Ser contemporâneo, sobrevivendo às classificações do pensamento sociológico
O problema, não a querela
As querelas terminológicas são fúteis. Refletindo sobre a pertinência e
utilidade de algumas das mais fortes categorizações do pensamento sociológico —
aquelas que se estruturam em torno da contraposição entre “moderno” e “não
moderno” — quero, não prolongar, mas sair de tais querelas. A condição de saída
é precisamente escrutinar as categorizações.[1]
Os nomes valem muito, dão identidade às coisas. E valem ainda mais os nomes que
designam pontos de vista, ou portas de entrada na observação interpretativa dos
processos sociais, para todos quantos renunciarem ao conforto das
epistemologias “fundacionistas” (a palavra pertence a Clifford Geertz, 1984:
273).
É certo que estas epistemologias são boas redutoras de complexidade. Fazem-no
por duas vias fundamentais, que podem ser percorridas complementarmente. A
primeira é da ordem do tempo, a segunda sugere-nos uma representação no espaço.
Aquela explica diacronicamente os factos, numa sequencialidade linear que
encadeia uns nos outros a título de origens e consequências, causas e efeitos,
condições e desenvolvimentos. É a flecha do tempo que torna inteligível o curso
das coisas. Já a segunda via as projeta como partes de um edifício, ou
componentes de um sistema, isto é, como elementos de um conjunto no qual seja
possível distinguir o que está em cima e o que está em baixo, o que está no
centro e o que está nos lados, dispondo-os por camadas ou em blocos, cada um
dos quais se explica pelo jogo de forças com os demais.
Linear ou estratigráfico, o modelo de explicação fundacionista supõe sempre o
desenho de grandes eixos de determinação. Muitas vezes, na sua aplicação, o
eixo temporal mostra determinações de superfície, a que o eixo estratigráfico
vem depois conferir a espessura das determinações de profundidade, desvendando
“causas primeiras”, “últimas instâncias” ou “configurações sistémicas”. E assim
se procura ancorar a interpretação social na lógica de um qualquer fator
essencial, seja ele a Razão ou a Troca, os Meios de Produção ou a Estrutura
Social, a Matéria ou a Energia, a Cultura ou o Símbolo (uso novamente palavras
e maiúsculas de Geertz, 1984, a que acrescento outras).
Mas como postular uma relação linear e unidirecional que organize cada
totalidade social sem comprometer a apreensão da sua complexidade, abertura e
dinamismo? E como distinguir de modo apriorístico ou simplesmente formal o
princípio e o fim, a origem e a consequência, a estrutura e o estruturado senão
por crença, anterior e transcendente ao trabalho específico de conhecer e
compreender realidades múltiplas e, uma a uma, singulares? Não implicará, ao
contrário, este trabalho uma abordagem intelectual bem mais modesta na ambição
esquemática, mas menos esquecida das interdependências?
Nessa abordagem, as realidades serão apercebidas, não como encadeamentos
sequenciais ou camadas sobrepostas, antes como redes; ou, dito mais
rigorosamente, as sequências e camadas tomarão lugar dentro de redes, isto é,
de configurações complexas, abertas e dinâmicas, cujas lógicas de estruturação
e desenvolvimento hão de ser matéria de investigação empírica e não de
pressuposição abstrata e geral (não repetirei aqui o argumento de Silva, 1994:
47-51). Ressalvadas as devidas proporções, o que Italo Calvino (2002 [1990]:
89) disse da sua criação literária — e a propósito de As Cidades Invisíveis —
poderíamos dizer muitos de nós, que recusamos as epistemologias fundacionistas,
da nossa pesquisa: “construí uma estrutura multifacetada em que cada texto está
próximo dos outros numa sucessão que não implica uma consequencialidade ou uma
hierarquia, mas sim uma rede dentro da qual se poderão traçar múltiplos
percursos e extrair conclusões plurais e ramificadas”.
O modelo da rede melhora a nossa capacidade para ler o real na
multilinearidade, mutabilidade e incompletude (mais talvez do que infinitude)
que o constituem; ao passo que a busca ansiosa de determinações macro ou
últimas empobrece a compreensão do mundo. Mas, então, a explicação é
coextensiva da descoberta, o modo como vamos dando conta dos processos sociais
está intimamente associado ao percurso que fazemos de observação e análise.
Conhecer em rede é conhecer a partir de certos ângulos e pontos de entrada no
que começa por ser um emaranhado de relações de interdependência. Cada
interpretação é contingente à perspetiva escolhida. O que significa que só a
variação das perspetivas, a sondagem a partir de diferentes pontos de entrada,
a pluralidade das interpretações (cada uma legítima, cada uma, em si mesma,
parcelar e incompleta) é que enriquecem o conhecimento. Fora da sombra plácida
das Grandes Causas, desenvolvemos abordagens intelectuais tentativas e
contingentes: em aproximações sucessivas a realidades que são sempre mais
compósitas do que as interpretações, inexauríveis por elas, irredutíveis a
qualquer esquematização. A quem isto parecer demasiado fora de pé, só me resta
replicar o conselho de Clifford Geertz (1984: 276): “se queríamos verdades
caseiras, deveríamos ter ficado em casa”.
Definir o ângulo de observação do real, está, pois, muito longe de ser um
problema de moda, filiação em escola, ou mera terminologia. É marcar uma
perspetiva, logo uma representação. A questão não é se podemos não escolher,
mas como havemos de escolher.
A ciência social oitocentista e de grande parte de Novecentos sempre escolheu.
Mas de um modo tão paradigmático que era quase naturalizado. Ciências do seu
tempo, a economia e a sociologia perfilhavam o ponto de vista do seu tempo —
europeu, ocidental, secular, nos termos de então “industrioso”. Como a economia
era o estudo racional do comportamento racional de produtores e consumidores,
assim a sociologia era a ciência moderna de análise das sociedades modernas.
Mas o que é ser moderno? Como podemos entender e praticar a sociologia sem nos
interrogarmos criticamente sobre a modernidade e (como escreveria Fernando
Pessoa) o nosso ser moderno nela?
Acresce que recusar o fundacionismo não é renunciar à explicação holística — e
já ficam assim o leitor e a leitora prevenidos de que o caso não se vai
resolver com nenhuma mezinha pós-moderna. É, sim, procurar tornar mais adequada
e útil a explicação holística, preocupada com as configurações estruturais dos
factos e sistemas que considera. Quanto menos essencialista e fechada ela for,
mais produtiva será (adoto e adapto os termos, muito importantes nesta questão
absolutamente decisiva, de Mouzelis, 2008: 221-224).
Explorando um todo sempre a partir de uma sua parte, não queremos
circunscrever-nos à parte, tomando-a explícita ou implicitamente pelo todo.
Queremos compreender o todo inquirindo a partir de diferentes partes (e cada
parte como o todo que em si mesma é); queremos compreender por via da
interpretação singular da singularidade de cada todo, e não por imputação
apriorística de uma hierarquia ou encadeamento universal.
Deixemos, portanto, os emblemas, mas não fujamos aos problemas. O que é ser
moderno, em sociologia? O que é e como é visto o não moderno que ser moderno
pressupõe? E há alternativa a ser moderno? A nossa entrada analítica nos
processos e estruturas sociais beneficia em alguma medida com este ou outro
tipo de categorização?
Já estamos fora de casa. Quem quisesse verdades caseiras não devia prosseguir
viagem.
Todos somos (de alguma forma) modernos
Porque é que sentimos (quase todos nós, os cientistas sociais, e muito
especialmente os que se dedicam à sociologia) necessidade de equacionar as
classificações geradas a partir da ideia de modernidade?
Porque somos modernos. Eis a matriz. O sistema de conhecimento que cultivamos é
originariamente devedor da transformação datável, no quadro europeu (insisto,
europeu), do século XVII. A revolução científica estabeleceu o grande programa
intelectual a que ainda (para segui-lo ou criticá-lo) nos referimos: a
aplicação da razão a todos os domínios humanos e a sua emancipação, para esse
efeito, de determinações extrínsecas (de ordem política, religiosa e moral); as
regras da observação e da prova e a dúvida metódica praticada individual e
coletivamente; a ambição explicativa; a ligação do conhecimento ao controlo da
natureza e à organização da sociedade.
Depois, enquanto sociólogos ou economistas, seguimos disciplinas forjadas para
a análise e interpretação das sociedades ditas modernas, isto é, que de algum
modo alargaram e institucionalizaram o equivalente de tal programa no desenho
de Estados, administrações, mercados, locais de trabalho, comunidades, e na
influência sobre os comportamentos e as interações. “A modernidade é em si
mesma profunda e intrinsecamente sociológica”, escreveu Anthony Giddens (1990:
43), parecendo-me exprimir bem o elo entre, digamos, o quadro cognitivo e o
ordenamento social que se foram consolidando e impondo na Europa e no Ocidente
dos séculos XVIII, XIX e XX.
Claro que as e os colegas que pesquisam outros contextos enfatizam, por
exemplo, a espantosa modernidade do conhecimento árabe do tempo correspondente
ao que a taxonomia historiográfica chamou a Idade Média. Com toda a razão.
Porém, a própria enunciação — “a modernidade” — revela a força categorial das
representações que fomos construindo, nós os herdeiros da revolução científica
seiscentista e do campo cultural oitocentista.
Quando, em 1863, um dos primeiros construtores da autonomia do campo cultural
(sigo, claro, Bourdieu, 1996 [1992]: 67-138), o poeta Charles Baudelaire, usou
a palavra modernitépara designar a ideia que queria defender, não associou
apenas uma e outra, ideia e palavra, à reorientação da criação para o presente.
Fê-lo, decerto, e crucialmente: como apologia da atitude criativa que bebia
inspiração na efervescência da “vida moderna”, quer dizer, coeva, e procurava
exprimir o seu sentido e explorar o seu potencial poético, em vez de continuar
aprisionada no cânon convencional, académico e clássico (Baudelaire, 1986
[1863]). Mas referia-se também à diferença que essa efervescência marcaria face
ao passado (com a cidade, a multidão, a moda, os novos tipos e encontros
sociais, no inventário baudelairiano) e faria do moderno outra coisa que não
apenas a circunstância presente, ou forma transitória, de uma história no seu
“caráter” essencial eterna.
Assim, “moderno” não conota apenas proximidade (moderno porque nosso próximo,
por contraste com antigo, porque transato). Igualmente importante é o conteúdo
semântico de descontinuidade: a diferença deste próximo face a outros,
duplamente afastados — longínquos e diversos. O ponto está em que a história
não se faz apenas incrementalmente, por gradual complexificação do que começou
por ser simples e gradual diferenciação do que começou por ser sincrético, como
ainda hoje creem certas variantes do evolucionismo; também opera por ruturas.
Uma conceção descontinuísta da história precisou e precisa de usar categorias,
como a de modernidade, que acentuem as quebras, evidenciando a natureza global
das transformações.
Assumo a lição de Giddens (1990). Não porque possa subscrever, duas décadas
depois, a leitura eurocêntrica das “dimensões (institucionais) da modernidade”
(o Estado, a administração, o industrialismo, o capitalismo); mas sim porque
ele mostra bem a matriz generativa da modernidade.
O primeiro vetor é a aceleração (do ritmo) e o alargamento (do escopo) das
mudanças sociais. Não há sociedades (as que seriam não modernas) “paradas”:
todas, mesmo as mais elementares, são realidades dinâmicas. A velocidade e o
âmbito da mudança é que são qualitativamente diferentes — e a mudança é
concebida e apropriada, pelos atores, as instituições e os valores modernos,
não como uma ameaça e sim como um fator de ordenamento e desenvolvimento
social.
O segundo vetor é a “distanciação”, como escreve Giddens, da ação social ao
longo do espaço-tempo — e o correlativo “desencaixe” dos sistemas sociais face
aos contextos particulares. Este, por assim dizer, alongamento das estruturas
sociais implica a separação do tempo do espaço, o incremento dos meios de
simbolização e comunicação (das línguas à moeda) e a expansão dos sistemas de
consolidação da confiança e da previsibilidade (do direito dos contratos às
tecnologias, da disciplina ao profissionalismo). Mais uma vez, não se trata de
dizer que estas sejam criações da modernidade (europeia); mas que foi ela que
as articulou sistemicamente.
O terceiro vetor é a institucionalização da reflexividade. Claro que toda a
ação é reflexiva; todavia, ao passo que “a tradição [era] um modo de integração
da orientação reflexiva da ação na organização espácio-temporal da comunidade”
(Giddens, 1990: 37), a modernidade institucionaliza uma reflexividade de
segundo grau, nomeadamente no conhecimento científico e na tecnologia.
Por conseguinte, o impacto da dialética entre o moderno e os seus contrários no
discurso sociológico não é apenas o efeito da hegemonia de uma representação
intelectual. Claro que basta meditar um pouco no facto de a linguagem da
crítica ao moderno se fazer nos seus próprios termos (porque ao dizer que somos
pós-modernos ou antimodernos, ainda estamos a designar-nos como modernos…) para
perceber o efeito. Mas ele não é tudo. Somos, em cada momento, modernos, porque
precisamos de exprimir uma proximidade (nomeando aquilo a que julgamos
pertencer) e uma descontinuidade (separando-nos de outros universos de
pensamento e ação).
Neste plano, a ideia de modernidade pode ser formulada como um conceito — e
bastante útil.
Desde logo, está bem para lá das cronologias primárias, tão devedoras de
conceções eurocêntricas e teleológicas da história. A sua definição sociológica
já não se refere à sucessão de acontecimentos-clímax em que se havia baseado a
classificação oitocentista: a Queda de Roma em 476, a Queda de Constantinopla
em 1453, a Tomada da Bastilha em 1789. E prevê várias modalidades de inscrição
no espaço e no tempo: a modernidade pode ser balizada geográfica e
historicamente de uma forma para a Europa e a América do Norte, de outra para a
América Latina, de outra para o Sudeste Asiático, e assim sucessivamente.
O que significa — segundo aspeto a reter — que a concetualização da modernidade
pode e deve escapar à imagem originária que a restringiu à Europa dos três ou
quatro últimos séculos. Não é único o caminho para a modernidade, nem é única a
modernidade como destino ou marco. As modernidades são múltiplas (Eisenstadt,
2001 [2000]), distintas umas das outras, sendo a modernidade europeia ocidental
um entre casos; e, em si mesmos, são singulares cada processo de modernização e
cada modernidade. Várias são as tipificações propostas, como a já resumida de
Giddens, ou a de Eisenstadt (acentuando o “programa cultural e político” de
autonomia e emancipação humana face à autoridade tradicional, domínio da
natureza e reconstrução da sociedade, assim como as dimensões legais,
administrativas e institucionais ligadas ao Estado-nação), ou a de Mouzelis
(definindo um conceito “não eurocêntrico” que assinala as dinâmicas de
mobilização e incorporação das populações no centro societal e, quanto à
dimensão de integração sistémica, as dinâmicas de diferenciação institucional,
cf. Mouzelis, 2008: 145-163) — para não recuar até às grandes interpretações da
modernização construídas por Marx, Durkheim, Weber e Parsons. Não obstante, é
possível elaborar um conceito sociológico de modernidade suficientemente geral
para dar conta da diversidade das configurações concretas e suficientemente
plástico para estabelecer, em bases não eurocêntricas, o seu denominador comum.
Assim se preserva uma certa abertura teórica e filosófica. Uns distinguem
primeira e segunda modernidade, modernidade industrial e modernidade reflexiva;
outros falam de modernidade tardia ou hipermodernidade para qualificar os
desenvolvimentos mais recentes. Como Jeffrey Alexander sugeriu, num texto
apropriadamente intitulado “Modern, anti, post and neo: how intellectuals
explain ‘our time’” (Alexander, 2003: 193-228), as classificações não são
apenas da ordem da epistemologia, mas também da ordem da escatologia,
projetando visões e preferências de futuro. Ora, o mínimo que se pode dizer é
que esse polvo de múltiplos braços a que nós vamos chamando “o moderno” se tem
revelado ágil a sobreviver em vários e dissemelhantes habitats.
Já não somos (só) modernos
No texto em que recorre à palavra modernité, Charles Baudelaire (1986 [1863]:
11) escreve que, sendo esta a imersão na “vida presente” em vez do refúgio em
arquétipos passados, de modo a retirar um novo sentido artístico da
efervescência do presente (vivo, multitudinário, fugaz), é também “o
transitório, o fugidio, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o
eterno e o imutável”.
Esta ideia de “metade” — abertura e incompletude, logo dinamismo — também é
consubstancial à modernidade como “programa cultural e político”.[2] Por várias
razões. A “emancipação” da razão humana (face aos artigos de fé, convenção e
costume) e a secularização da ordem social implicam necessariamente a admissão
e (nas melhores tradições liberais) a celebração do dissenso e do debate. A
institucionalização da reflexividade (de uma reflexividade de segundo grau)
comporta necessariamente a da sua dimensão crítica (a sujeição dos enunciados à
prova e aos argumentos cruzados). Esta dimensão é uma condição essencial para o
desenvolvimento das formas seculares de regulação, desde os contratos
voluntários até aos sistemas periciais. E enfim, como bem mostrou Pierre
Bourdieu em As Regras da Arte, o eixo do programa moderno de definição de um
campo cultural autónomo é a “institucionalização da anomia”, opondo à regra
dogmática gerada e aplicada por uma autoridade académica central a pluralidade
dos critérios e agentes de apreciação e valoração (Bourdieu, 1996 [1992]: 89).
A modernidade não é pois, apenas, na fórmula baudelairiana, “metade da arte”,
requerendo para ser plena a dialética com o que classicamente permanece; é
ainda inerentemente crítica, pluralmente crítica, não só das convenções a que
se opõe como de si própria.
Heterogeneidade e confronto crítico marcam, portanto, o quadro moderno de
representações, interpretações e ações no mundo. Os seus operadores
intelectuais fundamentais alimentam a diversidade e a conflitualidade: várias
modernidades que se desafiam, várias declinações do que é ser moderno e das
suas consequências. A distinção entre o individualismo cultural radical e o
liberalismo económico, em que Daniel Bell (1977 [1976]: 45-89) identificou uma
“contradição cultural do capitalismo”, é apenas uma entre várias. E o que é
próprio da modernidade é recusar outra forma que não a imanente de regular
essas tensões: pela comunicação argumentativa, pela troca mercantil, pelo
contrato civil e social, pela representação parlamentar e o sufrágio, pelo
escrutínio técnico e pericial, pela dialética das inovações e dos desafios —
mas não pela evacuação por assim dizer administrativa da diversidade, submetida
a uma ordem transcendente ou a uma hierocracia indisputável.
Não se pode fazer a história ou a sociologia da modernidade sem ter em conta
esta natureza multíplice e pluriforme. Vários programas modernos conflituam
entre si: este é o panorama, olhemos do ângulo das artes, das ideologias, das
religiões (e das “religiões seculares”), ou das ciências e humanidades. O
“sistema” da modernidade como um todo (ou seja, o quadro comum em que a
conflitualidade ocorre, se exprime e desenrola) vive tipicamente da
confrontação entre programas, que se interpelam também na base de que uns são
novos e outros antigos, uns heterodoxos e outros ortodoxos, uns orientados para
o futuro e outros já tradicionalizados. É esta funcionalidade autopoiética que
torna produtiva, ao olhar moderno, a “anomia”.
Assim, a história social da modernidade é a história da recorrente crítica
moderna da modernidade. Baste notar como a economia marxista dialogou
tensamente com a clássica e liberal; como as escolas compreensivas disputaram o
terreno do positivismo; como as doutrinas socialistas desafiaram as bases
censitárias e os princípios atomísticos do Estado liberal; como o pensamento de
Walter Benjamin estabeleceu um claro contraste com o ascetismo adorniano; ou
como, no imediato Pós-II Guerra, às teorias da modernização em via única (de um
Rostow) logo se contrapuseram as teorias do desenvolvimento. Os exemplos
poderiam ser multiplicados, não só no campo do pensamento e da ciência social,
como na esfera criativa ou na dimensão ideológica. Ao contrário do que as
representações primárias da modernidade ditas anti ou pós-modernas, mas sempre
caricaturais, querem fazer crer, ela foi um espaço plural e conflitual, esse
sendo um fator fundamental da sua consolidação e hegemonia. Mais uma vez nos
deparamos, pois, com uma matriz que não vale a pena denegar: por via dela,
todos somos modernos, e somo-lo específica e enfaticamente quando somos
críticos.
Contudo, fazendo uso de atitudes e categorias tipicamente modernas, e por aí
fortalecendo a razão moderna como razão crítica, o escrutínio e a interpelação
foram colocando em causa, uma e outra vez, os alicerces mesmos da modernidade.
Alternativa ou complementarmente, foram assinalando a sua exaustão e a sua
violência. No primeiro caso, diagnosticando “contradições”, “incompletudes” ou
“fragilidades” do seu programa; no segundo caso, e ainda mais
perturbadoramente, associando-lhe lógicas de controlo e dominação antagónicas
dos princípios e compromissos racionais e humanistas de que havia feito
bandeira.
Numa das versões mais benevolentes, a de Karl Marx, a modernidade burguesa e
capitalista estaria condenada, pelo desenvolvimento das forças históricas que
libertava, ao esgotamento e ultrapassagem por outro tipo de ordem, moderna
certamente, mas radicalmente diversa da que hegemonizava a Europa e a sua
colonização do mundo. Interpelações mais fortes e fundas identificarão uma
contradição básica entre os chamados pilares modernos da emancipação e da
regulação, denunciando a crescente subsunção daquele neste. De tal forma que
romper com tal subsunção implicará ou a “radicalização da modernidade”
(Giddens, 1990: 150), ou uma nova integração republicana universalista
(Habermas, 1998 [1996]), ou a opção por “uma outra via da modernidade”,
propriamente reflexiva (Beck, 2006 [1986]: 22), ou a escolha de uma orientação
essencialmente diversa, numa pós-modernidade de resistência e crítica (Santos,
1994: 69-101). E ainda mais forte e mais funda é a interpretação dos processos
aparentemente não modernos da dita Idade Contemporânea como o desenvolvimento
da própria modernidade.
Sem esquecer outras demonstrações importantíssimas — seja no que respeita à
formação do totalitarismo (por Hannah Arendt), seja no que toca às técnicas
jurídicas, administrativas e práticas de disciplinação e biopolítica (por
Michel Foucault), seja no que concerne ao taylorismo industrial (pela
generalidade dos sociólogos das organizações) — importa ter em conta pelo menos
as três abordagens seguintes.
Uma é a caraterização, que devemos a Ulrich Beck, da sociedade moderna como
sociedade de risco. A sociedade de risco é um desenvolvimento da sociedade
industrial: nela, os riscos não podem ser considerados dados exteriores ou
efeitos colaterais, porque são produzidos pela própria sociedade. É por isso
que a sua gestão só faz sentido no quadro de uma segunda modernidade, menos
“truncada” e mais “reflexiva” (Beck, 2006 [1986]: 26-30).
A segunda abordagem pertence a Samuel Eisenstadt, quando interpreta os
fundamentalismos oitocentistas e pós-oitocentistas (primeiro no seio do
protestantismo norte-americano, depois em outros contextos civilizacionais,
incluindo o islâmico) como processos modernos. Eles aplicam elementos-chave do
“programa político e cultural moderno” — como a valorização do potencial
transformador da ação humana e da sua dimensão política, a ocupação e recriação
das instituições do centro societal, a rutura com a história, e a projeção
utópica, missionária e universalista. Fazem-no, decerto, contra princípios
seminais da modernidade e em reação a processos de modernização; incorporando,
porém, plenamente “aspetos tecnológicos e organizacionais” da modernidade e, em
particular, a sua ambição de uma reconstrução ideológica totalizante das
instituições e de uma fusão dos centros e periferias sociais, abolindo ou
enfraquecendo as esferas intermédias (cf. Eisenstadt, 1997: 47-54, 2011 [2006]:
233-273; ver também Bauman, 1997 [1989]: 41-108, para os aspetos modernos do
racismo).
A terceira abordagem que importa considerar, nesta sequência de interpelações
que tocam nos alicerces mesmos da cultura moderna, elenca as afinidades tão
perturbadoras entre a modernidade e o Holocausto, com a sua lógica de
programação racional, altamente tecnicizada e pormenorizadamente planificada,
formada e aceite no coração da Europa. A abordagem foi defendida e praticada
por vários autores; mas podemos sintetizá-la através das vigorosas palavras de
Zigmunt Bauman: “O Holocausto foi gerado e posto em prática na nossa sociedade
moderna e racional, numa fase avançada da nossa civilização e num momento
álgido da nossa cultura — e, por esta razão, é um problema dessa sociedade,
dessa civilização e dessa cultura”; ele “foi um fenómeno tipicamente moderno,
que não se pode entender fora do contexto das tendências culturais e dos
sucessos técnicos da modernidade” (Bauman, 1997 [1989]: XIII, XVII; cf. também
Steiner, 1992 [1971]: 37-64).
Está-se a ver, pois, que uma reflexão crítica sobre a modernidade enquanto
categoria básica da nossa “estrutura cultural” (aproveito o conceito de Jeffrey
Alexander, 2003), não pode ficar por aspetos parciais. E, para ser global, tem
de distanciar-se — ao menos metodicamente — dos seus pressupostos
epistemológicos e ideológicos.
O sentido mais produtivo do primeiro pós-modernismo residiu, a meu ver, nesta
interpelação global: a “incredulidade em relação às metanarrativas” (Lyotard,
s.d. [1979]: 8) organizadoras do discurso, do conhecimento e da ação moderna,
tal como esta foi tomando forma e dominando o mundo a partir da Europa e da
América dos séculos XIX e XX; a defesa de um pensamento mais pragmático, menos
sistemático, mais próximo das artes e da experiência comum; a atenção ao
sentido, à comunicação e à cultura.
Portas e pontes
A nossa relação de sociólogos com a modernidade é, pois, complexa: ao mesmo
tempo interna e crítica. Tão complexa como a própria modernidade.
Na verdade, a ideia de modernidade organiza um quadro de categorias e
classificações intelectuais que remete para três ordens paralelas. Uma é a
tipologia social: distinção analítica entre sociedades, diacrónica ou
sincronicamente estabelecida, de modo a que possamos ter uma primeira leitura
global da sociedade que estamos a considerar (pré-moderna, moderna, moderna com
que qualificação, pós-moderna?). A segunda é a tipologia de estruturas
culturais (no sentido de Alexander): que valores, crenças e regras e que
princípios e operadores lógicos, éticos e estéticos definem o quadro de
referência (framework) da nossa visão, interpretação e orientação face ao
mundo, e o diferenciam de outros? A terceira é a tipologia de paradigmas ou
programas teóricos e disciplinares, que desenham os princípios e ferramentas e
codificam os resultados fundamentais do nosso conhecimento.
A sociologia é um terreno de eleição para explorar a articulação entre a
primeira e a terceira ordens, entre a tipologia das sociedades e a tipologia
dos paradigmas, exatamente porque se constituiu como conhecimento científico
(por aí, moderno) da modernidade (quer dizer, das sociedades ocidentais de
economia industrial e urbana e organizadas na forma política do Estado-nação).
Entretanto, uma exploração bem-sucedida requer a ligação da segunda ordem com a
primeira, demandando como a formação de uma nova estrutura cultural acompanhou
(e antecipou) a evolução do ordenamento societal; e a ligação da segunda ordem
com a terceira, de modo a compreender quer a estrutura cultural do conhecimento
sociológico, quer os efeitos culturais do conhecimento sociológico. É por isso
que precisamos de olhar para os aspetos filosóficos e ideológicos deste
conhecimento, coisa para a qual o conceito kuhniano de paradigma não bastará
(cf. também Alexander, 1988: 11-13), sendo talvez mais interessante reciclar o
termo clássico de pensamento sociológico. E, finalmente, mesmo quando, por
facilidade de comunicação, recorremos ao singular (quando, por exemplo, falámos
de “estrutura cultural”), isso não deve obscurecer o facto básico da
pluralidade e diversidade: várias modernidades, vários programas, paradigmas,
estruturas, conjuntos institucionais, padrões culturais modernos, confrontando-
se e comunicando entre si.
Este complexo jogo de relações ajuda a perceber porque é que a teoria
sociológica — que é, como tal, uma das dimensões da reflexividade de segundo
grau e institucionalizada típica do processo de modernização e da sociedade
moderna — é tão sensível ao que sucede na ordem social e na ordem cultural da
modernidade; como nela repercutem tão imediata e densamente as forças e
relações de forças socioculturais e como, por sua vez, tem uma presença
proativa nelas.
Desenvolvimentos e impasses, normalização e contestação, aplicação e crítica,
hegemonia e interpelação: não parece possível abordar a ideia de modernidade
senão a partir das tensões que a constituíram e foram transformando. A
reflexividade não podia parar, e não parou, à porta da modernidade. Seja (muito
kantianamente) como radicalização crítica da modernidade, seja como sua
densificação hermenêutica, seja como viragem pós-moderna, a interpelação
pertence à história, ao presente e ao futuro da estrutura cultural e teórica de
que o pensamento sociológico é parte.
Quem preferir aos modelos prontos a vestir um conhecimento em rede estará menos
interessado na arrumação escolar das interpelações críticas do que na
consciência plena da tensão que organiza e faz avançar este pensamento. É que
desconfiamos das metanarrativas; mas precisamos de interpretações holísticas.
Abdicamos das pressuposições apriorísticas do sentido espácio-temporal dos
encadeamentos causais; mas queremos propor explicações dos processos que
consideramos. Não celebramos acriticamente a razão cognitivo-instrumental; mas
não a declaramos extinta ou inútil, nenhuma regra subsistindo. Valorizamos as
realidades desprezadas pelas sínteses grandiosas, essas realidades
fragmentárias, mestiças, dinâmicas, irredutíveis a divisões extremas e
absolutas; mas continuamos a referir o local ao global, a ação à estrutura, a
dimensão ao sistema, e a descrição de cada aspeto à indagação intelectual sobre
a razão da sua contingência.
Ora, não é possível compreender bem esta tensão entre elementos que se implicam
reciprocamente se apenas seguirmos a lógica da classificação em categorias
binárias — uma lógica demasiado influente no pensamento sociológico.
Desde logo, como agudamente mostrou Pierre Bourdieu, a natureza dualista das
“formas escolares de classificação” ecoa e reforça as oposições polares que
tendem a estruturar as relações de poder e as lutas pelo poder em cada campo
(cf., por exemplo, Bourdieu, 1989: 17-47). A contraposição entre hegemónico e
dissidente, central e periférico, canónico e marginal, ortodoxo e herético,
estabelecido e revolucionário, antigo e novo, velho e jovem, clássico e
moderno, organiza a expressão e a mobilização em torno de grandes eixos de luta
pela definição dos termos e enunciados das questões, que é o que está em causa
no poder simbólico. Não há nenhuma razão para não ver a querela entre moderno e
pós-moderno também como uma luta de classificação, pelo menos parcialmente
determinada por elementos exógenos ao trabalho intelectual propriamente dito.
Mais devedoras de estratégias comerciais e políticas do que da lógica
científica, as grandes classificações binárias que procedem a distinções
categóricas em disciplinas como a história, a economia ou a sociologia tendem a
ser construídas etnocêntrica e teleologicamente. Elas projetam no passado
diferenças recentes ou presentes cuja transitoriedade assim obscurecem,
reconstruindo os processos de desenvolvimento histórico como marchas mais ou
menos hegelianamente orientadas para a realização de tais diferenças.
Transformam-nas em essências, situando-as aquém da relatividade e variação das
circunstâncias de tempo, espaço e contexto social. E interpretam-nas
hierarquicamente, como se opusessem, não coisas distintas e equivalentes, mas
coisas desiguais em valor, devendo ser umas encarecidas como normas ou modelos
e as outras reduzidas a desvios.
Jack Goody tem mostrado a matriz eurocêntrica da leitura (moderna) da história
como o processo de singularização de uma modernidade europeia que seria
possível fazer remontar teleologicamente ou à Antiguidade Clássica, ou à Baixa
Idade Média, ou ao Renascimento, e face à qual as restantes civilizações
eurasiáticas só poderiam ser vistas como incompletas, imperfeitamente modernas,
isto é, desclassificadas. Essa leitura tem contribuído para “roubar a história”
ao Oriente, concentrando-a na Europa e no Ocidente (Goody, 2012 [2006]). Ora,
se há classificação binária que contribui não só para naturalizar a dominação
mas também para dificultar o seu escrutínio crítico, é esta que opõe a
modernidade ocidentalocêntrica ao que, por não sê-la, não chega a ser
inteiramente.
Em vários aspetos, a teorização aparentemente alternativa da pós-modernidade
como uma nova etapa histórica e uma nova estrutura cultural associadas às
transformações da globalização — por via da intensificação dos fluxos de
pessoas, capitais e símbolos, da plasticidade e volatilidade das referências
morais e comportamentais, da desancoragem e desvinculação social, da
esteticização do comportamento e da vida quotidiana, etc. — reproduz a mesma
lógica classificatória que distingue binariamente entre o tudo e o nada, o
mesmo e o outro, o presente e o passado, como se fossem essências
incomunicantes e incomunicáveis. Se a dialética entre pós-modernidade
e modernidade for da mesma ordem lógica da dialética entre modernidade e pré-
modernidade, o Outro não europeu continuará “roubado”, destituído da condição
de sujeito histórico.
O ponto é, de cabo a raso, epistemológico, no sentido próprio da palavra. Tem a
ver com a forma como construímos e aplicamos as nossas categorias intelectuais,
os instrumentos e modelos de conhecimento. A cadeia de dicotomias (moderno
contra pré-moderno, pós-moderno contra moderno e assim sucessivamente) nada
explica por si mesma; mas afasta-nos da explicação.
Por múltiplas razões.
Em primeiro lugar, querendo reservar para uma das categorias qualidades que tem
por essenciais, logo exclusivas, dela, a dicotomia desarma-nos perante o que
realmente existe, e é dinamismo, variabilidade, transformação. Consideremos,
por exemplo, a complexidade da questão das tradições, que a visão
ocidentalocêntrica da modernidade tanto desqualifica. Precisamente ao contrário
do que esta sugere, todas as sociedades — e não apenas as modernas — estão
“instaladas” no tempo e na mudança; e todas as sociedades — não apenas as pré-
modernas — elaboram e consolidam tradições, que são plásticas e polissémicas.
Como sublinhou Eric Hobsbawm (1996 [1983]), as tradições são “inventadas”,
criadas e recriadas em contextos e segundo processos que é preciso conhecer,
para compreendê-las. Uma das grandes ideologias da Europa oitocentista, o
nacionalismo, é mesmo um caso lapidar de invenção de tradições, no duplo
sentido da palavra: criação e fingimento (veja-se Geary, 2008 [2002]). As
tradições são chaves de interpretação e quadros de orientação mais ou menos
abertos, que favorecem, decerto, a reprodução social, mas também ajudam a
perceber e a lidar com a mudança social. E por isso é tão importante observar
que “a mudança não é o que se opõe à tradição” (Silva, 2000: 7-84); por isso é
tão importante identificar e interpretar as tradições modernas (assim mesmo,
como tradições modernas) e até notar como aquelas que procuraram lançar contra
os processos de modernização a que se opunham supostas tradições primordiais,
fechadas e impositivas, tiveram, pura e simplesmente, que reinventar as
tradições (falo dos modernos fundamentalismos religiosos e apoio-me em
Eisenstadt, 1997: 52-53).
Em segundo lugar, a visão binária do mundo afasta-nos do trabalho de explicação
sociológica porque, sobrevalorizando a diferença que opõe os dois termos de
cada dicotomia, desincentiva a análise fina de cada termo. Convida a ficar pela
superfície das coisas, secundarizando não só a densidade que as constitui, como
também a heterogeneidade, a diversidade interna, as contradições até que as
fazem mover. Aqui como noutros planos, o custo da generalização pode ser a
perda de profundidade. Dividindo esquematicamente A e B (o moderno do pré-
moderno, o pós-moderno do moderno, o moderno do antimoderno, e por aí adiante),
como se serem eles contrastantes entre si bastasse para compreendê-los,
rapidamente preferimos o rótulo à substância e, em vez de abrir, fechamos a
porta que deveria levar-nos à descoberta e interpretação da realidade
multifacetada e dinâmica de cada A e cada B, condição prévia e necessária para
uma verdadeira comparação dos dois.
Como bem escreveu Jack Goody (2012 [2006]: 152), “as categorias binárias não
admitem a pluralidade e a contradição”. E assim — terceira razão de afastamento
da explicação sociológica — não estimulam, antes dificultam a comparação. Se
pressupusermos que a modernidade da civilização europeia a separa
qualitativamente de outras civilizações que teriam falhado a modernização no
tempo próprio e por impulso endógeno, ou se o olhar que projetarmos sobre o
fundamentalismo contemporâneo o descrever imediatamente como o inverso absoluto
da modernidade (e outros exemplos poderiam aduzir-se, atenho-me às duas
investigações seminais de Goody e Eisenstadt), não só estaremos a tornar
logicamente menor e até supérflua a indagação teórico-empírica de cada concreta
configuração histórico-social, como estaremos a impedir qualquer comparação
sistemática entre as várias configurações. Para os cultores da teoria
evolucionista da modernização, como para aqueles que brandem contra o
relativismo alegados universais (e os casos poderiam multiplicar-se), o foco
está na medida do “desvio” de um termo menor face à norma definida pelo termo
maior da oposição. É o desvio do Outro face ao Nós, da tradição face à
modernidade (e à pós-modernidade), do diferente face ao idêntico — e, em termos
mais propriamente cognitivos, da realidade empírica face ao modelo e à sua
elegância formal. Ora, isso não é comparação, não é a comparação sistemática de
que a sociologia (e a economia) tanto precisa, devendo para tal ter comunicação
franca e frequente com a história, a geografia e a antropologia. Numa abordagem
mais densa, deveria antes ver-se — escreveu Goody (2012 [2006]: 157), numa
frase que os leitores saberão sopesar — “os dois lados da comparação como
desvios em vez de ver um como a norma”.
Claro que precisamos de categorias. Nem que seja como “meras tabuletas de
sinalização”, para lembrar o sarcasmo de um livro mais antigo de Jack Goody
(1988 [1977]: 18). Mas façamos um uso prudente, instrumental, não categórico
das categorias; e fujamos à sua reificação. Combatamos, como exige Nathalie
Heinich (2009a: 62-64, 139-140), “o sofisma da categoria” e o “sofisma da
oposição disjuntiva”. Não daremos conta de uma realidade social que é complexa,
multifacetada e contingente com taxonomias baseadas em classificações
dicotómicas e formais. E, portanto, o pensamento sociológico e a estrutura
cultural em que faz sentido hão de ser mais abertos à comparação do que à
classificação, à análise do que à nomenclatura, à substância do que ao nome.
Regresso a Baudelaire: a modernidade, o presente que flui, é “metade da arte”;
para ser inteira, tem de dialogar com a outra metade, o que permanece. Não vejo
razão para que os programas de conhecimento não façam seu este princípio
central do programa artístico. Claro que é forçoso separar, nomear, dividir,
classificar: estabelecer diferenças e quadros de diferenciação. Mas também
relativizar e contextualizar as diferenças; conhecer e comparar as diferenças
(não como o afastamento de um outro face a um, mas sim a comunicação entre os
que são sempre os outros de outros e, por isso mesmo, são radicalmente
equivalentes); e integrar as diferenças na complexa e mutável unidade que elas,
por serem múltiplas e diversas, fazem. Para aproveitar a bela metáfora de Georg
Simmel: precisamos de pontes como de portas.
Combinações em vez de dicotomias
Bridging the Divide, escreveu Nicos Mouzelis (2008) a propósito da teoria
sociológica, numa fórmula cuja elegância a tradução não restituiria totalmente.
Não se trata de negar as diferenças e os contrastes: aqui como nas outras
esferas da vida, por mais perniciosa que seja a dicotomia, ela é sempre
preferível à ilusão da unicidade. Mas importa levar a sério a complexidade
única de cada um dos termos singulares que a oposição separa; e explorar os
pontos e as formas de comunicação entre os separados.
Como será isto possível sem romper com a lógica dicotómica tão preponderante
nas “formas escolares de classificação” (regresso à fórmula de Bourdieu), sem
lhe preferir outro quadro de problematização? Um dos cientistas sociais que
mais tem pugnado por isso, o antropólogo Jack Goody, sugere outra imagem
gráfica: em vez da lista de pares opostos, uma tabela, uma “grelha de análise”,
em que várias linhas se cruzam com várias colunas, em combinações mais densas
do que a pura forma da identidade (A = A) e da diferença (A ¹ B). Essa seria
“uma abordagem mais subtil do que a usual […] de lidar com categorias,
frequentemente exclusivas” (Goody, 2012 [2006]: 48).
Ora bem: com esta ou outras imagens, o que estamos fazendo é aproximar-nos do
que chamei, no início deste ensaio, um conhecimento em rede. Como modelo de
abordagem dos processos sociais, ele não tem de pressupor (a partir de uma
única Grande Síntese ou metanarrativa teórica, de entre as que a estrutura
cultural moderna foi construindo) uma determinação causal entre factos que se
impusesse universalmente, isto é, não dependesse da configuração concreta dos
factos e do seu conhecimento específico. A rede prolonga a imagem da tabela até
uma grelha aberta, isto é, em que o número de linhas e colunas não é definível
aprioristicamente, mas resulta do ponto de entrada e da extensão e profundidade
da nossa indagação intelectual. No entanto, recusando as modelizações tão
estranhas a circunstâncias de espaço e tempo que só podem encontrar respaldo em
crenças, afirmando a coextensividade da descoberta e da interpretação, a
abordagem em rede quer pôr em melhor relevo a complexidade das
interdependências, isto é, as múltiplas relações e direções da determinação e
as margens de incerteza, o jogo do estrutural e do contingente e do macro e do
micro que faz e muda as realidades sociais. Quer, em suma, constituir um
inquérito racional mais denso e chegar a uma explicação mais ampla, menos
esquemática, mais rica. Tal como está longe das grandes classificações formais,
está também longe da renúncia, que muitos designam como pós-moderna, a qualquer
ambição explicativa e a qualquer esforço intelectual de abstração e
generalização, de interpretação holística dos processos sociais.
Poderíamos, pois, dizer: nem inteiramente modernos — isto é, subordinados ao
paradigma das ciências ditas positivas de Oitocentos, que tanto se demorou, em
algumas ciências sociais, ao longo de todo o século XX — nem complacentemente
pós-modernos — isto é, refugiados na narrativa e na descrição, por mais
vívidas, dos factos, ou mesmo circunscritos a um discurso circular a seu
pretexto; mas situando-nos bem para lá dessoutra dicotomia entre modelos de
conhecimento que, fazendo cristalizar os termos que classifica, adormece em vez
de agitar a nossa inteligência. Aliás, porque não aplicar à luta de definição e
(des)classificação entre modernidade e pós-modernismo o que Clifford Geertz
(1984: 263) escreveu a propósito da contenda entre relativistas e
antirrelativistas — que foi “uma batalha de ontem”, e os gritos de mobilização
que nela fizeram sentido com ela passaram?
Significa isto a irrelevância, para o nosso tempo, da constelação de categorias
que se foram forjando na estrutura cultural moderna e a partir da ideia de
modernidade? Que devemos passar uma esponja sobre as relações de articulação e
tensão entre elas, que foram tão marcantes para o pensamento sociológico? Que
as arrumemos no capítulo próprio da história social e intelectual da nossa
disciplina?
Não, por certo. Por um lado, isso seria reproduzir por nossa conta a mesmíssima
lógica de classificação categórica e dicotómica que acabávamos de contestar,
seria cometer o mesmo erro, tão bem sintetizado por T. Brook: “ao separar o
moderno do pré-moderno, a história moderna desacreditou o pré-moderno como
fonte de valor ou sentido contemporâneo” (citado por Goody, 2012 [2006]: 129).
E, por outro lado, seria desistir da compreensão dos fundamentos e
encruzilhadas da nossa própria estrutura cultural.
A questão não é, insisto, dispensar as categorias — seria um absurdo lógico.
A questão é usá-las como ferramentas, não como rótulos; servir-nos delas como
de chaves que abrem portas, havendo de combinar várias para poder abrir as
múltiplas portas de entrada na enorme diversidade dos processos sociais. A
questão é valorizar as categorias mais como instrumentos de compreensão do que
de classificação; dispô-las em redes mais do que em oposições polares.
Dispostas em oposições disjuntivas, as categorias da modernidade excluem-se:
moderno é o que não é tradicional, e tradicional não é moderno; moderno
contrapõe-se a antigo, e antigo não pode ser moderno; moderno distingue-se de
clássico, e ou se é clássico ou moderno; e depois pós-moderno opõe-se a
moderno, ou opõem-se entre si as várias “qualidades” ou tempos de modernidade,
e por aí sucessivamente. Muros que dividem, arrumam, assinalam propriedades e
dissuadem intrusos. Mas, colocadas em grelhas, em tabelas de variáveis linhas e
colunas, colocadas em redes atravessáveis por vários caminhos, as categorias
são formas de pensar, nomear e comunicar as coisas e de estruturar o nosso
pensamento acerca e a partir delas; e as classificações a que procedem, não
constituindo produtos finais, são todavia recursos úteis.
Moderno contrapõe-se a tradicional, seguramente: quando conota uma
descontinuidade num percurso histórico e num padrão de relações (numa ordem
social, em sentido analítico). Mas as tradições, enquanto padrões de identidade
e ação que se formam, consolidam e transmitem, são geradas quer por sociedades
simples quer por sociedades complexas, quer por “comunidades” quer por
“sociedades”, quer pelo “pré-moderno” quer pelo “hipermoderno”. E, se moderno
conota o dinâmico, o que se move, o que muda, o que se transforma, então são
bem modernas muitas tradições de tempos ou espaços anteriores ou exteriores ao
que a classificação evolucionista descreve como modernidade: as tradições das
sociedades sem escrita, ou das sociedades rurais, ou de enclaves e periferias.
Combinações de modernidade e tradição, irredutíveis a dicotomias básicas e
absolutas.
Moderno contrapõe-se a antigo, como ao velho se contrapõe o novo e o próximo ao
distante. Porém, se moderno conota e bem o que julgamos mais novo, mais recente
e próximo de nós, então o que é moderno agora será antigo num futuro mais ou
menos imediato (o “paradoxo” assinalado por Jauss, 1994 [1978]: 158-209). Essa
caraterização apenas designa, pois, o provisório e “fugidio” de cada momento
(voltamos a Baudelaire): é um nome relativo e, por isso não pode fundar, ao
contrário do que postulam as habituais teorias da modernização, nada mais do
que o relativo.
Por seu lado, é também moderno o que há de próximo, intelectual ou
materialmente próximo de nós, em contextos às vezes cronologicamente distantes
em milénios — por exemplo, o que está próximo de nós na Grécia Clássica ou as
descobertas que vamos fazendo de elementos que estão ou deviam estar próximos
de nós (o que quer dizer, nós deles) nas grandes civilizações antigas do
Oriente e do Sul. Logo, podemos e devemos salientar a por vezes espantosa
modernidade de muito o que, por outro critério, bem designaremos como antigo.
Moderno contra antigo, sim: mas um moderno que se tornará antigo, e um antigo
com tanto de moderno…
Moderno contrapõe-se a clássico. Mas, se o faz como a variedade e a
variabilidade se opõem ao que perdura, então clássicas são todas as obras
criadas pela ação humana que passam o teste do tempo, incluindo as obras da
modernidade. E porque passam esse teste senão porque nenhum uso particular
delas é capaz de exauri-las; porque se pode generalizar a mais domínios o que
Italo Calvino escreveu a propósito da literatura: “um clássico é um livro que
nunca acabou de dizer o que tem a dizer”, “uma obra que provoca incessantemente
uma vaga de discursos sobre si, mas que continuamente se livra deles” (Calvino,
1994 [1991]: 9, 10)?[3] Ou seja: porque continuam modernas para lá da
modernidade imediata do seu tempo, permanecem nossas contemporâneas para lá da
sua contemporaneidade originária, circunstancial e já passada.
Porém, se clássico é o moderno de amanhã, sobrevivendo ao moderno de hoje,
clássico é também o padrão de aferição do moderno — e isso inverte a ideia
moderna do progresso, já que sugere que o futuro e a orientação linear para o
tempo futuro não é o critério único ou necessário de valor. Prezar deste modo o
clássico é introduzir um ponto de consciência crítica muito importante para a
nossa estrutura cultural de cunho mais tecnológico e lúdico que humanístico:
como diz George Steiner (1992 [1971]: 136-137), é ter bem viva a ideia de que o
tempo — e o seu teste — não é necessariamente comandado pelo futuro. E,
finalmente, o que é verdadeiramente o clássico senão aquilo que cada presente e
a sucessão dos presentes — isto é, dos modernos — convenciona tratar como tal,
dedicando-lhe, na frase irónica e certeira do misterioso Borges (1983 [1968]:
234-235), uma “misteriosa lealdade”?
Tradicional, antigo, clássico, moderno — ou modernista, ou modernidade? O certo
é que a exploração das múltiplas relações entre categorias que só se
compreendem plenamente em tensão umas com as outras é bem mais promissora do
que o simples elenco em grandes divisões binárias, como as dicotomias
esquemáticas entre moderno e pré-moderno e entre pós-moderno e moderno. O que
Simmel (1993 [1909]) disse acerca da ação humana — que liga o que está separado
e separa o que está unido, que estabelece portas e constrói pontes — deve
aplicar-se, por maioria de razão, à sua estrutura cultural. Nesta, o que se
contrapõe não se contrapõe necessariamente aos pares, mas em configurações
variadas (e aqui me afasto das análises de Alexander, 2003); e contrapor-se não
é simplesmente dividir-se.
Depois, acresce que cada estrutura cultural comporta múltiplas dimensões, não
podendo a interpretação ignorá-lo. Portanto: não podemos ficar pelas dicotomias
esquemáticas porque elas reduzem a complexidade pluridimensional de qualquer
estrutura cultural e paradigmática a uma só dimensão; e porque elas reduzem a
complexidade relacional entre as categorias a uma só forma, e a mais frustre: a
divisão binária.
Quem frequentar regularmente a literatura há de certamente notar quão próximo
me encontro, neste ponto, da epistemologia associada a algum do grande romance
novecentista, aquele que Calvino (2002 [1990]: 42, 127-128, 145) disse ser uma
“procura de conhecimento”, um “método de conhecimento”, uma “rede de conexões
entre os factos, as pessoas e os mundos”, “uma grande rede”. “Hoje em dia —
continua Calvino (2002 [1990]: 138, 137) — já não se pode pensar numa
totalidade que não seja potencial, conjetural e multíplice”; e, portanto, o
conhecimento dela deve ser ele próprio concebido “como uma multiplicidade”.
A aproximação que favoreço entre a indagação sociológica de realidades sociais
complexas e abertas e o que há de conhecimento na recriação literária destas
não se destina, porém, a justificar (como faz algum pós-modernismo) qualquer
renúncia à ambição de explicar e interpretar holisticamente, considerando as
coisas como totalidades. Não é a circularidade sem fim de narrativas mais ou
menos imaginosas que busco, mas ao contrário a progressão em espiral. Se, na
bela frase de Calvino, cada totalidade já não o é senão em modo potencial,
conjetural e multíplice, interpretá-la significa abordá-la uma e outra e outra
vez, de cada vez partindo de um novo ponto de entrada e de um novo ângulo de
observação, e percorrendo analítica e interpretativamente os fios possíveis a
partir de cada ponto e cada ângulo. Isso obriga frequentemente a reconstruir a
interpretação. Mas cada reconstrução enriquece, acrescenta conhecimento. Como
n’O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, que devia ser bibliografia
fundamental nos cursos de epistemologia das ciências sociais: os três primeiros
volumes iluminam de forma diferente a mesma sucessão de acontecimentos e a
mesma galeria de personagens, porque contrastam os pontos de vista; e é essa
variação, culminada depois num desenlace de que o quarto volume dá conta, que
permite aos leitores compreender o verdadeiro objeto deste romance prismático
que é a cidade de Alexandria. Também a sociologia pode ser “n-dimensional”
(Durrell, 2012 [1962]: 204); e sê-lo pode fazê-la progredir, não na ilusória
linearidade dos positivismos tardios, mas em espiral envolvente, demorada… e
ascendente.
As dicotomias devem ser reputadas, pois, adversárias do conhecimento em rede
que propugno. O conhecimento em rede não pode ser modelizado e classificado no
quadro de uma dicotomia.
Ser apenas contemporâneo
As identidades precisam de nomes. Não o ignoro, nem à sua consequência: que
nome invocar para identificar a posição epistemológica para que estou
convidando os meus leitores?
Apenas sugiro que, se a nossa circunstância continua a exigir alguma rebeldia
face às classificações demasiado estandardizadas e taxativas (ora bem:
categóricas) do pensamento sociológico — e em particular face às classificações
dicotómicas — então não podemos escolher para nosso nome um dos termos
vinculativos que estruturam essas mesmas classificações, qualquer que ele seja
(por exemplo: moderno ou pós-moderno). Devemos é escolher um nome que seja mais
oblíquo, ou exterior, a tais dicotomias.
Por isso me quero declarar apenas contemporâneo.
Afirmação de modéstia, qualidade bem necessária ao trabalho intelectual:
contemporâneo é o que eu não posso deixar de ser, pertencendo à circunstância
que me coube em sorte. Nada mais.[4] Se sou mais moderno ou mais pós-moderno,
ou até mais pré-moderno, ou neomoderno (neobarroco, neoclássico,
neotradicionalista, a lista dos rótulos, para quem os apreciar, é inesgotável),
é coisa que já não sei dizer com propriedade, tão enviesadas me parecem essas
“tabuletas de sinalização”. O que sinto quando me belisco para ter a certeza de
que sou real, é o meu ser na sua circunstância: o meu ser no meu tempo. Há
frases lapidares de filósofos que adornarão bem este ponto.
Mas ele, que é muito importante, não é o mais importante. Ao ser do meu tempo,
sou virtualmente de todas as possibilidades abertas no e pelo meu tempo. Não
tenho de fechá-las à partida, para me encerrar nesta ou naquela história; não
tenho de considerá-las necessariamente como alternativas, obrigando-me a
escolhas liminares e pouco menos que definitivas. Posso tomá-las por
ferramentas, cuja utilidade só pragmaticamente se testa — e as mais das vezes
nenhuma será útil só por si, mas sim em combinação com outras.
Autores como Nicos Mouzelis, John Parker e Rui Pena Pires têm proposto tratar a
teoria sociológica como uma “caixa de ferramentas”. Isto não significa ignorar
o modo como ela se declina em diferentes e contrastantes paradigmas; mas, pelo
contrário, reconhecer até que, sendo esses paradigmas parcialmente
incomensuráveis, a pluralidade é inevitável. Significa sim, acentuando o
critério operatório, facilitar a intercomunicação, mostrando como as distintas
ferramentas (heurísticas e interpretativas) podem ser aplicadas e adaptadas a
observações e para teorizações específicas. Ora bem: alvitro que se estenda
este empreendimento — que Pena Pires (2007) mostrou tão eloquentemente poder
sustentar a reconstrução de “árvores conceptuais” na teoria sociológica da ação
e da estrutura — ao plano ainda mais geral das categorias que organizam a nossa
estrutura cultural. E, pelo menos, a essas categorias-chave do pensamento
sociológico que gravitam em torno da ideia de modernidade.
Em vez de rotulagens categóricas, designações mais frouxas e plásticas. Em vez
da obsessão com a etiqueta, atenção à substância do pensamento. Em vez de
querelas terminológicas e lutas de (des)classificação, articulações produtivas.
Em vez de lealdade às pressuposições de valor (o termo weberiano é bastante
apropriado), investimento na indagação intelectual, teórica e empiricamente
informada, da realidade humana. Cada tempo é um entrelaçamento de tempos: eis
provavelmente a mais importante lição da história (Silva, 2013). Pois
apliquemo-la também ao domínio do conhecimento: desenhando a grelha pedida por
Goody, como alternativa às grandes dicotomias, em cujas linhas e colunas
podemos dispor as múltiplas ordens de inteleção e as suas categorias
principais, assim compreendendo melhor como não somos nem modernos nem pós-
modernos porque somos simultânea e tensamente modernos e pós-modernos,
clássicos e modernos, modernos e antigos, vinculados ao nosso presente, ao
passado que o fez e aos futuros que ele abre. E tendo de olhar em todas as
direções, ao contrário dos militantes de escolas, que nos querem orientados só
para uma. Como dizia Balthazar a Darley, na Alexandria imaginada por Durrell
(2012 [1962]: 730): “em cada ponto do tempo você defronta a multiplicidade”.
Recorro, para concluir, a um trecho de Walter Benjamin (1992 [1928]: 105-106):
O marinheiro “devorou” a proximidade e já só o interpelam as
nuancesexatas. Ele pode mais facilmente distinguir os países pela
forma de preparação dos seus peixes do que pela arquitetura e o
décorda paisagem. Está de tal forma à vontade no detalhe que, para
si, as rotas em que se cruza com outros navios (e com o apoio de
sirenes cumprimenta a sua própria firma) se transformam em estradas
ruidosas em que é preciso dar passagem. No mar alto habita uma cidade
onde na Canebière marselhesa se encontra uma taberna de Port Said,
obliquamente defronte de um bordel de Hamburgo e o Castel dell’Ovo
napolitano se encontra na Plaza Cataluña de Barcelona. Para os
oficiais, a sua cidade natal ainda tem a primazia. Mas para o grumete
ou o fogueiro, as pessoas cuja força de trabalho transportada mantém
contacto com as mercadorias no bojo do navio, os portos que cruzam já
nem sequer são pátria, mas sim berço. E, se os escutarmos,
compreendemos quanta mentira se oculta no viajar.
Eis uma boa alegoria da indagação intelectual que prefiro. Aceito que os
oficiais do meu mister optem por exercê-lo a partir da cidade natal do seu
Sistema — e assim distingam as coisas e as nossas responsabilidades perante
elas de acordo com sucessivas dicotomias operadas por categorias básicas,
estáveis e exclusivas. O Sistema tem a vantagem de uma topografia simples; e as
rotas para percorrê-lo podem ser solidamente estabelecidas por deduções
encadeadas, antes mesmo de começar cada viagem. Esse conforto parece, contudo,
ter um custo, a muita mentira que se esconde na viagem, e resulta da redução do
mundo ao mapa. Uma prática mais vagabunda, intersticial, tentativa, menos
fortalecida mas também menos aprisionada pelo Grande Esquema, há de perturbar a
observação e o seu registo: mais sombras, labirintos, pontos de vista,
tonalidades; mais efeitos da passagem, da ida e da vinda, do término e do
recomeço, do avanço e do retorno. Com menos tabuletas de sinalização o caminho
deixa de ser linear, previamente reconhecido, percorrido uniformemente por
todos (e sujeito aos mais incríveis controlos institucionais!…). O risco de
perder-se aumenta exponencialmente. Mas também a possibilidade de desbravar em
várias direções as várias partes de vastos e complexos territórios, também a
probabilidade da descoberta (e da serendipidade mertoniana). Em suma: não só
cresce a capacidade de explorar e conhecer caso a caso, parcela a parcela,
porto a porto, cidade a cidade, mas cresce ainda, e crucialmente, a visão
panorâmica e a interpretação holística — já não fundadas agora na perspetiva de
Sirius de uma Grande Teoria, que aplana o que é rugoso e despreza o chão vivido
das coisas, mas pelo contrário calcorreando esse chão, ou (diria Benjamin)
navegando os diferentes mares e perambulando pelos portos e escalas. Isto é:
uma interpretação holística elaborada a partir de comparações sistemáticas e
não etnocêntricas; a partir de narrativas e explicações não teleológicas; a
partir do uso operatório e plástico dos múltiplos ângulos e instrumentos de
observação e análise que vamos construindo e testando.
Não estou longe, espero, desse “pensamento do meio-dia”, o “pensamento dos
limites” que, logo em 1951, Albert Camus opunha ao sonho moderno do Absoluto e
à ameaça totalitária que ele comportava. Justamente em nome de uma leitura mais
radical da modernidade, a que deduzia da sua consciência crítica (de “revolta”,
os sociólogos de hoje diriam de emancipação) a ideia de limite (e não a
suspensão da crítica em favor da nova causa, ou a suspensão da justiça em nome
da justiça futura, ambos germes dos totalitarismos modernos) (Camus, 2008
[1951]: 349-382). A desconfiança “revoltada” (crítica) perante todos os
absolutos e perante todas as utopias finalistas que julgam poder absorver as
zonas de dúvida, dissidência, confrontação e criação — ou seja, tudo quanto faz
a liberdade, intelectual e humana — não é apenas essencial no plano da ação e
organização social como também, para sê-lo efetivamente, há de pautar os
elementos próprios das estruturas culturais e dos paradigmas e programas
cognitivos. Porque, como vimos, a modernidade articulou esses três planos
social, cultural e científico.
Eis, pois, um pequenokit epistemológico para sobreviver às classificações do
pensamento sociológico: ceticismo perante as visões binárias do mundo e os
quadros de entendimento construídos apenas sobre divisões categóricas;
escrutínio permanente das grandes sínteses e firme denúncia dos seus
pressupostos naturalistas e etnocêntricos e das suas reconstruções
teleológicas; desprezo pelas técnicas de rotulagem e as lutas de escola. Isto
do lado da negação. E do lado da afirmação: emprego operatório e instrumental
das categorias; sua colocação em rede, permitindo interações a vários sujeitos
e em várias dimensões; respeito por e aproveitamento do caráter plástico,
adaptativo, polissémico das categorias da cultura e do pensamento;
multiplicação das comparações, que fazem mudar o ponto de vista e as realidades
observadas, e das interpretações holísticas estabelecidas a partir delas;
exploração sistemática das possibilidades (em vez do culto quase religioso de
Sistemas que as fecham), as possibilidades abertas por este jogo de
interdependências, indeterminações e contaminações ou fecundações recíprocas
entre ideias, categorias e quadros de pensamento.
Estou muito convencido de que esta maleta de primeiros socorrosajuda a
sobreviver às classificações. Mas talvez sirva para mais. Talvez seja um ponto
de partida para a compreensão e a prática mais ágil e criativa das ferramentas
sociológicas.
Há uma maneira de pô-las sobre a mesa seguindo estritamente as respetivas
instruções: faremos todos mais ou menos da mesma maneira, publicaremos segundo
as mesmas regras e formatos, corroboraremos pela enésima vez a teoria que
aplicamos ou registaremos a enésima “anomalia” kuhniana que tornará mais
próximo o seu desabamento. Mas podemos ser menos disciplinados, menos
repetitivos, mais desenvoltos, jogando as fichas nas múltiplas combinações e
nas múltiplas possibilidades. O mais certo é que a “prosa do mundo”, que Hegel
dizia ter começado com Roma e de que a instituição académica se está tornando
uma das mais lídimas e potentes expressões, venha a resmungar. Mas talvez
possamos invocar George Steiner (2012: 219-222) e pedir autorização para
cultivar, pelo menos nas humanidades e ciências sociais, essa ligação essencial
entre pensamento e linguagem poética. Ou mesmo sermos mais atrevidos e dizer
dessa casa menos compacta mas mais aberta que é uma epistemologia não
fundacionista nem classificatória, o que a grande poeta Emily Dickinson disse
da poesia, em versos memoráveis: I dwell in Possibility/A fairer House than
Prose…[5]