O empreendedorismo na escola e o paradigma das competências: o caso da Junior
Achievement - Portugal
(Re)Pensar a escola através da abordagem por competências
A emergência da problemática das competências a partir dos finais dos anos 80
do século XX em várias áreas disciplinares, nomeadamente nas ciências da
educação, induz, entre outros factores que aqui não nos ocupam, a mudanças
paradigmáticas no processo de ensino e de aprendizagem. [1] Trata-se de retomar
um modelo que teve origem no início do século passado com o movimento da
educação nova, no quadro de um paradigma construtivista (Piaget e Inhelder,
1995 [1966]),[2] o qual foi continuado pela pedagogia institucional (Lourau,
1975),[3] particularmente em França, nos anos 60 do século XX.
A abordagem por competências é concebida, simultaneamente, como instrumento
pedagógico e didáctico e como referencial teórico. Propõe que se desloque a
focalização do processo de ensino para o de aprendizagem e, consequentemente,
do professor para o aluno, o que significa que este é colocado em primeiro
plano e não mais os conteúdos programáticos veiculados pelo professor. O
objectivo desta orientação é direccionado para o que o aluno é capaz de fazer
no fim de um determinado período de aprendizagem e não apenas para as matérias
e conteúdos que deveria ter assimilado. Passa-se de uma lógica do ensino
centrada no professor e nos conteúdos para uma lógica da aprendizagem
focalizada nos alunos e no seu desenvolvimento cognitivo, motor, afectivo e
prático. O cerne do processo educativo é transferido das disciplinas para as
competências, o que significa que de uma valorização da aprendizagem centrada
nas aquisições se passa para uma aprendizagem centrada na acção, isto é, uma
aprendizagem que não visa unicamente a aquisição de um reportório de saberes
codificados,[4] mas sobretudo o domínio das ferramentas e dos instrumentos que
potenciem a integração de saberes e a sua operacionalização em competências
teóricas, cognitivas, instrumentais e sociais, seguindo a tipologia de Le
Boterf (2005).
Esta nova concepção de educação é defendida pelo relatório para a UNESCO
Educação, um Tesouro a Descobrir, que entende a sua organização em torno de
quatro pilares do conhecimento aprender a conhecer, aprender a fazer,
aprender a viver juntos e aprender a ser que serão úteis também na própria
aprendizagem ao longo da vida (Delors, 1996). Neste relatório chama-se a
atenção para uma excessiva orientação do ensino formal para o aprender a
conhecer, em detrimento do aprender a fazer. A proposta é que cada um dos
quatro pilares do conhecimento seja objecto de igual atenção, para que a
educação surja como uma experiência integrada global, nos planos cognitivo,
motor, prático e afectivo. A articulação entre os quatro pilares enumerados
fundamenta o conceito de competências que começa a ganhar amplitude no meio
escolar, simultaneamente com a centralidade adquirida no meio empresarial.[5]
As competências são definidas como comportamentos estruturados em função de um
objectivo, que representam a possibilidade de uma acção eficaz num contexto
preciso (Le Boterf, 2005). A competência é a capacidade de mobilizar diversos
recursos cognitivos para enfrentar diversas situações. As competências não se
confundem com os saberes, capacidades e aptidões, mas integram tais recursos no
seu exercício (Perrenoud, 1999).
Uma das críticas de Perrenoud (1999) em relação à escola é a de que os alunos
acumulam saberes acabando por ser bem sucedidos nas provas, porém depois não
conseguem utilizar o que aprenderam em situações reais, quer no mercado de
trabalho, quer na vida quotidiana. A abordagem por competências tem como
objectivo principal que cada um aprenda a utilizar os saberes para actuar, o
que exige um modelo de ensino que contemple conhecimentos teóricos e técnicos,
mas que tenha como primado pedagógico a aprendizagem por referência situações e
elementos concretos.
A construção do conhecimento na escola deve integrar-se num contexto complexo,
dinâmico e interdisciplinar e não numa perspectiva fragmentada, estanque e
disciplinar. Porém, a escola na sua prática pedagógica permanece refém de um
ensino retórico e escolástico, frequentemente desfasado dos avanços científicos
e tecnológicos e das transformações económicas e sociais. Não se pretende que a
escola adopte um ritmo idêntico ao sistema económico, pois a sua missão e os
seus objectivos são distintos. Todavia, com a velocidade e a intensidade das
mudanças na contemporaneidade, tudo o que se aprende fica rapidamente
ultrapassado. Neste contexto, assume relevância, enquanto instrumento de
aprendizagem, a capacidade de aprender a aprender (Le Boterf, 2005), no
sentido de se ter as competências que nos permitam reconstruir permanentemente
os saberes. Uma das resistências que a escola encontra no projecto de
desenvolvimento de competências provém dos defensores de um ensino que
privilegia os conhecimentos disciplinares. A sua oposição a um ensino
vocacionado para as competências fundamenta-se na argumentação de que uma
orientação por competências na escola ignora e desvaloriza os saberes
disciplinares ao valorizar em excesso a sua utilização prática (Perrenoud,
2003). Contudo, deve ter-se em conta que a escola ao seguir uma abordagem por
competências não desvirtua nem saberes teóricos e práticos, nem recursos
cognitivos; pelo contrário, promove o seu desenvolvimento, a sua aplicação
prática, colocando-os ao serviço da acção cidadã no sentido de potenciar uma
capacidade de encontrar soluções para problemas ou situações específicas. A
abordagem por competências deve ser entendida, segundo Perrenoud (2003), como
um complemento à abordagem por saberes, ao concretizar-se na capacidade de
mobilização destes para a resolução de problemas, para a construção de
estratégias de intervenção ou para a tomada de decisões. Em contrapartida, os
curricula orientados somente para os saberes disciplinares tenderão a não
questionar e a não reflectir sobre a forma de articulação de saberes e a sua
mobilização em competências, ignorando como os saberes podem ser construídos,
reformulados, articulados, transferidos, generalizados e enriquecidos na
prática.
A problemática da relação entre saberes e competências é analisada por
Perrenoud (1995), que afirma que a oposição entre conhecimentos e competências
é uma falsa evidência. Não se abandonam os saberes disciplinares, mas estes por
si só e isolados não bastam. É preciso aprender a utilizá-los e a concebê-los
como ferramentas que podem ser transferidas para a acção que é
transdisciplinar.
Na escola tradicional passa-se muito tempo a assimilar conhecimentos que são
esquecidos rapidamente, porque não há uma preocupação em integrá-los em
procedimentos de acção, nem tão-pouco em orientá-los para uma prática concreta,
acabando, muitas vezes, por não serem retomados ou aprofundados. A noção de
competência surge exactamente como uma orientação-chave para a transformação
deste tipo de prática escolar. Perrenoud (2005) defende o desenvolvimento dos
curricula numa perspectiva transdisciplinar, onde se articulam a educação
escolar, os contextos de trabalho mais vastos e o processo de aprofundamento da
escola democrática. A abordagem por competências opta por uma dimensão
instrumental dos saberes em detrimento da lógica disciplinar instituída,
posicionando-se como ferramenta de combate ao insucesso escolar para os alunos
não socializados com a cultura livresca e de elite.
É neste sentido que a abordagem por competências, em que se inspiram os
projectos de empreendedorismo na escola, constitui um novo desafio para uma
escola que agora, para além de exigir aos alunos a acumulação e memorização de
conhecimentos, se preocupa em transferi-los e mobilizá-los. O enfoque é dado à
utilização prática dos saberes, sem que isso represente a negação do seu
fundamento teórico; pelo contrário, promove uma valorização dos saberes que vai
para além dos contextos da sua aprendizagem abstracta.
Hoje é aceite, na generalidade das sociedades ocidentais e nas diversas esferas
públicas e privadas, que o termo empreendedor define uma atitude perante a
vida, uma forma de estar que é apresentada como indispensável para a
trajectória pessoal dos sujeitos, mas também para o desenvolvimento
socioeconómico das sociedades.[6] É deste modo que o conceito de
empreendedorismo é trabalhado no âmbito escolar.
Respondendo a este desafio, foram implementadas várias iniciativas de política
educativa. A nível europeu destaca-se, entre outros, o programa de trabalho
Educação e Formação para 2010, que atribui ao empreendedorismo na escola um
lugar de destaque, enquanto elemento fundamental para a mudança económica e
social.
Em Portugal, destaca-se, pelo seu cariz de medida de política pública, o
Projecto Nacional de Educação para o Empreendedorismo (EPE), lançado pelo
Ministério da Educação, em 2006, destinado a ser promovido por escolas do
ensino básico e secundário. Este é um dos poucos exemplos nacionais das
políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo que tinha como objectivo
principal contribuir para um trabalho contínuo de desenvolvimento de
competências-chave junto dos alunos e para a apropriação social do espírito
empreendedor junto das escolas e das comunidades educativas.[7] Porém, também
nas organizações educativas privadas se fomentam algumas iniciativas neste
domínio, em parceria com o sector empresarial e, em alguns casos, por
iniciativa deste. É sobre um destes programas que incide a nossa análise
empírica: o programa A Empresa implementado pela associação Aprender a
Empreender (AE).
Aprender a Empreender, a Junior Achievement Portugal
O programa A Empresa implementado pela associação Aprender a Empreender (AE),
congénere portuguesa da organização-mãe Junior Achievement (JA), é um dos casos
ilustrativos da implementação de um processo de ensino-aprendizagem orientado
para a promoção do espírito empreendedor. Os seus objectivos consagram-se no
desenvolvimento da criatividade e do sentido de iniciativa através de uma
abordagem transdisciplinar.
Contextualizando espácio-temporalmente a organização-mãe, retenha-se que a JA
foi fundada em 1919 nos EUA e em 1963 na Europa, estando presente em 98 países.
O objectivo é proporcionar aos jovens uma formação em sete áreas programáticas
definidas como centrais para o empreendedorismo: cidadania, ética, literacia
financeira, economia, negócios, empreendedorismo e desenvolvimento de
carreiras. Por sua vez, a AE é uma associação sem fins lucrativos, fundada em
Portugal, em 2005, para desenvolver os programas da JA, destinados à promoção
do empreendedorismo, da criatividade, inovação e gosto pelo risco, nos mais
jovens. É uma organização em expansão no nosso país. Em 2008-2009, ano lectivo
em que desenvolvemos a análise, envolvia 1220 voluntários a trabalhar com
25.000 alunos. Em 2009-2010, este número passou a ocupar 1234 voluntários e
27.914 alunos, abrangendo um universo de 387 escolas de 55 municípios e 1345
turmas.[8]
O leque de iniciativas da AE começa no 1.º ciclo, com diversas actividades de
estímulo ao desenvolvimento de uma cultura de responsabilidade individual.
Outras se seguem ao longo dos restantes ciclos do ensino básico, secundário e
universitário. O princípio, esse, é o mesmo: a partir de um conjunto de
actividades dinâmicas, lideradas por um voluntário representante do mundo
empresarial, procura-se que os alunos compreendam a relação entre o que
aprendem na escola e a sua contribuição para a vida profissional.
Os programas implementados são devidamente adaptados à realidade portuguesa,
aos níveis de escolaridade e aos escalões etários. São leccionados em parceria
entre os voluntários das empresas associadas e os professores das escolas
aderentes, com o intuito de construir e ministrar conteúdos didácticos
interessantes e motivadores do ponto de vista da sua aplicabilidade.
Às escolas parceiras é fornecido material programático para ajudar os
professores nas suas actividades. Deste modo, os professores têm acesso a
diversas matérias, que funcionam como um complemento do currículo académico
leccionado, reorientando os conteúdos formais para o desenvolvimento de
capacidades de criatividade e inovação dos alunos. A partir de um leque de
actividades dinâmicas que são desenvolvidas por um voluntário, procura-se que
os alunos compreendam a relação entre o que aprendem na escola e a sua
aplicação no mundo profissional com a possibilidade de operacionalização dos
conhecimentos adquiridos.
O programa A Empresa: sua implementação nas escolas
A estratégia metodológica adoptada consistiu na realização de dois estudos de
caso em duas escolas secundárias privadas da Grande Lisboa em que o programa
foi implementado, que aqui designamos como escolas Alfa e Beta.[9] Optou-se
pela aplicação de uma diversidade de técnicas de recolha de informação,
designadamente: a recolha de documentos da JA, da AE e do programa A Empresa;
entrevistas abertas a dirigentes da AE e das escolas Alfa e Beta; entrevistas
semiestruturadas a um total de 14 alunos e dois professores.[10] A informação
foi alvo de uma análise documental e de conteúdo.
O cerne do trabalho empírico aqui retratado procura responder a dois
objectivos: aceder às expectativas, desafios e motivações criadas por quem
coordena e participa no projecto; apreender as interacções e lógicas sociais de
funcionamento deste projecto na escola. Este último objectivo será alvo de
análise seguidamente.
O programa A Empresa destina-se a alunos do ensino secundário, com idades
compreendidas entre os 16 e os 18 anos. O objectivo do programa é gerar a
oportunidade para os alunos criarem e conduzirem uma empresa no decurso de um
ano lectivo com a ajuda de um voluntário e de um professor responsável, numa
abordagem interdisciplinar a ser desenvolvida na disciplina da Área de
Projecto. No âmbito do programa A Empresa são transmitidos diversos conceitos
e potenciadas diferentes competências de criação, gestão e liquidação de um
negócio de acordo com a pedagogia do concreto.
Uma das prerrogativas do projecto é o trabalho em equipa. A formação dos grupos
é feita pelos próprios jovens, sendo princípio orientador a inclusão de todos
os alunos de uma turma. Um dos primeiros desafios colocados à turma é a sua
divisão em pequenos grupos, de forma a desencadear uma tomada de decisão
autónoma. Tal como afirma a professora da escola Beta:
[ ] uma das condições [ ] era eles formarem os grupos, eles são responsáveis
pelo que escolheram até ao último dia; e só depois é que escolhem qual o
produto que querem desenvolver.
Após a constituição dos grupos de trabalho, elegem um presidente da miniempresa
em função da auto e heteroanálise de traços de personalidade no seio do grupo.
De acordo com o relato da aluna A2:
[ ] nas aulas com os voluntários foi logo traçar o perfil de cada um, foi
debatermos, dizermos porque é que achávamos que éramos ou não capazes de ser
presidentes, se gostávamos ou não, que capacidades é que achávamos que tínhamos
[ ] para esse cargo e depois acabava com uma eleição dentro do grupo.
Numa perspectiva weberiana, podemos afirmar que o presidente da miniempresa
exerce a sua autoridade de forma legal, tendo um papel determinante no
funcionamento do grupo, nomeadamente evitando e resolvendo conflitos, como se
pode constatar no depoimento da aluna B6:
[ ] as directoras de publicidade quiseram mudar o logótipo da empresa, mas as
outras directoras todas não concordavam, e então houve uma guerra, e eu disse:
Eu como presidente, eu vou marcar uma reunião. Eu estou farta disto, de
estarmos aqui a discutir umas com as outras! Depois marcámos a reunião para
discutir e acabou por não ficar o logótipo novo, ficou sempre o antigo. [ ]
acaba sempre quando eu digo: Acabou! Porque sou a presidente, e nós temos de
ter sempre ordem.
A participação dos jovens nas actividades da miniempresa obriga ao trabalho em
grupo, o que, se, por um lado, constatamos criar diferentes experiências de
envolvimento e entusiasmo, por outro, potencia situações de conflito e de
exercício de uma autoridade assumida e legitimada, como fica expresso no
depoimento supracitado. O conflito é perspectivado no programa como fazendo
parte das relações que se desenvolvem e emanam da dinâmica da diferenciação, da
autonomia e da interdependência entre os diferentes indivíduos. O programa
acentua que o êxito de qualquer projecto só poderá ser alcançado se todos os
elementos do grupo forem igualmente bem sucedidos, afirmação que veicula e
sublinha a importância da coesão grupal para o sucesso empresarial. A
miniempresa, ao ter na sua base o trabalho em equipa, exige a participação de
todos, e quando tal não acontece procura-se regular o empenhamento de cada um,
como refere o aluno A2:
Ao desenvolver-se o projecto, há aqueles que acabam sempre por se desleixar um
pouco, não se entregar tanto, e se calhar aí cria-se um contraste entre aquele
que se empenha, aquele que se entrega, e aquele que se deixa ficar para trás. E
acho que esse contraste depois não fica assim tão confortável, porque para além
de estarmos ali naquele projecto todos envolvidos, somos todos colegas e temos
todos um convívio diário e não é fácil!
Um dos objectivos-chave de aprendizagem que a miniempresa exige passa pela
organização da empresa, pela venda de produtos, por elaborar e executar um
plano de negócios, capacidades que os alunos irão pôr em prática no decorrer
das quatro principais actividades em que o programa A Empresa se encontra
organizado: organização de uma miniempresa, desenvolvimento de um plano de
negócio, gerir a miniempresa e liquidação da miniempresa. As quatro actividades
e as competências respectivas que são treinadas pretendem proporcionar aos
alunos uma experiência que os ajude a perceber a organização e o funcionamento
do mundo dos negócios. Todavia, não são apenas as competências teóricas,
cognitivas e instrumentais de acordo com a tipologia de Le Boterf (2005)
que se pretendem potenciar (quadro 1). O objectivo é também impulsionar as
competências sociais. Com este fim, afirma-se no Manual do Professor e do
Voluntário que se promove a relação dos alunos com a comunidade empresarial, de
forma a criar condições para que reforcem conceitos relacionados com as
competências sociais (relacionais e posicionais) e com uma visão ética dos
negócios baseada na integridade e seriedade, como se depreende do discurso da
professora da escola Beta:
Quadro_1
Competências exercitadas pelos jovens nos projectos "A Empresa"
[ ] Eles não tinham a mínima noção de como é que se contacta com esta gente
[do mundo empresarial] de calibre profissional e intelectual. O facto deles
terem aprendido que não se trata por tu essas pessoas, a forma como se está
num recinto e não se grita, [ ], e que na vida real quando as coisas são sérias
todos têm a sua vez Eu acho que essa componente de comportamento, de
aceitação, acima de tudo de seriedade é para mim o mais importante do
projecto é um complemento importantíssimo do projecto!
É também com o objectivo de promover uma formação abrangente e íntegra que se
fomentam actividades baseadas no conceito escola-trabalho (Abrantes, 2003), ao
desenvolver-se uma aproximação da escola com outras entidades, nomeadamente
empresas de diversos sectores e organismos da administração pública regional e
local, que lhes expõem abordagens e experiências que os situam para além do seu
contexto escolar habitual, como refere a professora da escola Beta:
[ ] Outra coisa que eu acho muito importante no projecto é a saída da escola
para ambientes que eles nunca frequentaram, como se vai a uma feira, como se
contacta com gente com formação. Por exemplo, eles foram interrogados e
dialogaram com altos dirigentes da YDreams e do BCP [ ].
As actividades inerentes à organização, criação, gestão e funcionamento da
miniempresa, bem como à sua liquidação, pressupõem o exercício de competências
e a mobilização de saberes que sintetizamos no quadro 1, a partir das propostas
teóricas de Le Boterf (2005) e de Perrenoud (2005). A síntese analítica com
objectivos interpretativos patente no quadro radica numa equiparação entre as
diferentes dimensões de competências,[11] os domínios dos saberes[12] a que
correspondem e os conteúdos exercitados nas actividades da miniempresa.[13]
Identificaram-se, igualmente as fontes de ensino/aprendizagem em que radicam.
Os materiais didácticos, tanto dos alunos como dos professores, são
constituídos por diversos manuais, que incluem o Manual de Professores e
Consultores de Negócio, o Manual para os Alunos,bem como um kitA Empresa. Os
professores responsáveis pela aplicação têm o auxílio de diversos instrumentos
de trabalho, conforme nos relata a professora da escola Beta:
[ ] Informação não falta. A gente pode perguntar tudo! Eles dizem tudo,
explicam tudo! Existe um manual que aliás este ano é bem melhor porque foi
reformulado com as achegas que os professores deram o ano passado e é bem
melhor que o anterior!
Este depoimento ilustra o trabalho de parceria que parece ser efectivo entre a
AE e as escolas, nomeadamente pela integração dos contributos dos professores
nos manuais, o que constituirá uma via para melhorar a cooperação e a
identificação dos professores com o programa.
Os professores participam, igualmente, em acções de formação através das quais
se pretende que desenvolvam as suas próprias competências num quadro de
inovação pedagógica capaz de envolver e motivar os alunos. Como afirma o
professor da escola Alfa:
[ ] tivemos uma formação sobre a implementação do programa e sobre motivação e
empreendedorismo. Tivemos a falar sobre questões de motivação dos alunos,
motivação dos professores, que obstáculos e barreiras é que nós podíamos
encontrar [ ].
No processo de implementação do programa, os voluntários visitam as escolas
aproximadamente uma vez por semana, durante 1 a 2 horas. Como menciona a
responsável por este programa da AE, pretende-se que os alunos trabalhem no
programa em horário curricular, entre 1,5 a 3 horas semanais [ ].
O programa A Empresa, desenvolvido na disciplina Área de Projecto, implica
uma articulação entre disciplinas e respectivos professores. Acentua-se assim,
dependendo da fase de desenvolvimento do projecto, a sua componente
disciplinar, tal como refere a responsável do programa da AE, na medida em que:
Pretende-se que este seja um programa transcurricular, integrando as várias
disciplinas, consoante a etapa de criação das miniempresas em que os alunos se
encontram. Ou seja, os alunos têm o apoio do professor de marketing na altura
de fazer o estudo de mercado, do professor de contabilidade na parte
financeira, do professor de gestão e português na altura de fazer o plano de
negócios e relatórios, do professor de inglês no caso do relatório final ser
vencedor e ter de ser enviado para a Junior Achievement.
O trabalho de implementação do projecto parece passar pelo envolvimento de
todos os professores que, em conjunto, articulam os diferentes saberes
curriculares das suas áreas, porém privilegiando uma estratégia pedagógica
transversal. O projecto assume uma menor compartimentação disciplinar,
contrariamente aos curricula formais, na medida em que dá grande relevância à
multidisciplinaridade.
Ao professor responsável cabe igualmente a tarefa de avaliar e monitorizar o
desempenho dos alunos e seu processo de aprendizagem, sendo a classificação
atribuída de acordo com o empenhamento e resultados obtidos na participação na
miniempresa. A professora da escola Beta justifica:
[ ] é evidente que eu jamais prejudiquei um aluno. O ano passado dei 20 à
empresa que ficou em segundo lugar, que foi a empresa que esgalhou o ano
inteiro, e 19 aos outros. Tinha que haver uma diferença! Mas acho que ninguém
na turma tem 19 a nada, a coisíssima nenhuma! Portanto, eu acho que os
beneficiei extraordinariamente na média. Dei 16 a todos no primeiro período e
toda a agente se achou compensado com o que tinha feito [ ], 18 no segundo e 20
no terceiro, eram patamares perfeitamente aceitáveis [ ].
Paralelamente, os alunos da miniempresa também são submetidos a uma avaliação
externa da AE, através de diversos relatórios elaborados por cada director de
miniempresa, e que são acompanhados de informação de prova e comentários dos
professores e voluntários. Como nos demonstra a professora da escola Beta:
[ ] é um projecto com relatórios de acompanhamento mensais e com auditoria
externa, porque os voluntários ajudam muito, mas são uma auditoria externa
permanente [ ].
Por sua vez, a AE promove feiras nas quais os jovens dão a conhecer as suas
miniempresas e têm oportunidade de vender os seus produtos/serviços. Este é
também o momento de avaliação por um júri externo, que recebeu previamente os
relatórios finais de cada miniempresa para efeitos de classificação. Os
critérios de avaliação integram requisitos que aferem competências nas suas
dimensões teórica, cognitiva, instrumental e social (quadro_1), avaliando desde
a criatividade e inovação, ao marketing e técnicas de vendas desenvolvidas, até
à exposição no stand de vendas, bem como a apresentação em palco e as
entrevistas concedidas perante o júri. A selecção da melhor miniempresa, no
âmbito dum concurso nacional, culmina com a entrega de prémios e com a
participação da melhor numa competição europeia da Junior Achievement Young
Entreprise.
Desafios, expectativas e implicações da criação das miniempresas
No programa A Empresa configuram-se processos de ensino/aprendizagem de
professores e de alunos que resultam de práticas de educação formal atípicas,
se considerarmos a didáctica comum nas nossas escolas. Deste modo, procuramos
neste ponto dar conta das expectativas, desafios e motivações criadas por quem
coordena e participa no projecto. O programa obriga a pensar e a reflectir
sobre a diferença entre a aprendizagem não formal, extracurricular e baseada na
prática desenvolvida por este tipo de projectos e a aprendizagem escolar formal
e convencional. Os saberes que são transmitidos pelos projectos da AE estão
sempre ancorados numa perspectiva de desenvolvimento de competências orientadas
para o saber-fazer, enquanto o ensino formal tende a dirigir privilegiadamente
para o domínio do saber. Para a professora da escola Beta, as diferenças
centrais entre os dois tipos de educação remetem para conteúdos orientados para
o saber-fazer e para exigências no sentido da responsabilização activa da
execução:
Existem formas diferentes de estar na sala de aula, nos projectos e nos
programas, mas a seriedade ou a responsabilidade é a mesma [ ] Portanto, é uma
aula diferente na postura, na distribuição na sala de aula, mas não me parece
que o método seja diferente [ ] Os conteúdos são diferentes [ ]. Aqui o que me
parece novo é o saber-fazer com responsabilidade [ ] porque há um prestar de
contas final, com as apresentações, porque sofrem com a derrota! [ ] a
responsabilidade é deles, eles é que vão para o palco.
Como forma de superar as dificuldades sentidas no âmbito do programa, os
professores afirmam terem de assumir um papel mais activo e de intervenção
junto dos grupos de alunos, nomeadamente, na medição e monitorização das
actividades, questionando os jovens como via de encorajar a reflexão e de os
focar na análise dos problemas e na identificação de boas ideias. O trabalho
do professor parece ser agora muito mais próximo do facilitador que
desencadeia, monitoriza e ajuda a concretizar uma ideia em resultado. Este é
também um desafio para os professores, que sentem igualmente alguma ansiedade
na concretização bem sucedida do programa:
[ ] estou assim um bocadinho apreensivo com as minhas miniempresas, porque isto
tem a ver com o trabalho que eles têm, com as dificuldades que eles têm [ ],
que não estão a conseguir ultrapassar. E estão um bocado desmotivados Tento
dar-lhes apoio, [ ]. É sobretudo motivá-los, orientá-los na análise do
problema, é estar com eles nos momentos mais difíceis. É por pequenos
incentivos, mesmo por palavras, por gestos, que eles começam a ficar um pouco
mais encorajados e motivados a prosseguir. [Professor, escola Alfa]
O processo de criação da miniempresa é uma inovação na escola. Como tal e
sobretudo porque trabalha numa lógica de competências e não disciplinar, cria
alguns comportamentos de resistência, inclusive na adaptação dos conhecimentos
disciplinares à realidade concreta das miniempresas, que não é de todo linear,
mas complexa. Professores há que manifestam atitudes de resistência porque
sentem que os alunos não estão tão empenhados nas suas disciplinas por estarem
concentrados nos assuntos da miniempresa, o que os inquieta na medida em que
têm um programa curricular a cumprir:
[ ] Houve queixas [ ] de alguns professores a dizer que os alunos estavam com a
cabeça noutro lugar, obviamente que estavam na empresa e não propriamente na
aula, sobretudo nas socioculturais, português, o inglês e a matemática, etc., e
[ ] há sempre o reverso da medalha, nós para fazermos uma coisa temos
obviamente que sacrificar a outra. [Professor, escola Alfa]
O projecto da miniempresa é unanimemente acusado de ocupar demasiado tempo, de
tal modo que os professores desenvolvem esforços para adaptarem a rigidez do
plano curricular ao projecto da miniempresa e optam por critérios mais
facilitadores em outros domínios curriculares:
[ ] a implementação de um programa destes faz com que os alunos acordem e
adormeçam com o projecto, o que significa que estão muito absorvidos com o
projecto. Na verdade, os professores tiveram em atenção a recuperação de alguns
módulos, conteúdos que ficaram para trás por causa deste programa e penso que
depois conseguiram compensar os alunos. [Professor, escola Alfa]
Os professores aliviaram um bocado a matéria devido ao nosso projecto, se
tivessem continuado ao mesmo ritmo era complicado. [Aluno A1]
O trabalho dos alunos na construção da miniempresa ocupa-lhes os seus tempos,
dentro e fora da escola, pressupondo um dedicação exclusiva, o que é
questionável no âmbito da distribuição entre tempos pedagógicos e outros tempos
de vida, nomeadamente de lazer:
[ ] Conseguir conciliar a nossa vida, a escola, os testes, os trabalhos de
casa, tudo, com um projecto em que temos que entregar relatórios
constantemente, temos que fazer actas e vendas a dinheiro , aquelas coisas
tornam-se complicadas e depois nós pensamos: É pá! Tanta coisa para fazer! [ ]
Mais isto para fazer! Isso é que se torna complicado! [Aluno A6]
O envolvimento nas actividades exigidas é constante. Os alunos têm tarefas para
além das aulas ou das reuniões que se desenvolvem semanalmente, como é o caso
dos relatórios elaborados por cada director de departamento, que são uma forma
de demonstração dos resultados e de como estão a alcançar os objectivos finais
propostos.
É genericamente partilhado também pelos alunos que a participação no programa
A Empresa implica um esforço adicional de formação: Este projecto
sobrecarrega muito a nossa vida! [aluno B3]. Pode considerar-se que se trata
de um custo de oportunidade, na expressão da teoria do capital humano (Becker,
1993), uma vez que se pressupõe que, mais tarde, haverá um retorno deste
investimento ao ter contribuído para reforçar a autonomia nos indivíduos e ao
torná-los mais capazes de agir por si próprios (Perrenoud, 1999; 2005). Na
mesma linha de análise, propõe-se um indivíduo competente, auto-suficiente,
capaz de centrar atenções e de se projectar no futuro, com sentido de
responsabilidade, autonomia e capacidade para assumir compromissos (Haste,
segundo Rychen, 2001: 69).
A cultura de iniciativa e liderança baseada na ética e no rigor não parece ser
a mais comummente veiculada pela escola, se atendermos aos comentários de
alguns dos alunos:
[ ] quando nos disseram que tínhamos de fazer isto na Área de Projecto, acho
que foi mais a noção de isto vai ser só para a nota não vai ser assim nada de
especial! Mas depois começam a vir os voluntários, começam a vir cá pessoas da
JA a explicarem como tudo funciona. Começa-se a trabalhar De repente é preciso
arranjar parcerias na Europa e o nosso produto pode ser vendido no estrangeiro
e nós pensamos: Oh, meu Deus não era isto que estávamos a pensar , nós
pensávamos que íamos para o nosso stand, montávamos lá a nossa barraquinha,
mostrávamos as coisas e pronto! Mas depois chegamos e podemos ganhar uma
viagem a Roterdão, podemos ganhar uma viagem à Noruega e, bem, isto se calhar é
um bocadinho maior, não é tão mini como parece, e é mesmo real.
Responsabilidade, saber trabalhar em grupo, aceitar várias opiniões mesmo que
nós não concordemos e, acima de tudo, responsabilidade é o que nos exigem!
[Aluno B6]
Agir autonomamente diz respeito a uma vertente da construção da identidade
pessoal. A identidade pessoal é o resultado de um processo complexo que está em
permanente (re)construção, onde se articulam os trajectos sociobiográficos e os
sistemas de relações que os jovens vão trilhando (Dubar, 2006). A partir das
experiências vivenciadas e das interacções estabelecidas com os diferentes
actores no âmbito dos projectos de empreendedorismo, os jovens parecem
assimilar valores que ajudam a alinhar a sua identidade, de forma construtiva,
por via da capacitação. Ser empreendedor no âmbito destes projectos tende a
contribuir para criar condições para que os jovens desenvolvam competências
posicionais, na terminologia de Perrenoud, como nos descrevem os professores
entrevistados:
[ ] O que este projecto tem de melhor é a componente de formação pessoal. É uma
componente de formação pessoal muito dura, mas que tem muitos resultados, ou
seja, é possível mostrar-lhes a diferença entre competir e falcatruar! É
possível explicar-lhes e eles verem [o significado da] frase muito banal que
diz: ninguém chega ao fim se não chegarmos todos! A certa altura se alguém do
grupo do projecto falha, não vamos a lado nenhum! Eu acho que a componente
formativa, a componente humana e de relacionamento é mais importante, porque
passar a ideia de que o empreendedorismo é uma [competência] técnica é
limitado. Seria muita pena se o projecto ficasse só na dimensão do espírito
empresarial! [Professora, escola Beta]
Eu penso que as competências-chave que desenvolveram são sobretudo a
responsabilidade, autonomia de trabalho, trabalho em equipa, espírito de
equipa, sacrifício, respeito pelas ideias, pelas opiniões dos outros e a
discussão de ideias. Eles podem dizer: Ai isso não! Mas temos de discutir e
temos de dizer porquê, porque não? Sobretudo, é isso! [ ] Eles serem capazes de
criar uma coisa deles e saberem que aquilo foi para a frente é bastante bom!
Pode-lhes obviamente dar outro ânimo, porque hoje fala-se em ser empreendedor,
não só por conta própria, mas também por conta de outrem, mas é sobretudo isso:
responsabilidade, autonomia de trabalho, equipa de trabalho, respeito. São as
competências-chave que eles adquirem. [Professor, escola Alfa]
No mesmo sentido apontam as respostas dos jovens quando solicitados para
elencarem as competências adquiridas no desenvolvimento do projecto. Ainda que
mencionem as competências teóricas (o saber) e instrumentais (o saber-fazer), a
grande incidência de respostas centrou-se no domínio das competências sociais
(o saber-ser):
Acho que adquiri não só conhecimentos teóricos como práticos, como até de
perfil profissional, ou seja, por exemplo, eu tive o papel de presidente e não
é fácil! Não é fácil porque nós temos que fazer as nossas coisas, temos de
estar preocupados com o trabalho dos outros e temos que ter persuasão sobre o
resto das pessoas, e depois são amigos, são colegas, e ao mesmo tempo, temos
que ser um pouco autoritários com eles. [Aluno A2]
Muita responsabilidade, em termos de prazos, eu não sou muito de cumprir os
meus prazos e isso ajudou-me bastante, porque punham-nos metas e tínhamos mesmo
que cumprir. Também me ajudou no trabalho em equipa, ao início foi um bocadinho
difícil! [Aluno A4]
Podemos considerar assim que estes projectos não estão unicamente direccionados
para as competências instrumentais em termos de saberes-fazer, mas para uma
conceptualização holística de competências, que tanto integra recursos
cognitivos e técnicos, como competências relacionais e posicionais, ocupando os
valores e a ética o epicentro.
Note-se que os jovens no âmbito do projecto, conjuntamente com os saberes
curriculares, desenvolvem um conjunto multidisciplinar e transversal de
competências em torno das diversas experiências vivenciadas em diferentes
contextos e situações reais. Esta transferência de competências não é
automática mas é adquirida por uma prática reflexiva, em situações que, segundo
Perrenoud (2005: 144), dão a oportunidade de contextualizar e de
recontextualizar os saberes adquiridos, de mobilizá-los para agir, de transpô-
los, combiná-los [ ].
Para concluir
Na actualmente designada economia da informação e do conhecimento,o
conhecimento tornou-se no novo catalisador da economia e as competências umas
das suas ferramentas determinantes. Com o advento desta sociedade existe uma
forte pressão sobre os saberes, nomeadamente os escolares, para que estes se
construam de forma a serem mobilizados em competências. São elas a
criatividade, a iniciativa, a liderança, a cooperação, a capacidade de tomar
decisões, de planeamento, coordenação, trabalho em grupo e organização de um
projecto. Estas competências que os indivíduos devem adquirir para enfrentar a
vida e o trabalho compreendem qualificações profissionais e técnicas, bem como
aptidões sociais e pessoais. Tal apresenta-se como um enorme desafio aos
sistemas de educação e formação, que devem incentivar a aquisição de
competências por via da utilização de pedagogias inovadoras e criativas,
capazes de potenciar nos alunos um conjunto integrado e estruturado de saberes,
aos quais estes podem recorrer e que podem mobilizar para a resolução de
tarefas complexas e concretas.
O cerne do programa A Empresa é a criação de uma miniempresa que desenvolve
um produto/serviço real, o que se patenteia aliciante para os alunos que
afirmam sentir que é algo sério que os aproxima da prática profissional. O
contacto que os jovens têm com as empresas e com os voluntários faz com que a
miniempresa não represente apenas mais mero trabalho escolar, mas um desafio
real que parece agradar-lhes. Porém, não é sem apreciações negativas que se
referem ao projecto, denunciando o excesso de trabalho que pressupõe e a
consequente falta de tempo para se dedicarem ao estudo de outras disciplinas.
Esta crítica parece ser a que assume maior relevo, ao ter igualmente a
concordância de professores.
As competências mobilizadas pelos jovens são desenvolvidas com base numa lógica
de capacitação (Perrenoud, 2005) (em detrimento da lógica de saberes
curriculares), baseada no princípio de que as competências são desenvolvidas
quando utilizadas em situações complexas e concretas de trabalho. Exige-se aos
alunos que se tornem no que Perrenoud (2005) chama prático reflexivo,[14] ou
seja, os indivíduos são convidados a um exercício constante de aquisição de
conhecimentos teóricos e recursos cognitivos que transferem para a criação da
miniempresa, onde são chamados a exercitar competências técnicas, relacionais e
posicionais.
A aprendizagem deste programa de empreendedorismo desenvolveu-se por via da
articulação e complementaridade entre os saberes curriculares transmitidos e as
competências que os jovens tiveram que mobilizar para criar uma miniempresa.
Estes projectos determinaram assim o lugar dos conhecimentos na acção, ou seja,
os conhecimentos detidos pelos jovens constituíram-se como recursos
determinantes para identificar e resolver problemas e para tomar decisões
(Perrenoud, 1999).
O empreendedorismo na escola conduz-nos a repensar a eficácia da educação
formal baseada apenas no treino de competências teóricas e dos recursos
cognitivos. Existem fortes evidências de que a aprendizagem por intermédio
deste tipo de programas privilegia o saber em uso, isto é, saberes baseados em
fundamentos teóricos e recursos cognitivos, porém com uma forte componente de
competências instrumentais e sociais, concretizadas nos saberes-fazer e
saberes-ser. Deste modo, a educação, na óptica de programas de conteúdos
aplicados, privilegia uma orientação holística das competências.
Consequentemente, estes projectos de empreendedorismo não estão de costas
voltadas para a aquisição de saberes teóricos e de recursos cognitivos. Antes
relacionam-nos com actividades concretas e complexas, através dos problemas com
que os jovens se deparam para criar, gerir e liquidar a sua miniempresa. Os
saberes escolares adquiridos, ao serem mobilizados em competências, potenciam
nos jovens uma nova capacidade de enfrentar a mudança e a capacidade de acção e
reacção a novos desafios. Entende-se, deste modo, que estes projectos são
potenciadores do desenvolvimento de competências para empreender ao longo da
vida.
Apesar de o programa se designar A Empresa, não se espera que todos os jovens
a tenham como perspectiva de futuro. Não é isso que se pretende, até porque ser
empreendedor não é necessariamente criar uma empresa ou inventar um novo
negócio. Ser empreendedor define antes uma atitude perante a vida e uma forma
de estar. Daí crermos que estes projectos concorreram para a construção de
identidades ao incutirem nos jovens um espírito de iniciativa, autonomia e
criatividade.
Constatamos que a escola ganha um novo significado para alguns jovens, que
aprendem a ser empreendedores, na medida em que têm contacto com o mercado de
trabalho e vêem aplicados os conhecimentos adquiridos. Filion (2003) defende
que a peça-chave para o desenvolvimento da sociedade e o instrumento mais
adequado para a valorização dos recursos humanos é o empreendedorismo e
recomenda que este seja incluído em todos os níveis do sistema educacional. Se
per se esta apologia não nos parece poder ser questionada, pois toda a educação
deve alicerçar-se no empoderamento e enriquecimento dos alunos, tornando-os
livres, autónomos e responsáveis, a forma como é trabalhado pode ser alvo de
críticas. Entre um processo de ensino-aprendizagem mais retórico, disciplinar e
formal e um outro aplicado, multidisciplinar e integrante, a proposta neste
artigo centra-se no segundo, articulando-o e complementando-o com o primeiro,
numa tentativa de preparação para a cidadania activa e para a integração no
mercado de trabalho. Não é, contudo, sem disfuncionamento que tal articulação
se faz. Alunos e professores tentam encontrar novas lógicas de organização e
funcionamento, novas dinâmicas de trabalho para dar resposta ao novo desafio da
miniempresa, que coexiste com os velhos curricula disciplinares, horários
lectivos, modelos de prestação de provas e de avaliação.