Delinquência juvenil feminina a várias vozes: contributos para a construção de
uma tipologia de percursos transgressivos
Introdução
A delinquência juvenil e as suas causas têm sido extensivamente estudadas e,
apesar de o género surgir como uma das dimensões de diferenciação mais
consistentes nos estudos da delinquência, isso tem significado estudar
predominantemente os mundos masculinos. Quando a figura feminina surge na
literatura — primeiro as mulheres e depois as raparigas — a teorização é feita
de uma forma estereotipada e sexista (Burman, Batchelor e Brown, 2001),
ignorando a importância do género e a forma como os fatores de risco da
delinquência podem eles mesmos ser genderizados (Belknap e Holsinger, 2006;
Zahn, 2009). Isto começou a alterar-se, na maior parte dos países ocidentais, a
partir da década de 1990, quando as raparigas começam a estar mais visíveis nas
estatísticas oficiais (Chesney-Lind, 1997) e os estudos realizados começam a
explicar as dinâmicas e as (in)consistências desta presença. Também aqui,
quando se começou a considerar as raparigas como sujeitos de investigação, o
que se tornou mais visível foi, em primeiro lugar, a sua sujeição e os seus
percursos e vitimação, e só depois foi a sua subjetividade e agencialidade.
Nesta esteira, compreender como percursos de transgressão e subjetividades
juvenis femininas se entrecruzam é uma forma de penetrar nesta invisibilidade
da delinquência cometida por raparigas, cuja pesquisa, segundo alguns
investigadores de variados países,[1] é ainda insuficiente e tem trazido
limitações no campo analítico-conceptual e nas esferas da intervenção.
Em Portugal, a delinquência cometida por raparigas tem sido pouco investigada,
quer ao nível das estatísticas, ainda pouco sensíveis às questões de género,[2]
quer no âmbito do desenvolvimento de estudos que, em regra, se restringem a
investigações de caráter mais descritivo ou a pequenos parágrafos sobre o papel
da rapariga na cena da delinquência e nos contactos com a justiça juvenil
(Gersão, 1990; Duarte-Fonseca, 2000; Carvalho, 2003, 2010). Na senda de uma
maior presença das raparigas no sistema de justiça juvenil português e nos
meios de comunicação social,[3] abordagens mais qualitativas têm sido propostas
(Matos, 2008; Duarte, 2012; Duarte e Carvalho, 2013; Duarte e Cunha, 2014), e é
neste contexto que este artigo ganha fôlego.
Discutindo e criticando a construção de uma “história única”[4] sobre a
delinquência juvenil feminina, pretende-se apresentar alguns resultados de uma
pesquisa qualitativa que procurou compreender as experiências e os significados
da transgressão nos percursos de vida de raparigas em conflito com a lei.
Aceitando a provocação dos estudos mais recentes que subscrevem a necessidade
de investigações exploratórias que deem voz às raparigas, apresenta-se uma
tipologia de percursos transgressivos que alertam para a importância de se
pensar a delinquência feminina como um fenómeno heterogéneo. Dimensionando as
jovens como sujeitos sociais, dá-se espaço à forma como elas constroem
diferentes espaços de agencialidade, em contextos de constrição social e
acumulação de riscos.
O perigo de uma “história única” sobre delinquência juvenil feminina
Durante séculos foi construída uma “história única” sobre delinquência juvenil
feminina: a história da invisibilidade e da construção de imagens
estereotipadas relacionadas com a ideia de que a mulher/rapariga delinquente é
vítima do seu passado, do seu ambiente e da sua condição feminina (Schoemaker,
1996). Os motivos apresentados para a construção desta história única são
vários.
A comunicação social, os discursos públicos e políticos e as estatísticas,
partilhando a convicção de que os desvios juvenis femininos são poucos, pouco
importantes e não constituem problema social, têm reafirmado a delinquência
como uma experiência masculina e masculinizante e, neste contexto, os conteúdos
de género têm sido virtualmente ignorados (Messerschmidt, 2004). As
expectativas e os papéis tradicionais de género, não devem ser descurados,
também, neste processo de invisibilidade social. A construção de imagens
estereotipadas sobre a figura feminina tem tido consequências na forma como ela
tem sido percebida na sociedade e nos sistemas de justiça criminal e juvenil:
como um “pião da biologia”; “impulsiva e com pouca capacidade analítica”;
“passiva e fraca”, e por isso mais vulnerável à vitimação e à influência da
figura masculina; “necessitada de proteção”; “masculina” quando empreende ações
mais ativas; e “má” quando delínque (Rafter e Stanko, 1982, citados em Belknap,
2000: 21). Imagens que reforçam a mensagem societal sobre o comportamento
apropriado de género, encorajando as raparigas a ocupar um lugar na sociedade
de acordo com as expectativas sociais (Naffine, 1987), que tradicionalmente as
refletem como vítimas passivas do risco (Batchelor, 2007). A estes motivos
podemos acrescentar o predomínio da figura masculina nas disciplinas
científicas que estudam o comportamento desviante, não esquecendo que os
estudos clássicos sobre delinquência juvenil utilizaram, maioritariamente,
amostras masculinas. Até recentemente, os modelos teóricos e empíricos do
comportamento transgressivo feminino eram escassos e, por esse motivo, ainda se
sabe pouco sobre as trajetórias femininas na delinquência.
As insuficiências das teorias da delinquência juvenil, no que à presença das
raparigas diz respeito, foram muito bem documentadas por algumas feministas ao
longo dos últimos 30 anos (e.g. Campbell, 1981 Naffine, 1987; Chesney-Lind,
1997; Belknap, 2000; Miller, 2001; Alder e Worrall, 2004). E nessa revisitação
há duas situações que tendem a prevalecer: por um lado, a imagem da figura
feminina “submergida” nas explicações da delinquência masculina, ou seja, as
grandes teorias (psicossociais) explicativas da delinquência,[5] que foram
desenvolvidas para explicar a delinquência masculina, seriam adequadas para
explicar também a delinquência feminina; por outro lado, o retrato da
delinquência feminina reduzida a problemas de costumes e de moral sexual
(Cowie, Cowie e Slater, 1968), isto é, a delinquência feminina assume,
predominantemente, a forma de comportamento sexual e promíscuo ou de
patologização, na medida em que por detrás desses comportamentos estaria a
presença de uma perturbação. Como reflete criticamente Campbell (1981), a
delinquência feminina foi sendo amplamente explicada como uma reação de
raparigas e mulheres a forças que estavam além do seu controlo, i.e. forças
biológicas e psicológicas.
A forma como a figura feminina foi sendo vista nas teorias tradicionais não
deixou de ter um profundo impacto sobre a forma como raparigas e mulheres têm
sido processadas nos sistemas de justiça juvenil e criminal, respetivamente
(Chesney-Lind, 1997). Neste campo, também se tem construído uma história única
sobre a relação entre feminilidade e ofensa, marcada por viés de várias
naturezas (género, raça e etnia, idade, classe social…), que têm tido impacto
na aplicação dos procedimentos judiciais e na manutenção de situações de
discriminação (Hoyt e Scherer, 1998; Holsinger, 2000; Matos, 2008).
No sistema de justiça juvenil, as raparigas pobres e pertencentes a grupos
étnicos minoritários estão sobrerrepresentadas e tendem a receber punições mais
duras do que as raparigas ricas e brancas (Moore e Padavic, 2010). Além disso,
o sistema continua a manter atitudes paternalistas e protecionistas em torno
das “necessidades femininas”, que continuam a estar relacionadas com
estereótipos femininos ligados à fraqueza, à submissão, à passividade e à
domesticidade (Chesney-Lind, 1997; Belknap, 2000). Como consequência, mostram
os estudos, as raparigas, comparativamente aos rapazes, tendem a ser punidas
mais severamente por ofensas menos graves e têm mais probabilidade de ser
institucionalizadas para fins de proteção em situações relacionadas com
comportamentos “imorais” e “desviantes”, como inadaptação na família e na
escola, vadiagem, prostituição, libertinagem, etc. (Duarte-Fonseca, 2000;
Belknap e Holsinger, 2006). No julgamento da prática delinquente Steffensmeier
e Allan (1996) mostram que as raparigas estão menos sujeitas aos procedimentos
judiciais aplicados aos rapazes e os tribunais tendem a mostrar alguma
relutância em internar as raparigas, optando antes por medidas de supervisão ou
outras alternativas ao internamento. A juntar a isto, os/as profissionais da
justiça continuam a ter a opinião de que é mais difícil trabalhar com raparigas
do que com rapazes, por as considerarem menos controláveis, menos obedientes e
mais problemáticas (Baines e Alder, 1996).
Em suma, a história única destas jovens está ligada aos efeitos da
estratificação de género e do patriarcado nas suas trajetórias de vida e a um
sistema que foi desenhado para lidar com os problemas dos rapazes e que
negligenciou as necessidades das raparigas.
A emergência de uma literatura mais sensível ao género tem sido fundamental no
construir de uma nova conceptualização do agir delinquente, onde a variável
género, efetivamente, passa a ser um eixo de análise, ao permitir
conceptualizar a delinquência juvenil (masculina) como uma questão de género e
revelar considerações importantes sobre as diferenças de género nas expressões
da transgressão. Rapazes e raparigas têm muitos fatores de risco comuns, no
entanto, alguns fatores têm mostrado idiossincrasias de género (Zahn et al.,
2010; Wong, 2012).
Esta literatura surge como crítica às abordagens teóricas clássicas que
defendem uma neutralidade de género e se opõem à existência de mecanismos
específicos de género. Uma das suas principais abordagens é a chamada female-
only-focused approach,[6] que, procurando um saber que provenha do universo
social feminino, assume que as raparigas têm diferentes fatores de risco e
diferentes experiências na vida, por causa da pertença de género (e.g.
vulnerabilidade à vitimação e a problemas de saúde mental, maior controlo e
supervisão familiar e social, a relação com a mãe, as fugas de casa, a
influência dos namorados/ parceiros sexuais…); e por estes motivos defendem a
necessidade da existência de modelos de análise e teorias próprias que consigam
explicar os comportamentos delinquentes cometidos pelas raparigas. Este foco
nas experiências femininas foi fundamental porque permitiu olhar sem comparar
e, desta forma, captar as dinâmicas da trangressão feminina a partir de dentro.
Este esforço permitiu mostrar que a visão de vítima e agressora como dois seres
totalmente independentes é inapropriada para a compreensão da infração
feminina, que vê emergir o risco e a experimentação como eixos estruturantes
das suas ações (Batchelor, 2007; Duarte e Carvalho, 2013).
É fundamental que a investigação continue a estudar, de perto, os fatores de
risco específicos da delinquência feminina mas, segundo Wong (2012), não se
devem descurar abordagens e modelos teóricos que integrem estudos comparativos
e integrados. A autora defende que, uma vez que a delinquência juvenil feminina
continua menos aprofundada e compreendida, torna-se fundamental estudar todos
os fatores possíveis que possam estar relacionados com o comportamento
delinquente, sejam eles partilhados por ambos os géneros ou idiossincráticos.
Ser capaz de explicar porque é que as raparigas delinquem menos do que os
rapazes pode facilitar a compreesão da delinquência feminina.
Apesar de um dos achados mais consistentes e robustos da criminologia ser o
facto de as raparigas cometerem menos crimes e crimes menos graves do que os
rapazes (Steffensmeier et al., 2005), nas últimas décadas as estatísticas
oficiais dos países ocidentais têm evidenciado um crescimento da presença de
raparigas nas ocorrências de ilícitos e um aumento da opinião pública de que
elas estão a tornar-se mais propensas à delinquência. A questão sobre se estas
tendências refletem um aumento real da delinquência praticada pelas raparigas
ou mudanças nas respostas societais ao comportamento das mesmas permanece
(Luke, 2008; Zahn et al., 2010).
Apesar de as raparigas estarem menos invisíveis no sistema de justiça juvenil e
ter havido um incremento nos estudos sobre esta temática, a delinquência
juvenil continua a ser explicada, essencialmente, pelos parâmetros da etiologia
da delinquência masculina. As expressões da delinquência feminina continuam a
ser poucas vezes trazidas para a discussão (Duarte e Carvalho, 2013), talvez
porque, como refere Adichie (2009), as formas como as histórias “… são
contadas, quem as conta, quando são contadas, quantas histórias são contadas,
estão realmente dependentes do poder. O poder é a capacidade de não só contar a
história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva dessa pessoa”.
Enquadramentos da investigação
A investigação realizada, que assumiu as estratégias da pesquisa qualitativa,
teve como principal objetivo estudar as experiências e os significados da
transgressão nos percursos de vida de raparigas em conflito com a lei,
abrangidas pela intervenção do sistema de justiça juvenil, enquadrada na Lei
Tutelar Educativa (Lei n.º 166/99, de 14 de setembro). Assumindo como referente
empírico jovens raparigas a cumprir medidas tutelares educativas institucionais
(internamento em centro educativo) e medidas não institucionais (executadas na
comunidade), analisaram-se 27 processos tutelares individuais e realizaram-se
19 entrevistas. A pesquisa decorreu em duas instituições[7] da Direção-Geral de
Reinserção Social,[8] do Ministério da Justiça. Do cruzamento das duas técnicas
construíram-se retratos sociológicos que permitiram traçar perfis de percursos
transgressivos. A leitura e a discussão dos dados foram feitas nas interfaces
do interacionismo simbólico, das teorias da ação estruturada e das perspetivas
feministas que, embora situadas em níveis analíticos distintos, permitiram
situar o debate na perspetiva do sujeito (feminino), não perdendo de vista que
as subjetividades são permeadas pelas contingências sociais que moldam as
trajetórias e as escolhas.
Considerando que este artigo se alicerça nos discursos das jovens
entrevistadas, é importante referir que se construiu um roteiro ético que
incluiu o consentimento informado dos participantes, o anonimato e preservação
das suas identidades — foram utilizados nomes fictícios — e a adequação dos
métodos e dos procedimentos utilizados. Recorreu-se à observação presencial
como estratégia metodológica de entrada no terreno e de criação da relação com
as jovens. Utilizou-se um guião de entrevista flexível, orientado por tópicos.
As entrevistas foram gravadas em áudio e foram realizadas nos próprios locais
da pesquisa.
O tratamento da informação foi feito em duas etapas. Numa primeira privilegiou-
se a análise de conteúdo (categorial e temática); e numa segunda etapa avançou-
se para a análise de discurso, pela constatação de que os usos da linguagem
assumem importância na construção dos discursos e na forma como as jovens se
posicionam face aos mesmos. Como refere Bakhtin (1997), a este respeito, os
discursos dos sujeitos transportam marcas profundas da sua sociedade, do seu
núcleo familiar, das suas experiências, mas também das suposições feitas sobre
o que o/a interlocutor/a gostaria ou não de ouvir. Foi neste espaço relacional
e dialógico que se construíram os retratos sociológicos (Lahire, 2004) das
jovens entrevistadas e se procuraram os repertórios interpretativos presentes
nos seus discursos.[9]
Das 19 entrevistadas, dez jovens estavam internadas em centro educativo e nove
estavam a cumprir medidas na comunidade. Tinham idades entre os 14 e os 18 anos
(M = 16,31). Eram maioritariamente de nacionalidade portuguesa (n = 13), ainda
que seja de considerar, dentro destas, o número significativo de jovens de
origem africana (n = 6), oriundas dos países africanos de língua oficial
portuguesa. Para todas, o 2.º ciclo surge como um obstáculo difícil de transpor
e onde se intensificam as situações de absentismo, reprovação e indisciplina.
Antes de entrarem no sistema de justiça, há uma presença evidente de jovens (n
= 11) com processos no âmbito da promoção e proteção; e entram na justiça,
principalmente, pela prática de ilícitos contra a propriedade (e.g. roubo e
furto) e contra a integridade física (e.g. agressão).
Afinal são muitas as histórias… A polifonia de vozes na construção dos
discursos e percursos transgressivos
Elementos para a compreensão dos discursos
As histórias das jovens entrevistadas nesta pesquisa contam percursos
realizados sobre um conjunto de constrangimentos estruturais que pautam as suas
vidas, dão conta das transições possíveis e das (im)probabilidades de seguir
trajetos padronizados, e são marcadas por consecutivas escolhas aparentes, que
refletem não só os constrangimentos à sua ação autónoma, como também à sua
posição, enquanto sujeitos que fazem escolhas.
Atribuindo às jovens a condição de “autoras da sua vida” e assumindo que é a
partir das narrativas que constroem as suas experiências (a partir de si
mesmas, do lugar de onde falam e do que intentam fazer ver), os discursos
dominantes sobre a transgressão foram construídos levando em consideração três
principais elementos: (a) o cruzamento dos eixos vitimação/agencialidade, que
permitiu encaixar os discursos e as trajetórias que se afastavam de
representações mais estereotipadas do papel da rapariga na delinquência; (b) as
estratégias e os discursos de autoapresentação, i.e., a forma como as jovens
contam as suas histórias; e (c) as ambivalências e incoerências narrativas.
Vejamos o contributo de cada um destes elementos para a construção da tipologia
de percursos transgressivos.
Cruzamento dos eixos vitimação/agencialidade
Este primeiro elemento apoiou a leitura e a compreensão de partes das
narrativas destas jovens que não se encaixavam no grande discurso teórico sobre
o papel da rapariga na delinquência, como vimos na discussão teórica. Este
primeiro recorte permitiu perceber como os motivos da transgressão são
diversificados e como as jovens se (re)posicionam face a eles. Umas mostram
como a transgressão surge da gestão de sentimentos negativos, angústias e lutos
mal resolvidos, originados pelas histórias de maus-tratos, abandonos e
institucionalizações. Expressões como “tenho de explodir”, “senti-me traída”,
“chorava muito”. “algo me dizia para não parar”, “senti-me com muita raiva”,
“não tenho apoio de ninguém, a minha mãe nunca acreditou em mim”são utilizadas
pelas jovens com o objetivo de descrever esses sentimentos que estariam por
detrás do seu comportamento transgressivo.
Para outras foi a procura do “risco-aventura” (Spink, 2001), da experimentação
e da adrenalina. “Curtir a vida”, “viver a vida como se fosse o último dia”,
“saber qual é o teu limite”, “vida sem risco não é nada”, “eu sou mais
rebelde”, “é a juventude” — são expressões utilizadas pelas jovens para realçar
a importância do risco na construção de sensações de autoeficácia e controlo
das suas vidas, o que faz que atribuam uma certa “normalidade” às suas ações. A
heteroautodeterminação é um discurso que dá conta da ambiguidade de
posicionamento das jovens face à transgressão. Os discursos da
heterodeterminação (foram as drogas, o namorado/companheiro, os sentimentos de
revolta e raiva, a passagem pela instituição…) frequentemente se cruzam com os
discursos do “fui porque quis” ou “foi por vontade própria”. Para outras ainda,
a transgressão surge como uma exceção — “não sabia o que estava ali a fazer”;
“foi reação”; “era para minha defesa, por causa do que me tinha acontecido”.
Estratégias de autoapresentação
Este elemento permitiu ter presente que as práticas discursivas são uma
interface entre os “aspetos performativos da linguagem” (quando, em que
condições, com que intenção, de que modo) e as condições de produção
(entendidas aqui tanto como contexto social e interacional) (Spink, 2010: 26).
Nesta esteira, foi possível identificar dois principais discursos: o discurso
da conformidade com as expectativas de género em torno de uma “normalidade”
socialmente construída; e o discurso da vitimização, associado às explicações e
justificações dadas para o seu comportamento e para os sentimentos de injustiça
sentidos.
Encontramos o discurso da conformidade em três principais eixos.
O primeiro refere-se às narrativas sobre os papéis de género e as
feminilidades. As jovens tendem a utilizar conceções tradicionais de
masculinidade e feminilidade para exprimir os seus pontos de vista sobre as
responsabilidades familiares e os papéis domésticos (“rapariga… é estar em
casa, trabalhar, ser mãe…” [Vera, 16 anos]); para justificar o maior controlo
que os pais tendem a exercer nas suas vidas (“cá fora pode engravidar… e por
isso reservam mais as filhas dentro de casa”[Elisabete, 14 anos]); para falar
sobre as vivências da maternidade e como esta tem um efeito de “mudança” (“ver
o mundo com outros olhos”[Marta, 18 anos]);para se referirem aos projetos de
futuro, também estes trespassados pelas marcas de género (“ter marido, filhos…
dois… porque é o que toda gente gosta, acho eu!” [Fátima, 16 anos]);e para se
exprimirem sobre o papel da rapariga na transgressão (“é rapaz, é normal, eles
começam a andar em grupos, nessa vida… mas rapariga…é muito feio” [Vera, 16
anos]). Os discursos das jovens exaltam as diferentes soluções que elas
encontraram na busca de uma liberdade (que consideram ser masculina) sem,
contudo, enveredarem pela construção de uma identidade masculina, mesmo quando
ultrapassam e desafiam as noções (que elas próprias têm) do que é considerado
adequado para as raparigas.
O segundo eixo prende-se com os discursos para o futuro. Aqui as jovens tendem,
igualmente, a passar a imagem da conformidade com o socialmente esperado, ou
seja, tendem a reproduzir e a evidenciar valores sociais hegemónicos que
representam a normalidade, a felicidade e a realização. Todas as jovens
projetam ter uma vida “normal” — leia-se normativa — e mudar os comportamentos.
A maioria delas exprime o desejo de casar, ter filhos, estar com a família e
arranjar um trabalho estável. As jovens com filhos aspiram a ser boas mães e
educar bem. Afinal, não é isso que a sociedade espera delas?
Um terceiro eixo retrata as reflexões em torno do arrependimento face à
transgressão e aos discursos de encaixe nas expectativas do “sistema”.[10] Quer
as reflexões, quer os discursos devem ser analisados levando em consideração
que as jovens entrevistadas estavam a cumprir medidas tutelares educativas, o
que significava a exposição ao processo de “normalização” da Educação para o
Direito, prevista na Lei. Espera-se das jovens mudanças significativas, por
exemplo, na inculcação dos interditos, na capacidade de determinar as
consequências dos seus atos, de dimensionar o impacto desses atos sobre
terceiros, na capacidade de descentração e na responsabilização pelos seus
atos. Neste contexto, as construções funcionais de arrependimento e os
discursos adaptativos e em conformidade podem significar ter benefícios e
recompensas. Por exemplo, para Anita [16 anos] pode significar recuperar a
filha que está acolhida num lar de infância e juventude. Para Ivone [16 anos],
cuja reavaliação da medida estava próxima, podia significar o encerramento do
processo.
O discurso da vitimização — o segundo tipo de discurso de autoapresentação —
constrói-se por referência a um sistema social (económico, cultural e judicial)
que as rotula. Para Vera [16 anos]: “estou mais sujeita a estas situações por
ser pobre, por ser negra, por morar em zonas menos boas”;para Anita [16 anos]:
“[o] tribunal inventou bué de cenas, que não ia ao curso, às entrevistas […]”;
para Elisabete [14 anos] a narrativa constrói-se por referência a terceiros:
“eu apanhei dois anos fechada aqui dentro e elas[coautoras na prática dos
ilícitos]apanharam acompanhamento educativo”.
Estes discursos de vitimização não deixam, contudo, de ser acompanhados de um
discurso de superação, de força e de dureza, como algo que as caracteriza. Ser
donas do seu destino, dar uma reviravolta na vida,seguir em frente ou lutar por
aquilo que querem são figurações recorrentes nos seus discursos.
Ambivalências narrativas
As dissonâncias narrativas são um traço característico dos discursos e são
bastante visíveis em dois principais aspetos: na idealização discursiva e nas
oscilações entre discursos normativos e desviantes. É idealizando coisas,
pessoas e relações que estas jovens constroem e dão sentido às suas vidas. É
comum, neste processo, procurar modificar ou evitar retratar determinadas
situações ou comportamentos das figuras das suas narrativas, devido à
necessidade de afastar o confronto com as emoções negativas que possam emergir.
Este mecanismo de regulação emocional, enquanto processo afetivo, faz com que
as jovens imaginem como gostariam que fosse o “seu mundo”, construindo
narrativas pautadas por comportamentos “justificados” e emocionalmente neutros.
Se na análise dos seus percursos de vida as jovens tendem a oscilar entre
discursos mais normativos ou mais desviantes é, particularmente, no seu
posicionamento face à transgressão e na condenação moral dos seus atos que esta
oscilação é mais evidente. Ao mesmo tempo que ouvimos os discursos do “eu fui
porque quis”,há a preocupação em transmitir discursos de conformidade (com a
construção social do desvio feminino) e de condenação moral aparente, precedida
da desculpabilização das ações.
Percursos de transgressão
A partir dos discursos (e dos seus recortes) e do cruzamento das dimensões
apuradas[11] — vitimação familiar, percursos de institucionalização, percursos
transgressivos, motivações e significados da transgressão e condenação moral da
mesma — construíram-se quatro perfis de percursos transgressivos, a saber:
transgressão enfatizada(por revolta ou por escalada), transgressão rebelde,
transgressão-influênciae transgressão circunstancial. Esta tipologia deve ser
entendida numa perspetiva dinâmica e aberta, capaz de captar as situações de
fronteira (histórias e trajetórias de vida que se constroem nas margens destes
percursos-tipo) e de abrir a possibilidade de mudanças de trajetória.
Transgressão enfatizada
RETRATO 1: Elisabete, 14 anos, nacionalidade portuguesa, de origem africana,
residente na Amadora. Tem nove irmãos de outras relações do pai e da mãe. Os
pais separaram-se e Elisabete ficou ao cuidado da avó materna. Aos sete anos
foi viver com o pai e a sua companheira. A vivência neste agregado foi bastante
conturbada, situação que ela conta com grande revolta: “dos sete aos dez anos o
meu pai retirou-me da minha mãe e começaram os maus-tratos, por parte da minha
madrasta e comecei a ser uma miúda muito agressiva e revoltada. […]. Para mim
não havia regras. […] O meu pai não me dava ouvidos e então arranjei meios de
chamar a atenção… na escola, pela agressão”. O caso foi sinalizado pela
Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), tendo ficado acordado que
Elisabete passaria a ir viver com a tia. O comportamento de Elisabete agrava-se
e a explicação que dá para isso é: “Eu tenho de explodir, tenho de explodir”.
Esta atitude acabou por marcar todo o seu percurso escolar. “Íamos para a
escola[ela e as amigas],faltávamos às aulas da parte de tarde. Chumbámos todas
por faltas. Eu era agressiva, mas não pensava em roubar ou fumar. O que me dava
adrenalina era ver as pessoas no chão a chorar… por mais louco que isso pareça.
O que me vinha à cabeça era: fizeram-me a mim, tenho de fazer aos outros,
porque se não fizer ninguém vai sentir aquilo que eu senti”. É aberto um novo
processo de promoção e proteção que conduz Elisabete para um lar de infância e
juventude. Lá, integrou-se num grupo de pares conotado com práticas de
comportamento desviante: “Eu já me portava mal, mas lá tinha muita mais
liberdade, andávamos por onde queríamos”. Entra na justiça pela prática de
crime de roubo agravado e coautoria material de crimes de ameaça, com mais duas
colegas: “fiz três assaltos e tenho oito processos de agressão. E tudo foi a
partir da entrada no lar, onde estive durante nove meses”. Elisabete cumpre uma
medida tutelar de internamento em regime semiaberto, por 18 meses.
Este é um percurso que reúne quase metade das jovens entrevistadas (9/19)[12] e
a quase totalidade das jovens com medida de internamento em centro educativo
(7/10). Apelidou-se enfatizadapor ser um percurso onde a transgressão das
normas é o eixo em torno do qual as jovens organizam as suas narrativas e
constroem as suas identidades. Reúne as situações de maior vitimação familiar,
maior quantidade e diversidade de práticas delinquentes, histórias de
institucionalizações sucessivas, em regra desencadeadas pela ação de organismos
externos (escola, CPCJ e polícia), relacionadas com situações de negligência e
maus-tratos familiares, problemas disciplinares e de comportamento na escola e
fugas de casa. A permanência na(s) instituição(ões) é marcada pelas fugas
consecutivas e pelo agravamento dos comportamentos transgressivos.
É um percurso bifurcado. Na transgressão enfatizada por revolta as jovens
organizam as suas narrativas em torno dos sentimentos de revolta, que se
materializam na auto e heteroagressividade. São estes sentimentos que explicam
e justificam os comportamentos desviantes, nas suas diversas expressões. Há uma
condenação moral aparente da transgressão, mas que é legitimada pelos
sentimentos negativos. Na transgressão enfatizadapor escaladahá a perceção de
que o comportamento transgressivo se foi agravando e reforçando ao longo das
trajetórias de vida. A motivação para a transgressão não está apenas na gestão
dos sentimentos negativos (ainda que esteja presente), mas também na
experimentação e no divertimento que retiram disso, e que surge relacionado com
as vivências de rua e as socializações dos pares. À heterodeterminação no
envolvimento criminal juntam-se discursos de iniciativa, controlo e prazer
associados à prática transgressiva, e pela qual não evidenciam uma condenação
moral, mas apenas um arrependimento pós-medida.
Transgressão rebelde
RETRATO 2: Inês, 17 anos, nacionalidade portuguesa, de origem africana,
residente em Sintra, num bairro de realojamento com a filha, a mãe, o irmão e
uma tia. O pai faleceu quando Inês tinha 15 anos, situação que agravou o seu
comportamento transgressivo: “comecei antes, mas com a morte agravou-se muito
mais. Procurava diversão… divertimento em primeiro lugar. Eu sou mais rebelde.
[…] O meu objetivo é curtir a vida, viver cada dia que passa como se fosse o
último”. Viver situações de risco é o que dá sentido à vida de Inês: “acho que
toda a gente tem de experimentar alguma coisa p’ra saber com’é q’é. Tudo nesta
vida tem risco… ver onde chegas, qual é o teu limite! Eu sou assim, gosto de
saber qual é o meu limite”.O seu percurso escolar foi sendo marcado pelo
absentismo e pelo fraco aproveitamento, que conduziu a duas retenções, e que,
associado à gravidez, desencadeou o processo de abandono. Os amigos assumem uma
importância muito grande na vida de Inês. São uma importante fonte de interesse
e, por norma, são mais velhos do que ela. Praticava crimes com o pai da sua
filha mas, segundo Inês “ele praticava o dele e eu praticava o meu”.Sem
registos de passagem por instituições de proteção, entra na justiça por crime
de furto e ofensas à integridade física: “comecei a experimentar os furtos e os
assaltos… vi uma amiga minha a fazer e quis experimentar, não é? Depois disso
comecei a fazer, a fazer, fazer, fazer… foi para experimentar, para saber com’é
que é. […]”
Neste percurso, as jovens (3/19) não apresentam históricos de vitimação
familiar significativa, nem registos de permanência em instituições de promoção
e proteção. As motivações para a transgressão são encontradas nos/as amigos/as,
na rebeldia de se ser jovem e no querer testar limites. A procura do risco-
aventura e dos sentimentos de adrenalina é o que as leva a iniciar e a manter
comportamentos transgressivos. Os discursos apelam para uma certa
autodeterminação no envolvimento transgressivo, não apenas pela normalidade que
lhe imputam, associada ao ser jovem, mas também a um certo controlo e domínio
sobre os seus comportamentos, estando nas suas mãos a decisão do início ou do
fim. Este percurso não deixa, contudo, de intercetar outros percursos, não
porque a rebeldia e a aventura sejam o desencadeador da ação, mas porque surgem
na manutenção desses comportamentos, como vimos na transgressão enfatizada por
escalada, e como vamos ver na transgressão-influência.
Transgressão-influência
RETRATO 3: Sónia, 18 anos, nacionalidade portuguesa, residente em Cascais.
Considera que teve uma infância feliz e que o relacionamento familiar só se
deteriorou a partir da altura em que começa a namorar com um rapaz que os pais
não aprovaram. Além de ter afetado o relacionamento familiar, o início do
namoro foi, também, o despoletar dos comportamentos transgressivos de Sónia:
“quando comecei a namorar com o rapaz, comecei a faltar à escola, ia de manhã
cedo para a casa dele, ia ter com ele. Chamaram a minha mãe à escola, disseram
que eu não ia”. Sónia engravida e faz um aborto. A decisão de interromper a
gravidez foi tomada em consequência da reação do namorado e por prever a reação
dos pais: “queria estar com o meu ex e a minha mãe e o meu pai não me deixavam…
então comecei a fugir de casa p’ra poder estar com ele. Fugia só p’ra ir ter
com ele. Comecei a fazer porcarias, a falar mal aos meus pais, a tratar mal os
meus pais. Foi tudo por causa dele…” Face a esta situação, e a pedido dos pais,
Sónia é acolhida numa instituição de promoção e proteção. Começou a relacionar-
se com jovens da instituição: “pedi para ir com elas e fui ter com o meu ex.
Depois é que assaltei a casa com elas.” Estas experiências foram causa e
consequência de um percurso escolar insatisfatório. Entretanto conheceu um
outro rapaz, com quem iniciou coabitação e de quem tem um filho. Cumpre medida
de imposição de obrigações, por 18 meses.
Reunindo as histórias de vida mais divergentes (4/19), a característica central
desta trajetória é a heterodeterminação no envolvimento transgressivo e a ideia
de que este é resultado da influência de fatores externos (e.g. drogas,
namorados e amigos/as). A centralidade do fator influência neste percurso tende
a secundarizar o peso de outras variáveis como os percursos transgressivos, as
motivações e significações da transgressão e a condenação moral da
transgressão. Sem históricos de vitimação familiar significativa, os problemas
relacionais com a família agravam-se devido a esses fatores de influência
externa.
Apesar de contarem com a passagem por instituições de promoção e proteção ou
por mudanças de escola, a grande diferença relativamente às outras jovens é que
qualquer um destes processos é desencadeado pelos próprios pais, como uma
tentativa de controlar o comportamento das filhas. Se o início da ação
transgressiva é heterodeterminado, a manutenção dessas práticas reflete e
reforça as singularidades discursivas, mostrando como na manutenção dos
comportamentos transgressivos o sujeito é simultaneamente
heteroautodeterminado, como nos mostra, por exemplo, Ivone [16 anos], que
inicia o seu percurso transgressivo por causa do namorado, entra numa
instituição de promoção e proteção na altura em que o namorado é preso, e
mantém esses comportamentos transgressivos em nome da diversão: “fugia do
colégio quase todas as noites para ir para o Bairro Alto com as minhas amigas,
aparecia no dia à seguir e pronto… divertíamos, ficávamos lá a conviver, a
dançar. Mas depois tínhamos consequências… mas reagíamos bem, porque no dia
seguinte já estávamos a fazer porcaria [risos]. Compensar, não compensava, mas
já era mesmo por gozo”.
Transgressão circunstancial
RETRATO 4: Anabela, 17 anos, nacionalidade portuguesa, residente em Lisboa,
vive com o pai, a madrasta e o irmão consanguíneo. Os pais de Anabela
separaram-se quando ela tinha um ano. Apesar de sempre ter vivido com a mãe, há
cerca de dois anos integrou o agregado paterno, devido ao agravamento da
situação de saúde da mãe. Os problemas desta e a transição para a casa do pai
criaram em Anabela sentimentos ambivalentes. Por um lado, incompatibiliza-se
com a mãe, mas sente a necessidade de a proteger e de estar ao seu lado:“Eu sei
que ela precisa de mim, e às vezes sinto isso”. Por outro lado, a relação com o
pai é difícil. Não aceita a sua supervisão e a imposição de normas e regras,
sente que é preterida em relação ao irmão mais novo e entra em conflito com a
madrasta. O agravamento da situação da mãe coincidiu com o início de um
percurso escolar de menor sucesso: “chumbei duas vezes… foi várias coisas, foi
a falta de estudo, foi falta de interesse… eu culpo-me mesmo, porque é verdade,
não quis mesmo saber…”Os amigos e os namorados são elementos muito valorizados
por Anabela e apresentam estilos de vida normativos. Sem registos de
institucionalização ou outros processos, entra na justiça por crime de roubo na
forma consumada, roubo na forma tentada e agressões corporais, que Anabela
justifica dizendo: “nessa noite a minha mãe começou a […] e eu saí. E foi logo
com pessoas que eu não devia ter saído […] Só pensava que estava metida numa
embrulhada e que não sabia o que estava ali a fazer.”Cumpre uma medida tutelar
de imposição de obrigações, que Anabela considera justa.
Este percurso reúne jovens (3/19) que organizam as suas narrativas em torno do
caráter de exceção e de casualidade que é conferido ao comportamento
transgressivo, demarcando-se de qualquer identidade desviante ou percurso
transgressivo. Exceção porque o ilícito é descrito como uma situação ocasional
e acidental. Exceção pois as suas vidas não se organizam em torno da prática
transgressiva.
Os discursos sobre o contexto familiar têm significações predominantemente
positivas. Como todas as outras jovens, é com os amigos que estruturam os seus
quotidianos, marcados, predominantemente, por atividades de lazer,
tendencialmente normativas e comuns entre os jovens: “mandamos mensagens pela
net, vamos sair sempre para a discoteca; namorar; tomar café todos os dias e
aos sábados e sextas saímos à noite.” Fica clara a fronteira que tendem a
estabelecer entre elas, os amigos e os “amigos” desviantes (“São conhecidos,
são pessoas que já andaram comigo na escola e num sei quê. Eu não os considero
amigos”[Anabela, 17 anos]; “conhecíamos ela, mas não era muitas confianças…
falávamos mas não era nada de… falávamos” [Fátima, 16 anos]). Apesar de
apresentarem percursos escolares marcados por dificuldades e pela falta de
identificação com os currículos académicos formais, a escola não surge como um
espaço de indisciplina ou de problemas comportamentais. Em todo o discurso
tendem a demarcar-se de um percurso transgressivo.
Notas finais
Ao descrever os diferentes tipos de discursos e percursos transgressivos, este
estudo sublinhou a importância de olhar para a delinquência feminina como um
fenómeno heterogéneo, e como esta perceção é fundamental na (re)categorização
conceptual, que tem implicações no debate em torno da construção da sua
visibilidade social; nos questionamentos em torno das juventudes femininas e
das novas feminilidades; nos debates de superação dos discursos dicotómicos —
vitimaçãovsagencialidade; e na produção de políticas e práticas de intervenção.
Os resultados são importantes não apenas para a teoria, mas também para a
prevenção e para as respostas à delinquência. O aumento dos estudos realizados
sobre a relação entre género e delinquência, seja em torno das especificidades,
seja numa perspetiva comparativa, não tem sido acompanhado, igualmente, de uma
agenda política e de intervenção, especificamente no contexto português.
É importante que as instituições e os vários profissionais diretamente
envolvidos sejam sensíveis aos repertórios interpretativos utilizados pelas
jovens e reconheçam como estes podem ampliar ou limitar as possibilidades de
sentido sobre a transgressão.