Prazeres perigosos: o contrato e a erotização de corpos em cenários
sadomasoquistas
Este artigo propõe um desafio: discutir as articulações entre prazer e perigo
em algumas manifestações do erotismo contemporâneo. O prazer está associado à
sensação de bem-estar, ao deleite, e indica uma inclinação vital. O perigo
sugere uma circunstância que prenuncia um mal a alguém ou a algo. Em vez de
confrontar a satisfação ao risco como se fossem expressões excludentes,
pretendo tratar dos prazeres perigosos presentes no mercado erótico.
A reflexão apresentada a seguir é parte dos resultados colhidos pelo esforço
prolongado de pesquisa feita no Brasil sobre novas formas de erotismo, e nelas
sobre a consolidação de um mercado erótico e de toda a cultura material
associada a ele. Uma breve pesquisa em lojas eróticas nos Estados Unidos, em
2001, forneceu perguntas concretas para o desenvolvimento posterior das
investigações no Brasil, mostrando a emergência no mercado erótico
contemporâneo do que eu chamei de “erotismo politicamente correto”, ou seja, as
fantasias, imagens e objetos que constituem parte da pornografia atual
valorizam a satisfação da autoestima pessoal, da saúde corporal e da capacidade
dos indivíduos para realizar escolhas e estabelecer limites. Tal vertente do
erotismo foi criada nos Estados Unidos, a partir dos anos 70 do século XX, por
mulheres sensíveis ao feminismo que, dentre variadas iniciativas, atuaram no
mercado com a abertura de sex shops como o Good Vibrations de São Francisco. A
partir dos anos 90, as ideias e produtos ligados a essas iniciativas passaram a
ser difundidos no universo mais amplo de produção, comercialização e consumo
eróticos ao redor do mundo.[1] As variadas experiências eróticas contemporâneas
mostram – seja nas modalidades de um mercado cada vez mais transnacional, seja
nos usos que as pessoas fazem de objetos, técnicas e fantasias – que as
prescrições de gênero e sexualidade estão sujeitas a deslocamentos e
ressignificações. Trata-se, inegavelmente, de uma dinâmica viva que supõe a
criação ou invenção de novas normas, bem como idiomas diversificados para
velhas e persistentes restrições. Prazer e perigo permanecem combinados nos
erotismos, expressando assimetrias de poder relacionadas não apenas ao gênero,
mas à idade, à raça, etnia ou nacionalidade e, também, aquelas que dizem
respeito à posição de classe. Hierarquias permanecem marcadas pelos mesmos
eixos que produzem a desigualdade social, econômica e política. Contudo, tais
marcas de diferença são também empregadas de modo a tensionar o que é
sancionado, provocar um arremedo, parodiar. O efeito mais significativo de
muitas das experiências investigadas foi o fato de elas submeterem as
inscrições normativas à ambivalência. Inscrições fálicas são tornadas sex toys,
ampliando o escopo de experimentações sociais e corporais.
Diante de novos limites da sexualidade, porém, restam algumas questões: e
quando os toys são chicotes, floggers, palmatórias e cordas? E quando a relação
entre passivo e ativo sexuais se dá entre pessoas que escolhem posições em um
jogo de dominação e humilhação? Qual lugar simbólico ocupa o mestre e seu
submisso (ou escravo) numa sociedade que reconhece os direitos sexuais?
As práticas sadomasoquistas (SM), sobretudo as que se desenvolvem em meio ao
mercado erótico contemporâneo, interessam particularmente ao desenvolvimento
dessas reflexões. Âmbito estratégico para a investigação antropológica, as
variadas expressões SM introduziram uma retórica, técnicas e rituais sobre o
lado “seguro, saudável e consensual” de práticas eróticas que lidam com o
risco.
No início de minha pesquisa com os sex shops, ainda nos Estados Unidos, eu
encontrei, nos catálogos e manuais sobre direitos sexuais e técnicas eróticas,
material sobre SM. Ignorante e intrigada, a minha curiosidade foi atiçada ao
notar a ênfase a respeito dessas práticas: “In fact, S/M has nothing to do with
coercion, either sexual or non sexual. The common denomination in all S/M play
is not a violent exchange of pain but a consensual exchange of power” (Winks e
Seamans 1997: 210).
Tal definição contesta as noções de senso comum sobre sadomasoquismo, inclusive
a conceituação presente no dicionário, que define a prática como uma perversão
de ordem sexual ou, ainda, como algo que descreve uma dinâmica entre pessoas
envolvidas em comportamento coercitivo ou abusivo (Novo Dicionário Aurélio,
edição revista e ampliada, 1986). O contradiscurso fornecido acentua, ao
contrário, que SM é um exercício erótico de poder e não um abuso físico ou
emocional. Suas expressões mais antigas podem ser encontradas desde o século
XVIII, na Europa, mas ganham a conotação de minorias sexuais a partir dos
anos 70 do século XX, nos Estados Unidos: nesse período, passam a ter
visibilidade, no cenário político, grupos SM gays e lésbicos, paradoxalmente
criados no mesmo momento em que apareceram alguns grupos feministas contrários
à pornografia e ao sadomasoquismo (como o Women Against Pornography).[2] Os
estudos a respeito indicam não ser possível entender a retórica desses grupos
SM e suas propostas práticas sem levar em conta os contenciosos políticos com
os conservadores e com os radicais: de um lado, com o movimento em torno da New
Right, de outro, em relação de contraposição ao feminismo radical.[3]
Simultaneamente, é necessário considerar a influência que muitas práticas SM
sofreram (tanto nas modalidades heterossexuais, como nas gays e lésbicas) do
que a bibliografia chama de leather culture. Associada por alguns aos veteranos
de guerra da Coreia e, por outros, aos jovens rebeldes e aparentemente sem
causa dos anos 50, a Leather Folk começou reunindo gente que gostava de andar
de motocicleta, vestida com jaquetas e calças de couro e que se encontrava em
poucos bares espalhados pelos Estados Unidos. Ao que indicam alguns de seus
representantes, o que era uma expressão localizada organizou um movimento de
maior destaque, passando a integrar interessados em variadas modalidades de
radical sex, a partir dos anos 70. Guy Baldwin, psicoterapeuta norte-americano,
além de ser adepto do que designa como SM/leather/fetish erotic play desde
jovem e de atender gente engajada nessas práticas, escreveu a coluna “Ties that
bind”, por toda a década de 1980, na publicação Drummer (importante publicação
leather, cujo aparecimento remete aos anos 70). Suas principais colunas foram
publicadas em livro, no qual o autor conta que uma das fortes influências
simbólicas foi a série de histórias em quadrinhos de Tom of Finland que
circulou desde os anos 50, ganhando maior divulgação a partir dos anos 70
(Baldwin 1993). O conteúdo erótico é acentuado nesses desenhos, evocando o que
mais tarde foi definido como radical sex: fist fucking, SM heterossexual, gay e
lésbico. Baldwin informa também que parte considerável das lideranças gays e
lésbicas participou dos movimentos leather. Há mesmo uma aproximação
significativa entre cultura leather e SM (em suas diferentes expressões).[4]
Além disso, muito do que é praticado nas experiências SM apresenta um diálogo
crítico e, em forma de paródia, tendo como referências Freud e, mais
precisamente, Richard von Krafft-Ebing – sexólogo a cunhar, no final do século
XIX, o sadismo e o masoquismo como psicopatologias. Em Psichopathia Sexualis
(1886), ele definiu o sadismo como psicopatia, ou mais precisamente, como uma
manifestação aberrante do desejo inato de humilhar, de machucar, ou ainda de
destruir os outros, de modo a produzir prazer sexual para si mesmo (Von Krafft-
Ebing 1886).
Desde os anos 70, alguns grupos organizados de SM escolheram adotar outras
expressões: jogos de dominação/submissão, sensualidade e “mutualidade”, mágica
sexual, sexo radical ou jogo de poder e confiança. Esses grupos têm o cuidado
de, em suas palestras e workshops, divulgar a necessidade de as práticas SM se
darem em meio a um contexto de segurança, devendo este ser estruturado a partir
da negociação e comunicação entre as pessoas envolvidas: “you can't dominate
your partner unless he or she allows you to take control, and you can't submit
to your partner unless he or she accepts control” (Winks e Seamans 1997: 211).
No início do novo século, após intenso e longo combate à epidemia da AIDS e em
contexto de mercado, essas práticas encontram lugar, bastante sintonizadas com
alguns aspectos do que chamei de erotismo politicamente correto. Nos catálogos
e folders a que tive acesso no Good Vibrations, há o esforço de tornar o
sadomasoquismo uma alternativa erótica aceitável, a partir de uma retórica que
salienta o jogo consensual entre parceiros que brincam com conteúdos e
exercícios, ligados às posições de dominação e de submissão. Os chicotes
coloridos e as cenas nos vídeos reforçam essa tendência. Tudo parece estar
sendo cuidadosamente montado para encenar uma situação que teatraliza a
humilhação. A dor parece não fazer parte dessa encenação, assim como a
subjugação real ou concreta. E essa simulação vai sendo montada, no texto, a
partir da explicitação de algumas fantasias sexuais: de um lado, o desejo de
ser dominado e subjugado por sequestradores, estupradores, às vezes por aliens;
de outro, aquele que posiciona o sujeito no controle de uma relação com uma
espécie de escravo amoroso.
No limite, os textos dos manuais tentam legitimar o SM, empregando o argumento
de que o jogo de poder é central na nossa imaginação erótica. A noção que está
por trás de tal afirmação é a de que o sexo entre duas pessoas raramente ocorre
em meio a um patamar igualitário ou de satisfação mútua, em um orgasmo
simultâneo, sendo mais frequente que os parceiros se revezem no controle das
sensações do outro. Sem dúvida, importa assinalar que esse tipo de sugestão
incorre em uma espécie de naturalização do erotismo, como se ele fosse
desencarnado de todo um mapeamento simbólico, cuidadosamente tecido em meio a
processos históricos e culturais.
É interessante notar também que os manuais SM ou o capítulo sobre essa prática
no manual Good Vibrations (Winks e Seamans 1997) apresentam, em contraste com
os relativos a outras práticas, afirmações mais categóricas e toda uma
caracterização detalhada sobre como definir quem está no controle e quem está
submetido. Além disso, enfatizam a todo instante o fato de ser essa uma das
expressões do sexo seguro: assim como os sex toys, os jogos SM não implicam o
intercurso genital; e os manuais aconselham as pessoas a não ingerirem álcool
ou drogas quando o praticam. Há um conjunto de normas que o potencial
praticante deve seguir: identificar seus desejos e fantasias; encontrar o
parceiro; negociar a cena; procurar o local adequado para encená-la; escolher a
posição e os personagens; e cuidar da saúde e da segurança.
Minha primeira hipótese, sobretudo diante dessa vertente mercadológica, foi a
de que o pragmatismo que recobre os SM plays seria resultante justamente da
premência de torná-lo politicamente correto, afastando-o da violência.
Indaguei, inclusive, se todo o cuidado com a segurança, saúde e consentimento
não seria decorrente de um esforço de neutralização ou apagamento das
desigualdades de gênero que marcam a violência. De fato, os produtos
relacionados ao SM nas lojas são cuidadosos a esse respeito. Contudo, foi
preciso conhecer melhor as práticas e os praticantes, bem como as referências
simbólicas que estão sendo mobilizadas, de modo a reconhecer que o SM não se
reduz a uma vertente tão politicamente correta e que suas variadas
manifestações trazem elementos para, inclusive, contrastar com a violência,
sobretudo quando a consideramos marcada por gênero.
Pesquisas etnográficas começam a ser feitas no Brasil, acompanhando a difusão e
visibilidade das práticas sadomasoquistas, na última década. Regina Facchini
(2008), ao analisar a sexualidade de mulheres na cidade de São Paulo, apresenta
uma rica investigação sobre uma rede de adeptas do BDSM (bondage, disciplina,
dominação, submissão, sadismo, masoquismo). Essa sigla é empregada pelos
sujeitos de sua pesquisa como forma de salientar a diversificação de práticas,
para além daquelas inscritas nas liturgias e rituais SM. Bondage, por exemplo,
é uma atividade de privação de movimentos ou sentidos, normalmente utilizando
cordas. O importante a remarcar aqui, segundo a autora, é que se trata de um
campo complexo que reúne diferentes concepções de liturgia, de dominação
profissional, da relação entre o intercurso sexual e o BDSM e distinções
relativas aos temas caros nesse universo, como a consensualidade e o risco
compartilhado.
A rede de praticantes é formada por pessoas da classe média paulistana que
criaram, no início dos anos 90, o SoMos, uma comunidade de adeptos SM,
responsáveis pelas primeiras reuniões no país e ainda hoje atuante. Naquele
período, as pessoas interessadas nessas práticas se encontravam no clube
Valhala – que fechou – e, durante os primeiros dez anos desse século, se
encontraram no clube Dominna, criado há 13 anos. Atualmente, esse clube não
opera como espaço físico próprio. Contudo, são realizadas festas com frequência
mensal, com encenações de FemDom (dominação feminina), podolatria, bondage e as
play parties (momentos mais íntimos da comunidade e que se realizam em espaço
separado).
O estudo de Facchini aborda experiências observadas e narradas e decifra a
formação e os contornos de uma comunidade (ou confraria), a partir das
intrincadas relações entre as práticas e escolhas eróticas referentes ao BDSM e
aquelas que são vividas no cotidiano, fora do clube e distantes da Internet,
qualificadas por seus informantes como “mundo baunilha”. Dessas relações de
contraste e oposição saltam intrigantes considerações sobre normas de gênero e
sexualidade. A autora assinala que, no meio BDSM que investigou, os marcadores
de diferença relacionados ao sexo, gênero e orientação sexual são mobilizados
de modo bastante flexível, sem que sejam demarcadores de segmentação entre
comunidades SM, como no caso das experiências norte-americanas. Além disso,
segundo seus termos,
“a descontinuidade entre desejos, práticas e identidades relacionados
à ‘orientação sexual' convive, em intrincados esquemas
classificatórios, com distinções entre ‘sexo biológico' e expressões
ou ‘identidades de gênero', mas sobretudo com classificações que
remetem a desejos e práticas BDSM ou fetichistas […], ainda que haja
coincidência entre desejos e práticas, ela não necessariamente leva a
identidades que substantivem condutas em personagens, conduzindo-nos
a considerar o BDSM como prática ou mesmo arte erótica que, embora
tome parte na produção de subjetividades, não são transpostas, de
modo substantivado, como algo que possa descrever os sujeitos”
(Facchini 2008: 214).
Bruno Zilli (2007) estudou, a partir de sites brasileiros da Internet, o
discurso de legitimação do BDSM. Ele mostra como a linguagem e conclusões
psiquiátricas do século XIX, a respeito das fronteiras entre os comportamentos
patológicos e os de natureza moral, ecoam nas reivindicações de direitos às
identidades BDSM. O advento da Internet, inclusive, é um fator decisivo na
difusão dessa forma de erotismo em nosso país, sobretudo nas interações entre
adeptos e a criação de suas comunidades. No Brasil, até a década de 1990, o
acesso a informações sobre as técnicas, os objetos e as possibilidades de
encontrar pessoas interessadas nessas práticas era bastante reduzido: na cidade
de São Paulo havia um sex shop, no centro, que oferecia produtos e serviços SM,
segundo informação que me foi fornecida por uma informante, atualmente
proprietária de loja e vendedora nos anos 80. Os interessados ainda poderiam
estabelecer contatos através de anúncios classificados em jornais ou revistas
eróticas (Facchini 2008), seguindo o mesmo padrão dos entusiastas SM dos
anos 50 até os anos 70 em cenário norte-americano (Rubin 1991).
Chama atenção o fato de que, no Brasil, tais práticas ganharam visibilidade
recentemente, com a expansão do mercado na direção dos produtos e bens
eróticos. Tal aspecto delimita, entre nós, um universo singular de relações
sociais, bem como de referências, imagens e práticas, se comparado à
diversidade de expressões SM nos EUA, visíveis desde os anos 70 do século
passado. É preciso lembrar que as variadas alternativas sadomasoquistas em
cenário norte-americano tiveram destaque e participaram ativamente nos
contenciosos políticos de diferentes posições feministas, do movimento lésbico
e do movimento gay. No Brasil, como salienta Facchini, os adeptos, a discussão,
o debate “BDSM não está inserido na agenda política dos ‘direitos sexuais',
também não está no campo de interesses do movimento feminista” (Facchini 2008:
196). Aqui, o SM é uma das expressões das novas faces do erotismo,
particularmente daquelas alternativas que estão se desenvolvendo e se
difundindo no marco do que tenho chamado de erotismo politicamente correto
(Gregori 2003).
24/7
As pessoas no clube se apresentam com seus nicknames, todos ou a maioria
compatíveis com os apelidos empregados na Internet. São nomes escolhidos que já
assinalam a posição ou status que o sujeito tem nas relações SM. Assim, nicks
como Mestre K ou Y, Rainha Laura, Domme Virgínia são comuns, bem como nomes dos
escravos(as) ou submissos(as) que são grafados em minúsculo e que incorporam
uma letra que faz referência ao nome do seu senhor(a), como por exemplo, o caso
de marYa, esposa do Mister Y. As posições de status são eminentemente
relacionais: Dominatrix, Dom/Domme, Dono/Dona ou Mestre/Mistress se afiguram em
relação aos subs (submissos/as) e escravos. Ainda existem os que se qualificam
como sádicos e outros como masoquistas. Caso especial, me parece, são os
switchers: as pessoas que podem ocupar posição de dominação ou submissão,
dependendo da relação escolhida.
Existem diferenciações estabelecidas nessas posições. Dominatrix é a dominadora
profissional (a que vende seus serviços na dominação feminina), Dom/Domme é o
par dominador dos subs, Mestre/Mistress domina com ênfase no castigo e no
sadismo. A Rainha é a escolhida pela comunidade e que supera qualquer Mestre ou
Dom. Não existe uma distinção muito clara entre ser sub e ser escravo.
Masoquista é alguém que está numa posição de submissão, mas que busca a dor
corporal.
Facchini (2008) chama atenção que essas relações são produzidas em meio a uma
comunidade, como uma espécie de confraria imaginada, definida por contornos
(litúrgicos ou normativos) e por controles. Assim, é preciso ter em mente que
as relações não são essencialmente diádicas. Elas podem se estabelecer entre um
dono/dona e variados subs ou escravos e, fundamentalmente, são definidas a
partir de um conjunto de prescrições partilhado coletivamente. Tal controle
comunitário “por outro lado, não deixa de propiciar um campo de conflitos,
fazendo com que a comunidade se estruture em um equilíbrio tênue entre
vaidades, fofocas, posições isolacionistas, debates de concepções,
solidariedade e busca de respeito” (Facchini 2008: 198).
Além de termos que contemplar as relações entre as pessoas no marco de uma
comunidade, existe outro aspecto que me parece especialmente importante: as
posições ocupadas pelas pessoas e as interações estabelecidas entre elas não
são pautadas pelo sexo biológico dos parceiros. Ser mulher ou homem não é
critério de dominação ou de submissão. Também não há uma exigência de que essas
posições sejam estipuladas a partir da orientação sexual. É possível que um
heterossexual seja sub ou mestre de alguém do mesmo sexo. Também, há a
possibilidade de o jogo erótico envolver uma relação sem, necessariamente,
haver sexo.
Na primeira visita ao Libens, conheci narinha e Mestre Sargitarius. Ela é uma
moça de aproximadamente 25 anos, estudante de administração de empresas, morena
parda com os cabelos pintados de dourado. Mestre S, dez anos mais velho, é
branco e presta serviços de informática. Ele se vestia com uma roupa comum de
trabalho, calça e camisa clara de mangas curtas. Narinha, ao contrário, estava
arrumada para a “noite”: escarpins altos e estampados, meia arrastão 7/8, um
vestido preto curto e justo, cabelo cortado reto, frisado, preso por
presilhinhas, maquiagem leve. O conjunto sugeria uma “meninota”, uma sedutora
Lolita. Já se apresentaram com seus nicks e logo narinha caracterizou sua
posição e relação com Mestre S como sendo D/s (de dominação e submissão), com
componentes de sadismo.
Ele, calado a princípio e “siderado” nela, que, eloquente, transmitia enorme
vivacidade. Ela nos disse que a relação deles é 24/7 (vinte quatro horas por
sete dias), o que significa: ela é escrava, mas também esposa dele. Mesmo tendo
se conhecido há menos de um ano, eles já estão morando juntos. Para narinha,
como a relação SM é 24/7, o casal estabeleceu que ele detivesse o controle e
ela presta contas de tudo o que faz durante o dia. Não só relata como pede
permissões. Na hora do almoço, quando está no trabalho, ela o avisa dos
horários de saída e pede autorização sobre o que comer. Em casa, faz a comida
para ele, serve, faz toda a limpeza e lhe dá banho.
Na narrativa, Mestre S usou imagens que supostamente estariam relacionadas com
a escravidão no passado para descrever como vivem. Mesmo sem saber como era
exatamente, o que importa para eles é o que se estabelece como fantasia. O
repertório serve como cenário e inspiração para as práticas. Em dado momento,
ao comentarem sobre a distinção entre escrava, submissa e masoquista, narinha
explicou: a sub é aquela que deseja servir; a escrava é a que pode ou não
servir, e costuma questionar, contestar; e a masoquista vai querer provocar seu
dominador para ser punida. O Mestre assinalou tratar-se de um jogo de
recompensas e castigos, o que ela completou se referindo a como se comporta,
enquanto escrava, de modo a obter o que quer. Esse “o que quer” foi entoado de
modo a demarcar o seu consentimento na subjugação e o prazer que essa relação
proporciona.
O enlace entre narinha e seu Mestre apresenta uma conotação contratual, como,
aliás, está na base da relação masoquista a partir da interpretação de Deleuze
(1983) sobre a obra de Sacher-Masoch, indevidamente ignorada em contraste à
significativa visibilidade de seu nome, designando uma perversão. É o contrato
que exprime não simplesmente o consentimento da vítima, mas, sobretudo, a sua
habilidade em persuadir, em seduzir e até ensinar o seu algoz. Ele produz uma
espécie de efeito de tipo jurídico que, segundo Deleuze, diferencia cabalmente
a dinâmica erótica do masoquismo em comparação ao efeito institucional
provocado pelas cenas de Sade. Enquanto Masoch dá particular importância à
forma estética (na arte e no suspense) e à forma jurídica (o contrato e a
submissão), Sade acentua o naturalismo, a partir de um sistema movido a um
mecanismo de moto perpétuo. O pensamento de Sade se exprime em termos de
instituição: as interações entre libertinos e vítimas são baseadas em um
estatuto de longa duração, segundo uma configuração involuntária (a vítima é
presa da vontade soberana do libertino), sendo os direitos e deveres
substituídos por um modelo dinâmico de ação, de poder e de potência (Deleuze
1983: 84). A submissão no caso dos personagens de Masoch não é passiva.
Severino apela a tornar-se escravo de sua Deusa das peles, primeiro em sonho,
em fantasia, e em seguida em um relacionamento que ele pretende eterno. A sua
escolhida, Wanda, é a vizinha misteriosa que passa a ser, na narrativa em forma
de suspense, a sua Vênus. Ele a seduz com tempo e calma, convencendo-a a amá-lo
e, a partir de então, ensina a ela como submetê-lo e como provocar nele a
sujeição física.
Deleuze acredita que esse romance traz todos os elementos que fornecem a base
do masoquismo e que foram desconsiderados pela psicanálise: a presença de uma
significação especial de fantasia, ou melhor, a recorrência de uma forma de
fantasma que aparece nas cenas sonhadas, dramatizadas ou ritualizadas; o
emprego frequente do que ele chama de “fator suspensivo” (a espera, o atraso
como forma de tensionar o apelo sexual); a recorrência no texto de um traço
demonstrativo, ou seja, persuasivo (o escravo ou submisso clama e exibe a
humilhação); a provocação, como se, ao demandar a punição, o masoquista
aliviasse a angústia de ansiar um prazer proibido; e, finalmente, o contrato
que supõe a vontade dos contratantes, estabelecendo direitos e deveres e por um
tempo determinado.[5]
No final de uma das edições de Vênus das Peles (Sacher-Masoch 1976 [1870]) são
apresentados três diferentes contratos estabelecidos pelo próprio Masoch com
suas mulheres e amantes.[6] O primeiro foi o contrato estabelecido, por ele, na
idade de 33 anos, com Fanny Pistor Bagdanow, sua amante no período. Reproduzo,
a seguir, um pequeno trecho:
“Sob palavra de honra, Leopold de Sacher-Masoch compromete-se a ser o
escravo de Madame Pistor, e a executar absolutamente todos os seus
desejos e ordens, e isto durante seis meses.
Por sua parte madame Fanny de Pistor não lhe pedirá nada de desonroso
(que possa fazer-lhe perder a sua honra de homem e cidadão). Além
disso, deverá deixar-lhe seis horas diárias para os seus trabalhos e
não lhe verá nunca as cartas ou escritos. Por cada infração ou
negligência, ou por cada crime de lesa-majestade, a dona (Fanny
Pistor) poderá castigar ao seu gosto o escravo (Leopold de Sacher-
Masoch). Em resumo, o sujeito obedecerá à sua soberana com uma
submissão servil, acolherá os seus favores com um dom encantador, não
fará valer nenhuma pretensão de amor nem nenhum direito sobre sua
amante. Por seu lado, Fanny Pistor compromete-se a usar
freqüentemente e sempre que possível peles, principalmente quando se
mostre cruel” (começado a executar em 8 de dezembro de 1869; Sacher-
Masoch 1976 [1870]: 247).
Essa dimensão do contrato, mesmo sem a referência explícita feita pelas pessoas
que conheci na cena SM, parece estar inteiramente de acordo com a bandeira
“são, seguro e consensual” que sustenta as práticas contemporâneas, tanto no
Brasil como no exterior. Há um “zelo escrupuloso com a lei” que, segundo a
leitura de Deleuze (1983: 96), leva ao absurdo. Voltarei a essa reflexão, a
seguir. Trata-se aqui de entender que, mesmo no caso do autor que dá origem
simbólica a essa expressão do erotismo, há a operação de elementos que conferem
“agência” aos escravos e uma maior permeabilidade entre a cena literária ou
encenada, no clube, e a vida cotidiana das pessoas. Nesse sentido, o 24/
7 implica uma fronteira tênue com o que está presente na liturgia das cenas
praticadas pelos membros das confrarias. A sensação que fica é a de uma
dinâmica que certamente terá que ser mais investigada, de que os limites entre
a vida no mundo SM e no “baunilha” vão esvaindo, mas ao preço de um esforço
enorme em ir estabelecendo, até inventando, rotinas ritualizadas. Por mais
irônico que possa parecer, não é fácil garantir a experiência do domínio e da
servidão, em meio a uma vida organizada para a autonomia dos indivíduos. Não se
trata, apenas, de evitar o estranhamento público (ou privado) quanto às
assimetrias acentuadas presentes nessas relações. No caso de narinha e
Mestre S, foi preciso ir criando um conjunto de prescrições para o dia a dia, o
que, certamente, deve ser exaustivo.
Provavelmente o senso comum imagina que existam muito mais dominadores(as) do
que submissos. Outra das idiossincrasias interessantes dessas experiências é
que ocorre justamente o contrário. É muito comum ouvir, no clube, uma queixa em
relação à exiguidade de pessoas que ocupam essas posições. São muitas as
atribulações das Rainhas, Mestres ou Mistresses. A eles cabe inventar as
punições, criar o material apropriado, não hesitar no controle às solicitações
e provocações dos subs. Além disso, Mestre S alertou que um dos cuidados que um
dominador deve ter, em uma relação 24/7, é o de estimular que os escravos não
parem de estudar, de trabalhar, de terem amigos e que não rompam seus laços
familiares. É preciso evitar, segundo ele, a dependência relativamente ao Dono
quando as relações chegam a termo. A palavra “guiar”, aliás, foi bastante
empregada por ele: “o Dono deve guiar sua peça, cuidar dela”.
Patrick Califia (1991), fundador do Samois e uma das maiores referências do
cenário SM norte-americano, discute os aspectos paradoxais da relação top/
bottom.[7] A partir de sua posição como top, ele indaga sobre as razões da
significativa escassez de dominadores nesse campo e argumenta que a fantasia de
dominação, com o paradigma da dissimetria de status (idade, classe, educação),
é pouco vivenciada. Tal disparidade é ainda mais intrigante pela natureza
consensual que caracteriza o processo de negociação entre parceiros. De modo
levemente irônico, ele reclama que, ao ser basicamente um sádico, não tem
interesse em roupas ou no comportamento submisso do que diz serem as empregadas
francesas ou em bondages. Diz que as subs que conhece não acreditam nele.
Aliás, pontua: elas escolhem não acreditar nele. De um lado, tal fato tem a ver
com a pouca experiência da maioria dos parceiros e o parco conhecimento
disponível sobre a variedade de dominadores e de subs. De outro, ele já se
sentiu, em inúmeras ocasiões, como se fosse um objeto na mão de suas escravas
ou submissos, sendo demasiadamente solicitado. Os subs não precisam ter
habilidades ou competências, não são desafiados e não precisam ter energia.
Além de a comunidade não oferecer treinamento aos Donos – o que exige deles
imenso esforço –, ele afirma que, nas discussões sobre segurança e
consentimento, o foco de atenção está inteiramente direcionado para a proteção
do sub, quanto aos eventuais danos físicos ou psicológicos. O top que apresenta
seus limites, inclusive, nem é considerado como um verdadeiro dominador.
Ainda que os marcadores de diferença sexual não possam ser considerados como
critério para posicionar o dominante ou o submisso nessas relações, é preciso
admitir que as tensões de gênero permanecem atuantes. Não se trata de uma
operação de inversão que irá garantir a transgressão, como erroneamente
imaginou Deleuze ao acentuar que a posição de dominação deveria ser ocupada por
uma mulher. Esse não é o elemento inovador, até porque no cenário SM não existe
sequer a preponderância de um dos sexos no lugar da submissão. Me parece
relevante atentar é no caráter marcado, até exagerado, dos gestos e sinais que
indicam o mando ou a obediência. Assim, o que marca em termos de gênero as
assimetrias de poder é acionado, produzindo um efeito quase caricatural. As
tensões são escrupulosamente ativadas como para afastar a verosimilhança,
expondo a armação contingente que trama o poder. De fato, o lado contestador
dessas iniciativas quanto às normas de gênero está nessa espécie de
ritualística que expõe as posições de mando e controle, que ainda marcam as
relações de gênero, de um modo extrapolado e causando uma sensação de algo
inapropriado.
Quando a pele vira carne
Deleuze afirma que os textos de Masoch (e também os de Sade) não constituem
propriamente pornografia. Ele cria o neologismo “pornologia”, de modo a definir
esse gênero de linguagem erótica, cujo traço marcante não é o do mero comando e
descrição, mas da demonstração (em Justine, por exemplo, há toda a discussão
com a vítima) ou da persuasão (no modelo literário de Masoch, ele é um educador
da mulher déspota). Assim, a fórmula “faça isso – faça aquilo” seguida por
obscenidades é substituída pela abundância de palavras que passam a agir sobre
a sensualidade. A ênfase na linguagem literária, me parece, deve ser acrescida
de outro elemento fundamental para a compreensão do SM: a encenação da prática
do flagelo.
A encenação começa pela atenção aos objetos e, em particular, pela invenção de
aparatos que são criados e cuidados com enorme zelo. O fetiche pertence
essencialmente à dinâmica erótica do masoquismo, daí a exuberância das peles, o
rigor e altura dos saltos dos sapatos e, em particular, o gosto pelos chicotes.
[8] Mestre S e narinha mostraram seu arsenal, guardado em um estojo
especialmente escolhido para abrigá-lo. Havia uma chibata de cabo fino, leve e
de ponta macia. Narinha explicou que ela servia para aquecer a pele para
receber o spanking. Havia floggers, um de tiras plásticas, como cerdas grossas
de uma vassoura, e outro era um chicote artesanal feito por um amigo Mestre, de
cabo curto de borracha e com tiras de couro sintético, um pouco mais duras e
pesadas do que as feitas de camurça. Havia nozinhos na ponta de boa parte dos
fios, o que provoca muito mais dor quando do contato com a pele. Havia também
um conjunto de canes: uma era praticamente uma vara de marmelo e outras
moldadas em madeira ou látex. Segundo narinha, as canes são os instrumentos que
mais ferem. É preciso saber usá-los, esperar passar a dor de uma pancada para
dar outra, senão a pessoa passa a não sentir mais nada. Uma das canes tinha
quatro pontas soltas, como se fosse um flogger. Essa, disse a submissa, era a
escolhida para o castigo: as varinhas se abrem quando batem e é como se quatro
canes batessem ao mesmo tempo. Havia ainda um relho de couro cru.
Causou impressão, não apenas a descrição detalhada de cada chicote e seu uso,
mas o brilho no olhar dela ao manusear, esticar e torcer, movimentando o ar com
um chiado peculiar. A cada peça, uma demonstração, experimentando as texturas e
o volume sobre as mãos espalmadas. Este modo de lidar com os objetos não é
muito diferente da relação das pessoas com os dildos e vibradores. O chicote é
também um acessório erótico. Porém, um objeto a produzir hematomas.
Não que a dor seja menor em função de um corpo já calejado. Dor é dor, ainda
que a tolerância a ela possa ser expandida. Para o casal, não se trata de
prazer com a dor, em si, pois essas são sensações discerníveis. Eles
contextualizam o espancamento em meio a um jogo erótico que envolve recompensas
e castigos, de modo a envolver a dor em outros elementos da fantasia. Além
disso, lembram que ela, provocada dessa maneira, ativa a produção de endorfina,
elevando a pessoa ao que eles chamaram de subspace, espaço no qual o martírio
físico fica submerso numa situação de prazer. Uma designação própria, porém não
muito distinta da noção de êxtase de Georges Bataille (1987): algo que evoca
imergir em um plano não tangível, liminar e, simultaneamente, mágico.
Elaine Scarry (1985), em seu The Body in Pain, diz que a resistência à
linguagem é algo essencial à dor: ela é inefável, ainda que não possa ser
negada. O que se objetiva em discurso diz respeito muito mais às reações que
ela enseja. Ela não é contabilizável e as caracterizações não especificam
tipos, além de aproximações como a “dor profunda” ou a “dor ardida”. O que essa
abordagem ensina é que, ao lidarmos com a dor, evitemos reificações. Portanto,
a qualidade de, a partir dela, alçar à transcendência ou à purificação –
presente no repertório de variados rituais de expiação –, no caso do casal SM
aparece como retórica a traduzir, me parece, pele em carne.
“Quando fomos ao Libens, assisti a uma encenação. Sentada em uma das
cadeiras, vi Mister Y, vestido de jeans e camiseta, espancar marYa
que vestia apenas a roupa de baixo preta e portava uma coleira. Ele é
um rapaz grande e ela, bem branca, tem o corpo opulento. A brancura
do corpo seminu parecia trazer luz àquele espaço escuro. Bem devagar
e concentrada, ela se ajoelhou sobre um suporte que permitia apoiar o
tronco, de barriga para baixo. O movimento lento fez revelar as
nádegas, arrebitadas e expostas. Ele acendeu duas velas grossas uma
contra a outra, produzindo gotas gordas de cera que, ainda quentes,
foram derrubadas sobre o dorso dela. Na medida em que caíam, a pele
parecia enrugar, criando um segundo volume, para além do corpo. Um a
um, os pingos azuis foram ocupando a superfície, descendo em direção
às coxas. Ela sequer murmurou. Toda a operação lenta, olhares ao
redor, silêncio absoluto. Com os dedos, ele tirou a cera, apertando a
pele como carícia. Depois, ele escolheu um único chicote usado
durante toda a cena: um flogger de camurça. Deu a primeira chibatada
abaixo da asa esquerda dela e, a pele branca, antes pontuada de
pingos azuis, foi avermelhando. Cada batida parecia estudada. A força
dele no chicote estalava a pele, entoando um som, acompanhado de
perto pelo gemido dela. Não era grito. O chicote parecia mole e
pesado ao tocar a parte dura das costas. Os músculos contraíam.
Eventualmente ela levantava a mão e ele parava imediatamente, ia até
perto do seu rosto, ouvia algo e acariciava o lugar batido. Esperava
a pele rubra acalmar. Voltava a chicotear, dirigindo cada batida para
as partes mais baixas do corpo. Comecei a notar um encadeamento
sonoro: o som do couro no corpo, cadenciando o gemido, como uma
percussão estranha. Mas o corpo não era tratado como tambor. A cada
movimento do flogger a lisura da superfície ia dando lugar a
reentrâncias, ondulações, volumes moles. A pele sendo tornada carne.
Como se o chicote pudesse produzir orifícios e penetrar. Terminada a
cena, ela se levantou e beijou os pés dele.” [Caderno de campo da
autora]
A encenação é uma operação de erotização dos corpos. São gestos, sons, cores e
luzes e, também, chicote, volumes de corpo e olhos. Todos articulados em uma
combinação material, carnal e simbólica. Não me pareceu ocorrer a
preponderância de um elemento sobre os demais. Entrecruzamento é a expressão
mais próxima do que vi. Meus alunos me contaram que nunca viram uma cena de
sexo num dungeon de clube SM: normalmente, não é proibido, mas as pessoas não o
fazem. Eu acho que fazem sim, pois testemunhei um intercurso sexual sem o
advento dos genitais.
A performance do risco
A literatura sobre sadomasoquismo é bastante vasta, especialmente nas
abordagens no âmbito da psicanálise e dos estudos sobre sexualidade, no marco
da tradição aberta pela sexologia. Também não é possível desprezar as
perspectivas vindas do campo da crítica literária e dos estudos filosóficos.
Além dessas contribuições inspiradoras, sobretudo pela sua riqueza, existe um
debate sobre o sadomasoquismo no marco das identidades e das minorias sexuais,
relevante para os propósitos antropológicos.
Anne McClintock (1994) e Lynda Hart (1998) trabalham o sadomasoquismo no
registro dos exercícios simbólicos mobilizados, seja como manifestações
subculturais (McClintock), seja como performances (Hart). Seus estudos operam
no registro do teatro e na análise de várias expressões SM como escolhas e
práticas sexuais que só podem ser inteligíveis como encenações, colocando em
suas cenas, nos cenários e personagens, aspectos que fazem parte das
contradições que emergem no interior das dinâmicas do poder social. Menos do
que ver no sadomasoquismo uma cópia ou reprodução do que constitui o cerne da
sexualidade heterossexual, modulada como norma pelo patriarcalismo – principal
crítica apontada pelas feministas antissadomasoquismo –, as autoras sugerem que
consideremos o seu lado contestatório. Seguindo tal perspectiva, o SM
comercial, o lesbianismo SM e as manifestações SM entre gays masculinos
constituem alternativas que, no limite, problematizam os modelos que supõem
naturalidade e normalidade entre as fronteiras que delimitam homens e mulheres
e, mais particularmente, o comportamento sexual masculino como sendo ativo e o
feminino como sendo passivo, além de esfumaçarem os limites que separam o
prazer da dor, o comando e a submissão.
Essas são experiências que ousam lidar com o risco social, ou melhor, com
aqueles conteúdos e inscrições presentes nas relações entre a sexualidade e as
suas assimetrias em termos de gênero, de idade, de classe e de raça.
McClintock (1994) chega até a afirmar que o SM performa o poder social como um
script, de modo que as assimetrias que constituem tal poder passam a ser
encenadas, teatralizadas, tratadas como contingentes e sujeitas a mudanças e
novas inflexões.
Lynda Hart (1998) estuda os casos SM entre lésbicas, experiências que ameaçam
certas noções das teorias feministas, principalmente desenvolvidas sobre as
relações mulher/mulher, que alimentam a ideia da igualdade ou de um “não poder”
como estratégia de libertação. Segundo a autora, tal forma de SM, ao trazer nos
plays as piores cenas heterossexistas, desafia a definição ética e política
envolvida no lesbianismo, sobretudo a noção de irmandade. Seguindo a orientação
de Deleuze em que também me baseio, ela chama atenção para o fato de que o
componente crucial da relação masoquista é o contrato, um acordo sempre
formalizado que pressupõe o consentimento, a reciprocidade e que não afeta os
indivíduos fora dos limites de cada encenação.
Além disso, como Deleuze também já havia formulado, o cuidado extremoso com
liturgias ou com a “lei” pode ser interpretado como um movimento que, ao ser
intensificado, provoca o efeito oposto: “toma-se a lei ao pé da letra; não se
contesta o seu caráter último ou primeiro; faz-se como se, em virtude desse
caráter, a lei reservasse para si os prazeres que ela nos interdita”; a lei é
“revirada humoristicamente, obliquamente, pelo aprofundamento das
consequências” (Deleuze 1983: 96).
Contudo, é preciso ponderar que esse lado do contrato não deve nos levar a
desconsiderar que as experiências constituem um empreendimento de risco, a
partir de atos que implicam negociações delicadas. Os riscos, bem como as
operações de produção de consensualidade e segurança das várias modalidades de
SM, indicam que é preciso empreender esforços para analisar detalhadamente os
vários contextos em que elas se apresentam, bem como as relações sociais e
pessoais envolvidas. A preocupação com a segurança e com a consensualidade
funciona como uma espécie de ideal. Nenhum desses termos é facilmente acessível
ou garantido.
Outro elemento a considerar sobre os riscos está relacionado ao fato de serem
práticas que implicam uma tríplice relação: a entrega da pessoa que se submete
– e essa entrega, como, por exemplo, a amorosa, indica uma confiança cultivada
em relação ao parceiro; o cuidado da pessoa que domina que, como já indicado,
exige um aprendizado constante; e, finalmente, o controle da comunidade ao
propiciar atividades pedagógicas e uma atenção singular diante de casos que
venham a extrapolar o “são, seguro e consensual”. Facchini e Machado (2013)
descrevem a ocorrência de um contencioso nas páginas de discussão da Internet
em 2007, a partir de um caso de abuso que envolveu participantes de uma das
cenas BDSM. A profusão de posicionamentos de membros da comunidade revela o
controle estrito de problemas desse tipo, tendo como solução provável o
isolamento ou ainda a expulsão de quem apresente uma conduta inadequada. De
modo arguto, as autoras analisam esse debate na comunidade, assinalando que
houve nessa crise uma tendência – que até então, no Brasil, nunca estabeleceu
vínculo de tipo político – para falar na organização de campanhas públicas de
esclarecimento, acalentando certo desejo de se constituir enquanto um
movimento. Assim, a violência é controlada, dando espaço para uma atuação que
legitima práticas que avizinham o prazer da dor.
Se no marco das experiências SM essa tríplice relação indica a neutralização de
abusos e relações violentas, o problema do risco não pode ser inteiramente
abandonado. Margot Weiss (2011), a partir de uma etnografia recente e bastante
completa sobre BDSM em São Francisco (EUA), sugere que é preciso considerar os
incômodos efeitos do mercado e, em particular, o que a bibliografia norte-
americana atual assinala como neoliberalismo, de modo a apreender em que medida
o SM corre o perigo de alimentar desigualdades, inclusive as baseadas em gênero
e sexualidade. Basicamente, o argumento elaborado é que o neoliberalismo deve
ser tratado como uma formação cultural que articula ideias como as de liberação
e liberdade individual com o direito à propriedade privada, livre mercado e
livre comércio. No limite, é um modo de governo e racionalidade que supõe uma
disjunção entre um mundo público e social “real” e, de outra parte, um mundo
privado, individualizado, constituído por escolhas livres e no qual as
fantasias de raça e gênero, por exemplo, não teriam nada a ver com “sexismo” e
o “racismo” do mundo real. Do ponto de vista da autora, o capitalismo
contemporâneo e sua forma cultural (o neoliberalismo) produziram um sentido de
transgressão sexual baseado na ideia da fantasia das cenas como espaços seguros
para os desejos privados que justificam e reforçam desigualdades.
Ainda que as articulações entre mercado e práticas eróticas mereçam um esforço
analítico para empreender uma teorização crítica, essa argumentação peca pelo
mecanicismo. Além de reduzir o neoliberalismo a ser uma forma cultural,
descontextualizando os processos sociais, econômicos e políticos que nele estão
tramados, trata-se de uma abordagem que elimina qualquer indagação mais
sofisticada sobre os deslocamentos normativos gerados por essas práticas, a
partir das paródias e das desnaturalizações que elas provocam. O interesse em
investigá-las reside, precisamente, no fato de elas mobilizarem e mostrarem com
força dramática, a partir de todo um repertório de convenções culturais e
sociais disponíveis, as assimetrias de poder, as materializações e
corporificações de normas de gênero, de sexualidade, bem como de outros
marcadores de diferença, como classe, raça e idade. Para além da ideia presente
no senso comum de que o teatro não é a vida, tratar essas práticas e decifrar
seus enredos, cenas e cenários permite entender – até por seus intrincados
paradoxos – as convenções que organizam, também de modo idiossincrático, as
relações entre violência, gênero e erotismo.