A experiência subjetiva com a doença mental: o caso da depressão
Introdução
A Organização Mundial de Saúde considera que a depressão crónica é, atualmente,
a principal causa de incapacitação em todo o mundo e ocupa o quarto lugar
entre as dez principais causas de patologia (OMS, 2002: XII). Situação ainda
mais expressiva pois estima-se que em 20 anos a depressão crónica venha a
ocupar a segunda das principais causas de doenças no mundo. Segundo a OMS, se
persistirem as atuais tendências de transição demográfica e epidemiológica até
2020, a taxa da depressão subirá para 5,7% da carga total de doenças; e em
cerca de 20% dos casos a depressão seguirá um curso crónico, sem remissão (id.,
ibid.: 69).
Em Portugal, os dados do 4.º Inquérito Nacional de Saúde permitem-nos observar
que, no conjunto das doenças crónicas, a depressão ocupa a terceira posição
(INE e INSA, 2009), representando 8,3% no Continente, 5,4% na Região Autónoma
dos Açores e 4,1% na Região Autónoma da Madeira. Neste contexto, a OMS (2002)
tem vindo a alertar para os pesados encargos que as perturbações depressivas
impõem à sociedade, em termos de sofrimento e incapacidade individual, de
disfunção familiar e de diminuição da produtividade no trabalho. Associado à
depressão crónica está o grande absentismo profissional que a doença provoca.
Consequentemente, as ausências ao trabalho (intermitentes ou prolongadas)
conduzem a uma diminuição do rendimento, à redução da produtividade e, muitas
vezes, a despedimentos ou reformas antecipadas (Costa e Moniz, 2007).
Face ao número crescente de casos de doenças psiquiátricas, temos vindo a
assistir à criação de recursos e de respostas às necessidades colocadas, quer
ao nível do atendimento e cuidado psiquiátrico quer ao nível da reabilitação e
inserção social. As políticas públicas no domínio da doença mental têm vindo a
orientar-se para um modelo organizacional dos serviços assente na comunidade
(MS e DGS, 2004). A desinstitucionalização psiquiátrica, tentada sucessivamente
desde o final dos anos 60 seguindo as tendências internacionais, por obstáculos
variados, só a um ritmo muito lento tem vindo a ser implementada e com graves
insuficiências e lacunas no atendimento das necessidades globais desta
população (Alves e Silva, 2004; Hespanha, 2010). No Plano Nacional da Saúde
Mental da Coordenação Nacional para a Saúde Mental (2008), prevê-se a criação
de serviços descentralizados mais próximos das populações. No entanto, o
contexto atual de crise generalizada trará certamente novas limitações a este
setor, sucessivamente negligenciado, vulnerabilizando ainda mais estas
populações com doenças mentais crónicas.
O aumento das doenças crónicas, nomeadamente das doenças mentais crónicas, bem
como as mudanças operadas no domínio das respostas à doença mental, coloca-nos
perante a necessidade de avaliar os seus impactos na vida das pessoas, dos
grupos e das organizações sociais, mas também de compreender as vivências, as
alterações e ajustamentos que exige ao nível da identidade e dos modos de vida.
Com esta pesquisa procurámos compreender como é que os próprios sujeitos que
vivenciam a depressão a entendem, a explicam e interpretam, a introduzem no seu
quotidiano e lidam com as suas consequências e impactos nos vários níveis e
contextos onde a sua vida decorre. Neste artigo exploraremos as conceções e
representações sobre a sua própria doença, evidenciando as tensões entre o
passado, vivido como o tempo normal, e o presente, onde se processa a
experimentação subjetiva do novo eu e se reconstrói a identidade atual.
Os significados sociais associados à doença mental, bem como à depressão, são
construções socioculturais espaciotemporalmente determinadas (Kleinman, 1981;
Foucault, 1989). Desde os tempos mais remotos e em diferentes culturas, existem
descrições sobre a depressão (Vallejo-Nágera, 2006). Trata-se de descrições
próximas das conhecidas atualmente, ainda que expressas em linguagem diferente
e sujeitas a interpretações distintas (religiosas ou mágicas, ou de tipo
científico oficial), de acordo com os critérios da época.
O modelo biomédico da doença lança os fundamentos sobre os quais assenta a
medicina ocidental moderna e determina grandemente a configuração dos sistemas
de cuidados existentes. Segundo Foucault (2007), o biopoder é uma teia de
normas e regras de domesticação dos corpos, disciplina que invade e penetra
todas as dimensões da vida. A doença é definida objetivamente, com base em
sintomas identificáveis que se enquadram em classificações, cujas causas
assentam essencialmente em fatores orgânicos.
Se existe um consenso relativo sobre as funções físicas dos sistemas físicos o
mesmo não se verifica em relação aos sistemas implicados no funcionamento
psicológico. A definição primária de doença física assenta, essencialmente, em
disfunções no corpo, apesar de poder ser relacionada com fatores sociais e
culturais. Já a doença mental, tal como Horwitz e Scheid (1999) acentuam,
depende não apenas da disfunção mas simultaneamente da consideração da
desadequação social e cultural nela implicada. É aqui que reside, desde logo, o
interesse da abordagem sociológica.
Por referência às ciências sociais sublinhamos a importância dos domínios
cultural e social, e acentuamos a importância de tomar como objeto de análise a
perspetiva dos sujeitos que lidam, eles próprios, com a atribuição e vivência
de doença mental, com todas as consequências que terá nas suas vidas
quotidianas e na sua identidade, tal como Alves (2011) propõe. É pois esta
constatação que este estudo exploratório tentou evidenciar.
A depressão enquanto doença crónica e enquanto desvio social
Analisar a doença mental a partir da perspetiva das doenças designadas
crónicas coloca-nos perante o desafio de analisar as circunstâncias sociais
implícitas na vivência da doença e não apenas o estudo das causas. A análise
remete-nos para a compreensão da ação social e da experiência com a depressão.
Esta compreensão da depressão enquanto doença crónica configura-se como uma
realidade em que intervêm múltiplos níveis de análise (Strauss, 1975; Alves,
2011; Mendes, 2005).
Como refere Strauss (1978 cit. em Mendes, 2005: 46):
os doentes no seu trabalho de gestão da doença [ ] têm também que gerir as
consequências da doença sobre a sua organização de vida, as suas relações com
os outros e até certo ponto a sua relação consigo próprios. Assim, o doente
tenta sempre preservar as suas inserções habituais nas diferentes arenas
sociais, isto é, ele tenta sempre manter a sua intervenção como ator da
construção negociada da doença com novos atores, de forma a fazer face ao
impacto desorganizador das doenças crónicas.
Face a estas doenças, a manutenção das obrigações sociais assume especial
relevo, já que a doença ao prolongar-se, não pode continuar a ser encarada como
uma suspensão temporária do desempenho dos papéis sociais, como acontece face
às doenças agudas.
Este tipo de doenças têm vindo a desafiar os sistemas de cuidados disponíveis
para com elas lidar, no sentido de minimizar, e de gerir também, os impactos na
vida quotidiana. Se, por um lado, procuram controlar a evolução da doença, os
seus sintomas e crises, por outro, não podem descurar uma intervenção social
com o objetivo de manter alguma qualidade de vida. Aqui o doente, tal como
Parsons (1951) analisou, assume um papel mais ativo, pois dele se exige que
reconheça os primeiros sinais da crise e procure ajuda. Também se espera que
decida em conformidade e com eficácia, nomeadamente adotando comportamentos que
previnam o aparecimento de sintomas ou que os consigam gerir de tal forma que
estes não dominem a vida do indivíduo, impedindo a vida de acontecer. Só esta
aprendizagem lhe permitirá tomar decisões e, consequentemente, organizar a sua
vida face às exigências da doença, ou seja, só isso lhe permitirá gerir a
doença (Mendes, 2005: 44). É este o desafio lançado àqueles que sofrem de
doenças crónicas, como é o caso da depressão.
No entanto, quando falamos em doenças mentais crónicas, há especificidades que
não podemos ignorar, pois socialmente os impactos de uma doença mental são bem
diferentes dos de uma doença física (Miles, 1982; Alves, 2011). Neste contexto,
e tentando compreender a experiência subjetiva do indivíduo em relação à sua
própria doença, correlacionando-a com a experiência objetiva (por referência ao
diagnóstico psiquiátrico), seus impactos e implicações na reconstrução de si e
da própria situação, são de referência obrigatória os contributos da perspetiva
interacionista de Goffman (2003 [1961]; 1982 [1963]), com os seus conceitos de
identidade deteriorada, carreira de doente mental e cerimónia de
degradação do status. O rótulo psiquiátrico de uma pessoa só se torna
significativo na medida em que essa interpretação altera o seu destino social
uma alteração que se torna fundamental, sobretudo quando é confrontada com o
diagnóstico psiquiátrico de doença mental crónica e passa pela hospitalização.
A angústia resultante dessa perceção de si mesmo e as estratégias usadas para a
reduzir variam de acordo com a cultura e a pessoa. A atribuição de um
diagnóstico psiquiátrico sujeita o indivíduo a um conjunto complexo de
experiências de mortificação e reconstrução identitária.
O efeito da temporalidade na trajetória identitária, difícil de observar e
operacionalizar mas fundamental para compreender a sua importância no controlo
dos indivíduos, na medida em que reflete as imposições culturais, tal como Fox
(1999) destacou, contribuirá para a compreensão dos impactos da doença na vida
quotidiana. Para Bury (2000 [1997]) o aparecimento da doença, especialmente a
que é evidentemente incapacitante, desmembra o tecido social e cultural,
expondo o indivíduo às ameaças de self-identity e à perda de controlo,
potencialmente prejudicial. O termo de biographicaldisruption foi cunhado para
dar expressão a esses processos (id., ibid.). Desta forma, tratar a experiência
subjetiva da doença (illness) como um evento de disrupção permite que o seu
significado se situe num contexto temporal e na trajetória de vida. O
aparecimento dos sintomas, bem como as mudanças no corpo e na mente, os
ajustamentos ou desequilíbrios sociais que se lhes seguem, envolvem
simultaneamente uma alteração na situação de vida da pessoa e nas suas relações
sociais, integrando a doença nos outros tempos da vida quotidiana, que se
seguem ao desencadear da crise: o trabalho, as sociabilidades, a família, a
cultura.
Metodologia
Na presente pesquisa privilegiámos uma abordagem das racionalidades leigas
enquanto lugar de produção e de reprodução de saberes que visam ordenar o mundo
e dar-lhe sentidos, numa ação reflexiva que combina conhecimentos provenientes
de várias fontes sejam da ciência, sejam da tradição (Alves, 2011). No campo
da saúde, apesar da centralidade que a medicina ocupa e da sua recusa em
partilhar o campo com outros saberes, nomeadamente os leigos, esses saberes
coexistem, enquanto modos de produção de sentido (que conferem significados,
explicações, estratégias de tratamento e cura, etc.) e de orientação das ações
(Lopes, 2003; Carapinheiro, 2007; Silva, 2008, Alves, 2011).
Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa que privilegia o ponto de vista
do nativo de Geertz (1993) e se apoia no argumento de pluralidade de habitus e
de contextos de ação (Lahire, 2005). Trata-se de um estudo exploratório, onde
se destaca o papel ativo do sujeito na construção das suas vivências em torno
da depressão crónica. O conhecimento detalhado da pessoa e a sua experiência
com a doença permite o acesso aos sentidos e aos significados que o sofrimento
e o diagnóstico psiquiátrico trazem ao próprio doente. Foram realizadas
entrevistas semiestruturadas, em profundidade, com o objetivode ter acesso a
essa vivência com depressão crónica. O estudo e interpretação da informação
recolhida foram efetuados tendo por referência a análise de conteúdo (Bardin,
1979), partindo das dimensões criadas para a abordagem empírica e estando
abertos à riqueza e complexidade que esta realidade nos pudesse revelar.
Os sujeitos entrevistados
Neste estudo foram cumpridos os requisitos formais de consentimento informado,
confidencialidade e anonimato dos participantes, tendo sido pedida autorização
formal para a realização das entrevistas que se iniciaram em maio de 2010,
tendo passado pelos procedimentos formais que um projeto de investigação deste
tipo exige.
Entrevistámos dez homens e mulheres com diagnóstico psiquiátrico de depressão
crónica, integrados na comunidade e sinalizados e acompanhados em consulta de
Psiquiatria e Saúde Mental no ano de 2010, que se apresentaram disponíveis e
aceitaram colaborar. Trata-se de uma amostra não representativa do ponto de
vista estatístico, mas que pode ser considerada representativa do ponto de
vista sociológico em profundidade, e que procura identificar tipos de situações
e compreender as relações sociais que nelas se estabelecem (Lima, 1987).
Resultados
Os discursos leigos sobre a depressão crónica
Os discursos das pessoas com depressão crónica entrevistadas dão-nos a ver
depressões em vez de uma classificação homogénea e claramente definida. Em
termos gerais classificam-na ora como doença, ora como não doença. Estas
conceções enraízam-se nos percursos de sofrimento vivenciados e narrados,
relacionando-se intimamente com conceções culturalmente fundadas sobre o que
sentiam/sentem, os impactos na vida quotidiana, bem como com os itinerários
terapêuticos efetuados (estes não serão alvo de análise neste artigo).
O contacto com a psiquiatria permite integrar, numa explicação médica, um
conjunto de fatores que desculpabilizam o individuo de comportamentos
socialmente avaliados como negativos o que o senso comum classifica como
preguiça aparece interpretado como sinal de doença, por exemplo. Por um lado,
esta moldura desculpabiliza e desresponsabiliza o indivíduo e tem reflexos
positivos na identidade. Por outro lado é instaurado o rótulo biomédico de
doente mental que desencadeia processos estigmatizantes com consequências
identitárias e sociais devastadoras. Estes são recusados, o que sem dúvida
instaura uma dualidade ambivalente que conduz à distinção entre ter uma
depressão e uma doença mental. Nos discursos, a depressão vista como sofrimento
mental não é considerada uma verdadeira doença mental. Esta depressão é algo
mais leve e menos carregado simbolicamente.
As conceções
Não encontrámos nesta pesquisa conceções claramente definidas e homogéneas.
Pelo contrário, deparámos com uma pluralidade de conceções intra e
intersujeitos entrevistados. Muito poucos são os que se referem ao seu
sofrimento com sendo uma depressão, e mesmo nestes casos referem-se utilizando
expressões como e agora quando eu estou assim com a tal depressão,
descolando-a da sua identidade pessoal. A maioria refere não saber o seu
diagnóstico ou que, quando lhe falaram em depressão, não sabiam o que era.
Descrevem o seu sofrimento por referência ao que sentiram/sentem, adotando
denominações mais ligadas a uma conceção cultural e contextual, como por
exemplo: esgotamento, vontade de morrer, stresse, fraqueza, nervoso
ou dos nervos, desequilíbrio no ritmo do sono, etc.
A conceção subjacente à ideia de depressão enquanto doença (muitas vezes porque
diagnosticada pelo médico) inclui o sofrimento vivido numa perceção que acentua
a gravidade da situação, algo ameaçador da vida em sociedade e da identidade.
Aqui o sofrimento é entendido, geralmente, como não tendo cura (sendo crónica),
e causa do mal-estar (no sentido oposto ao de bem-estar e felicidade). Este
mal-estar, pela sua intensidade e duração, refere-se essencialmente aos afetos
(negatividade do que se sente) e às suas consequências: rejeição/desilusão
familiar, vergonha, isolamento social, medo do futuro, entre outras.
Nesta conceção enquanto doença, a depressão é vista como incapacitante, pois
considera-se que a pessoa fica enfraquecida, sem forças, lenta, cansada, com as
suas capacidades de raciocínio e decisão diminuídas, com as suas possibilidades
de vida comprometidas, características que se situam entre a doença (enquanto
algo exterior) e a vida real. Metaforicamente, falam no buraco em que a
pessoa entra e na ausência de luz no fundo do túnel.
Quando se referem ao antes do surgimento da doença falam em quando eu era
uma pessoa normal. Este critério de normalidade refere-se sobretudo às
capacidades relacionadas com o desempenho dos papéis sociais em adultos
(trabalhador/a, pai/mãe, filho/filha, irmão/irmã, amigo/a, etc.).
Para mim a depressão que é aquilo que eu sinto: é uma tristeza uma tristeza
que não sai é crónica [ ] falando por mim eu era uma pessoa muito alegre [ ]
Os meus filhos não se lembram ou por outra não conheceram a outra mãe que
têm [Fem04, 49 anos, 6.º ano, reformada]
O maior receio que apresentam é o de poderem vir a tornar-se malucas/os, o que
sem dúvida reflete o estigma social associado à verdadeira doença mental.
Este receio manifesta-se no medo de ficar sem memória (por referência ao
cérebro e à cabeça, estruturante dos discursos em torno da doença mental em
geral) e de perder a noção da realidade, numa explicação que simultaneamente
afasta o rótulo de doença mental para o seu caso (que é sentido como diferente
desta), e afirma a natureza mais leve da depressão que se vive e que, apesar
de crónica e incurável, aparece nos discursos muito mais relacionada com a
vivência e os afetos que resultam de reações a situações de vida, e não como
algo endógeno, biológico, interno, constitucional.
Não sei [ ] Às doenças de nervos [ ] Há umas melhores e outras piores [ ] É
intermédia. Porque há medicação, mas não há cura. [Masc09, 60 anos, 1.º ciclo,
empregado]
Estamos em presença de duas perceções bem diferenciadas de doença mental: a que
aparece relacionada com o organismo, com o cérebro, com os nervos, e uma
perturbação do tipo psicossocial, relacional, ligada aos acontecimentos de vida
e à personalidade do indivíduo por referência à relação entre o indivíduo e a
sociedade.
Está relacionada com o pensamento. Antes achava que tinha a ver com o cérebro.
Eram aquelas pessoas que não estavam boas da cabeça, estavam doidas. Associava
às camisas de força e aquelas intuições [ ] aos hospitais [Mas07, 27 anos,
ensino superior, desempregado]
Esta pluralidade conceptual e complexidade explicativa da situação aparecem
também associadas ao sentimento de incompreensão face à sua situação. Sentem-se
incompreendidos e incapazes de transmitirem o que sentem ou vivem àqueles que
os rodeiam nas suas várias áreas de vida. Esse sentimento aparece refletido na
observação das atitudes dos outros face à situação referem que as pessoas
estranham e não sabem como agir em relação a eles. Por vezes não há
comportamentos exteriores denunciadores da doença, que aparece mascarada ou
encoberta, de modo que os outros até podem perceber algo estranho, mas não
reconhecível enquanto depressão. O que leva a que muitos não reconheçam a
doença ao doente, não os compreendam, desvalorizem o seu sofrimento atribuindo-
o a falhas de caráter, de personalidade, culturalmente reprováveis e
depreciativas da pessoa. Por um lado, recusam o rótulo pelas consequências na
identidade social e, por outro lado, reclamam-no enquanto condição de
compreensão da sua situação, explicada pela doença e não pela falta de
competência social e cultural.
O estado de alma podemos dizer que é a emoção [ ] O que é que eu sinto, ou o
que é que é estar deprimido Por exemplo, eu tenho muitas depressões. Eu tenho
uma depressão que é do tipo mascarada. Significa que não aparento estar
deprimida, mas estou Podem-me achar estranha mas não sabem que eu estou
deprimida [Fem02, 44 anos, ensino superior, empregada]
Encontrámos também a referência ao sofrimento que se relaciona com a forma de
ser da pessoa, com o feitio, e que condiciona a sua vivência quotidiana,
aparecendo nos discursos como sendo ansiedade, fraqueza, tristeza crónica,
nervos, pensar muito, medos variados e incapacitantes da ação. Distinta contudo
da verdadeira doença.
Penso e pergunto-me a mim mesma: Porque raio eu tenho este feitio porque é
que eu sou assim [ ] Eu é que penso que é o feitio mas é a maneira de ser da
pessoa [ ] mas não sei dar explicação para isso [ ] Eu gostava muito de ser de
outra maneira não queria ser assim como sou [Fem03, 49 anos, 6.º ano,
reformada]
O desinteresse generalizado aparece nos discursos como explicativo do descuido
pela imagem pessoal (aparência, peso, etc.), do desinteresse pelo cuidado das
atividades de casa, etc. A tristeza constante que referem sentir, manifesta no
choro sem motivo, na lentificação ou agitação motora e psicológica, no
desinteresse social e relacional, na alteração do ritmo do sono (ou não
conseguem dormir ou dormem todo o tempo), permite que se instale um sentimento
de incapacidade generalizado. As pessoas deixam de ter uma vida normal, no
sentido do desempenho dos papéis sociais e das funções que lhes estavam
atribuídas. O sentimento de incapacidade que daí resulta reforça o imobilismo
da ação. Refugiam-se do mundo, de onde referem muitas vezes ter vontade de
desaparecer quer no sentido de deixar de existir, quer no sentido de começar
de novo, com outra vida e outras oportunidades para vencer o sofrimento.
Causalidade da depressão
O domínio da causalidade do adoecer, do ponto de vista dos discursos leigos,
tem vindo a ser estudado no campo das ciências sociais e os que encontramos
neste trabalho deles não se afastam: elementos do domínio do sobrenatural, do
social, do natural e do próprio doente (Nunes, 1997; Alves, 2011).
Como é que os sujeitos explicam as razões do surgimento do seu sofrimento? Os
sistemas explicativos causais encontrados não são monolíticos nem exclusivos
muitas vezes faz-se uso de vários elementos, combinando-os numa explicação
singular dos acontecimentos e das trajetórias de cada um. É precisamente esse
percurso entre elementos que nos deixa perceber melhor as conceções e o
quadro explicativo sobre cada sofrimento relatado.
Constatamos que neste grupo de entrevistados a depressão ou o sofrimento que
relatam são explicados por relação com uma situação ou a um acontecimento
doloroso. Esta experiência humana é provocada, na maior parte dos discursos
analisados, pelas realidades quotidianas: as inevitáveis infelicidades da
existência.
Apesar de termos encontrado alguns discursos em que o desconhecimento das
causas é afirmado, ao longo das entrevistas pudemos perceber a necessidade que
sentem de encontrar uma explicação para o seu caso, interrogando as razões que
poderão dar sentido ao sofrimento. De um modo geral, encontrámos os seguintes
elementos causais explicativos do surgimento do sofrimento vivenciado:
elementos hereditários, sociais, económicos, culturais e elementos
característicos da personalidade individual.
Nos elementos hereditários, por exemplo, são referidas as situações de
sofrimentos semelhantes em familiares próximos em quem identificam traços da
personalidade, acentuando a herança cultural (de formas de ser, de se
comportar, de se relacionar) ou orgânicos (o sangue de família como forma de
transmissão do sofrimento). Quer num caso quer no outro este sistema de
causalidade alivia o indivíduo da responsabilização pelo seu sofrimento.
Exatamente, a minha depressão é hereditária. É por isso que ela começa tão
jovem e é claro que também é formada por um ambiente familiar triste, pesado,
[ ] um pai que está sempre doente. [ ] [Fem02, 44 anos, ensino superior,
empregada]
Os elementos que colocam em evidência a relação do sujeito com a sociedade e o
habitus construído para explicar o sofrimento, e que neste trabalho designamos
como sociais, são variados. Maioritariamente são referidos os relacionamentos
(inconsistência da personalidade dos progenitores, maus-tratos psicológicos
entre cônjuges, sobrecarga familiar, etc.). Ao nível das relações interpessoais
acentuam a instabilidade das relações afetivas (o desgosto e deceção, situações
de traição pelos amigos), que muitas vezes se transforma em incapacidade
relacional. É com base nestas causalidades que os sujeitos entrevistados
remetem o seu sofrimento para um estatuto de não doença, justificando-o com
base em situações e acontecimentos de vida normais (no sentido em que é comum
ao longo do ciclo de vida confrontar-se com eles), geralmente problemáticos.
Expressões como esgotamento, nervos e stresse são comuns para definir o
sofrimento de que padecem.
Sim ah dizem a minha mãe tenta fazer algo o meu pai é uma pessoa muito
distante e foi sempre muito frio desde eu em pequeno [ ] Frio é não
transmitir sentimentos e nunca me valorizou [Masc07, 27 anos, ensino superior,
desempregado]
As explicações causais que assentam em fatores económicos acentuam situações
variadas que se relacionam com o endividamento e a incapacidade de consumir de
acordo com os padrões sociais (a sociedade de consumo em que vivemos que leva
as pessoas a sentir necessidades que não tinham, instalando-se o vazio e a
angústia quando não podem satisfazê-las).
[ ] O meu problema partiu, vamos considerar foi um fio podre que surgiu na
nossa vida foi um empenhamento monetário de uma situação que perdi o
controlo isto ficou mesmo descontrolado [ ] [Mas08, 49 anos, 9.º ano,
empregado]
Os elementos situados na própria pessoa ou característicos da personalidade
individual são evocados sobretudo para encontrar sentidos para o sofrimento e
explicar a sua instalação/cronicidade. A ideia de que o feitio causa ou
favorece este tipo de sofrimento fica patente em alguns discursos. É ele que
torna umas pessoas mais fracas do que outras e suscetíveis de virem a sofrer
psicologicamente (mais do que socialmente e culturalmente esperado) com os
acontecimentos da vida quotidiana.
[ ] Penso e pergunto-me a mim mesma: Porque raio eu tenho este feitio porque
é que eu sou assim [ ] Eu é que penso que é o feitio mas é a maneira de ser
da pessoa. É como a pessoa é não se é assim porque quer [ ] [Fem03, 49 anos,
6.º ano, reformada]
O antes e o depois da doença: tensões entre a normalidade e a experiência
subjetiva do novo eu
As conceções sobre a sua situação, resultantes da negociação entre os sujeitos,
as instituições, os profissionais e a sociedade onde vivem, permitem-nos ter
acesso às tensões entre a situação de vida passada e a experimentação subjetiva
do novo eu que se constrói em torno da situação de sofrimento vivenciada.
Esta vivência do sofrimento e a atribuição do diagnóstico provocam impactos
sociais com consequências nos percursos de vida que se estendem à identidade.
As repercussões na evolução da doença e no seu enfrentamento são uma realidade.
Sobretudo, ao nível das redes sociais que diminuem, resultado do isolamento
social, mas também ao nível da grande apreensão e medo de encarar o futuro.
As mudanças resultantes da doença são complexas e multidimensionais, convocando
na sua explicitação os níveis familiar, dos amigos, trabalho, lazer, saúde
física e identidade.
Ao nível dos relacionamentos interpessoais constatam a diminuição das redes de
sociabilidade resultantes do isolamento a que se submetem, ora porque ficam
desconfiados das palavras que são ditas e dos atos que são praticados pelos
outros, ora porque os protegem do seu sofrimento e da sua negatividade. Neste
contexto, o surgimento da depressão relega a pessoa para o isolamento e
encerramento sobre si próprio (onde encontra solidão, sossego, quietude)
recusando e recusando-se o convívio social. A desmotivação estende-se às
atividades de lazer e tempos livres que abandonaram.
A falta de compreensão que dizem sentir é atribuída ao facto de os próprios não
conseguirem explicar o que sentem e do que sofrem, sendo muitas vezes mal
interpretados os sinais que apresentam. Por analogia com a doença física sentem
que o seu sofrimento não é digno de crédito, pois não o podem provar ou
demonstrar fisicamente. Muitas vezes sentem até que a família os ignora ou atua
de propósito para agravar os sinais de sofrimento, de tal forma é o descrédito
que dizem sentir. O abandono a que se sentem votados marca os discursos. Este
descrédito e abandono são referidos como agravante do sofrimento que vivenciam.
A necessidade de compreensão é explicitada na medida em que desejariam ter
alguém em quem pudessem confiar, com quem desabafar, conversar.
E por vezes é uma doença muito chata porque por vezes as pessoas não
acreditam porque como não é uma doença que se veja não se sabe dar o valor
àquilo que a gente está a padecer [ Fem03, 49 anos, 6.º ano, reformada]
[ ] convidar-me para sair será que eu faço bem, ou será que faço mal em ir
Quando [ ] não me convidam eu penso: não me convidaram porque a culpa é minha
eu é que estou assim [ ] é o tal ciclo vicioso [ ] [Mas07, 27 anos, ensino
superior, desempregado]
[ ] Ser compreendido e ter alguém com quem pudesse falar, conversar desabafar
alguém que pudesse confiar Tinha tinha muita gente mas agora não tenho
ninguém [ ] [Masc01, 64 anos, 6.º ano, empregado]
Poucos são os que se sentem apoiados pela família nuclear. Aí referem a
importância do carinho que recebem, bem como da atenção de que são alvo, que
ajuda a esquecer o sofrimento e a recuperar. Mas é no seio da família que
surgem, em primeiro lugar, as narrativas sobre situações de discriminação e de
estigmatização, estendendo-se, de seguida, à própria sociedade.
[ ] quando eu me queixo à minha mulher ele responde-me logo que eu sou
maluco que eu não tenho nada e que eu tenho que enfrentar as coisas como elas
são e deixar-me destas coisas. [Masc09, 60 anos, 1.º ciclo, empregado]
São também referidas as relações do casal. A falta de paciência para um
relacionamento mais íntimo traduz-se num discurso sobre a indiferença afetiva e
o abandono. O impacto do sofrimento nos filhos é referido como muito
angustiante.
Uma das consequências mais visíveis deste sofrimento opera-se ao nível laboral
ou de empregabilidade. Neste contexto a incapacidade para o trabalho, que dizem
sentir, decorre do sofrimento em si, mas também da medicação. Os que se
encontram de baixa médica (a receber subsídio de doença) referem sentir-se
incapazes de trabalhar pelo facto de isso exigir competências de concentração,
memória e rotina, áreas onde apresentam grandes dificuldades. Também é referida
a pressão de que se sentem alvo ao nível das relações laborais, sobretudo nos
casos em que há conhecimento da situação. Em termos laborais sentem-se
discriminados e marginalizados, pois o estereótipo de que não são válidos para
o trabalho, resultado da doença, acaba por se manifestar e criar situações que
são vividas como injustas. Consequentemente, desenvolvem-se estratégias de
ocultação e encobrimento da doença ou do sofrimento, de modo a que se evitem
processos de estigmatização que são vividos com grande angústia e violência
simbólica, tal como Goffman (1982 [1963]) já tinha analisado. Todos estes
fatores são vistos como potenciais promotores de uma recaída. Falam em
diminuição da produtividade e, simultaneamente, em alívio por não terem que ir
trabalhar.
Digamos que não reúno os requisitos [ ] sinto que não estou apto eu neste
momento não me sinto capaz de desempenhar as minhas funções [ ] tenho muito
medo de não conseguir desempenhar as tarefas [Masc08, 49 anos, 9.ºano,
empregado]
A reforma por invalidez acaba por ser a solução encontrada institucionalmente
para a situação de alguns dos entrevistados, com todas as consequências sociais
e identitárias que acarreta.
E a partir daí nunca mais deixei de sentir os problemas e até no próprio
trabalho começaram as discriminações [ ] atiraram-me abaixo, fizeram-me
reconversões na carreira [Masc09, 60 anos, 4.º ano, empregado]
É ao nível da identidade e do autoconceito que os discursos centram os
impactos, num quadro onde se reequacionam os sentidos da vida e se expõe a
falta de esperança em que tudo volte a ser como era antes do surgimento da
doença, destacando o efeito da temporalidade e a consequente mudança
biográfica. Observámos o sentimento generalizado de que a pessoa deixou de ser
ela própria, não se reconhece mais naquilo que agora é, sente vergonha do que é
e autoperceciona-se como não tendo futuro. Os discursos revelam
sistematicamente desesperança, desistência, ideias de suicídio. Esta
destruição identitária e consequente mortificação do eu resulta do
sentimento de não ter valor nem utilidade social sentem-se desvalorizados
pelos outros e, consequentemente, incarnam e reproduzem a inutilidade,
sentindo-se eles próprios inúteis e sem valor, num ciclo que reproduz a
situação.
[ ] e depois é como autocastigar-me é andar sempre com aqueles pensamentos:
não vales nada ou não tens valor sentir-me inútil pronto [Mas07, 27 anos,
ensino superior, desempregado]
[ ] tenho medo de ficar maluca, não saber aquilo que diz ou que faz [Fem03, 49
anos, 6.º ano, reformada]
[ ] a atitude que eu tenho até agora é de ocultar, não dar a conhecer, para não
ser estigmatizada [Fem02, 44 anos, ensino superior, empregada]
É reconhecida a incapacidade que a doença introduz na pessoa porque não
consigo encarar o dia, não consigo encarar a vida. Encaram o futuro com grande
apreensão e descrença, pois o sofrimento continua, os medicamentos não curam e
sentem que nada mudará. A possibilidade de virem a ter vidas normais é posta
de parte, o que causa grande sofrimento e reforça a situação que vivenciam.
O medo do abandono pelos que ainda estão próximos, ou de ficar verdadeiramente
maluco, conduz ao imobilismo, à inação, num círculo que se encerra novamente
sobre si próprio, sem esperança no futuro: deitar-se na cama e ficar ali até
morrer, sem comer.
Ansiedade, grande descontrolo Tive duas tentativas de suicídio. [Mas08, 49
anos, 9.º ano, empregado]
A família dela também não aparece toda a gente sempre me pôs de parte devo
sofrer de um mal muito grande que as pessoas têm medo de se aproximarem e
contagiarem-se [Mas10, 44 anos, 9.º ano, reformado]
As representações de si e da situação refletem a temporalidade, a conceção da
doença e do sofrimento em termos das suas dimensões históricas e das diferentes
fases do curso da vida do indivíduo, ou biografia. Com a temporalidade
procurámos os significados simbólicos do sofrimento e as expetativas dos
entrevistados face ao futuro, construídas a partir do impacto do diagnóstico
psiquiátrico de doença mental na experiência com a doença. Dedicámos especial
atenção aos seguintes tempos e momentos-chave: antes do surgimento do
sofrimento, o momento do surgimento do sofrimento, o de diagnóstico, sua
evolução posterior e, por fim, a sua projeção no futuro.
O surgimento dos sintomas e o contacto com o diagnóstico psiquiátrico são
momentos decisivos para o processo de disrupção biográfica que desencadeia,
expondo o indivíduo à perda de controlo e à mortificação do eu, desencadeando
alterações na vida da pessoa e nas suas relações sociais. Essas alterações
conduzem ao gradual desaparecimento da pessoa tal como se entendia antes da
doença e à manifestação das limitações com que se depara no desempenho das
tarefas e papéis sociais. O isolamento e o medo de ficar louco e de me tornar
um peso é uma estratégia para lidar com a situação. Este contexto de angústia
e de desesperança conduzem, em casos limite, ao desejo de acabar com a própria
vida suicídio.
Este percurso identitário de passagem de pessoa a doente mental pode ser
realizado através de uma série de estádios interligados. Cada estádio tende a
provocar um brusco declínio no status de adulto livre. Logo que a pessoa é
vista como tendo perdido a razão, a sua imagem anterior dilui-se. Deste modo,
os indivíduos são despidos e desapossados das suas identidades anteriores, e
uma nova identidade é construída, o que Goffman (1982 [1963]) denominou
cerimónia de degradação do status. No momento em que se percebe a existência
da doença mental e esta é entendida enquanto desvio, reproduz-se, na ação
coletiva e nos processos sociais desencadeados, o entendimento pelo qual um
indivíduo ou um grupo é considerado desviante pelos demais (Rogers e Pilgrim,
1999).
A média de tempo em acompanhamento na especialidade de psiquiatria dos sujeitos
entrevistados (21 anos para as mulheres e 10 anos no caso dos homens) e o longo
tempo que referem viver com este sofrimento condicionam a ação, na medida em
que o associam ao sofrimento que vai e vem, mas que não passa, impondo-se
uma (re)construção de si em que se destaca a fixação do estatuto de doente para
toda a vida, uma vez que a psiquiatria e a medicação tratam, mas não curam
A persistência do sofrimento durante toda a vida conduz à necessidade de gerir
não apenas a doença, sua evolução e suas manifestações, mas também os
sentimentos que desencadeia medo que esta venha a piorar e a transformar-se
em loucura, medo de perder autonomia e liberdade e ficar dependente.
Esta gestão quotidiana da doença absorve o indivíduo e cristaliza-o no presente
sem futuro e na vivência nostálgica da pessoa que já foi.
[ ] É não haver futuro, não sinto perspetivas de futuro, não ter projetos, as
pessoas da minha idade trabalham, casaram, tiveram filhos. E eu [Fem02, 44
anos, ensino superior, empregada]
Eu tenho medo de ficar completamente dependente de tão nova [ ] Sei lá a
minha cabeça eu tenho medo ainda mais do que com o corpo, tenho medo que a
minha cabeça vá daqui, deste lado, para o outro [Fem04, 49 anos, 6.ª classe,
reformada]
Poucos são os sujeitos que referem uma perspetiva otimista, assente na
confiança que depositam nos profissionais por quem são acompanhados ou de
evolução da ciência para encontrar outras respostas para o sofrimento mental.
No entanto, a expetativa de construir relações afetivas estáveis é entendida
como chave para o alívio do sofrimento.
Síntese conclusiva
Esta pesquisa contribui para a compreensão dos significados associados à
vivência com a depressão crónica, evidenciando a sua construção social entre os
sujeitos e as estruturas sociais, e revela a complexidade dos saberes que
enformam estas construções e experiências, que se manifestam reflexivamente ao
nível das conceções, interpretações e na ação prática quotidiana. Neste
sentido, enriquece os trabalhos prévios na medida em que os seus resultados
aprofundam a compreensão da experiência com depressão crónica do ponto de vista
dos sujeitos que a vivenciam no quotidiano. Trata-se de uma pesquisa inovadora,
em particular no contexto português, que vem apoiar e aprofundar algumas
dimensões de trabalhos sociológicos anteriores sobre doença mental (Alves e
Silva 2002; Amaro, 2005; Alves, 2011; 2012).
A análise dos discursos suscitados pela entrevista aos participantes deste
estudo sobre o domínio da vivência com depressão crónica e seus impactos na
vida quotidiana revela e expõe as conceções, complexas e plurais, que se
constroem entre as explicações dos profissionais, o habitus, a reação dos
outros e a agência individual. A reflexividade que orienta a ação quotidiana em
torno da necessidade de lidar com o sofrimento mental, que vai e vem como se
fosse um ioiô, em movimentos permanentes, mas nunca iguais, está cheia de
ambiguidades e dissonâncias que se articulam com os valores, as normas, a
cultura, que moldam o social e se impõem no quotidiano, no tracejar dos
percursos terapêuticos e na permanente reconstrução de si.
Por um lado, o sofrimento que vivenciam é visto pelos próprios enquanto algo
que não é uma verdadeira doença mental. Essa classificação está reservada para
aqueles que verdadeiramente perderam a razão e a consciência da realidade, e
são destituídos social e culturalmente. A depressão enquanto doença mental
desencadeia poderosos processos de mortificação do eu e reconstrução
biográfica, tal como Goffman (2003 [1961]) já tinha evidenciado. Afastam-se
dela, dado o estigma e o seu poder avassalador de destruição identitária, o que
já tinha sido observado em outros estudos sobre a realidade portuguesa (Alves,
2011).
Partindo de sujeitos diagnosticados com depressão, esta pesquisa não se
circunscreve à aparente homogeneização que a classificação biomédica introduz,
nem à sua mera relação com os fatores sociais que nela estão implicados. Os
nossos resultados evidenciam não apenas os fatores sociais convocados na
carreira do sujeito rotulado, mas também os processos plurais subjacentes à
vivência com a depressão crónica. Neste sentido, foram identificados os
processos complexos subjacentes ao acesso ao papel de doente, às suas
vantagens, tal como Parsons (1951) enaltecera, ou à sua recusa pelas
desvantagens implicadas, nomeadamente os seus impactos identitários,
resultantes da gravidade da situação e do seu caráter estigmatizante, tal como
Freidson (1984 [1970]) já havia assinalado, introduzindo a noção de papéis de
doente no plural, para chamar a atenção para a diversidade de condições e
vivências. Pudemos compreender que a vivência com depressão está impregnada de
complexidades que urge compreender. Vimos que, apesar de os sujeitos
entrevistados nunca se identificarem como doentes mentais, e muitos deles
utilizarem denominações mais doces para se referirem ao seu sofrimento,
muitas vezes, face à incompreensão social que atribuem ao não reconhecimento do
seu sofrimento, requerem a classificação de doença, mas como algo semelhante à
doença física, reclamando assim o estatuto social de doente pelo poder de
reconhecimento, aceitação e justificação desse sofrimento, bem como das suas
consequências sociais e pessoais.
A perceção e vivência do sofrimento, que não é doença mental, apesar de ter
subjacente um questionamento do eu, menos pesado, mas exigente do ponto de
vista da reconstrução identitária, é mais tolerável pessoalmente, mesmo
sentindo-o como algo permanente e sem cura. Este sofrimento é visto como não
compreensível socialmente, pois confunde-se com comportamentos socialmente
avaliados à luz da moral e dos valores socioculturais e não da instituição
médica são vistos como preguiçosos, cismáticos, complicados, fracos,
nervosos, categorias já encontradas no estudo de Alves (2011) e em outros
estudos (Miles, 1982; Rabelo, 1999). A falta de vontade e desmotivação
generalizada que atribuem à depressão e que não conseguem provar como
característica intrínseca desta, e não da pessoa que são, reforça a ideia de
incompetência social, relacional e laboral.
É ao nível da identidade e do autoconceito que os discursos centram os
impactos, num quadro onde se reequacionam os sentidos da vida e se expõe a
falta de esperança em que tudo volte a ser como era antes do surgimento da
doença, destacando o efeito da temporalidade e a consequente reconstrução
biográfica, tal como Bury (2000 [1997]) destacou. Esta destruição identitária
e consequente mortificação do eu, encontradas também por Goffman nos seus
estudos, resulta do sentimento de não ter valor nem utilidade social sentem-
se desvalorizados pelos outros e, consequentemente, incarnam e reproduzem a
inutilidade, sentindo-se eles próprios inúteis e sem valor, num ciclo que
reproduz a situação.
Na tentativa de lidar com as suas consequências na vida quotidiana, sobretudo
ao nível do estigma, a depressão crónica é muitas vezes compreendida como uma
das doenças mentais mais aceitáveis, não deixando contudo de estar associada a
um futuro negativista ligado à incerteza e ao medo da perda de controlo sobre o
indivíduo e sobre a vida o medo de enlouquecer e de perder a noção da
realidade está presente, como uma ameaça que lembra a perda da autonomia e
liberdade, e acentua os receios da dependência do suporte social e o medo do
futuro, lembrando continuamente que as consequências parecem ser mais
devastadoras do que o sofrimento.