Medicamentos, consumos de performance e culturas terapêuticas em mudança: a
process of change
Introdução
O uso de medicamentos para a gestão do desempenho pessoal — cognitivo, corporal
ou relacional — configura um fenómeno específico da modernidade, que tem
adquirido visibilidade social com a crescente disseminação de produtos
farmacológicos e naturais para finalidades de melhoria e de bem-estar, onde se
incluem as designadas lifestyledrugs[1] e smartdrugs.[2] Estes novos usos
medicamentosos, que neste artigo se designam consumos de performance, comportam
um particular interesse sociológico, a diversos títulos, que não se esgota na
sociografia dos consumos, ou na identificação dos mecanismos sociais mais
imediatos de adesão a estes recursos. Trata-se de um padrão de consumos que
requer ser considerado num quadro de problematização alargada, que permita
entendê-lo no espetro de mudanças mais estruturais que estão a ocorrer no campo
da saúde. O equacionamento da cultura de consumo e dos seus mecanismos de ação
adquire aqui um renovado interesse analítico, designadamente quanto ao seu
efeito na disseminação de novas lógicas de relação com o corpo e o seu
desempenho, bem como quanto ao impacto deste padrão cultural na produção de
novas necessidades na gestão dos imperativos do quotidiano (William e Boden,
2004; Featherstone, 1993). Importa igualmente considerar o atual fenómeno da
farmacologização, com destaque para o seu efeito,não apenas no esbatimento das
tradicionais fronteiras entre a saúde e a doença, mas também, entre estas
últimas e o lugar da performance pessoal no quadro dos consumos terapêuticos.
Assim, neste artigo, procede-se à problematização sociológica do moderno
fenómeno dos consumos de performance, perspetivando-os como uma expressão de
mudanças mais amplas nas culturas terapêuticas. Tais mudanças enunciam-se em
torno de dois eixos analíticos centrais: (i) os novos usos sociais atribuídos
aos recursos medicamentosos, que os situam para além do campo da saúde, e de
que os consumos de performance são uma expressão; (ii) a confluência entre
fármacos e produtos naturais na disseminação destes novos usos. A discussão
teórica desta abordagem é desenvolvida na primeira parte do artigo, onde,
depois de traçadas as atuais perspetivas de análise sobre a farmacologização,
se expõe uma resenha analítica da genealogia social do medicamento— situando-
o no quadro da análise sociológica — para, a partir desta, enquadrar o conceito
de culturas terapêuticas que preside ao trabalho que aqui se apresenta.
A sustentação empírica desta abordagem é desenvolvida na segunda parte do
artigo, onde se analisam os resultados de um estudo, de âmbito nacional, sobre
os consumos de performance na população jovem em Portugal (18-29 anos).[3]
Contributos teóricos para um modelo de análise sobre os consumos de performance
A noção de farmacologização e o seu potencial analítico
Uma referência nuclear para a análise dos consumos de performance consiste na
perspetiva teórica da farmacologização,desenvolvida na última década (Conrad e
Potter, 2004; Conrad, 2007; Williams et al., 2008; Williams, Gabe e Davis,
2009; Abraham, 2010), e que na sua aceção conceptual é definida como “a
transformação de condições humanas em questões farmacológicas passíveis de
tratamento ou melhoria” (Williams et al., 2008: 851). Mais do que o conceito, é
sobretudo a natureza do processo que este enuncia que faz desta perspetiva um
referencial teórico incontornável para a discussão dos consumos aqui em
análise. A génese da farmacologização, tanto quanto as condições da sua
progressiva disseminação social têm a sua matriz inscrita no processo de
medicalização. Originalmente formulada por Zola (1972), a noção de
medicalização é posteriormente retomada por Conrad e Schneider (1992), que a
definem como “um processo pelo qual problemas não médicos passaram a ser
definidos e tratados como problemas médicos, geralmente em termos de doenças e
distúrbios” (1992: 209). Assim, a disseminação do uso do medicamento tornou-se
diretamente correlata da expansão da medicalização, isto é, do aumento de
condições humanas que, ao serem transformadas em problemas médicos, se tornam
elegíveis para ser geridas farmacologicamente.
Porém, a dinâmica desta expansão, na sua fase mais recente, tem gerado novas e
complexas formas de interdependência entre farmacologização e medicalização.
Como refere Conrad (2007), constatam-se agora novas vias de expansão da
medicalização, induzidas pela farmacologização, e originadas pelo efeito da
própria inovação terapêutica ou de novos usos off-label — i.e. prescrição fora
das indicações aprovadas. Acresce, neste processo, que também a
farmacologização, tal como os interesses da indústria farmacêutica dependem de
algum grau de medicalização, designadamente enquanto processo de validação e
legitimação de novos usos ou de novos medicamentos (2007: 156). Esta dupla
dependência entre ambos os fenómenos é designada por Abraham (2010) como
“medicalization-pharmaceuticalization complex”, dando conta da
indissociabilidade estrutural destes processos.
Numa perspetiva diferente, outros autores têm apontado para a emergência de
novas dinâmicas em que a farmacologização excede a medicalização (Williams,
Gabe e Martin, 2012: 2130), ou seja, em que a primeira se autonomiza da
segunda. É esse o caso do uso de medicamentos para fins fora da esfera da
autoridade médica, e onde recai a larga parte dos consumos de performance.
Situado o entendimento analítico do fenómeno da farmacologização, a discussão
sobre o lugar da performance enquanto expressão deste novo fenómeno convoca,
aqui, outros ângulos de problematização. Por um lado, importa considerar em que
medida estão a esbater-se as fronteiras entre a saúde e a performance, o que
equivale a admitir um efeito de tendencial medicalização desta última. Por
outro lado, atendendo às atuais dinâmicas da farmacologização e à sua parcial
autonomização da medicalização, o quadro da performance poderá vir a
configurar-se de modo diverso. Com efeito, as fronteiras entre saúde e
performance poderão continuar a perdurar — expressas sob distintas formas
culturais — enquanto se reconfiguram as fronteiras nos usos medicamentosos,
ampliando a sua finalidade para lá do campo da saúde. Esta é matéria que remete
o foco analítico para as culturas terapêuticas, e para as mudanças que as
atravessam, e que justifica uma breve resenha sobre a genealogia social do
medicamento e dos seus usos.
Da genealogia social do medicamento à noção de culturas terapêuticas
O medicamento tornou-se o recurso terapêutico por excelência das sociedades
modernas (Richard e Senon, 1996). Embora o seu lugar na civilização humana seja
tão antigo quanto esta, é na sua aceção moderna — o medicamento gerado pela
indústria farmacêutica e associado à síntese química — que se constitui como
recurso de eleição. Na sua história pré-moderna, o medicamentum ou o pharmakon
— designações ancestrais, do latim e do grego, atribuídas às substâncias
naturais detentoras de propriedades terapêuticas — coexistiu duradouramente com
outras práticas imateriais, de pendor mágico e religioso, na gestão terapêutica
(Pignarre, 1997; Whyte, van der Geest e Hardon, 2002; Richard e Senon, 1996).
Também na modernidade, o medicamento coexiste com a concorrência de outros
meios terapêuticos, e com formas diversas de resistência ao seu uso (Lopes,
2003, 2010; Murdoch, et al., 2012), sem que tal obste à vasta adesão cultural
de que é alvo ou ao seu estatuto de recurso terapêutico dominante.
Confinado à sua matriz de tecnologia terapêutica, o medicamento permaneceu
relativamente marginal aos interesses analíticos das ciências sociais até
bastante tarde. É sobretudo a partir da década de 1980, e com particular
destaque para os contributos da antropologia, que este meio terapêutico se
constitui em objeto das ciências sociais, e passa a ser estudado nas suas
componentes sociais e culturais. Num texto seminal de van der Geest e Whyte
(1989), o medicamento é exposto enquanto matéria simbólica, dotada de
materialidade, sob a forma de substâncias ativas, através das quais “o
tratamento e a doença são objetivados” (1989: 345). Os mesmos autores descrevem
ainda o medicamento como uma materialização metonímica do contexto mais amplo
do qual deriva — o saber médico e o saber farmacêutico —, enquanto atributo que
alimenta o reconhecimento cultural do seu poder terapêutico. Outras abordagens
teóricas, posteriores, têm ampliado o enfoque analítico sobre este meio
terapêutico, visando superar o seu confinamento às dimensões simbólicas e
recentrando-o na sua materialidade social. Inscrevem-se neste registo os
enfoques sobre o medicamento enquanto objeto sociotécnico (Pignarre, 1997),
centrados nos regimes de regulação da produção e acesso a esses recursos; ou
centrados na fenomenologia social do medicamento, expressa nos modos de
apropriação e de reconfiguração dos seus usos (Cohen et al., 2001). O que estas
incursões analíticas apontam é a necessidade de ultrapassar uma visão
essencialista do medicamento, que reduz ao seu potencial terapêutico a razão da
dominância moderna destes recursos. Enquanto objeto social, os medicamentos
comportam uma dupla fenomenologia: por um lado, são substâncias terapêuticas
socializadas,por efeito das modalidades da sua apropriação pericial e leiga;
por outro lado, constituem mecanismos socializadores das formas de pensarmos
modernamente a saúde, a doença, ou tão-somente o bem-estar (Williams, Martin e
Gabe, 2011).
Não obstante a natureza terapêutica do medicamento o ter vinculado
normativamente às finalidades de tratamento/cura, mantendo-o funcional e
culturalmente excluído de outros usos exteriores ao âmbito da doença, tal não
significa que o espetro de condições humanas que recaem nestas categorias de
finalidades tenha permanecido imutável. Com a modernidade, e por efeito do
processo de medicalização, um leque diverso de condições transitaram
progressivamente para o campo da medicina, entre as quais se incluem
finalidades externas ao tratamento ou cura. É esse o caso, a partir de meados
do século XX, quando as funções terapêuticas do medicamento começaram a ser
direcionadas também para as finalidades de prevenção (Lopes, 2010). Pode
afirmar-se que é com a prevenção, e com a entrada desta no discurso e na
prática médica, que o medicamento perde a conotação exclusiva com a doença e
passa a incluir a saúde e a sua manutenção. Ainda assim, o medicamento continua
a inscrever-se numa estrita conotação com o âmbito da saúde, seja pela via da
sua manutenção ou recuperação, ou pela via da gestão da doença. O que os
consumos de performance introduzem de distinto relativamente aos anteriores
usos do medicamento — e da disseminação da farmacologização — é a sua
exterioridade ao campo da saúde e ao quadro cultural em que este se inscreve.
Trata-se agora do recurso a uma tecnologia tradicionalmente concebida para uso
terapêutico que passa a servir finalidades não terapêuticas. Trata-se de uma
mudança que representa algo mais do que um mero ampliar do uso do medicamento;
configura-se como um novo quadro de relação com os recursos terapêuticos e de
novas lógicas de gestão dos imperativos sociais do quotidiano.
Por sua vez, esta pluralização dos usos do medicamento aproxima-o dos circuitos
da cultura de consumo, no que esta comporta de mercadorização e mercantilização
da resposta aos requisitos sociais do quotidiano e de produção de novas
necessidades (Lury, 2013; Featherstone, 1993). Como refere Rose (2009), o
medicamento, nos seus usos de performance, representa a resposta para alcançar
uma dada imagem ou um dado estilo de vida, social e culturalmente expectáveis.
É também no quadro destes novos usos que se dilui a tradicional demarcação
entre objeto terapêutico e objeto de consumo, assim como o valor simbólico
desta distinção na (auto)regulação quotidiana das formas de uso do medicamento
(Lopes, 2001; 2003).
Inscreve-se nesta genealogia do medicamento a instrumentalidade analítica do
conceito de culturas terapêuticas —aqui formulado na sua aceção de práticas,
disposições e significados partilhadosquanto aos recursos terapêuticos — e com
o qual se pretende captar as diferentes lógicas de relação com os medicamentos.
A mobilização deste conceito para o quadro dos consumos de performance suscita
uma outra problematização e clarificação conceptual.
A distinção entre terapêutica e performance (ou melhoria) tem constituído um
foco de discussão na recente produção teórica sobre a expansão da
farmacologização. Para alguns autores, estas categorias constituem um operador
analítico para assegurar a distinção entre, respetivamente, a norma e além da
norma (Coveney, Gabe e Williams, 2011), visando assim estabelecer a fronteira
entre o que está dentro e fora do campo da saúde. Porém, os limites analíticos
desta divisão são reconhecidos pelos próprios autores, quando referem que a
mesma tem por base noções que variam ao longo do tempo. Acresce que, em matéria
de consumos de performance, e numa perspetiva mais aprofundada, o espetro de
finalidades de melhoria não se esgota na procura de otimização das capacidades
de desempenho, já que, não raro, o objetivo não é superar o normal, mas tão-
somente alcançá-lo de forma mais rápida ou com menor esforço. Em ambos os
sentidos, e enquanto categoria de análise, a delimitação da performance face a
outras categorias reside na natureza das suas finalidades e na sua
exterioridade ao domínio da manutenção ou reposição da saúde.
Na perspetiva do presente texto, ao situar-se o foco analítico nas culturas
terapêuticas, pretende-se destacar a natureza do recurso — o medicamento,
enquanto substância dotada de poder terapêutico — e a sua utilização para
finalidades não terapêuticas. Entende-se que é na natureza do recurso, e não
estritamente na natureza da finalidade, que reside o desafio analítico em
matéria de culturas terapêuticas. É nesta mesma perspetiva que se inscreve a
pertinência teórica de fazer transitar o enfoque sobre os consumos para uma
analítica das culturas terapêuticas.
Por sua vez, é este recentramento analítico sobre o medicamento que permite
captar uma outra configuração social emergente, que aqui se designará
terapeuticalização —isto é, a permeabilidade ao uso de meios medicamentosos, em
substituição de outro tipo de investimentos, na gestão de esferas da existência
humana culturalmente percecionadas como exteriores ao âmbito da saúde. Uma das
expressões mais indeléveis da terapeuticalização do quotidiano passa pelo lugar
que assume o consumo do natural no quadro da performance e nas dinâmicas da
farmacologização.
O lugar do natural na expansão da farmacologização e nos consumos
de performance
A análise sociológica sobre os consumos de performance (Williams e Boden,
2004; Quintero, 2009; Coveney, Gabe e Williams, 2011) tem privilegiado o
enfoque sobre o uso dos fármacos, descurando o vasto mercado de medicamentos
naturais e suplementos orientados para a gestão e melhoria do desempenho. Por
outro lado, o crescente recurso a produtos terapêuticos naturais, no âmbito da
saúde, tal como no da performance, tem sido perspetivado como um contraponto de
resistência às lógicas da farmacologização (Stevenson, 2004; Rayner e Easthope,
2001). Contudo, numa análise mais fina, o consumo do natural também se revela
como a outra face das dinâmicas da farmacologização.
Num estudo sobre os consumos terapêuticos da população em idade ativa (18-64
anos), realizado em Portugal, com base numa amostra nacional representativa
(Lopes et al., 2009), foi demonstrado que 21% da população recorria tanto a
fármacos como a produtos naturais. A exploração qualitativa deste padrão de
consumo — conceptualizado sob a designação de pluralismo terapêutico (Lopes,
2010) — evidenciou que o recurso ao natural é usado, não raro, como meio de
manutenção do uso dos fármacos. Seja como substituto temporário, ou como
antídoto dos efeitos farmacológicos adversos, ao natural é-lhe atribuída a
função de redutor desses potenciais riscos (Raposo, 2010; Pegado, 2010). Foi
ainda constatado, designadamente em indivíduos saudáveis, que o consumo do
natural aumenta em correlação direta com o uso dos fármacos.
Também nos consumos de performance, a disseminação do uso do natural tanto pode
manifestar uma (subjetiva) intencionalidade de resistência à farmacologização,
como pode revelar-se, na objetivação analítica, como uma extensão das dinâmicas
da farmacologização. Com efeito, o recurso ao natural, tal como sucede com os
fármacos, expressa e reproduz a adesão a uma lógica de terapeuticalização da
performance, isto é, de adesão ao consumo medicamentoso na gestão de requisitos
exteriores ao âmbito da saúde, na qual o natural figura como extensão e como
alternância ao farmacológico.
Por outro lado, as tradicionais fronteiras entre o natural e o farmacológico
estão expostas a uma crescente erosão social, que é expressa a diversos níveis:
na ampla intermutabilidade dos locais de acesso a estes recursos — farmácias,
parafarmácias, lojas dietéticas (Clamote, 2010); tal como na crescente
concorrência entre a indústria farmacêutica e a indústria alimentar na produção
de uma vasta gama de suplementos naturais — dando lugar a uma nova simbologia
de farmacologização do natural — e nos quais recai uma significativa parte dos
consumos de performance (Lopes et al., 2014c).
Neste sentido, ainda que a noção de farmacologização, por razões de fechamento
conceptual, deva manter-se no registo estrito dos fármacos (Coveney, Gabe e
Williams, 2011), não poderão descurar-se as dinâmicas emergentes neste domínio.
O mesmo é dizer que o entendimento das condições de disseminação social e
cultural da farmacologização não permite excluir da análise a instrumentalidade
do natural nesse processo, seja no âmbito da saúde ou da performance.
Os consumos de performance na população jovem em Portugal: retrato empírico e
analítico
Nota metodológica
Os dados empíricos que seguidamente se apresentam correspondem à fase de
pesquisa extensiva do estudo atrás identificado, sobre os consumos de
performance na população jovem em Portugal (18-29 anos), realizada através da
aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra nacional (n = 1483)
por quotas não proporcional. O estudo foi desenhado a partir de três opções
metodológicas centrais: (i) inclusão de jovens universitários e de jovens
trabalhadores (sem formação universitária); (ii) inclusão das diferentes
categorias de consumos de performance (neuro-cognitiva e físico-corporal);
(iii) inclusão do consumo tanto de fármacos como de produtos naturais.
Pretendeu-se, assim, ir além das abordagens de base extensiva disponíveis neste
domínio (Quintero, 2009; Quintero e Nitcher, 2011; Singh e Kelleher, 2010),
centradas na população estudantil, no consumo de fármacos e na performance
cognitiva. O objetivo foi dar conta do quadro social e cultural mais amplo em
que se situa o moderno fenómeno dos investimentos de performance, bem como do
padrão de recursos medicamentosos mobilizados neste domínio. Na recolha de
dados adotou-se um modelo de métodos mistos, que incluiu, entre outras
técnicas, o inquérito por questionário, antecedido pela realização de grupos
focais (10 sessões / 57 participantes). Com estes últimos, procedeu-se à
exploração prévia do universo dos consumos de performance, na qual se sustentou
a operacionalização dos indicadores constantes do questionário.
Na composição da amostra, os jovens universitários correspondem a 70% e os
jovens trabalhadores a 30%. Estes últimos foram contactados em setores de
atividade relacionados com o atendimento ao público, especificamente em call-
centers(51,0%) e megastores (49,0%); os jovens universitários foram contactados
nas próprias instituições de ensino, e incluem estudantes de diferentes áreas
científicas: saúde (52,7%), engenharia (19,3%), ciências sociais (18,3%) e
artes (9,7%).[4] Na distribuição por sexo, as mulheres representam 59,2% e os
homens 40,8%. A aplicação do questionário (anónimo e autoadministrado) foi
efetuada, para os estudantes, nas faculdades, em espaços próprios cedidos para
o efeito, e após obtida a respetiva autorização institucional; para os
trabalhadores, foi efetuada nas próprias empresas, onde também foram cedidos
espaços adequados para a finalidade. O contacto com os inquiridos foi
assegurado pela equipa de investigadores, constituída por sociólogos, sem
interferência dos interlocutores institucionais; no caso das empresas, para
salvaguardar qualquer equívoco quanto às finalidades e anonimato das respostas,
foi também distribuída uma nota informativa prévia a todos quantos se
voluntariaram para participar no estudo. A par da observância dos requisitos
éticos da investigação em ciências sociais — o anonimato dos sujeitos e das
instituições e o caráter estritamente voluntário da participação — foi
igualmente observado o consentimento informado para as fases da pesquisa que
implicaram gravação, designadamente no caso dos grupos focais.
Consumos e disposições para consumir
Para uma visão panorâmica sobre a disseminação dos consumos de performance
recorreu-se a um indicador de consumo,[5] onde se constata que a maioria dos
inquiridos (65,8%) já usou algum tipo de fármaco ou produto natural para o
desempenho. Quando se inclui neste indicador o recurso a bebidas energéticas,
usadas com finalidades de performance, a expressão percentual aumenta para
71,9%, o que evidencia não só a vasta disseminação dos consumos de performance
como, também, o expressivo uso destas bebidas para fins performativos (40% da
amostra). Ainda no registo de uma leitura global, é de reter a variação
sociodemográfica que a adesão a estes consumos apresenta. Como se observa no
quadro_1, em ambos os indicadores de consumo (com e sem bebidas energéticas), a
proporção de consumidores entre os jovens universitários é maior do que entre
os jovens trabalhadores; estas diferenças são mais acentuadas, e
estatisticamente significativas, quando se incluem as bebidas energéticas [X2
(1) = 4,522; p= 0,033]. Já na comparação por sexo, é maior a proporção de
consumidores entre as mulheres, quando não se incluem as bebidas energéticas
(indicador de consumo I); quando estas se incluem, é maior a proporção de
consumidores entre os homens (indicador de consumo II); em ambos os casos as
diferenças entre sexos são significativas — [sem bebidas: X2(1) = 19,034;
p < 0,001]; [com bebidas: X2(1) = 3,937; p= 0,047].
Não obstante o interesse analítico em delimitar a expressão global destes
consumos, torna-se necessário, para um conhecimento substantivo deste universo,
atender à composição tanto dos consumos, como das modalidades de adesão ou
recusa que estes suscitam. Como se pode observar no quadro_2 — coluna “Já usou
ou costuma usar” —, os consumos relacionados com a performance neuro-cognitiva
(itens 1 a 6) apresentam percentagens globalmente mais elevadas do que os
consumos relativos à performance físico-corporal (itens 7 a 12). Na primeira
categoria, os “fármacos para a concentração” (25,3%) e os “fármacos para
descontrair/acalmar” (23,8%), representam os consumos com maior expressão; na
segunda categoria, destacam-se os “fármacos e os produtos naturais para
aumentar a energia física” (10,3%), seguidos dos “produtos naturais para
emagrecer” (9,4%). A desigual expressão que se regista entre os consumos para o
investimento na performance neuro-cognitiva, quando comparados com o
investimento na performance físico-corporal, revelou-se uma tendência presente
em qualquer dos diferentes ângulos de abordagem. Tal regularidade aponta para a
atribuição de uma hierarquia de legitimidade destes usos — porventura, também
uma hierarquia de necessidade — cultural e socialmente cultivada, cujo efeito
sobre as modalidades de adesão aos diferentes tipos de consumos requer
aprofundamento futuro, com recurso à componente qualitativa do presente estudo.
Na comparação entre jovens universitários e jovens trabalhadores, os consumos
de performance neuro-cognitiva continuam a deter a expressão mais elevada em
ambos os segmentos populacionais, embora diminua entre os trabalhadores.
Contrariamente, entre estes últimos, os consumos de performance físico-corporal
assumem maior expressão do que entre os universitários.
O quadro_3 sintetiza o cruzamento entre as categorias de consumo predominantes
e o perfil de atividade dos jovens inquiridos. Como se observa, o consumo
dominante para o desempenho neuro-cognitivo, no caso dos universitários,
corresponde aos “fármacos para a concentração”[X2(1) = 29,305; 0,001],
[6]enquanto que entre os trabalhadores predomina o consumo de “fármacos para
descontrair/acalmar”[X2(1) = 2,388; p= 0,122]. Na performance físico-corporal,
entre a população universitária, predomina o consumo de“produtos naturais para
aumentar a energia física”[X2(1) = 1,594; p= 0,207], enquanto que entre a
população laboral predominam os “produtos naturais para emagrecer” [X2(1) =
29,971; 0,001].
Refira-se ainda que, entre os estudantes, são os cursos de saúde e de artes
aqueles que apresentam uma maior incidência de consumos, com os primeiros a
destacarem-se nos consumos para a concentração, e os segundos nos consumos para
a energia física. Entre os trabalhadores, na comparação entre call-centers e
megastores, predominam os primeiros em todas as categorias de consumo.
A relativa heterogeneidade nas categorias de consumo, entre universitários e
trabalhadores, sugere ser um efeito das diferentes pressões contextuais a que
estão expostos cada um dos segmentos populacionais. Ainda que outros fatores
contribuam para a heterogeneidade constatada, os dados sobre as circunstâncias
específicas destes investimentos apontam para esse efeito contextual. As
pressões e requisitos, quer do contexto académico quer do contexto laboral,
constam das circunstâncias mais evocadas para os respetivos consumos. De entre
estas, destacam-se, nos jovens universitários, “melhorar a capacidade de estudo
e concentração” (26,9%)e“realização de provas escolares ou outras” (23,7%); nos
jovens trabalhadores, “melhorar a capacidade de resposta às exigências da vida
profissional” (11,5%) e “melhorar a estética para se sentir melhor” (15,3%); em
ambos os grupos, e com expressão idêntica, destaca-se ainda “melhorar a boa
disposição” (10%).
Na perspetiva de análise em que o presente estudo se situa, tão relevantes
quanto as práticas de consumo são as disposições para consumir. São estas que
permitem avaliar, num registo mais completo, as modalidades de adesão ou recusa
a este tipo de investimentos. De novo, através do anterior quadro_2 e da
leitura do item “nunca usou mas não afasta essa possibilidade”,constata-se que
as disposições de consumo são mais elevadas que os consumos efetivos para todas
as categorias de performance, exceto nos “fármacos para descontrair/
acalmar”,onde a percentagem de inquiridos que admite vir a consumir é
ligeiramente inferior ao total dos que declaram já ter consumido. Na análise
comparativa entre jovens universitários e jovens trabalhadores, mantém-se esta
mesma preponderância das disposições de consumo relativamente às práticas.
Conhecer qual a relação da população jovem com estes consumos implica ir além
das modalidades de adesão e considerar, também, a resistência, recusa ou
desinteresse por tais opções de gestão do desempenho. É este objetivo que dá
corpo à categoria conceptual culturas terapêuticas —ainda que não a esgote[7] —
e cuja exploração analítica preside à leitura dos dados empíricos aqui
presentes. Foi ainda com esta finalidade metodológica — sequenciar práticas,
disposições e modos de resistência, relativas a estes consumos — que foi
integrado no questionário o anterior quadro_2, e no qual se voltam a destacar
duas outras categorias. Uma remete para o desconhecimento sobre os fármacos ou
produtos naturais associados a finalidades de performance — “nunca ouviu falar”
— e a outra remete para a recusa do seu uso — “nunca usou nem está
interessado”.No primeiro caso, verifica-se ser muito escassa a percentagem de
inquiridos que nunca ouviram falar destes produtos e medicamentos; trata-se de
um dado que reconfirma a relativa familiaridade com estes recursos entre a
generalidade da população jovem, incluindo para aqueles que não têm qualquer
experiência direta do seu uso, ou para os que tão-pouco admitem vir a aderir a
tais consumos. No segundo caso, verifica-se que as declarações de desinteresse
e recusa de consumo comportam dois tipos de regularidades: (i) são
percentualmente mais elevadas nos consumos de performance físico-corporal
(itens 7 a 12) e menores nos consumos de performance neuro-cognitiva (itens 1 a
6), excetuando o caso da medicação para dormir; (ii) para todos os tipos de
consumo, as manifestações de recusa têm maior incidência nos fármacos e menor
nos produtos naturais. Estas duas constantes mantêm-se quando se compara a
população universitária e a população laboral. Volta aqui a reatualizar-se uma
hierarquia de legitimidade — entre tipos de performance e tipos de recursos —
já anteriormente constatada. A par deste padrão de recusas seletivas,
identificou-se ainda um perfil anticonsumo, que corresponde aos inquiridos que
recusaram qualquer adesão nos 12 itens do quadro, e cuja expressão se
circunscreve a 12% dos inquiridos.
As razões referidas pelos inquiridos para a não adesão aos consumos de
performance constituem uma outra vertente na reconstituição das culturas
terapêuticas neste universo populacional. Através dessas razões é possível
captar as lógicas sociais que organizam a relação dos inquiridos com a
performance pessoal, bem como o fechamento destas aos consumos medicamentosos.
A partir de um conjunto de variáveis de resposta múltipla, destacam-se as três
razões mais assinaladas pelos inquiridos relativamente a todos os produtos
apresentados: “acha que não precisa”(65,3%), “prefere recorrer a outros meios
para melhorar esse aspeto”(48,6%), “podem ter riscos para a saúde” (47,4%). O
que destas razões sobressai é uma aparente resistência a lógicas de
terapeuticalização da performance pessoal, cuja resiliência cultural em
contextos e circunstâncias específicas justifica futuros aprofundamentos
analíticos para a sua validação.
Trajetórias de consumo
A par das tendências globais dos consumos de performance, importa ainda
considerar o que aqui se designam trajetórias de consumo(Lopes, 2010). Este é
um tópico raramente contemplado nos estudos extensivos disponíveis sobre
medicamentos e investimentos de performance; contudo, constitui um operador
analítico central para dar conta do caráter mais ou menos esporádico,
descontínuo ou regular, dos consumos em análise.
Relativamente à duração dos consumos, encontraram-se três padrões temporais:
duraçãopontual (1 a 3 dias), duração intermédia (= 3 meses) e longa duração
(3 meses). No uso de duração pontual predominam tanto os fármacos como os
produtos naturais para dormire para descontrair/acalmar. No uso de longa
duração, destacam-se os fármacos e produtos naturais para emagrecer,bem como
para o aumentodamassa muscular.No uso de duração intermédia, predominam os
consumos para a concentração, tanto de fármacos como de produtos naturais.
Quanto aos consumos para aumentar a energia física, diferenciam-se entre o uso
de duração intermédia, para os fármacos, e o uso de longa duração, para os
produtos naturais. Considerando que o padrão de duração pontual é também aquele
em que recai parte das categorias com maior expressão de consumo, tal revela a
intermitência e o caráter circunstancial destes consumos. Trata-se de uma
trajetória de uso que confere evidência ao quadro de tendencial naturalização
social destes consumos na gestão do quotidiano.
Outro indicador a considerar respeita ao padrão de regularidade do recurso a
estes consumos. Também neste parâmetro os dados voltam a revelar o caráter
recorrente dos consumos de uso pontual. Com efeito, nos consumos para dormir e
para descontrair/acalmar, mais de 50% dos usos ocorreram há menos de seis
meses. Nos restantes consumos, mais de 50% ocorreram há mais de seis meses. Nos
consumos mais recentes, regista-se uma maior representatividade da população
universitária, exceto no uso dos fármacos para dormir, nos quais tem maior
expressão a população laboral, tal como nos consumos para aumentar a massa
muscular.
A idade de iniciação no recurso a consumos de performance é outro dos
parâmetros significativos para a reconstituição destas trajetórias. Em todas as
categorias constantes do anterior quadro_2, mais de metade dos utilizadores
iniciaram os respetivos consumos antes dos 20 anos. A categoria de iniciação
mais precoce regista-se nos consumos para a concentração, onde a média etária é
de 16,9 anos para o uso dos fármacos, e de 17,1 anos para os produtos naturais.
A iniciação mais tardia regista-se nos consumos para a perda de peso, com a
média etária de 19,6 anos para os fármacos, e de 19,9 anos para os produtos
naturais. Na comparação entre população universitária e população laboral as
diferenças extremam-se: os universitários iniciam mais precocemente todos os
consumos, com médias etárias abaixo de 17,5 anos, exceto nos produtos naturais
para perda de peso (18,7 anos); entre os jovens trabalhadores, as médias de
iniciação situam-se acima dos 19 anos, exceto nos consumos para a concentração
(17 anos). A hierarquia de legitimidade de consumos, em torno do recorte neuro-
cognitivo/físico-corporal, atrás identificada, revela-se também neste
escalonamento etário. É patente a iniciação mais precoce nos consumos de
performance neuro-cognitiva, com particular destaque para os investimentos para
a concentração, bem como a sua transversalidade nos dois segmentos
populacionais. Por contraste, os investimentos de performance físico-corporal
são os de iniciação mais tardia, tanto entre universitários como entre jovens
trabalhadores. Parte destes consumos são iniciados no contexto familiar, como o
permitiu aferir a fase exploratória deste estudo, também confirmada noutras
pesquisas (Singh e Kelleher, 2010). O contexto de iniciação (parcial) destes
consumos revela, por sua vez, a entrada destes recursos medicamentosos nas
trajetórias de socialização primária e, por esta via, a tendencial
naturalização do seu uso.
O natural e o farmacológico nos consumos de performance
O propósito de identificar em que medida convergem, sobre as mesmas finalidades
de performance, o recurso ao natural e ao farmacológico foi concretizado
através de diversos indicadores contemplados na recolha de dados. Parte desses
indicadores constam do quadro_2, onde se observam diversas regularidades
elucidativas da interseção entre o natural e o farmacológico. O uso de produtos
naturais ocorre em todos os itens de performance considerados no quadro;
contudo, a sua distribuição diferencia-se consoante a natureza das finalidades.
Na performance neuro-cognitiva (itens 1 a 6), regista-se uma prevalência do
recurso aos fármacos relativamente ao natural; já nas finalidades associadas à
performance físico-corporal (itens 7 a 12) a relação inverte-se, com o recurso
ao natural a prevalecer sobre os fármacos, exceto nos consumos para aumentar a
energia física, onde as duas categorias se equivalem. Trata-se de uma
diferenciação a requerer futura exploração empírica e analítica, tendo em vista
captar o efeito da própria especialização interna dos mercados da performance —
com maior expressão dos fármacos numas categorias, e dos produtos naturais
noutras —, bem como as lógicas leigas de adesão diferenciada à vasta oferta de
ambos os mercados.
Ao contrário do observado nas práticas, nas disposições de consumo a adesão ao
natural suplanta os fármacos em todas as finalidades (quadro_2 — “nunca usou
mas não afasta essa possibilidade”). A mesma adesão reconfirma-se nas
manifestações de resistência ao consumo — “nunca usou nem está interessado” —,
onde as percentagens de recusa do farmacológico superam a recusa do natural, de
forma generalizada.
A disposição para o consumo do natural tende a associar-se a uma representação
de inocuidade, ou de menor risco, como o confirmam outros dados no âmbito dos
consumos de saúde/ tratamento/ prevenção (Raposo, 2010). No presente estudo,
quando solicitado aos inquiridos para escalonarem o risco dos consumos
constantes do quadro_2, os resultados confirmaram esse mesmo padrão de
perceções sociais: a média do risco[8] atribuído aos fármacos situou-se entre
os níveis “elevado” e “moderado” — com destaque para aqueles associados à
performance corporal — enquanto a média do risco associado aos produtos
naturais se situou no nível “reduzido”. Sublinhe-se, porém, que o risco nem
sempre é um critério prioritário na avaliação das opções de consumo,
particularmente na população jovem (Giddens, 1997; Quintero, 2009, Quintero e
Nichter 2011). Acresce que, nos investimentos de performance, como atrás
registado, predomina um padrão de consumos pontuais, que tende a ser revertido
em improbabilidade de risco, e onde a opção pelo farmacológico — associado à
expectativa de um resultado mais imediato — tende a obter a primazia,
particularmente visível nos investimentos de performance neuro-cognitiva.
Na comparação entre universitários e trabalhadores, as disposições de adesão ao
natural são convergentes entre ambos os segmentos populacionais; porém, nas
práticas efetivas, estes diferenciam-se. Entre os universitários, o recurso aos
produtos naturais predomina em todas as finalidades, exceto nos consumos para a
concentração, onde o recurso a fármacos (29,2%) prevalece sobre os produtos
naturais (21,2%). Contrariamente, entre os trabalhadores são os fármacos que
predominam em todas as finalidades, exceto nos consumos para emagrecer, onde o
natural (16,4%) prevalece sobre os fármacos (12,8%), tal como nos consumos para
aumentaramassa muscular, onde se regista idêntica tendência. Ainda que
requerendo outros instrumentos de aprofundamento analítico, as diferenças nas
práticas aqui constatadas não deixam de indiciar desiguais imperativos e
expectativas sociais sobre as prioridades em matéria de performance, marcadas
por quotidianos sujeitos a desiguais solicitações, que dão conta da segmentação
social e cultural presente neste universo de consumos e de disposições
incorporadas.
Conjuntamente com a confluência entre o natural e o farmacológico, para as
mesmas finalidades de performance, os dados em análise revelaram também uma
utilização, quer dos fármacos, quer dos produtos naturais, orientada para um
padrão de multifuncionalidade — i.e., referente ao uso do mesmo recurso para
finalidades diversas. Esta modalidade de uso foi captada a partir das respostas
acerca da finalidade específica para a qual os inquiridos usaram o medicamento
ou produto natural em questão. Trata-se de um padrão convergente com o
encontrado por Quintero (2009) num outro estudo sobre este tipo de consumos.
Tanto para o fármaco mais mencionado nas respostas [Xanax — alprazolam], como
para o medicamento natural [Valdispert — valeriana], predominaram na indicação
das finalidades dos respetivos usos, objetivos diversos: “melhorar a capacidade
de resposta às exigências da vida profissional”; “realização de provas
escolares ou outras”; “melhorar a boa disposição”. Também as bebidas
energéticas respondem a uma multifuncionalidade de usos tão diversos como:
“aumentar a resistência física para a prática desportiva”, “melhorar a
capacidade de estudo e concentração” e “descontrair/relaxar”.
Com efeito, a multifuncionalidade dos recursos evidencia-se como uma outra
particularidade do mercado da performance. Não obstante a participação dos
fármacos na produção deste quadro de multifuncionalidade, são os produtos
naturais que mais extensivamente reproduzem tal padrão. Isso sucede,
designadamente, por efeito das desiguais vias de regulação e de acessibilidade
a cada um destes meios terapêuticos, bem como pelas margens de autonomia leiga
na gestão terapêutica, que o natural propicia.
Culturas terapêuticas em mudança: reflexões finais
Como o evidenciaram os dados empíricos analisados neste texto, a disseminação
cultural dos consumos de performance entre a população jovem constitui um
fenómeno cuja amplitude vai para além das práticas de consumo. É igualmente
manifesta na elevada expressão das disposições para consumir, tanto quanto no
generalizado (re)conhecimento destes consumos e das suas finalidades, mesmo
entre aqueles que se demarcam de qualquer adesão a este tipo de investimentos.
Uma das instâncias desta disseminação reside na própria expansão do mercado
terapêutico, sob a forma de uma emergente indústria da performance, cuja
profusa promoção informacional dá lugar a um universo de paisagens
informacionais (Clamote, 2010). É destas últimas que resulta, no imediato, o
efeito de visibilidade e familiaridade pública com estes meios terapêuticos e
os seus novos usos de performance.
Contudo, a emergência de uma indústria da performance, por mera ação dos seus
mecanismos sociais de difusão, não transforma a familiaridade pública com estes
recursos em adesão ao seu consumo. Tal conversão procede da confluência de
outros mecanismos sociais, inscritos nos próprios contextos quotidianos dos
indivíduos.
Das instâncias de inculcação de disposições e práticas, no domínio dos consumos
de performance, o material empírico e analítico apresentado assinalou um efeito
contextual, expresso na heterogeneidade dos investimentos de performance entre
a população universitária e laboral. Os diferentes imperativos de
performatividade específicos dos contextos académico e profissional enunciam-
se, deste modo, como potencialmente geradores de perceções e de necessidades
diferenciadas que, por sua vez, configuram e distinguem as lógicas de consumo.
Contudo, este efeito contextual, não se afigura redutível a uma linear relação
de causalidade. Qualquer sentido de causalidade adquire aqui uma amplitude mais
complexa, simultaneamente mais difusa e mais estrutural, na medida em que esses
mesmos contextos — configurados enquanto espaço social das práticas (Bourdieu,
1979) — são também geradores de expectativas sociais de desempenho, auto e
hétero inculcadas. As práticas e as disposições de consumo revelam-se, assim,
estruturadas por uma conjugação social de efeitos onde se inscrevem imperativos
de performatividade e expectativas de resposta à sua gestão moldadas pelos
dispositivos que o mercado oferece. São processos cujo alcance é mediado
através de sociabilidades contextualizadas, constituindo-se estas últimas como
o mecanismo privilegiado de inculcação.
Enquanto objeto de análise, a relevância dos consumos de performance e da sua
disseminação, tal como enunciado na abertura do presente texto, reside no que
estes representam de mudanças mais estruturais nas culturas terapêuticas, ou
seja, na reconfiguração das lógicas de relação com os produtos medicamentosos.
Como se sustentou, a terapeuticalização da gestão do desempenho em que se
inscreve este tipo de consumos — sob a forma de recurso a fármacos ou a
produtos naturais — constitui a matriz da mudança e reconfiguração das culturas
terapêuticas. Com efeito, dado o facto de os investimentos de performance terem
a sua génese culturalmente dissociados da esfera da saúde, o atual recurso a
meios terapêuticos para finalidades não terapêuticas assinala algo socialmente
novo, num quadro em que a tradicional matriz das culturas terapêuticas emergiu,
e permaneceu, ancorada no perímetro cultural da saúde.
Em consequência, mais do que uma redefinição das fronteiras entre saúde e
doença, ou entre o normal e o patológico, o que este novo quadro de consumos
assinala é a redefinição das fronteiras entre os usos dos recursos
medicamentosos, descentrando-os das suas tradicionais finalidades terapêuticas.
É neste registo que assumem renovada relevância as condições em que, como
referem Williams, Gabe e Martin (2012), a farmacologização excede a
medicalização.
Assim, redirecionar o foco analítico dos consumos de performance para as
culturas terapêuticas, afigura-se um exercício epistemológico indispensável
para dar conta, não apenas dos novos usos sociais do medicamento, mas também
das novas legitimidades sociais desses novos usos.
Decerto, importa não elidir que as culturas terapêuticas também se constituem
de formas de resistência à terapeuticalização, designadamente da performance,
mesmo que num registo parcial ou circunscrito, como o evidenciaram os
resultados apresentados. Tal facto dá conta da pluralização, e coexistência
social, de divergentes orientações no quadro das culturas terapêuticas,
enquanto produto específico da atual modernidade reflexiva (Giddens, 1997).
Nesta medida, é uma pluralização que constitui também um desafio analítico para
captar os diferentes sentidos de reconfiguração do espaço social da saúde e,
porventura, dos seus espaços limítrofes. É também um desafio para aprofundar o
olhar teórico sobre as dinâmicas sociais que estão a disseminar as formas de
terapeuticalização do quotidiano.