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EuPTHUHu0873-65292014000100004

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN0873-6529
Year2014
Issue0001
Article number00004

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Reputação, mercado e território: o caso dos arquitetos

Considerações iniciais A extensa literatura e as investigações empíricas desenvolvidas no domínio das artes têm vindo a explorar a riqueza da temática da reputação e as suas componentes, como o reconhecimento, o renome (Lang e Lang, 1988), a visibilidade e o sucesso (Menger, 2009, 2012), mostrando tratar-se de um fenómeno com o qual lidamos na vida de todos os dias e que tem consequências para toda a sociedade (Cowen, 2000: 1-13; 130-161). No caso da arquitetura, destaca-se desde logo a importância da cadeia de agentes associados à consagração dos arquitetos e das obras de arquitetura dos colegas aos clientes, investidores e utilizadores dos edifícios ou espaços públicos, curadores, críticos, jornalistas , passando pelo impacto de um prémio, pela publicação de fotografias das obras ou artigos teóricos em revistas conceituadas e a sua discussão pelos especialistas e pelo consumidor que comenta, publicita, promove e celebra publicamente os melhores (Gadanho, 2010).

[1] Muitas das ideias, debates teóricos, metodologias de pesquisa e evidências empíricas em torno da reputação são mobilizados e mesmo oriundos de outros universos. No entanto, os diálogos teórico-empíricos em torno deste conceito nas artes, nos estudos histórico-sociais agroalimentares, cultura material e consumo (Appadurai, 1986; Miller e Rose, 1997; Probyn, 1998), nos média (Harrington e Bielby, 1995), na gastronomia (Surlemont e Johnson, 2005), no desporto (Scully, 1995; Amis, 2003), na ciência (Merton, 1968 e 1988; Huber, 2001), entre outros, não se realizam ou realizam-se ainda de forma muito incipiente.

[2] Na literatura sobre a reputação o foco é, regra geral, o estudo de indivíduos, objetos e instituições célebres, parecendo descurar-se os processos quotidianos que estão subjacentes à conquista, perda e reconquista de reputação. Este artigo pretende relançar esse mesmo debate.

Se, por um lado, os premiados arquitetos portugueses Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, as suas obras, esquissos e projetos são cientificamente examinados, por outro, raramente ficam para a história os processos de conquista, perda e reconquista da reputação dos outros arquitetos. Os nomes reconhecidos detêm mais crédito e os seus ateliêsde arquitetura beneficiam dessa transferência de valor dos indivíduos para as instituições e para os territórios onde os objetos arquitetónicos se inscrevem.

[3]_De_igual_modo,_parece_ser_dada_maior_atenção_à_construção_de_estados_de reputação_do_que_à_compreensão_dos_processos_de_ida_e_volta_nas_diferentes posições_ocupadas_na_pirâmide_reputacional_e_às_consequências_dessas_alterações de_estatuto._É,_pois,_na_compreensão_da_volatilidade_de_estados_e_processos_de construção_da_reputação_e_na_sua_vivência_quotidiana_que_este_artigo_se enquadra,_tendo_como_ponto_de_partida_a_arquitetura_e_os_arquitetos portugueses.

Este artigo procura, de uma forma introdutória, compreender os efeitos da reputação na estruturação das trajetórias individuais de carreiras, no funcionamento dos mercados de trabalho e, de uma forma ulterior, na organização de territórios urbanos. Assim, interessa-nos questionar: como se constrói a reputação de indivíduos, instituições e mercados? Como circula a reputação entre o mercado das artes e os outros mercados? E o que conta para a sua flutuação? Qual é o impacto de um prémio, os constrangimentos e as oportunidades que daí advêm para os indivíduos e para as organizações onde trabalham? A partir do caso específico dos arquitetos e da forma como relatam e reconstroem os acontecimentos que consideram ter marcado a sua carreira, procuramos avaliar que processos quotidianos ampliam, sustentam e ensombram a sua reputação? Mostraremos como arquitetos com percursos inicialmente muito próximos acabam por progressivamente se afastar, colocando-se numa dependência estreita das suas redes de colaboração e do lugar que o seu nome ocupa na arquitetura.

Por último, o artigo discute as perspetivas da pesquisa em curso que avalia os mecanismos reputacionais e a evolução dos seus efeitos na dinamização dos mercados de trabalho e dos territórios urbanos.

Um quadro teórico cruzado: reputação, mercado e território A literatura produzida em torno da reputação está fortemente associada aos mundos da arte, da cultura, da criatividade e das suas indústrias (Caves, 2000) e muito implicada no escrutínio de temáticas paralelas, como a fama (Gamson, 1994; Cowen, 2000), as culturas da celebridade (Marshall, 1997; Rojek, 2001; Heinich, 2011), o poder dos winner-take-all-marketse os ingredientes para uma carreira excecional (outliers)(Rosen, 1981; Frank e Cook, 1995; Gladwell, 2008), no tempo (Lang e Lang, 2001[1990]). Do lado da sociologia da arte e da cultura, a temática tem sido amplamente escrutinada, destacando-se o trabalho de P. Bourdieu (1992, 1993, 2003[1979]), que entende os fenómenos reputacionais como resultado de lutas internas, por exemplo, no campo literário, onde alguns agentes acumulam mais capital simbólico do que outros. H. Becker (1982: 351- 371), no capítulo que dedica ao estudo da reputação, segue outra via: mostra- nos como o indivíduo reputado pode ser dotado e desenvolver um trabalho excecional; contudo, pode também ser alguém que segue as regras e faz um trabalho competente que se distingue e é consagrado pela qualidade das suas associações a outros profissionais appariementselectif,na expressão de P.

Menger (2009) , pelo valor dos resultados finais e pela forma como isso é entendido pelo público. Adianta ainda que a reputação depende dos consensos que existem num dado momento histórico e da linha de participantes que ajudam o indivíduo a construir a obra: a sua ideia é mostrar os indivíduos a fazerem as coisas em conjunto, ou seja, as cadeias de cooperação em que o artista está envolvido com muitos outros profissionais.

G. E. Lang e K. Lang (2001 [1990]) seguem a linha beckeriana e consideram que o que preside à construção da reputação artística depende das avaliações do outputartístico, realizadas pelos programadores e curadores que permitem a sua visibilidade, pelos pares ou outros stakeholders(intervenientes) importantes para ampliar a reputação, como, por exemplo, os críticos. Apenas alguns chegam ao topo da celebridade, e isso acontece quando um artista consegue obter renome, isto é, quando o seu nome está estabelecido fora do mundo mais íntimo dos seus colegas e clientes admiradores. É o grau de visibilidade de um indivíduo ou de uma instituição, fora desse mini art world,que define o seu renome (Becker, 1982; Lang e Lang, 1988).

Na sociologia francesa, além de P. Bourdieu, destaca-se ainda R. Moulin (1992), que avaliou o diferente posicionamento da arte, das instituições e dos seus artistas no tempo, [4]_e_P._-M._Menger_(2009),_que_parte_da_realização_dos_indivíduos_na incerteza,_uma_incerteza_intrínseca_à_condição_do_agir_humano,_que_transporta para_a_análise_do_trabalho_dos_artistas_e_profissionais_da_cultura,_as_suas relações_de_trabalho_e_cadeias_colaborativas._A_incerteza_existe,_pois,_do princípio_ao_fim_das_atividades_criativas._“Nobody_knows”,_afirma_R._Caves (2000:_3)_na_introdução_do_seu_célebre_livro.

N. Heinich (1991) utiliza uma metodologia compreensiva e observa, através das entrevistas aos escritores, as recorrências sobre como é vivida a consagração individual, entre a mitologia do sacrifício e a elite dos artistas (Heinich, 1991, 2005 e 2011). Destaca-se ainda a sociologia da mediação e do intermediário de A. Hennion (1993).

Por seu turno, a economia da cultura de D. Throsby (2001) e F. Behamou (2002) discute os perfis dos artistas e o star-system,enquanto A. Markusen e os seus estudos de economia da arte e da cultura introduzem com originalidade as questões do reconhecimento do território e do placemaking(Markusen, 2006; Markusen e Gadwa 2010). A sociologia económica que avalia os sinais que chegam aos mercados e os seus efeitos na escolha de um produto por parte dos consumidores é desenvolvida também por um amplo número de autores, entre os quais destacamos os franceses Chauvin (2010), François (2011) e Karpik (2007).

De resto, os estudos americanos clássicos discutiam as questões da reputação e do sucesso, associados a uma confluência de múltiplos fatores; destaca-se, por exemplo, o modelo de R. Merton (1968 e 1988) e o efeito Mateus, onde se discute como as desigualdades de reputação e sucesso na ciência se devem a diferenças inicialmente insignificantes na qualidade intrínseca dos indivíduos, que aumentam com o passar do tempo e ampliam as distâncias entre os mesmos na hierarquia dos talentos científicos. Os consumidores e a comunidade profissional percecionam a diferença, por muito pequena que seja, da qualidade dos indivíduos; e é essa perceção que orienta as suas escolhas (Adler, 1985; Merton, 1988). Se o artista fizer uso das inovações tecnológicas que hoje tem ao seu dispor e que lhe permitem uma projeção planetária e mercados cada vez mais alargados, essa perceção estende-se a um número mais elevado de indivíduos. A situação terá consequências mais importantes para a carreira do artista se este se associar a equipas com reputação elevada: a associação de talentos tem um efeito multiplicador, nomeadamente em domínios que se organizam por projeto (Menger, 2012).

Nas artes avalia-se o valor artístico e a originalidade em termos relativos; por isso utilizam-se os prémios, os rankings,as audições dos atores e bailarinos, para fazer comparações e competições incessantes na hierarquia de talentos (Rosen, 1981; Menger, 2012). É no mesmo sentido que A. Collins e C.

Hand (2006) descrevem a atribuição de prémios como o resultado de pequenos sucessos acumulados: receber o Prémio Pritzker, o Nobel da Arquitetura, como é designado, pode dizer-nos que o indivíduo granjeou a atenção de um círculo maior de indivíduos e que foi consensualmente considerado o mais talentoso. C.

Camerer e D. Lovallo (1999) consideram que em todo este processo de reconhecimento figuram os outros que desenvolvem um sentimento de confiança, por vezes excessiva, nas suas características individuais e na sua vocação criativa. A originalidade, a criatividade, o prazer de realizar uma atividade criativa, a tenacidade e a sua resiliência ajudam a explicar a persistência de atores e bailarinos no mercado de trabalho artístico (Borges e Pereira, 2012) e a tensão que reside no binómio profissão/vocação.

É o que acontece também com os arquitetos, conforme ficou demonstrado no estudo anterior, que ilustrámos com o preceito bíblico: muitos são os chamados, poucos os escolhidos (Cabral e Borges, 2006, 2010). No entanto, convém acentuar que, sendo a arquitetura uma profissão de índole artística, a especificidade dos trabalhos produzidos, os objetos arquiteturais ao contrário dos quadros ou dos espetáculos que circulam no mercado de bens artísticos , os edifícios, têm uma inscrição num espaço e um universo simbólico que lhes fica associado. De facto, como Magali Sarfatti Larson tem mostrado para os Estados Unidos, o ressurgimento do arquiteto heroico foi estimulado a partir da década de 1980 pelo boomda construção pós-moderna visível. Foi igualmente estimulado com fins políticos e de competição económica entre cidades, onde os arquitetos foram convidados a deixar a sua marca em territórios urbanos recém-criados (Larson, 1993: 218-242). Da mesma forma, a lionização de arquitetos tornou-se parte da estratégia de marketingdo cliente e um sinal de convergência da arquitetura com a indústria da cultura (Larson, 1993: 248). O Prémio Pritzker, equivalente ao Prémio Nobel da Arquitetura, funciona desde 1979 como o gatekeeperpara as novas tendências arquitetónicas à escala global, incluindo Portugal: Álvaro Siza Vieira recebeu o prémio em 1992 e Eduardo Souto de Moura em 2011.

O reconhecimento que fazemos aqui desta particularidade, a inscrição da obra arquitetónica como marca, é relevante para compreender e testar: (i) os efeitos da obra num território; evoca-se a este propósito o efeito Guggenheim, em Bilbau (ver D. Ponzini, 2010), e, no caso português, a reconstrução da cidade a partir da Expo98, procurando criar uma nova imagem da cidade, para utilizar o contributo de K. Lynch (1960) e repensar a reputação num contexto competitivo internacional; (ii) a evolução da própria profissão de arquiteto destaca-se aqui o estudo de P. Brandão (2006), do qual faz também parte um subcapítulo dedicado ao stars-team da arquitetura e o paradigma mediático da autoria e a mudança da posição social dos arquitetos, entre outros profissionais. Não sendo uma exceção deste grupo profissional, não deixa de ser emblemática da forma como o mesmo se inscreve no profissionalismo moderno (Larson, 1983) e da sua inclusão no debate mais geral em torno das profissões da forma urbana (Blau, Gory e Pipkin, 1983; Kostof, 2000).

Uma estratégia metodológica em mosaico No estudo anterior, Profissão: Arquiteto/a (Cabral e Borges, 2006, 2010), encomendado pela Ordem dos Arquitetos, optámos por um questionário fechado, enviado a 12. 632 indivíduos inscritos na referida Ordem. Obtivemos na altura um total de 3.198 respostas válidas. O modelo interpretativo que construímos nesse estudo (baseava-se nas propriedades sociodemográficas e profissionais dos arquitetos inquiridos) apurou os fatores mais importantes para o sucesso profissional. No centro do modelo, o sucesso profissional contribuiu para explicar os sentimentos de satisfação pessoal e satisfação material dos nossos inquiridos. Entre os fatores que contribuíram para explicar o sucesso profissional aquele que teve maior peso foi a idade (ou seja, o tempo de que todas as carreiras carecem para se consolidarem); depois o facto de ter trabalhado durante a licenciatura, que tem uma relação virtuosa com a entrada na carreira e com o sucesso na mesma, devido não à aprendizagem (saber- fazer) mas também à inserção nas redes colaborativas. Por seu turno, o fator género tinha um peso menor e jogava contra as arquitetas que se concentravam nas modalidades assalariadas e estavam sub-representadas no fator que mais peso negativo teve no nosso modelo: a acumulação de atividades profissionais. Ou seja, a arquitetura quando é exercida em regime de exclusividade constitui-se como um fator positivo para o sucesso de uma carreira.

No presente artigo analisamos as primeiras 23 entrevistas, realizadas nessa altura e às quais voltámos para fazer uma análise diacrónica, que decorre de uma nova recolha de testemunhos junto dos mesmos entrevistados, para testar a evolução das carreiras. Assim, utilizaremos aqui excertos dessas entrevistas realizadas junto de 17 arquitetos e 6 arquitetas que responderam a questões semiestruturadas, organizadas em torno da carreira, a escolha do curso, o tipo de trabalho realizado dentro e fora do ateliê, os principais obstáculos sentidos no exercício da profissão e as condições de êxito na carreira. Com isto, compreendemos como falam os arquitetos da sua experiência na profissão, as comparações com os seus pares e a relação com fotógrafos, jornalistas, clientes; e, claro está, o efeito do tempo.

[5]_Utilizamos_uma_abordagem_qualitativa,_apreendendo_mais_do_que_um_aspeto_da socialização_dos_arquitetos_e_procurando_descrever_e_comparar_as_configurações e_a_“pluralidade_de_contextos”_possíveis_(Revel,_1996:_26)_das_suas_carreiras.

Pode_entender-se_este_procedimento_à_luz_do_importante_trabalho_de_N._Elias (1993)_e_da_sua_sociologia_de_um_génio._Sublinhamos_ainda_os_importantes trabalhos_de_M._L._L._dos_Santos_(2012)_e_I._Conde_(2012,_2013),_que_discutem_e analisam_os_grandes_temas_da_sociologia_da_cultura_e_desafios_teórico- metodológicos,_a_relevância,_singularidade_e_reconhecimento_nas_“fases_dos_seus percursos_de_carreira.

A nossa intenção é, em particular, problematizar e compreender sociologicamente os percursos dos arquitetos, como se fossem uma mistura de mosaicos, pequenas partes da realidade (Becker, 1970).

A palavra dos arquitetos é fonte de conhecimentos sociológicos (Demazière e Dubar, 1997: 38) para vermos como se inscreve nas linhas e hipóteses de trabalho que privilegiamos, para dar a conhecer o processo interativo de apropriação de formas sociais e o seu caráter sempre provisório e inacabado. Esta operação permite-nos comparar, a todo o momento, os dados das entrevistas uns com os outros. O tipo de escrita e análise sociológica que adotamos neste artigo é essencialmente tributário do contributo de B. Lahire (2002) utiliza- se mais a perspetiva de Portraits sociologiques(Lahire, 2002) e menos a configuração familiar de Tableaux de familles(Lahire, 1995), passando pelos casos específicos em contexto português (V. Borges, 2008, com os percursos dos atores, e J. T. Lopes et al.,2010, com as experiências, percursos e retratos de mulheres clubbers”).Neste sentido, conciliamos pelo menos três perfis profissionais que concorrem e se misturam no mundo da arquitetura. Primeiro, os mais jovens, com 10 anos de carreira, que descrevem a inocência do seu trabalho, a dedicação, resiliência, compromisso, e o ateliê em casa, contam as experiências que falham, o estágio internacional e a forma como entendem servir o cliente. Segundo perfil, os arquitetos com mais de 10 anos de carreira, que descrevem a necessidade de internacionalizar os seus ateliês, exigindo-se para tal que sejam pivôs com capacidade para analisar o mercado, concentração na atividade, especialização e escala. É no terceiro perfil que residem as gerações que ilustram o glamour da profissão, que consideram ocupar lugares de poder, acumular oportunidades (como a conservação de obras nacionais, a requalificação de espaço público) e caminhar para o reconhecimento internacional.

Entre as pequenas forças e a transferência de valor A. Abbott (2001: 1-33), na introdução autobiográfica de Time Matters,escreveu o artigo mais longo do livro. Apresentou a sua história profissional e discutiu criativamente as pequenas forças que atuaram no seu percurso até chegar à posição que ocupa no sistema de investigação. A nossa intenção não é produzir aqui a lista de ingredientes que fazem as carreiras de sucesso na arquitetura ou as ruturas biográficas que alteram as trajetórias de carreira dos indivíduos, [6]_mas_antes_observar_os_transfertsque_se_operam_em_etapas_decisivas_da constituição_da_reputação_através_dos_passos_e_dos_acontecimentos_que_são valorizados_pelos_indivíduos_entrevistados_(a_este_propósito,_ver_Davies_e Schmiedeknecht,_2005).

A. Abbott (2001) e P. -M. Menger (2009: cap. 6; 2012: cap. 2) convergem na importância que atribuem a estas pequenas forças. Nas entrevistas que realizámos descrevem-se algumas delas, com resultados notáveis e geradores de diferenças nas trajetórias de carreira, observáveis depois com o passar do tempo. Os exemplos de Gustavo e Rodrigo exprimem a ambivalência desses resultados. Nos anos 50, Gustavo entrou em Belas-Artes, que descreveu como sendo um curso de artistas. Quando terminou o curso, foi trabalhar para o estrangeiro. Inesperadamente foi-lhe passado um projeto e, a partir daí, conseguiu outro e mais outro, sem parar, durante mais de uma dezena de anos: [Fui para fora] Aquilo era um meio muito pequeno, havia poucos arquitetos e os correios tinham uma série de trabalhos para fazer. Éramos quatro. Um deles era difícil e o diretor não se entendeu com ele. Como os outros eram mais acessíveis, cada um teve um trabalho. Um deles disse: por que é que não esse ao Luís, que é casado e tem filhos? Fiz isso para os correios, fiz um centro de telecomunicações [] a seguir fiz uma torre que vi onze anos depois construída [] fiz um edifício para a rádio que ainda hoje existe. Aquele foi um episódio muito importante na minha vida [Gustavo, 68 anos, dirige um pequeno ateliê].

Por seu turno, Rodrigo reconhece que no início aceitava todo o tipo de projetos e que com o tempo é que se começa a selecionar. No entanto, sublinha a importância do lastro familiar, que, com o passar dos anos, lhe permitiu mobilizar um stock de ligações fortes, redes de apoio que sustentaram e ampliaram a sua reputação: Venho de uma família de arquitetos. O meu avô foi um arquiteto bastante importante dos anos 30-40 [] e na minha família, da parte da minha mãe, temos arquitetos de várias gerações e, depois, tias minhas que casaram com arquitetos [] Era miúdo e ia muito com o meu avô às obras, o meu avô tinha muito trabalho [] Foi uma escolha orientada pela família? Sim, ao princípio foi, mas depois o meu avô dizia: ah, não venhas para arquitetura, não se ganha nada. Mas eu acho que era o bichinho que estava e transmitiu-me imensos ensinamentos [Rodrigo, 67 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].

A reputação aparece associada à visibilidade do nome de um indivíduo e de um ateliê. Fombrun e Mark Shanley (1990) descrevem o que pode estar nas entrelinhas de um nome de uma firma, cujos diretores procuram influenciar os stakeholderse, nesse sentido, mostrar as suas vantagens competitivas, dar sinais para ajudar os consumidores a escolher, atraindo-os e procurando no mercado os melhores trabalhadores. Tal como antes fora entendido por R.

Merton (1988), a visibilidade alimenta-se, multiplica-se e os seus sinais são evidentes aos olhos dos consumidores, dos investidores, das instituições e do mercado em geral. O testemunho de Rodrigo é disso um exemplo. Tornou-se responsável por um ateliêcom seis arquitetos associados e mais de uma dezena de arquitetos flutuantes e estagiários. A propósito do trabalho desenvolvido no seu ateliê,Rodrigo destacou a importância de ir a concurso pelo caráter formativo das equipas e considerou que os concursos mais importantes são realizados por convite e destinam-se aos arquitetos mais prestigiados, argumentos que acentuam o caráter cumulativo da reputação: Isto depois é a chamada pescadinha de rabo na boca, porque é assim: uma pessoa, para poder ir a um grande concurso de arquitetura, tem de ter no ateliê outros a trabalhar para o ateliê poder estar quatro, cinco meses num grande projeto de arquitetura e muitas vezes, ou grande parte das vezes, corre-se o risco de não ganhar [] é uma experiência que foi feita e uma pessoa consegue ver se o ateliê está a trabalhar bem [Rodrigo, 60 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].

O seu caráter circular, acentuado por R. Merton (1988), citando H. Zuckerman (1965): O mundo é peculiar na forma como crédito. Tende a dar crédito a pessoas que são famosas, o que tem importantes repercussões no mercado de trabalho pelo valor dos bens assinados pelos mais reconhecidos e pelas suas remunerações simbólicas e ganhos efetivos. P. -M. Chauvin (2010) mostra que esta situação é semelhante à vivida no mundo da vitivinicultura: a assinatura dos consultores vitivinícolas é uma fonte de reputação que se transfere para as organizações produtivas. O que Rodrigo deixa ver quando refere a concentração das grandes obras nos ateliêsde renome e traça o movimento de ida e volta das reputações individuais e organizacionais: Lançam-se sozinhos, mas não têm capacidade financeira para aguentar um concurso, ou então vão a concursos muito pequeninos, não estão nas obras top.As grandes empresas institucionais raramente darão uma obra a um ateliê que não tenha prestígio, porque hoje em dia, e isso deve-se muito ao arquiteto S.

Vieira, ao arquiteto S. Moura e a G. Byrne, é o prestígio do arquiteto que conta. pessoas que querem ter uma casa feita por nós e usam-na comercialmente. Eu vejo as casas utopia, foi o M. A. Mateus que lançou, convidou uma série de arquitetos, o primeiro standardda publicidade tem sido o nome dos arquitetos, não é o local. Se eles não são conhecidos, não chegam [Rodrigo, 60 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].

L. Karpik (2007) descreve os sinais que guiam o consumidor nos seus julgamentos sobre a qualidade dos produtos no mercado por exemplo, o reconhecimento de um trabalho anterior facilita, uma nota dada por um crítico transmite confiança e amplia a possibilidade de ser escolhido para novos prémios. R. Merton (1988) e P. -M. Menger (2009 e 2012) consideram que o sinal mais importante que o indivíduo ao mercado de trabalho reside na capacidade que demonstra ter para desenvolver outras competências. Deste modo, a visibilidade é um fator potencial de crescimento das competências pelas fontes relacionais que confere aos indivíduos, o que é sugestivamente ilustrado na pesquisa de C. Ollivier (2011) sobre os efeitos das relações sociais nas trajetórias profissionais dos arquitetos de interior. Na entrevista de Marco é notada a sua capacidade para se associar ao ateliê de outro arquiteto igualmente reconhecido, considerando que em associação concorre mais forte aos concursos que abrem em Portugal e no estrangeiro. Cada um dos ateliês dispõe de equipas próprias que colaboram na conceção e construção de projetos top: Em vez de este ateliê aumentar para 50 ou 60 pessoas, os dois ateliês juntos têm quase 50 arquitetos; portanto, têm uma capacidade maior, temos uma parceria para uma série de projetos grandes em Lisboa e no estrangeiro e tem corrido otimamente [] O grande problema dos ateliêsé que quando se fecham muito sobre si não têm um poder crítico muito grande [] Eu acho que o meio da arquitetura em Portugal é muito fechado e depois acontece o seguinte: muitas vezes os arquitetos que fazem mais trabalho são um bocado escorraçados, porque aquela coisa de small is beautiful[Marco, 65 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].

As experiências formadoras aumentam as competências; se o número e a variedade de experiências aumentam, também as redes de colaboração mobilizadas pelos indivíduos se alargam. A formação na escola e o trabalho ainda durante o curso no interior dos ateliês aparecem como variáveis correlacionadas com o êxito de uma carreira, sobretudo quando se apresentam como momentos paralelos e combinam eventos básicos do contexto escolar e do aprender-fazendo no ateliê com a progressão técnica dos arquitetos, que aperfeiçoam conhecimentos sobre os materiais, fazem a apropriação do vocabulário específico e as primeiras saídas para a obra com o arquiteto principal e conhecem outros arquitetos e ateliês;aventa-se, desta maneira, a capacidade para durante esses momentos de formação paralela se produzirem contactos de trabalho (Cabral e Borges, 2010).

Foi o que aconteceu a Carlos, 27 anos, quando descreveu o início da sua carreira, difícil e demorado na aprendizagem das sínteses próprias da arquitetura, mas aberto a pequenas forças: Eu fui para Madrid, foi o meu primeiro trabalho. O que é que um jovem arquiteto faz quando acaba o curso? Faz o que pode [] Estive em Paris e, durante o Erasmus,conheci pessoas e convidaram-me para ir para Madrid porque precisavam de um arquiteto que falasse português e francês para colaborar nos projetos das antigas colónias portuguesas em África [Carlos, 27 anos, ateliê próprio que partilha com um colega].

João é outro jovem arquiteto que trabalha por projeto. Na sua entrevista conta que esses projetos surgem no interior de um grupo de colegas e amigos que se associam quando existe uma oportunidade de trabalho ou quando um concurso para desenvolverem ideias. Esta associação informal dos jovens arquitetos tem a vantagem de tornar regular, tanto quanto possível, a prática da arquitetura e fazer nascer mais depressa as ideias. João gostaria de trabalhar num ateliê em Lisboa em obras de grande envergadura que possibilitassem aprender, conhecer e saber como se utilizam novos materiais, mas isso não acontece. As expetativas sobre o seu futuro são moderadas, seis ou sete colegas saíram do país, encontrando-se em Madrid, Londres, Roterdão, Barcelona, Suíça. Alguns deles estão a fazer o estágio através de um patrono português que se responsabiliza pela sua formação. Todos são remunerados. Porém, o fraco investimento relacional, muitas vezes decorrente de ausência prolongada (por exemplo, necessidade de sair do país por falta de trabalho), não permite fazer circular informação sobre o nome e as respetivas obras. O reconhecimento dos pares demora tempo e exige o reforço dos mecanismos de engagemente investimento ativo em redes específicas. Luís regressou do estrangeiro e não viu reconhecido o seu trabalho. As pequenas forças que lhe permitiram trabalhar e construir obras arquitetónicas fora do país não tiveram impacto interno junto dos seus pares: Não, antes pelo contrário. Quando saí de foi esquisito porque havia muito, ainda hoje , essa desvalorização das pessoas, dos arquitetos que tinham feito a sua prática, a sua experiência, no estrangeiro Mas quem tem mais aspirações, quem não se contenta com a malfadada sorte, quem tem projeto, acaba por ir procurar um sítio onde se possa realizar como pessoa humana [] Fui ignorado, sim [Luís, 67 anos, dirige um ateliê de pequenas dimensões].

No fundo, as vantagens que as redes e as associações de nomes reconhecidos produzem funcionam como um mecanismo concorrencial que pode gerar monopólios no mercado de trabalho da arquitetura, à semelhança daquilo que acontece noutros mercados.

Da altura das barreiras às vantagens acumuladas Como vimos anteriormente, três importantes estudos em sociologia da arte examinam a construção da reputação, o problema da sua definição e de como esta persiste no tempo (Becker, 1982; Lang e Lang, 1988 e 2001 [1990]). Lang e Lang (2001) definem duas das mais importantes componentes da reputação: o reconhecimento e o renome. O primeiro amplia-se quando uma convenção acerca do valor de um artista, instituição ou mercado é partilhada por um número mais amplo de indivíduos. O renome de um indivíduo avalia-se, em geral, pela sua visibilidade na imprensa, nas vendas ou noutro tipo de atenção que o trabalho ou o artista conseguem obter, como veremos nesta secção.

No mercado da arquitetura um grande número de aspirantes que se confrontam com um sistema de triagem implacável que deixa a maior parte pelo caminho (Cabral e Borges, 2010) ou obriga a criativas mas difíceis alternativas de carreira: Rui e Catarina, da geração intermédia, trabalham por conta própria na sua casa, que criativa e rapidamente transformam num ateliêtodas as manhãs: para não sermos papados pelos grandes, justificam. Duarte lamenta a estagnação de muitos colegas e considera que esse é o maior risco da profissão, a estagnação criativa daqueles que não assinam os projetos, mas permanecem nos grandes ateliêse ajudam a montar os projetos, e são por vezes afastados pelos responsáveis dos ateliês,sempre à procura de sangue novo, para utilizar a sua expressão: Acabei o curso, fui trabalhar. Durante nove anos estive a colaborar com um arquiteto que tinha sido meu professor. Nove anos nesse gabinete e o problema que se põe é que não evolução, ficamos estagnados Acaba-se por entrar num processo onde tudo está decidido [] É um trabalho de desenhador um bocadinho mais qualificado Tenho colegas que permanecem a trabalhar para outros, mas depois acontece que quando chegam a esta idade começam a ser despedidos e a ser trocados pelos mais novos. O problema é que ou têm conhecimentos pessoais que lhes permitem angariar trabalho ou ficam mesmo sem trabalho [Duarte, 40 anos, trabalha em casa].

Para os artistas, ou, se quisermos, para os arquitetos reconhecidos, os ganhos simbólicos e materiais, que resultam do reconhecimento em círculos mais alargados, são muito fortes (sobre os efeitos masterpieces, ver Galenson, 2002). Numa discussão crítica sobre este tema, R. Frank e P. Cook (1995) descreveram o poder dos indivíduos mais reputados, os açambarcadores de mercados, em profissões onde o talento é um fator multiplicador que conta com as avaliações produzidas pelos pares e por toda a cadeia de opinion-makers,como os críticos (Moulin, 1967: 183; Lang e Lang, 1988: 84-85) e o colega e a proximidade que cada um consegue manter com os mesmos (Ollivier, 2011): Depois aquele império do Norte, quem não fizer arquitetura branca e pura e neorrealista e neonacionalista não não, como é uma ameaça ao poder estabelecido, porque é fácil as pessoas instalarem-se nos chavões, a arquitetura do Siza é bestial, está dentro do modelo, do padrão, é reconhecida no estrangeiro [] O diferente tem de passar por uma aceitação que vem sempre de fora, dos média [] A dinâmica da sociedade contemporânea não vai no sentido da confrontação, vai muito mais no sentido da pacificação, do mainstream[Pedro, 64 anos, dirige um ateliêde pequenas dimensões].

Por seu turno, as palavras de um casal de arquitetos, Mário e Deolinda, mostram as diferentes fases de duas carreiras: a entrada na arquitetura, o reconhecimento dos colegas e, por fim, a importância dos fotógrafos de arquitetura para a consolidação da sua reputação e a divulgação dos trabalhos.

Mário começa a sua entrevista assinalando a importância do capital familiar como fonte de concorrência que assegura a posição dos indivíduos contra a inevitabilidade de ficar na sombra. De outro modo, Deolinda começa a entrevista descrevendo a altura das barreiras no início da carreira de uma arquiteta que tentava provar a si mesma que conseguiria vencer: O arquiteto ou tem uma família ligada à arquitetura ou uma família muito metida no meio, um pai arquiteto, ou então tem de ele próprio fazer o seu marketing, dar todos os pequenos passos para ser persuasivo, dizer estou aqui, dizer o que pode fazer [] O meu pai era o desenhador de província conceituado que fez durante muitos anos o papel de arquiteto. O bichinho estava desde o princípio [Mário, 58 anos, responsável pelo ateliê].

Vencer as primeiras barreiras é logo a seguir, quando se acaba o curso. Eu vejo muito poucas arquitetas em obra, muito poucas. Acabei de sair de uma reunião com cinco homens, eu não me importo nada, eles se habituaram à minha presença. tenho alguma idade, estou a trabalhar com este cliente muitos anos. Mas não é fácil. Não mulheres em obra [Deolinda, 56 anos, responsável pelo ateliê].

No mesmo sentido, as palavras de Clarisse, arquiteta sénior, quando recorda a sua resposta a um anúncio que pedia arquitetos, no final dos anos 70: Claro que senti alguma segregação no princípio. A primeira vez que respondi a um anúncio publicado num jornal mandei o curriculume depois chamaram-me, havia dois arquitetos, eu e outro, e perguntaram-me como é que me sentia, sendo mulher, num meio onde havia homens [Clarisse, 64 anos, trabalha numa câmara municipal].

Voltemos a Mário e Deolinda. Depois dos primeiros anos começaram a acumular-se vantagens no seu percurso. Em conjunto, descreveram duas formas de reconhecimento do trabalho de um arquiteto no mercado: a arquitetura publicada (que pode ser construída ou não, inscrevendo-se no âmbito dos projetos) e a arquitetura fotografada (Corbusier e o fotógrafo Lucien Hervé são o exemplo de uma dupla de renome). Estes exemplos mostram-nos até que ponto o engagementde diferentes profissionais num continuumde práticas amplia a reputação de uns e outros: M A mais pequena moradia que nós fizemos foi para um amigo. D Deu mais projeção e tem sido publicada em todo o sítio. Reconhecida e publicada. Quem é que faz esse reconhecimento? M São os outros. Tem a ver também com os fotógrafos que divulgam muito o seu próprio trabalho. Eles próprios são os divulgadores das suas fotografias. D Depois aparece uma, e então, e não têm mais trabalhos? E nós começamos a mostrar. Temos uma série de publicações.

H. Becker (1982: 351-371) chama a atenção para que, com o tempo, os mundos das artes fazem e desfazem as reputações de indivíduos, escolas, trabalhos, géneros. O tempo, tal como é descrito por Mário, da antiga geração de arquitetos, mostrará o valor de uma boa cerejeira. O tempo que leva a construir a boa cerejeira contrasta com a rapidez com que esta pode consumir- se.

Costumo dizer que a arquitetura é como uma boa cerejeira: se as cerejas são boas, não se tira apenas uma, vai-se buscar outra, e outra, até que ela comece a ter algum problema [] O que se constrói demora muito, muito tempo, constrói- se pedra a pedra, mas a demolição de um gabinete pode ser muito rápida [Mário, 58 anos, dirige um ateliêde grandes dimensões].

ou, simplesmente, alterar-se. Jorge, da antiga geração de arquitetos, assumiu, num tom nostálgico, o império dos jovens, as superstars, os ídolos efémeros dos dias de hoje: Praticamente, não tenho trabalho Nós estamos num período do triunfo dos jovens, um tipo está muito na berra Os ídolos hoje consomem-se muito rapidamente, mas o André ainda poucos meses era uma superstarcom aquele livro que trazia coisas dele. É um património ser novo [Jorge, 65 anos, dirige um pequeno ateliê].

Os concursos: quanto é preciso experimentar até ganhar? No trabalho anterior (Cabral e Borges, 2010) verificámos que cerca de um terço dos arquitetos concorreram a um ou mais concursos públicos nacionais, com uma média inferior a um concurso por ano. Na realidade, porém, um quarto participou num máximo de três concursos, enquanto menos de 7% participaram em mais de três. Temos aqui uma medida aproximada da forma drástica como o acesso à procura de novos bens arquitetónicos promovida pelo maior cliente do país o Estado central, regional e local se restringe a uma percentagem pequena de ateliês.Considerámos que esta concentração de oportunidades refletia, necessariamente, a concentração de recursos por parte de um segmento pequeno da profissão. Predominam os vencedores de prémios entre os mais velhos: 23% dos homens ganharam pelo menos um prémio; 12% das arquitetas estão nessa situação.

Em 2011, quando Eduardo Souto de Moura ganhou o Prémio Pritzker, estiveram expostos na Faculdade de Arquitetura do Porto, onde estudou e lecionou, cerca de 50 trabalhos seus realizados para os concursos nos quais participou e nem sempre ganhou nos últimos 31 anos (1979-2010). Este conjunto de trabalhos a noção de quanto é preciso experimentar até ganhar um prémio de prestígio.

Para Miguel, jovem arquiteto, os fatores de êxito numa carreira relacionam-se com o tempo de trabalho (uma carreira demora a fazer-se), o volume de trabalho, a obra feita ou simplesmente publicada nas revistas da especialidade e a dimensão do ateliê: Para se alcançar êxito é preciso trabalhar muito. O meu primo, que neste momento tem cerca de 40 anos, trabalha quinze e agora começa a ter clientes mais importantes, até aqui foram sempre pequenos trabalhos [] Relativamente ao panorama geral, ele é um arquiteto com êxito, porque tem um ateliê grande, com trabalho suficiente. O que eu acho é que não tem aquelas obras marcantes. Obra feita é sempre um privilégio [] Outro fator de êxito, falando não em Portugal, mas no mundo inteiro, são os arquitetos que aparecem nas revistas. Pode ser um arquiteto que tem pouquíssima obra construída e pode ser conhecido por ter muita obra publicada, isso é importante, obra publicada em revistas da especialidade São projetos. Essa obra publicada pode ser acompanhada por um pensamento teórico ou não, pode ser puramente exploração de imagem, novas formas, novas abordagens. muitas obras que não chegam a ser construídas, mas que são importantes para o avanço da teoria da arquitetura [Miguel, 30 anos, trabalha por projeto].

Todos os fatores reunidos não chegam ao impacto que um prémio prestigiado tem, pelo consenso sobre o valor de uma obra. Os prémios representam para os seus vencedores um lugar no topo da pirâmide reputacional. Rui, arquiteto sénior, chegou a ficar bem colocado nos concursos nacionais, mas assinala que nunca ganhou e mostra-nos a expressão do seu profundo desapontamento: Eu ia a concursos Ficava sempre em segundo lugar não ganhava e depois até isso mesmo me tiraram [Rui, 60 anos, dirige um ateliêde pequenas dimensões].

Conclusão e perspetivas Este artigo apresenta algumas das dinâmicas mais fortes e intrínsecas à reputação, os seus mecanismos e efeitos nas trajetórias individuais de carreira, num grupo profissional específico, os arquitetos. A arquitetura e o nome de alguns arquitetos portugueses estão hoje associados a importantíssimos prémios internacionais, a uma participação intensa e de grande qualidade (assim entendida também pelos pares) nas bienais internacionais de arquitetura. Tendo como pano de fundo as trajetórias individuais de carreira de alguns dos arquitetos que entrevistámos, procurámos mostrar como se organiza, amplifica ou altera a reputação destes indivíduos e o que isso pode significar para a valorização desta área de trabalho e para a organização geral desta profissão.

Desde logo, como tivemos oportunidade de discutir na primeira parte, quer a discussão teórica, quer as evidências empíricas estão muito para além daquelas que têm sido as perspetivas mais convencionais e consolidadas sobre os processos de reputação, apontando-se aqui o caminho de um estudo dinâmico em torno da reputação de indivíduos, organizações, mercados e territórios. Os processos reputacionais necessitam de uma análise consistente e aprofundada dos mecanismos da sua construção e sustentabilidade, associando o reconhecimento dos artistas, das obras, das organizações onde se movimentam e dos territórios onde se inscrevem (cidades, países), seguindo os pressupostos de uma investigação mais alargada, como aquela que se está a realizar.

A diversidade de lógicas, formas e objetivos inerentes aos processos de reputação requer ainda uma análise comparativa destes mecanismos de construção das reputações e das lógicas em que assentam ao longo do tempo. É o que procuraremos fazer, articulando nomeadamente os mundos da arquitetura e do teatro.

No caso dos arquitetos, que sustentam aqui a vertente empírica desta investigação preliminar, mostra-se que a sua vivência da reputação está profundamente ligada às pequenas forças, como a saída para outro ateliê,a sugestão de um colega, e a um conjunto de vantagens acumuladas, como a associação a redes colaborativas de diferentes profissionais num continuumde práticas que ampliam o conhecimento de uma obra um fotógrafo que faz uma boa imagem, um projeto que é publicado numa revista ao longo do tempo. O prémio é o culminar do processo. No caso da arquitetura, os sinais que se emitem para um mercado singular como este passam pela inscrição de um nome reconhecido no mercado, capaz de iluminar e chamar a atenção para um território.


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