Community, Culture and The Makings Of Identity. Portuguese-Americans along the
Eastern Seaboard
Community, Culture and The Makings Of Identity. Portuguese-Americans along the
Eastern Seaboard
Graça Índias Cordeiro*
* Docente do Departamento de Métodos de Pesquisa Social do ISCTE-IUL e
investigadora do CIES-IUL. E-mail: graca.cordeiro@iscte.pt
[Kimberly Dacosta Holton e Andrea Klimt, 2009, Portuguese in the Americas
Series, North Dartmouth, MA, University of Massachusetts, Center for
Portuguese Studies and Culture]
A imigração portuguesa para os EUA iniciou-se através das rotas baleeiras do
século XIX, maioritariamente originária dos arquipélagos atlânticos dos Açores
e de Cabo-Verde, e foi-se fixando em três regiões costeiras do país: no
Nordeste, com uma maior expressão nos estados de Massachusetts e Rhode Island,
na Califórnia e no Havai. A extensa colectânea agora publicada pelo Center for
Portuguese Studies and Culture da University of Massachusetts, em Dartmouth,
situada a sul de Massachusetts, no coração do arquipélago português, reúne um
conjunto de estudos sobre Portuguese-Americans and other related communities
nesta região e em Newark (Nova Jérsia), com algumas discretas incursões
comparativas com outros destinos imigratórios, como sejam o Canadá (Bloemraad)
ou a Alemanha (Klimt). As suas organizadoras, professoras na University of
Massachusetts, em Dartmouth (Andrea Klimt), e na Rutgers University, em Newark
(Kimberly DaCosta Holton), têm uma longa experiência de investigação e de
ensino sobre esta diáspora, com a qual convivem no seu quotidiano
profissional. Analisar a história, a cultura e as dinâmicas sociais dos
Portuguese-Americans e outras comunidades com eles interconectadas (p. 22),
avançar na compreensão da migração transnacional e subsequente processo de
identidade e formação de comunidade entre imigrantes e seus descendentes
(ibidem) são os objectivos genéricos desta obra.
Com enquadramentos disciplinares próximos desde a sociologia e a
antropologia, até à ciência política e aos estudos culturais os 20 capítulos
que a compõem estão organizados em cinco grandes unidades temáticas: 1)
citizenship, belonging and community; 2) expressive culture, media
representations and identity; 3) education, social mobility and political
culture; 4) work, gender and family; 5) e uma última parte que, sob o título
race, post-colonialism, and diasporic contexts, reúne os capítulos que não se
dedicam exclusivamente a portugueses ou seus descendentes. Trata-se de uma
organização flexível que tenta dar coerência a um conjunto de textos que
contrastam entre si, quer pelo momento em que foram publicados (entre 1980 e
2009), quer pelas abordagens teóricas e metodológicas distintas, quer,
inclusivamente, pela sua qualidade. Neste sentido, a organização nestas cinco
partes é meramente indicativa dos assuntos tratados em cada um dos capítulos,
independentemente da forma como estes se complementam ou interagem entre si.
Numa apreciação individualizada, por capítulo, são de sublinhar os excelentes
artigos inéditos aqui publicados, que acrescentam algo de novo a uma área de
estudos que, a partir dos anos de 1970, se foi definindo em torno de uma
discreta, embora numerosa, minoria invisível (hidden minority) residente
nesta região dos EUA e que suscitou um conjunto de textos, hoje de referência,
para quem se interesse pelo tema (Adler, 1972; Smith, 1974; Handler, 1981;
Machado, 1981; Pap, 1981, entre outros). Seguindo a ordem do livro, uma
especial referência para o texto de Irene Bloemraad, Citizenship,
naturalization and electoral success: putting the portuguese-american
experience in comparative context, em que a autora discute os factores que
afectam a tão conhecida invisibilidade política dos imigrantes portugueses na
área de Boston, contrastando com os de Toronto, e mostrando, entre outras
coisas e de modo admirável, como as linguagens da raça e etnicidade operam de
forma diferente no Canadá e nos Estados Unidos (Bloemraad: 43), sendo, no
primeiro caso, a linguagem do multiculturalismo orientada para a etnicidade e,
no segundo caso, para os grandes grupos raciais. Tal como nos igualmente bons
textos de Clyde Barrow, The political culture of Portuguese-Americans in
southeastern Massachusetts, e de M. Glória de Sá e David Borges, Context or
culture: Portuguese-Americans and social mobility, o contexto de recepção é
crucial para compreender algumas das peculiaridades atribuídas aos imigrantes
portugueses como fazendo parte da sua herança histórica e cultural (tal como
fraca mobilidade social, pouca instrução, pouca participação política e assim
por diante). Muito do conhecimento convencional sobre a relação entre política
e Portuguese-Americans é, simplesmente, mitologia ou estereótipo étnicos
(Barrow: 292). Cada um destes textos convoca para a sua análise, de forma
rigorosa, dados quantitativos que, devidamente contextualizados, ajudam a
identificar alguns factores organizacionais, políticos, económicos, simbólicos,
que caracterizam o encontro particular, em tempos e espaços bem delimitados,
das populações em análise, rebatendo assim estereótipos e imagens destorcidas
que se têm reproduzido em torno dos portugueses e seus descendentes,
particularmente nos EUA.
Outra referência especial merece o capítulo da autoria de Miguel Moniz, The
shadow minority: an ethnohistory of Portuguese and Lusophone racial and ethnic
identity in New England, que empreende uma minuciosa exploração etno-histórica
em torno da natureza maleável da categorização étnica e racial portuguesa,
analisando de modo perspicaz as complexas intersecções entre white portuguese e
black portuguese (cabo-verdianos), as classificações e a lei; e, ainda, o texto
de Marylin Halter, que, partindo da sua anterior investigação sobre a imigração
cabo-verdiana para os EUA (1865-1960), consegue traçar um quadro muito rico e
expressivo das mais recentes mudanças que continuam a desafiar rigorosas
classificações culturais, desafiando as noções de raça, etnicidade, cor e
identidade (Halter: 552); particularmente interessante é a sua análise sobre a
interacção com outras comunidades lusófonas, como a brasileira, que desde
finais do século XX alteraram profundamente o panorama do falar português
(portuguese-speaking) nesta região (Diasporic generations: distinctions of
race, nationality and identity in the Cape Verdean community, past and
present). Próximo deste capítulo de Marylin Halter, podemos referir ainda a
valiosa etnografia de Gina Sánchez Gibau, Contested identities: narratives of
race and ethnicity in the Cape Verdean diaspora, que, apesar de ser uma
republicação dum texto de 2005, nos traz a frescura de um olhar conhecedor
sobre Dorchester e Roxbury, bairros de maior concentração cabo-verdiana na
cidade de Boston.
Todos estes capítulos são actuais, maioritariamente inéditos, e fariam, só por
si, uma excelente colectânea, pois trazem um olhar renovador sobre uma
realidade imigratória cujo conhecimento se tem reproduzido demasiado em torno
de ideias feitas. Apesar das suas perspectivas diferentes, há algo em comum que
os une: incluem o contexto como parte intrínseca dos casos em análise,
assumindo que o contacto entre populações nas suas várias dimensões, desde as
socioeconómicas até às político-culturais é algo que se passa em lugares e
tempos concretos. Que o contexto não é apenas paisagem e que as identidades
culturais não são coisas, mas sim processos (Brubaker, 2009), por vezes
contraditórios e imprevisíveis.
Dos restantes catorze capítulos, vale a pena distinguir um conjunto de textos
que são contribuições valiosas para um maior aprofundamento do tema em causa.
Uns são casos delimitados em torno de acontecimentos festivos e rituais, como
as festas do Espírito Santo (João Leal), uma digressão de uma banda em Portugal
(Khaterine Brucher), ou de fontes, como uma exposição museológica (Lori B.
Baptista), um corpus de notícias de jornal (Rui Correia) ou um caso de
polícia que se tornou mediático (Onésimo T. Almeida). Outros tratam da relação
entre trabalho, género e família, com dois textos datados (Louise Lamphere e
outros, 1980; Ann Bookman, 1988) e uma excelente análise de Penn Reeve (1998)
sobre a participação dos portugueses no labor mouvement do sueste de
Massachusetts entre 1920 e 1950. E, ainda, o esforço de comparação que Andrea
Klimt faz entre uma investigação consolidada sobre imigração portuguesa para a
Alemanha e um olhar assumidamente menos consolidado sobre o caso do sueste de
Massachusetts; diria que este texto vale, sobretudo, pelos problemas e dúvidas
que levanta, desde logo ao assumir, como um dado de partida, que está a
observar two relatively similar groups of migrants como se a partilha de uma
mesma nacionalidade resultasse numa homogeneidade não questionável.
Finalmente, resta-nos referir os textos que, afirmando situarem-se no âmbito
dos actuais debates sobre transnacionalismo e transmigração (Bela Feldman-
Bianco, Kimberly DaCosta Holton) acabam por nos devolver uma velha imagem
essencialista do ser português, assumindo que a saudade é, na verdade, uma
construção cultural que define a identidade portuguesa no contexto de múltiplas
camadas de espaço e tempo (passado) (Feldman-Bianco: 51), tema que sustenta 43
páginas sobre a relação entre a identidade cristalizada dos imigrantes e o
Estado português; ou a análise dos ranchos folclóricos portugueses em Nova
Jérsia (Holton); ou, ainda, uma crítica pouco fundamentada sobre a integração
dos retornados na sociedade portuguesa, partindo da análise das memórias de
seis angolanos que migraram para Nova Jérsia (Holton) São capítulos que, ao
(sobre)valorizarem as continuidades com um Portugal imaginado, reproduzem uma
imagem descontextualizadamente exótica destas comunidades, contribuindo
assim para o mito que os outros textos tentam desconstruir.
Organizar uma colectânea desta dimensão constitui um desafio apreciável. Os
critérios que presidiram à escolha dos textos não são, contudo, claros. Nem na
definição do período em análise, nem no recorte populacional proposto.
Em primeiro lugar, no que se refere ao período em análise. A ideia de reunir
num único volume textos inéditos e antigos, já publicados, é, em si, uma boa
ideia, mas obrigaria a uma contextualização histórica mais informativa. Os
textos publicados nos anos 80 e princípios dos anos 90 referem-se a uma
realidade ainda muito marcada por uma significativa chegada de imigrantes
portugueses, o que, a partir dos anos 90, praticamente termina. Em 2009 a
realidade dos Portuguese-Americans é muito diferente como bem se nota na
maioria dos textos inéditos. A dominante actual da imigração de língua
portuguesa é a brasileira que, paradoxalmente, conta com um artigo apenas
(Ana Ramos Zaya). A não explicitação dos critérios para esta selecção de textos
antigos, talvez considerados históricos, leva a uma visão de conjunto com
risco de atemporalidade, como se não fosse importante o momento histórico das
análises e das realidades subjacentes. Visão esta que é reforçada pela forma de
apresentar a bibliografia em bloco, no final, descontextualizada dos diferentes
textos que a referem. Uma antologia é feita de artigos autónomos, datados, com
bibliografia própria, o que aqui desaparece, retirando ao leitor a
possibilidade de apreender as opções bibliográficas, teóricas, metodológicas e,
até, políticas de cada autor.
Do ponto de vista do seu recorte populacional, a ambiguidade prende-se, talvez,
com uma decisão tardia de inclusão de outras comunidades, para além da
Portuguese-American, o que resulta num desequilíbrio desde logo presente no
título, que não refere esta mudança de enfoque. Dos 20 capítulos, 15 debruçam-
se sobre portugueses e seus descendentes e apenas cinco sobre outros casos.
Com efeito, a última parte do livro, que inclui estes outros, acaba por ser a
única que, realmente, trata da intertwined social dynamics of these immigrant
communites que, em 2009, são maioritariamente brasileiras e cabo-verdianas, se
formos rigorosos com o termo imigrante.
Na sua síntese final, Caroline Brettel propõe uma leitura cruzada dos textos,
fazendo-os dialogar em torno de algumas questões, sempre úteis para quem estuda
a diáspora portuguesa nos EUA. E relembra, uma vez mais, o seu estatuto de
enclave étnico e minoria invisível, referido por tantos autores. O que nos
faz pensar se esta invisibilidade não resultará, também, de uma certa
invisibilidade científica do caso português, cujo conhecimento se tem
desenvolvido de um modo relativamente endogâmico, reproduzindo uma espécie de
enclave teórico baseado em perspectivas comuns Com algumas raras excepções,
presentes nesta obra!