As perceções de riscos ocupacionais no setor ferroviário
Introdução
A civilização moderna pode estar culturalmente cega, pois onde é percecionada
normalidade, possivelmente, espreitam ameaças dissimuladas (Beck, Giddens e
Lash, 2000: 30). De certo modo isto significa que os riscos são entidades
omnipresentes no mundo social (incluindo os locais de trabalho). Neste
contexto, a forma como identificamos e interpretamos os riscos torna-se
relevante para a prevenção de eventos negativos. É pertinente referir que as
perceções de riscos são entendidas como a forma como os não especialistas
compreendem os diversos fenómenos ligados ao risco. Dentro deste âmbito importa
destacar que os saberes associados ao senso comum têm vindo a ganhar
importância (Santos, 1987), mas o conhecimento especializado de peritos e
cientistas tende a ser socialmente mais valorizado. [1] Paralelamente, no
imaginário coletivo parece disseminar-se a ideia de que a própria ciência é
produtora de novas formas de risco e este facto acabou por originar a quebra do
monopólio da racionalidade científica na definição dos riscos (Beck, 1992: 19).
É ainda importante referir que nem mesmo as designadas avaliações objetivas de
riscos (efetuadas por especialistas) estão isentas de riscos (Perrow, 1999).
Neste trabalho pretendemos centrar a nossa atenção na forma como as pessoas
identificam e expressam os riscos aos quais se encontram expostas no seu local
de trabalho, [2]tendo em conta que esses mesmos riscos só podem ser alvo de
alguma estratégia preventiva após a sua identificação. As perceções de riscos
estão diretamente ligadas à forma como os indivíduos pensam, representam,
classificam ou analisam as diversas formas de ameaça às quais se encontram
sujeitos ou sobre as quais têm conhecimento. Muitos autores discutem o porquê
de certos tipos de riscos serem socialmente menos valorizados, e por
consequência menos temidos, apesar de os seus efeitos poderem ter um caráter de
maior nocividade (Douglas e Wildavsky, 1982; Beck, 1992; Granjo, 2004; Kabat,
2008). As tentativas para explicar este fenómeno são muito diversificadas,
embora as justificações estejam relacionadas com a informação que recebemos,
com as nossas representações sociais sobre determinadas situações, com os
nossos medos mais íntimos, com as nossas histórias e percursos de vida, ou
seja, as perceções de riscos estão interligadas com o nosso conhecimento sobre
a realidade envolvente e com as nossas experiências vivenciais.
As perceções leigas são, no fundo, uma avaliação subjetiva sobre uma eventual
fonte ou forma de risco, que pode incidir, entre outras situações, sobre um
acontecimento, uma atividade ou uma tecnologia. A forma como os atores sociais
leigos constroem as suas perceções depende de fatores múltiplos, quer
microssociais, quer macrossociais, de coercibilidade variável, tendo em conta
que estes fatores estão normalmente interligados. No entanto, tal como referem
Douglas e Wildavsky (1982), ninguém consegue identificar todos os tipos de
riscos aos quais se encontra exposto, por isso as perceções de riscos são
sempre parciais, visto que nunca existe um reconhecimento de todas as
situações. Para além disso, há determinado tipo de riscos que se constituem
como territórios inexplorados ou pouco conhecidos para a humanidade (Beck,
1992).
Apesar de considerarmos as perceções de riscos dos trabalhadores como um ponto
importante para a gestão de riscos e para a prevenção de acidentes, não podemos
deixar de referir que este é apenas um dos muitos aspetos que podem influenciar
ambas as situações. As decisões estratégicas da gestão de topo (Vaughan, 1996;
Rasmussen, 1997; Reason, 1997), as estratégias formais e informais de alguns
grupos profissionais (Areosa e Carapinheiro, 2008), a escolha de determinadas
técnicas e tecnologias (Perrow, 1999), o designdos postos e locais de trabalho,
as formas de organização e planeamento das tarefas, a especificidade dos riscos
de cada organização (Areosa, 2009a, 2009b), o tipo de gestão efetuada ao nível
da manutenção (Reason e Hobbs, 2003), a forma como são planeadas as barreiras
protetoras (Hollnagel, 2004), as formas de compreender e “gerir” os incidentes
(Areosa, 2009c), a insuficiência e os limites das regras, normas e
procedimentos para a prevenção (Areosa, 2012a) são alguns exemplos de fatores
que podem contribuir para aumentar os riscos e os acidentes. [3]Para além
destes, ainda existem certas dimensões externas à própria organização, tais
como as políticas governamentais, legislação ou problemas relacionados com
fornecedores externos (Rasmussen, 1997). Todos estes aspetos podem ir
fragilizando a própria organização até estarem reunidas as condições
necessárias para ocorrer o acidente (Turner, 1978). Porém, não menosprezando
todos estes fatores decisivos, o objeto deste trabalho está particularmente
estruturado para compreender qual a utilidade que as perceções de riscos podem
ter para a segurança nas organizações.
As perceções de riscos no trabalho: alguns resultados de pesquisas empíricas
A pertinência do estudo das perceções de riscos em contexto organizacional
reside em tentar compreender como é que as perceções dos trabalhadores podem
influenciar os seus comportamentos, as suas atitudes e as formas de realizar o
seu trabalho, visto que estes fatores podem afetar a probabilidade de sofrerem
acidentes de trabalho ou de contraírem doenças profissionais. Os riscos
laborais tendem a ser profundamente heterogéneos, se tivermos em conta a
extraordinária diversidade de situações do mundo ocupacional. A segurança das
organizações e dos trabalhadores depende, em parte, do tipo de perigos e riscos
que emergem nos sistemas, bem como da forma como são detetados e controlados.
Atualmente as organizações são vistas como sistemas sociotécnicos, onde
interagem continuamente as valências sociais, técnicas e tecnológicas (Burns e
Machado, 2009).
As perceções de riscos dos trabalhadores nem sempre refletem fidedignamente os
riscos organizacionais, visto que essas mesmas perceções podem ser enviesadas,
isto é, podem ser um meio de apreender o mundo exterior de forma distorcida.
Porém, qualquer perceção de riscos laboral é sempre um processo interpretativo
de uma dada realidade ocupacional, depende das especificidades dos ambientes de
trabalho e é atravessada por subculturas organizacionais. Assim, as perceções
de riscos no trabalho são construídas a partir dos riscos existentes na
organização e estão em articulação com as experiências vividas nos locais de
trabalho; são também influenciadas pelos discursos e pelas práticas produzidas
socialmente, bem como por fatores político-ideológicos dos sujeitos. Esta
dinâmica de interação social no mundo do trabalho produz e reproduz os limites
das perceções de riscos laborais, bem como os seus conteúdos mais importantes.
É neste contexto que faz sentido afirmar que as perceções de riscos são
socialmente construídas, e são também indissociáveis de valorações objetivas ou
subjetivas, sendo “mesmo objeto de uma deliberada transmissão e reprodução
social” (Granjo, 2004: 131).
Já referimos que o estudo das perceções de riscos no trabalho pode fornecer-nos
algumas indicações sobre a forma como os trabalhadores identificam os riscos
aos quais se encontram expostos nos seus locais de trabalho. Todavia, as
perceções não são constantes, variam de indivíduo para indivíduo (Feliciano,
2003), podem até ser alteradas em momentos diferentes da vida laboral do mesmo
indivíduo, e variam particularmente através dos contextos e das situações de
trabalho. São também influenciadas pelo setor de atividade onde os
trabalhadores se inserem, bem como pelas especificidades culturais de cada
profissão. Tentar compreender como funcionam as nossas perceções pode ajudar-
nos em diversas situações, mas este é um campo onde ainda existem inúmeros
tipos de armadilhas. A forma como a nossa mente funciona pode acarretar alguns
tipos de erros, devido, por exemplo, àquilo que os psicólogos cognitivos
designam por heurísticas. [4] Regra geral, os trabalhadores tendem a subavaliar
os riscos que eles próprios correm, comparativamente com os riscos dos outros
(Rundmo, 2000: 52). Certos indivíduos parecem evidenciar uma certa sensação de
invulnerabilidade perante o risco; esta crença subjetiva é designada otimismo
irrealista (Weinstein, 1980). Isto acontece porque o próprio trabalhador se
julga mais competente e com maiores níveis de conhecimento sobre a sua
atividade laboral, por comparação com os outros colegas, logo, este facto pode
enviesar em grande medida as suas perceções de riscos.
Os primeiros tempos num posto de trabalho podem também corresponder a menores
perceções de riscos laborais, devido ao menor tempo de observação/contacto com
os riscos específicos aos quais o “novo” trabalhador está exposto. Segundo
Madureira Pinto (1996: 115), os habitus profissionais têm como função adaptar o
corpo e a atenção aos riscos profissionais. Cordeiro (2002) define as perceções
de riscos no trabalho como a capacidade que os trabalhadores têm para
identificar e quantificar os seus riscos laborais. Este autor efetuou um estudo
comparativo entre trabalhadores sinistrados e não sinistrados e sugere a
existência de uma relação inversa entre as perceções de riscos dos
trabalhadores e a ocorrência de acidentes de trabalho. Aparentemente, quanto
mais baixos forem os seus níveis de perceções maior será a probabilidade de
sofrerem um acidente no trabalho. Na verdade, Cordeiro coloca a seguinte
hipótese: será que os trabalhadores com níveis de perceções de riscos mais
baixos são mais vulneráveis a sofrerem lesões e acidentes durante o trabalho?
Embora o autor tenha confirmado este pressuposto no seu trabalho de campo, numa
indústria metalúrgica, não deixa de afirmar que este é ainda um campo pouco
estudado e que carece de novas investigações.
Numa pesquisa realizada por Takeda (2002) sobre riscos ocupacionais e acidentes
de trabalho, na categoria profissional de motorista de ambulância, verificou-se
que as perceções de riscos destes trabalhadores não identificam alguns riscos
da sua atividade laboral. Isto é, neste estudo foram detetados alguns tipos de
riscos aos quais esses trabalhadores estão expostos, mas que não foram
reconhecidos por eles como fazendo parte do seu universo de riscos
profissionais, particularmente a temperatura excessiva, os níveis elevados de
ruído ou vibrações, a fraca iluminação de certos locais ou alguns riscos
químicos. Todavia, os motoristas de ambulância detetam e receiam determinados
riscos durante o seu trabalho, nomeadamente o risco de agressão física pelo
próprio doente, por familiares ou vizinhos, revelam algum medo de serem
contaminados por agentes biológicos patogénicos, através do contacto com
fluidos ou secreções dos doentes ou ainda por respirarem o mesmo ar que estes
durante o transporte para a instituição hospitalar. Receiam também sofrer
acidentes com a ambulância, devido à sua deficiente manutenção, ao estado do
piso em certas zonas da cidade ou até pela condução agressiva dos outros
automobilistas. Dentro do campo dos riscos psicossociais, temem que qualquer
doente possa falecer durante o transporte e, posteriormente, possam vir a ser
acusados pela sua morte. Podemos verificar que os condutores de ambulância
estão expostos a elevados níveis de stresse, provocado pelo desempenho da sua
atividade ocupacional, os quais são também partilhados por outros profissionais
do setor da saúde. Ainda neste setor de atividade, podemos referir, a título de
exemplo, que os riscos biológicos são transversais a quase todas as profissões
(e isso influencia as perceções destes trabalhadores).
Outro dos riscos percecionados pelos motoristas de ambulância é o risco de
queda, visto circularem em pisos molhados, irregulares, em escadas íngremes ou
por terem de transportar doentes idosos, obesos, “engessados” ou com outras
dificuldades de locomoção, como, por exemplo, doentes em cadeira de rodas. À
organização onde exercem a sua atividade foram apontados riscos referentes ao
excessivo horário de trabalho, ao ritmo intenso de trabalho, à ausência de
formação para lidar com o público ou para enfrentar situações difíceis,
designadamente partos ou doentes com sério risco de vida. É pertinente referir
que estes trabalhadores não são profissionais de saúde (apesar de neste caso
trabalharem nesse setor de atividade), por isso é natural que desconheçam as
melhores formas de atuar perante situações mais complexas que envolvam cuidados
especiais para os doentes. Foi também registado por Takeda (2002) que os
motoristas de ambulância não têm por hábito considerar todos os doentes como
potencial fonte de risco, particularmente como meio de contaminação biológica.
Esta situação agrava-se se tivermos em conta que não são utilizados
equipamentos de proteção individual (EPI), nomeadamente luvas e máscaras.
Segundo um estudo levado a cabo por Dickson e outros (2004), verificaram-se
diferenças significativas entre as perceções de riscos de duas categorias
profissionais, nomeadamente enfermeiros e gestores. Nesta pesquisa os gestores
apresentam perceções de riscos “menores”, comparativamente com os enfermeiros,
relativamente aos riscos de stresse e violência na atividade laboral desses
trabalhadores. Pelo contrário, revelaram níveis mais elevados de perceções
sobre os riscos para a saúde dos pacientes. Esta investigação conclui também
que as perceções de riscos, mesmo que diferenciadas, são uma peça fundamental
para a gestão de riscos das organizações.
No campo das perceções de riscos dos trabalhadores na área da saúde parece
particularmente pertinente distinguir entre riscos que pertencem à organização
e riscos produzidos pelo próprio trabalhador durante o exercício da sua
atividade. Nesse último caso, poderemos dar como exemplo a elaboração ou
interpretação incorreta de exames imagiológicos, efetuada pelos profissionais
de saúde (Areosa e Carapinheiro, 2008). Essa situação pode originar múltiplos
riscos para os doentes. [5] Em torno desta temática parece-nos interessante
aprofundar novas pesquisas sobre como é que os trabalhadores da área da saúde
percecionam os riscos dos seus erros ou lapsos, na elaboração de diagnósticos e
execução de terapêuticas aos pacientes.
Os resultados de um trabalho realizado sobre médicos e técnicos de radiologia,
em contexto hospitalar, sugerem que as perceções de riscos podem ser fortemente
influenciadas por fatores organizacionais, particularmente quando essas
organizações revelam elevados graus de complexidade nas tarefas executadas e
dependem de múltiplas interações entre os trabalhadores (Areosa, 2011).
Observou-se que as perceções de riscos desses trabalhadores são relativamente
heterogéneas, embora quase todos concordem que as suas principais tarefas
envolvem riscos ocupacionais elevados e que esses mesmos riscos não são
devidamente valorizados pela gestão de topo da organização. Os riscos mais
temidos por estes trabalhadores estão relacionados com riscos físicos
(exposição a radiações ionizantes) e riscos biológicos (derivado ao eventual
contágio com as patologias dos doentes); embora também tenham sido apontados
outros tipos de riscos ocupacionais, tais como stresse, trabalho noturno e/ou
por turnos rotativos, conflitos com colegas ou chefias e sobrecarga de trabalho
no serviço de urgência.
Uma investigação efetuada sobre as perceções de riscos de cirurgiões dentistas
Faria (2003) verificou que todos os entrevistados se revelaram convictos de
estarem expostos a alguns tipos de riscos no seu local de trabalho. Foram
referidos riscos biológicos, físicos e ergonómicos. Surpreendentemente não
foram referenciados riscos químicos, no entanto esta atividade profissional
utiliza alguns contaminates químicos, nomeadamente, mercúrio, medicamentos
diversos ou produtos inflamáveis. Alguns destes profissionais revelaram um
conhecimento superficial sobre a nocividade da utilização de raios X,
particularmente os mais jovens (os quais indicaram ter maiores preocupações com
os riscos biológicos). Relativamente aos riscos físicos, foi referido o ruído,
mas não foram referidas as vibrações dos equipamentos. Faria (2003) verificou
também que a utilização de EPI nem sempre era efetuada mediante os riscos
existentes, embora a maioria dos entrevistados revelasse utilizar, pelo menos,
luvas e máscaras simples. Em resumo, a autora conclui que a profissão de
cirurgião dentista tende a minimizar os riscos químicos e os riscos decorrentes
da utilização de radiações ionizantes. Alguns destes profissionais consideram
que certos tipos de riscos são inevitáveis, nomeadamente os acidentes com
materiais “pérfuro-cortantes”. Em consonância com esta perspetiva, um estudo
recente realizado num hospital português revela que uma parte significativa dos
acidentes de trabalho ocorridos nessa instituição têm como causa principal os
diversos materiais “pérfuro-cortantes” (Mendes, 2012).
Segundo as pesquisas de Perese outros (2005a), os trabalhadores rurais tendem a
construir as suas perceções a partir de factos concretos, como as experiências
vividas, tendo alguma dificuldade em elaborar e interpretar situações
abstratas, tais como: colocar hipóteses ou efetuar correlações entre fatores. A
aparente “invisibilidade” de alguns riscos químicos na atividade agrícola pode
reduzir as perceções de riscos dos trabalhadores, nomeadamente quando os
efeitos nocivos são provocados pela inalação de gases e vapores. Regra geral os
trabalhadores tendem a relativizar os sinais de alerta do organismo (Perese
outros, 2005b: 1842), minimizando a importância de alguns sintomas que, por
vezes, já não conseguem ser “disfarçados”. [6] No entanto, quando um
trabalhador rural se depara com uma dada situação perigosa, a formulação das
suas perceções de riscos é baseada nas crenças, experiências, imagens e
informações construídas ao longo do seu trajeto de vida. Neste setor de
atividade, os principais riscos da profissão de agricultor estão relacionados
com o manuseamento de produtos químicos (os quais provocam diversos tipos de
acidentes e/ou doenças profissionais), com a utilização de máquinas e
ferramentas de trabalho (por exemplo, tratores e alfaias agrícolas) e com
riscos ergonómicos (devido ao esforço físico que normalmente esta profissão
exige).
No ramo da aviação seria esperado que as perceções de riscos dos pilotos fossem
elevadas, devido às habituais consequências de um acidente aéreo. Porém,
segundo Hunter (2002), esta situação nem sempre se verifica. Parece que os
pilotos de aviação tendem a responder com um sentimento de invulnerabilidade
aos seus riscos laborais (isto vai ao encontro do designado otimismo
irrealista, referido anteriormente). Na perspetiva de O’Hare (1990 — citado em
Hunter, 2002) parece que os pilotos de aviação subestimam quer os riscos da sua
atividade profissional, quer a probabilidade de ocorrência de acidentes.
Contudo, esta profissão enquadra-se num setor de atividade de alto risco, em
que a mais pequena falha pode causar danos catasfróficos (Areosa, 2012c). Num
estudo efetuado por Williams (1999 — citado em Hunter, 2002) verificou-se que a
aversão ou a propensão ao risco por parte dos pilotos de aviação variava com a
sua idade e com a sua experiência de pilotagem. Os pilotos mais jovens, bem
como os mais experientes apresentavam uma menor aversão ao risco. Hunter (2002)
preconiza que perante determinados estados meteorológicos adversos,
nomeadamente em condições de densa nebulosidade e consequente fraca
visibilidade, alguns pilotos optam por utilizar a condução automática dos
aparelhos, mas outros, utilizam a pilotagem tradicional (recorrendo à visão).
Isso revela perceções de riscos algo distintas. O autor afirma ainda que
aqueles que aceitam voar em más condições atmosféricas tendem a apresentar
níveis reduzidos de perceções de riscos. Essas diferenças parecem estar
associadas à autoperceção das capacidades individuais e a maiores níveis
tolerância ao risco. [7]
No estudo de Zanatta (2002) sobre as perceções de riscos dos trabalhadores de
uma indústria cerâmica, verificaram-se algumas diferenças nos padrões dessas
perceções. Se a maioria dos trabalhadores conseguiu identificar, por exemplo, o
ruído e as poeiras como fatores nocivos para a sua saúde, outras situações de
risco, [8] tais como, a exposição a mercúrio, chumbo, solventes e outros
contaminantes químicos já são vistas como hipóteses difusas, ou seja, revelam
uma perceção reduzida dos eventuais efeitos sobre a sua saúde e segurança. A
autora identificou que nessa unidade produtiva os trabalhadores sabiam
correlacionar as perdas auditivas e a exposição ao ruído, bem como a exposição
a poeiras diversas e os problemas respiratórios. Em resumo, neste ramo de
atividade, os níveis elevados de ruído e de poeiras parecem ser os riscos
melhor percecionados por parte dos trabalhadores da indústria cerâmica.
Se é verdade que cada categoria profissional tem o seu próprio “portfólio” de
riscos laborais, também não deixa de ser verdade que estes mesmos riscos são
percebidos, compreendidos e interpretados de formas diversificadas. Cooper
(1997) afirma que cada grupo profissional trabalha em diferentes “mundos do
risco”, mesmo em atividades similares, visto que o autor concebe o risco como
algo culturalmente determinado. [9] Alguns estudos mencionados por Cooper
apontam para diferenças significativas entre as perceções de riscos dos
gestores e dos restantes trabalhadores. Assim, quando as perceções de riscos
dos gestores são caracterizadas pela subestimação dos riscos dos trabalhadores
e se esses trabalhadores conseguirem identificar esta atitude, é provável que
possam “minar” o seu compromisso e lealdade para com a organização, visto
perceberem que a segurança nos seus locais de trabalho não é devidamente
promovida pela gestão. Também Dejours (2013) verificou existir uma visão
tendencialmente antagónica entre a profissão de gestor e as restantes
profissões acerca dos riscos ocupacionais e da forma como o trabalho deve ser
organizado. Este assunto é algo que tem merecido particular atenção por parte
da psicodinâmica do trabalho (Areosa, 2013).
As perceções de riscos no trabalho estão conectadas com a sensação de que algo
negativo ou contraproducente possa acontecer. Já observámos que as perceções de
riscos laborais variam entre as diferentes profissões e estão ligadas aos
contextos específicos onde se manifestam. Os trabalhadores que exercem elevados
cargos de chefia, tais como gestores, administradores ou diretores, tendem a
direcionar as suas perceções de riscos não tanto para os riscos associados aos
danos físicos (como acontece em outras categorias profissionais), mas antes
para os riscos psicossociológicos, que na verdade ocupam uma parcela muito
importante das suas perceções de riscos. O medo e a ansiedade surgem como dois
fatores indissociáveis das perceções de riscos desta profissão. Aliás, segundo
Motta (2002), a sensação de medo nos gestores está relacionada com três
fatores, a saber: as perceções de riscos para a organização, a maior ou menor
vulnerabilidade das organizações a esses mesmos riscos e a capacidade de
resposta para gerir com êxito os riscos das organizações.
Para concluir este ponto, podemos afirmar que as perceções de riscos dos
trabalhadores são passíveis de ser influenciadas por diversos fatores, os quais
nem sempre são de apreensão fácil ou imediata, mas tendem a ter uma relação
muito próxima com o ambiente de trabalho. As motivações psicossoais oferecem
elasticidade às perceções e à aceitabilidade dos riscos. Este é um dos motivos
pelo qual os estudos sobre as perceções de riscos podem revelar resultados
aparentemente contraditórios. Todavia, é importante destacar que os resultados
destes estudos têm contribuido para a melhoria a segurança das organizações,
dado que permitem gerar referenciais para perceber como é que os trabalhadores
podem reagir perante determinadas situações específicas.
Metodologia utilizada na investigação
Das múltiplas abordagens metodológicas possíveis para a condução deste
trabalho, escolhemos aquela que nos pareceu mais adequada: o método de pesquisa
no terreno com observação direta e participante. Essa metodologia intensiva e
de análise em profundidade é normalmente utilizada em unidades sociais de
pequena dimensão. A pesquisa no terreno caracteriza-se pelo contacto direto com
os agentes sociais em estudo (onde é estabelecida uma interação pessoal com os
membros do grupo ou comunidade), e por uma presença relativamente prolongada do
investigador no próprio local onde decorre a ação, ou seja, no habitat natural
do grupo. Neste tipo de metodologia o principal instrumento de pesquisa é o
próprio investigador (Costa, 1986: 136), embora, no entender de Bourdieu (1989:
51), a observação participante não seja mais do que uma “falsa” participação
num grupo estranho. O objetivo desta metodologia é descrever e compreender as
ações e relações dos atores sociais, mediante a observação das suas atitudes,
expetativas, motivações, comportamentos, práticas, etc. Neste tipo de trabalho
o investigador insere-se no contexto social e cultural dos sujeitos observados,
compartilha com eles o seu quotidiano, acompanha as suas preocupações e
compreende a sua “visão do mundo”, com o objetivo de integrar no seu estudo a
visão dos atores sociais observados (Moreira, 2007).
A observação direta dos atores sociais em estudo foi realizada em Lisboa, numa
empresa de transporte urbano de passageiros, e teve uma duração aproximada de
quatro anos. Esse período relativamente extenso de observação ultrapassou em
larga medida aquilo que seria esperado inicialmente, mas dificilmente poderia
ser reduzido devido às múltiplas especificidades apresentadas pelo universo
estudado. A compreensão das diversas técnicas e tecnologias utilizadas pelos
profissionais, o posicionamento que cada ator social ocupa na organização do
trabalho, bem como o tipo de interação que se estabelece entre os diversos
trabalhadores, o tipo de relacionamento que as múltiplas áreas da empresa
apresentam entre si e ainda a enorme diversidade de riscos e de acidentes
existentes na organização, são apenas alguns dos aspetos que compõem a
complexidade deste estudo, mas que influem nas perceções dos trabalhadores.
Após termos concluído o período de observação no terreno, realizaram-se
entrevistas semiestruturadas aos trabalhadores. As referidas entrevistas foram
sempre efetuadas individualmente, garantindo desta forma a confidencialidade da
informação e do próprio entrevistado. [10] Relativamente aos locais de
realização das entrevistas, elas foram efetuadas em duas salas, em edifícios
distintos, disponibilizados pela empresa para esse efeito.As 24 entrevistas
tiveram uma duração média aproximada de 40 minutos cada, embora seja pertinente
referir que algumas tiveram a duração de cerca de 20 minutos, enquanto outras
tiveram mais de uma hora. Todas as entrevistas foram gravadas em suporte áudio,
sempre com a prévia anuência dos entrevistados, e posteriormente transcritas
para texto (em suporte informático). As entrevistas foram realizadas pelo
próprio investigador, embora a transcrição de áudio para texto tenha sido uma
tarefa realizada por terceiros (devido ao elevado tempo que esta tarefa
consome). Após a receção das entrevistas em formato de texto, todas as elas
foram novamente corrigidas pelo investigador, através de nova audição das
respetivas gravações áudio. Posteriormente foram trabalhados os dados, os quais
são apresentados no ponto seguinte.
Perceções de riscos ocupacionais numa empresa do ramo ferroviário
Após termos exposto os resultados de alguns estudos sobre as perceções de risco
em contexto organizacional (em diferentes profissões e setores de atividade),
bem como a metodologia da presente investigação, iremos agora passar para a
apresentação dos resultados de um estudo realizado numa empresa do ramo
ferroviário, sobre as perceções de riscos dos trabalhadores dessa organização.
Na referida investigação observou-se que os riscos ocupacionais são muito
diversificados, variam de local para local e estão longe de ser homogéneos.
Todos estes aspetos estão em consonância com um significativo número de
pesquisas apresentadas anteriormente. Ao longo deste ponto iremos centrar a
nossa atenção, maioritariamente, nas situações de risco mais “problemáticas”,
ou seja, naqueles casos em que os riscos para a saúde e segurança dos
trabalhadores pode ser mais ameaçador, bem como na forma como os trabalhadores
percecionam e lidam com esses riscos durante a sua atividade laboral, quer seja
em tarefas frequentes, quer seja em trabalhos pontuais ou excecionais.
Os processos de socialização, particularmente os que emergem dos grupos
profissionais, podem contemplar diferentes mecanismos protetores e de
vigilância que permitem aos trabalhadores lidar e enfrentar determinados tipos
de riscos laborais. Dado que a organização pesquisada já tem mais de meio
século de existência, podemos afirmar que existe uma cultura específica da
empresa, e este fator é bastante vincado em algumas categorias profissionais,
particularmente nas áreas operacionais. A socialização dos novos membros faz-
se, em grande medida, através da transmissão de conhecimentos, experiências e
práticas por parte dos trabalhadores mais antigos. Esta reprodução de saberes
gera alguma coesão dentro de cada grupo profissional e permite a integração dos
novos membros (recém-recrutados). Apesar de se observar que alguns
relacionamentos interpessoais sofreram diversas alterações ao longo dos últimos
tempos, nomeadamente entre trabalhadores e hierarquias, ainda é visível uma
cultura fortemente hierarquizada, especialmente nas profissões da área oficinal
ou da área de exploração. Pontualmente, observou-se a tentativa de introdução
de algumas mudanças sugeridas por alguns membros mais novos, relativamente à
organização do trabalho, mas raramente estas sugestões são de aceitação
imediata; regra geral, carecem da aprovação formal ou informal dos
trabalhadores mais antigos. A título de exemplo, referimos que a utilização dos
equipamentos de proteção individual é ainda algo bastante invulgar nos
trabalhadores mais velhos, mas esta prática foi lentamente introduzida por
trabalhadores mais jovens, particularmente nas áreas oficinais.
No caso dos trabalhadores da organização pesquisada, as suas perceções de
riscos decorrem da experiência profissional, das situações vivenciadas pelos
próprios, quer as que presenciaram, quer as de que tiveram conhecimento através
de outros colegas. Os acidentes ocorridos tendem a ser lembrados (pelo menos
aqueles que foram mais graves) e são os riscos que estiveram na origem desses
sinistros que normalmente permanecem na memória individual e coletiva dos
trabalhadores. Mediante as entrevistas que realizámos, pudemos verificar que
alguns trabalhadores tinham memorizado alguns acidentes, mas outros tiveram
dificuldade em lembrar-se desses eventos. Alguns trabalhadores também referiram
que perceberam a existência de alguns riscos através da comunicação social ou
do contacto com pessoas próximas, a partir do seu leque de relações pessoais.
Para algumas categorias profissionais existentes na empresa observada os
principais riscos do seu trabalho estão relacionados com as tarefas que têm de
ser desenvolvidas mediante a utilização de energia elétrica de alta tensão ou
com a execução de trabalhos quando permaneça a circulação de comboios sem
interrupções e que, simultaneamente, incluam a descida de trabalhadores à via.
[11] Nestes casos os riscos de eletrocussão e atropelamento são aqueles que
causam maior preocupação. Outro risco identificado com grande preocupação por
parte dos trabalhadores é o eventual esmagamento de alguma parte do corpo
provocado pela movimentação das agulhas. Embora este risco seja mencionado com
alguma frequência, nem todos os trabalhadores que circulam na via o conseguem
identificar.
A eletrocussão. Isso é que é o maior… o maior medo, digamos, e isso é que me
faz estar de olho mais aberto, porque nós trabalhamos em quadros muitas vezes
em tensão e são meios muito apertados, qualquer “descuidozinho” com um membro
ou até mesmo a ir espreitar, com um cabelo, já me aconteceu algumas vezes, nada
de muito grave, mas, só o suficiente para sentir assim um “formigueirozinho” …
“Ai, espera aí, isto não está aqui nada bem” … Mas, é com alta tensão, aí é que
não há mesmo margem nenhuma para erros, tem que ser mesmo tudo bem pensado
antes de se fazer. [Entrevista 12]
Para a minha área temos algumas situações. A eletrocussão é das piores
situações que temos. Raramente temos contacto com material circulante a não ser
mesmo nessas idas à galeria, quando, por vezes, há esse perigo de eletrocussão…
há pessoas de outras áreas que têm esses perigos todos os dias, todos os dias…
eletrocussão, atropelamento, esmagamento… [Entrevista 21]
Conforme se pode verificar pelos excertos de entrevista anteriores os riscos
percecionados como sendo mais graves são aqueles que podem provocar a morte
(eletrocussão ou atropelamento por material circulante — comboio) ou lesões de
elevada gravidade, tais como esmagamento e/ou amputação de membros (superiores
ou inferiores) decorrendo da movimentação de agulhas. Porém, os riscos
percecionados pelos trabalhadores vão muito para além dos referidos
anteriormente (os quais podem provocar consequências mais graves), visto que
também conseguem identificar alguns riscos que, por vezes, dão origem a
acidentes de trabalho com consequências mais “ligeiras”.
Olha, riscos… é, lá está, é um pouco difícil falar sobre isso, porque há riscos
em que um simples virar para procurar uma melhor posição para executares o
trabalho, aí podes dar um jeito às costas, podes fazer um entorse, é pá, são
situações que a gente pensa que não há risco nenhum, mas acontecem, por vezes,
acontecem. Olha, como, por exemplo, furar um bogie. Isto é assim, digamos que
usando, por vezes, mesmo usando o equipamento de proteção estás tão
entusiasmado, entusiasmado entre aspas, estás tão concentrado a fazer
determinado trabalho que só estás a ver aquilo, depois de repente viras com
qualquer movimento, está aqui uma peça, tu sabes que ela está lá, mas, pronto,
como estás concentrado vais para apanhar uma ferramenta ou uma coisa parecida,
pronto, lá está, vai… pronto, podes bater com o queixo ou com a cabeça ou outra
parte do corpo qualquer. [Entrevista 1]
Observou-se que a visão das hierarquias de topo (atores sociais que têm o poder
para tomar decisões e, por consequência, influenciar o nível de segurança da
organização) e a dos restantes trabalhadores nem sempre é similar acerca dos
riscos existentes nos locais de trabalho. Já vimos que o risco elétrico é algo
presente em alguns locais e as suas consequências podem ser desastrosas para a
segurança de quem lá trabalha. Se é verdade que a tendência ao longo dos
últimos anos tem apontado para a redução de alguns riscos laborais, também é
verdade que este “caminho” nem sempre é uniforme. Pontualmente surgem algumas
situações que podem contrariar esta tendência. Um dos exemplos mais marcantes
surgiu aquando da substituição do cabo que liga a energia elétrica da “sapata”
para o comboio. [12]
A justificação para o aumento da zona de risco elétrico (em termos área/
extensão) deveu-se, essencialmente, a questões de natureza económica, isto é,
os cabos com revestimento isolante partiam-se com maior facilidade e exigiam
uma manutenção mais assídua. O novo tipo de cabo (sem isolamento) foi colocado
em todas as carruagens motoras, porque, além de mais barato, tem um “período de
vida” mais longo, logo, a médio prazo exige menos recursos para executar a sua
manutenção/substituição. Porém, com esta nova realidade, o risco para a
segurança dos trabalhadores aumentou. Os serviços de Segurança e Saúde no
Trabalho (SST) da empresa elaboraram um relatório onde foi apontado um aumento
do risco de eletrização ou eletrocussão, mas a área de manutenção resolveu não
atender à indicação deste serviço. Foi sugerido que se voltasse a utilizar o
cabo anterior (com isolamento) ou, em alternativa, que fosse adquirido um spray
isolante para revestir o novo tipo de cabo, mas nenhuma das sugestões foi
aceite. Este aspeto é um dos muitos exemplos que ilustram a fragilidade dos
serviços de SST perante as outras áreas da empresa, ou seja, os seus pareceres
não têm um caráter vinculativo dentro da organização. Isto significa que as
suas indicações nem sempre são tidas em consideração, no sentido de produzirem
alterações para a melhoria das condições de trabalho.
Porque aqui está alta tensão e às vezes o pessoal não se apercebe bem, o
comboio pode estar com a alta [tensão] ligada, mas o comboio desligado sem
estar a trabalhar, e as pessoas podem… e agora foi realizado um trabalho, um
novo trabalho, que eu acho que ainda veio a agravar mais a situação; porquê?
Porque trocaram-se os cabos que vão do patim para… que liga diretamente ao
comboio que recebe a alta tensão. Foi trocado esse cabo, mas esse cabo não tem
proteção nenhuma, uma pessoa sem querer pode roçar ali com o braço ou com a
própria camisa, aquilo é malha de aço e com a própria camisa (pode) ficar lá
presa ou uma coisa assim qualquer. Acho que esse trabalho ainda veio a agravar
mais a situação que estava. O risco mais grave é o risco de eletrocussão.
[Entrevista 6]
Outros exemplos da fragilidade da segurança no trabalho na organização
observada podem ser encontrados nos múltiplos relatórios sobre o nível
insuficiente de iluminação em algumas zonas oficinais ou na avaria do
equipamento sonoro para avisar que uma determinada linha irá ser colocada em
tensão. Aliás, esta situação também já foi identificada no trabalho de
Gonçalves (2010). De modo a que o leitor possa compreender melhor esta
situação, passamos a explicar, de forma abreviada, quais os procedimentos que
devem ser tomados antes de colocar em tensão alguma das linhas que se encontram
dentro das oficinas (zonas eletrificadas de acesso restrito). Quando um
trabalhador pretende ligar a energia elétrica em alguma das linhas existe um
sistema sonoro que tem de ser previamente acionado. Conforme referimos, este
sistema é iniciado com um forte sinal sonoro, emitido durante alguns segundos,
ao qual se segue a indicação por voz (previamente gravada) de qual será a via
que irá ser colocada em tensão. Simultaneamente são também ligadas umas luzes
vermelhas ao longo de toda a linha que irá ficar sob tensão. Estes
procedimentos visam alertar todos os trabalhadores sobre a colocação em tensão
de uma das linhas. Aquilo que pode gerar alguma perplexidade (do ponto de vista
da segurança no trabalho) é a indicação de que em uma das oficinas o sistema
sonoro se encontra avariado há bastante tempo, apesar dos múltiplos relatórios
dos serviços de SST; isto implica que o trabalhador que pretende ligar a
corrente elétrica, em alguma das vias, tenha de gritar para avisar os seus
colegas acerca daquilo que pretende fazer. Esta situação, além de bastante
caricata, apresenta-se como um risco muito elevado, pois pode haver
trabalhadores situados nos diques que, porventura, poderão não estar em
condições de ouvir este “sinal de alerta”, devido, por exemplo, ao ruído
existente na zona oficinal.
Quando os trabalhadores foram questionados sobre se considerariam os seus
locais de trabalho seguros, as respostas foram bastante diversificadas. Esta
heterogeneidade decorre quer das diferenças existentes entre os diversos postos
de trabalho (em termos de riscos), quer da própria perceção que cada
trabalhador tem acerca daquilo que considera como um padrão de segurança
aceitável. Já referimos anteriormente que os níveis de tolerância ao risco
variam de trabalhador para trabalhador e dependem muito das circunstâncias
específicas de cada momento (Hunter, 2002). A literatura sobre as perceções de
riscos indica-nos uma tendência: os riscos mais familiares parecem ser menos
valorizados, enquanto os riscos menos conhecidos surgem como sobrevalorizados
(Slovic, 1987). Na nossa pesquisa nem sempre conseguimos confirmar este
pressuposto, dado que, por exemplo, os riscos elétricos foram amplamente
identificados e valorizados pela generalidade dos trabalhadores. Pelo
contrário, pudemos confirmar o desígnio teórico que aponta os acidentes
ocorridos no passado como um fator que tende a ampliar a perceção dos
trabalhadores sobre os riscos que estiveram na génese desses mesmos acidentes.
Apesar da heterogeneidade de respostas verificou-se que houve uma ligeira
tendência para os trabalhadores considerarem os seus locais de trabalho
relativamente seguros, embora, em certos casos, com algumas reservas. A título
de exemplo, foram apontadas determinadas tarefas menos seguras e/ou certos
locais menos seguros. A via férrea é quase sempre referida como o local onde a
segurança é menor, ou seja, onde o medo de sofrer um acidente é maior, dado que
existem riscos cuja gravidade é superior (mais suscetível de afetar a
integridade física dos trabalhadores).
É quando eu vou à via. Por acaso a via me assusta, e eu respeito muito a via,
mas acabo por estar sempre dependente de alguém lá de cima que é os meus olhos
e é mais isso que me assusta, porque eu confio nos meus olhos e ter que confiar
noutros olhos para segurar o comboio para eu poder ir à via… e infelizmente a
gente não tem os sapatos adequados para ir à via, portanto, a culpa também é
dos próprios trabalhadores. A via me assusta, assim que a gente vai à via me
assusta, a via está suja, está escura, está… devia ter mais luz, lá está,
voltamos à história da luminosidade. [Entrevista 9]
Anteriormente já tinha sido referido que as profissões que trabalham
diretamente com o público enfrentam diversos problemas decorrentes dessa
interação (Takeda, 2002). Numa empresa brasileira do setor ferroviário os
trabalhadores referiram que receavam as agressões por parte dos passageiros
(Seligmann-Silva, 1997). Corroborando esta ideia observou-se que o
relacionamento e os conflitos com os passageiros são alguns dos aspetos mais
problemáticos em determinadas categorias profissionais. Regra geral há a
sensação, numa parte significativa dos trabalhadores, que a sociedade (em
geral) está a tornar-se mais violenta e agressiva. E isto reflete-se numa maior
dificuldade no relacionamento com o público. Além deste aspeto, no excerto de
entrevista seguinte são também apontadas algumas características desadequadas
das cabinas de vendas de títulos de transporte, nomeadamente, aspetos de
natureza ergonómica.
Riscos? É o trabalho com o passageiro, às vezes é um bocado ingrato, não é, nós
temos que sair da cabine e entrar em contacto com eles o que às vezes é
complicado, não é, é que eles podem mesmo partir para violência, é complicado.
Tenta-se gerir isso da melhor forma não é, mas, um dos riscos que nós temos é
mesmo esse, é o contacto pessoal com a pessoa, não é, nós estamos dentro da
cabine, mas também saímos de dentro da cabine, para atender uma reclamação, e
uma reclamação nunca é nada agradável. […]. Em relação à segurança das
bilheteiras, são os degraus, é uma coisa extraordinária, eles fazem tudo com
degraus, eu não consigo perceber porquê, eu não sou engenheira, nem arquiteta,
mas são os degraus, e os degraus são uma coisa que a pessoa “espalha-se”
constantemente… e as cadeiras são péssimas, eu não sei como é que fazem os
estudos para as cadeiras, mas ainda agora há pouquíssimo tempo mudaram as
cadeiras, o espaço é curto, a bancada é baixa e puseram as cadeiras com braços,
quer dizer, não dá espaço nenhum, estamos ali numa posição incorreta durante
“N” de horas seguidas. [Entrevista 13]
Alguns dos nossos entrevistados manifestaram um certo receio sobre a eventual
falta de qualidade do ar na via. Apesar de já terem sido feitas análises sobre
a qualidade do ar nas cabinas dos maquinistas, onde os resultados não apontavam
valores preocupantes nos diversos parâmetros monitorizados, existe a sensação
quase generalizada de que a qualidade do ar é bastante deficiente. É verdade
que a manutenção dos aparelhos de ar condicionado existentes nas cabinas do
maquinista é profundamente desajustada às reais necessidades daquele posto de
trabalho. Os filtros deste equipamento não são adequados e a limpeza geral é
excessivamente espaçada no tempo. Para além disso, ainda existe a agravante de
alguns maquinistas fumarem dentro da cabina, mesmo sendo esta situação ilegal,
quer pela legislação que proíbe fumar dentro das instalações da empresa, quer
pela legislação de segurança e saúde no trabalho que restringe o ato de fumar a
espaços devidamente isolados e com ventilação/renovação do ar suficiente (e não
é o caso desta situação). Porém, verifica-se, na prática, que o cheiro a tabaco
existe, em certos casos é até bastante intenso e, como é natural, isto acaba
por incomodar e prejudicar os trabalhadores, em particular os não fumadores.
Esta situação também motiva algumas reclamações e conflitos entre pares, mas
como a condução do material circulante é, essencialmente, uma tarefa executada
por um único elemento, normalmente não existem testemunhas que confirmem quem
são os “infratores”.
Nos períodos em que as temperaturas são mais amenas alguns maquinistas optam
por abrir uma ou ambas as janelas da cabina; nestes casos voltamos ao
“problema” da má qualidade do ar existente na via, além dos níveis de ruído
aumentarem substancialmente para quem conduza com a janela aberta. Contudo,
onde existem verdadeiramente problemas ao nível da qualidade do ar é nos
trabalhos de retificação da via-férrea, quando é utilizado o Speno[13] ou
quando são ligados dentro da zona oficinal os diversos tipos de material
circulante movidos a gasóleo (como é o caso do Speno). A título de exemplo,
quando questionámos um dos trabalhadores que conduz o Spenosobre se a empresa
controla devidamente os riscos laborais dos trabalhadores, a resposta foi
afirmativa, exceto durante a utilização deste equipamento.
Eu acho que sim, acho que sim, a única parte que acho que devia de haver um
melhor controlo, não em termos de riscos momentâneos, mas ao longo curso, é pá,
é o Speno. Aquilo é, como sabe, as poeiras e isso, e o barulho, mas isso é a
longo prazo que isso pode causar danos, não é momentâneo. [Entrevista 15]
Um dos fatores que provoca acidentes de trabalho nos maquinistas é o
manuseamento da porta da sua cabina; inclusive, alguns entrevistados referiram
que, por vezes, a porta da cabina abre em andamento (eventualmente por
deficiência de conceção no mecanismo de fecho). Todavia, uma das situações que
mais receio provoca nesta categoria profissional está também relacionada com a
abertura das portas, neste caso concreto, com as portas existentes no salão de
passageiros (dado que o maquinista é agente único, ou seja, na maioria das
vezes é o único elemento da empresa presente no comboio e, como é óbvio, é ele
que efetua a abertura e o fecho das portas nas estações). O medo de errar no
ato de carregar no botão para a abertura das portas, isto é, abrir as portas no
momento errado ou do lado contrário àquele que seria esperado é algo que
preocupa verdadeiramente o quotidiano dos maquinistas.
Ao contrário daquilo que acontece noutras situações dentro da empresa, aqui não
existe nenhum mecanismo redundante que permita controlar uma possível falha de
origem humana; não existe, por exemplo, nenhum dispositivo que iniba a abertura
das portas do lado contrário ao cais de partida. Embora este seja um assunto
quase tabu dentro da organização, pois “todos” sabem que este problema existe,
mas ninguém toma medidas que permitam solucionar ou minimizar a reocorrência
destes casos; no entanto, esta situação é bastante grave para a segurança dos
passageiros. Já ocorreu algumas vezes o maquinista abrir a porta do lado
contrário do cais de entrada e saída de passageiros (ou seja, o lado onde
circula o outro comboio no sentido inverso), mas até ao presente sem
consequências fatais. No caso de algum passageiro estar encostado à porta do
comboio (e isto é frequente, por exemplo, em horas de ponta, quando os comboios
transportam grande número de passageiros) este pode cair para o leito da via,
em cima do terceiro carril (carril em tensão com 750V cc) ou, ainda em caso de
queda, ser atropelado por outro comboio que circule em sentido inverso. Este
tipo de eventos (carregar no botão errado) ocorre devido à rotinização desta
tarefa (abertura e fecho das portas em todas as estações do percurso). Aliás,
entre muitos outros autores, Areosa e Dwyer (2010) já identificaram que alguns
acidentes ocorrem devido à rotina de algumas tarefas.
A priori agente tem o controlo, não é, mas há tarefas, como… há tarefas que,
como são feitas com tanta frequência, não é, que o corpo ganha vícios,
tendências, não é, e já tem acontecido o comboio parar antes da estação por
qualquer motivo, há o risco da mão… o risco da mão tentar ir abrir as portas.
[…] eu, pá, é um dos medos que eu tenho, uma pessoa entrar direto e abrir as
portas do lado errado… e é um medo… é um medo que eu pá… viro a cadeira para um
lado, está ali, vira para li, vira a cadeira, conduzo às vezes com a mão… ponho
esta mão aqui… é verdade, porque é um receio muito grande… que é aquela
tendência da gente parar e abrir. O comboio está cheio, pode acontecer… é um
problema, não é, mas aí não há, digamos, não há como dar a volta, mesmo
tecnicamente, quer dizer, podia existir, mas é muito difícil. [Entrevista 17]
Eu sei qual é o perigo dessa situação, nós por vezes, nós, portanto, quando
encostamos o comboio, mudamos de cabine e nós costumamos abrir a betoneira do
lado, daquele lado, nessa situação nós ficamos com essa betoneira para o lado
da via que está livre; há sempre a possibilidade, pronto, nós fazemos uns
movimentos muito repetitivos, não é, e há sempre a possibilidade da pessoa ir
lá e abrir as portas do lado contrário e algum passageiro eventualmente cair.
[Entrevista 19]
Numa das zonas oficinais onde é efetuada a inspeção do material circulante os
trabalhadores identificam determinados riscos que podem afetar a sua segurança.
Os riscos mais referenciados estão relacionados com quedas, quer por obstáculos
diversos no piso (fixos ou móveis) e que se encontram dispersos neste local,
quer nos diques, ou mesmo em trabalhos em altura. Em determinadas situações a
substituição dos faróis (colocados na zona frontal do comboio) implica que os
trabalhadores estejam a fazer uma espécie de equilíbrio em cima do carril, de
modo a conseguir aceder a este dispositivo. Outra situação referida é a
manutenção das escovas limpa-vidros da frente do comboio; embora esta seja uma
tarefa pontual, acaba por ser um trabalho que envolve alguns riscos, visto que
tem de ser executado com recurso a um escadote (devido às próprias
características do local). Os trabalhadores que executam esta tarefa
identificaram esta situação como um dos principais riscos da sua atividade.
Um dos aspetos mais problemáticos para a maioria dos trabalhadores surge quando
ocorre a queda à via de algum passageiro e o consequente atropelamento pelo
material circulante. [14] Apesar de estas situações não serem frequentes,
acontecem pontualmente. Quando estes casos sucedem podem estar envolvidos os
trabalhadores presentes na estação (operadores de linha e/ou agentes de
tráfego), o próprio maquinista que atropelou o passageiro, os inspetores de
movimento e, se for caso disso, os próprios trabalhadores de piquete
(normalmente eletromecânicos). Em certas situações chega a ser necessário
levantar o comboio para permitir a retirada do cadáver, e este trabalho é
realizado pelo piquete (o excerto seguinte de entrevista é expresso por um dos
trabalhadores que realiza turnos de piquete). Nestas situações a circulação
pode estar suspensa durante várias horas (com todos os transtornos que isso
acarreta para os passageiros). Nas conversas informais que fomos mantendo com
os trabalhadores, bem como nas próprias entrevistas, foram diversos os
maquinistas que referiram que o seu maior medo seria ou bater com o comboio ou
atropelar algum passageiro. Existem relatos na empresa de trabalhadores que
ficaram bastante afetados, ao nível psicológico, por terem presenciado este
tipo de situações.
No meu caso pessoal não tenho assim grandes problemas. Nem sei se é por hábito,
já fui lá várias vezes. Mas já vi companheiros meus ficarem brancos, em
situações, portanto… e, aliás, até se desviam em situações quando chegam ao pé
do corpo, desviam-se, pronto. Inconscientemente, por terem… por si ou por…
várias questões psicológicas e, pronto, afastam-se um bocadito e outros
avançam, como é natural; [o trabalho] tem que ser feito. Mas há situações assim
um bocado complicadas. [Entrevista 2]
Conforme se pode verificar pela exposição anterior, os riscos existentes na
organização pesquisada são muito diversificados. Alguns são de extrema
gravidade, embora outros sejam algo residuais ou pouco significativos. Todavia,
é pertinente ter em conta que as diversas situações de risco podem interagir em
simultâneo durante a realização da mesma tarefa (e isto amplia o próprio nível
de risco). Por exemplo, quando são analisados os níveis de ruído, o tipo de
iluminação ou a pressão para executar uma tarefa com maior rapidez, se estes
riscos forem analisados isoladamente acabamos por não ter em consideração as
reais condições e circunstâncias de determinados tipos de trabalho (caso estes
fatores de risco estejam todos presentes em simultâneo). Mas é relevante
lembrar que nos locais de trabalho existem normalmente vários riscos em
simultâneo.
Considerações finais
Os estudos sobre as perceções de riscos dos trabalhadores podem revelar muitos
dados importantes sobre os riscos organizacionais. Na verdade, a análise das
perceções de riscos pode traduzir-se numa enorme vantagem para as organizações,
visto que a recolha desta informação permite compreender como é que os
trabalhadores veem os riscos aos quais eles próprios estão sujeitos (esta visão
é normalmente diferente daquela que é partilhada pelos especialistas em
segurança ou pelas hierarquias superiores). Do ponto de vista da prevenção isto
abre um enorme leque de possibilidades para que sejam identificados alguns
“novos” riscos, por exemplo, não identificados pelos técnicos de segurança.
Permite também compreender quais os riscos que os trabalhadores deveriam ter
identificado e que porventura não o fizeram, talvez por falta de formação e/ou
informação. Permite ainda planear as estratégias de prevenção de riscos
profissionais, tendo em conta os riscos não percecionados pelos trabalhadores,
oferecendo-lhes, por exemplo, formação profissional (este fator pode, por
exemplo, ajudar a reduzir o número de acidentes).
O quadro_1 pretende apresentar de forma sintética e sistematizada quais foram
os principais riscos percecionados pelos trabalhadores durante a investigação.
Importa destacar que os riscos são distribuídos de forma desigual no mundo do
trabalho e que as perceções dos trabalhadores estão relacionadas (tal como
seria expectável) com os riscos inerentes à sua própria atividade laboral,
embora estas mesmas perceções estejam longe de ser “perfeitas”.
As perceções de riscos dos trabalhadores, dentro da organização observada, não
são algo que possa ser considerado uniforme, pelo contrário, estas perceções
são até bastante heterogéneas. Os riscos indicados como mais graves por parte
dos trabalhadores estão relacionados com trabalhos em que é utilizada energia
elétrica de alta tensão, bem como com a realização de diversas tarefas na via-
férrea (em túnel) sem a paragem da circulação de comboios. Foi também
identificado o risco de esmagamento de alguma parte do corpo provocado pela
movimentação das agulhas. Contudo, este último, nem todos os trabalhadores o
conseguiram identificar. Nas áreas oficinais foram percecionados riscos de
quedas em altura e problemas relacionados com iluminação, em determinados tipos
de trabalho. Na área de exploração os trabalhadores que contactam diretamente
com o público referiram os conflitos inerentes que essa relação pode acarretar
(risco de agressão física ou verbal), além de riscos ergonómicos do seu posto
de trabalho. Os maquinistas detetaram que a rotina do seu trabalho é suscetível
de potenciar o designado erro humano.
Verificámos que existe uma certa tendência para os trabalhadores mais jovens
revelarem maior sensibilidade para compreender e tentar controlar os fatores de
risco dos seus locais de trabalho. Um dos exemplos que ilustra esta situação é
o facto de utilizarem com maior frequência os equipamentos de proteção
individual disponibilizados pela empresa, por comparação com os seus pares mais
velhos. De certo modo, podemos afirmar que houve uma mudança cultural dentro da
empresa, mas esta situação apenas se torna visível se considerarmos um período
de tempo relativamente longo. Seguramente que serão vários os motivos que
contribuem para esta “nova” visão dos trabalhadores mais jovens sobre como
lidar com os seus riscos ocupacionais. Mas se os trabalhadores mais jovens
parecem estar mais despertos para as questões da sua própria segurança,
verifica-se que lhes falta a experiência e os saberes dos seus pares mais
velhos. Neste caso, talvez possamos afirmar que existe um certo equilíbrio no
âmbito das questões da segurança ocupacional, dado que a inexperiência dos mais
jovens tende a ser compensada com uma nova cultura de prevenção.
Observou-se também que uma parte significativa dos trabalhadores conseguiu
identificar os principais riscos das suas tarefas, embora, por vezes, algumas
destas perceções possam surgir algo “enviesadas ou distorcidas”. [15] Mas,
durante a pesquisa, constatou-se que as perceções de riscos dos trabalhadores
são para eles próprios absolutamente “reais e objetivas”, e que estes tendem a
atuar mediante essas mesmas perceções. Assim, integrar as diferentes perceções
de riscos dos trabalhadores nas análises de riscos é um passo fundamental para
o sucesso de um programa de gestão de riscos nas organizações. Em consonância
com esta ideia, talvez a grande “mais-valia” da pesquisa aqui apresentada tenha
sido a compreensão do quanto os saberes dos trabalhadores podem ser úteis para
a gestão de riscos nas empresas, bem como para a prevenção de acidentes.