Clivagens e cumplicidades entre e a Igreja Católica e o estado: o casamento
entre pessoas do mesmo sexo
Introdução
Ao longo das últimas décadas, os países ocidentais têm vindo a aprovar leis
liberalizadoras de práticas no domínio da ética.[1] Algumas dizem respeito à
vida, como é o caso da legislação sobre o aborto e a eutanásia, outras à
sexualidade e à família, tal como as legislações sobre a contraceção, o
divórcio, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adoção por esses casais.
A aprovação destas leis não tem sido pacífica (Dobbelaere e Pérez-Agote, 2015),
uma vez que o Ocidente teve, até há bem pouco tempo, como fonte de moralidade a
exclusividade de uma mundividência cristã. A conflitualidade tem estado
particularmente presente em países de tradição católica romana, já que as
igrejas históricas[2] do cristianismo protestante, ao preconizarem o livre
arbítrio e ao enveredarem por uma teologia liberal, contribuíram para que a
liberdade de consciência se estendesse às opções na esfera da vida privada. Se,
por um lado, o protestantismo contribui para a secularização (Berger, 1967),
por outro, as suas igrejas também se secularizaram internamente de modo mais
acelerado, principalmente a partir da década de 60 do século XX: por regra, a
prática e a crença religiosas são mais baixas nos países europeus de tradição
protestante do que nos de tradição católica.
Mesmo assim, a maior parte dos estudos revelam que a evolução do catolicismo na
Europa ocidental também tem sido pautada pela erosão desses indicadores. A
perda do impacto do catolicismo nessas sociedades é ainda percetível na
incapacidade de impedir mudanças de legislação em questões éticas, que
contrariam a sua doutrina. Assim colocada a questão, pode deduzir-se que se
está perante, por um lado, um processo de secularização unilinear e
societalmente homogéneo e, por outro, um modo uniforme de gerir esses desafios
no campo da moralidade. Como se poderá ver, através dos elementos da pesquisa
aqui apresentada, há especificidades na Igreja Católica em Portugal e
nomeadamente na sua Conferência Episcopal que a distanciam do modus operandi
desta instituição eclesiástica noutros países.
Tanto o último recenseamento (INE, 2012) como o estudo sobre as identidades dos
portugueses de 2011 (Teixeira, 2012) revelam que cerca de 80% da população se
declara católica romana. Este indicador de religiosidade é um dos mais elevados
à escala europeia. O mesmo acontece com a prática religiosa. Segundo o referido
estudo, cerca de 36,2% participam num ato religioso pelo menos uma vez por
semana e 43% pelo menos uma vez por mês.[3] De igual modo, a crença em termos
de ortodoxia cristã é das mais altas da Europa: 78,6% concordam com o enunciado
Deus existe e fez-se conhecer na pessoa de Jesus Cristo (Teixeira, 2012).
Tais indicadores de religiosidade não impediram, contudo, a emergência de um
conjunto de atitudes mais liberalizantes da sociedade em relação a temas
delicados e recorrentemente designados como fraturantes. Houve dois referendos
sobre a interrupção voluntária da gravidez e alterações legislativas no que
respeita ao divórcio e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estas mudanças
não foram propriamente pacíficas e deram origem a debates mais ou menos
alargados, por vezes num registo moderado, por vezes evidenciando a polarização
dos campos. Apesar disso, não se assistiu a um discurso radicalizado por parte
da Igreja Católica, como se procurasse, à semelhança do passado, funcionar como
um sistema totalizante e único produtor de sentido (Luhmann, 1984).
A diferenciação funcional conduziu a um processo de autonomia dos sistemas.
Nessa medida, a religião tal como a política são sistemas parciais que operam
independentemente um do outro e cada um é induzido a estabelecer fronteiras de
sentido. Mas, uma vez que a sua natureza é dinâmica, não se podem fechar sobre
si mesmos, porque qualquer escolha (de sentido) é aberta a outras
possibilidades (Luhmann, 1995, 172-173). O sentido é, segundo Luhmann, um modo
de processar a experiência de eventos que são lidos e interpretados a partir
das asserções do sistema, selecionando aquelas que são mais adequadas para
lidar com o evento que levanta problemas ao sistema. A utensilagem teórica de
Luhmann afigura-se como apropriada para compreender o tipo de relação que tem
vindo a ser construída entre o sistema político e o sistema religioso, mais
concretamente entre o estado e a Igreja Católica, principalmente a partir de
1974.
Com a instauração da democracia e até ao momento presente, essa relação tem
sido pautada por uma certa complexidade e, embora exista uma separação de
domínios o estado português é não confessional , essa separação não é isenta
de cooperação, negociação e mesmo cumplicidades (Vilaça e Oliveira, 2012). Para
além das questões relacionadas com a justiça social, a Igreja Católica tem-se
manifestado, mas sem grande interferência, em questões controversas do ponto de
vista da ortodoxia católica, como a lei do divórcio, em 1975, ou a lei do
aborto, em 1984, a sua despenalização, em 2008, ou o casamento entre pessoas do
mesmo sexo, em 2010. Depois da despenalização da interrupção voluntária da
gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi o último grande desafio
ético colocado à Igreja Católica portuguesa.
Nota metodológica
Este artigo não pretende refletir sobre as transformações ocorridas em Portugal
nos últimos anos no campo da sexualidade, enunciando todos os movimentos e
grupos que têm contribuído para uma liberalização das posições nesta área, nem
tão-pouco dar conta com exaustividade de todo o debate político. O objetivo é
analisar as reações da Igreja Católica sobre um desafio ético concreto, tendo
em conta as interações desenvolvidas com o sistema político e dentro do próprio
universo católico (hierarquia, população em geral, grupos e organizações),
pautado simultaneamente por homogeneidade e diversidade, por dinâmicas de
solidariedade e de conflito (Dobbelaere e Pérez-Agote, 2015: 9). Por essa
razão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo será aqui entendido como uma das
lentes passíveis para avaliar mudanças na produção de sentido e na comunicação
estabelecida.
O estudo aqui apresentado assume um caráter exploratório e algumas hipóteses
que agora se prefiguram poderão ser sistematicamente estudadas em investigações
futuras, com quadros teóricos mais densos e metodologias mais robustas. Embora
o foco incida na Igreja Católica, foi inevitável proceder à descrição e análise
das principais decisões políticas e legais e dos principais momentos históricos
que interpelaram a Igreja Católica. Através de uma análise não sistemática[4]
de artigos de imprensa, e páginas eletrónicas relativas aos debates
parlamentares (site do parlamento) procurou-se reconstituir momentos chave da
discussão político-partidária, procurando evidenciar como um tópico localizado
nas margens da agenda política se foi tornando tema central na política, na
sociedade e, consequentemente, na discussão pública. A centralidade que o
debate teve e as mudanças que projetava tornam inevitável a análise das
mudanças de atitudes dos portugueses no que respeita à homossexualidade e ao
casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nesta matéria recorreu-se aos dados do
European Values Study (EVS) e a sondagens realizadas em Portugal.
No plano religioso, também com base na análise da imprensa e dos sites
existentes dos diferentes agentes, foram examinados: os vários tipos de
manifestações no campo católico, como as posições oficiais da Conferência
Episcopal Portuguesa (CEP), as declarações do cardeal patriarca e de bispos e
padres com intervenções autónomas; os tipos de intervenção das organizações
católicas e movimentos cívicos de raiz católica contra o casamento entre
pessoas do mesmo sexo; e as iniciativas de organizações de gays católicos.
Além da análise da imprensa, que é a principal fonte dos dados recolhidos,
foram realizadas duas entrevistas a dois representantes das principais
instituições envolvidas nesta problemática, a fim de confrontar com a
informação recolhida, procurando colmatar algumas lacunas e clarificar algumas
questões.[5] Os dois entrevistados são considerados dois informantes
privilegiados, alguém ocupando lugares nos órgãos de poder tanto da instituição
religiosa como da esfera da governação. Não se pretende considerar as suas
declarações como ilustrativas das posições tanto da Igreja Católica como do
governo em exercício, mas de indivíduos que, dado ocuparem posições de forte
proximidade aos respetivos órgãos decisórios, em cada um dos campos, possuem
informações de exceção.
Foi assim entrevistado um membro do secretariado nacional do Partido Socialista
(PS), que estava no poder quando as questões éticas mais recentes
(despenalização da interrupção voluntária da gravidez e casamento entre pessoas
do mesmo sexo) foram discutidas e legisladas e, mais tarde, um bispo e membro
da CEP. Por razões de confidencialidade e de anonimato, os nomes de ambos os
entrevistados não são divulgados. A entrevista ao dirigente político ocorreu em
novembro de 2011 e a do bispo foi realizada em fevereiro de 2013.[6]
O casamento entre pessoas do mesmo sexo: da periferia ao centro da agenda
política
Desde 2001 que em Portugal está aprovada a lei que reconhece a união de facto
entre pessoas do mesmo sexo e, desde 2004, que Portugal se tornou o primeiro
país na Europa e o terceiro no mundo a proibir qualquer discriminação em razão
da orientação sexual. Oito anos mais tarde os homossexuais portugueses
obtiveram o direito ao casamento civil.
Nas eleições de 2005, a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo
parecia ainda muito incipiente, pelo que apenas o Bloco de Esquerda (BE)
incluiu no seu programa uma proposta de alteração do Código Civil, no sentido
de abolir a referência ao sexo diferente dos cônjuges no respeitante ao
casamento civil, a nulidade de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e, ainda,
a defesa da adoção por casais homossexuais. Por seu lado, se até então o PS não
demonstrava qualquer intenção de legislar sobre o assunto, com a vitória nas
eleições e já em fevereiro de 2006, passou a não excluir essa possibilidade
(Lusa, 01/02/2006). Isto coincide com um momento em que, para além do Bloco de
Esquerda, apenas o Partido Comunista (PCP) aceitava o debate parlamentar sobre
o casamento entre pessoas do mesmo sexo e os partidos mais à direita (PSD e
CDS-PP) permaneciam sem admitir que o debate devesse ser enquadrado na agenda
(Lusa, 01/02/2006). O PS, que tinha sido partido da oposição na legislatura
anterior, entretanto eleito por maioria absoluta, optou por retomar o dossiê da
interrupção voluntária da gravidez. Numa só legislatura e tendo consciência que
o esperava um debate desgastante e disruptivo em torno do referendo sobre a
interrupção voluntária da gravidez, legislar sobre o casamento entre pessoas do
mesmo sexo poderia ser um risco político.
Só em 2008, já após a legalização da interrupção voluntária da gravidez, novos
passos foram dados em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo. À data, o
então recém-eleito líder da Juventude Socialista (JS) assume a ausência de
legislação sobre o assunto como uma das poucas desigualdades existentes na lei,
propondo a sua alteração. No entanto, à semelhança de outras vozes que se
levantaram contra, a ala católica da JS não negou a defesa legítima dos
direitos dos homossexuais, mas num registo de união de facto (Público, 20/06/
2008).
Embora não consensual, a pressão da JS sobre o seu partido para legislar nesta
matéria foi inequívoca. Todavia, se nos reportamos a outubro de 2008, quando o
PS (com disciplina de voto), o PSD e o CDS-PP chumbaram os projetos de lei do
Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Ecologista Os Verdes (PEV) sobre o mesmo
dossiê, percebemos que o PS tinha já clarificado que não era sua intenção
evitar a consagração do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas apenas
manifestar desacordo com a proposta específica dos partidos de esquerda
(Público, 01/10/2008). Com efeito, o PS apresentou-se na campanha eleitoral de
setembro de 2009 com um programa de governo que contemplava a legalização do
casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Contudo, é só após a vitória do PS nessas eleições que a posição oficial dos
partidos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a eventual realização
de um referendo ficou clarificada. Numa reunião plenária do parlamento, em 8 de
janeiro de 2010, diferentes propostas vieram para a mesa, mas o ponto crucial
foi a inclusão, ou não, da questão da adoção de crianças por casais
homossexuais.
O PSD apresentou um projeto de lei (n.º 119/XI) que propunha a figura jurídica
da união civil registada em detrimento do casamento e sem a incorporação da
adoção. O projeto foi rejeitado com os votos contra do PS, BE, PCP e PEV e o
apoio favorável do CDS-PP, que todavia deu liberdade de voto aos seus
deputados. Quanto aos projetos alternativos do BE (projeto de lei n.º 14/XI) e
do PEV (projeto de lei n.º 24/XI), ambos integravam a adoção e propunham
alterações ao Código Civil, visando a modificação do artigo sobre a noção de
casamento para um contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem
constituir família. Esses diplomas não foram aprovados com os votos contra do
PS, do PSD e CDS-PP e abstenção do PCP, este último por considerar que a adoção
e os casamentos entre homossexuais são questões distintas e que o assunto
merecia um aprofundamento do debate com a sociedade.
O PS, pela voz do primeiro-ministro, fez a defesa da proposta de lei n.º 7/XI
em detrimento do referendo, um projeto em tudo semelhante ao anteriormente
proposto pelo BE e o PEV e, portanto, em que se garante aos casais homossexuais
os mesmos direitos e deveres dos casais heterossexuais, mas excluindo a adoção.
A fundamentação assentava na defesa dos princípios constitucionais da
dignidade da pessoa humana e da igualdade, na proibição constitucional de
qualquer discriminação em razão da orientação sexual e no direito de
constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade. A
proposta legislativa do PS foi aprovada com votos a favor do PS, BE, PCP e PEV,
os votos contra do PSD (com liberdade de voto), do CDS-PP e de duas deputadas
independentes do PS, e com a abstenção de sete deputados do PSD.
Uma vez aprovado pela Assembleia da República, foi levantado o problema da sua
não constitucionalidade, principalmente entre os juristas (Santos, 2009).[7] As
dúvidas levantadas obrigaram o presidente da República a pedir uma fiscalização
do Tribunal Constitucional, que acabou por considerar o diploma não
inconstitucional, na medida em que a Constituição não impõe nem proíbe este
tipo de casamento. O presidente da República Cavaco Silva viria a promulgar o
diploma a 17 de maio de 2010, isto é, no penúltimo dia do prazo, simbolicamente
marcado por ser o Dia Mundial contra a Homofobia.
Desse dia em diante, o conceito de casamento passou a ser, então, o de um
contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família
mediante uma plena comunhão de vida (lei n.º 9/2010, de 31 de maio). Um
contrato ao qual quiseram aderir, de acordo com dados do INE, desde a entrada
em vigor da lei (em 7 de junho de 2010) até final de 2011, 590 casais
homossexuais, o que corresponde a 0,7% de todos os casamentos em 2010 e 0,9% em
2011. Predominantemente preconizados por casais masculinos, tais casamentos
foram celebrados, na sua maioria e como expectável, nas áreas metropolitanas, e
também mais cosmopolitas de Lisboa (254 matrimónios) e do Porto (75
matrimónios).
A mudança de atitudes dos portugueses e a estratégia política
Até há poucos anos atrás, estas questões eram impensáveis ou improváveis para a
maioria dos portugueses. Se tomarmos por referência os resultados do Estudo
Europeu dos Valores (EVS) sobre a homossexualidade, percebemos que, até 2008, a
maioria da população portuguesa não considerava a homossexualidade
justificável. De acordo com a pesquisa, a média foi de 3,7 numa escala de 10
pontos, o que significa que 58,9% dos portugueses se posicionaram nos quatro
primeiros níveis de aceitação. Mesmo que as pessoas mostrassem maiores níveis
de tolerância de pesquisa para pesquisa (média de 2,2 em 1990; média de 3,4 em
1999), dois anos antes da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo a
atitude era negativa. Além disso, em comparação com outros países em estudo,
Portugal teve a menor pontuação média no nível de aceitação da homossexualidade
(3,7): Itália (3,8), França (5,7), Bélgica (5,8) e Espanha (6,0).
Estes dados levam-nos a refletir sobre o que mudou em tão curto espaço de tempo
para que em 2010, dois anos depois, o casamento entre pessoas do mesmo sexo
fosse legislado e sem contestações sociais como aquelas que ocorreram em 2012 e
2013 em França (Béraud e Portier, 2015), um país bem mais secularizado e e com
uma tendência mais liberalizante do que Portugal. Terá sido a gradual, embora
muito rápida, liberalização dos valores dos portugueses, resultante do aumento
da sensibilização sobre estas questões o que se reflete não só nos debates
públicos, mas também no cinema (por exemplo, O Segredo de Brokeback Mountain e
Milk) que conduziu a uma reflexão sobre a questão da homossexualidade sob
ângulos diferentes, evidenciando situações de discriminação e sofrimento? Até
que ponto o comportamento da Igreja Católica e o modo como a questão foi
conduzida pelo poder político contribuíram também para isso?
Se nos focarmos ainda no ano de 2008, uma sondagem revelava que, apesar de se
constatar uma maior abertura das atitudes perante a homossexualidade, 53% dos
portugueses eram ainda contra o acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo
sexo.[8] Uma tendência que se inverteu em 2010, quando a divulgação de uma
outra sondagem concluía que 52% dos portugueses eram já a favor da igualdade no
casamento civil, contra 43% que declararam objeção ao ato.[9] Ao mesmo tempo,
relativamente à possível realização de um referendo, os mesmos portugueses
estavam divididos. Um empate técnico entre aqueles que estavam a favor (46,4%)
e contra (45,7%) mostrava como uma importante parte dos portugueses
principalmente do sexo feminino estava interessada no debate, mas uma
percentagem similar não estava.
Questionado sobre os fatores que levaram o PS a colocar no seu programa de
governo a legislação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o nosso
entrevistado, ex-membro do Secretariado Nacional do PS, confirmou que os
resultados da sondagem dissiparam as possíveis dúvidas. Segundo ele, os
indicadores mostravam sobretudo que havia mais indiferença do que
hostilidade, mas o mesmo acrescentou que uma outra razão foi baseada no facto
de o PS ter como objetivo ser o porta-estandarte da modernização, devendo
portanto ser também coerente nas questões éticas da vida. O entrevistado
considerou, ainda, um terceiro e mais político fator de mudança, relacionado
com as pressões dos lóbis (LGBT e outros) e a influência dos média a título
de exemplo, referiu a transmissão televisiva, em direto, do caso de duas
mulheres que tentaram casar-se civilmente antes da existência da lei.
Largamente seguido pela imprensa, todo este processo, declarou o político
entrevistado, levava a acreditar que o assunto seria cada vez mais importante
em termos de agenda política.
O entrevistado também confirmou a importância da pressão feita pela JS no PS, e
reconheceu que trazer o assunto do casamento entre pessoas do mesmo sexo para a
agenda política não deixou de ser uma estratégia de campanha eleitoral,
nomeadamente uma forma de atrair pessoas do BE, como Vale de Almeida ex-BE e
um ativista intelectual reconhecido do movimento LGBT (lésbicas, gays,
bissexuais e transgénero). Convidado a participar da lista de Lisboa pelo PS
nas eleições parlamentares, Vale de Almeida tornou-se o primeiro deputado
português assumidamente homossexual, cujo papel foi claramente relacionado com
a aprovação da lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo e da lei de
identidade de género. O que se confirmaria, alguns meses depois das eleições,
quando apresentou a sua renúncia, justificando como cumprida a sua tarefa
(Expresso, 10/12/2010).
Para o entrevistado, havia uma clara consciência de que a oposição ao casamento
entre pessoas do mesmo sexo iria revelar-se não constitucional porque a
Constituição Portuguesa é clara quanto à não discriminação baseada na
orientação sexual. Assim, ainda de acordo com o socialista, a estratégia
política foi evitar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse
legalizado no mandato de 2005-2009 para introduzi-lo na agenda política da
legislatura seguinte. Estavam conscientes que as pesquisas não mostravam uma
significativa aceitação da homossexualidade. Quando o assunto foi introduzido
na campanha de 2009, houve algum acautelamento no sentido em que procuraram não
tornar a questão como central na campanha e adotaram a expressão casamento
entre pessoas do mesmo sexo, evitando a expressão homossexual, que
semanticamente seria mais forte. Assim o tema surgiu, de alguma forma, mais
diluído nos discursos políticos.
A Igreja Católica e o casamento entre pessoas do mesmo sexo
Apesar de terem sido aprovadas leis como a da despenalização da interrupção
voluntária da gravidez ou a do casamento entre pessoas do mesmo sexo, isso não
conduziu a um confronto aberto entre a Igreja Católica e o estado, nem
fragilizou a presença daquela instituição na esfera pública. Não deixa de ser
sociologicamente relevante o facto de as atitudes dos portugueses sobre a
Igreja Católica, em 2011, continuarem a ser significativamente positivas,
nomeadamente no que respeita à liberdade individual, tal como é percetível no
quadro_1.
Ao contrário do que acontece noutros países do sul da Europa, como a Espanha ou
a França, a Igreja Católica em Portugal tem um discurso mais moderado e uma
atuação mais contida em relação às questões de moralidade. Em Espanha, por
exemplo, quando do debate e legislação sobre o casamento entre pessoas do mesmo
sexo, a Conferência Episcopal acusou o governo socialista de Zapatero de
promover uma política laicista e tentou influenciar o voto (Pérez-Agote et al.,
2012). Na análise da atuação da Igreja Católica portuguesa devem distinguir-se
dois níveis de ação: os discursos e as posições oficiais da Conferência
Episcopal, por um lado, e, por outro, as declarações públicas de alguns
clérigos e leigos com protagonismo na vida pública e a ação de movimentos
leigos católicos.
Os tempos e os modos do discurso oficial
Numa nota pastoral sob o título Em favor do verdadeiro casamento, de 20 de
fevereiro de 2009 um ano antes da publicação da lei do casamento gay e quando
ficou claro que o PS iria incluir a questão no programa político no mandato
seguinte o conselho permanente da CEP afirmou a sua oposição a qualquer lei
que equipare as uniões homossexuais ao casamento das famílias constituídas na
base do amor entre um homem e uma mulher. Não se pronunciando sobre eventuais
modos com que o estado possa ir ao encontro dos problemas e aspirações das
pessoas homossexuais, rejeitou que a união entre pessoas do mesmo sexo possa
ser equiparada à família estavelmente constituída através do casamento entre um
homem e uma mulher, e o mesmo se diga de uma lei que permita a adoção de
crianças por homossexuais. No documento pode ainda ler-se que, para a Igreja
Católica, a homossexualidade denota a existência de problemas de identidade
pessoal, pelo que se dispõe a acolher os homossexuais e a ajudá-los na
superação das dificuldades e sofrimento causados pela sua orientação sexual.
Aludindo a um quadro histórico, aceite e extensível às diferentes culturas e
civilizações, a Igreja Católica portuguesa defendeu as suas razões, evocando
ainda que a família, fundada no casamento entre um homem e uma mulher, tem o
direito a ver reconhecida a sua identidade única, inconfundível [ ] com outras
formas de convivência. Uma interpretação deste discurso, que recorre a
argumentos de natureza antropológica e civilizacional, pode sugerir a adoção de
linguagem partilhada no sentido habermasiano, evidenciando uma secularização
interna do catolicismo. Mas retomando a teoria de Luhmann (1995), entendemos
mais adequado olhar a Igreja Católica como um sistema que comunica mas num
horizonte de sentidos abertos a outras possibilidades de comunicações e de
sentidos.
Embora estas declarações expressem a visão da Igreja Católica sobre a
homossexualidade, o facto é que ela esteve de algum modo ausente da esfera
pública quando o debate veio efetivamente para cena. Por outro lado, no
documento publicado não houve nenhuma recomendação sobre o voto contra os
partidos que defendiam a legalização dos casamentos homossexuais, o que pode
ser indicativo de que a Igreja Católica não queria fazer campanha contra o
partido com maiores probabilidades de se tornar governo, o PS (Marujo, 2009a).
Efetivamente, o clima pós eleitoral não foi de hostilidade. Um mês depois das
eleições de 2009, o primeiro-ministro José Sócrates reuniu-se com o chefe da
Igreja Católica portuguesa, o cardeal D. Policarpo, e algumas semanas depois
veio a público a notícia de que teria havido nessa reunião um pacto entre o
primeiro-ministro e o chefe da Igreja Católica, tendo este último assumido o
compromisso de permanecer em silêncio durante todo o processo de discussão
sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. D. Policarpo
reagiu de imediato a esta notícia, garantindo que não tinha sido feito qualquer
pacto com o primeiro-ministro, sublinhando que a Igreja Católica tem a
liberdade de anunciar a sua doutrina sobre esta questão, quando achar
apropriado (TVI24, 22/12/2009).
Também o bispo entrevistado no âmbito deste trabalho declarou que nunca ouviu
falar de qualquer pacto: Que nós [os membros da CEP] dessemos por isso, não.
Na verdade, o mesmo alertou para encararmos mais como episódico do que como um
facto. Em seguida, enfatizou que a Igreja Católica portuguesa não pode ser
tomada como um todo, lamentando que não seja minimamente conhecida a forma como
a CEP funciona: A nossa classe política, alguns deles até com ligação à Igreja
Católica, não percebem que a Igreja Católica não existe a nível nacional, mas a
nível diocesano: tanto manda Lisboa, como Porto, como Angra. Por fim, o bispo
concluiu: Não se pode pensar que o cardeal vai chegar a uma combinação que
depois se vai refletir no resto da CEP. Nestas afirmações parece estar patente
a necessidade de enfatizar a diversidade interna da CEP.
Retomando a questão, o facto é que D. Policarpo revelou que a possível
legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo foi analisada numa reunião
com o então primeiro-ministro, em 20 de outubro: A possível legalização do
casamento entre pessoas do mesmo sexo foi realmente abordada, mas como um
intercâmbio de perspetivas, sereno e franco, onde não havia pactos ou
compromissos, sublinhando que ambos os interlocutores estavam conscientes da
especificidade das instituições que representavam. Razão pela qual reconhece
a legitimidade legislativa do estado, mas também pela qual não deixará de
interpelar a consciência dos decisores e de elucidar a consciência dos cristãos
sobre a maneira de se comportarem acerca de leis que ferem gravemente a
compreensão cristã do homem e da sociedade (TVI24, 22/12/2009).
Tais factos e declarações, operados no quadro de uma autonomia sistémica do
político e do religioso, levam-nos a colocar a hipótese da existência de um
compromisso sem formalização. Dito de outro modo, houve comunicação entre os
dois sistemas, no sentido em que assistimos a ações que refletem um esforço de
redução da complexidade (Luhmann, 1995: 204). Provavelmente, o virtual
compromisso não ocorreu entre o governo e a Igreja Católica como um todo, mas
entre o governo e o cardeal, que é o seu mais alto representante em Portugal.
Isso explicaria, na nossa perspetiva, a razão pela qual o cardeal teve uma
atitude silenciosa durante a campanha eleitoral. Uma atitude que lhe custou a
crítica e a pressão de meios católicos conservadores. Um setor ao qual tentou
responder quando condenou veementemente o presidente da República por ter
promulgado a lei, acusando-o de não ter usado a arma de veto político. Em
entrevista à Rádio Renascença, afirmou que esperava que o presidente usasse o
veto político. Sabemos a fragilidade do veto político na nossa atual
Constituição, mas ele, pela sua identidade cultural de católico, penso que
precisava de marcar uma posição também pessoal (Henriques, 2010).
Uma hipótese confirmada pelo político socialista entrevistado, que afirmou
haver, na verdade, uma espécie de trade-off entre o primeiro-ministro e o
cardeal Policarpo. Nas suas palavras, foi um acordo racional entre partes
racionais, ambos sabendo que o governo tinha uma estratégia vencedora, e o
presidente da República não deixaria de promulgar a lei. Temendo que o
casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse aprovado, e repetindo a vitória de
2008 em relação à interrupção voluntária da gravidez, a Igreja Católica
negociou porque, de acordo com o entrevistado, a adoção era a red line, ou
seja, a questão inegociável. Além disso, acrescentou, os valores por trás da
campanha eram cristãos porque, para o PS, a questão não era de querer acabar
com a família, mas de evitar que as pessoas homossexuais constituíssem uma
família. Em outras palavras, ao não incluir a adoção, o PS estava, de facto, a
impedir a constituição de uma família no sentido cristão, isto é, com crianças.
Uma questão determinante e que esteve presente desde que o governo assumiu o
compromisso com a Ilga associação de intervenção em defesa dos direitos LGBT
, em que tinha aceitado não levantar o problema da adoção.
Em suma, ao manter-se em silêncio durante a campanha eleitoral, a Igreja
Católica parece assim ter alcançado uma base de negociação com o governo. Por
seu lado, dando voz aos católicos progressistas durante a campanha eleitoral, o
PS neutralizou e protegeu a posição do cardeal. Mais uma vez, revelando uma
forma negociada para alcançar o consenso. De reter, ainda, que a promulgação da
lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo aconteceu três dias após o
término da visita do papa Bento XVI a Portugal, o que significou um momento
marcadamente reconciliatório entre o estado português e o papado romano depois
da sociedade portuguesa se ter distanciado dos valores éticos defendidos pela
Igreja de Roma aquando da despenalização da interrupção voluntária da gravidez,
em 2007.
Atores católicos e esferas de intervenção
Os movimentos cívicos que lutaram contra a legalização da interrupção
voluntária da gravidez foram praticamente os mesmos que estiveram também por
detrás das ações contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sobretudo na
defesa do referendo. Entre estes movimentos, todos eles de iniciativa civil,
evidenciaram-se a Plataforma Cidadania e Casamento (PCC), a Federação
Portuguesa pela Vida (FPV), a Confederação Nacional das Associações de Família
(CNAF) e o Movimento Esperança Portugal (MEP), este último sendo defensor de
uma união civil registada, sem acesso à adoção ou à procriação medicamente
assistida.
A PCC destacou-se particularmente pela organização de uma manifestação pública,
em Lisboa, que juntou cerca de 5000 pessoas (dados da organização) entre
cidadãos, mas também sacerdotes e religiosas (Agência Ecclesia, 20/02/2010).
Por outro lado, a organização conseguiu reunir cerca de 90.000 assinaturas que,
no dia 5 de janeiro de 2010, foram entregues na Assembleia da República sob o
desígnio de Petição de iniciativa popular de referendo ao casamento entre
pessoas do mesmo sexo. A petição contou com a presença de 144 mandatários
apresentados como cidadãos livres mas que, em muitos dos casos, eram sujeitos
já implicados noutras estruturas e, em algumas situações, fortemente
comprometidos religiosamente. Os casos mais evidentes foram o de Isilda Pegado,
militante do PSD, também presidente da FPV e reconhecida católica comprometida;
ou o caso de Rui Marques, presidente do MEP e um assumido católico com ligações
aos jesuítas.
Estes movimentos juntaram-se à Igreja Católica na defesa da consulta popular,
embora a Igreja, nas palavras do cardeal Patriarca, tenha dado orientações
para que a campanha de recolha de assinaturas não fosse proclamada do alto da
igreja' (Agência Ecclesia, 31/12/2009). Quando questionado sobre este
assunto, o bispo entrevistado, embora não discordando da posição oficial da
Igreja Católica, afirmou que a sociedade deveria ter sido interpelada sobre o
assunto. Sustentou que, tal como a questão da interrupção voluntária da
gravidez, esta não era uma questão religiosa, mas da sociedade.
O facto de a Igreja Católica não tomar a iniciativa de qualquer referendo
delegando nas mãos dos cristãos e, principalmente, dos católicos, o direito a
esse pedido não inviabilizaria, assumiu o cardeal, que a Igreja Católica
tivesse uma palavra a dizer contra a legalização do casamento entre pessoas do
mesmo sexo no caso de haver um referendo. Perante a possibilidade dessa
reflexão nacional, o cardeal deixa transparecer que a Igreja Católica não se
coibiria de aconselhar os que quisessem escutar as suas razões através da
palavra e do diálogo, que assume serem as grandes armas da Igreja. Como em
outras declarações, este é mais um indicador de que a Igreja Católica recorre a
um discurso transversal, não necessariamente religioso, admitindo, como atrás
foi referido, a existência de outros sentidos.
Uma voz menos alinhada foi a do padre e académico Anselmo Borges, conhecido
pelas suas posições não raro distanciadas da ortodoxia católica. Este padre
assumiu que não há razões para negar a comunhão [aos homossexuais], pelo que
o estado deveria mesmo encontrar uma figura jurídica que lhes garantisse
direitos semelhantes aos dos casados, dando-lhe, todavia, um termo diferente de
casamento (Marujo, 2009b). Para além desta intervenção, destacou-se ainda a
posição do bispo do Porto, D. Manuel Clemente, sobre uma necessária reflexão
mais profunda da sociedade e um grande debate nacional sobre o tema. Uma
ideia respeitável nas palavras do porta-voz da CEP, mas para outros, ainda
assim, pouco pertinente no seio da Igreja Católica, uma vez que esta questão
faz parte dos assuntos não referendáveis (Marujo, 2009b).
Quando a Igreja Católica afirma que há assuntos que não são referendáveis, o
que é consonante com a sua doutrina oficial, permite simultaneamente
identificá-la enquanto sistema e observar o que a distingue em relação ao meio.
Mas também é percetível a complexidade interna do sistema, patente na sua
diversidade. Um sistema de crenças a Igreja Católica define-se também por um
sistema de crenças historicamente experimenta ciclos de ajustamento e
desajustamento aos vários ambientes a que pertence e com os quais tem de
cooperar (Pace, 2011: 32). O facto de o governo socialista ter, entre outros,
católicos como Pedro Silva Pereira (ex-líder da Juventude do Universitária
Católica e braço direito de José Sócrates durante seis anos no governo) e
Freitas do Amaral (fundador do CDS-PP) promove o estabelecimento de canais de
comunicação e sugere a plausibilidade da hipótese de que houve, implícita ou
explicitamente, um entendimento entre o PS e a Igreja Católica.
Segundo o dirigente político entrevistado, o estado, depois do 25 de Abril, não
limitou a ação da Igreja Católica. Como resultado da democracia, a Igreja pôde
ter uma universidade católica, algo que Salazar não permitiu. No campo social,
o PS criou um mercado para a Igreja, expresso, por exemplo, na rede pré-
escolar. Do nosso ponto de vista não existe necessariamente uma relação
privilegiada ou exclusiva entre o PS e a Igreja Católica. A cooperação e a
negociação têm sido um traço entre o estado (independentemente do partido na
governação) e a Igreja (Vilaça e Oliveira, 2012). Talvez a proximidade com
aquele partido seja maior em termos de políticas sociais.
Finalmente, é de assinalar que os católicos defensores da legislação do
casamento entre pessoas do mesmo sexo tiveram uma presença permanente durante o
debate público sobre o assunto. Quer o PS ou o BE tiveram militantes católicos
comprometidos para aparecer no debate televisivo, por isso é interessante notar
que a campanha em defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo também tenha
sido fundamentada em argumentos baseados em valores cristãos. Um dos exemplos
por parte do PS foi o da Dra. Maria Barroso, mas há muitos outros ex-ministros
ou ministros que no passado ou no presente pertenceram a organizações
católicas. Com essa estratégia, o governo socialista condicionou a Igreja,
evitando, no entanto, atacar esta instituição. O mesmo aconteceu com o BE, com
as intervenções nos média de José Manuel Pureza católico e membro do conselho
nacional do partido. Também Ana Vicente, do movimento católico Somos Igreja foi
entrevistada mais de uma vez.
Neste contexto, também é importante lembrar o papel de dois grupos de
homossexuais ligados à fé e à doutrina da Igreja Católica. São eles Riacho
definido como um espaço de encontro e reflexão entre cristãos (não apenas
católicos romanos) gays e Novos Rumos, constituído exclusivamente por
católicos. Estes dois grupos organizaram uma reunião com um grupo de gays
católicos espanhóis, em Évora, conhecida por ser a primeira reunião ibérica
deste tipo. José Manuel Pureza, o católico mencionado acima e membro do BE, foi
convidado para a reunião, que contou com a presença de dezasseis homossexuais
(Marujo, 2008a). Este encontro levou à aprovação de uma carta dirigida às
Conferências Episcopais de Portugal e Espanha, apelando a uma atitude diferente
da Igreja Católica em matéria de homossexualidade (Marujo, 2008b).
Interpelado sobre a diversidade interna da Igreja Católica, o bispo
entrevistado declarou que houve uma grande reivindicação dentro da Igreja
Católica [no sentido de uma intervenção mais clara na defesa da sua doutrina].
Os que estão dentro [os católicos comprometidos] são os que mais reivindicam
uma identificação. Mas o bispo também frisou que a Igreja tenta equilibrar as
coisas, no sentido de fazer um esforço de pedagogia perante questões que, do
seu ponto de vista, são de humanidade e não exclusivamente relacionadas com
uma visão religiosa do mundo. Tal requer de nós [Igreja Católica] uma grande
exigência para caminharmos juntos para o melhor, seguindo uma estratégia de
não permitir que o debate se torne confessional, mas permaneça cultural.
O que está em causa neste tipo de discurso é, uma vez mais, o problema da
comunicação. Como sustenta Pace, seguindo o pensamento de Luhmann, a
comunicação assenta no frágil balanço de uma dupla contingência: o que parece
uma seleção inequívoca e clara para ego pode não o ser para alter, que faz a
sua própria seleção (Pace, 2011: 49). Como resultado da seletividade, a Igreja
Católica, enquanto sistema religioso, opera as suas próprias estratégias de
comunicação interna mas, ao fazê-lo, tem de articular esse procedimento com as
seleções estruturalmente feitas por outros sistemas.
Considerações finais
Durante a última década, há indícios de que uma proporção significativamente
crescente de portugueses revela posições liberalizantes, seguindo a mesma
tendência da maioria dos países da Europa Ocidental. No entanto, os seus
indicadores de religiosidade continuam altos e as atitudes dos portugueses
acerca da importância social da Igreja Católica são significativamente
positivas. Efetivamente assiste-se a uma compatibilização entre uma identidade,
uma prática e uma crença religiosas com assunções éticas independentes da
doutrina cristã católica sobre esses temas. A interrupção voluntária da
gravidez foi descriminalizada em 2007, o casamento entre pessoas do mesmo sexo
legislado em 2010. Embora a adoção plena por casais ainda não esteja em debate
e o projeto-lei n.º 278/XII, que consagrava a possibilidade de coadoção, pelo
cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo, tenha sido rejeitado no parlamento (em
março de 2014, por cinco votos contra), a tendência parece ser para que sejam
reunidas as condições sociais e políticas para a sua aprovação em futuras
legislaturas.
Esta constatação, mesmo que evidencie uma exculturação do catolicismo (Hervieu-
Léger, 2003), expõe os limites das teorias da secularização, segundo as quais
quanto mais religiosa é uma sociedade menos tolerante ela é em relação à
diversidade e à liberalização da ética da vida e da vida privada. De facto,
Portugal apresenta singularidades no campo religioso que merecem ser
aprofundadas (Vilaça e Oliveira, 2012 e 2015) e, nessa medida, o estudo aqui
apresentado deve ser considerado como primeira etapa de uma investigação mais
vasta.
Sem abdicar de defender o ponto de vista católico sobre a homossexualidade, o
facto é que a Igreja Católica adotou uma forma discreta de se posicionar na
esfera pública quando a sociedade debateu todas estas questões: a CEP não
aconselhou as pessoas a votar contra os partidos que defendiam a legalização
dos casamentos homossexuais, não fez campanha contra o PS e afirmou que o
casamento entre pessoas do mesmo sexo não estava sujeito a referendo, não
exigindo nesse sentido uma consulta popular.
A religião é um sistema de crenças que interage, desde o seu início, com o seu
ambiente (Pace, 2011: 18). Há momentos históricos em que determinado sistema de
crenças tem capacidade de moldar o seu ambiente à sua imagem, como aconteceu
com o catolicismo português e com o cristianismo em geral na Europa no passado
muitas vezes apoiado por forças externas, como no caso da decisão política de
eleger um sistema de crenças como uma religião de estado. Mas há outros
momentos em que o ambiente se diversifica a tal ponto que é dominante uma
variedade de interpretações, a par de uma individualização da crença e da
restauração da religião (o sentido é plural) na esfera pública (Pace, 2011:
32). Tudo ao mesmo tempo. O fenómeno aqui analisado insere-se neste segundo
quadro. A reflexão sobre o debate e a legislação do casamento entre pessoas do
mesmo sexo implica que se tenha presente a multiplicidade de referências
possíveis do mundo, o que é indicativo da complexidade desse mesmo mundo e
levou o sistema religioso (aqui materializado na Igreja Católica) tal como o
político a (re)definir as suas próprias fronteiras de sentido.
Dito de outro modo, a Igreja Católica portuguesa apresenta indícios de que está
a adaptar-se a uma nova temporalidade em que não é mais uma igreja do estado ou
uma igreja histórica maioritária de utilidade pública (Davie, 2000). Esta
instituição continua com uma forte presença na sociedade portuguesa, quer do
ponto de vista material quer simbólico, mas atualmente tem de competir com
outras instituições seculares e religiosas e, sobretudo, com outros valores
e visões do mundo.