Das nomeações às representações: os palavrões numa interpretação inspirada por
H. Lefebvre
Quando, em sua conhecida obra La présence et l'absence, Henri Lefebvre (1983
[1980]) se propôs abordar as representações, matutou consigo mesmo: que diriam
as pessoas se lhes perguntássemos como representariam a sexualidade ou o sexo?
Uma boa parte dos interrogados, suspeitou Lefebvre, responderia com gracejos,
ironias ou subterfúgios – o que não deixaria de ser significativo, pois os
sentidos da linguagem também se revelam através de subentendidos ou conteúdos
obscuros. Contudo, para Lefebvre, uma tal abordagem, com perguntas e respostas,
correria o risco de um duplo desconhecimento. Por um lado, o das representações
ocultas, não diretamente questionadas. Por exemplo, haverá diferenças de género
nas representações do sexo feminino? Por outro lado, correríamos o risco de
negligenciar as situações concretas (o vivido) em que se produzem ou circulam
as representações (Robinson 2003). É aqui que Lefebvre levanta uma hipótese
teórica e estratégica: o mesmo não pode representar-se a si mesmo, já que a
identidade só se realiza através da diferença. Vejamos, no exemplo sugerido,
onde nos levaria essa mesma hipótese. Desde logo, ao reconhecimento de que “o
masculino tende a representar-se no, por e através do feminino” (Lefebvre 1983
[1980]: 168), ainda que o feminino apareça representado por uma ausência. Como
chegamos a perceber o sistema de relações entre estes trâmites? Lefebvre
aponta-nos um caminho, o das mediações, alertando-nos, contudo, para o facto de
a representação não se poder reduzir a uma imagem espelhada, a um simples
reflexo, muito pelo contrário. Eis aqui um vasto campo muito pouco explorado no
domínio das ciências sociais: o das mediações na análise das representações.
Uma investida por estes domínios de pesquisa requer uma metodologia orientada
pela busca oblíqua de presenças na ausência. Essa metodologia, pioneiramente
desenvolvida por Henri Lefebvre,[1] é retomada e discutida no presente artigo,
em diálogo com outros contributos teóricos vindos sobretudo da antropologia, da
sociologia e da sociolinguística.[2] Para o efeito toma-se por objeto de estudo
o enigma dos palavrões. Como interpretar o pudor social no uso dos palavrões?
Por que se calam tais palavras quando saem do mundo do calão? Que sentidos
estranhos as transformam em palavras obscenas?
Não de todo apartados do universo da gíria e do calão, os estudos sobre os
palavrões têm explorado inevitáveis interconexões entre linguagem, sexualidade
e sociedade (Mattiello 2008; Cameron e Kulick 2003). Aspetos relacionados com
ofensas verbais e códigos de honra no uso dos palavrões têm também merecido a
atenção da antropologia (Blok 1981) e da sociolinguística (Sandmann 1993). Os
interditos à circulação dos palavrões, frequentemente associados aos tabus
sexuais, também têm atraído um crescente interesse de cientistas sociais de
diferentes quadrantes disciplinares – não apenas da antropologia, com pioneiros
contributos neste campo de análise (Leach 1973 [1964]), mas também da
psicologia (Jay 2009), da psicanálise (Arango 1996) ou da sociolinguística
(Anderson e Trudgill 1990). No entanto, falta aprofundar o diálogo entre estes
diferentes contributos disciplinares. Este repto é tido em conta na proposta de
análise sobre os palavrões que adiante se ensaia, ainda que o método
regressivo-progressivo de Lefebvre adquira uma relativa centralidade teórica.
Embora nunca o tenha sistematizado, o método regressivo-progressivo está
implicitamente presente em grande parte da obra de Lefebvre. O descritivo, o
histórico-genético e o analítico regressivo (Lefebvre 1953, 1989 [1959])
constituem os componentes essenciais do método que logo mereceu uma calorosa
recetividade por parte de Sartre (2002 [1960]). As teorias da presença-
ausência (Lefebvre 1983 [1980]) – levando em linha de conta o descritivo (no
caso em estudo: os palavrões explícitos ou que implicitamente se afirmam em sua
ausência quando invocados por outras palavras ou expressões) e o histórico
genético (a descoberta dos meandros históricos e sociais na génese dos
palavrões) – permitem-nos dar conta de um importante achado, num registo
analítico-regressivo: as significações que saltam à vista encobrem outros
sentidos, não apenas em profundidade, mas frequentemente em extensão, isto é,
quer na historicidade do que se passa à superfície da vida quotidiana, quer na
mutabilidade do vivido. As mediações propostas entre o vivido, o percebido e o
concebido mostram-nos que, por detrás do limbo das palavras e dos palavrões,
encontramos um amplo campo de análise social. Por isso mesmo, os achados da
linguística não passaram despercebidos à antropologia desde a pioneira obra de
Marcel Mauss (Karsenti 1997).
O método regressivo-progressivo aplicado à linguagem
Aplicado aos fenómenos da linguagem, o método regressivo-progressivo, ancorando
as falas do presente aos enlaces sociais da historicidade e mutabilidade do
vivido, aparece como uma estratégia orientada para a busca de sentido. Mas não
onde supostamente esse sentido poderia parecer mais evidente, na significação:
“A significação é literal. O sentido remete-se de todos os lados para outra
coisa: para o passado, para o adquirido, para a atualidade, para a memória, por
um lado – e, por outro lado, para o virtual, para os possíveis, para a
diversidade dos campos percetíveis carregados de sentido” (Lefebvre 1968
[1966]: 215). Ao mesmo tempo cintilante e fugidio, o sentido acabaria por
surgir de uma espécie de opacidade. Estamos num campo de debate semiológico que
– como viria a ser reconhecido por Melandri (1968) – abre portas a uma
hermenêutica tensional entre a sintomatologia (onde o signo aparece numa
relação de causalidade com o designado) e a simbologia (onde essa relação de
causalidade não faz sentido). Melandri (1968) sugere, aliás, uma isomorfia
entre a distinção freudiana que coloca o consciente ante o inconsciente e a
distinção semiológica que coloca frente a frente a historiografia e a história
real (a que tem de ser resgatada). Então, a história crítica, a que promove o
resgate, assemelhar-se-ia a uma espécie de terapia cujo objetivo seria o de
recuperar o inconsciente, entendido como o histórico removido. No campo aberto
por esta rutura epistemológica podemos situar o método regressivo-progressivo
de Lefebvre, a arqueologia do saber de Foucault (1966, 1969, 1971) e o método
regressivo-arqueológico de Melandri (1968). Em qualquer dos casos há um
rastreio da genealogia real dos acontecimentos até se chegar a uma bifurcação
de registos do fenómeno indagado – como a que opõe, no caso da psicanálise, o
consciente ao inconsciente. Segundo Melandri, não se trata de chegar ao
inconsciente enquanto tal, mas de desvendar os fatores, circunstâncias ou
processos que fizeram do inconsciente o que ele é, no sentido dialético de
removido. O procedimento regressivo tem esse objetivo: o de lidar com o
removido. A história crítica é aquela que é capaz de recuperar o alienado, o
excluído, o removido, através da contraposição dialética entre racionalização e
sublimação.
Essa preocupação em fazer pulsar o removido encontra-se bem presente no método
regressivo-progressivo de Lefebvre, dada a sua valorização das temporalidades
da história (Martins 2003). Nos seus estudos sobre linguagem e sociedade, o que
Lefebvre (1968 [1966]) nos mostra é que a palavra tem uma inscrição temporal
que lhe dá um valor mutável. Essa variabilidade decorre da mobilidade dos
significados das palavras, pois elas são andantes (Galeano 2004), aladas (do
latim alatus: “que tem asas”). Mas essa capacidade de voo pressupõe um espaço
de aterragem, um lugar de circulação ou de pouso (Nichols 1992) – seja ele um
espaço de escrita (uma folha de papel, uma lousa, um ecrã de computador) ou de
interação, onde a palavra possibilita a comunicação. É precisamente esta
relação entre tempo e espaço que o método regressivo-progressivo explora,
permitindo que a linguagem deixe de ser considerada um saco de palavras, isto
é, uma língua-nomenclatura, com significação e sentidos precisos,
inquestionáveis. No saco de palavras, cada palavra designa uma coisa, um
objeto, um ser. Com Lefebvre, à boleia de Saussure (1997 [1916]), abalou-se
esta estabilidade. Porém, Lefebvre esquiva-se à tendência saussuriana de
fetichização da linguagem (Arrivé 2007), posicionamento que deixaria escapar o
sentido mais profundo do que se nomeia: “A representação dissolve-se no signo,
unidade de dois termos e duas caras, o significante e o significado, o
representante e o representado. Mas que sucede com o sentido?” (Lefebvre 1983
[1980]: 23). É essa busca de sentido que mobiliza Lefebvre para o estudo da
linguagem, ao considerá-la um “tesouro do conhecimento”.
Para chegar a esse tesouro há que explorar e deslindar o vínculo entre
linguagem e sociedade. Manifestando-se crítico em relação aos que defendem que
a significação se define pela denotação (o conteúdo, o significado), Lefebvre
sugere que, pelo contrário, o que se consegue exprimir empobrece frequentemente
o sentido. O que se exprime é apenas vibração do sentido. Daí o desafio de
passar do expressivo (descrição) para o significativo (interpretação), tendo em
vista o tesouro da linguagem. Tesouro porquê? Porque a linguagem é um núcleo
central de descobertas, uma “metáfora cheia de promessas” (Lefebvre 1968
[1966]: 15). É aqui que o procedimento regressivo, tão caro à psicanálise,
representa para Lefebvre um verdadeiro desafio metodológico. Aliás, o próprio
acaba por reconhecer que a psicanálise abriu caminho para a descoberta desse
tesouro ao promover o questionamento da linguagem e ao incitar a descoberta de
tensões, simultaneamente reveladas e dissimuladas, de necessidades e desejos,
“normalidades” e “desvios” (Lefebvre 1968 [1966]: 15). O método analítico-
regressivo de Lefebvre projeta-se nesse campo de tensões que se cruzam entre a
superfície do observável e a sua subterraneidade, entre o que se dissimula e o
que se descobre que é, no fundo, o social.
Esta aposta nas estruturas da ausência é uma estratégia de busca de sentido na
obscuridade das conotações. Elas arrastam as denotações para um mundo de outras
significações: “o número treze tem uma denotação clara (treze convidados, treze
ovos) e uma conotação obscura para as pessoas supersticiosas” (Lefebvre 1968
[1966]: 107). Ou seja, surgem frequentes desdobramentos da conotação, através
das aberturas que se produzem entre significante e significado. O desafio não é
propriamente o de privilegiar o oculto sob o aparente – o que se dissimula ou
oculta – em detrimento do evidente. É a relação entre o evidente e o oculto
(Pais 2002: 65-68) que interessa ter em mira para rasgar os véus que as
representações tecem à sua volta, obnubilando o sentido emaranhado numa outra
relação: a que se estabelece entre representado, representante e representação.
Como desvendar esta relação e chegar ao sentido que encerra? Só há um caminho.
O sentido de qualquer enunciado pressupõe a consideração de um contexto não
somente linguístico mas também prático e social (Jourdan e Tuite 2006): “O
problema é o de descobrir a relação da linguagem com a ‘vida real', isto é, com
a praxis” (Lefebvre 1968 [1966]: 85), por outras palavras: “a passagem da
língua para a vida e da vida para a língua”; ou ainda, “das estruturas
linguísticas para as estruturas sociais e reciprocamente” (1968 [1966]: 85).
Para tanto, há que situar no espaço e no tempo os processos de comunicação
através dos quais se veiculam as representações (Jodelet 1989). Daí a
valorização que o método regressivo-progressivo dá ao vivido e ao histórico. De
facto, o vivido não pode ser desprovido da sua historicidade, o mesmo se
podendo dizer em relação à linguagem. Dando um exemplo, não é por acaso que os
historiadores têm dado uma especial atenção à relação entre movimentos
migratórios e antroponímia (Salinero e Testón Núñez 2010).[3] Nas roturas
biográficas associadas aos processos de migração encontramos frequentes
mudanças de nome entre os migrantes. Na Época Moderna, podia-se emigrar com o
nome de um primo, adotar o nome da clientela de um protetor, eleger um
pseudónimo que camuflasse uma trajetória de vida suspeita. Havia emigrantes que
deixavam na terra de origem a sua identidade real, viajando com uma identidade
fingida (Testón Núñez e Sánchez Rubio 2010). E porque nem sempre é fácil
descobrir as identidades que sob os nomes se escondem, estes podem ser peças de
um jogo de enganos.
Em suma, é no vivido que a linguagem ganha sentido: “A linguagem permite
descrever e dizer situações […]. O sentido provém de situações e regressa às
situações” (Lefebvre 1968 [1966]: 295). Numa trama de mediações, o percebido
desempenha o papel de intermediário (mediação) entre o vivido e o concebido
(entre a vida e a reflexão). É a análise dialética (Martins 1996; Hess 1988)
entre as dimensões do vivido, do concebido e do percebido que permite a esta
última dimensão um lugar de evidência pela densidade e força que adquire nesse
jogo de mediações. Através destas mediações descobrimos que no vivido a
linguagem assume uma mais-valia, um valor distinto. É por isso que o sentido
das palavras é mais difícil de atingir que o seu significado – já que este
imobiliza o signo, não sendo por acaso que o signo fica inerte no significado.
Ou seja, por detrás do limbo das palavras encontramos um amplo campo de análise
social. Como decifrar os enigmas da linguagem? É esse desafio que nos move na
busca do sentido de alguns palavrões.
Um estudo de caso: o enigma do chá misterioso
Há cerca de uma década realizei várias incursões etnográficas por Trás-os-
Montes, na alçada do movimento das “Mães de Bragança”.[4] As “mães” pretendiam
expulsar da cidade as trabalhadoras de sexo brasileiras, por elas apelidadas
“putas” e “cabras”. Durante a pesquisa (Pais 2011) fiquei surpreendido por as
Mães acusarem “as brasileiras” de seduzirem os maridos com feitiços e macumbas.
Falaram-me de um chá com o poder de “amarrar” os maridos. Nunca me revelaram o
nome do misterioso chá. Questionado sobre o assunto, o proprietário de uma das
mais conhecidas casas de alterne da cidade – então em prisão domiciliária –
corroborou, sorridentemente, os poderes do chá. Logo que me revelou o nome,
anotei-o, pois nunca ouvira falar da espécie revelada. Pensei tratar-se de um
chá importado do Brasil, qualquer variedade exótica das muitas que El-Rei
D. João VI de Portugal mandara cultivar, em 1811, no Jardim Botânico do Rio de
Janeiro.
Quando, despreocupadamente, revelei o nome do chá a dois colegas brasileiros –
um antropólogo e uma socióloga que me acompanharam no trabalho de campo[5] –
arregalaram os olhos e, levando ambos a mão à boca, sustiveram uma gargalhada.
A socióloga, assomada de pânico, advertiu-me: “Oi, Machado! Você não vai falar
disso, não! Viu?! Por favor, Machado!” O antropólogo, buscando argumentos mais
convincentes de dissuasão, advertiu-me que, numa universidade brasileira, um
estudante que fizera uso do termo numa tese de mestrado tinha sido convidado a
eliminá-lo, sob pena de poder vir a ser reprovado por ofensa à dignidade dos
membros do júri. Liberta do termo incómodo, a tese saiu incólume do embaraço,
aprovada com distinção e louvor. Apesar de, em Casa-Grande & Senzala,
Gilberto Freyre (1995 [1933]: 251) opinar que “a maior delícia do brasileiro é
conversar safadeza”, tudo tem os seus limites. Acontece que a palavra que lavra
mistério, de uso tão problemático no Brasil, é em Portugal uma palavra desusada
e inócua, tendo o mesmo significado com que Machado de Assis a usou em Dom
Casmurro(1899): o de uma simples caixa. Para não ferir suscetibilidades,
ocorre-me ocultar o nome original do chá, imitando as personagens dos célebres
livros de Harry Potter quando, por temor de referirem o nome tétrico de um
tenebroso feiticeiro (Voldemort), a ele aludiam com uma insuspeita designação:
o Quem Nós Sabemos. Seguindo a mesma estratégia, a entidade que dá nome ao
milagroso chá poderá ser designada Quem Nós Sabemos. Inspirado em Lefebvre,
apresento de seguida algumas hipóteses de investigação sobre o imbróglio que
envolve o nome do chá. À frente delas uma ideia, um princípio orientador que
desde já anuncio. Se não fizermos uma distinção entre as palavras “nuas e
cruas” e os sentidos (literais ou obscuros) com que se vestem quando se
cozinham umas com as outras, não fará sentido realizar análise de discurso e
muito menos tomá-lo como um facto social. Bastaria enunciar as palavras, uma a
uma, amarradas aos seus significados isolados e diretos. O chá de Quem Nós
Sabemos é uma mistela que dá que pensar, não tanto por seus pretensos efeitos
mágicos mas, sobretudo, por seus impactos semióticos e socioantropológicos.
Palavrões: o que mostram sob o que escondem
Uma vez que a nomeação de Quem Nós Sabemos é problemática quando dita no
palavrão que dá nome ao misterioso chá, sobrevêm muitas outras nomeações que
tenho vindo a reunir numa extensa base de dados que já ultrapassou o meio
milhar de registos. Muitos destes nomes correspondem a designações que apenas
identificam na base do subentendido, como se correspondessem a códigos cifrados
que impedem de nomear diretamente o que, possivelmente, já terão suspeitado o
que seja, mesmo quando ao abrigo de expressões redundantes como: a Inominável,
Aquela, A Própria, A Que É, A Estranha, A Dita Cuja, Fulana, Ela, Elazinha,
Toda-Toda. Apelidos que, desde logo, nos desvelam o género feminino da coisa
nomeada. No fundo, são nomeações que envolvem um secretismo disfarçado, um
falso anonimato, um incentivo ao burburinho, sinal de que Quem Nós Sabemos pode
envolver-se em atividades clandestinas ou ilegítimas, daí que também ganhe o
apelido de Não-Conta-Pra-Ninguém. O curioso é que o indizível termo recobre uma
realidade à qual se diz que devemos a nossa existência. Um poeta popular
brasileiro (Briguet), questiona-se: “O que seria de mim sem ela? Nem sequer eu
nasceria […], somos todos filhos dela”. E no entanto, arrastando uma dupla
personalidade, Quem Nós Sabemos acaba por ser nomeada de Perseguidora e
Perseguida, neste último caso podendo estar sujeita a humilhações e cominações.
Num livro sobre A Medicina na Voz do Povo, um médico português (Costa 2007)
revelou que uma sua doente, ao mesmo tempo que se lamentava da maleita que a
trazia à consulta, logo pressagiou a causa: “Tenho esta comichão na Perseguida
porque o meu marido tem uma infeção na ponta da natureza.”[6] Não se pense que
os nomes integram um sistema arbitrário. Produzem-se no mundo de que fazem
parte, no vivido. Eles escondem e revelam enigmas que deslizam dos atos de
nomeação para as coisas nomeadas, e vice-versa.
Ao guerrearem-se entre si, os nomes acabam por gerar verdades que se
relativizam ao contradizerem-se. Como sugere Barthes (1977: 39), “a linguagem é
um topos guerreiro” – lugar de significados que se desprendem de signos, num
deslizamento de sentidos e metáforas, dicções e contradições, significados que
se pelejam por incapacidade de alcançarem o significante. Enquanto
identificadores de afeto e intimidade, os diminutivos dados a Quem Nós Sabemos
são abundantes, mas também surgem modalidades de tratamento formais,
respeitosas ou distanciadas, do tipo Dona Pepa, Dona Felisbina ou Dona Vera. O
nome personifica a existência, dá-lhe um cunho de individualidade. Porém, o que
mais interessa na relação do nome com a coisa nomeada é o que está para além
dessa relação. Os nomes funcionam como cartões de visita que, sobretudo,
indicam quem é quem aos olhos de quem nomeia. Por isso mesmo, o espaço mítico
constituído pela rapsódia de nomeações dadas a Quem Nós Sabemos é um espaço de
códigos cujas significações conflituam entre si, não apenas em função do que
podem representar mas, sobretudo, por corresponderem a construções
intencionais, expressão de divisões sociais (Halliday 1978). Alguns repentistas
brasileiros dão conta dessa realidade, sinalizando a possibilidade de o
palavrão associado a Quem Nós Sabemos equivaler a uma contralinguagem demarcada
do universo linguístico de classes abastadas: “O rico toca piano / O pobre toca
corneta / O rico é que se masturba / O pobre bate punheta/ Xana de rica é
vagina / Xana de pobre é [Quem Nós Sabemos]”.
A criação imaginária ultrapassa os limites da representação na medida em que
amplifica as simbolizações do que representa (Legros 1996). É o caso dos
referenciais lúdicos associados a Quem Nós Sabemos quando é apelidada de
Barbie, Bibelot, Boneca ou Ioiô. Podemos procurar paradigmas onomásticos que
nos levem do nome à essência da coisa nomeada, mas esbarramos sempre em
nomeações que descarrilam, ora como semantemas (noções ou categorias relativas
à realidade), ora como morfemas (categorias de pensamento). A ordem do discurso
converge frequentemente para representações estereotipadas e, quando assim
acontece, muitas nomeações de Quem Nós Sabemos surgem como veículos de
afirmação de um indisfarçável machismo. Estamos perante metaforizações que nos
permitem compreender a realidade de uma coisa em função de imagens associadas a
outra, incluindo a compreensão de identidades sociais a partir dos imaginários
em que essas mesmas identidades se projetam. O que se sugere é que,
frequentemente, os nomes dados a Quem Nós Sabemos simbolizam, metaforicamente,
uma dominação masculina (Bourdieu 1998). Ou seja, os registos semânticos
inventariados dão conta de uma dominação de género que estrutura o que se diz e
o modo como se diz, um dizer que se afirma para além do que é dito (Guiraud
1978). No entanto, representações elogiosas coexistem com as temerosas,
indiciando uma masculinidade ameaçada, ainda que ironicamente. Num tal registo,
e numa época em que as redes terroristas proliferam, Quem Nós Sabemos aparece
associada a enredos conspiratórios. Há quem não hesite em a apelidar de Talibã
ou Bin Laden ou a descreva como um agente malfeitor: Perdição, Perigosa,
Calamidade, Escraviza Homens, Desgraça de Macho. Outros apelidos sinalizam
tendências macabras: Assassina de Palhaço, Bicho Que Mata o Homem, Cova do
Defunto, Ali Onde Eu Me Acabo. Enfim, estamos perante nomeações que emergem,
seguramente, de uma “comunidade discursiva” (Maingueneau 1984) – masculina, no
caso –, evidência que não pode ser desprezada.
Poderes ocultos
A indizível é também apelidada arma de agressão, podendo o motejo ir de uma
simples Machadada a um poderoso Canhão, passando por uma trivial Pistoleira.
Ela é também vista como uma lutadora – Princesa Guerreira –, reunindo ainda
predicados de domadora: Amansa Macho, Devoradora, ou Superpoderosa. Este último
atributo parece ser reivindicado por algumas mulheres. Num livro, editado em
Portugal, da brasileira Nelma Penteado, sugestivamente intitulado Os Segredos
das Mulheres Brasileiras para Manter os Homens Loucamente Apaixonados, é dado
às mulheres o conselho: “Use o termo poderosa […]. Além do mais é um nome
bonito que já deixa um homem ansioso para conhecer ‘tal poder'” (2010: 116). O
badalado poder de Quem Nós Sabemos foi também testemunhado por Pina-Cabral
(2003: 55-86) quando, no Noroeste de Portugal, descobriu que negociantes e
caçadores ficavam atemorizados sempre que se cruzavam com uma jovem viúva. Mau
presságio para negócios e caçadas. Os negociantes queixavam-se de que os ganhos
iam por água abaixo e os caçadores lamentavam-se de que as espingardas perdiam
a pontaria, por isso friccionavam o cano das mesmas entre as pernas, contra os
genitais, para corrigirem a pontaria.[7] Como quer que seja, os poderes para
gerar o mal também podem gerar o bem. Com efeito, se Quem Nós Sabemos tem sido
considerada um Portal do Inferno, fonte de desgraças e sofrimentos, também
aparece como um ícone: sagrada, venerada, possuidora da capacidade única de
“dar à luz”. A incompatibilidade dogmática entre o bem e o mal desestrutura-se
porque a realidade nomeada alberga forças contrárias, forçando-as à
convivência. Em suma, no imaginário – principalmente no masculino, onde mais
fervilham estas representações – há uma união de opostos: tese e antítese, ao
mesmo tempo que síntese.
Ainda em relação aos poderes ocultos de Quem Nós Sabemos, na Catalunha havia o
costume de as mulheres dos pescadores exporem os genitais ao mar antes de os
maridos embarcarem. Acreditavam que, desse modo, o mar se acalmava – ao
contrário do que sucederia se nele urinassem. A exposição dos genitais
femininos é um recurso que tem sido usado, ao longo da História, para expulsar
demónios, afugentar espíritos malignos, impedir que vários tipos de males
aconteçam. Quando os perigos espreitam ou as adversidades ameaçam, a sabedoria
popular de algumas culturas dita que a melhor opção de uma mulher é erguer as
saias (Blackledge 2006 [2003]: 17-76). O mesmo recurso é usado em discussões e
zaragatas públicas no Norte de Portugal. Numa delas observei que o levantamento
das saias era acompanhado de fortes batimentos numa das nádegas pela mão oposta
à que levantava a saia. Não é fácil explicar esta exposição deliberada ou
insinuada dos genitais femininos, de que existem abundantes referências no
folclore e na literatura. Tentativa de humilhar os adversários? De os seduzir?
De os atarantar? Mera superstição?[8] Uma coisa é certa, Quem Nós Sabemos
arrasta um mito de poder e um poder mítico.
O mito do poder resvala para a incapacidade de o representar ou até mesmo de o
nomear de uma forma unívoca. Daí a pluralidade contraditória das nomeações e
representações de Quem Nós Sabemos.Esta ambivalência, de quem pode ser uma
coisa e o avesso da mesma, ocorre também quando passamos em revista as suas
representações religiosas. Ela é Deusa, Peregrina, Santinha, Irmã Maria,
Imaculada, Dona Anja; ou então é vista como Paraíso, Vale Sagrado, Portal do
Céu, Abençoada, Aba de Estrelas, Cricrita dos Céus, Estrela Guia, Luz no Fim do
Mundo, Sino de Igreja, Milagrosa, Acolhedora dos Santos. Mas, lá está, os
apodos vilipendiosos retratam-na também como Profana, Libertina, Fatal,
Libidinosa, Sinistra, Pecado, Pecaminosa, Sem-Vergonha, Tentação do Diabo. O
método regressivo-progressivo de Lefebvre ajuda-nos a compreender esta
diabolização, onde as palavras se convertem num mito de arquipotência que, no
caso em estudo, afirma o ser e o acontecer de uma idealizada essência feminina.
Com efeito, nos tempos da Inquisição, a mulher era vista como um ser que
facilmente se deixava cair em tentação, dada a suposta debilidade da sua fé na
palavra de Deus (Cawthorne 2004). Como quer que seja, embora imaginariamente
convertida em artesã demoníaca, Quem Nós Sabemos é capaz de destilar amor do
mesmo modo que sortilégio. Ela é reversível porque polivalente. Divina e diabo.
Mágica porque vista como tendo poderes sobrenaturais, por intervenção de Deus
ou do Demónio. E uma vez que um dos atributos da magia é o de criar imagens
(Mauss 2003 [1902-1938]), ela própria é ela mais as imagens a que dá lugar. Em
suma, por ser uma realidade sulcada em todas as direções no imaginário do
desejo ou do temor, ela pode assumir múltiplos nomes, saturando-se de
analogias, metaforizações, alusões. O volumoso caudal de tão exóticas nomeações
prova a incapacidade de acoitar sob um único nome realidades plurais em suas
significações. A menos que esse nome se exceda de sentidos permitindo pensar-se
o indizível, numa espécie de “síntese criativa” – expressão que Weber (1993
[1922]: 38-45) usava para dar conta de diversos tipos de conexões (psíquicas ou
culturais). Esse nome existe, ainda que indizível. O pudor em o verbalizar
esconde um enigma por desvendar.
Linguagem e pudor
Como interpretar o pudor social que se projeta no uso dos palavrões? Qual a
razão pela qual o nome que é dado ao chá misterioso é uma palavra maldita? Como
bem o sugere Leach (1973 [1964]), a compreensão dos tabus linguísticos passa
pela valorização do não dito, do interdito, do que socialmente produz a
obscenidade. Quem Nós Sabemos poderia denominar-se “Órgão Sexual da Mulher” ou
mesmo “Vagina”, mas estas designações assépticas escondem o tabu que o palavrão
denuncia às escancaradas, daí que o tétrico termo se tenha transformado num
interdito linguístico, sucumbindo a rumores reverenciais, a uma decência
social. Porém, o tabu continua presente em sua ausência. No lugar do palavrão
surgem imensas designações substitutivas ou sucedâneas, que o tornam presente
em sua ausência. Por outras palavras, os controles repressivos sobre a
sexualidade libertam a imaginação na criatividade da linguagem. Não podemos
menosprezar os mecanismos sociais que geram o processo de transformação
simbólica de uma simples palavra num palavrão ou num prenúncio do mesmo. No
caso em estudo, o tesouro da linguagem é um reservatório de imaginários que se
alimentam de um cozinhado aparentemente incongruente, onde a ficção se
entrelaça com o vivido na antecipação de um retorno imaginado a lugares de
memória ou na projeção de desejos fantasiados ou reprimidos.
Dito isto, os corpos – representados no sexo e na sexualidade – ganham sentido
cultural, na medida em que as palavras os habitam. Nos atos de nomeação, as
palavras tatuam culturalmente os corpos. Essas tatuagens – entendidas como
mediações – são formas de ler o social. Assim sendo, há que levar a sério os
palavrões, deixando de lado a “autoridade etnográfica” arrogante (Clifford
1991) que desvaloriza as categorias nativas como chaves de interpretação do
vivido. As metaforizações e tropismos (Fernandez 1991) que giram em torno de
Quem Nós Sabemos permitem dar visibilidade ao indizível, em jogos de nomeação
cujo encanto recrudesce com o vínculo de parentesco da ilusão com o mito
(Lefebvre 1962; Lévi-Strauss 1978; Durand 1981). Jorge Luís Borges (1983: 178)
caracterizou a literatura alegórica como uma fábula de abstrações, embora
personificadas. O mesmo se passa com as nomeações alegóricas dirigidas a Quem
Nós Sabemos. Elas acentuam aparentes singularidades que todavia se movem para
um ideal – porque em mira não estão propriamente singularidades mas sim uma
espécie; não as espécies mas sim um género; não os géneros mas sim uma
divindade; não o múltiplo mas o uno: o “universal triunfante” sobre o
“particular irredutível” (Appadurai 1996: 64). De qualquer forma, dá-se também
uma simbiose entre duas realidades intrínsecas: uma material (substantiva) e
outra formal (idealista). Num caso, Quem Nós Sabemos é um agente produtor de
desejos, sensações e experiências a partir de sua existência singular e
material. Noutro caso, ela é aquilo que faz de si o que é, a forma em que se
encaixam todas as singularidades, pois o universal apenas é alcançável por
mediação das partes. Ou seja: se existir é diferir, a diferença é, de certo
modo, o lado substancial das coisas: o que elas têm de mais próprio e comum,
apesar das qualidades que as singularizam, umas em relação às outras, como
Tarde (1999 [1895]) bem o demonstrou em sua monadologia. Nesta dialética, o
vivido (registo do experienciado) e o imaginado (registo do idealizado)
convergem para o discurso (registo do significado). Os nomes vinculam-se a
vidas vividas de coisas reais (Rosenstock-Huessy 2002 [1981]). Por isso mesmo,
Quem Nós Sabemos é um lugar de circulação de sentidos, de condensação de
imaginários e fantasias, um centro que é também lugar de topofilias e
topofobias, uma territorialidade de medos e anseios, desejos e equívocos,
excitações e proibições. Todos estes imaginários são mais do que meras imagens
refletidas de uma qualquer realidade. São também criações incessantes de
imagens que criam a sua própria realidade (Castoriadis 1975). Nela se
enfileiram significações que remetem para distintas ordens de representações,
ao convocarem o percebido, o vivido e o concebido. Uma outra questão é a de se
saber por que razão há que buscar no imaginário um complemento necessário da
ordem social. De uma ordem que suscita identidades imaginárias com roupagens
simbólicas.
Deslizes e tresmalhações
O método regressivo-progressivo permite-nos compreender por que razão a
ilegitimidade de se dizer o que, por decoro moral, é indizível ganha novos
sentidos a partir da articulação do vivido com o percebido e o concebido.
Vejamos, mais em detalhe, um outro controverso nome que é dado a Quem Nós
Sabemos – o de Cabra. O seu significado linguístico remete para um mamífero
ruminante, fêmea do bode. No entanto, o sentido que a palavra desponta escapa-
nos se não levamos em conta o seu contexto de uso, na alçada de uma
historicidade que nos permita uma aproximação aos refluxos de significação do
nome. Até há cerca de três ou quatro décadas, ainda existia no Norte de
Portugal um rito denominado “pagamento da cabrita”. Qual o sentido que aqui tem
o termo cabrita? Usando o método regressivo-progressivo e resgatando a génese
histórica da significação do termo, descobre-se que o antigo rito se projeta
num universo de significações onde impera a ideia de uma ordem ocultamente
prescrita. Os rapazes consideravam as moças de suas aldeias como propriedade
interdita aos forasteiros. Nalguns casos, exerciam uma espécie de direito sobre
as moças da terra que consistia em as apalpar quando circulavam pelas ruas
(Fontes 1974: 106). E que acontecia se algum rapaz forasteiro pretendesse
namorar como uma moça da aldeia? O direito somente era concedido mediante uma
penalização, o pagamento da cabrita. Ao descobrirem que uma moça se deixava ir
pelo “arrastar de asa” de um forasteiro, os rapazes da aldeia invadiam a casa
dos pais da moça, quando o noivo lá estava, para o obrigar a sair e pagar as
inevitáveis rodadas de vinho à rapaziada. Em caso de resistência ou
insubmissão, era amarrado a uma corda e mergulhado numa fonte, num poço ou num
rio. Convencido o noivo, rumavam todos para a primeira taberna que
encontrassem, o noivo à frente e os rapazes da aldeia atrás, a cantar. Lá
chegados, o noivo pagava vinho, pão e bacalhau para todos. Depois peregrinavam
por outras tabernas da aldeia, comendo e bebericando (Lages 1983).
O pagamento da cabrita é, certamente, um rito integrativo. Porém, arrasta
também a simbolização de um status quo. Por isso, o rito faz sentido porque
ordena a desordem, conferindo meios para a controlar. Mas o rito não assegura
uma integração plena. Mesmo tendo pago a cabrita, o noivo de terra alheia
continua a ser olhado como “de fora”. Se um rapaz que tivesse pago a cabrita
por namorar uma moça de aldeia vizinha viesse a namorar com outra da mesma
aldeia, de novo era sujeito ao pagamento da cabrita. A questão problemática é a
de saber por que razão é que o noivo que vem de fora namorar ou casar com uma
moça de uma dada aldeia se vê obrigado a uma punição. Para o efeito importa
questionar o sentido oculto do termo cabra ou cabrita, no ritual que leva o seu
nome. A hipótese de que uma pequena cabra (no sentido linguístico do termo)
poderia ser “partilhada pelos convivas de um banquete” (Lages 1983: 660)
levanta dúvidas. Recentemente, mobilizado por uma etnografia da comunicação
(Saville-Troike 1989), visitei algumas aldeias do distrito de Viseu, onde
também existia o rito do pagamento da cabrita. Questionei então alguns aldeãos
sobre o significado do termo “cabrita”: Era uma cabra que o noivo tinha de
pagar? Em risadas negaram-me convictamente a hipótese, tendo-me alguns sugerido
que a cabra era uma “ovelha tresmalhada”, ou seja, a moça que tinha rejeitado
os rapazes da aldeia para se juntar com um de fora. Também no Brasil colonial
eram popularmente designados “cabras” todos os indivíduos que resultassem de
indesejáveis misturas sociais. O atributo de cabra, por esse motivo, era
depreciativo (Furtado 2003: 49). A cabra, tal qual a moça que se deixa levar
por um rapaz de fora, caracteriza-se por uma rebeldia à domesticidade. Embora
presas nos fundos das casas (as cabras) ou, em sentido alegórico, nas próprias
casas (as moças que têm noivo de fora), o que parece caracterizar umas e outras
é o risco de evasão que exige uma contrapartida, uma pena, uma multa ou mesmo
uma retaliação: o pagamento da cabrita. Mais uma vez, o que o nome Cabra
encobre é uma relação de poder em que a denominação masculina confina a mulher
à esfera doméstica, realidade que aparece refletida em muitos adágios populares
(por exemplo: “do homem a praça, da mulher a casa”).
Aqui chegados, que representa, afinal, a cabrita? Desde logo, o termo parece
apontar para uma necessidade social de simbolização das relações sociais. Neste
sentido, a cabrita parece assumir uma dupla valência: quer como valor de
transação (equivalente geral de trocas), quer como objeto transacionável
(associado a um valor de uso). Ora bem, se a cabra, em termos simbólicos,
representa a moça que saltou a cerca da sua comunidade de origem, então
justifica-se a relação contratual entre os rapazes da aldeia (que perdem a
cabrita) e o noivo (que a ganha) através de um pagamento que representa nem
mais nem menos que o preço da cabra. Esta hipótese – vou chamar-lhe hipótese de
tresmalhação – faz algum sentido, até na medida em que sabemos que os pastores
que guardam rebanhos consideram as cabras muito mais ariscas do que, por
exemplo, as ovelhas. Por isso mesmo, a designação de cabra também é dada a uma
mulher de comportamento duvidoso, suspeito, indigno. Aliás, “puta” e “cabra”
são palavras frequentemente usadas como sinónimos (Millet 2001). Neste registo
analítico, o apelido de Cabra que é dado a Quem Nós Sabemos pode ser sintoma de
uma suspeitada ameaça de “dor de corno” – para usar outro palavrão popular,
também cheio de sentido.
O simbolismo dos cornos tem sido bastante estudado na antropologia. A sua
interpretação não pode dissociar-se dos contextos sociais de uso que lhe dão
sentido e que remetem para a um código de honra baseado na força e na
virilidade. Um homem cornudo é um cabrão, sendo os cornos atributo de um marido
ou amante enganado – devido à sua passividade, como acontece com o bode, por
ser condescendente com o acesso de outros machos às fêmeas do seu domínio
(Leach 1973 [1964]; Blok 1981). Por a sexualidade das mulheres ameaçar a honra
dos homens, estes defendem-se procurando protegê-las do assédio por parte de
outros homens. A defesa da honra e reputação justifica as ameaças de violência
aos que se esquivam ao pagamento da cabrita: o mergulho numa fonte ou num poço.
No fundo, os forasteiros são obrigados a submeter-se à força do rito, ou
melhor, ao domínio dos que reivindicam a “imunidade do seu domínio” (Blok 1981:
17). Se o não fizessem passariam por “panhonhas” ou, pior ainda, por “bois
mansos”, sem os “tomates” no lugar.
A hostilidade entre aldeias, por efeito de ameaça aos casamentos endogâmicos,
ligados a interesses patrimoniais, justifica não só a existência do rito do
pagamento da cabrita como muitos dos apelidos que os nativos de aldeias
vizinhas jogam entre si. Frequentemente, há uma tendência para se desvalorizar
o status das mulheres que não são da terra. Por isso, no Alentejo surgem ditos
do tipo: “As do Campinho são bruxas; de São Marcos, feiticeiras; da Cumeada,
manhosas; de Reguengos, borracheiras” (Morais 2006: 53). As mulheres da
freguesia de Nossa Senhora de Machede (concelho de Évora) são alvo de troça
pois delas se diz que “não têm calcanhares” porque “caem facilmente de costas”,
isto é, manifestam-se disponíveis para prazeres de cama. Para defenderem a
reputação dos homens da sua terra, as mulheres atingidas costumam replicar que
os homens “de fora”, por virilidade duvidosa, “não têm biqueiras” (Morais 2006:
77-78). Também se diz que os habitantes da referida aldeia recusaram a
edificação de uma escola (“não precisamos dela que nós cá somos todos
analfabetos”) mas, apregoavam os das aldeias rivais, reivindicavam a construção
de uma praça de touros, dada a abundância de “cornos”. Há pois uma clara
oposição entre “os de cá” e “os de fora”, “nós” e “eles”, oposição presente
quer em adágios (Pais 1985), quer em muitos ritos e tradições populares de
Portugal, como nos festejos de São João, onde há um enfrentamento entre grupos
rivais, designados Bugios (representando cristãos) e Mourisqueiros
(representando forasteiros), ambos os grupos compostos por rapazes solteiros
(Ferreira e Perdigão 2003: 14). Esta oposição manifesta-se em alguns ditos
populares que envolvem aldeias vizinhas, desencorajando os casamentos
exolocais. Por exemplo: “Eu casei-me na Mutela com uma moça de feição; de
bonita não tinha nada, pobre sim, honrada não” (Dias 1984: 293). A tresmalhação
é alvo de crítica social na convicção de que “quem fora vai casar ou foi
enganado ou vai enganar”, embora sejam interesses patrimoniais – não confessos
mas reais – que determinem esta representação, também presente nas loas das
festas dos rapazes em Trás-os-Montes (Godinho 2006a, 2006b).
O ritual é um domínio privilegiado para desvendar cristalizações sociais de uma
cultura, assim como suas transformações. Atualmente, já não são denominadas
cabras as moças que saem de uma aldeia para namorar ou casar com rapazes de
terra alheia. Em contrapartida, as Mães de Bragança que recentemente se
revoltaram contra as trabalhadoras de sexo brasileiras, para além de as
acusarem de enfeitiçar os maridos com o misterioso chá, também as apelidam
cabras. Ou seja, as chamadas cabras vêm agora de fora, sendo alvo de múltiplas
discriminações: enquanto mulheres, estrangeiras, imigrantes e prostitutas. A
sua representação, de ameaçadoras intrusas, resulta da constatação de uma
outridade como perigosa, caótica, indutora de desordem e insegurança. Por isso
são apodadas de cabras, tendo desencadeado, no auge do movimento das Mães de
Bragança, fervores patrióticos, nacionalistas, chauvinistas, xenófobos (Pais
2011). As apelidadas cabras aparecem como bode expiatório de uma desordem
social. A casa de família é o lugar da mulher recatada e casta; os bordéis são,
em contrapartida, o território da maldade erotizada. No universo feminino, o
confronto entre “estabelecidos” e “outsiders” (Elias e Scotson (1994 [1965])
pode ser lido como decorrente de uma oposição entre ordem e desordem. Umas
reivindicam o papel de mães, outras são simplesmente olhadas como cabras. Em
contrapartida, quando o apodo de Cabra se refere a Quem Nós Sabemos, partindo
das hostes masculinas, o que está em causa, a nível do inconsciente, é um
possível temor de desordem, por efeito de poderes ameaçados por uma crescente
emancipação feminina (Romaine 1999): suspeitas, ciumeiras ou desconfianças de
possíveis ou imaginadas traições que acabam por se transformar em obsessão
entre homens que teimam em defender que “em casa manda ela, mas nela mando eu”.
A alienação encontra-se também nas representações do vivido enquanto formas de
consciência mitificada. A cabra aparece como um símbolo, mas são as analogias
que dão razão de ser ao símbolo: “A comparação, a analogia, a identidade
parcial (fictícia ou real) entram na consciência do símbolo. O simbolismo assim
considerado supõe sempre dois termos, condensados num só por um tropo (elipse,
metáfora)” (Lefebvre 1968 [1966]: 225). O sentido cai frequentemente no
simbolismo. Porém, o símbolo reveste-se de sentido na medida em que subentende
um imaginário social (distinto da imaginação individual) historicamente
resgatável.
Para enfatizar a importância dos códigos de variabilidade dos nomes, seja
tomado o exemplo de um outro palavrão que remete para uma entidade que
frequentemente se relaciona com Quem Nós Sabemos. Poderia reproduzir o
palavrão, mas, em seu lugar, limito-me a usar um termo corrente no Brasil para
designar qualquer entidade: o “cara”. Façamos então uma reflexão sobre os
códigos de variabilidade do significado do cara a partir de um contexto
concreto de comunicação. O caso aconteceu, recentemente, no Norte de Portugal.
[9] Um cabo da Guarda Nacional Republicana, irritado por não ter conseguido uma
troca na escala de serviço, virou-se para o sargento responsável do
escalonamento e desabafou, num misto de frustração e resignação: “não dá p'ra
trocar, então pró cara…!” Sentindo-se atingido na sua honra e consideração, o
superior hierárquico acusou-o de crime de insubordinação. Nos tribunais, os
juízes tiveram de se enfrentar não propriamente com o significado denotativo do
Cara, que ninguém contesta, mas com o valor moral do cara, determinado pelo
contexto de uso. Dependendo deste, talvez o palavrão não fosse assim tão
injurioso ou ofensivo. Por aqui vemos que, dependendo do contexto de
comunicação, há palavras que podem promover ou abalar hierarquias sociais. O
guarda salvou-se da condenação porque, como Garfinkel (2006 [1968]) bem o
demostrou em seus estudos etnometodológicos, nas suas decisões os juízes
respeitam, geralmente, as características rotineiras da ordem social. De facto,
no Norte de Portugal o Cara aparece como uma verdadeira muleta oratória, para
além de ser uma expressão popular de impaciência ou espanto. Aliás, em suas
origens, o cara tinha uma significação inócua. Derivando do latim caraculus
designava uma simples estaca e, talvez por isso, no tempo das descobertas
marítimas, o termo cara era usado pelos marinheiros portugueses para designar o
mastro principal das caravelas. Por aqui vemos que as palavras têm uma “génese
histórica” (Lefebvre 1953), pois em cada época há modos legítimos de
argumentar, narrar, persuadir, provar (Angenot 2010). Como também vimos na
tentativa de interpretação do ritual do pagamento da cabrita, a génese não
exclui “a análise das relações mais ocultas, de filiações perdidas” (Lefebvre
1983 [1980]: 17), mas também não impede o ganho de novos sentidos. É aqui que
emerge a componente “histórico-genética” do método regressivo-progressivo. Se,
como bem disse Galeano (2004: 21), “o nome é a coisa que o nome chama”, ideia
que aparece no seu livro As Palavras Andantes, também é verdade que uma mesma
palavra pode significar muitas coisas diferentes, dependendo de por onde ela
circule. Pergunta Lefebvre (1968 [1966]: 71): “Donde, como, de que coisa vem o
sentido?” Não vem apenas da significação das palavras isoladas. Vem, sobretudo,
dos seus contextos de uso e de suas ressonâncias culturais, das representações
que arrastam. Como bem nos ensinou Lefebvre (1968 [1966]: 94, 1983 [1980]: 199-
200), as representações sociais não são simples efeitos: são factos de palavras
e, sobretudo, de práticas e lugares (Pink 2012).
Notas conclusivas
Na carta escrita a Octavio Paz – que não lhe chegou a endereçar – e que abre La
présence et l'absence, Lefebvre colocava a descoberto os ardis da linguagem,
isto é, a sua natureza enigmática, por efeito das “dependências e poderes
ocultos sob as palavras e os gestos” (1983 [1980]: 10-11). Daí o largo passo em
frente que Lefebvre dá em relação à filosofia da linguagem, que a toma como um
mero saco de palavras, a cada palavra se associando uma coisa ou uma ideia. Os
poderes ocultos que transformam uma palavra num palavrão foram aqui pesquisados
a partir de um termo indizível na língua portuguesa falada no Brasil, fora dos
circuitos da clandestinidade ou do calão. O facto de, em Portugal, essa
palavra arcaica ter um significado que nada tem de obsceno, dado significar uma
“pequena caixa”, mostra bem como as palavras têm uma história de vida e ganham
um poder (Fairclough 1989) dependente dos contextos de uso: “A significação
parece clara e bem definida; mas muda com o valor […]. O contexto torna-se
determinante” (Lefebvre 1968 [1966]: 94-95). As próprias onomatopeias só
significam o que exprimem quando reportadas a um contexto de uso (Newmeyer
1989; Chambers 2003). Só o contexto comunica o valor da palavra. É também o que
se passa com as palavras polissémicas, onde a relação entre significante e
significado aparece obscurecida. Mesmo as palavras que parecem ter um
significado indiscutível são portadoras de histórias de vida que alojam outros
sentidos, dependendo do contexto de uso, como verificámos com as metaforizações
de “cabra” ou do polivalente “cara”. Ou seja, os nomes são mais do que cortinas
que ocultam o movimento da linguagem, mais do que palavras amortalhadas em
significados (Foley 1997). São códigos de variabilidade social que refletem e
produzem o social e, por isso mesmo, ajudam a percebê-lo. Como qualquer
mercadoria, a linguagem possui um valor na medida em que não se pode nomear sem
representar. Por isso mesmo, pela sua natureza comunicativa, a linguagem
concretiza-se como uma mediação entre o individual e o social (Lutfi 2003).
No estudo de caso aprofundado vimos que o palavrão indizível – que neste texto
ganhou a alcunha de Quem Nós Sabemos – denuncia uma ausência que se enche de
presenças ficcionadas, ao representar-se através de múltiplas imagens e
propriedades. Sem estas, estaríamos perante uma abstração oca, uma sombra, um
vazio em busca de seu próprio ser. É certo que o corpo apenas se representa
através de investimentos abstratos: os signos corporais. No entanto, no
intervalo que desune o corpo das suas representações primárias emerge uma outra
realidade: um poder de nomeação. Ele gera-se a partir do vivido, palco de
ebulição e circulação das representações sociais. E porque assim é, Quem Nós
Sabemos acaba por não extravasar as representações triviais que a representam,
pela simples razão que, como nos ensinou Lefebvre, o individual apenas se
representa no social, pelo social e para o social. Todos os nomes que Quem Nós
Sabemos ganha apenas a representam indiretamente, tornando-a presente em sua
ausência através de múltiplas alusões, metáforas e simbolizações.
Nas mediações entre as nomeações e representações, o método regressivo-
progressivo fez-nos descobrir uma tensão entre coação e libertação, tabu e
remissão, alienação o obsessão. O interdito – a nomeação do palavrão – gera o
prazer do contradito, uma forma de contornar o interdito a partir de outros
ditos, ficando assim superada, de certa forma, a coerção que impede a
circulação do palavrão. Esse prazer de rebeldia é claramente sinalizado pela
natureza jocosa dos apelidos. Podemos mesmo falar de um “prazer de disparatar”,
usando uma expressão que é grata a Freud (2000 [1905]) quando analisa a relação
do chiste com o inconsciente. A psicogénese do chiste, desenvolvida por Freud,
mostra bem como o prazer de disparatar se pode interpretar como uma fuga à
coercividade (psíquica ou social) que procede de um jogo criativo de palavras
que procura “proteger o prazer contra a sua supressão” (Freud 2000 [1905]:
131). De facto, os apelidos atribuídos a Quem Nós Sabemos dão claros sinais de
corresponderem a uma liberdade de jogar com ideias, representações e analogias
que produzem o chiste. O prazer de disparatar parece também corresponder a uma
fonte de prestígio, caso contrário os apelidos não circulariam, ou seja, não
sobreviveriam. É como se a capacidade de nomear fosse equivalente a um poder de
exibição quando a comunicação sobre a sexualidade se faz de forma jocosa. É
nestas circunstâncias que desponta a possibilidade de toda esta criatividade
antroponímica se associar a desejos reprimidos ou intensificados por razões
desconhecidas da consciência. Aliás, uma grande parte dos apelidos atribuídos a
Quem Nós Sabemos correspondem a elaborações oníricas, como acontece nos sonhos
(Freud 1999 [1899]).
Muitos dos nomes que afugentam o palavrão sugerem a hipótese de os desejos
reprimidos suscitarem múltiplas representações que alimentam imaginários
sociais (Harvey e Shalom 1997). Estes, por sua vez, parecem dar
sustentabilidade a uma hipótese levantada por Lefebvre: a transformação do
sexual em obsessão e ficção. E tudo isto porque o sexual (a coisa que o
palavrão designa) se converteu numa figura de ausência, por efeito de sua
presença obsessiva: “Mesmo a desnudez, em vez de descobrir uma presença (como
na arte clássica) divulga-se como imagem, como ausência” (Lefebvre 1983 [1980]:
182). Finalmente, quanto aos poderes ocultos que transformam uma palavra num
palavrão, o estudo de caso sobre Quem Nós Sabemos sugere a existência de
importantes processos de mediação simbólica entre diferentes sexos. Algumas
pesquisas têm mostrado como a linguagem se associa a identidades de género
(Bergvall, Bing e Freed 1996; Cameron 1995; Mills 1995), mas raramente se têm
discutido as dimensões de alienação na forma como essas identidades se jogam
nos palavrões. Para o efeito, há que valorizar o poder semiológico das
nomeações. Como acontece com os mitos, os palavrões vestem-se de roupagens
simbólicas que a linguagem projeta no pensamento e nos imaginários sociais.