Cultura de leitura e classe leitora em Portugal
Introdução
A leitura, tal como a escrita, é uma atividade da vida quotidiana da
generalidade dos indivíduos das sociedades contemporâneas ocidentais. Pode ser
abordada segundo múltiplos pontos de vista. O que aqui se adota ancora-se na
sociologia da cultura e, mais concretamente, na problemática que tem por objeto
central de estudo as práticas e os hábitos de leitura. Do ponto de vista
conceptual isso implica, em primeiro lugar, que o foco recai nas práticas e não
tanto nas aprendizagens e nas competências. Em segundo lugar, implica que é
tomada como nuclear a leitura que os indivíduos fazem por prazer, como
atividade de lazer, nos tempos livres, distinguindo essa leitura cultural da
escolar e da profissional. E, em terceiro lugar, implica ainda que se trata da
leitura de suportes impressos, e em particular de livros.
Entre as abordagens sociológicas da leitura toma-se como referência a que Wendy
Griswold e outros autores vêm elaborando e cujos principais conceitos são
cultura de leitura e classe leitora.Discute-se a aplicação deste modelo à
realidade portuguesa com base num dispositivo analítico que visa testar a
hipótese geral segundo a qual a classe leitora em Portugal se restringe a uma
pequena parte da população mas a leitura abrange virtualmente toda a população.
Na discussão desta hipótese são consideradas duas dimensões: práticas de
leitura e composição socioprofissional dos leitores. Esta última é abordada com
base na tipologia ACM (Costa, 1999: 229-230; Costa, Machado e Almeida, 2007).
Coloca-se assim uma outra hipótese: a de que a classe leitora se aproxima — nas
práticas e nas qualificações — da categoria “profissionais técnicos e de
enquadramento” (PTE na tipologia ACM).
A estratégia metodológica adotada é extensiva quantitativa. O núcleo central da
análise é o inquérito “A Leitura em Portugal” — o qual tem por base uma amostra
de 2552 indivíduos, representativa da população portuguesa residente em
Portugal continental, alfabetizada, com 15 e mais anos de idade — cujo trabalho
de campo decorreu entre novembro de 2006 e janeiro de 2007.
A terminar refletem-se novas linhas de problematização e de pesquisa com vista
ao aprofundamento das práticas de leitura no contexto da sociedade da
informação e do conhecimento, contexto marcado pela rápida generalização das
tecnologias da informação, da internet e dos conteúdos digitais de leitura,
incluindo os livros eletrónicos.
Leitura como prática cultural
A leitura pode ser abordada segundo diversas óticas. A perspetiva sociológica
que aqui se adota estuda as práticas nos diversos suportes escritos, os seus
usos em vários contextos; é em grande medida uma sociologia da leitura de
livros, que distingue a leitura realizada em período de lazer, como ocupação de
tempos livres, que as pessoas fazem por prazer e por procura de informação,
como prática cultural, da realizada por motivos escolares e profissionais
(Griswold, McDonnell e Wright, 2005; Griswold, Lenaghan e Naffziger, 2011).
Nesta perspetiva, estudam-se de modo aprofundado os fenómenos ligados à
leituracomo atividade social em que se manifestam significações coletivas
múltiplas, incluindo efeitos de constrangimento sobre a consciência individual
(Daviet, 1996: 7), como uma atividade empiricamente observável e, mais do que
isso, socialmente regulada (Peroni, 2004). Procura-se definir um quadro
analítico que identifique os fatores que descrevem e explicam a atividade da
leitura, a interação entre os sujeitos leitores e o que eles leem (Donnat,
Freitas e Frank, 2001: 25). O referido quadro pode ser sintetizado num conjunto
de interrogações com largo espetro temporal na pesquisa sociológica: Quem lê?
Como leem? O que leem? O que fazem com o que leem? (Berelson, 1973 [1951];
Coelho, 1980; Freitas e Santos, 1992; Griswold, 2000, 2008; Donnat, Freitas e
Frank, 2001: 15; Horellou-Lafarge e Segré, 2003: 84-90; Santos et al., 2007).
Embora a principal referência seja, como atrás mencionado, a leitura como uma
atividade realizada por prazer, em tempo de lazer, sem ser por motivos de
estudo ou profissionais, importa ter em conta contaminações mútuas: as leituras
“de divertimento”, “utilitárias”, “profissionais” (Segré, 2001: 160-161).
Importa fazer ainda uma outra consideração. A leitura é aqui considerada como
prática e não como competência, abordagem própria dos estudos sobre literacia
(Griswold, Lenaghan e Naffziger, 2011: 19). Ou seja, por leitor entende-se
aquele que opta por ler no seu tempo livre, não o que sabe ler ou que lê por
motivo de estudo ou de trabalho (Griswold, McDonnell e McDonnell, 2006: 38).
Deste ponto de vista as práticas de leitura não dependem das competências de
descodificação dos textos. Algumas pessoas com o mesmo nível de competências
escolhem ler muito no seu tempo livre, ao passo que outras raramente leem
(Griswold, 2000: 93).
A intensidade das práticas de leitura varia enormemente. Disso procuram dar
conta as classificações com o número de livros lidos. Bouillin-Dartevelle,
Thoveron e Noël (1991: 193-194) utilizam quatro categorias: “pequenos leitores”
(menos de 10 livros); “médios” (10 a 20); “grandes apetites” (20 a 50);
“bulímicos” (mais de 50). Nos inquéritos às práticas culturais em França
utilizam-se igualmente três grupos: pequenos (1 a 9 livros), médios (10 a 19) e
grandes (mais de 20) (Horellou-Lafarge e Segré, 2003: 71). A mesma
classificação é utilizada por Freitas, Casanova e Alves (1997: 128), mas apenas
o escalão dos grandes leitores coincide (1-5; 6-20; mais de 20). No SPPA —
Survey of Public Participation in the Arts (EUA) são quatro: 1 a 5 livros; 6 a
11; 12 a 49; e 50 ou mais (Bradshaw e Nichols, 2004: 4). E, neste inventário
não exaustivo, Antonio Ariño Villaroya dá voz igualmente a três escalões: 1-4;
5-11; 12 ou mais (Ariño, 2010: 78).
Generalização da leitura, restrição dos grandes leitores
De acordo com o quadro teórico anteriormente exposto, a perspetiva que aqui se
privilegia parte de duas constatações: uma é que nas sociedades contemporâneas
ocidentais a leitura é uma prática generalizada, massificada, e a outra é que o
grupo dos grandes leitores é, como sempre foi, um grupo minoritário, embora na
atualidade com um peso como nunca antes teve. Assim, são igualmente dois os
principais conceitos — cultura de leitura (reading culture) e classe leitora
(reading class) (Griswold, 2000, 2001, 2008; Griswold, McDonnell e Wright,
2005; Griswold, McDonnell e McDonnell, 2006).
Cultura de leitura
O que se entende, então, por cultura de leitura?
De um modo geral, podemos afirmar que existe uma cultura de leitura numa
sociedade em que a taxa de alfabetização seja relativamente elevada, não
excluindo qualquer estrato social. Tal cultura assume a alfabetização como
condição para a plena participação social, vista como um direito; e o
analfabetismo como um fracasso pessoal ou sistémico. Os meios de comunicação
comuns na vida económica, política e comercial ocorrem através da escrita. A
existência de uma imprensa popular juntamente com outras formas massificadas de
edição impressa, assim como de publicações um pouco mais específicas e de
sistemas eficazes de distribuição, fazem com que os materiais de leitura
estejam amplamente disponíveis. A leitura é uma atividade habitual na vida
profissional das pessoas, assim como no seu tempo de lazer. (Griswold, 2000:
117)
Nesta perspetiva, trata-se de uma sociedade que valoriza a leitura em todos os
suportes e contextos sociais. A autora adianta que haverá quem considere a
noção de cultura de leitura em sentido estrito, “a verdadeira cultura de
leitura”, “em que as pessoas estão habituadas a ler livros relativamente
sérios, e que preferem a leitura a outras formas de lazer”, mas conclui que,
nesta aceção, se aplica a nichos de leitores e poucas nações poderiam ser
consideradas como uma cultura de leitura (id., ibid.: 117).
Uma cultura de leitura pode assim corresponder a diferentes estádios de
amadurecimento; numa cultura de leitura estabelecida,
existe uma associação aproximada, mas direta, entre o prestígio de um emprego e
a quantidade de leitura que o mesmo requer. Para além disso, a leitura como
forma de entretenimento está presente em quase todos os níveis sociais, com
materiais de leitura estratificados desde as belles lettres até às bandas
desenhadas ou mesmo às fotonovelas para os semialfabetizados. Numa cultura de
leitura, o que se lê acaba por se tornar numa forma útil de estratificação e
sinalização social. (Griswold, 2001: 4)
Deste ponto de vista, numa cultura de leitura estão presentes vários níveis de
cultura (grande, popular e de massas) (Santos, 1988), e o que cada um lê tem
significado do ponto de vista da estratificação social.
Os usos e os contextos de leitura são múltiplos, mas a parte da população que
lê por prazer e por necessidades de informação num dado local, região ou país é
mais significativa do que aquela que lê por motivos profissionais ou escolares:
Uma cultura de leitura consiste num local (uma cidade, uma região, um país),
onde a maioria das pessoas, para além das exigências do seu trabalho ou
educação, leem habitualmente materiais impressos em busca de entretenimento e
informação. (Griswold, 2008: 164)
Uma cultura de leitura define-se ainda pela valorização social e pela
diversidade dos suportes de leitura disponíveis (livros, jornais, revistas,
outros), pela relação direta entre o prestígio de um emprego e a quantidade de
leitura que ele requer. A predominância da leitura de lazer relativamente à
profissional e à escolar, bem como a diversidade da oferta (incluindo a
literatura considerada popular ou “comercial”) sugerem a vitalidade de uma dada
cultura de leitura, não o contrário. A este propósito, Griswold, McDonnell e
Wright constatam que “assim que uma cultura de leitura popular se estabelece,
os comentadores começam a preocupar-se com o declínio da leitura” (2005: 129).
Ou, como refere Daviet, numa perspetiva próxima do “arbitrário cultural”
(Bourdieu, 1979), “paradoxalmente, o louvor da leitura, o qual atrai o cidadão
com os seus bons sentimentos, acaba por resultar muito frequentemente no mal
que denuncia. Gostaria de preencher o fosso que existe entre os letrados e os
iletrados, mas impondo a todos os gostos e os juízos que são, precisamente, os
dos letrados mais tradicionais” (Daviet, 1996: 9). Ou ainda, de forma mais
genérica, quando Passeron afirma “devemos felicitar, encorajar qualquer
leitura, qualquer que seja” (1995 [1991]: 383-384).
Por outro lado, tal cultura de leitura não depende apenas dos leitores atuais,
mas também dos potenciais, que poderão vir a ler mais em circunstâncias
favoráveis, e dos futuros leitores, aqueles que ainda frequentam o sistema de
ensino (Griswold, 2000: 92). E, para que sejam adquiridos hábitos de leitura, é
preciso que esta seja uma atividade estimada e que os jovens sejam socializados
na cultura de leitura. A leitura é um produto da organização social, os hábitos
de leitura são suportados por uma imensa infraestrutura que inclui a educação,
os média e outras formas específicas, institucionais e corporativas (Griswold,
McDonnell e Wright, 2005).
De acordo com os vários atributos, que incluem ainda os níveis de qualificação
escolar e académica, foram definidos quatro tipos de culturas de leitura:
avançadas, restritas, emergentes (em que os autores incluem Portugal) e
potenciais (Griswold, Lenaghan e Naffziger, 2011: 31).
Classe leitora
Quanto ao conceito de classe leitora inclui aspetos socioeconómicos e de
práticas. Define-se por:
indicadores socioeconómicos incluindo, mas não limitados à sua relação com os
meios de produção. Inclui os membros dessas classes, ou frações de classe, que
recorrem habitualmente à leitura para o seu trabalho e entretenimento. A
escolaridade estabelece os limites da classe leitora e é a porta de entrada
para membros de diferentes contextos socioecónomicos. (Griswold, 2001: 4)
Compreende os membros das classes e frações de classe que usam normalmente a
leitura para o seu trabalho e para seu entretenimento.A conjunção dos dois
contextos de leitura afigura-se de grande importância e será aprofundada
adiante.[1]De momento, importará recorrer a uma outra citação um pouco mais
extensa, de modo a apreender os vários atributos da noção de classe leitora,
numa dupla perspetiva: histórica e dos seus desenvolvimentos futuros.
A leitura sempre esteve associada à educação e, mais geralmente, às elites
sociais urbanas. Embora os comentadores contemporâneos lamentem o declínio do
“hábito de leitura” ou da “leitura literária”, historicamente, a idade de ouro
da leitura de massas, ocorrida entre meados do século XIX e meados do século
XX, no noroeste da Europa e América do Norte, é que foi a exceção. Agora
assistimos ao retorno da leitura à sua base social inicial: uma minoria que se
autoperpetua, a qual chamamos classe leitora.
Ao passo que a estratificação nos séculos XIX e XX envolvia aquilo que as
pessoas liam (por exemplo, o cânone clássico contra os jornais da classe
trabalhadora ou revistas cor-de-rosa), este novo século poderá aproximar-se
mais de épocas anteriores, em que a diferença fundamental se fazia entre quem
lê e quem não lê. Ao contrário do passado, a maioria das pessoas no mundo
desenvolvido terá a capacidade de ler, e irão de facto ler no desenrolar dos
seus empregos, das suas atividades online, e da sua vida quotidiana. No
entanto, somente uma minoria irá ler livros regularmente [...]. (Griswold,
McDonnell e Wright, 2005: 138)
Apesar de uma parte mais alargada da população ser capaz de ler, a diferença
fundamental será entre quem lê como parte do seu trabalho e da sua vida
quotidiana e quem lê livros com regularidade.
Está também aqui implicada uma discussão sobre o futuro da leitura, a qual tem
sido feita em torno de vários fatores: o sistema de ensino, a concorrência de
outras formas de entretenimento, os valores associados à leitura (por sua vez
associada a livros) e a divisão entre a leitura como uma atividade de
praticamente toda a população e a leitura de literatura, de não ficção e de
imprensa “de qualidade” por uma elite “educada”.
Uma [ênfase sociológica] reside no prestígio da leitura. Quando estudaram os
cidadãos de Lancaster, Barton & Hamilton (1998) constataram que a simples
ideia de ser leitor estava imbuída de valores. A leitura era vista como uma
coisa boa, e os leitores eram considerados pessoas inteligentes. A velha
atitude da classe trabalhadora britânica de considerar os leitores como sendo
preguiçosos ou antissociais tinha-se desvanecido. Ser leitor significava ler
livros, não apenas revistas ou jornais (Barton & Hamilton, 1998, p. 158).
[...] A segunda ênfase sociológica reside em ver a leitura como um produto da
organização social. Uma infraestrutura imensa apoia o hábito de ler. Muito
embora o ensino seja a forma mais óbvia, assim como os meios de comunicação
impressos [...], existem formas de leitura institucional e empresarial mais
específicas que incentivam e sustentam a leitura. [...] A terceira perspetiva,
produto das duas primeiras, consiste na divisão entre, por um lado, a leitura
enquanto prática prosaica inerente à generalidade dos indivíduos e, por outro,
a leitura de literatura séria, de não ficção, de imprensa de qualidade, como
uma prática estimada, apoiada, de uma elite educada. (Griswold, McDonnell e
Wright, 2005: 138-139)
A noção de classe leitora reporta-se então a um determinado perfil
sociodemográfico e a um tipo de leitores:
Um segmento de elite da população, altamente escolarizado, rico, metropolitano
e jovem criou grandes leitores assim como utilizadores precoces da internet.
Expondo o efeito de concentração [a diminuição da leitura verificada em vários
países incide mais nos leitores ocasionais do que nos grandes leitores],
verificamos que estes leem mais do que os leitores médios do passado. Neste
momento são estas pessoas — os leitores ávidos,[2] a elite das comunicações, os
omnívoros, culturais,[3] a maior parte da “classe criativa” — juntamente com os
leitores de longa data, mais idosos e tecnologicamente menos avançados, que
formam a classe leitora. (Griswold, 2007: 4)
Mais especificamente quanto à classe criativa (Florida, 2004 [2002]), numa
clarificação que ajuda a compreender a composição socioprofissional da classe
leitora, Griswold considera que, apesar das sobreposições, existem algumas
diferenças:
Embora exista alguma sobreposição entre a classe leitora e a “classe criativa”
(Florida, 2002), em parte por ambos serem altamente escolarizados, os dois
grupos não são congruentes. Alguns dos grupos que Florida inclui (engenheiros
de software, empresários) poderão não ser grandes leitores, ao passo que
bibliotecários e professores do ensino básico e secundário, baluartes da classe
leitora, não são incluídos no grupo de profissionais criativos altamente móveis
de Florida. (Griswold, 2007: 13)
Quanto aos indicadores de práticas de leitura de livros, a autora adianta que a
classe leitora (tomando como exemplo os EUA) coincide aproximadamente com
leitores classificados como frequent ou avid (Griswold, 2008: 60).
A caracterização da classe leitora faz-se também por determinados
comportamentos típicos. Trata-se, então, daqueles, poucos, que
… se perdem na leitura de um livro, procuram jornais em busca de notícias e
revistas em busca de prazer e são chamados “leitores” pelos seus familiares e
amigos […] leem constantemente por entretenimento […] têm sempre em curso a
leitura de um livro, nunca viajam sem algo para ler, têm algum material
impresso em todas as divisões das suas casas. (Griswold, 2008 : 36-37)
Em suma, a classe leitora define-se pelo perfil social e pelo padrão de
práticas de leitura. Quanto ao perfil social, caracteriza-se por níveis de
escolaridade e rendimento económico elevados e idade jovem. Inclui as elites
urbanas, os membros das classes e frações de classe mais qualificadas e que,
quanto às práticas, leem regularmente em situação de lazer e entretenimento e
(importará aprofundar)para o seu trabalho, são, quanto ao número de livros
lidos, grandes leitores e, do ponto de vista do gosto, “omnívoros” (Peterson e
Kern, 1996).
O caso português
Na operacionalização das noções de cultura de leitura e de classe leitora para
a realidade portuguesa retêm-se, como indicadores de práticas, os suportes de
leitura (jornais, revistas e livros), a tipologia de leitores de livros
(pequenos, médios e grandes) e os contextos, motivos ou razões de leitura de
livros (de lazer e escolar/profissional) (Santos et al., 2007). Do ponto de
vista das características socioeconómicas utiliza-se a tipologia ACM (Costa,
1999: 229-230; Costa, Machado e Almeida, 2007). Resulta de forma clara dos
vários inquéritos sobre práticas culturais e públicos da cultura uma
regularidade pesada: a sobrerrepresentação entre os praticantes culturais da
categoria PTE — profissionais técnicos e de enquadramento. Assim, um aspeto de
particular interesse analítico é o confronto entre o conceito de classe leitora
e esta categoria que parece ser a mais próxima quanto à composição social e às
práticas de leitura.
Entre as grandes tendências das últimas décadas está a generalização da leitura
na vida quotidiana e o declínio da percentagem da população leitora de livros.
Disso são exemplo países como a França (Coulangeon, 2005; Donnat, 2011),
Holanda (Knulst e Kraaykamp, 1997; Knulst e Broek, 2003), EUA (NEA, 2013: 24-
27) e o conjunto dos países da UE-27 (Eurobarometer 399, 2013).
Especificamente quanto a Portugal, os inquéritos mais recentes (e coincidentes
com o período de crise financeira e económica) confirmam a tendência quanto aos
leitores de livros. De 2007 para 2011 caem dois pontos percentuais, para 42%
(INE, 2012: 37), ou, segundo um outro estudo, dez pontos, para 40%, entre 2007
e 2013 (Eurobarometer 399, 2013).[4]
Contudo, por via dos três inquéritos sociológicos disponíveis sobre hábitos e
práticas de leitura dos portugueses — o último dos quais data justamente de
2007 — os principais traços eram ainda a diminuição dos não leitores e o
crescimento dos leitores de cada um dos três suportes considerados, incluindo
livros (Santos et al., 2007).
Leitores por suporte: evolução e tipos de leitores de livros
O indicador leitores por suporte[5] do inquérito de 2007 mostra uma evolução
positiva face ao de 1995 (Freitas, Casanova e Alves, 1997) com um forte
acréscimo de 14 pontos percentuais nos leitores de jornais, e mais modestos, de
sensivelmente três pontos percentuais, nas revistas e nos livros (quadro_1). Em
2007, os jornais são, destacadamente, o suporte com mais leitores (83%), a que
se seguem as revistas (73%) e, a alguma distância, os livros (57%).
Relativamente ao inquérito de 1988 (Freitas e Santos, 1992) a hierarquia dos
suportes habitualmente lidos é análoga à que se evidencia no estudo de 2007,
embora com percentagens mais baixas.[6]
Outro dado de grande relevância do ponto de vista da cultura de leitura é a
diminuição em quase oito pontos percentuais da categoria dos não leitores:[7]
12% em 1995 contra 5% em 2007. No inquérito de 1988 esta categoria significava
15% (Freitas e Santos, 1992: 15).
Pode, então, afirmar-se que até 2007 a evolução foi de sentido positivo, em
linha com os processos de recomposição social da população portuguesa em curso
(Viegas e Costa, 1998), designadamente nas dimensões educativa e
socioprofissional, duas das mais influentes na explicação dos níveis de leitura
(Neves, 2011: 87-91).
Quanto aos livros é visível a quebra dos não leitores (de 51% para 45%), uma
quebra ligeira dos grandes leitores (de 2,7% para 2,3%) e, pelo contrário,
acréscimos dos pequenos (de 34% para 37%) e dos médios leitores (13% para 15%)
(quadro_2). Uma vez que o crescimento dos pequenos e médios leitores se deve no
essencial à diminuição dos não leitores, ele é sinónimo de alargamento e não de
fragilização da leitura (Bahloul, 1990: 14; Poulain, 2004: 33).
Conclui-se assim que, seja qual for o ponto de vista, a cultura de leitura em
Portugal registou, até 2007, uma evolução positiva com um aumento dos níveis de
leitura, em particular de jornais e, especificamente quanto à leitura de
livros, um crescimento dos pequenos leitores. O que se poderá explicar pela
evolução estrutural da sociedade portuguesa e pelos baixos níveis anteriormente
registados. Pode ainda concluir-se que a classe leitora (na sua componente de
grandes leitores de livros), para além de minoritária, registou ainda uma
ligeira contração.
Categoria socioprofissional, leitores de livros e géneros preferidos
Deixa-se agora a perspetiva diacrónica e centra-se a análise no inquérito de
2007. O cruzamento dos que leem livros (independentemente do tipo) pela
categoria socioprofissional evidencia duas categorias com valores percentuais
mais elevados: profissionais técnicos e de enquadramento (PTE) (85%) e,
secundariamente, empregados executantes (EE) (59%) (figura_1). A categoria
empregados dirigentes e profissionais liberais (EDL) regista ainda um valor
relevante (51%) ao passo que nas duas outras predominam os que não leem livros.
É, deste modo, notória a clivagem entre os PTE e as demais categorias, sendo
possível identificar uma hierarquia quanto ao peso dos leitores de livros
nestas últimas: do mais significativo para o menor, EE, EDL, TI e O.[8]
A análise do contingente dos que leem livros, evidenciando agora a sua
estrutura socioprofissional, destaca a categoria EE como a que mais contribui
para esse contingente (46%), situando-se o contributo da categoria O apenas um
ponto percentual abaixo de PTE, como se pode verificar pelo quadro_3.
A principal distinção estará, assim, na intensidade e não na leitura ou não de
livros. O cruzamento com a tipologia de leitores de livros mostra que, embora
nas várias categorias socioprofissionais a grande maioria dos indivíduos sejam
pequenos leitores, os valores mais elevados nos médios e grandes leitores
situam-se, com nitidez, na categoria PTE (36% e 6%, respetivamente), bem acima
da média da amostra que é, respetivamente, de 27% e 4%.
A inversão do sentido do cruzamento das duas variáveis, de modo a identificar a
estrutura socioprofissional de cada tipo de leitor de livros, acompanha a
distinção antes referida. Destacam-se novamente EE e PTE, sendo esta a que
regista a diferença mais significativa quando se passa dos pequenos para os
grandes leitores (quadro_4).
Confirma-se assim que a categoria PTE tem os índices mais elevados de leitura
de livros, seguida de EE, ao passo que O é a mais distante da leitura.
Constata-se, por outro lado, que há leitores (seja qual for o tipo considerado)
em todas as categorias socioprofissionais, mas que a que mais contribui para os
contingentes totais é EE.
Numa outra perspetiva, segundo os géneros de livros, verifica-se que, na
maioria, os valores percentuais mais elevados das preferências recaem nos PTE,
sem dúvida a categoria socioprofissional mais eclética, “omnívora”, em termos
de gostos. Apenas dois deles registam preferências mais elevadas em relação aos
EE (quadro_5).
O cruzamento com a tipologia de leitores de livros permite identificar aqueles
géneros que mais se destacam em cada tipo (quadro_6). As combinatórias não
deixam de ser reveladoras (significativas estatisticamente ou não), sendo de
destacar que o género “científicos e técnicos” é dominante entre os grandes
leitores.
Este resultado parece constituir mais um argumento para que se considere a
leitura por razões profissionais, e não apenas a leitura lúdica, entre as
práticas características da classe leitora.
Categoria socioprofissional e contextos de leitura de livros
São vários os contextos ou razões de leitura de que dão conta as três
categorias analíticas utilizadas: lazer, escolar e profissional. As fronteiras
nem sempre são claras e as implicações que advêm de diferentes interpretações
das perguntas colocadas também não são de fácil apreensão. Apesar disso é
analiticamente relevante comparar os respetivos pesos na sociedade portuguesa.
Numa primeira abordagem verifica-se que a leitura de lazer (sem ser para a
escola/trabalho) se destaca com clareza (87%) face às demais (23% profissionais
e educativas como leitura obrigatória, e 30% educativas não obrigatórias).
Confirma-se assim que a leitura de livros é sobretudo uma prática cultural.
Mas importa procurar entender qual a relação entre as razões profissionais e de
lazer: serão cumulativas ou mutuamente exclusivas? Para a maioria (69%) são
exclusivas, confirmando-se assim, de novo, que a principal razão da leitura de
livros se situa nos períodos de lazer. Entretanto, importa notar que um em cada
cinco leitores lê pelas duas razões (quadro_7).
Considerando que o contingente situado na interseção das duas razões se
aproxima da noção de classe leitora na aceção daqueles que leem regularmente
para o trabalho e por entretenimento, torna-se relevante aprofundar a sua
composição socioprofissional. Haverá também que depurar essa categoria de modo
a aproximá-la do que se entende por regularmente. A opção tomada (que tem em
conta os contingentes em causa e o significado estatístico da análise)
distingue os que leram entre um e três livros e os que leram quatro ou mais
livros nos 12 meses de referência (quadro_8).
Uma primeira conclusão é que a categoria PTE se evidencia por ser a única com
uma distribuição bimodal, ou seja, com um peso significativo não só na leitura
“só lazer” (por ser o mais baixo, 41%) mas sobretudo pelo de “ambas”
(claramente o mais elevado, com 47%), sobrerrepresentação esta que pode ser
atribuída à ambivalência de uma prática em que se misturam motivos de puro
lazer e motivos profissionais, ainda que indiretos (Coulangeon, 2005: 50). A
segunda é que o contingente correspondente aos indivíduos que se situam na
interseção de “ambas as razões de leitura” e “quatro ou mais livros” é inferior
a 4%. Qual o perfil social predominante deste último contingente, talvez o que
mais se aproxima da noção de classe leitora? A habitual predominância feminina
esbate-se (52% versus 48%) — o que se compreende, uma vez que se está a operar
com os livros profissionais, género que os homens leem mais — e incide mais
acentuadamente nos mais jovens, naqueles que têm ensino médio ou superior e nos
PTE. Para além de grandes leitores de livros são também mais acentuadamente
leitores cumulativos de livros, jornais e revistas. Mas importa salientar que o
perfil social predominante desta categoria de leitores (a classe leitora
portuguesa?) apenas se distingue substancialmente do perfil dos grandes
leitores de livros (Neves, 2011: 162) quanto ao sexo, uma vez que nas restantes
variáveis o que se verifica é um aumento percentual dos atributos mais comuns.
Leitura de livros e uso da internet
Passa-se agora a uma outra dimensão de análise, a da leitura de documentos
(livros) eletrónicos. A propósito das abordagens sociológicas da leitura em
ecrã, Roger Chartier, considera que:
o mundo digital ocupa ainda pouco espaço, e as investigações têm-se focado
principalmente na descrição e quantificação das práticas de leitura nos seus
objectos tradicionais, essencialmente impressos, desde o livro ao jornal e até
mesmo à revista, etc. (Chartier, 2001: 2)
Este autor chama a atenção para a diferença entre os ecrãs da televisão e do
cinema (mundo de imagens falantes e em movimento) e os ecrãs do mundo digital,
os quais, ao contrário daqueles, “utilizam não apenas, mas fundamentalmente, a
escrita”, e conclui: “parece-me que estamos na presença desta ambivalência
digital no mundo da sociologia, das práticas de leitura, como concorrente e
como suporte” (id., ibid.: 2-3). Ambas as perspetivas se situam a montante da
problemática da leitura de livros eletrónicos (Bélisle, 2004), de e-books que,
embora remontem historicamente aos anos 70 do século passado (Lebert, 2009), só
recentemente ganharam relevo do ponto de vista da oferta (Thompson, 2011
[2010]) e integraram a reflexão sociológica quanto aos seus impactos na classe
leitora (Griswold, Lenaghan e Naffziger, 2011).[9]
Tendo presente que, com frequência, o advento de um desenvolvimento tecnológico
promove em vez de eliminar aquele que vinha substituir (como ocorreu com os
livros em CD-ROM, segundo Manguel, 1999 [1996]: 144), as TIC vêm igualmente
suscitando interrogações sobre quais os seus impactos: serão no sentido da sua
diminuição? Haverá proximidade entre os perfis dos grandes leitores e dos
grandes utilizadores da internet? Este é um outro ângulo na abordagem da classe
leitora que será desenvolvido de seguida.
A resposta à primeira questão é negativa (Griswold e Wright, 2004). Os autores
analisam a relação entre leitura e internet, com base no tempo a elas dedicado,
de acordo com duas perspetivas que apelidam “de soma nula” (zero sum) e
“cumulativa”(more-more). A primeira baseia-se na perceção de que o tempo gasto
numa atividade significa menos tempo ocupado na outra. Esta perspetiva sustenta
diversas hipóteses, entre as quais os autores destacam três: (i) ou mais tempo
a ler ou mais tempo na internet; (ii) se o tempo gasto numa atividade aumenta,
diminui o gasto na outra; (iii) os grandes utilizadores da internet terão
características diferentes dos grandes leitores. Por seu turno, a segunda
perspetiva sustenta que as duas atividades são cumulativas e que as pessoas que
passam mais tempo na internet passam também mais tempo a ler. Significa
homogeneidade social entre os utilizadores frequentes da internet e os leitores
regulares, ou seja, os perfis de uns e de outros serão semelhantes (id., ibid.:
204).
Tendo em conta as características dos grandes utilizadores da televisão e da
internet, por um lado, e as dos grandes leitores, por outro, concluem que a
perspetiva da soma nula se aplica à relação entre a televisão e a leitura, mas
que a que melhor caracteriza a relação entre internet e leitura é a cumulativa.
Verificam inclusivamente um efeito de reforço positivo — e não apenas uma mera
associação — entre as duas atividades. Uma vez que a alternativa lógica a more-
moreé less-less, a exclusão das tecnologias digitais e as bolsas de excluídos
da leitura irão a par. Assim, os autores concluem que a internet não irá
substituir a leitura mas sim possibilitar aos leitores regulares (a classe
leitora) mais uma vantagem.
Como se relaciona então a leitura de livros (excluindo escolares ou
profissionais) com o uso da internet em Portugal no início do século XXI? O
cruzamento destes dois indicadores[10] mostra uma clara polarização entre, por
um lado, os que são simultaneamente regulares leitores e utilizadores da
internet (representam 52%) e, por outro, aqueles que não leem livros nem
utilizam a internet (80%). A relação entre as duas práticas é direta: quanto
mais elevada a frequência da leitura de livros, maior a percentagem dos que
usam regularmente a internet (Neves, 2010: 181-191; 2011: 288-291).
Do referido cruzamento resulta uma tipologia com quatro tipos: “nunca as duas”
(32%); “nunca a internet mas sim leitura de livros” (25%); “nunca leitura de
livros mas sim internet” (8%); e “sim às duas práticas” (35%). Destaca-se aqui
apenas operfil do tipoleitores de livros e utilizadores da internet, o qual se
caracteriza por distribuições equilibradas pelos dois sexos (sendo, apesar de
tudo, as mulheres sensivelmente mais leitoras e os homens sensivelmente mais
utilizadores da internet), por ser juvenilizado, qualificado do ponto de vista
da escolaridade, com um peso muito significativo entre os estudantes e com
destaque novamente para a categoria socioprofissional mais qualificada, os PTE.
Conclusão
De acordo com a perspetiva teórica adotada conclui-se que a leitura em Portugal
tende a generalizar-se, que a leitura de livros parece atravessar um período de
retrocesso após 2007 — período coincidente com a aguda crise económica — quando
até aí os estudos mostravam avanços significativos nos índices de leitura, o
que mostra a fragilidade da “emergente” ou “inacabada” cultura de leitura
portuguesa. Concluiu-se igualmente que a noção de classe leitora, categoria
social com peso estatístico restrito, se aproxima, embora sem se limitar a ela,
da categoria profissionais técnicos e de enquadramento (PTE), tanto do ponto de
vista das práticas de leitura (são grandes leitores, omnívoros, cumulativos)
como das características socioeducativas e socioeconómicas (são mais
qualificados nas duas vertentes). Aquela limitação é menos nítida quando se tem
em conta o contexto profissional da leitura, e não apenas o de lazer, sendo
justamente na conjugação da leitura nos dois contextos que os PTE mais se
evidenciam relativamente a outras categorias, em particular os empregados
executantes (EE).
Nesta aproximação à classe leitora aferiu-se ainda das características sociais
dos grandes leitores de livros (como prática cultural) e dos grandes
utilizadores da internet, tendo-se concluído pela homogeneidade dos dois perfis
sociais, bem como pela existência de uma relação direta entre as duas práticas.
Os resultados a que se chegou, conjugados com a emergência da era digital cujos
impactos são ainda largamente desconhecidos (em particular quanto aos suportes
de leitura, designadamente os e-books), suscitam novas questões: o digital
promoverá a generalização da leitura? Em que condições? Contribuirá para o
alargamento dos grandes leitores? Ou antes para o reforço dos atuais grandes
leitores? Contribuirá para alargar a leitura como prática cultural? E a leitura
escolar ou profissional? Que implicações terá nos vários contextos de leitura?
Os resultados sugerem portanto a necessidade de complexificar os conceitos do
modelo com a inclusão de dois eixos analíticos — leitura de lazer e leitura
profissional, por um lado, e leitura em suportes impressos, offline, e leitura
em suportes digitais e online, por outro — cujas relações importa aprofundar
com pesquisas intensivas que permitam acompanhar os seus efeitos nas práticas e
usos da leitura, na cultura de leitura e, em particular, na classe leitora.