Turismo e sentido de lugar em Óbidos: uma pousada como metáfora
Não é possível pensar na constituição do turismo como área de interesse
científico sem remeter para o debate que a sua democratização estimulou, na
década de 1970.[1] Para as ciências sociais, os impactes do turismo nas
culturas e comunidades de destino anunciavam novos terrenos e temas de
reflexão. A distinção entre autenticidade e sua encenação para fins turísticos
(MacCannell 1976) e a ideia de mercadorização da cultura como seu empacotamento
e comercialização (Greenwood 1978) tornaram-se questões centrais. Estes
conceitos foram estruturantes de vários estudos sobre as motivações, as
atrações e os encontros turísticos (cf. Smith 1978). Um entendimento
objetivista de autenticidade e mercadorização produziu visões negativas sobre a
indústria turística como destruição das culturas locais e dos seus significados
sociais, levando à conceção de formas alternativas de turismo (cf. Smith e
Eadington 1992). Ao mesmo tempo, porém, a natureza dicotómica do par
autenticidade/mercadorização esbateu-se, enquanto expressão das relações entre
cultura e consumo que caracterizam a modernidade (cf. McCracken 1988). Novas
reflexões repensaram a autenticidade como uma construção cultural e negociável
que expressa valores, anseios e necessidades do mundo ocidental moderno (e. g.
Cohen 1988). O turismo passou, então, a ser entendido como prática social
inscrita em dinâmicas mais alargadas de identidade social e cultural (e. g.
Butler 1992; Abram e Waldren 1997).
O que se pretende mostrar neste artigo, através da apresentação de uma pesquisa
sobre a vila de Óbidos, é como o turismo pode incorporar um sentido de lugar.
Os discursos das populações locais sobre Óbidos são narrativas que sublinham os
impactes negativos do turismo no presente e naturalizam a sua produção no
passado. Nesta construção, diferentes expressões, atores e tempos dos processos
de mercadorização da cultura, ora confirmam uma identidade local, ora excluem o
que está para além dela. Mais do que integrar as experiências sensoriais,
simbólicas e afetivas que Tuan (1974) propõe serem produtoras do sentido de
lugar, o turismo é uma prática social intrínseca aos modos como as populações
de Óbidos vivem, conhecem, disputam, lembram e imaginam hoje a vila e, por
isso, constituído e constituinte da experiência e representação do lugar (cf.
Feld e Basso 1996).
As pesquisas realizadas na vila de Óbidos fizeram parte de uma investigação de
doutoramento que procurou espacializar modalidades de representação e consumo
do passado nas Pousadas de Portugal (Prista 2011).[2] A vila de Óbidos e a
Pousada do Castelo foram o primeiro terreno trabalhado por instrumentos de
análise espacial e por métodos etnográficos, incluindo a realização de cerca de
85 entrevistas e conversas informais com atores sociais representativos dos
habitantes, dos agentes políticos e turísticos e dos turistas locais. A seleção
deste estudo de caso baseou-se na notoriedade da Pousada do Castelo na rede
Pousadas[3] e ganhou consistência na expressão quase caricatural que a vila de
Óbidos exibe dos processos de turistificação dos núcleos históricos
patrimonializados, que têm centrado o trabalho de vários autores (e. g.
Herzfeld 1991; Boissevain 1996a; Silva 2007, 2011). O que se observou ser
invulgar, no caso de Óbidos, foi a fluidez encontrada nos entendimentos sociais
de turismo, património e identidade, e a autoridade do passado e das elites nas
representações das populações locais sobre o lugar.
A vila de Óbidos
Até às Guerras Liberais (1828-1834), Óbidos era um termo extenso e uma vila
cuja conquista por Afonso Henriques (1148) e integração na Casa das Rainhas
(1210) associaram à fundação da nação (Trindade 2001). Leal à causa miguelista,
Óbidos entraria então em declínio. No início do século XX, o concelho já só
possuía nove das 37 freguesias anteriores, as atividades piscatória,
agroflorestal e industrial eram deficitárias e a sua sede era pobre e
densamente povoada (GTL s/d.). A situação contrastava, porém, com o crescimento
económico e social da região do Oeste. O prolongamento da linha de caminho de
ferro até às Caldas da Rainha (1888) impulsionou a indústria turística balnear
e termal da região e a produção frutícola e vinícola de abastecimento à capital
(Trigo 2004). Este desenvolvimento animou outras atividades económicas e
culturais, levando ao protagonismo crescente de vilas como Torres Vedras,
Peniche ou Caldas.
Inspirada pelo quadro regional, a autarquia de Óbidos procurou ultrapassar o
declínio simbólico e económico do concelho solicitando ao poder central a
restituição de terras perdidas (1897), a criação de banhos termais (1874) e a
construção de uma estação de comboios (1907). [4] Só em 1928, no entanto,
Óbidos ensaiou um caminho para o desenvolvimento local, com a classificação da
vila como estância turística e as primeiras iniciativas de promoção do destino.
[5] O arcaísmo das estruturas urbana e social da vila e a sua localização
privilegiada entre Lisboa e as Caldas da Rainha, a caminho dos mosteiros de
Alcobaça e da Batalha, serviam um Estado que institucionalizara o turismo em
1911 e encontrava no valor romântico dos monumentos históricos um modo de
celebrar o passado e a identidade da nação (cf. Tomé 2002). Foi neste contexto
que o ulterior presidente da autarquia, Albino de Castro, propôs a
classificação de toda a vila como património e destino nacionais, convocando a
autoridade de autores como Ramalho Ortigão e Raul Proença na publicação dos
seus ensaios e relatos de viagem a Óbidos (Castro 1933). [6] A história
monumental tornou-se, então, central ao projeto turístico de Óbidos. A vila foi
palco das campanhas de restauro da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos
Nacionais (DGEMN) e em 1951 o núcleo muralhado foi homologado património.[7]
Procurando erguer testemunhos icónicos da nação, a DGEMN restaurou o castelo,
as muralhas e vários edifícios religiosos e nobres, repondo a verdade histórica
do nacionalismo oficial, ao anular elementos dissonantes dos tempos da fundação
e glória da nação e reinventar os seus depoimentos materiais (DGEMN 1952).
As campanhas da DGEMN em Óbidos foram acompanhadas pela autarquia local em
intervenções de natureza diversa. Desde logo, no plano simbólico, o feriado
municipal de 1 de maio foi alterado para 11 de janeiro, data da conquista da
vila por Afonso Henriques. [8] Mais consequente foi a renovação da imagem do
lugar, assistida pela ação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) na
construção de uma paisagem rural pitoresca e folclórica, que pretendia
doutrinar o país nos valores do nacionalismo oficial e via no turismo um
veículo privilegiado para a encenação da identidade nacional (cf. Pires 2003).
Óbidos foi mesmo o cenário eleito para testar as pousadas regionais enquanto
espaços performativos da nação, tendo hospedado o protótipo da rede (Estalagem
do Lidador, 1940) e a primeira unidade em monumento nacional (Pousada do
Castelo, 1950).
Outras intervenções em Óbidos lembram a ação do SPN nas povoações candidatas ao
título de Aldeia Mais Portuguesa de Portugal (cf. Alves 1997). Na produção de
uma “vila pitoresca”, a autarquia homologou um conjunto de medidas que
condicionaram o quotidiano e a continuidade das populações rurais na vila, ao
mesmo tempo que promoveram o destino turístico junto das elites nacionais
(Ganhão 2009). [9] O resultado foi uma reconfiguração dos tecidos sociais de
Óbidos, com a saída das famílias pobres e numerosas, o retorno das famílias
nobres da região e a chegada de personalidades políticas e artísticas da cena
nacional (cf. Silva 1998). De forma mais sazonal ou permanente, estes novos
grupos estabeleceram-se na vila, penetrando nas estruturas económicas e sociais
locais e tomando a Pousada do Castelo como espaço de socialização. A audiência
prometida pela pousada encorajou ainda o aparecimento de novos tipos de
estabelecimentos comerciais e, durante as décadas de 1950 a 1970, apareceram os
primeiros restaurantes, bares, lojas e pensões orientados para o consumo
turístico.
As intervenções no espaço urbano de Óbidos esmoreceram até meados dos anos 70,
mas pouco se alteraram no que respeita às metodologias, instrumentos e práticas
patrimoniais.[10] Só com os anos 80 novos entendimentos e usos do património
reforçaram a sua viabilidade como recurso económico e simbólico capaz de
contrariar a desertificação e desruralização do lugar. Sob o mote “Vila Museu”,
a autarquia instalou equipamentos culturais em edifícios nobres, eliminou
traços de modernidade no espaço urbano e promoveu festivais de arte e música
erudita (Garcia 2001). [11] Simultaneamente, a Câmara Municipal criou o Dia do
Turista e apoiou iniciativas locais de produção artesanal e cultural, no
sentido de promover a participação social na turistificação de Óbidos. [12] A
especulação económica gerada pelo desenvolvimento do turismo e as políticas
municipais de habitação e património não foram, contudo, capazes de contrariar
a desertificação e terciarização da vila. [13] Em finais da década de 1980, os
efeitos da turistificação de Óbidos eram claros na sua escolha para sede da
Região de Turismo do Oeste (1987) e na criação da Associação de Defesa de
Património do Concelho (1989). Óbidos consolidou-se como lugar de paragem de
excursões turísticas e escolares e a afluência em massa de visitantes
desencadeou movimentos de salvaguarda do património local. Foi nesta altura que
a Câmara Municipal adotou a divisa “Casa das Rainhas” e reforçou a associação
entre a vila, as elites e a história nacional na promoção do lugar.
O curso do turismo em Óbidos só se alterou, no entanto, com a mudança do poder
autárquico em 2001. [14] Lançando a marca “Óbidos Vivo”, a câmara autonomizou
a intervenção municipal no património e no turismo com a criação de empresas,
gabinetes e postos de trabalho especializados. No âmbito do património, foram
regulamentadas disposições urbanas e arquitetónicas, foi formada uma rede de
investigação com vista à candidatura da vila a património classificado pela
UNESCO, e o discurso sobre o passado medieval e quinhentista de Óbidos foi
alargado a novos tempos e espaços do concelho. [15] No plano do turismo, os
investimentos multiplicaram-se sob a gestão da empresa municipal Óbidos
Patrimonium, que ampliou a rede de auditórios, museus, galerias e monumentos
visitáveis, e que promove hoje diferentes iniciativas de cariz cultural e
recreativo.
A política atual da Câmara Municipal é explícita: o turismo deve ultrapassar a
sombra do património e constituir-se benefício para todo o concelho (Faria
2007). A adesão do setor privado é indiscutível: quase todas as tascas e
mercearias foram transformadas em snack-bares ou lojas de artesanato e muitas
unidades habitacionais oferecem alojamento informal. Num tecido urbano composto
por 163 edifícios intramuros, em 2007 existiam mais de 66 estabelecimentos
orientados para o consumo turístico. [16] Esta superabundância tem expressão
nos indicadores turísticos da região: o concelho de Óbidos representa apenas
6,4% da área da região do Oeste, mas a sua rede de equipamentos hospeda um
quarto do total de dormidas regionais (INE 2008).
A estratégia municipal para o desenvolvimento do concelho tem igualmente
expressão nos seus indicadores urbanísticos. A cobertura infraestrutural do
município é bem superior à média regional (INE 2008). No entanto, quase não
existem equipamentos de comércio e serviços não turísticos dentro da vila
muralhada – Óbidos é comparada a uma Loja do Cidadão pelos habitantes e
funcionários locais. [17] Esta especialização funcional teve consequências
sociodemográficas na vila. Entre 1940 e 2001, a população intramuros passou de
734 para 154 habitantes, 20% dos quais eram sazonais. O contraste entre os dois
grupos era notório: uma população permanente maioritária, com elevados índices
de envelhecimento, de analfabetismo e de inatividade, coexistia com um grupo de
residentes temporários com habilitações superiores e empregos qualificados em
outros concelhos (INE 2001; GTL s/d.).
Uma pousada como metáfora
“A Pousada de Óbidos teve uma importância tão grande para o desenvolvimento
destes conceitos todos […] em Óbidos como a Torre Eiffel tem para Paris. Quer
dizer, é uma referência e é uma âncora” (entrevista com representante da Óbidos
Patrimonium, 7 de agosto de 2007). Falando com as populações locais de Óbidos,
[18] compreende-se que o turismo não só é prática e representação que prevalece
em discursos sobre o quotidiano da vila hoje, como informa e é informado por
narrativas sobre o passado e a identidade do lugar. Sobretudo na leitura que
fazem da história recente de Óbidos, as populações da vila verbalizam um
consenso excecional relativo aos dois momentos que consideram balizar o
desenvolvimento económico e social local: a construção do destino Óbidos,
assinalada pela inauguração da Pousada do Castelo em 1950, e a transformação
recente do projeto turístico da vila, atribuída à nova gestão do município
(2001) e à nova gestão das Pousadas de Portugal (2003).
O primeiro momento traduz a ascendência da Pousada do Castelo sobre as
representações do lugar. A inauguração da pousada marcou aquilo a que Prats
(1997) chamou ativação do património – i. e., a produção de uma narrativa
discursiva e material sobre o passado, cujas dimensões utilitárias, políticas e
económicas reforçam a coesão social, a autoridade política e a viabilidade
turística de um lugar. Por um lado, a pousada testemunha a produção de Óbidos
como património nacional. Seguindo os princípios ideológicos da DGEMN, o
restauro do castelo de Óbidos apoiou-se numa dupla aceção da ideia de
restauração: o restauro material e o ressurgimento moral da nação (Tomé 2002).
Não se tratava apenas de reerguer um ícone do passado histórico, mas de
concertar ações nos planos material e social que, tomando a tradição como “uma
lição de história” (Melo 2001: 47), garantissem a nacionalização da vida
portuguesa (DGEMN 1952). Ecoando esta produção no presente, as populações de
Óbidos descrevem o lugar como depoimento de um passado que é tão monumental
quanto popular. Por outro lado, a pousada personifica a promessa cumprida de
desenvolvimento local. A sua inauguração animou o projeto turístico lançado no
fim da década de 1920 e fomentou o empreendedorismo numa economia fragilizada
pelo fecho das fábricas da região e pelas dificuldades da atividade
agropecuária. Além do mais, gerida e consumida por elites políticas e
artísticas, a pousada tornou-se um capital simbólico local que atesta o valor
cultural e social da vila, do seu património e dos seus habitantes.
É neste sentido que a Pousada do Castelo pode ser entendida como uma metáfora
do lugar de Óbidos, constituindo um fragmento cuja exibição representa valores
e significados da totalidade. Afinal, segundo Gonçalves (1996), o património é
um recurso dramático necessário à ilustração de uma narrativa de identidade
porque o acesso ao passado só é possível na representação, exibição e
contemplação dos seus legados. Em Óbidos, aliás, não só a ativação patrimonial
do Estado Novo encontra ressonância social hoje, mas lugar e pousada são
atualizados como património coletivo, ao inscreverem-se em retóricas de perda
que exprimem um desejo de resgate do passado e um sentido de propriedade. Esta
retórica esclarece porque o segundo momento da história recente de Óbidos é
localizado na mudança do poder autárquico (2001) e na privatização da gestão da
rede Pousadas de Portugal (2003). Com tristeza, as populações locais consideram
que a vila deixou de precisar da pousada e que a pousada se dissociou das
estruturas económicas, políticas e sociais locais. Além de histórica, a
afinidade entre ambas é agora reduzida à sua expressão material e territorial –
a pousada está instalada no castelo cuja muralha define o lugar. Por detrás
desta dissociação estão leituras sobre as recentes transformações em Óbidos que
lembram os conceitos de “geografia recreativa” de Kirshenblatt-Gimblett (1998)
e “economia cultural” de Dicks (2003).
A gestão privada das pousadas é acusada de quebrar os vínculos entre o
estabelecimento e a vila por via de políticas de racionalização e centralização
de recursos que se traduziram no outsourcing de serviços e bens e na
profissionalização das equipas. Ao mesmo tempo, a renovação de menus e
decoração e as novas campanhas de marketing reificaram a história como imagem
da pousada, preterindo a sua identificação com a tradição da “vila pitoresca”.
Para a maioria das populações locais, a unidade do Castelo tornou-se parte de
um itinerário de pousadas – uma espécie de “geografia recreativa” nacional,
onde os clientes da rede podem apreciar a história e a tradição do país sem o
constrangimento das realidades físicas e sociais dos seus lugares (cf.
Kirshenblatt-Gimblett 1998). Simultaneamente, a intensidade turística
desencadeada pelas políticas da nova gestão autárquica de Óbidos é associada à
banalização do destino. O estabelecimento de uma “economia cultural” (Dicks
2003), enquanto estratégia de exibição inteligível e consumível da cultura para
fins cognitivos e recreativos, não é em si contestado. O que a maioria da
população rejeita é a sobreposição dos benefícios económicos e municipais aos
interesses culturais e sociais locais.
Assumindo “vender Óbidos como uma marca”, com retorno para todo o concelho, a
autarquia aposta na cultura e na recreação como produtos compatíveis e
concomitantes. Trata-se de uma atualização da indústria turística que responde
ao entendimento contemporâneo da cultura como recurso, produto e experiência
capazes de melhorar a competitividade e diferenciação dos destinos (Craik
1997). Mas é contra esta constituição da cultura como enredo do turismo que uma
parte significativa da população de Óbidos reage. Na sua perspetiva, o turismo
de hoje contraria a sua tradição como prática e interação sociais em harmonia
com as estruturas físicas, sociais, culturais e económicas locais. O que está
em causa é, assim, um entendimento do lugar constituído e constitutivo das
inter-relações entre as atividades humanas e o espaço no tempo, confirmando a
importância que lhe confere Tim Ingold (1993) na conceptualização da paisagem.
Porque estas atividades não são distintamente técnicas ou sociais, os novos
atores turísticos de Óbidos representam uma ameaça à continuidade da
experiência e representação sociais de um turismo “natural” local. Esta
perceção é particularmente explícita na leitura que a maioria da população faz
dos turistas, comerciantes, trabalhadores pendulares, e agentes políticos da
intervenção turística e patrimonial.
Perceções sociais sobre os atores locais do turismo
De uma forma geral, o turista de Óbidos é representado em função do seu
alojamento ou passagem pela vila. Não se trata de uma distinção invulgar, tendo
Luís Silva (2007) observado construções semelhantes em Sortelha e Monsaraz. No
entanto, em Óbidos, a maioria das populações tende a polarizar esta distinção
em visitantes da vila e hóspedes da pousada, descartando a presença de outros
tipos de turistas e demarcando uma distinção social entre os dois grupos que
retrata estereótipos identificados pelos estudos do turismo.
Os visitantes de Óbidos podem ser munícipes, excursionistas ou passantes e são
entendidos como turistas sem capacidade económica, nem interesse cultural. A
sua associação ao ruído e lixo produzidos, à indiferença perante o lugar e seus
habitantes, e a comportamentos inadequados aproxima-os da ideia de turista de
massas (cf. Smith e Eadington 1992). São pessoas que “vêm a Óbidos porque é
moda”, “estão mal informadas, não sabem o que é que vêm ver, veem o castelo e
ficam impressionadas, bebem meia dúzia de copos de vinho e pronto, está feito”.
Já os hóspedes da Pousada do Castelo são “pessoas selecionadas”, “de
qualidade”, “que vinham cá almoçar e jantar por causa de a pousada ser o que
era”. As populações comprovam o seu estatuto social elevado no apreço que
manifestam pelo lugar, no distanciamento que mantêm face a atividades
recreativas e nos seus consumos culturalmente informados e socialmente
distintivos. É evidente uma negação da condição de turista aos hóspedes da
pousada, que lembra a ideia de “antiturista” de Jacobsen (2000).
Esta representação polarizada dos indivíduos que visitam Óbidos ilustra os
preconceitos de classe que Butler (1992) considera envolverem os estereótipos e
as práticas turísticas e não é abalada pela emergência ou conceptualização de
novas formas de turismo na vila. Uma munícipe chegou mesmo a afirmar que “esta
história do turismo cultural tem muito que se lhe diga, é mais um produto de
consumo”. Abram e Waldren (1997) advertem, porém, que é preciso repensar os
encontros entre populações e turistas para além das primeiras propostas de
Hosts & Guests (Smith 1978). Para as autoras, o turismo fornece uma
audiência externa para a performance de identidades ao realçar a distinção
entre ser e não ser do lugar, ao marcar a diferença e exclusão que produzem uma
identidade.
Naturalmente, nem todos os turistas de Óbidos são visitantes da vila ou
hóspedes da Pousada do Castelo, [19] e nem toda a população entrevistada
expressa de forma igualmente vigorosa a sua distinção social. O que se observou
foi que esta distinção entre visitantes e hóspedes da pousada verbalizava menos
uma leitura sobre o presente de Óbidos e mais uma construção idealizada do seu
passado. Ora, segundo Hirsch (1995), é precisamente na mútua implicação entre a
vida social quotidiana e a sua representação e idealização que deve ser
analisada a paisagem enquanto processo cultural. Neste sentido, o regate de um
turismo imaginado pelas populações de Óbidos pode ser entendido como expressão
de uma resistência social ao quotidiano marcado pelas transformações recentes
na gestão do município e da pousada. Por um lado, a intensificação da procura
turística de Óbidos fragilizou o equilíbrio entre habitantes e visitantes ao
sufocar a vida social local. Por outro lado, a privatização da gestão das
pousadas conduziu ao aparecimento de um novo tipo de clientes, vistos como
indivíduos sem capitais culturais e económicos significativos e, logo,
distintos da ideia de hóspede. Esta é, aliás, uma perceção comum a outras vilas
onde se desenvolveu esta pesquisa sobre as Pousadas de Portugal – vilas de
Sagres, Arraiolos e Santa Maria do Bouro (Prista 2011). Quer as populações
locais, quer os clientes da rede tendem hoje a associar o consumo das pousadas
às estratégias de mobilidade social das novas classes médias, revelando um
entendimento das dinâmicas de distinção em práticas turísticas (cf. Munt
1994). A questão é que, em Óbidos, o alargamento do espetro social dos hóspedes
da Pousada do Castelo enfraquece uma diferenciação que é essencial à forma como
a maioria da população local vive, lembra e representa o turismo no lugar.
Ao mesmo tempo que lamentam a presença dos novos turistas de Óbidos, vários
habitantes e ex-moradores consideram ainda que o turismo da vila deixou de ser
uma arena de representação da história e tradição locais. Este sentimento é
associado ao aumento substancial de indivíduos de fora de Óbidos no quotidiano
da vila e à sua monopolização da rede de comércio e serviços, desde o início da
década de 2000. É certo que a especulação turística em Óbidos e a fragilidade
da economia local cedo geraram a fixação de populações de fora do concelho.
Mas, nos últimos anos, a intensificação do turismo, a desertificação e o
envelhecimento do tecido social local, e o desenvolvimento das redes de
comunicação e transporte conduziram a uma forte presença pendular de indivíduos
residentes nas Caldas da Rainha, em Peniche ou em Lisboa. Estes indivíduos
ocupam a grande maioria dos postos de trabalho da vila e possuem muitos dos
seus estabelecimentos. Ora, o emprego no turismo é uma performance cultural
onde se agenciam representações de identidade. A comercialização da
hospitalidade é, por isso, uma forma de reivindicação da autoridade cultural
que permite às populações negociarem desigualdades sociais (Herzfeld 1991).
Compreende-se, deste modo, porque parte da população de Óbidos se sente lesada
pela presença deste grupo de atores sociais. Embora alguns habitantes
relativizem os seus prejuízos, considerando que “o emprego é para os jovens e
aqui não há jovens”, outros sentem-se usurpados dos benefícios prometidos pelo
turismo e, sobretudo, ignorados como autoridade na representação do lugar.
As tensões entre estes dois grupos sociais locais – de Óbidos e de fora de
Óbidos – acentuam-se na Pousada do Castelo. A profissionalização dos recursos
humanos pela nova gestão levou à diminuição do número de funcionários locais e
ao aumento de profissionais habilitados vindos dos meios urbanos e até de
outros países. Esta substituição gerou conflitos que foram agravados pelo valor
local do emprego na pousada. De modo análogo à construção do capital social
sobre os capitais familiares e escolares proposta por Bourdieu (2007 [1979]),
os funcionários locais da pousada geriram a sua naturalidade e o valor
profissionalizante do emprego nas Pousadas de Portugal como uma forma de
distinção social. Além da autoridade na representação do lugar, é este capital
que a nova política de recursos humanos das pousadas ameaça; um capital que
ademais se estende ao exterior dos vínculos laborais, por força da longevidade
e profundidade das relações entre a unidade do Castelo e as redes familiares e
sociais locais.
A maioria das populações de Óbidos não se ressente apenas da preponderância dos
novos atores sociais no turismo da vila, mas igualmente dos efeitos do seu
controlo sobre a mercadorização de bens culturais. No passado, a promessa de
uma audiência turística e a escassez da cultura material local justificou a
venda de produtos de outras regiões e de artesãos-artistas recém-chegados. Como
resultado, as mantas de Seia ou o cabrito assado são hoje entendidos como
“artesanato português” e “cozinha tradicional”, num processo de deslocalização
e ressocialização das tradições regionais à escala nacional que não anula
totalmente a sua autenticidade no lugar. Ao mesmo tempo, a latoaria pintada ou
os bordados produzidos desde meados do século XX tornaram-se tradições locais
por via da naturalidade ou naturalização dos seus artesãos. Com a terciarização
da vila e a profissionalização do turismo, no entanto, novos produtos começaram
a ser comercializados. São vistos como objetos “que não têm nada a ver com
Óbidos”, um conjunto de “chinesices” e de “modernices” introduzidas pelos novos
intermediários culturais em resposta à popularização do consumo do passado (cf.
de Groot 2009). [20] O desagrado das populações de Óbidos pela venda destes
produtos depende dos benefícios conseguidos e da proximidade de cada indivíduo
com a indústria turística. Mas, de uma forma geral, a sua comercialização é
encarada como resposta economicista ao gosto de turistas que “não querem saber
nada da história” de Óbidos, num entendimento que remete para a mercadorização
da cultura como processo que conduz à destruição dos seus significados sociais
(cf. Greenwood 1978).
Quer as representações sociais dos novos turistas de Óbidos, quer as perceções
sociais das novas formas de mercadorização da hospitalidade e cultura local,
apontam para uma recusa da modernização da indústria turística da vila por
parte das populações e explicam o antagonismo dirigido à política municipal.
Não rejeitando a aliança entre património e turismo que orienta a política
turística em Óbidos desde a década de 1950, a Câmara Municipal atualizou porém
os seus valores, produtos e estratégias. A história e a cultura são hoje
recursos simbólicos e económicos capitalizados em políticas de desenvolvimento
municipais que procuram restaurar o protagonismo de Óbidos na região e captar
investimentos privados no município, não só revertendo na melhoria das
condições de vida das populações, como servindo de exemplo a outros destinos
nacionais (Faria 2003, 2007). Este entendimento dos usos da cultura levou à
produção de novas atrações turísticas e de novas dimensões do património,
estratégias comuns na resposta da indústria turística à competitividade dos
destinos patrimoniais e culturais (cf. Timothy e Boyd 2003). Destas, os eventos
são o tema que melhor ilustra os conflitos entre populações e autarquia sobre a
imagem do turismo de Óbidos.
Para a Câmara Municipal, os eventos são um conjunto de festas, feiras e
concertos que, diversificados na natureza e distribuídos ao longo do ano,
alargam o público-alvo de Óbidos, combatem a sazonalidade do turismo e conferem
viabilidade económica ao destino. Se os eventos culturais garantem o prestígio
de Óbidos, os mais comerciais consolidam o orçamento do município. Acontece que
as populações locais só reconhecem benefícios da estratégia para os
comerciantes e munícipes. Aos habitantes da vila resta-lhes tolerar a afluência
excessiva de visitantes e suportar os problemas decorrentes da desertificação e
terciarização locais. Como afirmou um morador, “isto é um espetáculo que aqui
existe. Nós somos os atores, mas depois não recebemos cachet”.
O entendimento dos diferentes tipos de eventos pelas populações de Óbidos não
é, contudo, homogéneo. Iniciativas como o Festival de Ópera ou a Semana
Internacional de Piano (SIPO), apesar de não lucrativas, obtêm a sua aprovação.
Já festivais como o Chocolate ou o Vila Natal são alvo de fortes críticas, não
obstante originarem receitas municipais avultadas. Nenhum destes eventos versa
sobre a grande narrativa histórica de Óbidos – o património medieval – e todos
constroem a vila como cenário. A mercadorização e esteticização da história em
Óbidos parece, assim, ser aceite em função da consonância dos valores
comercializados com a representação do lugar pelas populações locais. O
Festival de Ópera e a SIPO, por exemplo, trazem uma audiência limitada e
qualificada que não provoca incómodos ao quotidiano da vila e apela ao gosto
pela alta cultura. Já o Festival do Chocolate e o Vila Natal ignoram o
património histórico e chamam um número excessivo de visitantes indesejados,
económica e socialmente. O mesmo tipo de turistas chega a Óbidos para o Mercado
Medieval, mas este é uma dramatização moderna da história que retrata o mito de
fundação da vila. As atitudes das populações de Óbidos face a esta iniciativa
são por isso paradoxais. Embora acusado de “apalhaçar” a vila e condicionar o
seu quotidiano, o enredo do Mercado Medieval desculpabiliza a sua especulação
económica e a participação dos munícipes na sua produção satisfaz a memória e
os anseios de uma atividade que envolva e beneficie as populações.
Em síntese, a cultura como enredo do turismo de Óbidos é oficialmente assumida
e as populações locais não recusam as relações entre cultura e consumo na
produção do destino. A natureza utilitária e económica destas relações é aceite
e suporta e comunica categorias culturais e significados sociais. O que é
socialmente contestado são os valores produzidos nos “momentos de transferência
de significados” do mundo culturalmente construído para os bens de consumo, e
destes para as representações e práticas dos consumidores (cf. McCracken 1988).
De uma forma geral, as populações de Óbidos acusam os comerciantes e o
município de reconfigurar o turismo local de modo a torná-lo apetecível ao
gosto de um maior número de visitantes, assim conduzindo à desdiferenciação
social e trivialização cultural do destino. Claro que o consumo não é uma
dicotomia e não pode ser visto apenas como realização individual ou espelho das
relações de dominação capitalista (Sassatelli 2007). Através do consumo, os
indivíduos negoceiam valores simbólicos inscritos nos bens, mas também produzem
significados culturais e configuram o espaço social. Neste sentido, as
perceções sociais dos novos atores do turismo em Óbidos precisam de ser
entendidas como parte de um quadro mais alargado de práticas e representações
que envolvem as populações com o lugar.
Sentimentos de exclusão e escalas de pertença: a muralha e o castelo
Ouvindo as populações de Óbidos retratar os turistas da vila, contestar a
mercadorização atual da cultura local e lamentar o caminho escolhido pela
autarquia na produção do destino turístico, é notória a semelhança com outros
núcleos históricos turistificados. Estes discursos revelam um sentimento social
de exclusão dos interesses dos habitantes nas políticas patrimoniais, próximo
do identificado em Rethemnos na Grécia (Herzfeld 1991) e em Castelo Rodrigo
(Silva 2011), e na indústria turística, como observado em Mdina, na ilha de
Malta (Boissevain 1996a), ou em Sortelha e Monsaraz (Silva 2007). No caso de
Óbidos, trata-se de um sentimento de exclusão simultaneamente territorial,
económica, cultural e social que ecoa os constrangimentos à habitação, à
atividade económica e à interação social.
Este sentimento de exclusão configura, naturalmente, uma fronteira de inclusão.
Os eventos turísticos de maior dimensão são particularmente ilustrativos. Na
sua produção e consumo, residentes, antigos moradores e populações sazonais de
Óbidos confrontam-se com outros munícipes, turistas e trabalhadores pendulares.
Nestes encontros, cada grupo se redefine em relação aos restantes através de
escalas de pertença local. Analisando a turistificação de festas locais em
Naxxar (Malta), Boissevain (1996b) relativizou a destruição da cultura pela sua
mercadorização, ao verificar o papel das festividades e das suas diferentes
audiências na celebração de identidades e na reconfiguração das suas
fronteiras. Negociações semelhantes parecem ocorrer em Óbidos, a muralha do
castelo diferenciando duas escalas de construção do lugar – a vila e o
município.
Como em Mdina, a vila de Óbidos tornou-se a corporização da história no
concelho (cf. Boissevain 1996a). Trata-se de um património que consagrou ao
concelho um lugar no mapa nacional e cuja mercadorização proporciona melhorias
na qualidade de vida dos munícipes. Assim, ainda que estes não mantenham
relações quotidianas com a vila, a fragmentação das várias identidades
municipais foi diluída e, nas palavras de uma residente de outra freguesia, “as
pessoas já não são de nenhuma das terras do concelho, são de Óbidos”. Para
habitantes intramuros, no entanto, os outros munícipes são tão visitantes como
os excursionistas e os domingueiros. Esta associação sugere, inclusive, que os
estigmas turísticos também servem de escape a outras tensões sociais,
nomeadamente decorrentes da distribuição desigual dos benefícios e
constrangimentos do turismo e das disputas na representação do lugar. A verdade
é que, para os residentes e ex-moradores da vila de Óbidos, a identidade local
é mais restrita e forma-se em torno de um sentimento de sacrifício das
populações intramuros. Este sacrifício é legitimado pelo reconhecimento da
autarquia, que atribui compensações aos moradores, mas a maioria destes
considera tratar-se de regalias que pouco atenuam o esforço num investimento
cujo retorno é municipal. [21]
O lugar do castelo e da muralha nos modos de espacialização das relações e
práticas sociais das populações de Óbidos não é de desprezar. A muralha
delimita simbólica e fisicamente as representações de identidade e o castelo é
o seu signo. Mas, como Abram e Waldren (1997) ressalvam, as identidades
revelam-se em ações, discursos e símbolos que as constituem, mais do que
representam, e por isso o turismo não só fornece uma audiência para a
performance cultural, como também encerra práticas que a produzem. É neste
sentido que o uso de percursos alternativos e de espaços de socialização
extramuros pelas populações da vila, ou o seu conhecimento dos recantos
históricos de Óbidos e autoidentificação como “toupeiros” merecem atenção. [22]
Porque, aceitando a perspetiva fenomenológica, o lugar não é a inscrição
cultural e social sobre o espaço absoluto, mas sim o conhecimento corporizado
de uma perceção sinestética simultaneamente ativa e passiva, absorvida,
constituída e constitutiva (cf. Casey 1996), estas práticas e discursos
espaciais são manifestações de uma identidade objetificada num lugar que é
representado à imagem de um passado recente e vivido à sombra da uma muralha
medieval.
Discursos sobre o passado: património histórico, elites e turismo
O património não é espontâneo ou natural, antes resulta de uma construção cujo
propósito é simbólico, utilitário e serve a identificação de um grupo social
determinado no tempo e no espaço. Tem, por isso, uma natureza propositiva que
não só o distingue da história, como lhe confere a capacidade de renovar o
passado nos moldes desejados pelo presente (Lowenthal 1985). Numa pesquisa
sobre a construção de uma tradição marítima em Ílhavo, Elsa Peralta (2010)
sublinhou a necessidade de pensar a memória coletiva como entidade mediada por
uma continuidade com o presente. A autora mostrou como a ideia de ilhavense foi
essencializada, constituindo as populações locais em herdeiras de um passado
reificado sobre a pesca do bacalhau e capitalizado pelo discurso político e
turístico local. A história recente de Óbidos sugere um processo semelhante.
Nesta vila, o turismo foi socialmente construído como tradição e atividade que
suscitam o orgulho e o sacrifício das populações e têm consequências na
organização e representação sociais dos obidenses. Como em Ílhavo, a atual
apropriação da memória pelos atores políticos e turísticos locais é associada à
sua trivialização. O problema é que, em Óbidos, a capitalização política e
económica desta memória local opera na sua própria essência – o turismo.
Ora, o património expressa uma retórica de perda e é ativado face à ansiedade
que esta cria relativamente ao futuro. Para as populações de Óbidos, o que está
em causa é a continuidade de um modo de vida em íntima relação com o turismo
local. O antagonismo social face aos novos atores turísticos – quem visita,
representa e produz o destino Óbidos – parece, assim, expressão da construção
de uma memória e passado locais que, tão factuais como ficcionados, recuam à
ativação patrimonial do lugar pelo Estado Novo e são legitimados pela
autoridade política, social e intelectual dos discursos e práticas das elites
do passado e do presente.
Um dos aspetos que mais chama a atenção no discurso das populações de Óbidos
sobre o lugar é a ressonância social dos processos de patrimonialização do
espaço histórico da vila, quer monumental, quer doméstico. Trata-se de um
património cujas dimensões simbólicas e económicas são centrais à construção do
lugar, facto a que não são alheias a longevidade e a intensidade dos
investimentos nacionais e locais em Óbidos. O que é curioso é que, embora a
reinvenção do espaço físico seja reconhecida pelas populações da vila, tal não
perturbe a representação de Óbidos como testemunha tangível da história e
tradição nacionais. Algumas intervenções no espaço histórico chegam mesmo a ser
zombadas como produções para enganar turistas, mas é transversal o orgulho das
populações num património que consideram autêntico e de que se reveem
proprietárias. Mesmo tradições como as cores dos cunhais ou as floreiras nas
fachadas são lembradas como imposições do poder autoritário, mas hoje
igualmente imprimem autenticidade ao lugar e a sua ausência é um comprovativo
da exclusão social das populações locais.
Não é que não haja em Óbidos um descontentamento com as disposições
regulamentares sobre o património, com o favorecimento ou a arbitrariedade das
suas permissões, tal como acontece em outros lugares (e. g. Silva 2011). Mas,
de uma forma geral, as contestações aos imperativos patrimoniais cingem-se aos
condicionamentos à habitabilidade do espaço interior privado. Há uma distinção
social entre conservação histórica e conservação da antiguidade, como Herzfeld
(1991) observou em Rethemnos. O que não há é uma dissociação entre património
monumental e património social. A maioria das populações recusa a produção da
vila como palco de uma história estática e objetificável que serve de cenário
às práticas turísticas, e considera que “o património somos nós, nós é que o
fazemos, nós é que vivemos a vila”. Dão, assim, expressão social à distinção
conceptual entre uma “paisagem de memória”, que toma o espaço como superfície
de inscrição e codificação de significados, e uma paisagem como processo
cultural, social e dinâmico, constituído por atos de rememoração e de
esquecimento, dos quais é igualmente um produto (cf. Küchler 1993). Comparando
o porvir da vila a um “museu ao ar livre” ou “uma espécie de Disneylândia”,
estas populações mostram receio do seu apagamento como “património vivo” de um
lugar concebido na intimidade do turismo com as estruturas físicas, económicas,
culturais e sociais.
Esta construção social de um “património vivo” em Óbidos contesta o significado
que lhe dá hoje o município – os turistas como vida de um lugar
patrimonializado – e ecoa outros discursos sobre o passado e o turismo locais.
Naturalmente, trata-se de uma apropriação fragmentada em função dos interesses
e representações sociais do presente, e não são ausentes ambiguidades e
contradições. A ideia de vila como património, por exemplo, atualiza a
classificação de 1951 e a conceção da aldeia pitoresca e histórica. O monumento
Óbidos é agora entendido como espaço simultaneamente material e social,
explicando a equivalência simbólica da história monumental e popular, das
elites aristocráticas e das famílias rurais, na construção da antiguidade e
identidade do lugar. A ressonância social, ainda que parcial, da retórica do
Estado Novo é algo paradoxal, na medida em que confirma o valor cultural de
Óbidos, mas a subsequente reconfiguração dos tecidos sociais locais é tanto um
capital, como uma ameaça à continuidade social na vila.
Outros discursos mais eruditos que políticos são ativados pelos depoimentos das
populações de Óbidos sobre os prejuízos sociais e simbólicos da turistificação
da vila, em especial pelos segmentos que desta não beneficiam diretamente. A
profissionalização dos serviços municipais de turismo e de cultura levou à
presença diária de um novo grupo social, constituído por indivíduos com
competências técnicas e científicas para se pronunciarem sobre a cultura e a
história do lugar. Como verificaram Boissevain e Theuma (1998) a propósito do
planeamento urbano em Malta, o desempenho social da autoridade disciplinar
destes intermediários culturais condiciona e inspira as narrativas das
populações sobre os seus lugares. Em Óbidos, estas elites intelectuais detêm,
assumem e exercitam um conhecimento sobre a vila que tem vindo a ser apropriado
nos discursos sobre a história local, na denúncia de invenções da tradição e na
renovação de traços de identidade. Trata-se sempre de uma apropriação seletiva
e conflitual, já que mediada por interesses de populações que tanto procuram
legitimar o seu sentimento de exclusão, como confirmar a natureza dos vínculos
entre lugar e turismo. Assim, as atuais revisões da história de Óbidos que
invocam o passado maneirista ou industrial do lugar são preteridas a favor de
narrativas sociais que privilegiam a imagem de aldeia medieval. Mas a
contestação erudita à ideia de uma vila em decadência, no início do século XX,
e a sua equiparação com a vida rural nacional, serve a construção social do
lugar como vila tradicional de Portugal.
As elites não são, porém, apenas autoridades narrativas e disciplinares que
legitimam as representações sociais do passado de Óbidos. Desde a publicação de
Albino de Castro em 1933 que as elites aristocráticas e românticas são
igualmente um capital simbólico do destino Óbidos. A posterior inauguração da
Pousada do Castelo não foi inocente, nem inconsequente. A adaptação do paço
quinhentista a pousada, a sua decoração como “confortável moradia dum grande
senhor feudal” [23] e a concessão da gestão à atriz italiana Luísa Santanela
sugerem ter havido um investimento nos laços históricos entre património e
elites como valorização social do lugar. As transformações demográficas
posteriores à década de 1950 confirmaram o seu sucesso, com o estabelecimento
permanente ou temporário de indivíduos da esfera política e artística da
capital e de antigas famílias endinheiradas da região.
O capital social das elites manteve-se um valor turístico na promoção de
Óbidos, especialmente quando a intensificação da sua procura levou a autarquia
a delinear estratégias de diferenciação do lugar, no final da década de 1980.
Este investimento simbólico extravasou, inclusive, as esferas políticas e
turísticas. Reis e rainhas, elites românticas, personalidades da vida política
e artística do Estado Novo e hóspedes da Pousada do Castelo tornaram-se também
um capital simbólico gerido a diferentes escalas de identificação pelas
populações de Óbidos. Por um lado, as elites constituíram a vila num objeto de
gosto, uma marca da classe, ao deterem o gosto legítimo e confirmarem e
atualizarem a sua distinção social em práticas de consumo, como as turísticas
(cf. Bourdieu (2007 [1979]). Esta identificação do lugar com o gosto das elites
tem vindo a suportar a diferenciação cultural de Óbidos e a autenticar o valor
do seu “património vivo”. Por outro lado, as elites são um capital simbólico
agenciado em estratégias de mobilidade social por vários habitantes e ex-
moradores da vila que hoje reivindicam relações profissionais, sociais ou
familiares com o alcaide, Luísa Santanela, Albino de Castro ou antigos hóspedes
da Pousada do Castelo.
Como verificou Sobral (2004) numa vila das Beiras, a história das elites pode
ser mais que uma expressão de dominação simbólica nas esferas administrativas,
económicas ou sociais. É por isso que, em Óbidos, a elitização do Castelo não
foi, nem é, contestada, contrariando a tendência para os conflitos sociais em
espaços que, apropriados pelas elites, excluíram deles as suas populações (cf.
Low e Lawrence-Zúñiga 2003). Se há algum movimento de ressocialização destes
visitantes, ele é no sentido da sua naturalização. Parte destas elites
associou-se à produção do destino, adquirindo e restaurando propriedades,
investindo como consumidores e promotores da atividade turística local. São
indivíduos vistos como pessoas com verdadeiro interesse na história, na cultura
e no desenvolvimento do lugar e, por isso, “praticamente de Óbidos”. É assim
que as elites de Óbidos são simultaneamente uma audiência e um grupo social
local.
Este processo de naturalização das elites em Óbidos teve visibilidade na
produção de atrações turísticas e na construção de algumas das práticas sociais
e culturais como expressão de autenticidade e tradição locais. A instalação do
Museu Municipal na anterior residência do pintor Eduardo Malta ou a abertura da
Casa Museu Abílio Mattos Silva ilustram os investimentos políticos no prestígio
das elites como reforço da autoridade cultural no lugar. A revalorização da
Semana Santa como celebração que atraía visitantes ilustres a Óbidos produziu
uma nova dimensão da tradição local. No conjunto, são iniciativas que confirmam
o duplo papel das elites na construção do lugar.
Este processo de ressocialização de indivíduos, práticas e discursos do passado
não é insólito e, em Portugal, vários investimentos patrimoniais recuam às
construções culturais e etnográficas do Estado Novo (e. g. Alves 1997; Peralta
2010). O que se observou em Óbidos foi que a representação social das
expressões da cultura local depende geralmente do capital social dos
produtores, atores e consumidores envolvidos na sua mercadorização. Vários
exemplos poderiam ser citados, o caso da ginja é esclarecedor. A sua
comercialização pelo senhor Montez que, vindo de Santarém, abriu uma loja de
antiguidades e o primeiro bar da vila para o consumo dos primeiros visitantes
de Óbidos – os hóspedes da pousada – enraizou-se como expressão da
hospitalidade local. Mas a venda da ginja em copos de chocolate pelos
comerciantes da vila, associada ao festival internacional que ali decorre
anualmente, remete para um turismo indesejado e é denunciada como subversão de
uma tradição local.
Notas finais
A relação entre cultura e consumo na produção e construção social de Óbidos é
um traço sólido e constante na sua história recente. Não é, por isso,
surpreendente a proximidade das representações de turismo, património e
identidade nos discursos das populações de Óbidos sobre o seu lugar. Segundo
Abram e Waldren (1997), o sentido de lugar é produzido nas relações com o Outro
e o turismo fornece, de modo particular, uma audiência externa com a qual se
estabelecem trocas dinâmicas que formatam e produzem significados e valores de
identidade. A identidade é, todavia, um discurso produzido e produtor da
marcação de diferença, pelo que as suas expressões culturais e práticas sociais
são tão constitutivas quanto representações dessa identidade. É neste sentido
que melhor se pode entender a construção do turismo em Óbidos como tradição
local e o sentimento de exclusão de parte das populações como obstáculo à
performance de uma identidade.
A propósito da patrimonialização de um núcleo histórico habitado e
turistificado, Herzfeld (1991) mostrou como o poder político, os especialistas
e as populações disputam a propriedade sobre o passado em discursos e práticas
que opõem narrativas monumentais e sociais sobre a história. Em Óbidos, esta
dissonância entre tempo social e tempo monumental tem de ser relativizada. As
populações locais não se debatem por uma redefinição da história. Pelo
contrário, o tempo social é, se possível, mais monumental do que a narrativa
oficial. A vila medieval e pitoresca produzida pelo Estado Novo ecoa hoje na
construção social do lugar de Óbidos, tal como as práticas e atores associados
à abertura da Pousada do Castelo corroboram o turismo como tradição local. As
populações reativam os laços entre património e elites e revelam uma amnésia
parcial quanto a traços culturais e modos de vida que não os envolvam no
passado de Óbidos.
Craik (1997) afirma que a cultura do turismo moderna se estrutura sobre a
simultânea modelação da cultura pelo turismo e vice-versa. Esta dinâmica é
irrefutável em Óbidos, mas não é entendida de forma idêntica por populações
locais e por atores políticos e turísticos. Sem prejuízo das revisões críticas
posteriores, os termos “autenticidade encenada” (MacCannell 1976) e
“autenticidade emergente” (Cohen 1988) clarificam esta distinção. Desde meados
do século XX que a produção turística do destino Óbidos encena a história e as
tradições locais em função das ideologias políticas e dos anseios turísticos.
Esta turistificação tem vindo a ser atualizada e hoje rege-se pelos princípios
de profissionalização e democratização da indústria global. Como resultado, os
encontros turísticos alteraram-se, afastando e abafando uma vida social local
em inferioridade numérica face a turistas e outros atores sociais não locais. É
neste contexto que o passado recente de Óbidos é resgatado e as narrativas,
práticas e atores turísticos de outrora são imaginados e recordados como um
modo de vida local que identifica simbólica e emocionalmente as indivíduos com
o lugar. Mas é também à sua sombra que as populações de Óbidos vivem,
percecionam, contestam e investem significados no lugar hoje, conferindo-lhe um
sentido (cf. Feld e Basso 1996). Este sentido de lugar precisa, por isso, de
ser entendido como objectificação de um processo cultural constituído e
constituinte das relações entre o quotidiano social e a potencialidade da sua
representação (cf. Hirsch 1995), o que em Óbidos remete para entendimentos
imbricados de turismo, património e identidade.