A nova globalização pós-2008 e a reconfiguração do sistema dos média ocidentais
Na matriz cultural dos regimes democráticos, o jornalismo foi edificado como
uma instituição central na garantia da qualidade dos próprios regimes. Esta
matriz moldou a identidade política dos meios de comunicação num conjunto de
valores como a qualidade da informação, a diversidade de perspetivas e a
pluralidade de opiniões (Keane, 2002: 28).[1]
Esta conceção foi igualmente fundadora da agenda de investigação dos estudos de
média e jornalismo no ocidente. De acordo com Barbie Zelizer (2004: 149),
aquela matriz estruturou a pesquisa em jornalismo em três grandes enfoques que
se distinguem em termos de escala e ângulo de análise. A perspetiva de pequena
escala analisa a relação entre os média noticiosos e o poder político, de onde
podemos destacar o estudo das fontes (v.g., Gans, 1979; Erickson, 1989;
Schlesinger, 1992). A segunda perspetiva de pesquisa, de média escala, constrói
o seu objeto de estudo na articulação entre o trabalho jornalístico, o sistema
político e os cidadãos, pesquisando, entre outros temas, a cobertura das
campanhas eleitorais (v.g., Graber, 1980; Patterson, 1980; Entman, 1989). Por
sua vez, a perspetiva de larga escala propõe uma visão macro, mais abstrata e
estrutural, que se centra na relação entre os sistemas políticos e os sistemas
dos média. Neste enfoque destacam-se o trabalho seminal de Dan Hallin e Paolo
Mancini (2010 [2004]) sobre os modelos de média que emergem daquela relação,
bem como os estudos sobre a globalização e a concentração da propriedade dos
média (Tunstall, 2008; Hardy 2008).
Este artigo integra-se no terceiro enfoque ao centrar a sua análise nos novos
fluxos de capital na indústria dos média no contexto da globalização pós-2008.
Para tal, examina-se como o poder de regimes autocráticos — e dos seus aliados
económicos — está a ser usado no ocidente para influenciar os sistemas de média
que são vulneráveis ao capital externo. Deste modo, reflete-se sobre como esta
nova tendência pode estar a produzir um contexto adverso ao modelo liberal dos
média que vigora nas democracias ocidentais.
A crise despoletada pela queda do Lehmen Brothers em 2008 acelerou a recessão
económica no ocidente, fez emergir um novo contexto global e um novo perfil de
investidores interessados nos média ocidentais, alterando o panorama mediático
internacional até então vigente (Tunstall, 2008). Neste contexto, os Estados
Unidos da América e a Europa começaram a perder terreno no que diz respeito à
sua supremacia política, económica e simbólica, enquanto outros países fora da
geografia ocidental, como a China, a Rússia e Angola, começaram a aumentar a
sua relevância internacional. A recessão criou uma oportunidade para que
investidores daqueles países entrassem em setores estratégicos de atividade em
vários países ocidentais, nomeadamente no setor da comunicação e dos média.
Deste modo, a partir de casos concretos o artigo oferece uma elaboração teórica
sobre a complexidade dos fluxos de capital no contexto da nova globalização
pós-2008 e discute como esta tendência pode estar a produzir um ambiente
adverso ao modelo liberal dos média dominante nas democracias ocidentais e a
dar lugar a um sistema híbrido que congrega características altamente
contraditórias. Se, por um lado, este novo modelo parece assentar nos eixos
basilares do modelo liberal, nomeadamente no que diz respeito à autonomia face
ao sistema político e ao profissionalismo do jornalismo, por outro lado tem na
sua base dimensões associadas ao modelo pluralista polarizado, por definição
caracterizado por uma estratégia de instrumentalização dos média por agentes
externos que emana de uma relação clientelar entre o poder político e o
económico.
Os sistemas de média nas democracias capitalistas desenvolvidas
Ao longo do século XIX, um conjunto de padrões distintos de desenvolvimento
relacionados com o estado, o sistema dos partidos políticos, o padrão das
relações entre interesses económicos e políticos e o desenvolvimento da
sociedade civil, entre outros elementos da estrutura social (Hallin e Mancini,
2010 [2004]: 22), fez emergir na sociedade ocidental diferentes modelos de
democracia e sistemas de média distintos.
O estudo de Dan Hallin e Paolo Mancini, publicado pela primeira vez em 2004,
sugere isso mesmo, através de uma tipologia de sistemas de média assente em
variáveis geoculturais. Os três modelos propostos — o pluralista polarizado, o
corporativista democrático e o modelo liberal — conferem, simultaneamente,
homogeneidade a um conjunto de países entre si e heterogeneidade à geografia
mediática ocidental. Os modelos foram concebidos tendo por base variáveis como
o desenvolvimento do jornalismo e a independência em relação ao poder político.
No que a esta última diz respeito, os modelos são posicionados num contínuo em
que encontramos num extremo o modelo pluralista polarizado e, no outro, o
modelo liberal.
O modelo pluralista polarizado caracteriza-se por uma relação imbrincada e de
dependência entre a esfera jornalística e o poder político. No entender de
Hallin e Mancini (2010 [2004]: 51), esta relação assenta na instrumentalização
da primeira pelo segundo, ou seja, no controlo dos média por agentes externos,
como partidos políticos, grupos ou movimentos sociais ou até mesmo agentes
económicos, que procuram influência política e que, para tal, se servem dos
média para pressionar governos e intervir no mundo da política.
A este modelo os autores opõem o modelo liberal que se caracteriza por uma
maior profissionalização do jornalismo e por uma maior independência deste face
ao poder político. Esta independência consubstanciou-se num processo de
separação e autonomização dos média face ao sistema político. Para Hallin e
Mancini (2010 [2004]: 92), a profissionalização é o conceito central da teoria
da diferenciação e pode claramente entender-se em termos do grau de distinção
do jornalismo de outras ocupações e formas de prática social, cuja identidade
se fixou em torno de um ethos e de uma praxis que lhe conferiram um estatuto de
quarto poder na linha da teoria dos checks and balances na divisão dos poderes
(Gurevitch e Blumler, 1995: 18; Norris, 2000: 22).
No espírito da teoria liberal dos média, esta conceção pode ser desdobrada em
três aceções: fórum cívico (os média como um espaço de informação,
esclarecimento e mediação entre representantes e representados), watchdog (os
média como agente de escrutínio da atividade política e de denúncia de abusos
de poder) e agente mobilizador (os média como impulsionador do envolvimento
cívico dos indivíduos nas questões de relevo da sua comunidade).
Ainda que a tipologia de Dan Hallin e Paolo Mancini seja de inquestionável
relevância para os estudos dos sistemas dos média, pelo mérito de ter dado
visibilidade às diferentes tradições jornalísticas e de relação com o poder
político existentes no mundo ocidental, um conjunto de autores tem apontado
diversas fragilidades àquele estudo seminal. As críticas destacam o facto de
Hallin e Mancini terem agregado no mesmo modelo sistemas mediáticos com
características bastante heterogéneas, e também por partirem do pressuposto de
que no modelo liberal não existe uma ligação forte entre os média e a esfera
política, o que foi, aliás, criticado sobretudo por James Curran (2011), que
demonstra a longa tradição de relação entre os média e o poder político
americano. O escândalo em torno do jornal News of the World em 2007, entretanto
extinto, é também um bom um exemplo da teia de favores e mútuas permutas e
vantagens entre o magnata da comunicação Rupert Murdock e o sistema político
britânico. Este caso deu, inclusive, origem ao Relatório Levinson,[2] publicado
em novembro de 2012, onde foram propostas novas medidas de regulação da
imprensa com vista a robustecer os mecanismos de apoio a uma imprensa
efetivamente livre.
Contudo, e apesar de as diferenças culturais, sociais e políticas que estão na
base dos três modelos identificados terem validade, tendo em conta o dinamismo
tanto das relações entre as esferas política e jornalística bem como dos fluxos
de capital, nas últimas décadas assistimos a alterações significativas nos
sistemas mediáticos, nomeadamente no velho continente, onde, nos últimos 30
anos, o processo de integração europeu conduziu à criação de um mercado único e
à harmonização da legislação entre os estados-membros. Esta política promoveu a
abertura dos mercados europeus de média à iniciativa privada (Hallin e Mancini,
2010 [2004]: 25-26; Papathanassopoulos e Negrine, 2011: 78-79) e a consequente
liberalização, desregulamentação e “mercantilização” da indústria (Murdock e
Golding, 1999: 118). Posteriormente, esse contexto levou à concentração e
transnacionalização das formas de propriedade, com base em processos de
globalização e racionalidade financeira dirigidos para a aquisição e fusão de
empresas que acumulavam unidades de negócios através de processos de aquisição
e fusão vertical e horizontal (Picard, 2002).
Liderando o processo de globalização do século XX do mundo pós-colonial, os
principais conglomerados multissetoriais e transnacionais que assumiram uma
grande visibilidade na Europa eram de língua inglesa, tendo adquirido um papel
dominante na produção e distribuição de conteúdos (Hardy, 2008). Tal levou
diversos autores a alertar para a diluição das nuances específicas dos sistemas
de média nacionais e para a postura imperial dos Estados Unidos, que pareciam
querer homogeneizar e controlar a produção de conteúdos mediáticos a nível
global (McChesney, 2001).
Deste modo, a partir do último quartel do século XX, em consequência da
globalização, comercialização, desenvolvimento tecnológico, bem como de uma
cultura mediática internacional, as diferenças entre os três sistemas de média
esbateram-se. Esta evolução conduziu a uma crescente convergência e
homogeneização em torno do modelo liberal, dando lugar ao que Hallin e Mancini
(2010 [2004]: 262) definiram como a americanização dos sistemas de média
europeus e ao desenvolvimento de uma cultura global do jornalismo.
Este desenvolvimento histórico correspondeu igualmente a um processo de
autonomia e diferenciação dos média enquanto instituição social, e do
jornalismo em particular, face a outras ocupações profissionais e instituições,
nomeadamente políticas e económicas (Chalaby, 1996). Isto correspondeu à
definição e afirmação de formas específicas de organizar o seu trabalho
determinadas pelo próprio campo e de acordo com os seus interesses
particulares, podendo-se, por isso, falar de uma “lógica dos média” (Dahlgren,
1996: 63) e de uma “cultura mediática” (Hepp, 2013).
No entanto, desde os anos 90 que a imprensa ocidental atravessa uma crise
profunda, decorrente de uma perda contínua de leitores, da transformação do
mercado dos média e do valor cultural e político atribuído à informação. Esta
crise tem sido ainda ciclicamente agudizada por recessões económicas na Europa
e nos Estados Unidos mas, na sua génese, encontra-se o facto de, desde meados
do século XX, o público ter transformado os telejornais na sua principal fonte
de informação (Delli Carpini e Williams, 2011), relegando a imprensa para
segundo plano. Ainda que tal não tenha ocorrido com a mesma intensidade em
todos os países, o que se verifica é que várias gerações adquiriram o hábito
diário de assistir ao noticiário televisivo transmitido ao final da tarde e não
cultivaram a rotina de ler diariamente o jornal.
Para muitos segmentos do público, o telejornal passou a ser o principal meio
através do qual adquiriam conhecimento sobre assuntos públicos e sobre o
funcionamento da política. Todavia, com a proliferação do número de canais
disponíveis, a partir dos anos 70 nos Estados Unidos e dos anos 80 e 90 na
Europa, os noticiários começaram a perder a sua capacidade de regenerar
audiências, pois uma percentagem crescente de espectadores passou a preferir
conteúdos de entretenimento que passaram a estar disponíveis nos canais por
cabo.
Deste modo, após um período de 150 anos de expansão iniciado pela imprensa,
reforçada pela rádio, e continuado pela televisão, começou-se a assistir a uma
rutura categórica nos públicos das notícias (Patterson, 2010: 17). As mudanças
ocorreram também devido a várias transformações tecnológicas introduzidas pela
internet. Se, por um lado, a era digital possibilitou a expansão do espaço e
fluxo noticioso, por outro lado, trouxe retração ao mercado da informação “com
o desmoronar do modelo de negócio das notícias” (Fenton, 2010: 41). A perceção
da internet como um meio de comunicação gratuito, e a crescente relevância dos
sites de média sociais — potenciada por smartphones e tablets — como exemplos
alternativos de produção, disseminação e consumo da informação, conduziram à
diminuição do valor comercial e simbólico do trabalho jornalístico.
Este novo contexto digital levou à racionalização (cortes de recursos humanos),
mercantilização (notícias como mercadoria) e à homogeneização de conteúdos
(Fenton, 2010: 45), sem, no entanto, evitar a falência do modelo de negócio do
jornalismo, que existia desde a sua industrialização na segunda metade do
século XIX. Mesmo nos mercados ocidentais em crescimento, o investimento na
imprensa tem vindo a sofrer uma forte retração nos últimos anos, levando ao
encerramento de projetos ou à sua aquisição por investidores cuja ligação à
área dos média não era até agora conhecida. O melhor exemplo será o mercado
americano, no qual, apesar de o investimento publicitário ter crescido 3% em
2012 e cerca de 1% em 2013, nestes mesmos dois anos o setor dos jornais caiu 3%
(-12% no caso dos jornais nacionais) e 3,5% (-5,2% nos jornais nacionais)
respetivamente.[3] Estas perdas, que se acumulam em mais de uma década de
quebra das receitas publicitárias da imprensa, levaram ao encerramento de
dezenas de títulos nos últimos cinco anos, bem como à compra de jornais
emblemáticos por investidores de fora da área dos média, como sucedeu com o
Washington Post, adquirido em 2013 por Jeff Bezos, fundador e diretor executivo
da Amazon. Já em 2010 a empresa que detinha o Washington Post havia alienado
uma das suas outras marcas de média mais emblemáticas, a revista Newsweek, que
passou então a ser controlada pelo InterActiveCorp (IAC). Este novo
proprietário viria a decidir o encerramento da edição em papel no final de
2012, tendo no ano seguinte vendido o título à IBT Media, que optou por
relançar uma versão impressa em março de 2014.
Enquanto nos últimos anos muitos jornais têm simplesmente encerrado e outros
têm sido adquiridos por novos investidores, os que têm mantido a sua estrutura
acionista sem grandes alterações têm vindo a reduzir a dimensão das suas
redações, o que foi o caso, entre muitos outros, do The New York Times, que em
2013 despediu três dezenas dos seus jornalistas seniores, levantando questões
sobre a qualidade de jornalismo praticado por redações compostas por
jornalistas juniores, com pouca experiência, e sujeitos a baixas remunerações.
[4]
Neste ambiente de quebra de receitas e de procura de novos modelos de
financiamento, a indústria dos média colocou o jornalismo no negócio do
entretenimento, não por razões jornalísticas, mas por ambições comerciais, e
também para garantir elevados lucros aos seus acionistas. O debate gerado em
torno de novas formas de financiamento tem enfatizado a concentração da
propriedade, a passagem da informação de “bem social” a “bem comercial”, a
concorrência desenfreada e a intensificação do processo de globalização, como
os elementos críticos que colocam em causa a possibilidade de os média
cumprirem as suas funções democráticas.
Este debate foi intensificado com a crise de 2008, que levou os países
ocidentais a entrar em recessão, que seria particularmente severa na Europa.
Este contexto reintroduziu problemas financeiros no setor e intensificou a
dependência das empresas em relação ao sistema bancário e ao investimento
internacional, uma vez que o mercado da publicidade começou a diminuir.
Em Portugal, o efeito da crise nos indicadores macroeconómicos, particularmente
no consumo privado, foi ampliado pela dimensão reduzida do mercado português e
pelo caráter instável do setor da comunicação. Entre 2007 e 2013 o mercado
publicitário caiu 43% com as revistas e os jornais a sofrerem as maiores
quebras de investimento (-64,2% e -62,7% respetivamente), seguidos do outdoor
(-51,3%) e da televisão (-41,8%).[5] De acordo com dados revelados pela agência
de meios Nova Expressão, entre 2007 e 2013, o mercado publicitário português
perdeu mais de 330 milhões de euros do seu valor total.[6] Ainda assim, apesar
do cenário de quebra generalizada, o investimento nos meios digitais registou,
neste mesmo período, um crescimento de 244,6%, o que permitiu a algumas das
empresas com uma estratégia bem delineada no segmento digital compensar, ainda
que de forma parcelar, as quebras verificadas no investimento nos chamados
meios tradicionais.
Este cenário é, aliás, muito semelhante ao verificado noutros países europeus
afetados pela crise financeira pós-2008. Em Espanha, por exemplo, a quebra do
investimento publicitário tem também afetado sobretudo os jornais, com quedas
de cerca de 60% entre 2007 e 2012 (59,6% no caso dos diários e 61,1% no caso
dos semanários) e as revistas com -56,5%. Neste mesmo período, tal como no
mercado português, também em Espanha a televisão sofreu com o clima recessivo,
tendo perdido 47,7% dos investimentos publicitários, enquanto os investimentos
no segmento online são os únicos com tendência positiva, tendo crescido 182,5%
neste mesmo período de seis anos.[7]
Tendo em conta que o investimento publicitário é a maior fonte de liquidez dos
média privados, a viabilidade económica destas empresas ficou crescentemente
comprometida, o que impulsionou novas dinâmicas no processo da globalização, na
economia política internacional do setor da comunicação e dos média e nos
fluxos de capital nesta indústria. A emergência de novos perfis de investidores
pode estar a produzir um contexto adverso ao modelo liberal dos média dominante
nas democracias ocidentais e a conduzir à emergência de uma nova fase que pode
ser caracterizada por um sistema híbrido que congrega características altamente
contraditórias. A par do modelo liberal, assiste-se à emergência de tendências
que vigoravam no modelo pluralista polarizado, caracterizadas por uma
estratégia de instrumentalização dos média por agentes políticos e económicos.
A emergência de novos perfis de investidores
A crise desencadeada pelo colapso do Lehmen Brothers em 2008 acelerou a
recessão económica no ocidente, fez emergir um novo contexto global e um novo
perfil de investidores interessados nos média ocidentais. Neste contexto, os
Estados Unidos da América e a Europa começaram a perder terreno no que diz
respeito à sua supremacia política, económica e simbólica, enquanto outros
países fora da geografia ocidental, como a China, a Rússia e Angola, começaram
a aumentar a sua relevância internacional. Se, por um lado, as empresas desses
países têm investido em áreas da sua especialização na economia mundial, como a
eletricidade, o petróleo e o gás, por outro lado, também começaram a investir
fora das suas indústrias tradicionais, ou seja, no setor da comunicação e dos
média.
Os investimentos de Roman Abramovich no setor de comunicação no Reino Unido são
um bom exemplo dos novos fluxos globais de capital nas indústrias de média,
após a crise de 2008. O bilionário russo, um dos 150 homens mais ricos do mundo
de acordo com a revista Forbes,[8] é um empresário muito bem-sucedido que está
entre os mais poderosos na Rússia e um dos maiores investidores internacionais
(Kuznetsov, 2011: 5). Vindo da nomenklatura do seu país, no início de 2013 o
proprietário do Chelsea Football Club comprou uma participação de 23,3% do
grupo de telecomunicações Truphone, que opera no Reino Unido, nos EUA e na
Austrália e que tem planos de expansão para a Holanda, Hong Kong, Alemanha,
Espanha e Polónia.
Abramovich não é o único russo a operar no setor da comunicação em Inglaterra.
O seu principal parceiro de negócios, Alexander Abramov, é o acionista
maioritário da Truphone, detendo 60% do seu capital e, juntamente com seu pai,
em 2010 comprou os principais títulos da imprensa gratuita britânica: The
Independent, Independent on Sunday e Evening Standard.
Seguindo uma estratégia de crescente presença no mundo empresarial dos Estados
Unidos da América, também a China tem investido de forma significativa no setor
dos média americanos. No global, o investimento direto da China no mercado
americano duplicou em 2013 para os 14 mil milhões de dólares (cerca de 10,2 mil
milhões de euros).[9] Tal leva a que os investidores privados chineses dominem
os fluxos de capital e representem mais de 80% das transações e mais de 70% do
valor do investimento feito nos EUA. O interesse centra-se em empresas que
operam nos setores da alimentação, energia e imobiliário, mas também na área da
comunicação.
Com o objetivo de assumir um papel preponderante no cenário global, os
principais meios de comunicação chineses têm aberto escritórios nos EUA desde
2011. Além do China Daily, o maior jornal de língua inglesa na China, a CCTV,
principal estação de televisão pública do país, tem vindo a aumentar a sua
presença nos EUA e aspira a competir com a CNN International, a BBC World News
e a Al Jazeera em inglês.
Além disso, a Xinhua, uma das maiores agências de notícias do estado chinês, à
imagem da Associated Press ou da Reuters, está a fornecer conteúdos
informativos a meios de comunicação em países em desenvolvimento, mas a preços
muito mais baixos. De acordo com especialistas, a estratégia chinesa é competir
com os média americanos na definição da agenda-setting (McCombs e Shaw, 1972)
global.
No caso português, se antes de 2008 os investimentos espanhóis eram os mais
influentes em Portugal, à medida que a crise económica ocidental se agudizou,
conjuntamente com a fragilidade da situação financeira do país, empresas
angolanas passaram a assumir posições relevantes na comunicação e nos média,
mas também em outros setores estratégicos como a banca, a energia e a
construção. De acordo com a agência de comércio e investimento AICEP,[10]
Angola tornou-se no maior investidor em Portugal, com o volume de investimento
a aumentar 35 vezes ao longo da última década. De acordo com dados do Banco de
Portugal, em 2012 o investimento angolano em Portugal superou os 340 milhões de
euros,[11] assumindo um papel preponderante nas empresas que compõem o índice
da bolsa portuguesa.
A liderar o investimento angolano em Portugal encontramos Isabel dos Santos, a
filha mais velha do presidente angolano que é a primeira mulher bilionária em
África,[12] tendo sido considerada em 2013 a sétima pessoa mais rica do
continente africano.[13] Após 2008, a sua estratégia de investimentos passou
por diversas empresas portuguesas, destacando-se a Galp e a Amorim Energia,
onde detém posições através da Esperanza Holding de que é detentora em conjunto
com a Sonangol, empresa pública angolana. Igualmente significativos são os seus
investimentos na NOS, fruto da fusão da Zon e da Optimus, onde controla 50,01%
do capital, bem como no setor da banca, onde investiu tanto na Caixa Geral de
Depósitos como em bancos privados. Detém 25% do banco angolano BIC em Portugal,
onde tem assento no conselho de administração. É também dona de 19,5% do BPI e
é uma das principais acionistas do BPN, depois de este banco ter sido adquirido
pelo BIC em 2011. De acordo com informações divulgadas pela imprensa, a
expansão da presença da empresária angolana no setor financeiro pode ainda
ocorrer em 2014.[14] Na sequência da divulgação das intenções dos grupos BBVA e
Barclays de sair do país, os angolanos BPA e BIC manifestaram interesse nos
balcões portugueses daquelas instituições financeiras, que oferecem assim a
hipótese da expansão internacional dos bancos angolanos.
É de ressalvar que, até à data, Isabel dos Santos nunca investiu diretamente em
empresas que atuam na produção de média, apesar de terem sido publicadas
notícias sobre o seu eventual interesse em adquirir a RTP1, quando, em 2012, o
governo português anunciou a sua intenção, não concretizada, de vender o canal
público. O investimento nos média tem sido realizado sobretudo pela empresa
angolana Newshold, propriedade de Pineview Overseas, com sede no off-shore do
Panamá. Apesar de operar em Portugal desde 2009, foi somente em dezembro de
2012 que se ficou a saber que esta empresa estava ligada à família Madaleno com
estreitas ligações à cúpula política em Angola. Um dos cinco proprietários e
CEO da empresa é Álvaro Madaleno, que é também um pequeno investidor individual
(5%) do BESA, do qual foi CEO entre 2002 e 2012, um banco onde Isabel dos
Santos tem um investimento significativo. A divulgação pública dos
proprietários da Newshold deveu-se ao interesse desta empresa na privatização
da RTP, uma operação que tornava obrigatória a revelação dos nomes dos
investidores interessados no negócio.
Embora o estado tenha posteriormente alterado a sua estratégia, e a RTP
continue na posse dos dois canais de televisão que detém desde a década de
1960, a verdade é que um dos efeitos da discussão sobre a privatização de um
dos canais da estação pública foi a divulgação da propriedade da Newshold.
Ainda assim, este caso prova que foi possível a uma empresa a operar no setor
dos média manter, durante vários anos, uma opacidade sobre os seus verdadeiros
donos, o que confere uma ameaça ao princípio da transparência de propriedade,
essencial para um efetivo pluralismo mediático. Sem a existência de legislação
que obrigue à divulgação dos investidores das empresas de média, o que se
verifica no caso português, torna-se impossível que seja respeitada a lei
existente sobre a concentração de propriedade. De igual modo, torna-se
inevitável a criação de um clima de suspeição como aquele que existe, desde
2012, em relação à propriedade do jornal i,[15] que tem um contrato de gestão
com a Newshold. Aliás, o facto de a propriedade dos grupos de comunicação não
ser necessariamente transparente é uma das características do mercado mediático
português, tal como identificado por Hallin e Mancini no modelo pluralista
polarizado (2010 [2004]). Não obstante a Constituição portuguesa prever
expressamente a existência de uma entidade que garanta a não concentração da
propriedade dos meios de comunicação, até ao momento permanece no país um vazio
legislativo sobre a transparência da propriedade. O tema tem surgido de forma
recorrente na agenda política desde 2009, mas uma teia de interesses tem
tornado inviável a produção legislativa sobre a matéria, o que explica a
possibilidade de existência de empresas detidas por investidores anónimos.
Como mencionado acima, a entrada da Newshold no mercado português ocorreu em
2009 quando esta adquiriu o semanário Sol, no momento em que o jornal se
encontrava numa situação financeira muito precária. No mês que se seguiu à
aquisição, o Sol começou a produzir versões angolanas e moçambicanas. Desde
então, a Newshold tem expandido os seus investimentos a outras empresas,
detendo 23,5% da SAD do Sporting e 80% da Cofaco, uma empresa conserveira que
tem marcas como Bom Petisco e Pitéu. Ainda na área dos média, houve uma
expansão da presença da Newshold no setor, que passou a deter participações em
dois dos principais grupos mediáticos portugueses: a Impresa (3,21%)[16] e a
Cofina. No caso desta última, o primeiro investimento da Newshold foi realizado
em outubro de 2011 quando então adquiriu 6,16% do capital, tendo aumentado o
investimento nos meses seguintes, o que lhe permitiu controlar 15,08% da
empresa e assumir-se como um acionista de referência, ainda que sem assento no
conselho de administração do grupo. Já em novembro de 2013, poucos dias depois
de ter reforçado a sua posição na Impresa, a Newshold acabaria por reduzir a
posição na Cofina para 12,21%.[17] Curiosamente, neste mesmo mês, foi anunciado
que um outro grupo de média português, a Controlinveste, seria parcialmente
adquirido por um empresário angolano: António Mosquito.
Conhecido por não se envolver diretamente na atividade política, os negócios de
António Mosquito em Angola cresceram impulsionados pelo regime de José Eduardo
dos Santos, tendo interesses em áreas tão diversas como a exploração de
diamantes, a banca, a construção civil e a importação de automóveis. O negócio
da compra da Controlinveste ocorreu em 2014 e permitiu a António Mosquito
passar a deter uma posição de 27,5% na empresa de média que até então havia
sido controlada por Joaquim Oliveira. Entre os ativos da Controlinveste
encontram-se o Diário de Notícias(o mais antigo jornal diário português em
circulação, fundado em 1864, e o segundo diário de referência mais vendido no
país), o Jornal de Notícias(o segundo jornal com maior tiragem de entre a
imprensa diária tabloide), O Jogo, a TSF e o jornal económico digital Dinheiro
Vivo.
A par dos seus investimentos na área dos média, o empresário angolano adquiriu
66,7% da construtora Soares da Costa, uma das empresas portuguesas com maior
volume de negócios em África, nomeadamente em Angola, onde se estabeleceu pela
mão deste empresário, que é ainda parceiro da construtora portuguesa Teixeira
Duarte e da brasileira Odebrecht. António Mosquito detém ainda 12% do Banco
Caixa Geral Totta e em Angola atua em áreas como o imobiliário, o automóvel e o
petróleo.[18] É também parceiro da empresa portuguesa Novabase em Angola,
detendo 50% desse negócio.
Emergência de um modelo de média pós-democrático?
Tal como ilustrado na secção anterior, investidores de países como a China,
Rússia e Angola têm aproveitado a crise económica do mundo ocidental, que lhes
abriu o caminho para comprarem empresas estratégicas em vários países,
inclusive na indústria dos média.
Ainda que os três países mencionados tenham a sua própria singularidade e
especificidade, existem várias características históricas, políticas e
económicas que permitem extrair algumas tendências gerais para debater a forma
como estes países estão a moldar o fluxo global de capitais nas indústrias de
média a partir da crise económica de 2008, e como isso pode entrar em conflito
com as prerrogativas fundadoras da cultura ocidental de jornalismo.
Os três países têm a experiência histórica semelhante de viver sob regimes
controlados por um único partido comunista, que monopolizava o poder político e
económico e que controlava todos os aspetos da vida social (Sparks, 2010: 554).
Além disso, no início da década de 1990, em consequência da queda do muro de
Berlim e da dissolução da União Soviética, estes países viveram uma mudança
política de controlo total do estado para acomodar, de alguma forma, um certo
grau de estruturas políticas e económicas menos monolíticas. Enquanto nos casos
da Rússia e Angola os governos fizeram uma transição de um estado nominalmente
comunista para um nominalmente democrático, na China (Sparks, 2010: 555), mesmo
quando versões reformadas do Partido Comunista ganharam as eleições, não
fizeram qualquer tentativa de restabelecer a velha ordem.
Tendo em conta as características políticas atuais desses países, todos parecem
apresentar características de regimes autoritários e democráticos. Apesar da
existência de eleições, o estado é controlado, em termos práticos, por um só
partido num contínuo que vai da China, enquanto “autocracia fechada” (Siaroff,
2009: 78), às “autocracias semiliberais” da Rússia e Angola (Siaroff, 2009: 78-
79). Estes regimes são deliberadamente ambíguos e baseiam-se em sistemas
híbridos que combinam aceitação retórica de algumas instituições democráticas
formais com traços autoritários.
Após a pressão internacional para abrir os mercados e reduzir a esfera de
controlo do governo, estes regimes têm incentivado as empresas privadas a
crescer, o que fez com que emergisse nestes países uma nova elite económica. No
entanto, na maioria dos casos, os principais ativos económicos que foram
privatizados nos referidos países foram colocados sob o controlo de
investidores que pertencem à segunda geração das famílias dominantes. As
maiores empresas dos três países, especialmente se tivermos em conta a sua
estrutura de propriedade, refletem as relações estreitas com funcionários do
topo do estado e as posições oligopolistas estáveis na economia de cada país
(Kuznetsov, 2011; Sparks, 2010).
Sob estruturas políticas autocráticas, a concentração de recursos visa
preservar e maximizar os ganhos do regime vigente e não permitir que qualquer
mudança radical ocorra nos centros do poder. Isto também se traduz numa
conceção não democrática sobre o papel dos meios de comunicação (Hadland, 2012:
103). Por esse motivo, as empresas de média mais importantes nestes países
pertencem ao estado ou são controladas pela elite do poder, o que também
significa que aos jornalistas é dada muito pouca ou nenhuma liberdade. É,
portanto, extremamente difícil desafiar com sucesso as estruturas do poder, uma
vez que as eleições não são a principal fonte de poder do governo. De acordo
com Marina Ottaway (2003: 6), os regimes híbridos, como são os dos países em
análise, “sabem como jogar o jogo da democracia e ainda assim manter o
controlo”.
Concordamos, portanto, com a sugestão de Colin Sparks quando este propõe um
quarto modelo, o “corporativismo autoritário” (2010: 553), para adicionar aos
três modelos de sistemas de média propostos por Hallin e Mancini, pois,
efetivamente, podemos considerar a China, a Rússia e Angola como integrantes
deste novo modelo com características político-históricas semelhantes e visões
próximas sobre o papel a desempenhar pelos média e pelo jornalismo. Tal como
Colin Sparks afirma, “historicamente, é bastante claro que a influência
simbólica segue-se à influência económica (e militar)” (2010: 564). Neste
sentido, os meios de comunicação são um instrumento simbólico relevante para o
posicionamento destes estados autocráticos na cena internacional. Tal poderá
vir a enfraquecer a visão liberal ocidental sobre os média, pois na cultura
autocrática, de onde provêm os novos proprietários dos meios de comunicação,
estes são sobretudo entendidos como instrumentos ao serviço de estruturas
clientelares.
Reflexões finais
A recessão económica, juntamente com a crise política que as democracias
ocidentais atravessam, e o impacto que ambas têm tido no setor da comunicação e
dos média ocidentais impulsionaram o debate sobre a “democraticidade” de
regimes democráticos, levando autores como Jürgen Habermas (2012) ou Colin
Crouch (2004) a considerarem que os estados ocidentais do século XXI entraram
numa fase pós-democrática. Os governos já não têm o mesmo controlo que tinham
no passado sobre o rumo dos países, pois as suas decisões são cada vez mais
influenciadas por entidades corporativas internacionais Neste cenário, moldado
por interesses de empresas globais, os governos têm vindo a perder o controlo
sobre decisões importantes para os países devido à supremacia de instituições
supranacionais, mas também devido à grande dependência que os países ocidentais
têm de grandes multinacionais que, pelo seu peso económico, adquiriram poder de
influência política. Simultaneamente, neste novo cenário global, os países
ocidentais estão a perder terreno, tanto em termos da sua supremacia económica
como simbólica, ao passo que outros países fora da geografia ocidental estão a
aumentar a sua importância no cenário internacional.
No contexto da recessão económica importa analisar as estratégias de aquisição
de setores estratégicos, como a banca, a energia, a construção e o imobiliário,
as telecomunicações e os média, por parte de investidores oriundos de países
com regimes políticos autocráticos, e refletir sobre questões relevantes que
daí podem advir, nomeadamente sobre as possibilidades de pluralismo, de
contraditório e de circulação de perspetivas diversas no espaço público. Tendo
como pano de fundo as alterações no processo de globalização decorrentes da
profunda crise económica ocidental a partir de 2008 e a crescente desafeição
política dos cidadãos face ao regime democrático, o presente artigo pretendeu
contribuir para o debate sobre as consequências dos novos fluxos de capital na
indústria dos média, provenientes de investidores com uma conceção autocrática
dos meios de comunicação.
Enquanto que até ao último quartel do século XX, os diferentes padrões de
desenvolvimento social, político, cultural e económico deram origem a modelos
distintos de democracia e a sistemas de média diversificados no mundo
ocidental, nas últimas décadas, o processo de globalização, o desenvolvimento
tecnológico e a criação de uma cultura mediática comercial internacional
conduziram a uma maior convergência dos sistemas de média, ao mesmo tempo que
levaram à abertura das empresas de comunicação a fontes de financiamento
internacional. No entanto, se até à crise despoletada em 2008 os investidores
internacionais na área dos média eram sobretudo conglomerados internacionais
com negócios crescentes neste setor, nos últimos anos, assistimos à entrada de
um novo perfil de investidores para quem os média são apenas mais uma das suas
áreas de investimento, e certamente das menos rentáveis.
Neste sentido, consideramos que a emergência deste novo perfil de investidores
pode estar a produzir um contexto adverso ao modelo liberal dos média dominante
nas democracias ocidentais e a conduzir à emergência de uma nova fase que pode
ser caracterizada por um sistema híbrido composto por forças altamente
contraditórias e, quiçá, inconciliáveis. Como é que a crise económica do setor
dos média está a colocar em causa os eixos basilares do modelo liberal,
nomeadamente a sua a autonomia face ao sistema político e o profissionalismo do
jornalismo, e como é que os média estão a lidar, a conviver com e a gerir as
novas ameaças assinaladas são questões de investigação que urge serem
respondidas em pesquisas ulteriores, tendo em conta as implicações que o novo
cenário terá para o jornalismo ocidental enquanto instituição democrática.