participativa abrange toda uma série de grupos de pessoas
despojadas de poder - explorados, pobres, oprimidos, marginalizados, etc.
• O processo de Investigação Participativa pode suscitar nos que intervêm uma
melhor tomada de consciência dos seus próprios recursos e mobilizá-los com
vista a um desenvolvimento endógeno.
• Trata-se de um método de investigação mais científico que a investigação
tradicional, no sentido em que a participação da comunidade facilita uma
análise mais precisa e autêntica da realidade social.
• O investigador aqui é um participante comprometido que aprende durante a
investigação, adoptando uma atitude militante e evitando refugiar-se na
indiferença.
Por outro lado, Fals Borda (1986) também delineia uma série de características
para a IP, referindo quatro em concreto:
• A pesquisa é coletiva. Todos os processos de investigação são realizados pelo
grupo de forma dialógica.
• É um processo de recuperação crítica da história.
• Valoriza, particularmente, o uso da cultura e dos saberes populares.
• Procura produzir e difundir novos conhecimentos, desde a convicção de que
existe uma forma de produção alternativa ao conhecimento científico
tradicional.
Queremos destacar alguns elementos. O primeiro é que a investigação é coletiva,
ou seja, o seu método só pode ser aquele que é dialógico e que se fundamenta na
colaboração e cooperação entre as pessoas.
Outro elemento importante tem a ver com a criação de conhecimentos. Nesse
sentido, Souza (2006) interroga-se: Que conhecimento produzir? Para quê
produzi-lo? Esta questão sobre o conhecimento - por vezes esquecida
- é muito importante, uma vez que nos liga, entre outras coisas, à
educação popular. Novamente Souza (2006) nos questiona acerca da necessidade de
que o conhecimento produzido e as acções empreendidas sirvam para mudar as
relações sociais em que vivemos e que nos permitam construir determinados tipos
de relações de cooperação contrárias às dominantes competitivas. Essa abordagem
de Souza relaciona-se, por exemplo, com a obra de Williams no que concerne à
importância da batalha cultural que a escola deve estabelecer - e não
apenas a escola - para alterar as relações sociais com que nos deparamos,
e o papel que nesta batalha desempenha a educação em geral e a de adultos, em
particular.
O contexto de atuação e algumas práticas concretas 2
As práticas que iremos apresentar derivam do trabalho por nós realizado entre
Novembro de 2005 e Dezembro de 2007, na cidade de Sevilha. Estas foram
possíveis graças a um acordo entre o Instituto Paulo Freire de Espanha
(doravante IPFE) e a Câmara Municipal de Sevilha, e em particular com a área de
Participação Cidadã, que era a responsável pela implementação dos Orçamentos
Participativos.
O primeiro a observar são as causas que levaram a esse acordo. A ideia central
era a de que as pessoas tinham grande dificuldade em entender o que acontecia
nas assembleias onde se deliberava e onde se tomavam as decisões relativas à
distribuição financeira que era objeto da decisão popular. Assim, o primeiro
problema que se enfrentava era um problema de formação para participar. A
dificuldade das pessoas para a participação vinha limitada por uma certa forma
de analfabetismo. Nesse sentido, entendemos que os ensinamentos derivados do
modelo de Kerala (Heller & Thomas Isaac, 2003, Thomas Isaac& Franke,
2005) são muito estimulantes.
O programa de formação que tentámos construir era dirigido a adultos. É
importante notar aqui que desde há muito tempo as escolas de educação de
adultos têm sido uma referência fundamental nos bairros da cidade, já que têm
exercido não só um trabalho educativo dentro das escolas, como também um
trabalho de dinamização cultural e comunitária nos bairros. Era esta uma
vertente importante para trabalhar no terreno da democracia e da cidadania.
Finalmente, é de referir que Sevilha é a quarta cidade do estado espanhol em
número de habitantes, capital da Comunidade Autónoma de Andaluzia. Só para
fornecer um dado relacionado com a educação, com informações da própria Câmara
Municipal da cidade, podemos afirmar que a taxa de analfabetismo -
absoluta e funcional - ultrapassa 50% da população. Obviamente, isto cria
uma situação muito complicada no momento de implementar qualquer proposta
democrática. Além disso, como observado por Santos (2003) no caso de Porto
Alegre, parece haver um processo de complexificação das regras de participação
ao mesmo tempo que a democracia directa se aprofunda.
Dentro deste contexto que temos definido, apresentaremos quatro práticas
específicas: a primeira está relacionada com a reivindicação organizada de um
grupo de mulheres numa escola de educação de adultos; a segunda, com práticas
contra-hegemónicas ligadas a um grupo de pessoas idosas na procura da habitação
que nos colocou na situação contraditória de estar 'no e contra o Estado'; e
finalmente, as propostas de formação realizadas no âmbito formal das escolas de
adultos e do não formal dos Movimentos Sociais, que resultaram na elaboração de
materiais didácticos.
O elevador da escola de educação de adultos 'Polígono Norte'.
Neste primeiro exemplo podemos ver a estrutura organizativa de um grupo de
mulheres que reivindicava um elevador para poder ir às aulas. É importante um
esclarecimento: muitas das escolas para adultos estão localizadas em centros
escolares para crianças e jovens e partilham essas instalações. Não partilham
necessariamente as piores instalações, embora em muitas ocasiões o processo de
partilha seja bastante complicado. Por outro lado, em Espanha existem ainda
lacunas significativas quando se trata de adaptar os espaços e edifícios a
pessoas com algum tipo de deficiência motora. E, como último ponto, as pessoas
mais velhas têm - como é lógico - alguns problemas de mobilidade
que as crianças e jovens normalmente não têm. O Centro a que nos referimos é um
centro partilhado, onde grande parte das salas de aula utilizadas pelos adultos
se situam no primeiro e segundo andares.
Por outro lado, o início do trabalho com este grupo foi bastante problemático.
Durante os primeiros encontros estabeleceram-se várias limitações ao trabalho
que derivavam da interpretação do objetivo estabelecido pela trabalhadora do
IPFE, que, segundo as mulheres, consistia em unicamente sensibilizar o grupo
para a dinâmica dos Orçamentos Participativos. Perante esta situação, as suas
palavras exactas foram: Não temos nada com isso, já nos basta a Associação e os
problemas do bairro. Depois de clarificar a função do seu papel e as suas
preocupações, a trabalhadora teve de dedicar várias sessões ao reconhecimento
de todos os problemas que afectavam as pessoas, colectivamente, e determinar
assim as soluções adequadas.
Um dos principais obstáculos manifestava-se na escassa participação que era
notória entre as pessoas e as dificuldades existentes para que se envolvessem
em atividades do Centro. Começaram-se a analisar colectivamente quais as causas
possíveis dessa falta de participação, chegando a algumas conclusões: a
acomodação das pessoas, as excessivas facilidades oferecidas pela direção e a
não-leitura dos painéis informativos.
Mas o objetivo de grande parte da actividade deste grupo de mulheres tinha-se
forjado nos anos de luta por um elevador no Centro. Este foi, a partir desse
momento, o eixo da actividade e do trabalho do grupo de mulheres acompanhado
pela trabalhadora do IPFE.
Vamos analisar o processo, centrando-nos nas sete etapas que definimos
anteriormente, referindo-nos ao IP.
• O problema surge na comunidade, que o define, o analisa e o resolve. Neste
caso, o problema (a necessidade de um elevador) é definido pelas mulheres
envolvidas no projecto. Elas reflectem sobre a sua realidade mais próxima e
descobrem que um dos principais obstáculos que as pessoas têm para frequentar a
escola, tem a ver com a dificuldade de se movimentarem dentro do mesmo. De
alguma forma, as mulheres substituem um modelo individual de deficiência por um
modelo social (Oliver, 1990).
• O objetivo final da investigação é a transformação radical da realidade
social e melhoria de vida das pessoas envolvidas. Os beneficiários da
investigação são os próprios membros da comunidade. O elevador vai permitir que
as pessoas vão à escola. Trata-se, portanto, de um benefício geral para a
comunidade, constituída, neste caso, pelas pessoas que fazem parte, ou querem
fazer parte, da Escola de Educação de Adultos.
• A Investigação Participativa exige a participação plena e integral da
comunidade durante todo o processo de investigação. Neste caso, envolveu o
empenho e a participação de pessoas, desde a construção social das necessidades
até à apresentação da proposta às assembleias distritais.
• A Investigação Participativa abrange toda uma série de grupos de pessoas
despojadas de poder - explorados, pobres, oprimidos, marginalizados, etc. O
Polígono Norte é um bairro da periferia da cidade. É um meio socioculturalmente
pobre, com elevadas taxas de desemprego, analfabetismo, etc. Tem, nalgumas das
suas zonas, uma alta percentagem de imigrantes. A tudo isto se deve acrescentar
que as pessoas mais envolvidas nesse processo eram mulheres, geralmente donas
de casa.O processo de Investigação Participativa pode suscitar nos que nele
intervêm uma melhor tomada de consciência dos seus próprios recursos e
mobilizá-los com vista a um desenvolvimento endógeno. No processo de elaboração
e apresentação da proposta, as mulheres descobriram a sua capacidade de falar
em público, de explicar aos outros os seus sonhos, realidades e desejos. Em
geral, tornaram-se mais conscientes dos seus recursos pessoais e colectivos.
• Trata-se de um método de investigação mais científico que a investigação
tradicional, no sentido em que a participação da comunidade facilita uma
análise mais precisa e autêntica da realidade social. De alguma forma, o que as
mulheres fizeram foi um processo de codificação e descodificação da realidade,
a fim de conseguir uma melhor visão da mesma, bem como dos meios e dos recursos
- entre eles, os municipais - que as ajudaram nos seus êxitos. O
processo de investigação conseguiu alcançar o que Crowther (2006) chama de
'conhecimento realmente útil'.
•O investigador aqui é um participante comprometido que aprende durante a
investigação, adoptando uma atitude militante e evitando refugiar- se na
indiferença. O papel e o trabalho da investigadora externa (a trabalhadora do
IPFE) são cruciais neste caso. Ela estabeleceu um forte compromisso com o grupo
e sempre o acompanhou em todas as suas acções. O elemento essencial para
entender tudo isto é que ela sempre partiu da situação das vidas reais das
pessoas.
Finalmente queremos salientar que esta proposta foi aprovada nas assembleias
- tendo sido a mais votada em todo o distrito - e o elevador já está a
funcionar na escola.
Os residentes de São Bernardo na luta por uma casa digna
Sevilha, como já foi mencionado, é a quarta maior cidade em número de
habitantes, e a maior do Sul de Espanha. É também a capital de uma das
Comunidades Autónomas mais pobres, que, como todo o Sul, podemos considerar uma
zona semiperiférica (Wallerstein, 1984). Com a Exposição Universal de 1992 e
nos anos subsequentes, Sevilha sofreu um processo de especulação urbanística
muito profundo, que afectou os bairros mais tradicionais e históricos da
cidade: o norte do Bairro Antigo, Triana e São Bernardo. É neste processo de
especulação imobiliária que se contextualiza o nosso trabalho com alguns
moradores do bairro de São Bernardo, numa prática contra-hegemónica e, às
vezes, contra a própria Câmara Municipal.
São Bernardo é um bairro popular, que remonta à Sevilha árabe dos séculos X e
XI. Desde então, este distrito, tal como todos os outros subúrbios de Sevilha,
foi povoado, maioritariamente, por trabalhadores da Andaluzia ocidental que
emigravam do campo, fugindo do desemprego sazonal e da fome endémica, atraídos
pela procura de trabalho na indústria e na construção. Por isso, é um bairro
historicamente habitado pela classe trabalhadora que viveu perto do seu
trabalho nas indústrias metalúrgicas, de grande tradição na cidade.
A maioria da população vivia em regime de aluguer e poucas eram as pessoas que
eram proprietárias das suas casas. O tipo de casa, muito característico desta e
de outras zonas da cidade, era chamado de pátio de vizinhos. Estas casas
colectivas foram apresentadas como uma tentativa de resolver o problema da
falta de habitação na cidade (Garcia Bernal, 2005). Esta solução consistia em
subdividir uma casa em muitos quartos e alugar cada um deles de forma
independente. Os inquilinos, assim, tinham apenas uma divisão para toda a
família e partilhavam a cozinha, a casa de banho, o pátio - um local
importante por significar o espaço de reunião dos vizinhos - e o acesso à
água. Este tipo de habitação manteve-se até aos dias de hoje, marcando uma
forma específica da vida e da identidade das pessoas.
Com o crescimento da cidade para a zona leste, este subúrbio, uma área muito
próxima do centro de Sevilha, tornou-se num local desejável como residência da
burguesia. O processo de gentrificação começou por altura da Exposição
Universal de 1992. Os interesses desenvolvidos, durante os anos 80 e 90 do
século passado, destruíram quase totalmente a composição social do bairro. Isto
por causa do envelhecimento da população e dos edifícios, bem como porque os
despejos são possíveis e baratos, com sucessivas declarações de edifícios em
ruínas. O trabalho de revitalização que alguns moradores começaram a
desenvolver no bairro levou à formação de um grupo chamado Assembleia de
Moradores São Bernardo 52. É este grupo o responsável pela ocupação de um
edifício de habitação social construído pela Câmara Municipal que estava então
desabitado. É com este grupo que o IPFE tem trabalhado.
O trabalho do IPFE procurou relacionar elementos de reflexão para ajudar as
pessoas a pensar naquilo que significa ser cidadão - o acompanhamento das
práticas do grupo e o apoio - com as ferramentas necessárias, para que o
grupo pudesse expressar a sua voz. Este último trabalho foi estreitamente
relacionado com a chamada alfabetização cinza. Portanto, o trabalho realizado
consistiu, em primeiro lugar, em apoiar as tarefas diárias do grupo em São
Bernardo. Isso implicou, em certas alturas, a ajuda para escrever cartas à
Câmara Municipal, escrever aos jornais e para redigir os acordos feitos pelo
grupo. No entanto, o trabalho mais interessante e desafiante realizado foi o
início da recuperação oral da história do bairro.
Nós acreditamos que a recuperação desta história lhes permitirá expressar a sua
palavra e situarem-se no contexto do seu próprio processo histórico. Todo o
processo está a ser realizado por meio de entrevistas e, desta forma, esperamos
que os próprios moradores - que já o têm vindo a fazer - possam ir
construindo os elementos históricos de resistência face ao processo de
gentrificação. Este processo está a ter um impacto cultural - não apenas urbano
- no quotidiano das pessoas. Para terminar, vejamos um exemplo deste
impacto.
A mudança de moradores do bairro significou a perda da cultura popular e da
identidade de classe que o bairro tinha, que estava muito delimitada pela
própria estrutura urbana - pátios de vizinhos - que eram, de alguma
forma, potenciadores da comunicação e interacção social. Neste sentido, é
habitual que nas noites de verão os moradores ponham cadeiras na rua, bebam
alguma cerveja, se calhar, vinho, comam algo e passem duas ou três horas de
convívio e partilha. Um morador novo - obviamente, alienado das tradições
da classe trabalhadora nos bairros populares da cidade - denunciou no
tribunal essa prática como anti-social e nada saudável. Portanto, os residentes
confrontam-se agora com o desafio de manter os seus costumes tradicionais
- que revelaram ser muito úteis quando não se tem ar condicionado para
combater o calor tórrido do Verão de Sevilha.
Os materiais de trabalho sobre a Participação Cidadã
Os trabalhos específicos de formação foram levados a cabo em duas direcções
principais. Durante o primeiro ano de vigência do acordo, um dos objetivos foi
o de elaborar materiais que permitissem trabalhar a participação e a cidadania
ligadas às tarefas diárias das aulas de educação de adultos e que se
aprofundasse, ao mesmo tempo que a democracia, o domínio das ferramentas para
viver em sociedade: leitura, escrita, cálculo e capacidades de comunicação,
entre outras. O resultado de tudo isso foi um trabalho intitulado Educando en
Ciudadanía desde, por y para la participación (disponível em
www.institutopaulofreire.org no endereço de publicações e registado livre de
direitos para que possa ser utilizado livremente por todos os interessados). O
material didático está organizado em três secções principais:
• O meu ambiente e eu. Tenta-se, com este ponto, incentivar as pessoas a
reflectir sobre as suas necessidades. As necessidades são construções sociais
que as pessoas vão fazendo no processo de tornarem-se mais conscientes da sua
própria realidade. Na verdade, podemos dizer que a construção das necessidades
permite às pessoas descobrir quais são os seus direitos relativamente ao seu
ambiente envolvente, constituído pelo seu bairro.
• Mais do que uma palavra. Os sonhos podem ser alcançados. Podem ser trocados
por realidades através da participação. Dessa forma, pode-se acabar com a
sensação de solidão e insegurança, conhecer os recursos que permitam e
facilitem a possibilidade de alterar o estado da nossa realidade actual.
• Orçamentos Participativos. É muito importante proporcionar às pessoas uma
maneira de responder às suas reivindicações de forma colectiva. Neste sentido,
os Orçamentos Participativos apresentam-se como uma oportunidade e um desafio à
participação.
A Escola Participativa e Cidadã
Durante o segundo ano ampliámos o âmbito, delineando um novo trabalho de
formação ligado, de uma maneira mais profunda, aos Movimentos Sociais. A ideia
fundamental era a de estender a formação a um âmbito não formal e poder
aproveitar o potencial reivindicativo e formativo do movimento associativo da
cidade. Isto é muito importante uma vez que permite que os cidadãos e as
cidadãs passem de uma posição de beneficiários a outra bem diferente, a de
cidadãos que participam nas decisões com os seus direitos e responsabilidades
(Gaventa, 2006). Além disso, seguindo o padrão do chamado modelo de Kerala
(Thomas Isaac & Franke, 2005), a formação torna-se num elemento estratégico
que deve potenciar e reforçar o tecido social.
Esboçámos uma actividade de formação de 40 horas dirigida a pessoas que
participassem em alguma associação ou Movimento Social, mas que não fossem
dirigentes dos mesmos. O local para realizar a formação também era
particularmente significativo: os centros comunitários que o município tem
distribuído por toda a cidade e que se encontram em quase todos os bairros. É
importante destacar que as últimas dez horas incidiam sobre a gestão
administrativa dos projetos, e que essa distribuição do tempo da formação foi
feita pelos próprios técnicos da Câmara. O esquema dos cursos era o seguinte:
• Antes do início: do sonho à construção participativa de necessidades.
Novamente, visa-se insistir no processo de construção colectiva de necessidades
para acabar definitivamente com o padrão tecnológico, que supõe que as
necessidades estão presentes numa situação e, como os sintomas de uma doença,
podem ser diagnosticadas.
•Construindo a cidade a partir da participação das moradoras e dos moradores.
Reflectir sobre a construção da cidadania e da democracia participativa. Este é
um ponto claramente teórico, que trata de trabalhar sobre a construção da
democracia com pessoas que têm já uma significativa experiência associativa.
• Os orçamentos participativos como oportunidade: Como fazer propostas para
melhorar a realidade? A destreza que nos parece essencial é converter o passado
em projetos concretos que possam ser apresentados e discutidos.
• Quanto custa? Como apresentar propostas? Como requerer subsídios? Como gerir
o dinheiro? Como justificar os subsídios? Esta secção é claramente
administrativa e é aplicada por técnicos municipais. No entanto, entendemos que
tal é crucial, já que supõe a aquisição de ferramentas práticas que possam
permitir aceder a uma grande quantidade de recursos.
Ministraram-se doze cursos num trimestre. Em geral, os cursos seguiram o
programa previsto. Redigiu-se um primeiro material provisório e, atualmente,
desenvolve-se um material semelhante ao que explicámos acima, mas com uma
diferença significativa: o elemento central é a elaboração de um projecto. Além
disso, o material não tem em consideração a sua ligação com as ferramentas de
lecto escritura, uma vez que se dirige a um grupo de pessoas que poderíamos
considerar letradas e com maior experiência associativa, o que traz consigo a
possibilidade de introduzir elementos de carácter mais reflexivo e elaborado.
Conclusões
Vamos situar as nossas conclusões nos seguintes aspectos: i) a nossa posição
'no e contra o Estado', ii) a importância da formação - mas uma
determinada
formação, com metodologias também elas determinadas, iii) o papel dos agentes
sociais e iv) o futuro.
A) No e contra o Estado
A experiência de São Bernardo apresenta-nos uma contradição muito importante.
Trabalhámos dentro de uma instituição - a Câmara Municipal da cidade
- e apoiámos os grupos e colectividades que, no seu caminho para a
cidadania, se confrontaram, por vezes frontalmente, com a própria Câmara. A
definição de 'no e contra o Estado' é traçada originalmente pelo London
Edinburg Weekend Return Group (Crowther & Martin, 2007) para assinalar a
posição contrária dos profissionais dos Serviços de Saúde, educacionais,
sociais, que trabalhavam para um governo conservador - na Grã-Bretanha
- e tentavam realizar práticas progressistas que ampliassem o bem-estar
das pessoas.
No caso de São Bernardo, esta é claramente a nossa contradição que, no entanto,
não o era, uma vez que a nossa opção pessoal e política era a de acompanhar os
indivíduos e grupos (pessoas e coletividades) na construção da sua própria
cidadania, ainda que isto nos confrontasse com o próprio poder. Além disso, o
caso de São Bernardo é um claro exemplo de como a luta pela cidadania e pela
democracia está intimamente ligada à luta por uma democracia redistributiva
(Santos, 2003) e por uma maior justiça social.
B) A importância da formação
A experiência do estado Índio de Kerala tem sido um elemento de inspiração no
nosso trabalho. Em suma, podemos dizer que a experiência de Kerala não pode ser
entendida sem os processos de formação a ela associados. Em Kerala, a formação
é um elemento estratégico na construção da democracia participativa, da
democracia como conteúdo (Torres, 2005).
No nosso caso concreto, fizemos propostas de formação, mas estas têm sido
acompanhadas de um certo cunho. Vejamos dois exemplos. Em primeiro lugar, no
que diz respeito aos materiaisEducando en Ciudadanía desde, por y para la
participación, estes são baseados na experiência adquirida com o nosso trabalho
nas escolas, procurando unir o trabalho diário de lecto escritura com as
propostas participativas. Além do mais, não se procura proceder de acordo com
uma única forma de democracia participativa - neste caso, os Orçamentos
Participativos - e propõe-se a isenção de direitos de autor, para que
possam ser
utilizados por todas as pessoas em todos os contextos que considerem adequados
e nos quais estes materiais sejam úteis.
No que diz respeito à Escola Participativa e Cidadã, a condição para participar
nos cursos - nem sempre cumprida - era a de fazer parte de alguma
associação, mas não ser dirigente da mesma. Com isto pretendia-se organizar
acções que envolvessem os processos de mudança no seio das próprias
organizações, processos de substituição de umas pessoas por outras e criar uma
dinâmica que estendesse a democracia até ao coração desses movimentos.
C) O papel dos agentes sociais
A potenciação da democracia e da participação supõe que os agentes sociais não
devam ser diretivos. Delineámos um processo de acompanhamento, cujo ponto de
arranque esteve sempre na posição de partida dos diferentes grupos. O caso do
elevador é esclarecedor deste tipo de proposta.
A trabalhadora do IPFE não propôs, acompanhou simplesmente as pessoas pelo seu
caminho para construírem socialmente as suas próprias necessidades. Primeiro,
ao tentar definir quais as dificuldades que enfrentavam e, de seguida, uma vez
estas identificadas, quais eram as maneiras que permitiam responder a essas
necessidades. Da mesma forma, em São Bernardo, o trabalhador do IPFE acompanhou
todas as moradoras e moradores no seu percurso reivindicativo, prestando a sua
ajuda e colaboração quando necessárias e colocando-se sempre em segundo plano.
Entendemos que para construir uma democracia verdadeiramente participativa e
relações de cidadania mais plenas, é necessário que o protagonismo esteja
sempre nas pessoas e não nos agentes sociais que com elas trabalham. Caso
contrário, o esforço está, na nossa opinião, condenado ao fracasso.
D) O futuro
Definir o futuro destas experiências particulares é muito complicado. O IPFE
tem continuado a trabalhar com algumas das coletividades e experiências que
temos aqui apresentado, embora a mudança no governo municipal produzida ao
longo de 2007, e sobretudo em 2011, tenha trazido grandes alterações na
estrutura de organização dos Orçamentos Participativos. Neste sentido, embora
ainda seja cedo para um julgamento definitivo, acreditamos que muitos políticos
profissionais parecem compreender que deve haver um maior peso partidário que
acabe com as contradições de 'no e contra o Estado'. Entendem que os políticos
estão preparados para atender as reivindicações e os sonhos dos cidadãos, sem
contar com eles na definição de novas propostas.
Parece-nos claro que a democracia participativa não pode existir se não houver
uma renúncia expressa do poder por parte daqueles que a detêm. Nesta linha de
pensamento, acreditamos que outro dos elementos importantes a ser considerado
será o poder dos técnicos que assumem e substituem as competências dos cidadãos
e cidadãs. Estes últimos procuram fazer política escudados numa suposta
racionalidade técnica que apoia os políticos profissionais, mas não pretendem
obedecer aos sectores populares.