Educação sexual em Portugal: Legislação e avaliação da implementação nas
escolas
A sexualidade é uma dimensão fundamental da vida humana, que se expressa nas
práticas e desejos que estão ligados à afetividade, ao prazer, aos sentimentos
e ao exercício da liberdade individual e da saúde, não se limitando ao que os
indivíduos fazem, mas centrando-se no que são (Ramiro, 2013). A educação sexual
(ES) engloba as dimensões, biológica, sociocultural, psicológica e espiritual,
da sexualidade, integrando um domínio cognitivo (informação), um domínio
afetivo (sentimentos, valores e atitudes) e um domínio comportamental
(comunicação, tomada de decisões e outras competências pessoais relevantes). É
um processo contínuo e permanente de aprendizagem e socialização que abrange a
transmissão de informação e o desenvolvimento de atitudes relacionadas com a
sexualidade humana, numa perspetiva ecológica, e, portanto, promove atitudes e
comportamentos saudáveis (ME-GTES, 2007), é transversal e transdisciplinar.
Assume como objetivo fundamental o desenvolvimento de competências nos jovens,
de modo a possibilitar-lhes escolhas informadas nos seus comportamentos na área
da sexualidade, permitindo que se sintam informados e seguros nas suas opções
(ME-GTES, 2005; 2007). Em Portugal, as orientações da tutela definem a ES como
uma abordagem formal, estruturada, intencional e adequada de um conjunto de
questões relacionadas com a sexualidade humana (Ministério da Educação (ME)
& Ministério da Saúde (MS), 2000;Matos & Simões, 2010, Vilar &
Ferreira, 2009).
Apesar de ser inquestionável a importância da família na educação sexual das
crianças e dos jovens, não é menos inquestionável que ao longo da vida estas se
integram em contextos diferenciados, correspondendo cada um desses contextos a
vivências também diferentes com canais de comunicação próprios (Currie et al.,
2012; Matos et al., 2011). Assim, a ES não deve ser reservada à família e à
escola, mas também aos serviços de saúde, organizações de jovens, instituições,
autarquias e outros agentes de socialização dos jovens. Trata-se de um processo
contínuo, participado e intersectorial. Por este motivo, são múltiplos os
agentes intervenientes na aprendizagem dos temas relacionados com a sexualidade
(Reis, 2012). É neste contexto que a escola se situa, podendo ser um agente
privilegiado na educação para a sexualidade e para os afetos, cabendo-lhe
ensinar, educar de forma a favorecer o desenvolvimento global dos alunos,
fomentando atitudes e valores e incentivando a formação de cidadãos livres,
responsáveis, autónomos e respeitadores (ME-GTES, 2007). A ES não pode ser
entendida como uma tarefa que respeite apenas a uma entidade, quer seja a
família, a escola, o centro de saúde ou qualquer outra associação, mas que diz
respeito a todas elas (ME-GTES, 2007, Vilar & Ferreira, 2008). Nas últimas
décadas, muitos estudos têm abordado a questão do papel da escola na promoção
da saúde e bem-estar dos alunos, apontando programas que incluem uma abordagem
ecológica e participada como os mais eficazes (Matos, Sampaio, Baptista, &
Equipa Aventura Social, 2013).
Em 1999, foi promulgada nova legislação no âmbito da ES, a Lei n.º120/1999 de
11 de agosto, que pretendeu garantir o direito à saúde reprodutiva, abordando
temas tais como a promoção da ES e saúde reprodutiva, a prevenção de infeções
sexualmente transmissíveis (ISTs), métodos contracetivos, planeamento familiar
e IVG. Esta Lei reforçou a necessidade de se desenvolver um programa de ES nos
ensinos básico e secundário. Em outubro de 2000, a Lei foi regulamentada
através do Decreto-Lei n.º 259/2000 de 17 de outubro, que estabeleceu que cada
escola deveria integrar no seu projeto educativo uma componente de ES, a qual
se deveria concretizar no plano de trabalho de cada turma. Optou-se, deste
modo, por uma transversalidade da ES nas escolas e apostou-se no envolvimento
de alunos, pais e encarregados de educação, e associações. Foi ainda dado
relevo à formação de professores. Em outubro de 2000, a Secretaria de Estado da
Educação e Inovação publicou as Linhas Orientadoras da Educação Sexual em Meio
Escolar, documento que foi assinado pelos Ministérios da Educação, da Saúde e
pela APF. Salienta-se ainda o Decreto-Lei n.º 6/2001, que estabeleceu novas
áreas curriculares como a Área de Projeto e a Formação para a Cidadania,
constituindo uma oportunidade para cumprir o disposto na Lei de Bases do
Sistema Educativo. Entre 2002 e 2004 a Comissão de Coordenação do Programa de
Educação para a Saúde (CCPES) foi extinta e a Rede Nacional de Escolas
Promotoras Para a Saúde (RNEPS) interrompeu as suas atividades. No ano de 2005,
a então Ministra da Educação criou um grupo de trabalho denominado GTES ' Grupo
de Trabalho de Educação Sexual ' através do Despacho n.º 19 737/2005 de 15 de
junho, que teve como uma das principais funções a organização de um programa de
PES. Este grupo de trabalho chegou a uma proposta de programa de PES incluindo
quatro áreas prioritárias (alimentação/atividade física, consumo de substâncias
psicoativas, sexualidade/saúde sexual e reprodutiva, e saúde mental/violência),
a organização de gabinetes de saúde, a designação obrigatória de um professor
coordenador para a saúde/educação sexual por unidade orgânica, e a
concretização da celebração de um protocolo entre os Ministérios da Saúde e da
Educação. Este grupo foi ainda responsável pela elaboração de uma proposta de
conteúdos mínimos para cada uma das quatro áreas (alimentação/atividade física,
consumo de substâncias psicoativas, sexualidade/ saúde sexual e reprodutiva e
saúde mental/ violência) e propôs o lançamento de vários concursos de projetos
na área da saúde na escola. Promoveu ainda encontros regionais de intercâmbio
de experiências e procedeu a um levantamento do envolvimento das escolas nas
políticas da área da saúde e ES (ME-GTES, 2005, 2007). As propostas do GTES
foram transformadas em despachos pelo Ministério da Educação, nomeadamente
através do Despacho n.º 25 995/2005, de 16 de dezembro, que aprovou e reafirmou
os princípios orientadores das conclusões dos relatórios no que se referia ao
modelo de educação para a PES, e do Despacho n.º 2506/2007, de 20 de fevereiro,
que definiu linhas de orientação para o professor coordenador da área da saúde.
Em 2009, foi aprovada a Lei n.º 60/2009 de 6 de agosto, que veio estabelecer o
regime de aplicação da educação sexual em meio escolar, pressupondo a
existência de programas de ES em todos os ciclos de ensino, exceto na educação
pré-escolar, com uma duração mínima de 6 horas por ano no 1.º e 2.º CEB e 12
horas no 3.º CEB e ensino secundário. Para a concretização destes programas,
ficou estipulado que se daria preferência às áreas curriculares não
disciplinares (ACND) como a Formação Cívica e a Área de Projeto. Além de ficar
estabelecida a concretização curricular da ES, ficou ainda estipulado nesta Lei
que as escolas deveriam ter uma equipa dinamizadora de um projeto de PES/ES e
gabinetes de educação para a saúde. A Lei n.º 60/2009 (de 6 de agosto)
regulamentada pela Portaria n.º 196-A/2010 (de 9 de abril) estabelece as bases
gerais de aplicação da educação sexual em meio escolar, numa aceção pluralista
e democrática. O artigo 13.º da referida Lei estipula a avaliação da
implementação da educação sexual nas escolas.
O objetivo do presente trabalho foi avaliar a implementação da educação sexual
em meio escolar, nas escolas portuguesas, com o objetivo de informar e dar
suporte às políticas de educação sexual, aos programas e intervenções dirigidos
a adolescentes a nível nacional até à presente data.
MÉTODO
Participantes
Para a primeira parte do estudo ' estudo quantitativo - foram convidadas a
participar todas as Unidades Orgânicas (UO), quer públicas, quer privadas com
contrato de associação, ou seja, 811 agrupamentos e escolas secundárias não
agrupadas e 83 UO privadas (com contrato de associação). A participação das UO
foi anónima e voluntária. Participaram um total de 428 diretores, 424
professores coordenadores de educação para a saúde de UO públicas. Considerando
o universo das UO do ensino público, o número de respondentes das direções e
professores coordenadores da saúde do ensino público, permite estimar uma
margem de erro de 3,33% e de 3,36%, e um nível de confiança de 96,7% e de
96,4%, respetivamente (Navidi, 2010). As UO participantes integram 617 701
alunos e 60 595 professores.
Considerando o universo das UO do ensino público, o número de respondentes
representantes das Associações de Pais e Encarregados de Educação e de
representantes das Associações de Estudantes foi de 7,9% e 12,1%,
respetivamente, não atingindo o nível de confiança de 95%; considerando o
universo das UO do ensino privado, mesmo considerando o maior número de
respondentes (direções) estimou-se uma margem de erro de 21,76%, não atingindo
pois o nível de confiança de 95% habitualmente usado em ciências sociais: estas
respostas serão pois consideradas apenas a título ilustrativo.
Na segunda parte do estudo ' estudo qualitativo ' selecionaram-se
aleatoriamente cinco unidades orgânicas do ensino público por cada região
educativa. Foi visitada uma unidade orgânica de ensino público por zona, para
realização das entrevistas individuais e coletivas/grupos focais.
Material
Os instrumentos de investigação incluíram questionários de autopreenchimento,
guiões de entrevistas individuais e coletivas/grupos focais. Todos os
questionários foram elaborados a partir de indicadores específicos de educação
sexual em meio escolar, constantes do edital do concurso e resultantes de uma
revisão da literatura na área.
Procedimento
O Guião de entrevista individual e coletiva/grupos focais, baseou-se numa
análise SWOT, acrónimo de Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats,
(Pickton & Wright, 1998; van Wijngaarden, Scholten, van Wijk, 2010). Foram
realizadas entrevistas individuais, com um guião SWOT com os diretores/
representantes da direção e uma metodologia de grupo focal, permitindo a
interação dos participantes dentro de cada grupo, com professores coordenadores
da saúde (Matos & Gaspar, 2002; Matos, Gaspar, Vitória & Clemente,
2003). Foram cumpridos todos os procedimentos éticos exigidos por lei,
incluindo o consentimento informado no espírito da Declaração de Helsínquia.
RESULTADOS
Participaram 428 UO (que incluem 384 agrupamentos e 44 escolas secundárias não
agrupadas. Todos os níveis de ensino se encontram representados nesta
avaliação, que inclui 617 701 alunos, a sua maioria de nacionalidade portuguesa
(96,8%). Segundo as direções, a implementação da educação sexual na UO tem sido
boa/muito boa (57,5% e 26,2%). Consideradas as várias áreas da educação para a
saúde, a educação sexual (98,6%) é a que mais se destaca em termos de
implementação (ver quadro_1).
A maioria das UO (83,2%) cumpriu a carga horária legal estipulada para a
educação sexual, 15,9% cumpriu parcialmente e0,9% não cumpriu. A formação na
área (41,4%) foi o critério adotado com mais frequência na seleção do professor
coordenador da área da saúde (ver quadro_2).
Em termos de estratégias de implementação, as ações e conferências por agentes
externos continuam a ocupar posição de destaque (93 %), apesar de também ser
muito frequente a abordagem transdisciplinar (77,1%) e as metodologias
participativas (72,4%) (ver quadro_3).
A disciplina de Ciências Naturais continua a ser o espaço curricular onde mais
frequentemente são abordados conteúdos de educação sexual no ensino básico
(61,9%), e a de Biologia no ensino secundário (31,8%) (ver quadro_4a_e_4b).
Os reforços dos conteúdos foram abordados, quer no ensino básico, quer no
ensino secundário, principalmente através do Gabinete de Informação e Apoio ao
Aluno (em termos de recursos internos à escola) (79,0% e 48,6%, respetivamente)
e através de ações e conferências (em termos de recursos externos à escola)
(86,7% e 54,0%, repetivamente) (ver quadro_5a_e_5b).
A maioria dos Conselhos de Turma apresenta (65,7%) e tem (72,0%) professor
responsável pelo projeto de educação sexual (ver quadro_6 e 7).
O projeto de educação sexual é revisto pelo coordenador de educação para a
saúde (87,4%), que é também (85,7%) o responsável pelo acompanhamento externo
do projeto.
Na maioria das UO (82,2%), há garantias de que todos os alunos tiveram educação
sexual nos últimos três anos, 15,9% que mais de metade tiveram educação sexual
e 1,9% menos de metade. A avaliação dos conhecimentos adquiridos é efetuada na
sua maioria pela percentagem de alunos envolvidos nas atividades (59,8%) (ver
quadro_8).
No que diz respeito ao Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno, os diretores
consideraram que a implementação deste gabinete tem sido, na sua UO, boa/muito
boa (59,8%). A maior parte dos gabinetes é constituído por uma equipa
multidisciplinar, constituída por 2 a 5 membros, preferencialmente 3 membros
(23%), mais frequentemente professores /as (89%); psicólogos/as (61,4%) e
enfermeiros/as (58,2%).
Mais de metade dos professores envolvidos na educação sexual tem formação na
área (62,8%). A maior parte dos gabinetes (71,5%) funciona até 6 horas por
semana. Os gabinetes têm recursos variados (77.3% têm bibliografia, 76,9% têm
acesso à Internet, 60% têm jogos didáticos de ES). Têm como destinatários, quer
os alunos do ensino básico (95,3%), quer do secundário (58,2%).
O apoio individualizado (85,5%) é a atividade que mais se destaca no Gabinete
de Informação e Apoio ao Aluno (ver quadro_9).
A maior parte dos gabinetes usufrui de parcerias /articulações com o centro de
saúde local (85%), com quem desenvolve atividades, e com outros organismos
(73,6%). Em termos de adesão à educação sexual, a direção considerou que os
professores (51,6%), os alunos (57,0%), as direções (51,6%) e o centro de saúde
(46,3%) têm uma adesão muito boa; a da comunidade em geral (41,4%) tem uma
adesão satisfatória; a adesão de pais (49,3%) e respetivas associações (43,0%)
é satisfatória/fraca; e a adesão das associações de estudantes oscila entre má
(25,2%) e satisfatória (40,2%).
Em relação às estratégias para promover o envolvimento por parte da comunidade,
os diretores consideram ser a cooperação por parte da direção (51,6%), a
participação dos alunos no processo de organização das temáticas (48,1%), a
formação frequente para professores (48,6%) e o estabelecimento de parcerias
com entidades externas (55,3%) são muito importantes (ver quadro_10).
Menos de metade dos assistentes operacionais têm formação específica e educação
para a saúde/educação sexual em 89,3% das UO. Considerando os últimos três anos
letivos, a maioria dos diretores considera que a educação sexual tem vindo a
ser progressivamente integrada na cultura da sua UO (56,8%) e mais de um terço
considera que tem mantido o mesmo padrão nos últimos três anos letivos (37,6%).
No geral, a implementação da educação sexual foi mais frequentemente
satisfatória (42,5%) ou muito boa (42,5%) em 2010/2011, e mais frequentemente
muito boa em 2011/2012 e 2012/2013 (56,3% e 54,9%, respetivamente) (ver quadro
11).
Quanto os/as professores/as coordenadores/as da saúde, a maioria afirma que as
disciplinas curriculares que lecionam contemplam conteúdos de educação sexual
(90,3%) e que têm estado envolvidos em atividades nessa área (93,4%). A maioria
refere ter formação específica em educação sexual (87,3%), nomeadamente ações
de formação com duração superior a 25 horas (64,9%) (ver quadro_12).
Quanto à qualidade da formação, a maioria considera que esta foi boa/muito boa
(88,2%). Referem que se sentem confortáveis com a abordagem dos vários temas
(73,8%), além de considerarem ter preparação científica (69,3%) e pedagógica
(68,4%) adequadas. A maioria refere não sentir dificuldade nenhuma ou quase
nenhuma em lidar com as sessões na área de educação para a saúde (90,1%) nem em
relação às sessões de educação sexual (87 %).
De acordo com a maioria dos coordenadores de educação para a saúde (72,6%),
todos os alunos (dos níveis previstos na Lei) das UO onde estes coordenadores
lecionam tiveram educação sexual ao longo dos últimos três anos, tendo sido
avaliados principalmente através da percentagem de alunos envolvidos nas
atividades (72,9%) bem como de avaliação qualitativa, quer nas disciplinas
curriculares (51,9%), quer nas disciplinas não curriculares (51,7%).
Relativamente à implementação do Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno,
consideram que esta tem sido muito boa/boa (51,4%).
Inquiridos relativamente ao nível de adesão dos intervenientes na área da
educação sexual na UO onde lecionam, os coordenadores consideram que a adesão
da direção (87,1%) e do centro de saúde (85,7%) é muito boa/excelente, que a
adesão dos professores (49,1%) e alunos (58,0%) é muito boa, e que a das
Associações de Estudantes (39,6%), pais (47,9%) e respetivas Associações
(43,9%), e comunidade em geral (38,4%) é satisfatória/boa (ver quadro_13).
Questionados quanto às estratégias que consideram pertinentes para promover o
envolvimento da comunidade na implementação da educação sexual, destacaram como
muito importantes a cooperação por parte da direção (70,5%), a participação dos
alunos no processo de organização e dinamização das temáticas da educação
sexual (53,5%), a formação dos professores (61,8%) e o estabelecimento de
parcerias com diversas entidades externas (69,6%) (ver quadro_14).
Na dinamização de atividades de educação sexual, os professores coordenadores
avaliam como boa a relação que estabelecem com alunos (59,4%), e razoável a
relação com famílias (50,2%). Relativamente à qualidade da intervenção dos
profissionais em relação à educação sexual dos jovens, os professores
consideram-na maioritariamente boa (55,9% boa para os conhecimentos; 55,2% boa
para as atitudes e 54,5% boa para os comportamentos).
A colaboração com o centro de saúde, na opinião dos professores coordenadores,
é muito boa (50,9%) na articulação com o CS e muito boa ( 44,8%) nas atividades
desenvlvidas com o CS. Na maioria, estas atividades baseiam-se na solicitação
de um técnico para dar formação aos alunos (82,8%), apesar de também ser muito
frequente a solicitação de materiais (74,3%), o encaminhamento de alunos com
necessidades individuais (73,1%), a solicitação de formação específica para
professores (55,2%). A articulação entre os professores é maioritáriamente boa
(51,4%), tal como a articulação entre professores e os diferentes órgãos
pedagógicos da escola (55,2%).
Em termos de evolução da implementação da educação sexual, os coordenadores são
da opinião que esta tem vindo a ser progressivamente integrada na cultura da
escola (59,9%), considerando que melhorou de 2010/2011 para 2011/2012 e depois
para 2012/2013. No geral, a implementação da educação sexual foi muito boa em
2010/2011, 2011/2012 e 2012/2013 (57,3%; 73,8% e 75,8%, respetivamente).
Estudo qualitativo Entrevistas individuais e coletivas/grupos focais
Foram selecionadas aleatoriamente cinco UO públicas por região educativa e,
dessas, selecionaram-se por cinco UO (uma por região educativa), que foram
contactadas e convidadas a participar nesta parte do estudo. Foram solicitadas
reuniões com a direção, com os professores coordenadores de educação para a
saúde, com representantes de Associações de Pais e Encarregados de Educação,
com representantes de Associações de Estudantes, e com atores envolvidos na
comunidade (organizações que participam, centros de saúde). Foram realizadas
cinco visitas a UO públicas portuguesas, uma por região, e aplicado em cada UO
o guião das entrevistas individuais e coletivas/grupos focais.
1) Os diretores apresentaram-se claramente sobrecarregados com tarefas
administrativas que não lhes permitem um envolvimento mais ativo. Respondem a
pedidos concretos, simples e que não envolvam verbas. Referiram que quanto mais
a dinamização da educação sexual faz parte da rotina da UO, ou seja, quando
mais for sistematicamente acompanhada pelos vários órgãos (através do projeto
educativo e do plano anual de atividades, que são apreciados e acompanhados
pelos diversos órgãos da UO), mais a resistência de professores, pais e alunos
fica reduzida, e a implementação da educação sexual mais bem-sucedida. Neste
âmbito, apontam o papel do Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno, que
centraliza a coordenação e supervisão de todas as atividades: curriculares e
extracurriculares, facilitando a função de avaliação dos órgãos e fomentando
uma cultura de escola. Referiram as Associações de Pais e Encarregados de
Educação como uma dificuldade. Explicaram que por vezes há pais ativos, mas que
o envolvimento destes na Associação (e na UO) é temporário, não promovendo uma
articulação duradoura. Apesar disso, segundo estes, os pais nunca se opuseram
diretamente à educação sexual. Referem que deviam existir cursos de formação
específica na área da educação para a saúde para os assistentes operacionais
(tal como os cursos que existem para os auxiliares de saúde), o que permitiria
que os assistentes operacionais ajudassem a dinamizar a saúde nas escolas.
Sublinham que é necessário continuar a formar os professores, além de
destacarem a importância de uma supervisão. Por outro lado, a escola precisa
de fixar a massa crítica, todos os anos recebemos professores novos e temos que
começar sempre do início com os alunos para alcançarmos êxito não só em termos
de educação para a saúde/educação sexual mas também em termos de sucesso
escolar; nas disciplinas curriculares tem de existir alguma estabilidade e
continuidade nas relações estabelecidas entre professores e alunos. Os
professores mais velhos tendem a resistir mais a trabalhar os temas da educação
sexual. Por outro lado, os que lecionam há mais anos, quando estão empenhados
no processo, têm uma maior formação e experiência. Referem dificuldades na
dinamização da educação sexual após a eliminação das ACND, incluindo, no 10.º
ano, a Formação Cívica, e no 12.º ano a Área de Projeto, que garantiam a
educação sexual no ensino secundário.
Quando a UO oferece atividades extra curriculares, os alunos participam pouco,
pois preferem ir para casa. O mesmo acontece quando a UO dedica um dia a
atividades em geral. Segundo os diretores, as atividades deviam ser
obrigatórias ou incluídas no tempo letivo e sujeitas a avaliação, sublinhando
que sem as ACND é muito difícil garantir a dinamização da educação sexual.
Registam a diminuição da ação da escola segura (também acumula com outras
atividades policiais, não estando tão disponível), o que faz com que a sua
intervenção seja menos efetiva, resultando, por exemplo, em mais inquietação à
volta da UO. Salientam que neste tão recente processo de agrupamento, as
escolas sede de agrupamento são sempre escolas secundárias que estão a começar
a lidar com o facto de agora ter agrupadas escolas de todos os níveis de
ensino, sendo necessário repensar a organização das escolas, dos seus
dirigentes, dos seus docentes, das suas associações de pais e de alunos.
2) Os professores do quadro com longa experiência de educação para a saúde
demonstraram algum desalento: muito trabalho, pouco envolvimento ativo da UO,
direção, pais e alunos e pouco reconhecimento no geral: Falta reconhecimento,
responsabilidade e cultura de escola. Afirmaram ainda que a UO, em geral,
delega neles e se desresponsabiliza. Referiram que os pais não se apresentando
contra a ES, em geral não se envolvem. No terceiro ciclo, não havendo áreas
curriculares não disciplinares (ACND), é difícil encontrar espaços e tempos
para a educação para a saúde. No ensino secundário, para além da eliminação das
ACND, houve uma redução na carga letiva semanal das disciplinas em que era mais
propício abordar o tema, como na Biologia e disciplinas relacionadas com a
Psicologia. Assim, os professores preferem não comprometer o cumprimento dos
seus programas, ou contactar agentes externos, para não se responsabilizarem
sozinhos por tarefas árduas e não participadas. Uma outra questão que apontaram
é os alunos não identificarem determinados conteúdos como conteúdos específicos
de educação sexual, quando são lecionados no âmbito de uma disciplina. A
restrição frequente dos temas da educação sexual a questões relacionadas com
infeções sexualmente transmissíveis e contraceção conduz os alunos a uma sub-
identificação de que realmente tiveram educação sexual na escola. Mencionaram
ainda a necessidade de formação. A necessidade de uma supervisão a seguir à
formação para garantir que a formação permanece atualizada e é seguida de ação,
uma vez que, segundo referiram, muitas vezes, alguns professores recebem
formação mas não se sentem confiantes ou capazes para abordar temáticas de
educação sexual com os alunos. Foi referido, quer pelos professores, quer pelos
alunos, a necessidade de os promotores da saúde terem, para além de formação
específica, um perfil específico (por ex.: boa capacidade de relações
interpessoais, à vontade na abordagem do tema, gestão serena e afirmativa de
conflitos, achar o tema importante para os alunos). A atitude dos professores
que assistem às ações promotoras de saúde dinamizadas por colegas com formação,
oscila entre: não autorizar a dinamização de educação sexual nas disciplinas
que leccionam (a única alternativa existente quando não há ACND) porque têm
matéria para dar; autorizar mas não se envolver, podendo ter uma atitude
passiva ou algo concorrencial; e envolverem-se ativamente. Neste último caso os
efeitos são exponencialmente benéficos para os alunos. Os professores
mencionaram haver sempre uma avaliação destas ações no âmbito da educação
sexual. As relações com o centro de saúde dependem dos técnicos e dos gestores
de cada centro e oscilam entre não existir relação, e existir um contacto muito
próximo e eficaz com redes de interação bem definidas. O planeamento das ações
de educação para a saúde é feito no início do ano letivo para todos estarem
atempadamente informados e não haver possibilidade de coincidir com momentos de
avaliação formal.
Apesar de estar fora do âmbito deste trabalho, vários professores, alunos e
pais referiram como algo premente para a promoção da saúde dos alunos em meio
escolar a qualidade da alimentação nas UO: algumas cantinas têm uma lógica
empresarial e são contratadas em outsourcing -não garantem a qualidade, a
comida nem sempre é boa, e as funcionárias não fazem parte da cultura escolar,
não se envolvendo tanto como agentes ativos no bem estar dos alunos. Por outro
lado, as condições oferecidas no exterior da UO são mais vantajosas (por
exemplo a existência de restaurantes e centros comerciais que oferecem espaços
atrativos, com preços atrativos para estudantes nas imediações da UO, onde são
considerados clientes para efeitos de exigir um bom atendimento). Este facto
está, no entanto, de acordo com vários professores, e corroborados por vários
alunos, a contribuir para o aumento de uma alimentação de menor qualidade. A
disponibilização anual, por parte do Ministério da Educação e Ciência, de um
financiamento para a implementação da educação para a saúde (da qual a educação
sexual faz parte) e para o qual as UO podem concorrer foi considerado
imprescindível para a continuidade deste processo. Os professores (tal como os
diretores) referem que as ACND, no geral, tinham um efeito positivo no
funcionamento da Lei n.º 60/2009, pois permitiam utilizar esse espaço sem
interferir com os programas curriculares das outras disciplinas. Acrescentam
que a Formação Cívica era a área de maior sucesso em termos de possibilidade de
dinamização da educação sexual. Na Formação Cívica, como a seleção assentava
(ou continua a assentar, nos poucos casos em que constitui a opção/oferta
escola) em temas específicos relacionados com a educação para a cidadania (por
exemplo: competências pessoais e sociais, relações interpessoais, relações
afetivas, violência e disciplina, segurança, educação sexual, entre outras)
era/é mais fácil implementar a Lei n.º 60/2009. No entanto, e muito
frequentemente, a seleção dos temas não é efetuada de forma planeada, pelo
facto de a resolução de problemas específicos da turma (por exemplo: questões
de disciplina, resolução de conflitos) abranger a totalidade do tempo
disponível para esta área. Também por esta razão as temáticas que são abordadas
nesta área dependem das necessidades que emergem do quotidiano. A seleção dos
conteúdos resulta, portanto, frequentemente, da premência dos problemas do
quotidiano e não da sua conjugação com um processo de planeamento a prazo, com
vista ao desenvolvimento das competências previstas nos planos curriculares,
não permitindo de forma sistemática e sustentável assegurar o cumprimento da
Lei n.º 60/2009. Referiram, ainda, que muitas vezes as UO necessitam de usar a
opção escola de forma permanente para o cumprimento de outros objetivos no
processo ensino/aprendizagem. Alguns professores corroboram estes factos
dizendo que há uns anos eles próprios dinamizavam esse processo nas ACND, mas
com o fim da Área de Projeto no 12.º ano, da Formação Cívica do 10.º ano (que
se iniciou e acabou no ano seguinte) e com o fim das ACND no 2.º e 3.ºciclos,
optaram por recorrer a agentes externos. Muitas UO recorrem a organizações
externas para a animação de sessões de educação para a saúde/educação sexual.
Tendo deixado de existir a possibilidade da componente letiva dos professores
coordenadores usufruir de uma redução, este recurso é cada vez mais utilizado.
As UO têm em geral um Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno, com instalações,
equipamentos, materiais e um horário fixo. A impressão geral é que estes
gabinetes servem de centro de planeamento das ações de promoção da saúde nas UO
e são usados mais pelos técnicos do que pelos alunos. Razões para tal oscilam
entre um desconhecimento da sua existência ou da sua localização (alunos), do
seu funcionamento e do que ali podem procurar (alunos), inclusive que tem na
generalidade dos casos uma valência de apoio individual em que podem solicitar
apoio para a resolução dos seus problemas, com privacidade e anonimato
(alunos). Também são apontadas como razões para a fraca dinamização do gabinete
a falta de tempo (professores), a falta de preparação (professores), a falta de
tempo de técnicos (técnicos), a falta de preparação dos técnicos que não
transmite confiança (alunos), e o elevado número de respostas muito mais
apelativas e concorrenciais na comunidade (técnicos). Em geral fica a impressão
que os alunos devem ter um papel mais ativo na definição das ações, medida que
é difícil de implementar uma vez que estes têm um tempo de permanência curto e
uma atividade organizada em anos letivos, embora no geral os próprios alunos
refiram a sua motivação para participar mais ativamente e a relevância da sua
participação num processo de educação, entre pares e mentoria, junto dos alunos
mais novos. Os resultados também sugerem que não há nenhum envolvimento dos
pais nos Gabinetes de Informação e Apoio ao Aluno, impressão corroborada pelos
representantes das Associações de Pais e Encarregados de Educação que
participaram nesta fase de entrevistas.
3) A participação dos representantes das Associações de Estudantes nestas
reuniões foi massiva. Alguns explicaram que as eleições das associações ocorrem
em outubro de cada ano e, assim sendo, entre setembro e novembro qualquer
articulação com as associações tem pouca resposta, e mesmo que haja
envolvimento não há, em geral, conhecimento direto pelos recém-eleitos.
Refletem sobre o papel das Associações de Estudantes e como este está
comprometido pelos calendários eleitorais e defendem que a direção da UO tem de
tomar estas lideranças em permanência e agir como um contexto permanente onde
as Associações de Estudantes são envolvidas, anualmente, na dinâmica da
educação sexual. Os representantes das Associações de Estudantes referiram que,
por vezes, as aulas de educação sexual são encaradas como momentos de lazer
pelos alunos. Mencionaram que verificam frequentemente a dificuldade de rapazes
e raparigas compreenderem e se interessarem pelos assuntos que são mais
relacionados com um dos géneros (como por exemplo as questões relacionadas com
menstruação e período fértil) e que é preciso saber falar das coisas em
conjunto, para além de que admitem que rapazes e raparigas lucram em saber as
questões que os outros têm e a sua resposta. Referem ainda que em algumas UO o
ambiente leva os alunos que gostam de participar em ações da UO a sentir-se
inibidos pelo gozo de que podem ser alvo por parte dos colegas. As atividades
que mais facilmente recordam são as semanas temáticas (por ex: a semana do
desporto, da alimentação, dos consumos). Alguns deles manifestaram alguma
incredulidade pelo facto de professores de outras disciplinas (que não Ciências
Naturais ou Biologia) orientarem sessões de saúde/sexualidade, apontando que
alguns têm muito boa vontade mas não estão preparados. Deste modo, os
representantes das Associações de Estudantes não se mostraram ao corrente da
formação complementar que pode ter um professor de qualquer disciplina, nem do
facto que a saúde e a sexualidade podem estar em conteúdos de todas as
disciplinas. Alguns representantes das Associações de Estudantes do ensino
secundário consideraram as ACND redundantes no ensino secundário, uma vez que
já tinham desenvolvido esse tipo de trabalho nos anos anteriores,
principalmente na Área de Projeto e no Estudo Acompanhado e referiram receio de
alguns colegas das áreas das artes, humanísticas e profissionais poderem ficar
sem informação/formação na área da saúde e educação sexual .Mencionaram novos
modos de envolver e comunicar com os alunos, como por exemplo, facebook,
webpages, plataformas online, painel eletrónico da UO, sinalética, visitas de
conhecimento à UO, tutores mais velhos, correio eletrónico coletivo. Falaram
também das animações dos átrios, nos diretores de turma no geral e no dia das
matrículas, em particular, como formas que a UO tem de divulgar os seus
recursos e o modo de os usar. Gostavam de falar com pessoas com experiência no
terreno - desde técnicos de saúde a pessoas afetadas pelas problemáticas e que
aceitassem testemunhar sobre a sua vida - ou que lhes fossem mostrados vídeos
anónimos feitos com essas pessoas, para terem informação credível. Gostavam que
a UO tivesse um site interativo (tipo second life) onde pudessem identificar
todos os locais da UO a partir de casa. A maioria dos representantes das
Associações de Estudantes entrevistados não sabia onde se localizava o Gabinete
de Informação e Apoio ao Aluno, ou se sabia não estava ao corrente do recurso
que esse constituía, nem se sentia à vontade para entrar, sugerindo para este
efeito que a localização, funções e técnicos disponíveis neste fossem
anunciados na webpage da UO e que as marcações para contactos individuais
pudessem ser feitas por correio eletrónicoou via plataforma online.
4) A participação dos representantes de Associações de Pais e Encarregados de
Educação foi muito limitada, apesar de, em vários casos, os professores
presentes nas entrevistas acumularem funções de pais de alunos quer na sua UO,
quer em outras UO da zona. A experiência geral foi que os pais/encarregados de
educação estavam pouco ligados à UO e não havia, em geral, um trabalho de
continuidade com os pais/encarregados de educação, muito menos centrado em
assuntos extra letivos. As direções parecem reunir pouco frequentemente com as
Associações de Pais e Encarregados de Educação, e as que existem necessitam de
revitalização. Quanto aos professores, para além da função de DT, pouco
contacto e ações desenvolvem em colaboração com estes. Quanto às Associações de
Pais e Encarregados de Educação, parecem estar muito direcionadas, quase que
exclusivamente, para os problemas de indisciplina e de resolução de conflitos.
No entanto, os (poucos) pais/encarregados de educação motivados revelaram
intenção de intervir de modo mais ativo na UO, mas não sabem como o fazer.
Também achavam útil uma maior mobilização dos pais/encarregados de educação na
UO, não apenas para efeitos de reclamação, mas para uma parceria real, mas
consideram ser muito difícil estabelecer lideranças para iniciar esta parceria,
ainda mais nas situações em que várias unidades orgânicas, de vários níveis de
ensino, se agruparam.
5) Muitas UO recorrem habitualmente a organizações externas para a dinamização
das sessões de educação para a saúde/educação sexual. Os agentes externos
começaram por intervir quase exclusivamente no horário estipulado para as ACND.
Com o fim das mesmas, as UO optaram por recorrer a agentes externos à escola no
horário das várias disciplinas, em especial das de Ciências Naturais/Biologia.
Estes agentes podem ser financiados pela UO, pelas autarquias, podem pertencer
a organismos sob a tutela do Ministério da Saúde (como são os centros de saúde
e os CAD); outras vezes têm financiamentos próprios e propõem eles próprios as
atividades às UO (como são a APF e outras ONG com financiamentos da DGS).
Segundo as entrevistas e grupos focais, estes agentes têm normalmente uma ação
pontual na UO podendo, por exemplo, contemplar todas as turmas do 10.º ano,
todos os anos; ou um conjunto de 2-3 sessões, por turma, ao longo do ano
letivo. Procuram trabalhar com os professores e consideraram estes, em geral,
muito acolhedores, e que, se participam menos frequentemente nas tarefas é
porque, em geral, estão sobrecarregados de burocracia. Procuram articular com o
psicólogo da UO (quando existe), mas este também está em geral muito
sobrecarregado e tem, em geral, funções específicas de orientação vocacional.
Há, por vezes, recurso a alunos estagiários das universidades para apoio a esta
missão de educação para a saúde/sexual. Estes articulam com os professores
coordenadores da educação para a saúde na UO. Todos relataram procurar avaliar
a sua ação. Em geral, estas ações são também avaliadas pelos professores e
estes trocam avaliações regularmente. Estes agentes participam em dias (ou
semanas) específicos, por exemplo da alimentação, da saúde, do exercício, da
prevenção do tabagismo, VIH/SIDA, álcool e substâncias psicoativas, que incluem
em geral ações como eventos, feiras, exposições e conferências. Conseguem
envolver alguns alunos, mas ' admitiram 'não tantos quanto o desejável, e
consideram não sensibilizar necessariamente os que estão mais vulneráveis.
Frisaram que atualmente não existe educação sexual em todos os anos de
escolaridade nem para todos os alunos, e não estão, em geral, envolvidos na
avaliação que a UO faz aos alunos nestas áreas.
DISCUSSÃO
Da análise dos resultados relativos à estatística descritiva das respostas aos
questionários (na primeira fase do estudo) e das entrevistas individuais e em
grupo (na segunda parte do estudo), ressalta que a Lei n.º 60/2009 está a ser
cumprida no que diz respeito à apresentação dos conteúdos de educação sexual
previstos na Lei e da carga horária preconizada. No geral, as UO organizaram um
Gabinete de Informação e Apoio ao Aluno e gerem o respetivo funcionamento. A
implementação da Lei é em geral classificada de Boa/Muito Boa. Depoimentos de
representantes das Associações de Pais e Encarregados de Educação e
representantes das Associações de Estudantes corroboram este facto, bem como
depoimentos dos vários intervenientes, nas UO privadas com contrato de
associação, que aceitaram participar. No entanto, dirigentes e professores
sublinham que as UO estão a fazer um enorme esforço para cumprir a Lei, alguns
questionando a capacidade para continuar este processo nas atuais condições. Os
professores consideraram-se muito sobrecarregados, muito pouco valorizados e
muito pouco reconhecidos nos seus esforços. Lamentaram a extinção das ACND
(áreas curriculares não disciplinares), uma vez que, sem estas, são forçados a
utilizar tempos das aulas curriculares para cumprir a Lei. Frisaram a
rentabilização das disciplinas de Ciências Naturais/ Biologia (no ensino básico
e no secundário, respetivamente) mas este facto leva a que os alunos do ensino
secundário das áreas de artes, de ciências socio-económivcas e de línguas e
humanidades, tal como os que frequentam cursos profissionais, não tenham acesso
fácil a estes conteúdos. Os professores lamentaram igualmente a não existência
de uma redução da componente letiva para o professor coordenador da saúde de
cada UO, implicando uma sobrecarga desse(a) professor(a) e, muitas vezes, a
contratação de equipas exteriores à UO com o objetivo de cumprir a Lei n.º60/
2009, não promovendo na unidade orgânica uma evolução em termos de autonomia e
de desenvolvimento de uma cultura de saúde própria.
Os alunos (representantes das Associações de Estudantes) referiram algum
cansaço pelo facto de os temas serem apresentados anualmente de forma idêntica
e sem progressão. Os alunos do ensino secundário gostariam de estar mais
envolvidos neste processo, como mentores, em atividades informativas e
formativas com colegas mais novos. Alunos, professores e pais sugeriram uma
progressão na abordagem deste tema, ao longo dos vários ciclos de aprendizagem,
sugerindo ainda uma monitorização que garanta que o assunto não se centre
unicamente nos aspetos biológicos da reprodução e nas infeções sexualmente
transmissíveis. Direções e professores referiram uma necessidade de refrescar
este tema, dando novo ímpeto à Lei e ao seu cumprimento, sublinhando-se a
necessidade de manutenção do edital anual a partir do qual o Ministério da
Educação e Ciência recebe propostas de solicitação de financiamento, por parte
das UO, para projetos na área da promoção da saúde e da formação de docentes.
Recomendações:
Para o Ministério da Educação e Ciência
1- Em Portugal, e em outros países europeus, a educação sexual (ES) é crucial
para reduzir os comportamentos sexuais de risco (ou pelo menos não permitir o
seu aumento). Assim, recomenda-se que a ES mantenha o seu caráter prioritário
em meio escolar, garantindo-se as condições necessárias, tais como a formação
de professores e pais.
2- Recomenda-se a manutenção da Lei n.º 60/2009 e da Portaria n.º196-A/2010, e,
aproveitando a ocasião desta avaliação, a promoção, a nível das UO, de um amplo
debate sobre a importância da matéria e sobre a importância do envolvimento de
todos os atores em meio escolar: direções, professores, pais e alunos.
3- Recomenda-se a formação de técnicos que, embora com principal foco nos
professores, deve incluir todos os técnicos que intervêm nas UO (psicólogos,
médicos, enfermeiros, assistentes sociais, assistentes operacionais, etc.).
Recomenda-se para este efeito, que o Ministério da Educação e Ciência assuma
uma liderança, na articulação e criação de sinergias com Centros de Formação e
Instituições de Ensino Superior.
4- Recomenda-se a implementação e valorização de estudos de investigação que
avaliem a ES, em especial em meio escolar. Em algumas áreas registam-se lacunas
na investigação. Salienta-se a compreensão da motivação e das competências dos
adolescentes para ter comportamentos preventivos, a compreensão da esfera
relacional e afetiva da sexualidade, o papel da família, dos amigos, da escola
e da comunidade neste processo, o perfil e a formação dos técnicos mais
eficazes na concretização de transmissão de saber e na concretização de
mudanças permanentes associadas à saúde e ao bem-estar.
5- Recomenda-se a extensão da proposta dos Gabinetes de Informação e de Apoio
aos Alunos aos Campus Universitário e Politécnico, constituídos por equipas
pluridisciplinares e com parcerias competentes no ramo (por exemplo: parcerias
com centros de saúde, hospitais, associações ligadas à sexualidade e a esta
faixa etária), com recurso às tecnologias mais recentes (principalmente a
internet) e formação entre pares, apoiando na implementação de campanhas de
prevenção universal, no esclarecimento e no treino de competências relacionadas
com a sexualidade (por exemplo: facultando informação e treino de competências
sobre métodos contracetivos). Estes gabinetes poderiam ter ainda um papel
sólido na formação inicial de professores e como centros de recursos de apoio a
professores após a formação inicial destes.
6- Recomenda-se a manutenção do protocolo de colaboração entre o Ministério da
Educação e Ciência e o Ministério da Saúde, dando um enquadramento sistémico à
colaboração entre as UO e os Hospitais, Centros de Saúde, Unidades de Saúde
Pública e Unidades de Saúde Familiar.
Para a Direção-Geral da Educação
1- Recomenda-se a manutenção da valorização da área criando condições para
soluções de continuidade e sustentadas: a) o edital anual, b) a redução da
componente letiva para um professor por agrupamento,mantendo a figura do atual
professor coordenador c) a redução da componente não letiva para os restantes
professores envolvidos, d) o restabelecimento de áreas curriculares não
disciplinares, e) a inclusão de um processo de avaliação do processo e dos
alunos, a nível das UO, f) a formação de professores, g) o acesso a materiais e
uma organização global para partilha de materiais a nível regional ou mesmo
nacional.
2- Recomenda-se que legislação como a Lei n.º139/2012 e o despacho-Normativo
n.º7/2013 sejam amplamente divulgados e debatidos a nível das UO,
sensibilizando as direções e otimizando o potencial de alguns dos pontos
previstos, nomeadamente 1) a oferta complementar (escolha da unidade orgânica)
prevista para o 1.º, 2.º e 3.º ciclos, 2) a flexibilidade e autonomia permitida
na gestão da componente letiva e não letiva dos docentes, 3) mecanismos para a
obtenção de crédito horário adicional, nomeadamente para o desenvolvimento de
projetos na unidade orgânica.
Para as Direções das Unidades Orgânicas:
1- Recomenda-se a rentabilização dos recursos pessoais da unidade orgânica,
incluindo sistemáticamente como parceiros ativos da direção e dos professores,
os próprios alunos, seus pais, os assistentes operacionais, outros técnicos de
saúde e educação, o centro de saúde, o centro da juventude, as comissões de
proteção das crianças e jovens em risco, as juntas de freguesia.
2- Recomenda-se a consolidação da existência de um Gabinete de Informação e
Apoio ao Aluno, reconsiderando a sua função em termos da gestão de materiais,
da participação ativa dos alunos e da colaboração com as famílias e com outros
agentes na comunidade (centro de saúde, centro da juventude, comissões de
proteção de crianças e jovens em risco, juntas de freguesia).
3- Recomenda-se um forte investimento na formação de técnicos na área da
educação sexual que inclua uma formação-base, quer a nível dos Centros de
Formação de Professores, quer a nível das Instituições de Ensino Superior
(Formação Inicial de Professores e Formação pós graduada) e uma formação
contínua, em todos os casos articulando uma parte teórica com uma componente de
supervisão em serviço.
4- A formação de técnicos, embora com principal foco nos professores, deve
incluir todos os técnicos que intervêm nas UO (psicólogos, médicos,
enfermeiros, assistentes sociais, assistentes operacionais, pais, etc.).
Recomenda-se que esta seja valorizada pelas direções das UO, numa convergência
de esforços onde o Ministério da Educação e Ciência pode assumir uma liderança
na gestão e rentabilização do processo (exemplo o estabelecimento de protocolos
com as Instituições de Ensino Superior e Centros de Formação de Professores).