Nivelação e desigualdade na inserção profissional de diplomados do ensino
superior
As desigualdades sociais no ensino superior e na inserção profissional
Um vasto conjunto de estudos realizado a nível nacional e internacional nos
domínios da sociologia e das ciências da educação tem vindo a discutir, há
largas décadas, em que medida o sistema escolar opera, de forma eficaz, como
uma instância de atenuação dos processos de reprodução das desigualdades
sociais.[1] Além da relevância sociológica da questão, muito contribuiu para o
seu incremento a proclamação do ideal político de que a situação desigual em
que os indivíduos originalmente se encontram para participar no jogo social
deve ser mitigada, se não retificada. À instituição escolar caberia grande
parte dessa função, por um lado compensando os handicaps culturais dos
indivíduos provenientes de meios mais distantes da cultura escolar; por outro,
procedendo à seriação dos sujeitos de acordo com os seus “méritos intrínsecos”,
isto é, de acordo com um conjunto de qualidades supostamente expurgadas de
contaminações sociais.[2] A avaliação dos desempenhos da instituição educativa
à luz deste desígnio equalizador, ressalvando os seus êxitos, limites e logros,
não deixou de parte quaisquer níveis de escolaridade, estendendo-se do básico
ao universitário.
No caso do ensino superior (Seabra, 2009; Pintassilgo, 2003), a discussão
desdobra-se em três linhas complementares. A primeira centra-se na problemática
do acesso, interrogando em que medida esse nível de escolaridade é alcançável
por indivíduos provenientes de posições sociais díspares, com destaque para os
oriundos dos segmentos sociais mais descapitalizados. A maior parte dos estudos
comunga na dupla constatação de que o ensino superior vem alargando a sua base
social de recrutamento, mas que a probabilidade de acesso continua a ser
condicionada pelas origens sociais. Ambas as conclusões têm sido assinaladas em
vários países europeus (Duru-Bellat, 2005; Duru-Bellat, Kieffer e Reimer, 2008;
Müller e Karle, 1993) ou nos EUA (Blau e Duncan, 1967). Em Portugal, foram, num
primeiro momento, sublinhadas nos textos clássicos de Sedas Nunes sobre a
universidade portuguesa (Nunes, 1968), para, em décadas posteriores, serem
reiteradas, de forma amenizada, nos trabalhos de Cruz e Cruzeiro (1995), Balsa
e outros (2001), Almeida e outros (2003), Martins, Mauritti e Costa (2005) ou
Costa e Lopes (2010).
Um segundo enfoque transfere a análise para o interior do sistema,
“contemplando os seus distintos segmentos hierarquizados e o modo como estes
acolhem diferenciadamente populações de diferentes extrações sociais” (Chaves,
2010: 333). Algumas das pesquisas mais divulgadas que abordam esta matéria
salientam que os descendentes das famílias com maior volume de capitais tendem
a apropriar-se dos títulos académicos distintivos, ou seja, a ingressar nas
instituições e cursos com maior prestígio, realizando percursos académicos mais
prolongados (Berggren, 2008; Davies e Guppy, 1997; Duru-Bellat, Kieffer e
Reimer, 2008; Kivinen e Rinne, 1991; Reimer e Pollak, 2010). Mais uma vez estes
resultados encontram eco em estudos nacionais (Alves, N., 2009; Almeida e
outros, 2003; Balsa e outros, 2001; Mauritti, 2003), nomeadamente em análises
desenvolvidas pelos autores do presente texto (Chaves, 2010; Chaves e Nunes,
2011; Morais, 2012).
Finalmente, a terceira linha de observação transfere a análise do problema para
jusante do sistema, isto é, para o momento da inserção profissional, procurando
aferir se (e em que grau) a longa trajetória escolar e a posse de títulos
académicos reduz o impacto explicativo das origens sociais na distribuição
diferenciada dos diplomados no mercado de trabalho.
Este último enfoque, que permite perspetivar, com maior precisão, as
articulações entre educação e emprego do ponto de vista da mobilidade social
(Alves, M., 2003; Duru-Bellat, 2002), distingue-se dos dois anteriores por duas
razões. Em primeiro lugar, embora tenha sido adotado com alguma assiduidade na
sociologia internacional (Hout, 1988; Torche, 2011; Bernardi, 2012; Bukodi e
Goldthorpe, 2011; Mastekaasa, 2011; Opheim, 2007; Triventi, 2011), raramente
beneficiou de tratamento por parte da sociologia portuguesa (Abrantes, 2011;
Seabra, 2009). Em segundo lugar, os estudos que trabalham o tema chegam a
resultados menos convergentes do que os que focalizam a sua atenção nas duas
linhas anteriores. Se várias análises, sobretudo as realizadas na Europa,
reportam que o impacto das origens sociais nos destinos profissionais se torna
legível mesmo entre os indivíduos que possuem graduações do ensino superior
(Ballarino, Bernardi e Panichella, no prelo; Bernardi, 2012; Bukodi e
Goldthorpe, 2011; Erikson e Jonsson, 1998; Hansen, 2001; Mastekaasa, 2011;
Zella, 2010), outras, mais associadas à produção sociológica norte-americana,
assinalam que as posições hierárquicas alcançadas no mercado de trabalho
revelam considerável autonomia dessas mesmas proveniências (Hout, 1988; Hauser
e Logan, 1992; Warren, Sheridan e Hauser, 2002). A disparidade de resultados
continua por vezes a evidenciar-se, mesmo se nos circunscrevermos aos estudos
realizados num único país. A título de exemplo, uma análise recentemente
realizada nos EUA chama a atenção para o efeito das origens sociais na inserção
profissional entre os diplomados que dispõem de recursos académicos com maior
cotação (Torche, 2011), afastando-se assim, parcialmente, das conclusões dos
estudos de Hout (1988) ou de Hauser e Logan (1992), realizados nesse mesmo
país. Por seu turno, algumas investigações europeias sugerem que as origens
sociais têm pouco impacto no percurso profissional dos diplomados (Opheim,
2007; Vallet, 2004), e que esse efeito é tanto menor quanto mais distintivos
forem os recursos académicos por eles alcançados (van de Werfhorst, 2002).
A descoincidência de resultados não surpreende. As diferentes sociedades
integram sistemas de ensino e estruturas ocupacionais dissemelhantes, além de
revelarem níveis diferenciados de mobilidade social e estrutural. Além disso,
mesmo considerando um único país, o ensino superior encontra-se fracionado em
subsistemas, cursos e estabelecimentos de ensino que propiciam distintas
experiências formativas e que beneficiam de diferentes cotações no mercado da
formação. Os resultados poderão, portanto, sofrer oscilações consideráveis,
conforme a escala e o recorte dos universos analisados. No caso português, é
razoável admitir que as conclusões variem se se considerar apenas as
universidades públicas, o conjunto das universidades (incluindo os setores
privado e concordatário) ou a totalidade do ensino superior.
O presente artigo pretende contribuir para o reforço em Portugal da terceira
linha de análise. Especificamente, procura-se avaliar se os efeitos
homogeneizadores decorrentes da graduação académica e da longa socialização
escolar anulam, ou pelo menos atenuam, de forma notória, as lógicas de
reprodução das desigualdades no momento em que os diplomados se procuram
incorporar no mercado de trabalho.
Para refletirmos sobre esta questão, basear-nos-emos num universo que agrupa a
totalidade dos licenciados de duas das maiores universidades portuguesas — a
Universidade de Lisboa (UL) e a Universidade Nova de Lisboa (UNL) — que
concluíram os seus diplomas em 2004-2005. Se tivermos em mente a extensão
reduzida dos universos contemplados nos inquéritos à inserção ou à trajetória
profissional dos diplomados realizados em Portugal, somos obrigados a
reconhecer que se trata de uma dimensão relativamente ampla. Com efeito, desde
o inquérito inédito realizado em 2001 pelo Sistema de Observação de Percursos
de Inserção dos Diplomados do Ensino Superior (ODES) à totalidade dos
licenciados portugueses, os levantamentos desta natureza foram conduzidos pelos
próprios estabelecimentos de ensino, de forma autónoma, nunca extravasando os
limites de uma dada faculdade ou universidade. Em virtude de esses estudos
utilizarem definições e indicadores díspares, torna-se muito difícil ou
impossível agregar a informação numa mesma base, o que afeta sobremaneira a
acuidade analítica dos dados disponíveis (Chaves, Morais e Nunes, 2009).[3]
Convém porém ressalvar que, não obstante as suas potencialidades, mesmo o nosso
universo é limitado: representa 17% do total de graduados do ensino
universitário público do ano de 2004-2005, 12% se se incluir o ensino privado e
concordatário, e 6% se lhe adicionarmos também o ensino politécnico. Além
disso, encontramo-nos perante diplomados de um único ano letivo e que foram
formados em duas universidades com particularidades que procuraremos mais à
frente discernir. Estes aspetos terão que ser acautelados na análise, assim
como em quaisquer exercícios de extrapolação.
O estudo: metodologia e variáveis
O universo analisado abrange a totalidade dos licenciados da UL e da UNL,
formados no ano letivo de 2004-2005, perfazendo um total de 4290 indivíduos,
agrupados numa mesma base de sondagem. O questionário foi aplicado
telefonicamente, entre novembro de 2010 e janeiro de 2011, a 1004 indivíduos
extraídos aleatoriamente. A amostra é estatisticamente representativa do
universo, com um erro máximo estimado de 2,71% para um nível de confiança de
95%. A inquirição procurou caracterizar a situação profissional dos licenciados
das duas universidades em vários momentos temporais: 1, 3 e aproximadamente 5
anos após a graduação. Os dados mobilizados no presente artigo reportam apenas
ao último período.
No sentido de se responder à questão explicitada no bloco anterior mobilizaram-
se quatro variáveis independentes que demarcam dois géneros de recursos. De um
lado, os recursos diretamente associados às origens sociais, expressos nas
variáveis (i) capital escolar e (ii) classe social da família de origem. Do
outro, dois tipos de recursos académicos: (iii) a área de formação e a (iv)
classificação final de curso.
Capital escolar da família de origem.Para a construção desta variável
considerou-se o nível escolar mais elevado completado por um dos progenitores
dos diplomados inquiridos. 21,4% dos graduados provêm de famílias cujos
progenitores não foram além do 1.º ciclo do ensino básico, 5,5% de núcleos
familiares em que o membro parental mais instruído se ficou pelo 2.º ciclo do
ensino básico, 12,8 % de agregados em que esse elemento atingiu o 3.º ciclo e
20,4% em que o patamar atingido foi o do ensino secundário ou pós-secundário. A
percentagem daqueles que provêm de famílias em que pelo menos um dos pais
concluiu o ensino superior ascende a 38,8%, correspondendo a mais de um terço
da amostra.
Classe social do agregado.A classificação dos indivíduos por classe seguiu os
critérios da tipologia de lugares de classe ACM (Costa, 1999; Machado e outros,
2003), sintetizados na matriz apresentada por Machado e outros (2003: 51). Para
se obter a classe social do agregado conjugaram-se os lugares de classe de cada
um dos pais através de um critério de “dominação” (Alves, N., 2009), isto é,
atribuindo ao agregado o lugar de classe ocupado pelo seu membro mais
capitalizado (independentemente do género).[4] Os agricultores independentes
(1,6%) e os assalariados agrícolas (0,6%) foram agregados, respetivamente, aos
trabalhadores independentes e aos operários industriais. Sem essas junções, o
peso residual das duas primeiras classes teria inviabilizado a realização de
testes estatísticos de dependência e associação.[5] Obtiveram-se assim as
seguintes distribuições: operários industriais associados aos assalariados
agrícolas (OIAA) perfazem 7,8% do total; os empregados executantes (EE) agrupam
19,8% das famílias; o somatório dos trabalhadores independentes e dos
agricultores independentes (TIAI) representa 7,7% do universo; os profissionais
técnicos e de enquadramento (PTE) assumem um peso percentual de 30,1%;
finalmente, os empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) abrangem
os remanescentes 31,9%.
Área de formação. Esta variável foi construída a partir da Classificação
Nacional de Áreas de Educação e Formação, combinando os três primeiros níveis
de desagregação aí previstos, no sentido de contemplar de forma mais fina o
tipo de cursos oferecidos pelas duas universidades em análise.[6] As Artes e
Humanidades (21,4%) são a área de formação predominante, seguindo-se a Saúde
(12,7%), as Ciências Físicas (12%), a Educação (10%), o Direito (9,7%), as
Ciências da Vida (8,6%), as Ciências Sociais e o Jornalismo (7,7%), a Economia
e Gestão (6,7%), a Matemática, Estatística e Informática (6,7%) e, por último,
as Engenharias Industriais e Construção (4,9%).
Classificação final de curso. Tendo por base a escala de 20 valores utilizada
pelas universidades portuguesas, organizaram-se os tipos de classificação em
três intervalos: até 12 valores (11,1%); 13 e 14 valores (53,5%) e 15 ou mais
valores (35,4%).
A variável dependente construída para mapear as diferentes situações
profissionais assumiu o formato de tipologia. O facto de se distinguir de
tipologias anteriores, igualmente orientadas para a caracterização de posições
ou de trajetórias profissionais de graduados (e.g. Alves, N., 2009; Giret,
2000; Grelet, 1997; Parente e outros, 2011; Parente e Veloso, 2009; Pottier,
1992), obriga-nos a dedicar algum espaço à elucidação do seu modo de
construção, assim como à descrição dos tipos que a constituem.
Antes disso, importa acrescentar que, com a mesma finalidade de identificar a
situação desigual dos diplomados no mercado de trabalho, equacionámos a
possibilidade de utilizar, em simultâneo com a tipologia, a variável “situação
perante o trabalho”. Esta permitiria diferenciar os diplomados em “empregados”,
“desempregados” e “inativos”, e apurar em que medida essas situações se
encontravam associadas aos quatro tipos de recursos acima referidos. O uso
dessa variável foi, no entanto, descartado. A baixa incidência de desempregados
(2,5%) e a elevada proporção de empregados (88%) com que deparámos no seio
desta população inviabilizariam a realização dos necessários testes
estatísticos de dependência e associação. O problema foi bastante atenuado em
virtude de a situação dos diplomados perante o trabalho ter sido incorporada na
construção da variável tipológica, como se verá de seguida.
As posições no mercado de trabalho: uma análise tipológica
Para a construção da tipologia procedeu-se a uma análise de correspondências
múltiplas (ACM) em que se mobilizaram cinco variáveis, qualquer delas
normalizada com base nos critérios oficiais do INE: “grupo profissional”,
“situação perante a profissão”, “vínculo contratual”, “rendimentos salariais” e
“horário de trabalho”. Configurou-se assim um espaço multidimensional
estruturado pela interdependência de indicadores qualitativos e assinalou-se a
existência de grupos com perfis específicos (Carvalho, 2008; Geer, 1993a,
1993b; Gifi, 1996; Meulman, 1992). De seguida, tendo como input os scores dos
indivíduos nas duas dimensões estruturantes da ACM, e com base numa análise de
clusters, foi finalmente possível passar da “topologia à tipologia” (Carvalho,
2004: 19). A análise de clusters exploratória, realizada através de métodos
hierárquicos, chamou a atenção para a pertinência de se definirem cinco tipos
de situações profissionais.[7] A construção final da tipologia foi realizada
com base num método de otimização (K-means).
A observação atenta dos resultados permitiu concluir que os cinco tipos de
situações profissionais obtidos se perfilavam num continuumhierarquizado,dos
mais vulneráveis e precários para os mais qualificantes e capitalizados, tendo-
lhes sido atribuídas as seguintes designações: “inserção frágil acentuada”;
“inserção frágil”; “inserção clássica assalariada”; “inserção clássica
assalariada qualificante” e “inserção qualificante: empresários, gestores e
profissionais liberais capitalizados”.
Designado “inserção frágil acentuada”, o grupo 1 é o mais reduzido (3,4%).
Contém a maior percentagem de trabalhadores sem vínculos organizacionais,
sobrequalificados, em situações de trabalho a tempo parcial e de subremuneração
extrema. Nele predomina a ausência de contratos (50,0%) e, de seguida, os
contratos a termo (30,8%). Estão-lhe muito associados os horários semanais
reduzidos, inferiores a 17 horas (76,9%) e os baixos salários (88,4% auferem
menos de 600,00 euros). A porção de trabalhadores em atividades profissionais
desajustadas do nível de instrução (neste caso todos eles inscritos no grupo 5
— serviços pessoais, de proteção e segurança e vendedores), ascende a 11,5%.[8]
O segundo tipo, denominado “inserção frágil” (11,4%), apresenta características
próximas das do grupo anterior, todavia com níveis remuneratórios e horários de
trabalho reveladores de menor vulnerabilidade. Trata-se ainda assim de
situações profissionais frágeis, caracterizadas pelo trabalho sem filiação ou
vínculo organizacional: 41,4% não dispõem de qualquer contrato, 26,4% possuem
um contrato a termo e 20,7% um contrato de prestação de serviços ou com uma
empresa de trabalho temporário. De referir ainda os 34,5% que trabalham por
conta própria sem assalariados. Do ponto de vista da duração do trabalho
semanal, observou-se, à semelhança do tipo anterior, uma sobrerrepresentação do
trabalho a tempo parcial, embora a duração seja superior, uma vez que apenas
16,1% trabalham menos de 17 horas. Em termos salariais, 60% inscrevem-se no
escalão dos 600,00 aos 1200,00 euros. Por fim, verifica-se um peso superior da
sobrequalificação, se considerarmos que 17,2% dos seus elementos se distribuem
entre o pessoal administrativo e os trabalhadores dos serviços.
A partir do tipo 3 regista-se uma melhoria progressiva da qualidade do emprego,
que se intensifica claramente nas situações profissionais 4 e 5.
Denominado “inserção clássica assalariada”,o tipo 3 é o mais volumoso,
abrangendo 42,7% do total de empregados. Todos os licenciados inseridos neste
grupo se encontram vinculados a uma organização. Além disso, 47,4% exercem uma
atividade em horário semanal completo (entre 35 e 40 horas), dispondo de
contratos de trabalho a termo (57,5%) ou sem termo (40,9%). De referir que
cerca de 86% auferem um salário mensal líquido igual ou superior a 900,00 euros
(53,2% têm um rendimento até 1200,00 euros e 22,5% entre os 1200,00 e os
1800,00 euros), o que representa um rendimento salarial superior à média
nacional. Constata-se ainda assim a existência de um peso importante de
licenciados inseridos neste grupo que se encontram em situação de
sobrequalificação (22,2%), dividindo-se entre o pessoal administrativo e
ostrabalhadores dos serviços.
Uma “inserção clássica assalariada qualificante” caracteriza o tipo 4 (35,9%).
Aqui, a totalidade dos licenciados são trabalhadores por conta de outrem. Este
tipo distingue-se do anterior pela maior estabilidade de emprego, salários
elevados e sobrecarga horária, apresentando ainda condições mais favoráveis em
termos simbólicos. Daí o adjetivo “qualificante”. A comprová-lo, 58,6% auferem
salários entre os 1200,00 e os 1800,00 euros e 23,4% entre os 1800,00 e os
2500,00 euros; além disso, 78,4% dispõem de um contrato sem termo. Do ponto de
vista dos grupos profissionais representados, os especialistas das atividades
intelectuais e científicas correspondem à maioria (66,7%), embora assumam
também alguma relevância os representantes do poder legislativo e de órgãos
executivos (14,3%) e os técnicos e profissionais de nível intermédio, que
perfazem 16,5% do conjunto.
Por fim, o tipo 5 (6,6%) é designado “inserção qualificante: empresários,
gestores e profissionais liberais capitalizados”, uma vez que é constituído por
trabalhadores assalariados da administração pública ou por empresários,
inseridos em grupos profissionais adequados ao nível de formação, em situação
de sobreemprego e com remunerações elevadas, tanto se se considerar o universo
em análise como a generalidade da população portuguesa: 42,0% dos indivíduos
auferem remunerações acima dos 2500,00 euros líquidos e 78,0% trabalham mais de
40 horas por semana. É de longe a categoria com maior proporção de
representantes do poder legislativo e de órgãos executivos (44,0%), o que se
traduz no menor peso assumido pelos especialistas das atividades intelectuais e
científicas (52,0%), que continuam, todavia, a ser maioritários. No que
concerne à situação na profissão, observamos uma distribuição bastante
equilibrada entre trabalhadores por conta própria com assalariados (38,0%) e
trabalhadores por conta de outrem (34,0%). É, aliás, o único grupo em que os
trabalhadores por conta própria com assalariados assumem uma dimensão relevante
(28%). Curiosamente, os indivíduos que não dispõem de contrato de trabalho são
aqui maioritários (64%) face àqueles que possuem vínculos desse género. No
entanto, trata-se de situações de ausência de contrato que, ao contrário do que
sucede no grupo 1, não traduzem formas de precariedade, pois são
características de empresários, consultores e juristas (em particular
advogados) que, além de obterem rendimentos significativamente superiores à
média, possuem boas perspetivas de se manterem em atividade, transitando entre
empresas ou organismos públicos.
Aos cinco tipos apresentados, todos eles constituídos por indivíduos inseridos
no mercado de trabalho, adicionou-se, a posteriori, o grupo dos desempregados
(tipo 0) que corresponde a 3,1% do total. Em sintonia com a definição do INE,
os desempregados são indivíduos que, não se encontrando a desenvolver trabalho
remunerado, estão disponíveis para trabalhar e realizam diligências ativas para
encontrar trabalho.
No sentido de viabilizar os necessários testes estatísticos procedeu-se à
agregação das categorias 0, 1 e 2 que, como sublinhámos, se encontram em
situações mais precárias do que qualquer das outras, nomeadamente do que o
grupo 3. Os tipos 4 e 5 foram também associados pois, apesar das diferenças
documentadas, correspondem ambos a casos de inserção especialmente
capitalizados e qualificantes.
Recursos e posição no mercado de trabalho.
Importa de seguida observar em que medida os recursos familiares e académicos
influem na distribuição dos licenciados da UL e da UNL pelos vários tipos de
situação profissional.
A leitura do quadro_2 permite constatar que a variação dos licenciados em cada
um dos tipos profissionais segundo o nível de escolaridade dos agregados
familiares é mínima. A observação é reforçada pelo teste do qui-quadrado, pois,
segundo este, as variáveis não se encontram associadas. Ainda assim, é de
assinalar a sobrerrepresentação da “inserção qualificante” junto dos diplomados
provenientes de agregados com nível de instrução superior. Só junto destes o
peso dos tipos 4 e 5 ultrapassa a média global (sendo a diferença de 48,1% para
40,9%); e é também junto deles que ambos os tipos remanescentes se situam
abaixo dos valores médios obtidos para o total.
A distribuição dos licenciados pela tipologia é mais afetada pela segunda
variável associada às origens sociais: a posição de classe da família de
origem. Configura-se, nesse caso, uma associação detetada pelo teste do qui-
quadrado (quadro_3), embora de reduzida intensidade (V de Cramer = 0,129). Se
observarmos diretamente os dados é possível assinalar que as inserções mais
qualificantes aumentam paulatinamente à medida que progredimos das classes
menos capitalizadas para as que detêm maior volume de capital global. A
clivagem torna-se particularmente nítida se confrontarmos as duas categorias
extremas. Entre os operários industriais e assalariados agrícolas (OIAA) a
presença de indivíduos inscritos no tipo de “inserção qualificante” não vai
além de 21,5%, registando pouco mais de metade do peso que assume no total da
população (40,9%), ao passo que para os empresários, dirigentes e profissionais
liberais (EDL) esse valor é já de 46,3%. Por seu turno, as situações de
“desemprego e inserção frágil” assumem maior incidência junto dos diplomados
provenientes das duas classes menos capitalizadas, com destaque para os
licenciados com famílias na posição de classe dos empregados executantes (EE)
(25,6%). As diferenças de classe fazem-se sentir sobretudo no acesso às
posições profissionais mais sólidas e bem remuneradas e não tanto no
afastamento dos tipos situados no sendeiro mais débil da hierarquia
profissional.
A área de formação constitui, sem dúvida, o aspeto que tem um impacto mais
nítido na distribuição desigual dos indivíduos pelos diferentes tipos de
situação profissional. Trata-se de uma associação estatisticamente
significativa e que, de acordo com o V de Cramer (0,354), regista uma
intensidade média, ao passo que o mesmo teste permitia descortinar uma
associação apenas fraca com a variável “classe social do agregado”.
Para se captar, de forma detalhada, o efeito das áreas de formação, optámos, no
quadro_4, por seriar as referidas formações da esquerda para a direita, de
acordo com o peso crescente que nelas assumem as inserções mais favoráveis e
qualificantes.
O peso de cada tipo profissional nas várias áreas de formação sofre variações
que, em certos casos, superam os 50%. Surgem primeiro os licenciados em
Educação que se encontram maioritariamente em situações de “inserção clássica
assalariada” (69%). As dificuldades de acesso às posições cimeiras da tipologia
são patentes na reduzida presença, entre eles, dos dois tipos de inserção mais
qualificantes (4 e 5), cujo somatório não ultrapassa os 6% quando na média
total ascende a 41,1%. Inversamente o peso da categoria “desemprego e inserção
frágil” eleva-se a 25%, ao passo que, no total, não ultrapassa os 17,5%.
Seguem-se os licenciados em Artes e Humanidades com uma presença mais assídua
da “inserção qualificante” (19,8%), não obstante seja também nessa formação que
se regista uma maior parcela de indivíduos inscritos na categoria “desemprego e
inserção frágil” (28,2%), isto é, uma maior dificuldade de tradução do título
académico em capitais profissionais. Assoma de seguida um grupo que integra os
licenciados em Ciências Sociais e Jornalismo, Ciências Físicas e Ciências da
Vida. Qualquer deles se encontra maioritariamente instalado numa “inserção
clássica assalariada” (respetivamente, 50,8%, 53,7% e 47,4%), assumindo uma
distribuição similar quer nas posições mais precárias quer nas mais
qualificantes. No cotejo entre as três áreas, o cenário é ligeiramente
favorável ao contingente das Ciências da Vida.
Perfila-se, no patamar seguinte, um conjunto de quatro áreas de formação —
Direito, Matemática, Estatística e Informática, Engenharias Industriais e
Construção, e Saúde —, no qual a maior parte dos diplomados, e numa expressão
que ultrapassa de forma clara os valores médios gerais, ascende às formas de
“inserção qualificante”. Importa contudo acrescentar que as Engenharias
industriais e construção, mas fundamentalmente o Direito registam pesos de
inserções frágeis que assumem também algum significado. Os licenciados desta
última área registam grandes disparidades no posicionamento no mercado de
trabalho, expressas tanto na sobrerrepresentação das categorias extremas, como
na subrepresentação da categoria intermédia (“inserção clássica assalariada”).
Esta situação peculiar deve ser interpretada de acordo com as especificidades
do exercício da advocacia, profissão declarada pela maioria destes licenciados
e que coloca este segmento numa situação de discrepância que, grosso modo, opõe
os jovens advogados que trabalham em médias e grandes sociedades aos que
exercem a profissão isoladamente, não dispondo de, pelo menos, um bom contrato
de avença (Chaves, 2010; Chaves e Nunes, 2012).
Por último, os licenciados em Economia e Gestão são os que em maior proporção
se inscrevem nos dois tipos capitalizados e qualificantes de inserção
profissional (82,8%). A confirmação da elevada taxa de conversão deste género
de capital académico em capitais profissionais pode também ser aferida pelo
peso residual que junto deles assume a “inserção clássica assalariada” e na
total ausência de indivíduos inscritos no grupo “desemprego e inserção frágil”.
É importante assinalar que os resultados que se prendem à Economia e Gestão
poderão ser dos mais afetados pelo efeito, aqui oculto, do estabelecimento de
ensino. A totalidade destes diplomados provém da Nova School of Business and
Economics, uma das faculdades portuguesas que, com toda a probabilidade,
usufruirá de maior cotação simbólica junto dos empregadores, tornando este
resultado particularmente contingente ao universo em análise.
Ao contrário do que seria de prever, o teste do qui-quadrado indica não existir
uma associação com significado estatístico entre as classificações finais de
curso, e os tipos de inserção profissional. Tal não significa que o impacto dos
resultados escolares seja totalmente espúrio. De facto, a observação do quadro
5 permite constatar que as posições profissionais mais capitalizadas vão
gradualmente aumentando à medida que as classificações escolares se elevam, o
inverso sucedendo à medida que as classificações se retraem.
Estes resultados recomendam, sem dúvida, explorações suplementares. Sem colocar
de parte outras hipóteses (nomeadamente a de que um efeito mais expressivo das
notas de final de curso possa ser ocultado por eventuais diferenças entre as
classificações médias obtidas em cada área), é possível que a relevância
concedida pelas entidades empregadoras às classificações académicas fique em
grande parte circunscrita a determinados segmentos do mercado, com destaque
para o setor público, setor que era, no cômputo global, minoritário, uma vez
que não representava mais do que 37% dos graduados da nossa amostra que se
encontravam empregados.
Para incrementar a análise realizou-se ainda um ensaio de regressão categorial
(via optimal scaling) que incluiu todas as variáveis independentes atrás
consideradas, no sentido de cotejar a sua importância na explicação da
distribuição dos diplomados na tipologia.
O exercício permitiu, uma vez mais, confirmar a relevância preditiva da área de
formação (coeficiente de Pratt = 0,879), que explica mais de 13% do
posicionamento dos licenciados na tipologia (R2part = 13,1), ao passo que a
classe social do agregado familiar assume um nível de importância muito
reduzido (coeficiente de Pratt inferior a 0,1). Tanto o nível de instrução da
família de origem como a classificação final de curso voltam a não estar
correlacionados com a tipologia. Constatou-se, posteriormente, que se a
variável área científica não fosse introduzida na regressão, deixando pois de
se neutralizar o seu efeito no comportamento da variável classe, o coeficiente
de Pratt desta última ascenderia a 0,658, o que é bem indício do quanto o
efeito da classe é intermediado pelo da área de formação.
Num balanço final, três pontos há a destacar. Primeiro, as áreas de formação
assumiram uma clara proeminência explicativa na distribuição desigual dos
graduados no mercado de trabalho. Tal facto tornou-se notório no momento em que
se procurou apurar a intensidade da correlação entre a área de formação e a
tipologia, e reforçou-se ainda mais após se ter levado a cabo a análise de
regressão. Esta última permitiu evidenciar que o efeito das áreas de formação
na explicação continua a ser significativo, mesmo controlando o efeito indireto
das outras variáveis nessa correlação. O segundo ponto a sublinhar é que o
efeito direto das origens sociais nessa distribuição, não sendo despiciendo, é
pouco expressivo, e claramente menor do que o da área de formação.
Por último, a relevância da classe social na explicação da distribuição dos
diplomados no mercado de trabalho parece depender, em grande medida, das áreas
de formação, uma vez que se se controlar o efeito dessas áreas no comportamento
da variável classe, a correlação desta última com a tipologia, perde grande
parte do seu peso. Com efeito, à semelhança de estudos anteriores (Almeida e
outros, 2003; Machado e outros, 2003; Mauritti, 2003), também junto da presente
população se tornou patente que o processo de seleção das áreas de formação é
marcado por clivagens de classe (Morais, 2012: 41). A título de exemplo, o peso
dos empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) em somatório com o
dos profissionais técnicos e de enquadramento (PTE) entre os licenciados em
Educação ou Artes e Humanidades (precisamente aqueles que possuem menos
indivíduos numa situação de “inserção qualificante”), é respetivamente de 52,6%
e 55,6%, ao passo que nas Ciências Médicas ou na Economia e Gestão, formações
que se destacam pelo caráter qualificante da sua inserção, a presença dessas
mesmas classes perfaz 76% no primeiro caso e 84,6% no segundo (Morais, 2012:
35-41).
Os resultados apurados fornecem-nos boas indicações de resposta à questão
inaugural. Procuraremos formulá-las nas notas conclusivas que se seguem.
Conclusão
No início deste artigo, questionámo-nos se as tendências de homogeneização
promovidas pela titulação académica e pela socialização escolar mitigavam, de
forma notória, as dinâmicas de reprodução das desigualdades sociais no momento
da transferência dos diplomados da UL e da UNL, da coorte de 2004-2005, para a
estrutura ocupacional.
Os dados sugerem uma resposta que é em grande medida afirmativa. As tendências
de nivelamento evidenciam-se com nitidez, tanto no reduzido efeito direto das
origens sociais na explicação da distribuição dos diplomados no mercado de
trabalho, quanto na proeminência assumida pelas áreas de formação nessa mesma
ordenação. Sumariamente, é possível afirmar que os diplomados de diferentes
origens sociais formados em áreas idênticas tendem a partilhar posições
próximas no mercado de trabalho, observação que subsume o essencial do processo
de nivelamento. Tal constatação anda a par de uma outra com reflexos na análise
da mobilidade social: os diplomados provenientes de posições descapitalizadas
que ingressam em áreas que potenciam o acesso às situações profissionais
qualificantes conhecem fortes probabilidades de as alcançar, encetando
processos de clara mobilidade ascendente.
Todavia, constatar o sensível efeito de nivelamento que se encontra presente
nestas escolas públicas não significa que as lógicas de reprodução social se
tenham esfumado. Na verdade, também estas se manifestam, provavelmente de uma
forma que não transparece suficientemente dos testes estatísticos, correndo-se
o risco de se ocultar a sua relevância sociológica se apenas nos detivermos nos
resultados destes últimos. Basta, por exemplo, confrontar as situações
profissionais dos diplomados descendentes de núcleos familiares de empresários,
dirigentes e profissionais liberais (EDL) ou profissionais técnicos e de
enquadramento (PTE) com as dos provenientes de agregados de operários
industriais e assalariados agrícolas (OIAA), para concluir que enquanto os
primeiros atingem, em praticamente metade dos casos, as posições 4 ou 5
(“inserção qualificante”), apenas um quinto dos segundos ascende a idênticos
patamares (ver quadro_3).
Em concordância com análises precedentes (Almeida e outros, 2003; Machado e
outros, 2003; Mauritti, 2003), tudo indica que uma parte considerável da
reprodução das desigualdades se desenrola por via da distribuição dos
indivíduos provenientes de lugares distintos na estrutura social pelas
diferentes áreas de formação; devendo acrescentar-se que é em grande medida por
ingressarem de forma mais frequente nas fileiras formativas que favorecem o
acesso às posições profissionais qualificantes que os diplomados das classes
dominantes (em particular as suas franjas mais capitalizadas) alcançam ou
preservam uma posição privilegiada na estrutura ocupacional. É provável que, se
a análise se estendesse à globalidade do ensino superior, se constatasse que
certas escolas, pelo seu caráter distintivo, desempenham também um papel de
mediação relevante na reprodução das posições privilegiadas, como tivemos
oportunidade de salientar em estudos anteriores (Chaves, 2010; Chaves e Nunes,
2011).
O presente estudo conferiu a possibilidade, rara a nível nacional, de se
observar as desigualdades entre diplomados, estabelecendo como locus o momento
da transição para o mercado de trabalho. Revelou-se a coexistência de duas
tendências antagónicas. Ao mesmo tempo que se notabiliza um potencial de
equalização que atenua a importância das desigualdades sociais de origem na
distribuição na estrutura ocupacional, é indubitável que o sistema continua
permeado por lógicas de reprodução das desigualdades que o extravasam e que, no
limite, este contribui para legitimar, ao converter desigualdades sociais em
desigualdades escolares. Foi possível demonstrar que essa reprodução opera, em
larga medida, através do acesso diferenciado a distintas áreas de formação,
isto é, pela apropriação de diferentes tipos de capital escolar.
Se numa abordagem retrospetiva procurarmos confrontar estas conclusões com as
veiculadas em projetos de investigação que, embora não tenham acompanhado a
trajetória e o destino dos diplomados após o terminus dos cursos, procuraram
abarcá-los (então ainda estudantes) na sua heterogeneidade (e.g. Balsa e
outros, 2001; Almeida e outros, 2003), verificamos que elas vêm, no essencial,
reforçar os resultados apresentados. Esta reincidência merece ser ponderada e
avaliada do ponto de vista das suas consequências para o desenvolvimento da
investigação acerca da inserção de diplomados em Portugal. Sem querermos
sugerir que nos encontramos perante resultados unânimes, intemporais, que
dispensam ratificações empíricas — veja-se, por exemplo, como a pesquisa de
Gonçalves (2000) acerca dos diplomados da Universidade do Minho realça de forma
quase exclusiva a proeminência das tendências niveladoras —, cremos que se
torna evidente a necessidade de criar condições para o desenvolvimento de
análises diacrónicas sobre a inserção dos diplomados que, mais do que sinalizar
a coexistência das duas lógicas (niveladora e reprodutiva), permitam sopesar a
evolução da sua importância relativa ao longo do tempo.
Como referimos de início, o presente estudo confrontou-se com um duplo
constrangimento. Além de se cingir a duas universidades e, dentro destas, a uma
única coorte de licenciados, debruçou-se sobre a situação em que os graduados
se encontravam num período entretanto ultrapassado pela deterioração da
conjuntura financeira, económica e laboral que acompanhou e sobreveio ao
“pedido de assistência financeira” endereçado pelo governo português a
entidades credoras internacionais. Importa, portanto, não encerrar este artigo
sem que se avancem hipóteses acerca do impacto que o alargamento do estudo à
totalidade do sistema universitário, por um lado, e ao momento presente, por
outro, acarretaria para as conclusões a propósito do processo de nivelamento.
Em ambos os casos arriscamos uma mesma conjetura: a de que esse processo se
tenderia a esbater em favor do reforço das dinâmicas de reprodução das
desigualdades.
Com efeito, a expansão da análise à globalidade do sistema acarretaria um
aumento da proporção de diplomados provenientes de meios sociais
descapitalizados que, além de se encontrarem menos selecionados em termos
escolares, terão angariado títulos escolares que possuirão, com toda a
probabilidade, um menor valor relativo no mercado de trabalho. É preciso não
esquecer que a presente análise assentou em duas universidades que, quer pelo
efeito de sobresseleção escolar que efetuam, recrutando os estudantes que
obtiveram classificações médias mais elevadas no ensino secundário, quer pela
cotação simbólica de que usufruem junto dos empregadores, se situam entre as
que melhores condições reúnem para curto-circuitar o efeito diferenciador das
origens sociais, isto é, entre as que mais propícias são ao efeito equalizador.
Por sua vez, em termos evolutivos, a hipótese do enfraquecimento da dinâmica
niveladora assenta na constatação de que a sua importância não pode ser
desvinculada do fenómeno de mobilidade estrutural de que a sociedade portuguesa
tem beneficiado nas últimas décadas, fenómeno onde pontifica o peso crescente
dos quadros e das profissões técnicas e liberais na estrutura ocupacional. Como
bem refere Grácio (1997: 136-137), evocando a obra de Lipzet e Zeittberg,
trata-se de uma mobilidade “induzida pela deformação da estrutura de classes” e
que importa distinguir da “mobilidade de troca, de permuta entre categorias”. É
razoável admitir que o eventual enfraquecimento do processo de mobilidade
estrutural resultante da crise económica e das medidas de austeridade
prolongadas se possa traduzir no fortalecimento dos recursos associados às
origens sociais no acesso às posições qualificantes, reduzindo assim o alcance
dos efeitos equalizadores. Em nosso entender, o robustecimento do papel das
origens sociais poderá resultar, entre outros fatores, do acréscimo da
mobilização do capital social familiar como recurso de inserção num contexto em
que as oportunidades de trabalho qualificante se tornam mais escassas, e da
intensificação da desigualdade no acesso às formações pós-graduadas, em virtude
de os indivíduos provenientes dos meios sociais mais descapitalizados verem
reduzir-se drasticamente as condições materiais para nelas ingressar. As
consequências deste último aspeto tenderão a agravar-se nas coortes de
diplomados posteriores à implementação do Processo de Bolonha. Se é certo que
ainda pouco se apurou acerca dos reflexos desse processo no mercado de trabalho
(Silva, 2011), parece provável que este tenha contribuído para intensificar o
declínio da licenciatura enquanto recurso distintivo e diferenciador na
concorrência por postos de trabalho, como a série evolutiva de estudos
realizados pelos autores (Chaves, Alves e Morais, 2013), neste caso apenas no
contexto da UNL, tem vindo a demonstrar.