“O pessoal está interessado numa tour”: ritos de procrastinação das cenas
musicais underground
Introdução
Uma das características mais salientes das cenas musicais underground e das
bandas juvenis que as compõem é a aura de marginalidade (Císar e Koubek, 2012;
Dale, 2012; Gosling, 2004; Guerra, 2013; Harrison, 2006; Solomon, 2005). A
expressão émica, de uso corrente em inglês, demarca uma oposição ideológica
face ao mainstream (metonímia para indústria fonográfica global, mercado
massificado da música pop e respetivos circuitos profissionais). O uso nativo
de underground refere-se também a formas de contestação juvenil, manifestação
de valores antiautoridade e intervenção política — formal ou informal — de que
a prática musical é expressão simbólica. Um outro significado usual é
simplesmente o de lugares recônditos onde se faz música com amigos.[1]
Por outro lado, a dimensão marginal do underground tem sido pesquisada segundo
diversos planos: dissidência criativa inscrita na prática musical (Pais, 2004;
Seca, 2001); relação entre expressão simbólica e transição para a vida adulta
(Bennett, A., 2000; Fornås, Lindberg e outros, 1995); e, finalmente,
articulação entre prática cultural e estratificação social (Hall e Jefferson,
2000; Rimmer, 2010; Willis, 1996). A conjugação de planos analíticos faz do
underground um objeto de estudo do tema da marginalidade ou, mais exatamente,
da liminaridade ritual nas sociedades contemporâneas (Pina-Cabral, 2000;
Turner, 1987). O uso de metáforas relativas a ritual tem uma longa elaboração
teórica no estudo da relação entre culturas juvenis e música, ora numa
orientação mais estruturalista, como o conceito de subcultura segundo a escola
de Birmingham (Hall e Jefferson, 2000), ora numa orientação que enfatiza a
fluidez das culturas juvenis a partir do conceito de “neotribo” (Bennett, A.,
2005; Pais, 2004).
Neste texto examino não tanto os significados metafóricos de ritual no
underground, mas as suas manifestações enquanto trabalho simbólico (Bell,
1992), as práticas e padrões de interação que conduzem à sua configuração como
espaço social liminar, articulando performance artística e ritual (Grimes,
2006; Schechner, 1995). Para tal, retomo a distinção goffmaniana entre
bastidores e primeiro plano (Goffman, 1993), que tem por assim dizer uma aceção
literal no caso da prática musical, separando o trabalho de preparação que é
feito em espaço reservado (ensaio, entre outras tarefas) e o tempo de
apresentação pública (em concerto). Os quadros de interação reservados estão
mais diretamente inscritos no quotidiano juvenil (em casa, na rua, na escola e
em outros lugares de sociabilidade habitual); os quadros de interação pública
comportam um contexto excecional de densificação relacional e de protagonismo
no concerto.
Elaboro nas duas próximas secções os padrões de interação reservados e
públicos, para depois encerrar o texto em torno dos ritos de procrastinação da
prática musical underground —dispositivos interacionais e performativos de
criação e sustentação da liminaridade nas sociedades contemporâneas.
“Pequenos ritos” de fazer música
A atividade de banda é vivida e valorizada como jogo entre amigos. Ao mesmo
tempo, acarreta um labor de grupo e, não obstante a vivência lúdica, uma
disciplina de trabalho musical de acordo com um guião implícito de tarefas a
desempenhar pelos vários membros. Durante o ciclo de vida do projeto musical
que é cada banda, há uma tensão ambivalente (Berkaak, 1999) entre, por um lado,
o pequeno ritual festivo de ensaio (Seca 2001) e, por outro lado, o compromisso
coletivo com o projeto, implicando, entre outros aspetos, uma divisão do
trabalho da banda (Cohen, 1991).
Tal tensão representa um dilema simbólico crucial para a dinâmica de grupo e
eventual desenvolvimento do projeto musical. Nos quadros de interação restrita
da banda vai sendo construído um espaço reservado, onde se formam as relações
intersubjetivas e as disposições musicais dos respetivos membros e onde se joga
o envolvimento individual no coletivo. A interação passa por um “pacote de
tarefas” (Hughes, 1984), as quais nem sempre correspondem a operações precisas,
mas que são procedimentos relativamente padronizados e reconhecidos como
convenções do trabalho criativo (Becker, 1982).
Estas tarefas — de que as mais relevantes são o treino individual,a aquisição
de equipamento,acomposição musical,o ensaio coletivo,aorientação da bandae
agravação — representam “pequenos ritos” que ajudam a inserir a experiência
estética no quotidiano (Miller, 2009), ao mesmo tempo que constituem uma
pragmática da prática amadora (Hennion, 2004). A dimensão ritualizada advém do
caráter repetitivo de cada tarefa e do conjunto de tarefas como ciclo
constantemente reelaborado, de que resulta um modelo iterativo da prática
musical underground, explicitado de seguida.
Treino individual
O autodidatismo é a modalidade mais frequente de aprendizagem musical, embora
seja também comum a aprendizagem formal em escola especializada ou com
professor particular — o que depende dos recursos familiares, económicos e
culturais. Uma dimensão básica do trabalho musical underground é a competência
mimética na apropriação e manipulação da música consumida (Bennett, H., 1980),
como, por exemplo, “sacar de ouvido” nos géneros rock e afins (reprodução
manual num instrumento de uma música escutada repetidamente) ou a “samplagem”
no rap (extração de fragmentos de peças musicais preexistentes, depois
concatenados em composições próprias). A aprendizagem solitária de um
instrumento por erro e tentativa é vulgar, tal como a aprendizagem solidária
dos truques individuais e do património comum de técnicas informais de fazer
música. Trata-se de um processo de in-corporação duma gestualidade musical
específica.
Aquisição de equipamento
O valor imediato dos instrumentos musicais é evidentemente o de ferramenta de
produção musical — mesmo que a competência estritamente técnica seja muitas
vezes desvalorizada face à comunicação expressiva. Contudo, a aquisição e uso
proficiente do equipamento acarreta outros significados de construção
identitária. Desde logo, a posse de instrumentos musicais é um marcador
simbólico decisivo da identidade de músico (Bennett, H., 1980: 49 ss.; Everett,
2003; Lena, 2004). Aliás, a aquisição de um instrumento que não se domina é
frequentemente o ponto de partida da prática amadora. O modo de aquisição do
equipamento é revelador da matriz disposicional dos músicos, pela valorização,
não raro fetichista, do equipamento enquanto artefacto emblemático de certo
género musical e pela adequação, efetiva ou desejada, entre competência técnica
própria e potenciais funções técnicas do equipamento. Revelador também, do
ponto de vista material, pelo volume de recursos (dinheiro e tempo despendidos)
que o músico está disposto a investir na compra e estudo do equipamento.
Composição
Longe da carga simbólica de composição na aceção erudita, criar uma música (ou
um trecho) é das materializações fundamentais da prática musical desde as
primeiras experiências, por comportar um resultado palpável em que os músicos
amadores se reconhecem. Nem todos os músicos se dedicam à composição, mas é um
desejo generalizado, pelo menos nalguma fase dos percursos individuais — por
exemplo, o caderno das letras/rimas é uma ferramenta relativamente comum.
Em geral, a composição pode ser coletiva e concretizada no ensaio — modalidade
mais frequente — ou individual e preparada como tarefa isolada, por vezes a
cargo de apenas um ou dois membros. Mesmo sendo sentida como ato espontâneo, a
composição está fortemente ligada à orientação geral da prática individual e de
banda. Por isso mesmo é uma das tarefas do trabalho musical em que é mais
sensível a diferença das matrizes diposicionais entre músicos consoante a
experiência e grau de empenhamento, permitindo distinguir modos de fazer música
e percursos musicais.
Ensaio coletivo
A situação de ensaio é por excelência o espaço do ritual privado da banda e
também o momento onde se joga a sua coesão enquanto projeto (Finnegan, 1989:
263 ss.). Os fatores de ordem pragmática mais relevantes na sua organização são
rotina, regularidade e espaço físico.
A definição de papéis e tarefas entre os membros é indicadora de uma rotina de
trabalho e organização interna do projeto. O ensaio regular é preenchido
normalmente com passagens do repertório semelhantes ao alinhamento de concerto.
A introdução de novos temas é variável e depende em grande medida do modo de
composição e das dinâmicas intersubjetivas e de liderança do grupo — num modo
de maior participação coletiva, um novo tema pode surgir a partir de uma ideia
inicial mais ou menos espontânea a que se vão juntando mais ou menos de
improviso as partes relativas a cada instrumento ou participante; num modo de
maior orientação individual, um novo tema já mais ou menos elaborado antes do
ensaio por um dos músicos é proposto ao restante grupo com as partes
individuais mais ou menos previstas.
Quanto à regularidade, observam-se três variantes principais: (i) inexistência
de ensaios regulares, que ocorrem fortuitamente ou apenas na véspera de um
eventual concerto; (ii) ensaios com regularidade fixa (semanal, por exemplo) em
que a banda se reúne mesmo sem o pretexto de novo concerto ou gravação de uma
maquete; (iii) ensaios intensos, normalmente na preparação do concerto ou da
maquete, ou ainda numa fase planeada de composição de temas novos.
Um outro fator decisivo nos modos de organização da banda é a disponibilidade
de um espaço de ensaio. Sendo crescente a utilização de estúdios domésticos —
mas apesar de tudo limitada —, os principais espaços de ensaio nos circuitos
subterrâneos são estúdios de aluguer (muitos não licenciados), os estúdios de
autarquias e associações locais, estúdios próprios em instalações improvisadas
(por exemplo, garagens).
Orientação da banda
A tarefa de orientação da banda pode distinguir-se em dois planos principais: a
organização do trabalho criativo, que tem a sua manifestação mais visível no
ensaio, e o trabalho de produção e promoção da banda, que implica não apenas a
gestão dos seus recursos mas também o contacto com terceiros. A tensão entre
jogo e disciplina perpassa ambos os planos e manifesta-se através do
relacionamento interpessoal. Um dos seus aspetos mais sensíveis é a conjugação
entre camaradagem igualitária implícita e a afirmação de uma liderança
individual explícita. A figura de autor enquanto líder do projeto só é
relativamente comum em bandas muito experientes ou com uma disposição
profissionalizante vincada; na maior parte dos casos, os quadros de interação
das bandas incluem certamente relações de ascendente pessoal entre os músicos,
mas que tendem a ser atenuadas em favor da valorização do coletivo.
A prática criativa no ensaio — e a procura de soluções para as limitações
técnicas e expressivas da banda — não decorre pois de orientações normativas ou
relações hierárquicas, mas antes da dramaturgia e linguagem próprias da banda,
assentes por seu turno nas convenções de cada estilo musical. A utilização de
figuras de estilo vernaculares (Certeau, 1990) é fundamental na constituição da
banda como equipa, veiculando instruções — e sentimentos — inscritas em cada
situação de interação, como, por exemplo: incentivo à repetição e
aperfeiçoamento (“eu sei que tu és capaz…”); referenciação à mitologia de
bandas e estilos musicais emulados (“isto é punk!”); reprodução incessante de
exercícios musicais como tática de ganhar segurança performativa (“[esta malha]
está lá!”); invocação da banda como compromisso identitário conjunto (“ou
estamos juntos contra o mundo, ou então…”); entre outras.
Gravação
É usual as bandas gravarem os seus ensaios, quer como ferramenta para que os
músicos ouçam e corrijam a sua própria prestação, quer como registo para
memória futura. As gravações podem inclusive constituir um arquivo improvisado
e simbolizar na sua datação as diferentes fases do percurso da banda. Resulta
daqui uma periodização da prática musical, que lhe confere uma maior espessura
de significado. O efeito é maximizado quando a gravação está associada à
produção de uma maquete — suporte fonográfico que contém a cópia matriz das
canções gravadas preparada para ser replicada.
A maquete pode servir diversos objetivos: editar um disco, seja na modalidade
de autoprodução, seja através de contrato com uma editora comercial; angariar
concertos em locais de música ao vivo; participar em concursos de novos
valores; divulgar a banda em canais massificados (especialmente programas de
rádio); enviar a contactos relevantes nos circuitos subterrâneo e profissional.
A maquete, além de produto palpável, tem uma simbologia particular relativa à
configuração cíclica do trabalho de autoprodução. Muitas vezes é o ponto de
chegada de determinada fase do percurso da banda. Em especial para as bandas em
que predomina uma matriz disposicional profissionalizante, a maquete incorpora
as aspirações de sucesso no mercado; goradas essas aspirações, é comum ocorrer
uma redefinição do projeto estético e eventualmente a alteração ou fim da
banda. Mesmo quando não existe a disposição profissionalizante, a produção da
maquete obriga a uma mobilização de recursos materiais, relacionais, técnicos e
expressivos de grande exigência para os músicos amadores, pelo que adquire um
valor simbólico emblemático nas suas trajetórias — a maquete é o conjunto de
músicas realizadas e também a expressão da prática musical e das relações
sociais a ela ligadas num dado momento.
A maquete tem portanto um valor objetivado e um valor projetado. Objetivado no
sentido em que o artefacto representa a “coisificação” da experiência
underground numa certa circunstância (Straw, 1999); projetado no sentido em que
a maquete transporta as aspirações dos músicos na direção dos seus outros
(públicos, intermediários profissionais, colaboradores e concorrentes nos
circuitos underground, etc.), abrindo possíveis novos cenários de atividade em
que os elementos da banda se confrontam, individual e coletivamente, com as
opções futuras da prática musical. Este duplo sentido faz que a maquete seja o
produto-projeto paradigmático da cultura material dos circuitos underground e
um objeto ritual dos seus processos de construção identitária (Harrison, 2006).
O modelo iterativo da prática musical — combinando disciplina de trabalho e
ritual festivo — é uma forma de negociação do projeto de banda e de
desenvolvimento da pulsão musical. Esta disciplina é, de diferentes modos,
tanto mais vincada quanto, por exemplo: (i) racionaliza a prática musical como
projeto profissional passando por etapas de progressão técnica e aproximação ao
mercado; (ii) articula a atividade de fazer música como esfera central de
autorrealização pessoal face a outros compromissos e constrangimentos sociais,
embora não se traduza num projeto profissional; (iii) transforma a experiência
juvenil de participação em circuitos subterrâneos num hobbie gratificante na
vida adulta, porventura compatível com outros compromissos.
As tarefas que compõem o labor criativo são desempenhadas segundo um princípio
sequencial de engendramento do projeto musical, execução de tarefas
padronizadas acompanhada de um estado de efervescência de grupo, objetivação
material da performance na maquete, promoção do produto-projeto,
reengendramento do (novo) projeto, etc. O modelo iterativo do trabalho de banda
comporta, mesmo numa escala de interação presencial reduzida, elementos de
ritualização da prática, muito evidentes no ambiente performativo de ensaio. A
maquete é também um objeto ritual — especialmente porque é um meio material de
passagem da prática privada entre amigos para a prática pública dirigida a uma
audiência.
Cronótopos do concerto underground
O concerto é o momento de paroxismo do ritual underground, dada a sua dimensão
pública e densificação relacional. Uma das condições para que tal se verifique
é a existência de um público mais ou menos volumoso (variando normalmente entre
algumas dezenas e poucas centenas de espetadores), concentrado num determinado
lugar e momento, criando um quadro de interação denso e um estado de exaltação
coletiva. Podendo assumir diferentes configurações (Fonarow, 2006), o concerto
underground é uma experiência de festa transgressiva, intensificada pelo efeito
sensorial da música — na maioria das ocasiões acompanhado do consumo, por vezes
excessivo, de álcool, haxixe e outros estupefacientes.
O acontecimento não se esgota no prazer hedonista da experiência musical. Para
músicos e outros agentes dinamizadores dos circuitos subterrâneos, cada
concerto é um momento raro em que se podem relacionar com adeptos em número
superior àquele que é habitual durante a prática de banda. O significado ritual
do concerto reside tanto na exacerbação expressiva e sensorial da performance
musical em cada ocasião, como na recorrência de concertos, através da qual se
criam e mantêm as redes de cooperação (e competição) dos circuitos de produção
subterrâneos.
O concerto corresponde a diferentes contextos espácio-temporais — cronótopos
(Bakhtin, 1998) — de preparação da prática musical e de inscrição da
experimentação artística no quotidiano. Trata-se de gestos e procedimentos
padronizados de preparação e vivência da performance que se intensificam num
determinado momento mas que se desenvolvem para além dele, incluindo o próprio
concerto, o dia do concerto, a espera entre concertos e o período mais ou menos
longo de envolvimento na prática musical. No seu conjunto são gestos que marcam
a liminaridade da performance musical e da experiência underground. Destacam-se
quatro cronótopos que sublinham ou prolongam essa condição de liminaridade:
entrada em palco, checksound, rodagem, carreira underground.
Entrada em palco
A entrada em palco é imediatamente antecedida por um compasso de espera em que
a banda se congrega cerimonialmente (Bennett, H., 1980: 48) e prepara a sua
encenação perante um público, mesmo quando este é formado por amigos. Os
músicos apartam-se da audiência e reúnem-se brevemente num exercício de
concentração e suporte mútuo.
A curta pausa é por definição um momento liminar, que marca uma alteração
súbita do quadro de interação, com a transposição do privado para o público, do
regular para o excecional, do anonimato habitual para o protagonismo da
ocasião. A transição entre bastidor e palco implica um jogo ritual de inversões
estatutárias: a performance em palco corresponde a uma intensificação da
experiência juvenil, cujo caráter espetacular e transgressivo é resguardado em
situações do quotidiano; mas a intensidade da experiência de concerto comporta
por seu turno dispositivos performativos e de controlo da excitação, de que o
mais evidente é a máscara.
A máscara de palco é construída a partir de um conjunto de expedientes
interacionais que permitem manter a performance entre a desejada busca de
excitação, e respetivo controlo, através da encenação de comportamentos mais ou
menos provocatórios (Lee, 2009). Vejamos duas situações contrastantes de
encarar o público, isto é, de incorporação da máscara.
Chegar ou não chegar à frente, eis a questão[2]
Situação 1: Está ainda pouco público presente no início do concerto.
As bandas não são das redondezas, talvez as claques venham mais
tarde. O vocalista dos Jaquins, banda que abre o concerto, está um
pouco acanhado com a plateia vazia. Tenta sem grande sucesso atrair
público para a frente de palco, desconfortável por estar vazia —
“Podem chegar aqui à frente, mas só se quiserem”. É notório que ainda
lhe faltam truques para lidar com a situação. Uma boa parte do
alinhamento tem de ser tocada assim mesmo, o que provoca um
retraimento da banda.
Situação 2: Apesar da sua aparente juventude, os elementos de CT são
muito bons músicos e têm uma interessante presença em palco,
sobretudo a vocalista. O concerto começa com alguns instrumentais —
covers de clássicos do reggae — e só depois se ouvem os originais (em
inglês). A secção de metais dá a este grupo um som festivo a que
dificilmente se fica indiferente, sobretudo, uma vez mais, porque é
bem executado. Está pouca gente de início, cerca de uma vintena de
espetadores. Mas a vocalista não se embaraça — “vocês são tão
pouquinhos podiam vir cá para a frente…” A parte engraçada é ela ser
obedecida, inclusive por três ou quatro espetadores que levam consigo
os bancos altos em que estavam sentados. A coisa ficou assim mais
intimista. Alguns ensaiavam uns passos de dança (à ska que é como se
diz como quem está a correr sem sair do lugar), outros cantavam com a
banda. [Registos de campo 5 e 67]
O domínio da máscara implica algum distanciamento sobre o próprio papel
desempenhado e um controlo reflexivo da sua própria encenação — mesmo em
situações de maior violência simbólica que a exemplificada (Kahn-Harris, 2004).
Tal domínio adquire-se com a experiência, mas apoia-se também na rotina
definida pelo modelo iterativo da prática da banda que prepara a prestação
musical e contribui para que o desempenho especificamente musical seja o menos
possível perturbado por condições adversas de concerto.
Checksound
Os concertos underground incluem quase sempre várias bandas, o mais comum entre
três e seis. A montagem do palco, em particular o acerto do som — checksound —,
pode demorar algumas horas, durante as quais se cruzam, dependendo do formato
do concerto, músicos, organizadores, técnicos, amigos mais próximos e
eventualmente agentes profissionais. Este período resume-se na aparência a uma
função técnica, mas demarca um tempo especial da prática musical e das
trajetórias dos músicos. Especial por várias razões: porque o dia de concerto é
dia de festa; porque os tempos mortos entre preparativos técnicos são muitas
vezes momentos de discutir opções estéticas e a orientação da banda; porque
esses mesmos tempos dão lugar à recordação de situações semelhantes já vividas
e, por vezes, a um balanço sobre o próprio percurso musical. Nesse compasso de
espera cruzam-se comportamentos lúdicos (brincadeiras e alteração de
consciência) e reflexivos (rememoração de aventuras e afirmação de afinidades),
que antecipam a performance e amplificam o contexto liminar do concerto.
Horário e espera
Vera tem um programa em cheio para o dia — primeiro, o concerto de
Babes, a sua banda, em Palmela (22h00), e logo de seguida (23h30)
participação como backvocal no concerto de Gadjó em Corroios. Os
concertos distam cerca de 30 km. Quando chega a agente de Gadjó,
Teresa, da agência WonderSound, é totalmente apanhada de surpresa
pelo facto de Vera ter outro concerto, mas tenta ainda arranjar as
coisas de modo a que consiga fazer tudo — checksound ora aqui ora
acolá, concerto nos dois lugares. Assim, decide ir imediatamente para
Corroios fazer o checksound, depois para Palmela para checksound e
concerto e, mal este acabe, diz Teresa, pega na Vera e leva-a de
volta para Corroios. Chegamos a Corroios, onde se procede de modo
muito fluido e eficaz ao checksound. Retenho o registo bastante
profissional de toda a operação, com Teresa a funcionar como elo de
ligação entre o técnico de som e os músicos, e a sugerir, quer dizer,
impor ritmos de trabalho — “Vamos lá despachar as vozes da Vera, que
é para ela poder ir andando”, por exemplo. Em Palmela, o cenário é
nobre — entre a igreja e o cineteatro — e grandioso — ao ar livre,
com muito espaço. Verónica, os DRG e os Fightin’ chegaram antes, bem
como outros elementos do bairro que vão cantar. Vera e Verónica já
antes discutiram se deviam ser as primeiras a tocar (Vera, que tem o
outro concerto) ou não (Verónica). Durante o checksound, Verónica
pergunta claramente a Vera qual é para si o concerto prioritário,
respondendo a última — “Obviamente este”, o de Palmela. Quando o
rapaz da organização vem perguntar qual é a ordem definitiva de
entrada, ainda hesitam, mas acabam por deixar que fossem os Fightin’
a tocar primeiro. Joga aqui também a questão simbólica de senioridade
juvenil: os Fightin’ são um projeto recentíssimo, têm poucas músicas
e, segundo a convenção que faz bandas mais prestigiadas tocarem por
último, devem vir antes das Babes, tal como estas têm o direito de
entrar imediatamente antes das “vacas velhas” KFC, que encerram. É
mesmo essa a ordem seguida. O concerto começa. Por esta altura, o
largo já está bem composto — umas 300 pessoas ou talvez mais, mas a
largueza do espaço não dá essa impressão, parecendo menos. Muitos
jovens liceais, muita gente adulta. Tocam os primeiros miúdos
rappers, começam a tocar os Fightin’, quando chega Teresa, para
buscar Vera, conforme foi combinado. Teresa diz que o concerto de
Corroios já começou e que o horário marcado para Gadjó vai cumprir-
se. Quando vê que as Babes ainda nem sequer começaram, remata logo
que o melhor é desistir da ideia e volta para Corroios, sem Vera.
[Registo de campo 78]
Durante o checksound confundem-se paradoxalmente o aborrecimento da espera e a
ansiedade de tocar em público. A resolução do paradoxo depende em muito da
composição e dimensão do grupo de colaboradores e amigos que acompanha a banda,
fatores que contribuem para definir a espera como tempo social vazio ou denso.
Quanto maior o número de acompanhantes e mais densa a interação entre eles,
mais intensificada é a experiência ritual.
Por outro lado, o checksound é também circunstância em que os músicos amadores
se confrontam com profissionais — por exemplo, promotores, técnicos e agentes.
Tal confronto rompe, de modo mais ou menos explícito, com o ambiente convivial
e festivo do concerto, pondo em causa a condição estatutária dos músicos, a sua
determinação no projeto musical e as suas oportunidades.
Rodagem
O cronótopo rodagem diz respeito ao tempo que medeia entre concertos e aos
lugares percorridos em busca de os angariar ou organizar. A atividade das
bandas mais experientes e com uma prática regular é determinada pela agenda de
concertos — podendo chegar a duas dezenas ou mais de concertos num ano. As
tarefas não musicais relativas à angariação ou montagem de concertos e
respetiva logística são fundamentais — garantir a presença do equipamento
necessário, a colaboração com outras bandas e participantes e, não menos
importante, assegurar a comparência dos amigos entre o público. Durante o
interregno de concertos o modelo iterativo da prática musical é um dispositivo
processual de organizar a atividade da banda e assegurar a preparação da
performance pública.
“O pessoal está interessado é numa tour”
Choques falou-me há uns tempos que Hot Wheels e O Pessoal Não Está
Interessado pensavam fazer uns concertos em conjunto. O plano ficou
finalmente alinhavado no último ensaio d’O Pessoal — logo crismado “O
pessoal está interessado é numa tour”. A oportunidade concretizou-se
após Choques avisar que o concerto previsto para o Algarve ficava sem
efeito, porque o Bar do Alemão, lendário no underground, fora
encerrado após rusga, com fitas na porta e tudo. Perante o incidente,
fica decidido que a tour começa num bar de música ao vivo existente
no bairro. Haverá depois mais dois concertos noutros espaços da
cidade. Embora o concerto esteja marcado para as 22h00, quando chego,
o bar está fechado e o porteiro sozinho fechado do lado de fora. Dou
um toque de telemóvel a Choques e encontro-me com a trupe dos Hot
Wheels nos bancos do jardim, no meio do bairro. Técnicas de passar o
tempo de forma muito compassada: ronda preliminar de charros; o
Francisco vem com uma garrafa de vinho na mão, estilo punk standard,
mas acaba por se fartar do adereço; já no parque de estacionamento
fronteiro ao bar, passou-se ainda cerca de uma hora e, aí sim, no
rito consagrado de consumo de haxixe; Ana e Carla enrolam os charros
em estrita paridade com os rapazes; quando enfim chegam, os irmãos
Jaime e Paulo já estão muito atrasados em relação aos restantes.
Chega a trupe d’O Pessoal. Segunda roda ritual de haxixe. Alguns
transeuntes passeiam o cão. O ponto de encontro integra-se na
paisagem, não havendo barulho ou agitação que se faça notar na
vizinhança, mesmo chegando a juntar-se cerca de 20 pessoas. Uma hora
depois, já dentro do bar, o início do concerto ainda está para
demorar. Outras duas horas e a abertura é com a banda Ad Hoc, também
do bairro, que na verdade é uma jam de amigos meio na brincadeira que
por vezes abre as hostilidades nos concertos desta tribo. A prestação
de Hot Wheels é intensa e considerada pelos próprios como a melhor
dos últimos tempos. Talvez tenha ajudado à festa tratar-se de um
ambiente familiar. Grande animação, embora o espaço seja apertado.
Faz-se o mosh-pit, as mesas próximas a cair, efeito conseguido. O
Pessoal toca no fim e estes estão mesmo em casa, nem distingo bem
onde acaba o palco e começa o público, se é que há diferença. As
trupes das duas bandas são distintas. Algumas personagens cruzam
espaços, mas os círculos não se fundem. Até no mosh-pit, descontando
a turbulência do movimento, as filiações parecem diferentes. A trupe
de Hot Wheels é mais suburbana e classe trabalhadora. A trupe d’O
Pessoal é mais jovem e tem mesmo pinta de tribo juvenil, skaters-
surfistas, a composição parece-me mais heterogénea. As mesas ocupadas
pelos dois grupos são claramente demarcadas. Ramone é veterano do
circuito punk e conhece de ginjeira os veteranos desta claque.
Choques faz a ligação entre a malta do seu bairro de referência (onde
já não mora) e da sua atual banda. Fecho por volta das quatro. Amanhã
é quarta, toca a bulir. Daqui a dois dias há mais. [Registo de campo
15]
Mesmo as bandas mais juvenis tendem a saturar rapidamente os lugares de
concerto na sua zona de vizinhança (que é usual serem as escolas, associações
ou equipamentos juvenis do bairro). Logo a partir duma fase inicial da
atividade musical, torna-se necessário um trabalho de prospeção — levado a cabo
pelas bandas individualmente ou por cliques de bandas — de espaços de concerto
na cidade e ocasionalmente noutras cidades (Gomes, 2004) ou até fora do país
(Nóvoa, 2011). Tais itinerários são rotas de deambulação juvenil pelo espaço
urbano (Magnani, 2005), por vezes espetacularizadas pela inabitual concentração
de participantes no concerto, pelo seu visual e gestualidade, e pelo volume
sonoro da música.
Uma das expressões mais evidentes de deambulação e territorialização da prática
musical no espaço urbano é a referência simbólica ao bairro de origem quando
este corresponde a uma rede de sociabilidade e prática musical (Raposo, 2010).
Para além das amiudadas alusões ao bairro no nome da banda ou nas canções, é
comum os concertos serem pontuados por pregões identitários da “malta do
bairro” que faz de claque para os amigos que estão no palco.
Uma outra modalidade de apropriação do espaço urbano característica do
cronótopo rodagem é o formato de concerto matiné em salas de espetáculo
desativadas de coletividades e associações recreativas locais. Neste caso, um
grupo de bandas aluga a sala, onde promove os seus concertos durante um período
de alguns meses e que se torna identificado com uma “microcena”. A continuação
do aluguer pode tornar-se inviável por diversas razões — como o desacordo sobre
o preço, a falta de público, ou, pelo contrário, o “excesso” de público que
pode criar situações de conflito entre os participantes ou entre estes e os
responsáveis associativos. A “microcena” desloca-se então para nova
coletividade noutro ponto da cidade. Este formato — muito associado ao estilo
hardcore e ao ideário do it yourself — ilustra bem a inscrição da prática
underground nos interstícios do espaço público.
Os roteiros de concerto estão pois associados a diferentes formas de
apropriação material e simbólica do espaço — seja quando um coletivo musical
referenciado a um bairro percorre diferentes pontos da cidade afirmando a sua
pertença identitária emblematizada no bairro, seja quando outro coletivo
referenciado a um género musical assenta arraiais fugaz e ruidosamente em
sucessivos pontos de encontro da malha urbana. O caráter simultaneamente
coletivo e deambulatório do concerto desenha uma “cartografia subterrânea” da
cidade, elemento fulcral da dimensão liminar da experiência underground.
Carreira
O cronótopo carreira tem a ver com a duração e continuidade da prática musical
underground. Entre os seus participantes mais ativos distinguem-se os que
assumem como motivação prioritária um projeto profissionalizante e aqueles que
têm por motivação prolongar a prática musical como dimensão criativa e
convivial da vida quotidiana. A fronteira entre estes dois tipos de disposição
nem sempre é nítida: a atitude convivial facilmente se combina com a ambição de
vir a obter algum rendimento económico da música; entre as figuras mais
carismáticas dos circuitos underground contam-se músicos que obtiveram algum
sucesso comercial e que mantêm depois reconhecimento subterrâneo. Em qualquer
dos casos, as aspirações relativas à prática musical a longo prazo estão
estreitamente ligadas às disposições de fazer música no presente.
Entre os músicos que aspiram a um projeto profissional — a carreira de músico,
com as suas contingências — é usual uma maior planificação, expressa por
exemplo no modelo de trabalho iterativo orientado para a produção e subsequente
difusão de uma maquete tanto quanto possível capaz de garantir a entrada no
mercado, ou no investimento estratégico em concursos de novos valores e outros
dispositivos de relação com intermediários profissionais. Na maior parte dos
casos, raramente a experiência underground está na origem de uma carreira de
músico profissional — não obstante, tal aspiração pode traduzir-se numa prática
empenhada e, principalmente, pode levar a oportunidades de trabalho criativo
ligadas à música ou às artes.
Em contraponto com a aspiração de um projeto profissional, os participantes
mais envolvidos nos circuitos underground vão adquirindo competências práticas
ligadas não apenas a fazer música mas também a um conjunto de atividades de
suporte (edição de discos, organização de concertos, produção de fanzines,
comércio de discos ou outros produtos relacionados com um estilo de vida ligado
à música), construindo ao longo do tempo uma “carreira de lazer” (MacDonald e
Shildrick, 2007; Stebbins, 1992) dentro deste particular universo social.
Também por esta via a experiência underground pode gerar oportunidades de
trabalho ou de negócio (Ferreira, 2013; O’Connor, 2008; Simões, 2011).
O episódio seguinte é ilustrativo de esquemas cooperativos que não visam um
objetivo profissionalizante, nem a entrada no mercado, mas antes a mobilização
coletiva dos recursos materiais e simbólicos necessários para fazer música e,
por essa via, a consolidação de redes de convivialidade em que a prática
musical é um recurso de construção identitária.
Retrato — punknique
Depois de algumas semanas de preparação e expetativa, realiza-se na
Casa do Povo o concerto-punknique da trupe do Cerco, durante a tarde
e noite de sábado — entre as três da tarde e as três da manhã. Trata-
se de um ritual de construção identitária de uma rede de
convivialidade juvenil extensa, estruturado pela prática musical e
simbolicamente elaborado em torno da representação do bairro. Mas
vamos por partes. Tenho a impressão de que estarão mais de cem
pessoas a assistir ao concerto à noite, sensivelmente menos durante a
tarde. Os organizadores, principalmente os irmãos Guga e Canina,
asseguram-me que as contas ficam ela por ela, o que supõe 150
bilhetes vendidos (5 euros por cabeça para cobrir os 750 investidos).
Como seria previsível, o público participante vinha, na sua
esmagadora maioria, acompanhar as bandas do Cerco (O Pessoal Não Está
Interessado, Ad Hoc, MC). Tudo considerado, a pandilha do Cerco tem
uma efetiva capacidade de mobilização (e organização) coletiva. Há um
voluntarismo de grupo que, se não fosse punk, passaria bem por uma
atividade excursionista de alguma coletividade popular local. Mas
também é curioso que o grupo venha celebrar o bairro numa
coletividade local mas noutro lugar da cidade. O investimento no
concerto inclui, para além da maior parcela com o aluguer da sala e
do equipamento, bifanas, sardinhas, bilhetes, cartazes, um emblema
d’O Pessoal em velcro (a sigla da banda, OP, estilizada num patch
para colocar na roupa, como fazem alguns dos participantes), um CD-
Rom com 11 músicas (das bandas intervenientes e ainda de bandas
profissionais próximas do grupo). O bilhete, o cartaz e o CD têm uma
composição gráfica comum, polícroma, destacando os elementos “Cerco
recomenda” em título e a silhueta a negro de um edifício emblemático
do bairro. O velcro e o CD foram oferecidos de surpresa no próprio
dia em troca do bilhete à entrada. As tarefas festivas são
distribuídas ordenadamente entre os presentes: bifanas e sardinhas,
grelha, bar, som. A par disto, uma espécie de jogo de futebol
contínuo no pátio ao longo da tarde, com a dose bastante de picardias
entre conhecidos e novatos. Dentro do pavilhão, vai decorrendo o
checksound. Estão montadas algumas bancas de venda de produtos vários
(t-shirts com logos das bandas estampados, CDs, kit lâmpada-vaso para
cultivo doméstico de marijuana, pulseiras, missangas, etc.). Bebem-se
cervejas e fumam-se charros enquanto os participantes deabulam entre
o pavilhão e o pátio. A festa vai-se fazendo em tom ameno, com o
concerto a animação sobre de tom, está gente suficiente para um bom
desempenho ritual. No final da música, ainda se fez o encerramento
com nova futebolada. [Registo de campo 32]
Nesta situação é claramente discernível o efeito do envolvimento musical como
expediente (no sentido que lhe dá Certeau, 1990) de prolongamento de práticas
juvenis. A maioria dos organizadores do punknique, os participantes que estão
presentes ao longo da tarde e que não vêm apenas para a performance musical,
ainda que seja esse o momento alto do dia, são (jovens) adultos que se reúnem
enquanto amigos de juventude. Tal forma de vivência dos circuitos subterrâneos
é um modo de procrastinar o abandono de círculos de sociabilidade e da prática
criativa, cujo suporte material e simbólico assenta num conjunto de recursos e
convenções da prática artística amadora.
A prática musical underground como experiência liminar contemporânea
Um dos eixos fundamentais da prática musical underground é a sua configuração
padronizada e cíclica. Quer nos contextos de interação restrita em que músicos
ensaiam e produzem as suas maquetes, quer nas situações de densificação
relacional e efervescência coletiva vividas em concerto, a prática musical é
estruturada por convenções relativas simultaneamente à organização material das
tarefas necessárias e à inscrição simbólica da criatividade no quotidiano
juvenil (Willis, 1996). As convenções têm um importante significado ritual —
descrito acima no modelo iterativo (“pequenos ritos”) da prática musical e nos
cronótopos do concerto underground.
A dimensão festiva ritual, especialmente manifesta na situação de concerto,
pode ser vista metaforicamente como rito de passagem. Por outro lado,
corresponde a um “rito de impasse” (Pais, 2009), isto é, a uma forma ritual
própria de culturas juvenis, que em lugar de figurar simbolicamente o processo
de transição para a vida adulta, figura o bloqueamento de aspirações e a falta
de perspetivas futuras. A enunciação performativa e espetacularizada dos
impasses sociais com que os jovens se defrontam é mesmo uma das principais
formas de comunicação dos circuitos subterrâneos, em particular dos géneros
musicais mais salientes e politizados (como o punk/hardcore e o rap).
Contudo, a dimensão ritual da prática underground não diz respeito apenas à
transição — ou impasse — entre duas condições estatutárias, seja num sentido
geral entre jovem e adulto, ou num sentido específico entre músico amador e
músico profissional. Um efeito crucial dos dispositivos rituais aqui analisados
é a criação e alongamento de um espaço social liminar, um espaço de relativa
indefinição estatutária no qual a vivência da música pode ser investida de um
valor excecional de experimentação estética, autorrealização criativa e
referenciação identitária a grupos de pertença. A sustentação dessa
liminaridade passa por um desempenho proativo das tarefas materiais e
simbólicas que asseguram a continuidade da prática musical — ritos de
procrastinação que vão fazendo perdurar, mesmo se precariamente, a presença da
prática criativa no quotidiano.
Tais ritos de procrastinação assemelham-se aos ritos liminóides que Turner
(1974) identifica nas sociedades contemporâneas — por oposição aos ritos
liminares, prescritivos, das sociedades tradicionais — na medida em que são
intermitentes, voluntários e circunscritos a uma esfera particular da vida
social. Nesta versão mitigada do conceito de ritual (cf. St. John, 2008), a
experiência de fusão no coletivo em momentos performativos excecionais como o
concerto combina-se com a individualização das formas de lazer — concretizada
nas trajetórias pessoais (Lahire, 2005).
A tensão entre os planos individual e coletivo replica-se também no nexo entre
diferenciação e celebração. A comunhão musical é um dos valores centrais da
ética underground; mas isso não impede que, para além da desigualdade de
posições no espaço social (expressas em particular no capital escolar e
cultural), se encontrem distinções específicas ligadas à prática musical, em
especial decorrentes da experiência de envolvimento na produção musical.
A prática musical underground tem um recorte social muito circunscrito,
desenvolvida por um número limitado de fãs de música especialmente entusiastas
(uma minoria ativa), na sua maioria homens e jovens em redor dos 20 anos de
idade. Nesta medida é uma prática cultural juvenil. Os músicos mais regulares e
os principais dinamizadores dos circuitos, porém, tendem a ser os que prolongam
a prática bem além dessa idade. É certo que as carreiras de longa duração são
incomuns, mas não são raras e têm enorme influência na organização de circuitos
de produção coletiva que envolvem várias bandas, colaboradores e adeptos. Ou
seja, experiência acumulada e senioridade são fatores estruturais num universo
marcadamente juvenil (Bennett, A., 2006; Hodkinson, 2011). É principalmente em
torno dos protagonistas com um envolvimento mais continuado que se formam redes
de cooperação, se mobilizam recursos comuns, se definem relações de afinidade e
prestígio.
Os ritos de procrastinação são dispositivos, incertos e contingentes, portanto
liminares, de prolongamento no tempo da prática musical, configurando campos de
possibilidades (Velho, 1994) das trajetórias juvenis. Entre as possibilidades
mais relevantes contam-se a manutenção de redes de sociabilidade, a inscrição
de formas de criatividade estética no quotidiano e a profissionalização ou
intervenção em esferas de produção artística (musicais ou outras) e mediação
sociocultural.