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EuPTHUHu1645-72502011000100005

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN1645-7250
Year2011
Issue0001
Article number00005

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O ensino e a aprendizagem na sala de aula numa perspectiva dialética Sendo a mediação na sala de aula uma automediação, não podemos abrir mão da relação direta entre professor e aluno. Desse modo, não podemos substituí-la por falsos mediadores, como por exemplo, a exibição de filmes quando a temática não corresponde àquela tratada pelo professor, ou a execução aleatório de atividades de ensino. Os professores que se utilizam com freqüência desses recursos nutrem a esperança de que essas práticas sejam capazes de estabelecer mediações que eles, os professores, talvez não se sintam seguros para desenvolver. Alguns professores precisam ser lembrados de que sala de aula não é sala de cinema nem oficina de terapia ocupacional.

Os professores que se utilizam desses artifícios o fazem muitas vezes no intuito de facilitar a aprendizagem; porém, sendo a relação entre o ensino e a aprendizagem uma luta de contrários, não como facilitá-la. Ao inverso, o professor deve dificultar a vida cotidiana do aluno inserindo nela o conhecimento, e, dessa forma, negando-a. Pois, na vida cotidiana não conhecimento e sim experiência. Desse modo, não como facilitar o que é difícil. Aprender é difícil.

será sempre necessário que ela [criança] se fatigue a fim de aprender e que se obrigue a privações e limitações de movimento físico isto é que se submeta a um tirocínio psicofísico. Deve-se convencer a muita gente que o estudo é também um trabalho e muito fatigante com um tirocínio particular próprio, não muscular-nervoso mas intelectual: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com esforço, aborrecimento e mesmo sofrimento. (Gramsci, 1985, p. 89)

Como assinala Gramsci, a aprendizagem depende do esforço pessoal de cada estudante. É claro que o professor sempre poderá intervir, de modo direto, neste processo, auxiliando o aluno. Ele deve esforçar-se para que os estudantes aprendam, mas não pode minimizar nem esconder as dificuldades inerentes à aprendizagem.

Quando compreendemos a mediação no seu sentido original, aquele atribuído por Hegel (1770 - 1831) como superação do imediato no mediato, recusamos a idéia de que é preciso reproduzir o cotidiano do aluno na sala de aula para que ele aprenda; pois, com isso, aluno e professor se igualam. Isso é falso, pois eles não são iguais e tampouco o professor pode apreender o cotidiano do aluno. Esta possibilidade seria temerária, porque permitiria o controle da instância singular do ser humano. Controle esse almejado pelos regimes totalitários como o fascismo. Ao contrário dessa perspectiva, o professor deve distinguir-se do aluno; nesse sentido, lembramos as palavras de Bertolt Brecht (1964) quando indagado sobre a dificuldade de compreensão de suas peças pelos operários:

Também, então, houve quem nos perguntasse: ‘Será que o trabalhador vos entenderá? [...] Camaradas, a forma das novas peças É nova. Mas porquê [sic] temer O que é novo? É difícil de executar? Mas porquê [sic] temer o que é novo e difícil? Para quem é explorado e sempre desiludido Também a vida é uma constante experiência, e O ganho de uns quantos tostões uma empresa incerta Que em parte alguma jamais se aprende.

Por que razão temer o que é novo, em vez do que é velho? E mesmo que o vosso espectador, o trabalhador, hesite, Vocês não deverão acertar o passo por ele, mas, sim adiantarem-se- lhe, Rapidamente, a passos largos, Confiando, sem reservas na sua força, que surgirá enfim.

(Brecht, 1964, pp. 68-69)

No excerto do dramaturgo alemão, encontramos três idéias importantes que podem ser discutidas a partir da relação ensino-aprendizagem na sala de aula. A primeira é que no cotidiano não se aprende e, diríamos mais, no cotidiano experimenta-se; e a experiência cotidiana na sala de aula é a negação da aprendizagem. A segunda é que o professor não deve esperar que o aluno aprenda para ensinar; ao contrário, deve ensinar para que o aluno aprenda, e isso implica caminhar a passos largos e acreditar na possibilidade de o aluno, ao defrontar-se com o novo, aprender. Afinal confiar na capacidade de o aluno aprender é, em última instância, compreendê-lo como um ser humano e, nesse sentido, igual ao professor. A terceira idéia oferecida no excerto de Brecht consiste no desafio proposto por este artigo aos professores: por que temer o que é novo e difícil? Por que razão temer o que é novo, em vez do que é velho? Em outras palavras, porque não enfrentar a dificuldade de apreender o sentido original e dialético da mediação, aplicando-o na sala de aula? Ensino e aprendizagem Quando se compreende a relação ensino-aprendizagem na sala de aula como mediação, o ensino e aprendizagem são opostos entre si e se relacionam por meio de uma tensão dialética. Desse modo, esses termos, apesar de negarem-se mutuamente, se completam, mas, como o dissemos, essa unidade não se estabelece de modo linear.

Neste artigo, conceituaremos primeiro o ensino e, pela sua negação, conceituaremos aprendizagem. Sabemos da dificuldade de conceituar esses dois termos, pois de modo geral os estudiosos da área de educação e os professores, talvez por influência das pedagogias contemporâneas, não o fazem; pois preocupam-se quase exclusivamente com o como ensinar, ou mais precisamente como facilitar a aprendizagem dos alunos.

A idéia principal que informa o nosso conceito de ensino é a de que ele expressa a relação que o professor estabelece com o conhecimento produzido e sistematizado pela humanidade. Assim, o ensino constitui-se de três atividades distintas a serem desenvolvidas pelo professor.

A primeira consiste em, diante de um tema, selecionar o que deve ser apresentado aos alunos; por exemplo, no tema Revolução Francesa, próprio da História, selecionar o que é mais importante ensinar aos alunos da série (nomenclatura brasileira). o professor do ano do Ensino Médio deve defrontar-se com a mesma pergunta; a mesma situação se coloca ao professor universitário encarregado de abordá-lo. Dessa forma, o docente deve preocupar- se em compatibilizar a seleção do conhecimento a ser ensinado com a possibilidade de aprendizagem dos alunos. Nos dias de hoje, é bastante comum que a seleção seja abrangente; e isso pode levar os professores a apresentarem aos seus alunos informações supérfluas, que, quando confundidas com conhecimento, não lhes permitem fazer as sínteses necessárias para a superação do cotidiano, produzindo neles uma erudição balofa que pode ao contrário encerrá-los na vida cotidiana. Esse equívoco ocorre, por exemplo, quando o professor de História, ao abordar a Revolução francesa, preocupa-se com detalhes da vida privada de Maria Antonieta ou com a moda ditada por Luís XV.

Ainda exemplificando, o mesmo pode ocorrer com o professor de Literatura que expõe aos alunos os períodos literários e seus principais expoentes sem apresentar as relações entre os autores, bem como entre os períodos literários, ocultando assim a historicidade inerente à literatura. A erudição balofa pode também estar presente nas disciplinas ligadas às ciências naturais; ela tem levado os professores a acreditar que quanto maior a quantidade de informações mais os alunos sabem.

A segunda atividade desenvolvida pelo professor é a organização, ou seja, diante da seleção feita a partir de um tema é preciso organizar esta seleção para apresentá-la aos alunos. Desde o momento em que fazemos a seleção não podemos falar mais em temas; devemos preocupar-nos com os conceitos que os constituem. Agora o que o professor deve fazer é organizar os conceitos e as relações entre eles. Esse processo, de acordo com Lefebvre (1983), implica dois movimentos: a retrospecção e a prospecção.

A retrospecção permite que o estudante compreenda o processo de formação e desenvolvimento do conceito abordado e a prospecção possibilita o entendimento do estado atual do conceito a partir das relações que o conceito estudado estabelece com outros, tanto com aqueles que o corroboram quanto com os que a ele se opõem. A prospecção do conceito permite o estabelecimento de relações interdisciplinares, a que temos chamado de interdisciplinaridade conceitual para distingui-la daquela que é corrente na escola, a interdisciplinaridade temática. Não podemos ensinar por meio do tema, devemos fazê-lo por meio do conceito. Evitamos o uso da expressão conteúdo de ensino em virtude da sua imprecisão. Pois ela pode remeter a um conceito, a uma atividade de ensino, ou a um tema. Quando a organização do ensino é baseada nos processos de retrospecção e prospecção de conceitos, o fundamental são as relações que se estabelecem nos dois processos. No primeiro, elas dizem respeito ao desenvolvimento do conceito, à oposição entre a sua origem e o estado atual, no segundo, elas tratam dos vínculos entre conceitos. Assim, podemos afirmar que ensinar é fazer relações. Por isso, ensinar é tão difícil quanto aprender.

A terceira tarefa do professor é transmitir aos alunos aquilo que foi previamente selecionado e organizado. Dessa forma, a transmissão é a única etapa do processo de ensino que ocorre efetivamente na sala de aula. Em que pese o preconceito sobre a palavra transmissão, não abrimos mão dela, porque é isso o que o professor faz na sala de aula. É na transmissão do conhecimento que ocorrem as mediações entre professores e alunos.

Se o ensino é a relação que o professor estabelece com o conhecimento, a aprendizagem ao contrário é a relação que o estudante estabelece com o conhecimento e, portanto, é nela que a mediação se efetiva: pela superação do imediato no mediato.

Não é possível discutir a aprendizagem como fizemos com o ensino, porque ela é de cunho singular e, dessa forma, ocorre de modo diverso em cada estudante. A discussão da aprendizagem na perspectiva deste texto, ou seja, em oposição ao ensino, ainda deve ser elaborada e, certamente, não poderá sê-lo pela psicologia, mas sim pela filosofia. A única possibilidade, ainda que remota no âmbito da psicologia, estaria no desenvolvimento do pensamento de Vigotski, desde que compreendido numa perspectiva filosófica, pois a psicologia como ciência tem por objeto o comportamento, e aprender não é o mesmo que comportar- se, em que pese o esforço das pedagogias contemporâneas em desenvolver esta associação. Do nosso ponto de vista, o que a psicologia, no seu estado atual, pode fazer é controlar a aprendizagem, o que é diferente de compreendê-la.

Quando a relação ensino-aprendizagem é tomada na perspectiva da mediação no seu sentido original, ao mesmo tempo em que não uma relação direta entre ensino e aprendizagem, não também uma desvinculação desses dois processos. Ou seja, para haver aprendizagem, necessariamente deve haver ensino. Porém, eles não ocorrem de modo simultâneo. Dessa forma, o professor pode desenvolver o ensino ' selecionar, organizar e transmitir o conhecimento ' e o aluno pode não aprender. Para que o aluno aprenda, ele precisa desenvolver a sua síntese singular do conhecimento transmitido, e isso se pelo confronto, por meio da negação mútua, desse conhecimento com a vida cotidiana do aluno. Como cada aluno tem um cotidiano, e o conhecimento é aprendido por meio da síntese explicitada, o conhecimento não pode ser aprendido igualmente por todos os alunos, embora aquele transmitido pelo professor seja único. Assim, a relação ensino-aprendizagem na perspectiva aqui apresentada expressa o vínculo dialético entre unidade e diversidade. Por isso, o conhecimento transmitido pelo professor pode ser uno e aquele aprendido pelo aluno pode ser diverso. A unidade e a diversidade são opostos que se completam, o que é próprio do humano.

Conclusão Este artigo pretende contribuir para que os professores compreendam o seu fazer. E ao mesmo tempo, superem a concepção errônea de que para que haja ensino deve haver simultaneamente a aprendizagem. Isso é possível de modo fugaz, quando o ensino se circunscreve ao cotidiano do aluno e a aprendizagem resulta na mudança de comportamento. Para difundir essa concepção, não faltam construtivistas que leram apenas as orelhas dos livros de Piaget, ou sócio- construtivistas que associam Piaget a Vigotski, ignorando que os dois autores filiam-se a correntes filosóficas diferentes e que, por isso, não podem ser associados. Além disso, os sócio-construtivistas, dentre os quais estão os responsáveis pela elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais Brasileiros, ignoram que Piaget discutiu as relações sociais e que Vigotski trabalhou os problemas relativos ao conhecimento. Esses equívocos patrocinados por organismos oficiais, como o Ministério da Educação do Brasil tanto nas gestões Cardoso como Lula da Silva, levam os professores à frustração profissional, uma vez que não são capazes de fazer com que seus alunos aprendam de forma imediata e muito menos podem controlar o seu comportamento.

Esta discussão, ainda que inicial, pretende mostrar aos professores que a relação ensino-aprendizagem é um processo que demanda tempo e dedicação, mas que, sobretudo, precisa ser compreendido na sua totalidade e em bases filosóficas coerentes. Sem esse exercício de compreensão dos fundamentos da relação ensino-aprendizagem, o esforço dos professores se transforma em frustração profissional e desgaste pessoal.


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