Introdução: Angola na passagem do tempo
Em outubro de 2004 aterrava no aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, para
trabalho de campo no âmbito do doutoramento. Nessa altura, Angola estava longe
de ser considerada um parceiro comercial apetecível como é hoje.
Quando percorri a cidade a pé o impacto foi imediato: não havia outros
ocidentais a andar nas ruas; a cidade estava, como ainda hoje, pejada de carros
que ocupavam mais do que as habituais duas faixas de rodagem. Aos famigerados
candongueiros ou Hiaces, azuis e brancos, juntavam-se Toyota Corola, que sem
caracterização especial se transformavam em táxis. Os carros particulares eram,
na sua maioria, veículos 4X4, alguns Humvee ou BMW, Range Rover e os clássicos
Land Rover, estes últimos na sua maioria com placa de matrícula verde, sinal de
organização não governamental.
As quitandeiras marcavam presença em todas as esquinas e cruzamentos do centro,
(re)vendendo mercadorias, medicamentos farmacêuticos, -mezinhas
tradicionais, bem como produtos frescos, nomeadamente fruta, comes e bebes
preparados nos bairros em fogareiros a carvão construídos a partir de jantes de
carro. A conjuntura recente de pós-guerra era ainda percetível na cidade. As
lojas, prédios, monumentos e até as praias dos restaurantes da ilha eram
vigiadas dia e noite por guardas armados com Kalashnikovs. O padrão de
urbanização refletia um legado de vários passados: o colonial e o das políticas
habitacionais marxistas das décadas de 1980 e 1990, perpetuando-se na
contem-poraneidade uma cidade dual, dividida entre condomínios fechados e
musseques.[1]
Mas nada do que lera previamente me tinha preparado para a visão de centenas de
chineses a trabalharem na baixa, particularmente na Mutamba, a (re)construir
edifícios governamentais. Era o ano zero dos efeitos práticos do acordo
assinado um ano antes entre o governo do MPLA e a China. Esta era uma situação
aparentemente paradoxal, tendo em consideração as relações entre estes dois
atores durante o conflito civil (Birmingham 2007; Vidal 2007). No entanto,
neste processo de globalização, as relações entre os dois agentes históricos
não são tão antagónicas como aparentam. Após a independência, depois de apoiar
inicialmente a FNLA e depois a UNITA, a China reatou relações diplomáticas e
comerciais com o governo do MPLA em 1983 (Sommervile 1989). No entanto, a
partir de 2003 a escala relacional modifica-se. O trabalho de terreno na Lunda
Norte revelaria que a ação dos novos atores ainda não se sentia nas terras
longínquas do Nordeste do país, e por consequência a ressignificação dos
expatriados, pelos locais, era restrita. O chamar de uma quitandeira no mercado
do Dundo para o meu colega norte-americano ' Soviético, ó soviético! Compra
aqui! ' revelava que o status quo nas províncias era ainda reminiscente dos
tempos do afro-estalinismo.
Os resquícios da Guerra Fria e o não pagamento da dívida por parte de Angola ao
clube de Paris fizeram com que, pelo menos formalmente, os países ocidentais
condicionassem a sua ajuda à implementação de processos democráticos: boa
governação, respeito pelos direitos humanos, liberdade de imprensa e melhoria
das condições de vida para toda a população. É neste quadro que entram em cena
outros atores: China, Brasil e Índia.
O acordo entre a China e Angola, feito em termos de troca de infraestruturas
por matérias-primas, nomeadamente petróleo, criou o que foi definido como o
modo angolano de financiamento.[2] Certo é que, nestes dez anos, Angola mudou.
No entanto, como refere um diálogo no filme Il Gattopardo, de Visconti: If we
want things to stay as they are, things will have to change. Mas as mudanças
estruturais verificadas têm tido um profundo impacto na sociedade, na economia,
na política e na cultura vivenciada.
As estruturas rodoviárias ou ferroviárias, que em 2004 mostravam ainda as
feridas de dezenas de anos de conflito, pouco têm a ver com as encontradas na
década de 2010, fruto do contributo de empresas portuguesas, e também chinesas
e brasileiras, estas últimas novos agentes da globalização subalterna (Perrot
e Malaquais 2009). O mesmo se pode verificar no setor das telecomunicações,
onde, mesmo no meio da área do Nambuangongo, na zona dos Dembos, em aldeias
remotas, toda a gente sabe que naquela pedra grande, ao lado da árvore, com o
braço um pouco esticado, pode falar. A topografia local integra assim novas
interpretações do território.
A indústria da televisão por cabo é um outro sinal da voraz modernidade
vivenciada em Angola, sobretudo para os que têm acesso a televisão e a um
gerador. As duas empresas angolanas disseminaram a sua utilização para cidadãos
comuns, relegando para segundo plano a operadora sul-africana que até aí
permitia à elite e aos expatriados um acesso privilegiado à globalização anglo-
saxónica.
Mas a falta de uma cadeia de frio faz com que este progresso não se replique
com a mesma velocidade no mercado alimentar e na saúde: os grandes
supermercados estão concentrados quase exclusivamente nas populosas zonas
urbanas costeiras, e há carência de instalações de saúde biomédicas
apetrechadas com tecnologia para diagnósticos e terapêutica. Assim, no mundo
rural das províncias ainda dominam mercados tradicionais e pequenas lojas com
um mínimo de produtos perecíveis, geridas por portugueses, libaneses, chineses,
vietnamitas ou alguns angolanos, bem como pequenos hospitais regionais que, com
parcos recursos humanos e tecnológicos, competem com clínicas tradicionais e
igrejas de cura.
É assim sem surpresa que verificamos que, entre 2003 e 2008, Angola apresentou
taxas de crescimento de dois dígitos, mantendo-se acima dos 7% depois disso,
verificando-se uma forte melhoria em inúmeros indicadores socioeconómicos. A
título de exemplo, entre 1980 e 2012 a esperança de vida à nascença aumentou
11,3 anos e o rendimento nacional bruto per capita aumentou 74% de 1985 a 2012.
Aliás, em Julho de 2012 o Banco Mundial alterou a classificação de Angola de
país de lower middle incomepara país com upper middle income. Apesar destas
melhorias, a maior parte da população ' 90,9% ' vive com menos de dois dólares
norte-americanos por dia (Croese 2012), uma realidade que se reflete na
classificação no índice de desenvolvimento, onde o país está na 148.ª posição
entre 187 territórios analisados (PNUD 2013).
As ondas da modernidade poderiam levar o leitor a pensar que, como no livro de
L. P. Hartley, em Angola, o passado é um país estrangeiro. No entanto, uma
análise mais profunda revela que tal não é tão linear como aparenta. Os artigos
deste dossiê levantam o véu sobre a complexidade do trajeto histórico do
período colonial no início do século XX à Angola globalizada do presente. Na
verdade, questionar se em Angola o passado é um país estrangeiro tem de ser
considerado como um artifício retórico, uma tentativa de elaborar explicações
para um presente aparentemente sem fundações profundas, segundo algumas grelhas
de análise. Ora o equívoco não poderia ser maior, pois este sentimento de não
pertença relaciona-se mais com discursos e representações de media ou novos
atores que mascaram a continuidade de diversos processos sociais que
trespassam períodos históricos aparentemente estantes.
Alguém que queira compreender a Angola contemporânea tem forçosamente de olhar
para além de um único campo do conhecimento, quer seja a antropologia social e
cultural, a ciência política, a economia ou a sociologia e, como Chabal e Vidal
(2007) tão lucidamente referiram, atentar à história. No entanto, qualquer
veleidade de o fazer esbarra com a ausência de uma historiografia sistemática e
compreensiva do território pré-colonial, colonial, ou do período após a
independência. O objeto de estudo é vasto e complexo.
Partindo de vários estudos de caso sobre arte e religião ' incluindo-se nesta
última o caráter revolucionário da autoridade carismática tangível na
transformação da igreja Tocoísta e na emergência das profetizas de igrejas de
cura ' este dossiê enfatiza as leituras etnográficas e as suas relações com
processos sociais mais amplos. Esta introdução realça alguns aspetos da
história e da contemporaneidade angolanas, entre dois processos históricos
subjacentes ' colonialismo e globalização ', e prepara o leitor para um
enquadramento conceptual e contextual mais elaborado das etnografias
apresentadas neste número da revista Etnográfica.
Pretende-se, assim, evocar a pesquisa de alguns investigadores relacionados com
a academia lusófona, que ilustra como, sob um manto de constantes mudanças,
processos sociais continuam a moldar a representação do país ou, como qualquer
antropólogo requereria, permite verificar qual a influência destes processos
macro nas biografias das pessoas comuns. De uma chamada ampla foram
selecionados três textos que, com maior ou menor grau, obedecem ao principal
desiderato do dossiê, ou seja, identificam a relação entre a contemporaneidade
e os passados pré-colonial e colonial, ou, como refere o título escolhido para
o dossiê que agora se apresenta, entre a vertigem da modernidade e o lastro do
passado.
Esta relação é percetível desde a saída do aeroporto internacional de Luanda
até à Maianga ou à nova marginal, está presente nos discursos e representações
sobre a nova Angola, é visível nas interpretações locais de telenovelas sul-
ame-ri-canas de baixo custo que invadem os bairros periurbanos, ou nas
casas de administradores ou dos primeiros-secretários, autênticas casas-farol
nas noites escuras do mundo rural que recordam o passado.
O trabalho épico de René Pélissier (1997 [1986]), História das Campanhas de
Angola: Resistência e Revoltas (1845-1941), revela um século de ações contra os
portugueses em diversas áreas do território. Às duas décadas de paz que
decorreram do fim das campanhas de pacificação até 1961, ano que marca o início
da guerra de libertação, juntam-se agora uma dúzia de anos, de 2002 até a
atualidade. São escassos os períodos sem conflitos: diversas revoltas, lutas de
libertação ou guerras civis pontuam a história de Angola. Se as produções
académicas de cariz antropológico, económicas, de ciência política ou até de
saúde pública se cingem à contemporaneidade, enfatizando o presente etnográfico
malinowskiano, apesar de poderem enaltecer a resiliência do povo, não trazem
a lume as raízes dos processos sociais, com mais de século e meio, que sempre
exigiram ao povo angolano esforços desumanos para a sobrevivência.
Recorde-se que, no século XIX, Hegel caracterizava os africanos como os
selvagens mais selvagens da pirâmide hierárquica racial (Laplantine 1991);
estes foram feitos escravos (Miller 1988), foram evangelizados, forçados a
trabalhar como mão de obra barata (Ball 2003; Cleveland 2008) e consumidores de
mercadorias europeias de baixo custo. Assim, raras foram as alturas em que lhes
era dada voz nos arquivos coloniais. A procura da voz das populações locais
acontece após a descolonização, com as explorações das primeiras histórias
orais (Vansina 1985), ou depois, com as leituras a contrapelo dos estudos
subalternos (Guha e Spivak 1998). Daí iniciaram-se outros modos de ver os
africanos, de tentar ouvir a sua voz num silêncio ensurdecedor de arquivos com
quilómetros. No entanto, com ou sem voz, os angolanos e as suas instituições,
práticas socioculturais, políticas ou económicas foram e são atores
omnipresentes ao longo de décadas de produção académica.
Esta constante luta pela sobrevivência foi e é assim construída por via da
interpretação académica como resistência ao colonialismo, fuga para
territórios limítrofes (Van Onselen 1976), resiliência ou relação estratégica
com os colonizadores, com o intuito último de manter-se vivo. No entanto, se
isto foi relatado por Ross (1925) e Galvão (1947) durante o período colonial,
após a independência, durante a guerra civil, o mesmo foi replicado entre as
populações do planalto central, como nota Florêncio (2010).
Outra dimensão desta continuidade entre contextos históricos verifica-se no
papel das igrejas na transformação do tecido social. Em Of Revelation and
Revolution, Comaroff e Comaroff (1991) descrevem um processo similar na África
do Sul.[3] Muitas das práticas das congregações religiosas estiveram
intimamente relacionadas com a evangelização e as alterações sociais a nível
familiar, que eram vistas como parte integrante da missão civilizadora.[4] No
fundo, o desiderato de implementar a missão, no século XIX e início do século
XX, traduzia-se na ênfase na descendência patrilinear, nas relações monogâmicas
e numa nova atenção prestada ao corpo ' o uso de indumentária decente, ou seja,
europeia, e cuidados de higiene que surgem com a emergência da medicina
tropical (Arnold 1988).
O discurso hegemónico do processo histórico anterior ' leia-se a ação
civilizadora ' parece desaparecer com o fim do projeto colonial e consequente
debandada de quadros administrativos médios ou superiores, ou diante da perda
de relevância de determinados atores. Após a independência, e com maior
acutilância desde o final das hostilidades da guerra civil, surge um outro
discurso que sublinha o desenvolvimento de uma Angola nova e (neo-)moderna. No
entanto, esta Angola da segunda década do século XXI continua a ser o resultado
de longos processos históricos que moldam a ação dos inúmeros (novos) atores
locais, regionais e internacionais, que renegociam as suas posições, e seguem o
mantra da inserção nos trânsitos globais.
A persistência de muitos destes atores sociais em diversos contextos históricos
replica-se também em práticas político-administrativas das autoridades
tradicionais, que se mantiveram similares ao longo de quase cem anos.[5] Como
em vários outros contextos africanos, as autoridades locais renegociam as suas
funções e ações, algo que fizeram durante o período colonial e continuam a
efetuar no contexto dos Estados-nação africanos independentes (Neto 2001;
Pacheco 2001; Guedes e Lopes 2007; Orre 2007; Florêncio 2010, 2011;
-Oliveira 2013).
Enquanto, no contexto imperial, se conceptualizava que a ação civilizacional
levaria à extinção das práticas de feitiçaria, de adivinhação ou dos
curandeiros face à força e eficácia da biomedicina, após a independência, o
Estado e seus representantes continuam a olhar de soslaio para tais práticas,
pois vão contra representações e discursos de uma Angola moderna e globalizada.
O 11 de Novembro de 1975 é amiúde associado a uma divisória hermética num
(hipotético) conceito de Rorschach colonial, onde a mancha de -Rorschach
impõe uma separação traduzida num mimetismo do colonial pelo pós-colonial; no
entanto, os textos aqui apresentados revelam um quadro menos linear e/ou
mimético. Este decalque é relativo.
Angola continua a ser alvo de diversas narrativas, correspondentes a diferentes
visões inerentes a diferentes períodos históricos e práticas políticas, de um
Estado colonial autorrepresentado como arauto da modernidade ao período após a
independência, caracterizado por Tony Hodges (2001) como abrangendo dois
momentos diferentes, um Afro-Estalinisme um petro-diamond capitalism.
Presentemente, Angola pode ser vista como um Estado em desenvolvimento mas
enfaticamente neoliberal. Como Marx escreveu no ano de todas as revoluções
europeias, 1848: Tudo o que é sólido se dissolve no ar. Ou seja, a
modernidade angolana não parece ser tão palpável como os discursos da
construção de um projeto de Estado hegemónico fazem crer.
Os artigos deste dossiê demonstram a forte relação existente entre o período
colonial e o período após a independência, nem que seja para circum-navegar
este período histórico. Ou seja, mostram como a História de Angola, e
consequentemente o seu presente, estão a ser considerados em termos da
mitologia dos movimentos de libertação. A ocupação colonial portuguesa de
Angola ganhou relevo nas três décadas iniciais do século XX, ou seja, após a
implantação das estruturas do Estado colonial por todo o território (Clarence-
Smith 1985), enquanto o processo histórico da globalização, referente ao
período após a independência, ganha ímpeto nesta segunda década do novo
milénio. As análises presentes nos artigos aqui apresentados realçam as
ligações entre o local e o global nos períodos mencionados e a importância de
determinados processos sociais, económicos e políticos que perpassam essa
divisão entre período colonial e período após a independência, e que são
fulcrais para o sedimentar de discursos neomodernos.
O texto de Nuno Porto dá um contributo decisivo para uma melhor compreensão da
íntima relação entre arte e poder e da continuidade existente entre os
diferentes períodos e processos e novos atores históricos. O autor traz a lume
os fatores políticos e económicos que influenciam a (res)significação e
(re)negociação de objetos de arte nas escalas nacionais e globais, no interior
de contextos coloniais e após a independência. Os processos culturais
(publicações e exposições) dos anos 50-60 do século XX levados a cabo pela
Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) culminam na criação do conceito da
arte Tshokwe. Neste tempo do colono, a transformação do artefacto em objeto
de arte etnográfica realizava-se por meio dos etnógrafos enquadrados em
instituições nacionais, como o Museu do Dundo da Diamang. Após a
-independência surgem novos atores sem relação direta a instituições
estatais ' curadores de feiras de arte internacionais, no caso presente a
Trienal de Luanda ' que se reapropriam e dão novos significados a artefactos de
arte Tshokwe, transformando-a em arte contemporânea.
Nuno Porto, acutilantemente, faz notar que o fecho formal da situação colonial
não implica, necessariamente, o termo de relações coloniais, quer no campo
político, quer no campo cultural. O fulcro entre os dois períodos não é
passível de se resumir a uma data, pois tal elide os processos de produção da
arte entre os contextos em análise. Assim, as reapropriações do século XXI,
efetuadas a partir de Luanda, contribuem para o debate sobre a nova identidade
nacional de Angola, de assinatura neomoderna e global, relegando a arte
etnográfica ou Tshokwe do contexto colonial e centrando-se em
(res)significações contemporâneas das artes primeiras que circum-navegam o
colonial e vingam em bienais no estrangeiro.
Ao revelarem um pouco sobre a origem e história da Igreja Tocoísta desde a sua
génese até ao presente, Blanes e Sarró reforçam a ideia de porosidade entre
contextos aparentemente herméticos. Somente em 1992, após a morte de Simão
Toco, com políticas de inspiração soviética do MPLA, é que os tocoístas viram a
sua igreja legalmente aceite, na última das campanhas de reconhecimento de
congregações religiosas. O reconhecimento obriga os tocoístas a confrontarem-se
com problemas vários, como as novas problemáticas socioeconómicas, as políticas
beligerantes após a independência e a competição com as novas igrejas
oriundas do espaço transnacional, ligadas aos ramos evangélico, pentecostal e
neopentecostal, e, mais importante, com a questão da sucessão carismática face
ao desaparecimento do seu profeta.
Em resposta à questão de saber qual é o verdadeiro tocoísmo surgem várias
correntes dentro da própria congregação. As dinâmicas internas, tangíveis em
confrontos geracionais, são reveladoras de um outro confronto vincado na Angola
contemporânea. A primazia de uma destas correntes está em sintonia com a
narrativa nacional de uma nova Angola com igrejas modernas e em expansão,
inseridas em fluxos transnacionais. Blanes e Sarró notam que a imaginação sobre
a realidade do profeta (quase como simulacro baudrillardiano) e o espalhar da
mensagem pelo mundo foram centrais para recuperar o sentimento de presença do
profeta entre os novos fiéis na diáspora angolana. Ou seja, neste contexto, o
problema da sucessão carismática não se cingiu a um dos modos conceptualizados
por Weber, englobando um mecanismo de revelação conjugado com a designação por
pessoal qualificado. Subjacente a estes mecanismos de seleção e legitimação do
novo líder carismático estava o discurso da modernidade, que incluía
ressignificações do(s) passado(s) que contribuiriam para a expansão global da
igreja.
O desânimo da Geração Utopia de Pepetela ou a incompletude das políticas
governamentais da Angola Jovem são esquecidas face ao eterno acreditar no
progresso, inerente à reinvenção constante de uma narrativa nacional. Este
acreditar esteve presente nas mais diversas doutrinas políticas: durante o
período colonial era veiculado pela revelação tocoísta para a libertação
espiritual dos africanos (Blanes 2014), nas emissões radiofónicas da Angola
Combatente, nas produções de música de intervenção do MPLA; no contexto pós-
colonial, transforma-se durante os anos afro-estalinistas nas práticas dos
sábados vermelhos, ou em ações de limpeza de rua ou edifícios; presentemente
é palpável na produção comercial musical de semba, kuduro ou hip-hop, ou em
produções locais de cinema digital de baixo custo edo-it-yourself, com
temáticas de ação ou mensagens religiosas neotradicionais onde a autoridade
carismática impera.
Um breve olhar sobre as discussões do Workshop sobre o Fenómeno Religioso em
Angola, cujas atas foram publicadas pelo Instituto Nacional para os Assuntos
Religiosos (INAR), reforça a perceção da hegemonia da narrativa (neo)moderna em
Angola. Enquanto a aceitação do monoteísmo durante o domínio colonial (Caley
2011) é interpretada como natural face às semelhanças com a cosmovisão banto,
as inúmeras denominações religiosas à espera de reconhecimento por parte do
INAR despoletam ansiedade nas outrora seitas que, nas campanhas de 1987 e 1991,
obtiveram reconhecimento oficial, transformando-se em igrejas (cf. INAR 2011:
15).
Entende-se que as novas igrejas hóspedes desvirtuam os valores culturais
angolanos, pois promovem a prática de acusação de crianças e idosos
feiticeiros [ ] aproveitando-se das condições de vida das pessoas, retiram-lhes
o pouco que têm, prometendo-lhes mundos e fundos, prometem emprego, casamentos,
curas (Luvualo 2011), ou então por só apresentarem templos e falharem na
apresentação de hospitais, colégios, universidades ou instituições de teologia
(Caley 2011: 27). Estas são conceptualizações intimamente relacionadas com as
missões cristãs ou protestantes do contexto colonial.
O tradicional, ou passado pré-colonial, apresenta um manancial de
possibilidades. O académico angolano Caley refere que só um olhar científico e
o mapeamento das práticas religiosas da situação antecolonial permitem conhecer
melhor o homem africano (Caley 2011: 27). De acordo com esta visão,
argumenta-se pela criação de um sistema de capacitação, qualificação e controlo
permanente dos líderes religiosos no domínio teológico e outras formações
científicas (Sebastião 2011). Estas ideias enfatizam a relação entre Estado e
Igreja existente desde o período colonial, mas agora passível de ser
reinterpretada de forma mais abrangente com elementos discursivos que referem
que O Estado é o Deus na Terra (Malanda 2011).
A apropriação do repositório tradicional é efetuada seletivamente e com o
intuito de ter uma visão clara do progresso ' por exemplo, quando os fiéis,
face a dificuldades provocadas pela economia de mercado, evocam antigos reis da
resistência colonial como Ngola Kiluange, Njinga Bandi, Ekuikui, Mandume,
Nunduma (Caley 2011). Esta reapropriação do passado, através do culto de
profetas realizado por meio de atos performativos, como Viegas e Varanda notam,
cria espaço para as novas profetizas que negociam novos papéis de género num
contexto marcado pela hegemonia patriarcal.[6] No entanto, há que evitar cair
em exotizações fáceis na análise das ressignificações referentes ao passado
colonial e pré-colonial ou tradicional, pois nas sociedades ocidentais também
existem heróis míticos e acontecimentos fundacionais que, podendo ser
historicamente verídicos ou não, são sustentados por uma rede de significados
(Kertzer 1998: 12-13).
As lentes da religião, tais como as da arte, são importantes para entender os
processos de (re)construção do discurso da nação, um discurso que valoriza as
qualidades construídas, atribuídas à Angola moderna, por sua vez integrada em
fluxos globais e onde a ciência é um dos arautos do progresso, inclusive no
campo religioso.
Viegas e Varanda centram-se nas igrejas neotradicionais da Luanda do início do
século XXI e mostram como os discursos de uma Angola moderna, tecnológica e
científica, por vezes, não são verificados no terreno. A juntar à provisão de
conforto espiritual, de sentimento de pertença a uma comunidade, como refere
Durkheim, a década de 1990 trouxe uma transformação simbólica das igrejas,
verificando-se uma apropriação de novas competências, como a capacidade de cura
e a abertura de um espaço societal que possibilita a ressignificação de
biografias femininas e a negociação de papéis de género.
O discurso das várias igrejas nasce no seio de uma representação vincada da
modernidade angolana. As dicotomias indivíduo/comunidade e tradicional/moderno
constituem as bases para a construção de uma identidade própria das igrejas
neotradicionais, com cultos que incluem sessões de possessão, ritos de
exorcismo e cura, conduzidos de acordo com novas interpretações bíblicas que
enfatizam a resiliência da população para vencer as dificuldades quotidianas.
Os carismas atribuídos às profetizas mostram o seu caráter revolucionário, ao
permitirem que estas mulheres deem novos significados às suas biografias e, ao
mesmo tempo, criem novos percursos sociais, bem como espaços de esperança para
as suas discípulas.
As incumbências autorreclamadas pelas igrejas neotradicionais copiam as
práticas das igrejas históricas do contexto colonial, atenuando os problemas
vivenciados pelas pessoas e, em alguns casos, substituindo o Estado no
cumprimento dos deveres sociais. Este último apontamento é um dos fenómenos
centrais no projeto da Angola contemporânea ' a manutenção do papel central das
igrejas, tal como tiveram no passado, para a sobrevivência de milhões de
angolanos. Como notou Durkheim, não há religiões falsas, pois a função da
religião é ajudar a viver melhor; todas elas respondem, de forma diferente, às
condições da existência humana.
O contexto da macroficção da modernidade onde o Estado-nação impera força mais
uma vez à continuidade, neste caso nos processos de construção simbólica. Até
aos anos 50, as missões religiosas (católicas e protestantes) substituíam o
Estado na prestação de cuidados biomédicos, nomeadamente nas zonas rurais (Ross
1925; Galvão 1947). Outros elementos centrais para o projeto colonial eram as
empresas coloniais que dominavam largas áreas do território, como a Companhia
de Diamantes de Angola (Diamang), ou os Caminhos de Ferro de Benguela e
Cassequel, que também atuavam no âmbito sanitário com programas de saúde
pública próprios (Varanda 2014).[7] No contexto após a independência, a par de
programas verticais como as ações das equipas móveis contra a doença do sono e
para a erradicação da poliomielite, que representam o Estado em áreas fora dos
centros urbanos costeiros e/ou provinciais, estas igrejas de cura devem também
ser consideradas como atores relevantes em contextos do -interior.
Ao aceitar-se o pressuposto de que as entidades políticas são construções
simbólicas resultantes de um processo longo e complexo de construção de uma
identidade nacional, onde diferentes indivíduos se reveem na entidade abstrata
que é a nação (Kertzer 1998), deve ter-se em conta o papel dos novos atores
neotradicionais nesse processo. Este esforço de construção simbólica de uma
nação é facilitado com recurso a heróis fundacionais que tenham resistido aos
avanços coloniais (Ngola Kiluange, Njinga Bandi, Ekuikui, Mandume, Nunduma), a
heróis que tenham libertado o povo do jugo imperial (-Agostinho Neto), ou,
no contexto contemporâneo, que tenham conseguido a paz e mantido a unidade
nacional e/ou territorial (José Eduardo do Santos) face a inimigos internos.
Há que ir além e considerar as próprias instituições estatais como fazedoras de
simbologias da nação. Tal reflete-se nos edifícios dos governos provinciais,
municipais ou comunais, bem como nos coordenadores de bairros presentes nas
cidades ou pequenas vilas ou aldeias, mas também em instituições educacionais
ou de saúde.
Messiant (1999, 2007), Jensen e Pestana (2010), e Oliveira (2013) referem que,
paralelamente a esta construção simbólica, decorre o processo de relegar
algumas das funções do Estado para a sociedade civil. Enquanto a falecida
autora francesa revela a inter-relação entre organizações não governamentais e
figuras governamentais (Messiant 1999, 2007), Jensen e Pestana (2010) apontam a
centralidade das igrejas para matizar as condições de violência estrutural,
como nota o conceito de Farmer (1999), em que a maioria dos angolanos se
encontra. Oliveira (2013) refere a crescente colagem entre o Estado-nação e o
Estado-partido e a importância de alguns atores locais neste processo.
Estes imaginários de outra globalização por vezes confrontam-se com o
imaginário dominante da globalização do Norte. São raras as notícias sobre a
Angola contemporânea que não incidam na sua dimensão económico-financeira. A
economia do processo de globalização pode ser avassaladora, mas é imperioso
considerar as perceções e histórias, as biografias dos novos atores, suas
trajetórias e práticas, processos de (re)construção de identidade, projetos
culturais ou económicos da elite, bem como os olhares estatais ' em resumo, é
necessário atentar às lógicas locais e regionais, integrando-as em processos
histórico-sociais inerentes (neste caso, a globalização), pois viver e/ou
negociar em Angola implica lidar com inúmeras idiossincrasias. Só assim se
poderá compreender melhor Angola no início do século XXI.
Em Angola, a mudança constante, reflexo da história e progresso da ciência e da
técnica, é parte inerente da modernidade. Mas como refere o filósofo inglês
John Gray, a crença contemporânea no progresso é, paradoxalmente, quase
religiosa.[8] Há um sentimento inabalável de que o avanço no conhecimento e na
tecnologia terá paralelo em progressos socioculturais, éticos e políticos. Ou
seja, acredita-se que este movimento transformador trará benefícios num devir
próximo, que os descendentes imediatos viverão melhor. No entanto, avisa Gray,
esta é uma crença que, para a maioria das pessoas, não se concretizará. Esta
conceção cega a compreensão do movimento lento das rodas da engrenagem da
história e da sua tradução no real, visão que é ilustrada nos três textos deste
dossiê.
Mas a voracidade da mudança socioecónomica descrita nestas páginas de um modo
geral reflete-se também nas fraturas classificatórias de que os expatriados são
objeto por parte dos locais. Se, por exemplo, voltasse ao mesmo mercado do
Dundo com o colega norte-americano, este já não seria classificado como
soviético pelas quitandeiras. O roulement de atores verificado entre 1980 e
2014 impeliria a uma ressignificação do expatriado, já não chamado branco;
seguiriam antes o exemplo das crianças das aldeias nas áreas rurais das
províncias do Bengo, Kwanza Sul e Uíge, que nos últimos anos, quando me viam,
chamavam: Ó chinês, ó chinês!