Revisitando o calcanhar de Aquiles metodológico das ciências sociais no Brasil
Introdução
Há uma década, Gláucio Soares publicou um artigo sobre o uso de métodos
quantitativos[1] intitulado “O calcanhar metodológico da ciência política no
Brasil” (Soares, 2005). Apesar do seu caráter aparentemente despretensioso, o
texto tornou-se muito conhecido e passou a ter presença quase obrigatória nas
ementas dos cursos de metodologia aplicada às ciências sociais no Brasil. Além
do tom provocativo aos “não quantitativistas”, o artigo chamou a atenção pelo
bom mapeamento que fez do estado da arte da disciplina, pelo diagnóstico
preciso dos seus problemas e pelas sugestões instigantes que apresentou.
Esse texto retoma a mesma discussão, ampliando o seu escopo e testando suas
hipóteses, muitas vezes sustentadas em “inspeções visuais” e opiniões pessoais.
Nosso objetivo principal é identificar os fatores que determinam, ou
influenciam, a escolha do uso de dados e métodos quantitativos nas ciências
sociais no Brasil, levando em consideração características pessoais dos
autores, suas áreas de formação, instituições de origem, qualificação das
revistas e o fato de a pesquisa ter sido feita ou não em parceria.
Fazemos isso a partir da avaliação dos artigos publicados nas revistas
brasileiras dedicadas às áreas de ciência política, sociologia e antropologia
durante os anos de 1996 a 2012. Embora tenha o foco centrado sobre a ciência
política, a pesquisa pode-se dizer comparativa, haja vista o confronto que faz
com outras disciplinas das ciências sociais, especialmente com as duas citadas
acima. Não se trata, no entanto, de um estudo comparativo entre países, a
despeito da referência frequente ao que acontece nos Estados Unidos.
O texto está dividido em quatro partes, além dessa breve introdução. Na seção
seguinte, recuperamos algumas informações históricas sobre a evolução do uso de
métodos nas ciências sociais, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos;
simultaneamente, fazemos um apanhado das desavenças entre defensores das duas
perspectivas metodológicas nos dois países: a quantitativa e a qualitativa. Em
seguida, na terceira seção, apresentamos as variáveis com as quais estamos
trabalhando, procurando justificar a sua inclusão na análise, além de
adiantarmos algumas estatísticas descritivas. Na quarta seção, apresentamos um
modelo de regressão logística multinominal, que nos permite avaliar o efeito de
cada uma dessas variáveis. Finalmente, na quinta seção, apresentamos as nossas
conclusões.
A abordagem quantitativa nos Estados Unidos e no Brasil
Nos Estados Unidos, a abordagem quantitativa cresceu com o aparecimento do
comportamentalismo desde as primeiras décadas do século XX e o seu
fortalecimento após a II Guerra Mundial, em contraposição com as abordagens
históricas e filosóficas. Desde então, passou-se a ter maior preocupação com a
objetividade e com as generalizações indutivas, elementos diretamente
relacionados com um material empírico, com a quantificação e com métodos
sistemáticos e diferenciais (Peres, 2008).
Esse histórico reflete-se hoje na formação dos cientistas políticos norte-
americanos e na sua produção acadêmica. De acordo com Bennett, Barth e
Rutherford (2003), todos os 30 principais departamentos da disciplina nos
Estados Unidos ofereciam cursos de métodos estatísticos. Segundo o autor, em
1000 artigos publicados em dez jornais antes de 1998, 49% usavam estatística;
[2] nas sete principais revistas da área, a proporção de estudos de caso e
qualitativos caiu de 12% em 1975 para 7% em 1985 e para 1% em 2000.
Apesar da predominância da abordagem quantitativa, ela não aconteceu sem
resistência. O próprio Jon Elster, um dos pais da escolha racional, criticou o
uso exacerbado do formalismo por ter-se tornado um fim em si mesmo (Elster e
Hylland, 1989). Anos mais tarde, John Gerring (2001) alertou para o mesmo
exagero, lembrando que “a estatística era apenas um instrumento das ciências
sociais e não ela própria”.
A reação tornou-se mais evidente no início dos anos 2000, quando um grupo de
cientistas políticos apresentou um protesto contra o uso excessivo da
quantificação na disciplina e a preponderância quase absoluta que ela tinha nos
artigos publicados na prestigiada American Political Science Review. Esse
movimento ficou conhecido como “Perestroika” e ganhou adeptos importantes como
Theda Skopcol, Charles Tilly e Ian Shapiro. No entanto, a despeito do seu
impacto imediato, ele não mudou radicalmente a situação.
No Brasil, o contexto apresenta-se muito diferente. Apesar de ter sofrido forte
influência da ciência política norte-americana, os quantitativistas brasileiros
encontram-se em situação visivelmente minoritária. No final dos anos 90, a
partir de uma amostra de 308 artigos, Valle Silva (1999) verificou que 85%
deles não apresentavam qualquer quantificação, 13% lidavam apenas com
distribuição de frequências e menos de 3% continham alguma análise
quantitativa. Esse último grupo contava com oito autores, dos quais apenas um
não havia feito pós-graduação no exterior.
Em 2001, o diagnóstico feito por Neuma Aguiar, para as ciências sociais como um
todo, era o seguinte:
No Brasil, pesquisas com base quantitativa vêm sendo empregadas por um restrito
grupo de pesquisadores em ciências sociais, que encontram dificuldades em
formar as novas gerações de profissionais nessa área. Quando se observa o
conjunto de publicações brasileiras indexadas no Índice de Ciências Sociais,
num total de 74 títulos, chama a atenção que, num período de 43 anos (de 1957 a
2000), dos 9118 artigos que compõem o índice, apenas 709 correspondem a textos
que utilizam métodos quantitativos como recurso de investigação. Por ano, em
média, para cada 300 artigos publicados e indexados, cerca de 6% deles são
quantitativos. (Aguiar, 2001: 3)
Em uma inspeção visual de 39 artigos da revista Opinião Pública, Gláucio Soares
(2005) verificou que 72% deles usaram, pelo menos, porcentagens; 74%
apresentaram informação usando alguma forma tabular; 28% usaram gráficos; 20%
usaram algum tipo de estatística simples; e 26% usaram análises mais complexas.
O autor verificou ainda que dos dez autores desse último grupo, nove eram
estrangeiros ou haviam feito carreira no exterior, confirmando que são
raríssimos os trabalhos de cientistas políticos e sociólogos brasileiros
detentores de algum nível de sofisticação estatística.
Recentemente, Nicolau e Oliveira (2013) identificaram uma predominância
expressiva de trabalhos quantitativos na ciência política brasileira no período
de 1986 a 2012. Segundo os dois autores, nada menos que 71% deles tinham uma
orientação empírica quantitativa, enquanto 25% adotavam uma orientação empírica
não quantitativa e apenas 5% utilizavam uma orientação teórica. No entanto,
como reconheceram os próprios autores, seus dados podiam estar fortemente
enviesados em função das três revistas escolhidas: Opinião Pública, Brazilian
Political Science Reviewe Revista Brasileira de Ciências Sociais.
Assim como nos Estados Unidos, no Brasil também parece haver uma controvérsia
entre adeptos das duas abordagens, com algumas diferenças importantes. No
primeiro caso, ela foi iniciada pelos “não quantitativistas”. No segundo, pelos
“quantitativistas”. Ambos eram os segmentos minoritários nos seus respectivos
países. Nos Estados Unidos, a polêmica se deu dentro da própria ciência
política. No Brasil, ela envolve uma divergência entre disciplinas: a ciência
política parece ser mais “quantitativa” do que a sociologia e bem mais do que a
antropologia (Soares, Souza e Moura, 2010).
Lima Junior (1999), um dos defensores das pesquisas empíricas, criticou os
“trabalhos eminentemente ensaísticos e jornalísticos e os ensaísmos de cunho
semifilosófico ou de história das ideias, baseados em fontes secundárias”.
Contra essa tendência, a sugestão do autor era a de promover treinamento em
disciplinas de alto nível de formação quantitativa.
Segundo Fábio Reis (1993), a sociologia e a ciência política adotaram uma
postura mais científica, caracterizada pelo apego ao rigor, à sistematicidade,
à generalização e à busca da cumulatividade; já a antropologia e a história
estariam, de acordo com o autor, mais próximas do padrão humanista e
idiográfico, com ênfase nos trabalhos qualitiativos e descritivos, valorizando
a dimensão temporal ou histórica dos fenômenos, o relativismo, a intuição e as
peculiaridades.
Gláucio Soares (2005) é outro crítico importante nessa discussão. Ao defender
os métodos quantitativos, o autor faz acusações ásperas àqueles que se definem
como “qualitativos”. Na sua opinião, eles não usam, de fato, métodos
qualitativos; “são apenas não quantitativos ou antiquantitativos”. Segundo
Soares, “a hostilidade aos métodos quantitativos e à estatística não foi
compensada com métodos qualitativos rigorosos, mas sim por uma ausência de
métodos e de rigor” (2005: 27).
No diagnóstico de Inácio Cano (2012), existe uma ênfase excessiva nos clássicos
e na erudição, em detrimento da pesquisa empírica. Segundo o autor, as ciências
sociais no Brasil privilegiam a teoria em detrimento da pesquisa, promovendo um
conhecimento antes erudito do que técnico. Na sua percepção, valoriza-se a
oratória brilhante e a habilidade para citar autores — a exemplo do que
acontece nas áreas do direito e da filosofia — em detrimento da fundamentação
empírica. O autor lamentou o fato de muitos profissionais estarem sendo
formados como especialistas em Marx, Weber e Durkheim, enquanto o país precisa
de profissionais que consigam aplicar e avaliar políticas públicas, que sejam
capazes de usar ferramentas para responder às novas perguntas formuladas pela
realidade do dia a dia.
Do outro lado, estão os “não quantitativistas”, com discursos também agressivos
e, não raramente, eivados de conteúdo ideológico. É o caso de Costilla (2005),
para quem:
dois congressos da Associação Latino-Americana de Sociologia […] mostraram uma
recuperação da teoria e da crítica no trabalho dos sociólogos, ante a crise das
ciências sociais e o empirismo neoliberal, […] que nada mais é do que a
adaptação pura e simples do pensamento ao capitalismo existente e dominante
globalmente (2005: 245-248, grifos nossos).
Em um texto bem equilibrado e consciente, que não deixa de reconhecer a
importância da estatística e as falhas dos sociólogos brasileiros em termos de
formação qualitativa, Demo (2009) é outro exemplo de crítico severo aos
exageros “empiristas”:
[…] Os positivistas/quantitativistas ainda não sabem o que é pobreza, […]
principalmente porque a reduzem a um farrapo estatístico […] a [abordagem]
quantitativa “pinta e borda”, também ninada carinhosamente por entidades como o
Banco Mundial […] toma o dado como dado, sem desconstruir a trama teórica e
ideológica que está por trás, imaginando que no dado esteja a realidade
buscada. Ademais, aplicando uma regressão tipicamente linear, forja-se um
contexto muito irreal […] Busca-se evidências empíricas, porque, na religião
neoliberal e positivista, é o que vale […] Parece-me que muitas análises
sociais refestelam-se com o trambique neoliberal, ao abusarem de “evidências
empíricas”, vendendo sob números espertos ideologias ainda mais espertas.
(2009: 19-26)
A nossa visão é que ambas as correntes têm alguma razão. Por um lado, parece
haver uma resistência injustificada por toda e qualquer evidência empírica,
como se ela excluísse a discussão teórica. Não percebem o quanto a empiria pode
ajudar no teste das hipóteses e no questionamento e/ou no reforço de teorias,
mais ou menos estabelecidas. A impressão é que tal oposição decorre, muitas
vezes, pela incapacidade de tais pesquisadores de ler uma simples tabela que
envolva níveis mínimos de complexidade matemática ou estatística.
Por outro lado, é preciso reconhecer o excesso por parte de muitos empiristas,
que não passam de manipuladores de números, nem sempre com as técnicas
adequadas, aproveitando-se da incapacidade de o outro lado entender o que estão
dizendo. Teoria é fundamental para o conhecimento científico. Não há o que
questionar aqui. Os métodos — sejam eles qualitativos, sejam quantitativos,
sejam mistos — são apenas instrumentos para a sua discussão. Não é nossa
preocupação, no entanto, entrar nessa disputa. Pretendemos apenas mapear a
situação da metodologia quantitativa das ciências sociais no Brasil, procurando
identificar os fatores que a explicam, ou que a ela estão associados.
Apresentação das variáveis e dos dados
Estamos trabalhando com as revistas brasileiras de ciências sociais com
classificação até “B3" no sistema Qualis[3] em pelo menos uma das áreas
principais: ciência política, sociologia ou antropologia. No total, elegemos 22
revistas (veja apêndice), as quais publicaram 4937 artigos nesse período,
assinados por 2898 autores nos últimos 16 anos. Não entraram na análise as
revistas com enfoque muito específico, como as das áreas de saúde pública, meio
ambiente, educação, segurança, estudos de gênero, história, comunicação, entre
outras. Tampouco entraram as de âmbito muito amplo, que vão além das ciências
sociais, como é o caso da revista Estudos Avançados. Foram incluídos somente
artigos originais, desprezando-se as resenhas, homenagens, entrevistas,
traduções, apresentação de dossiês, aula inaugural, ensaios, palestras e
resumos.
No que diz respeito à autoria, estamos considerando apenas as informações do
primeiro autor, por dois motivos principais. Um deles é que quase 80% dos
artigos são produzidos por autores individuais. O segundo é que o eventual
ganho analítico da inclusão dos coautores não compensaria os problemas
decorrentes, sendo a duplicidade de informação (para um mesmo artigo) apenas um
deles. Não obstante, consideramos também os coautores quando avaliamos o efeito
da variável “gênero”, pois, nesse caso, interessa saber se algum deles é do
sexo masculino.
A nossa variável dependente diz respeito ao uso ou não de alguma estatística,
envolvendo três categorias: (1) se não usa números; (2) se usa apenas
estatística básica (descritiva e/ou testes de diferenças de médias); (3) se usa
estatística avançada, isto é, alguma técnica mais sofisticada (análises
fatorial, de regressão, cluster, etc.). A alocação do artigo em uma das três
categorias foi feita a partir da inspeção visual de cada um deles (a nossa
unidade de análise), que somaram quase 5000.
Quando o autor utiliza algum dado numérico, geralmente o faz dispondo-o em
tabelas; no entanto, também classificamos como “uso de dados numéricos” quando
acontecia de eles estarem expostos ao longo do texto, desde que ocupassem um
papel central na análise. Por outro lado, quando os dados numéricos não tinham
qualquer importância analítica, os textos foram classificados como “não
quantitativos”, ainda que fossem apresentados em forma de tabelas. Apresentamos
no quadro_1 a frequência de cada uma das categorias.
De antemão, já se percebe que a proporção de artigos que usaram dados numéricos
foi muito baixa; no período analisado, não chegaram a 27% do total. Menos de 6%
do total recorreram a alguma técnica estatística. Embora esperássemos uma
predominância de trabalhos não quantitativos, não pensávamos que ela fosse tão
grande. Na figura_1, podemos ter uma ideia de como a situação tem variado ao
longo do tempo.
A figura_1 mostra pouca variação nos últimos 16 anos, com exceção do uso de
estatística avançada, que sai de um patamar de 3,3% em 1997 para 7,6% em 2012.
Um aumento de 130%. Não é pouco; e mostra claramente que está aumentando.
Porém, o quadro geral permanece o mesmo: as ciências sociais no país continuam
primordialmente não quantitativas. Se existe de fato uma hostilidade em relação
aos métodos quantitativos e à estatística nas ciências sociais brasileiras,
conforme afirmam diversos autores (Cano, 2012; Ramos e Monsma, 2012; Soares,
2005), ela parece descabida, haja vista o pouco espaço que ocupam.
Resta saber como essa situação varia de acordo com as revistas, por área de
especialização, por instituição de origem dos autores, por suas características
pessoais, pela constituição de parcerias. Nas subseções que se seguem, fazemos
uma avaliação pormenorizada dessa situação. Além de justificarmos a inclusão de
cada uma das variáveis na análise, apresentamos, desde já, alguns resultados
descritivos.
Perfil da revista
O perfil da revista talvez seja um dos principais fatores para explicar, ou
justificar, o uso de dados quantitativos. Não sabemos se isso acontece porque
os autores buscam aquelas que melhor se encaixem nas suas escolhas
metodológicas ou se são as próprias revistas que privilegiam determinado tipo
de abordagem. Provavelmente, as duas coisas ocorrem simultaneamente.
Nos Estados Unidos, essa situação ficou bem clara a partir da avaliação
realizada por Bennet, Barth, e Rutherford (2003). Os autores mostraram que o
Journal of Politics e a American Political Science Review apresentaram
resultados estatísticos em 90% e 62% dos seus artigos, respectivamente; já na
Comparative Politics, isso acontecia em menos de 5% deles. Tais diferenças
foram confirmadas no estudo de Vijverberg (1997), cujos resultados podemos ver
no quadro_2.
No Brasil, também parece existir uma grande variação entre as revistas, em
proporção bem menor para os trabalhos quantitativos. Soares (2005) sugere que a
Dadose a Opinião Públicatêm mais artigos com alguma quantificação do que a
Revista Brasileira de Ciências Sociaise a Lua Nova. Na primeira, o autor
identificou que 72% dos artigos usaram porcentagens e 74% apresentaram
resultados usando alguma forma tabular. Nicolau e Oliveira (2013) também
perceberam a orientação quantitativa mais forte da Opinião Pública.
Em uma amostra bem maior, pudemos identificar tais variações de forma mais
precisa, conforme podemos observar no quadro_3.
Diferindo do que acontece nos Estados Unidos, em geral, as revistas brasileiras
na área de ciências sociais publicam poucos artigos com abordagem quantitativa.
A média é de apenas 29%, sendo de aproximadamente 6% para a estatística
avançada e de 22% para a estatística básica. Apenas quatro das 22 revistas
pesquisadas contam em seus artigos com mais de 50% de dados numéricos. Não
obstante, existe uma grande variação entre elas. Enquanto 80% dos artigos na
Opinião Pública usam algum tipo de quantificação, na Revista Brasileira de
Ciência Políticaesse número não passa de 10%. A proporção de uso de estatística
avançada nas duas revistas é de 39,6% e 1,4%, respectivamente; de estatística
básica é de 40,1% e 8,6%.
Curiosamente, a revista da Associação Brasileira de Ciência Política — a
Brazilian Political Sicence Review — apresenta uma divisão muito bem
equilibrada das três categorias. Cada uma delas ocupa aproximadamente um terço
do espaço total. Isso não quer dizer, no entanto, que ela represente
equilibradamente os diversos segmentos de cientistas políticos brasileiros. Não
temos informação sobre a proporção deles dentro da classe, mas sabemos que o
contingente do que estamos chamando de “quantitativistas” é bem menor do que os
dos “não quantitativistas”.
Pesquisa em parceria
Outra variável que tem sido considerada na explicação do uso de metodologia
quantitativa refere-se ao fato de o trabalho ser realizado individualmente ou
em colaboração. A partir de dados coletados de 1935 a 2005 nos principais
jornais na área de sociologia, Hunter e Leahey (2008) concluíram que as
pesquisas quantitativas e que envolvem coleta de dados tendem a envolver mais
colaboração. Pontille (2003) verificou que 62,2% dos textos com análises
estatísticas na sociologia norte-americana eram escritos por mais de um autor;
por outro lado, textos teóricos e de análise textual foram escritos
individualmente, na grande maioria das vezes (86% e 71,4%, respectivamente). A
sugestão do autor é de que o formato segmentado dos estudos quantitativos —
frequentemente estruturados em introdução, material e métodos, resultados e
discussão — é um dos fatores que favorece a divisão de tarefas.
Na mesma linha, Soares, Souza e Moura (2010) verificaram que 54% dos artigos em
coautoria utilizavam tabelas, em contraste com os 29% dos que eram escritos
individualmente. Apesar de ser apenas um recurso de apresentação, as mesmas
estão tradicionalmente associadas com a apresentação numérica. Segundo tais
autores, somente 7% dos artigos escritos individualmente utilizaram regressões
estatísticas, em contraste com 23% dos escritos por mais de um autor.
Baseados nessa literatura, levantamos a hipótese de que trabalhos realizados
por mais de um pesquisador apresentam uma tendência maior a adotar uma
abordagem quantitativa do que trabalhos realizados por uma única pessoa. A
partir do nosso banco de dados, em uma análise preliminar, tal hipótese é
confirmada: nos artigos em parceria, 36% usavam estatística básica e 12,3%,
estatística avançada; nos artigos elaborados individualmente, os números foram
bem menores: 17% e 4%, respectivamente.
Gênero dos autores
A variável “gênero” não tem sido usada em estudos sobre a opção metodológica
dos autores. No entanto, não faltam justificativas para incluí-la. Existe uma
literatura que sugere que os homens possuem maior habilidade para tratar de
assuntos ligados à matemática ou às chamadas hard sciences. Há quem diga que as
mulheres tendem a sentir mais “ansiedade matemática” (Tapia e Marsh II, 2004),
aqui entendida como uma maior aversão ou insegurança para trabalhar com números
e equações. Há evidências também de que os homens costumam ter melhor
performance do que as mulheres nessa área do conhecimento (Feingold, 1988).
A diferença aparece ainda no que diz respeito à escolha acadêmica dos
pesquisadores: menor na engenharia, na física e na economia (ao redor de 17%,
26% e 29%, respectivamente) e maior na sociologia (53%) (DiFuccia, Pelton e
Sica, 2007; Xie e Shauman, 2003). Na literatura feminista, frequentemente
“engajada” e posta a serviço de sua causa, há quem considere que os métodos
quantitativos são uma ferramenta “masculina, essencial para estabelecer a
marginalização social da mulher” (Oakley, 1999).
A nossa hipótese é que o fato de ser homem aumenta a probabilidade de uso de um
referencial quantitativo. Em um exame preliminar, a estatística descritiva a
confirma: em 80% dos artigos que usam estatística avançada, pelo menos um dos
autores é do sexo masculino; naqueles que apresentam estatística básica, 71%
são homens. Por outro lado, nos artigos que não apresentaram nenhum tipo de
quantificação, 50% dos autores eram homens, proporção razoavelmente inferior à
de homens no banco de dados, que é de 62%.
Formação acadêmica dos autores
Nos Estados Unidos, a formação acadêmica não costuma ser usada para explicar a
diferença na opção metodológica dos autores. No Brasil, ela parece ser
importante; segundo Fábio Reis (1993), a sociologia e a ciência política
voltaram-se mais para uma abordagem quantitativa, em contraste com a
antropologia e a história, que deram ênfase a trabalhos qualitativos e
descritivos. Na mesma linha, Soares (2005) sugeriu a existência de uma certa
gradação no que diz respeito ao uso de métodos quantitativos: em primeiro
lugar, estaria a ciência política como a disciplina mais “quantitativa”; em
seguida, a sociologia e a antropologia, nessa ordem. Segundo o autor, a
diferença nas preferências metodológicas estaria na raiz do afastamento e do
repúdio entre a ciência política e a antropologia.
Nossos dados permitem obter uma noção mais precisa dessa situação, conforme se
observa no quadro_4.[4] Deixamos de apresentar as áreas cujo número de casos
era muito pequeno (abaixo de 80 observações).
Os resultados confirmam as sugestões dos autores citados. De fato, a ciência
política apresentou-se bem mais “quantitativa” do que as outras disciplinas
(43,8% dos artigos). Contrasta fortemente com o que aconteceu na sociologia
(20,7%), na história (15,7%) e na antropologia (13,2%). No que se refere à
estatística avançada, os cientistas políticos a usaram em 14% dos artigos. Uma
proporção pequena, mas bem acima de todas as outras.
Instituição de origem dos autores
A instituição de origem também parece fazer diferença nas escolhas
metodológicas dos autores. Nos Estados Unidos, um pouco menos do que aqui, haja
vista a maior facilidade de acesso à formação quantitativa. No Brasil, Soares
(2005) ressaltou que a formação no exterior e no IUPERJ[5] eram fatores
importantes para explicar a opção pelos métodos quantitativos, em evidente
contraste com a Universidade de São Paulo (USP), que, até então, contava com
“notória debilidade nessa área”. De fato, segundo Fábio Reis (1993), a
disciplina de métodos não era considerada fundamental, não era obrigatória e
nunca havia sido ofertada regularmente naquela instituição. Não é por acaso que
apenas duas das 145 teses lá defendidas no período de 1990 a 1997 tinham
caráter quantitativo (Vianna et al., 1998). O efeito disso sobre as ciências
sociais no país não é pequeno, não só pela própria produção acadêmica dos
pesquisadores da USP,[6] mas também pelo seu efeito multiplicador.
A história ajuda a explicar essa situação. Ainda que o uso de métodos e
técnicas quantitativas seja pequeno, o pouco que existe deveu-se, em grande
parte, à política de incentivo à construção institucional de programas de
mestrado e de doutorado no país. Ela foi realizada por meio da formação de
estudantes brasileiros nos Estados Unidos no final dos anos 60, com apoio
inicial da Fundação Ford. A partir da matriz intelectual norte-americana das
ciências sociais, empiricamente orientada, impulsionaram a criação da pós-
graduação na UFMG e no IUPERJ, com orientação metodológica quantitativa,
analítica, de caráter rigoroso e sistemático, rompendo com a tradição
ensaística e humanista das ciências sociais europeia (Veiga, 2008). De acordo
com Elisa Reis (1993), tratava-se de consolidar um novo ethos, em que a
pesquisa metódica e sistemática, de forte viés empiricista, tornou-se
referência para o cientista social brasileiro. Fábio Reis (1993) também
ressaltou a diferença com relação ao grupo da USP, que “priorizava conceitos,
em detrimento do trabalho sistemático com material empírico”. No quadro_5,
podemos ter uma ideia mais precisa da situação em anos recentes.
Os dados mostram que os autores com formação na UFPR e na UFPE foram os mais
quantitativistas no Brasil. Porém, em função do pequeno número de casos, não
temos muita segurança em relação a esses resultados. Chamamos a atenção para as
caselas sombreadas. Elas sugerem que, de fato, a formação dos autores
brasileiros no IUPERJ/IESP ou nos Estados Unidos (e também na UFMG)
influenciaram a escolha da opção metodológica. Eles parecem ter usado uma
abordagem mais quantitativa, vis-a-vis os formados em outras instituições.
Mostram também o contraste com a USP — a instituição que mais forma cientistas
sociais no país — que parece ter um enfoque bem menos quantitativo,
especialmente no que diz respeito ao uso de métodos mais sofisticados. Cabe
ressaltar, outrossim, a opção mais quantitativa dos autores estrangeiros.
O modelo multivariado
Os dados apresentados explicam muito da situação em que se encontra o uso de
métodos e técnicas quantitativas no país. Uma análise mais precisa pode ser
feita por meio de um modelo mais complexo, que considere o efeito de todas as
variáveis que estão sendo estudadas. Para termos segurança a respeito do efeito
de cada uma delas, é preciso que sejam simultaneamente controladas. Nesse
sentido, estamos utilizando um modelo de regressão logística ordinal, que é a
forma adequada para se tratar uma variável dependente discreta, com mais de
duas categorias ordenáveis entre si, ainda que a distância entre elas não seja
conhecida. No caso, estamos assumindo que essa gradação existe e está sendo
expressa pelos seguintes valores: “zero”, quando o artigo não usa dados
numéricos; “um”, estatística básica; “dois”, estatística avançada.
Além das variáveis elencadas na seção anterior, incluímos também uma outra que
informa sobre a realização do curso intensivo de metodologia quantitativa
ministrado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG.
O mesmo é oferecido regularmente para professores, pesquisadores e estudantes
de pós-graduação em ciências sociais, de junho a início de agosto, e tem a
duração de seis semanas. Ficou popularmente conhecido como “MQ” e tem
funcionado ininterruptamente desde a sua criação, em 1999. Por ele passaram
mais de dois mil alunos, apresentando-se como a mais importante iniciativa para
melhorar a precária situação do ensino de métodos quantitativos no Brasil.[7]
No quadro_6, apresentamos dois modelos diferentes. No primeiro, incluímos
apenas os autores brasileiros, que representam 82% da nossa amostra. No
segundo, acrescentamos os estrangeiros. Como a grande maioria desses últimos
não tem currículo Lattes, nem qualquer outro facilmente disponível, deixamos de
incluir suas informações sobre formação principal e instituição de origem.
Os resultados acima confirmam quase todas as nossas hipóteses, com alto nível
de significância estatística. O fato de o artigo ser elaborado por apenas uma
pessoa reduz a chance de usar dados e técnicas quantitativos em mais de 70%.[8]
Conforme indicavam estudos anteriores (Hunter e Leahey, 2008; Pontille, 2003;
Soares, Souza e Moura, 2010), trabalhos quantitativos tendem mais a envolver
parceria dos que os não quantitativos.
A variável “Scielo” indica se a revista está inserida na biblioteca eletrônica
SciELO, que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos
brasileiros. O simples fato de pertencer a essa coleção já indica uma qualidade
superior do periódico. Portanto, o resultado positivo mostra que artigos com
abordagem quantitativa tendem a ser publicados em revistas melhores. Elaboramos
um modelo alternativo, onde substituímos tal variável pela que informa se a
revista está classificada no nível “A”, o mais alto do sistema Qualis/Capes. A
conclusão caminha no mesmo sentido. Deixamos de incluir esse resultado no
intuito de poupar o leitor de um excesso de informação.
No que diz respeito à área de formação dos autores, confirma-se a hipótese de
que a ciência política é mais “quantitativa” do que a sociologia e a
antropologia, nessa ordem. No primeiro caso, o resultado foi positivo e
estatisticamente significativo. No segundo, não apresentou significância
estatística. No terceiro, foi significativo, mas no sentido contrário, isto é,
o fato de ter formação em antropologia está negativamente associado à
elaboração de trabalhos quantitativos.
Quanto à instituição de origem, a hipótese é parcialmente corroborada. De fato,
conforme sugere a literatura, a formação na USP mostrou-se associada a um menor
uso de uma perspectiva quantitativa. Porém, não se confirmam as sugestões de
que a UFMG e o IUPERJ/IESP valorizaram mais esse tipo de abordagem
metodológica. No primeiro caso, pode ser que o pequeno número de observações —
pouco mais de 2% do total — tenha influído nesse resultado. No segundo, uma
possível explicação talvez seja o fato de que, embora o IUPERJ/IESP tivesse uma
corrente de professores quantitativistas, também existiam aqueles que não eram.
Portanto, parece que a formação na instituição era mais plural, e não
predominantemente quantitativa. Já o fato de ter feito doutorado nos Estados
Unidos pesa positivamente no uso de dados quantitativos; na França,
negativamente, conforme já era esperado.
O fato de ter frequentado o curso de metodologia quantitativa (MQ) pesa
substancialmente na escolha do método: a variável apresentou sinal positivo e
alta significância estatística, com teste “z” de 9,46. Não sabemos se o fato de
fazer o curso capacita melhor o pesquisador para a produção de artigos
científicos. Para isso, seria necessária uma investigação específica. Porém,
ele parece estar cumprindo a sua função de preparar alunos para o uso de
métodos e técnicas quantitativos. Provavelmente, o MQ foi a principal
intervenção capaz de explicar o seu aumento expressivo nos últimos anos.
A variável que informa sobre o gênero dos autores não apresentou significância
estatística. O fato de ser homem não ajuda a explicar a opção por métodos
quantitativos, a despeito do que sugere a estatística descritiva. Em outras
palavras, homens e mulheres não têm se diferenciado na preferência metodológica
nas ciências sociais brasileiras nos últimos anos.
À guisa de conclusão
A disputa metodológica entre cientistas sociais tem sido acirrada, tanto no
Brasil quanto nos Estados Unidos. Lá, ela tem acontecido no âmbito de uma mesma
disciplina; na ciência política, envolveu autores importantes no início deste
século. No Brasil, ela tem acontecido também entre pesquisadores de áreas
diferentes, especialmente entre cientistas políticos, sociólogos e
antropólogos. Nessa ordem, uns têm se apresentado mais quantitativos do que os
outros. Entre o primeiro e o terceiro grupos, a diferença é abissal.
Não tivemos o objetivo de entrar nessa “guerra metodológica”. Não acreditamos
que exista uma dicotomia, ou um abismo, entre as abordagens quantitativa e
qualitativa. Na nossa opinião, trabalhos de boa e de má qualidades estão
presentes em qualquer contexto, independente da opção analítica ou da escolha
metodológica dos autores. Antes de mais nada, nosso propósito foi mapear o
“estado da arte” no Brasil. Foi possível perceber que o número dos cientistas
sociais que usam dados quantitativos no país é muito pequeno, mormente no que
diz respeito ao uso de técnicas sofisticadas. Nossos dados mostraram que, a
despeito de o seu espaço ter crescido gradativamente nos últimos 16 anos, esse
grupo é visivelmente minoritário.
Buscamos também apontar algumas possíveis explicações (ou associações) para tal
situação. Além da área de formação dos autores, identificamos outras variáveis
que podem ajudar nesse sentido. O perfil e o nível da revista, o fato de o
artigo ter sido elaborado em parceria e a participação dos autores em cursos
específicos apresentaram um efeito positivo sobre as opções metodológicas
tomadas. O fato de ter formação pela USP impactou negativamente. Já o gênero do
autor e o fato do mesmo ter formação pelo IUPERJ/IESP ou pela UFMG não
apresentaram significância estatística, quando utilizados em um modelo
multivariado.