Nuclearidade, trabalho dos corpos e justiça: A requalificação ambiental das
minas da Urgeiriça e os protestos locais
Introdução
Canas de Senhorim. Uma pequena localidade da Beira Alta (distrito de Viseu,
concelho de Nelas) com cerca de 4.000 habitantes, situada em “terras de
Senhorim” (Loureiro, 1988: 1), à qual ficará sempre associada a longa, e muitas
vezes espectacular, luta pela restauração do concelho. A história de Canas de
Senhorim não se atém, porém, a esta faceta de uma “localidade da Beira em
protesto” (Mendes, 2004). De facto, “no segundo decénio do século XX, o
concelho de Nelas conhece os primeiros sinais de um processo de
industrialização que vai estar na base da transformação da sua estrutura
económica e de mudanças do seu tecido social” (Veiga, 2006: 243).[1]
A nível industrial, duas referências incontornáveis — local, nacional e
internacionalmente — vieram criar em Canas de Senhorim uma “ilha operária”
(Veiga, 2006: 243), habitada por um semiproletariado ainda muito ligado à
terra, e alterar definitivamente o porvir do território: a Companhia Portuguesa
de Fornos Eléctricos (CPFE) e a Empresa Nacional de Urânio (ENU). Ambas as
empresas representaram importantes pólos de atracção de mão-de-obra, ambas
contribuíram para, num dado momento, tornar Canas de Senhorim num dos eixos
económicos mais importantes da região, ambas desempenharam um papel fundamental
no desenvolvimento local, ambas deixaram atrás de si um rasto de
desenvolvimento e ambas um rasto de poluição. No caso da CPFE, a poluição,
embora se desconheça se os seus efeitos para a saúde pública alguma vez tenham
sido objecto de análise, dificilmente escapava à experiência sensorial da
população. Em 1986, o encerramento da CPFE dissipará a “nuvem negra” que era a
sua imagem de referência.[2] Com o fim da exploração e tratamento de urânio no
complexo industrial da Urgeiriça, a “nuvem”, ao invés de se dissipar, adensou-
se.
A história da exploração e tratamento de urânio na Urgeiriça é parte integrante
de histórias mais latas, mais complexas, mais distantes, também, física,
ideológica, política e tecnologicamente: a história do mundo nuclear; do
nuclear em Portugal; e do lugar de Portugal no mundo nuclear. Não são estas,
porém, as histórias que aqui nos interessam. Será aqui questão de urânio, é
certo, mas num momento particular daquelas que configuram as suas
temporalidades (Brunet, 2004). Vencido o “tempo áureo do urânio” — no qual não
se coloca a questão ambiental e o urânio aparece como motor de desenvolvimento
local e suporte de projectos de vida — é no “tempo contestado do urânio” que
nos situamos. Momento em que a exploração e tratamento de urânio cessam e se
torna premente a necessidade de atender ao passivo ambiental gerado pela
actividade mineira em Portugal. Momento, igualmente, em que o Estado assume,
enquanto dever fundamental, a responsabilidade pela reposição do equilíbrio
ambiental de áreas sujeitas à actividade mineira.
Como refere S. Kroll-Smith (2009), o risco acontece sempre num tempo, num
espaço e a alguém. Definido o tempo, vejamos o espaço e o quem, variáveis
indispensáveis para compreender aquilo que se entende por “nuclearidade”.
A exposição ao urânio e aos produtos do seu decaimento não é imediatamente
acessível aos sentidos e integra, como salienta P. Perreti-Watel (2007: 76), o
grupo dos riscos tecnológicos para a apreensão dos quais a ciência se constitui
como um mediador incontornável. Apenas a ciência dispõe das técnicas e
instrumentos necessários para lhes conferir existência, para estabelecer a
“nuclearidade do urânio”. E, porém, será a ciência suficiente? Como salienta,
G. Hecht (2006; 2009), a nuclearidade da exploração de urânio é uma categoria
técnico-política continuamente contestada. Os parâmetros da sua definição
dependem da história e da geografia, da ciência e da tecnologia, dos corpos e
das políticas, dos Estados e dos mercados. O “nuclear” — insiste G. Hecht
(2009: 3) — é o resultado técnico-político de processos históricos:
A política molda-lhe as tecnologias, mas as suas tecnologias também lhe moldam
as políticas. A realidade material assume, aí, uma extrema importância, […]
[mas], como demonstram inúmeros estudos na área da ciência e da tecnologia, as
realidades materiais emergem de redes complexas em que o social e o técnico se
interligam de uma forma inextricável. […] No domínio da exposição ocupacional,
por exemplo, os instrumentos, as relações laborais, as disciplinas científicas,
as controvérsias entre especialistas e o saber leigo combinam-se por forma a
criar aquilo a que Michelle Murphy (2006) chama “regimes de perceptibilidade”,
quer dizer, conjugações de factores sociais e técnicos que tornam visíveis
certos riscos e efeitos para a saúde, tornando outros invisíveis. […] A questão
científica [e, ao que parece, também presentista e deslocalizada] da
causalidade […] é portanto também, e sempre, uma questão histórica e
geográfica.
Independentemente do significado da exploração e tratamento de urânio, do
urânio em si, e dos regimes de perceptibilidade que concorrem para a emergência
ou silenciamento, por um lado, da nuclearidade do urânio (Tsing, 2005; Hecht,
2006; 2009) e, por outro, da questão ambiental, duas variáveis permanecem
constantes. A primeira, o território e a sua exploração por forças externas
(Amundson, 2002): inicialmente uma empresa de capitais luso-britânicos e, a
partir da década de 1960, o Estado português, que passa a exercer a exploração
de urânio em regime de monopólio. O urânio, principalmente com a instalação, no
início da década de 1950, da Junta de Energia Nuclear (JEN), esteve na base de
um inaudito investimento no sector da energia nuclear, segundo Frederico
Ulrich, presidente da JEN, “praticamente o único sector de alta intensidade
tecnológica em que Portugal investiu no século XX” (Taveira, 2005: 7). Tal
permitiu, por um lado, o alargamento dos horizontes de conhecimento nessa
matéria e, por outro, que Portugal acalentasse a possibilidade de desenvolver
um programa de energia nuclear. Do ponto de vista de uma elite emergente,
composta por técnicos, engenheiros, académicos e cientistas, o urânio adquire
potencialidades até então limitadas à “diplomacia do urânio” (Taveira, 2005;
Castaño, 2006).[3]
A segunda variável, os trabalhadores do complexo industrial da Urgeiriça.
Trabalhar na Urgeiriça oferecia vantagens então não generalizadas à restante
população: a estabilidade do emprego; um salário mais elevado quando comparado,
à excepção da CPFE, com as alternativas locais; o acesso a cuidados de saúde; o
acesso à habitação; condições infra-estruturais privilegiadas (saneamento e
electricidade); etc. A referência ao território deve, por isso, revestir-se de
algumas cautelas. Do complexo mineiro nasceu uma comunidade dentro da
comunidade, um “lugar”, como muitos dos seus habitantes insistem em chamá-lo,
distinto de Canas de Senhorim. Esta distinção, extremamente marcante no período
áureo do urânio e cujos efeitos não se diluíram completamente depois da
cessação da actividade do complexo industrial da Urgeiriça, será, como se verá,
importante para compreender o modo como, à medida que a questão dos
trabalhadores da ENU ganha dimensão mediática, perde em base de apoio local.
Parte de uma história complexa, a história da Urgeiriça desenvolve-se ela
própria num local complexo. Estamos aqui longe das chamadas “comunidades
terapêuticas” ou “altruístas”, nas quais impera o consenso, a solidariedade e a
empatia sustentadas por uma definição colectiva e partilhada da situação
(Erikson, 1976). Na Urgeiriça, encontramo-nos perante uma “comunidade volátil”
(Gunter e Kroll-Smith, 2006), sendo essa volatilidade definida pela presença
local de diversos actores colectivos portadores de agendas e interesses que,
apesar de se cruzarem em alguns momentos, permanecem, no essencial,
inconciliáveis.
Assumida a requalificação ambiental pelo Estado, o significado do trabalho na
ENU adquire uma nova roupagem, pelo facto de se tornarem visíveis — e, mais
importante, mobilizáveis porque “certificadas” pela ciência — as consequências
da exploração de urânio para o território e para os trabalhadores. O fim da ENU
e a emergência da questão ambiental, por via da qual aparece o estudo
epidemiológico, impulsionam a emergência dos corpos, a partir de agora
irremediavelmente marcados e reivindicados como tal, por uma redescoberta
nuclearidade. Os corpos — os trabalhadores — procuram, nesse sentido, igualar o
território em importância, fazer valer igual direito à contaminação, igual
direito à reparação, igual direito à compensação.
No entanto, e é neste ponto que o terreno revela a sua complexidade, a
exposição ocupacional às radiações, as doenças oncológicas, a morte, embora
presentes, não constituem a principal motivação para os protestos dos Antigos
Trabalhadores da ENU, cujo fundamento assenta, mais decisivamente, no
ressentimento e na injustiça originados pelo desigual tratamento do colectivo
de trabalhadores pelo Estado.
Na economia deste artigo, começaremos por traçar um breve esboço da história
das minas da Urgeiriça. De seguida, abordaremos os antecedentes e o
enquadramento jurídico do Programa de Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras
Degradadas. Finalmente, deter-nos-emos nos protestos locais, desenvolvidos
entre 2001 e 2008, dando especial enfoque à Associação Ambiente em Zonas
Uraníferas (AZU) e, principalmente, aos Antigos Trabalhadores da Empresa
Nacional de Urânio.
O encerramento da ENU e a implementação local do Programa de Reabilitação das
Áreas Mineiras Degradadas confronta-se com reacções sociais locais que não
contestam o programa em si nem a definição oficial das consequências para a
saúde, pública ou individual, da actividade mineira, levantando, antes,
questões que encontram no processo de requalificação ambiental uma oportunidade
para a ressurgência ou emergência no espaço público. A mobilização das
consequências ambientais e dos efeitos para a saúde por parte dos trabalhadores
constitui um eficaz trampolim para a mobilização da comunicação social e para a
sensibilização dos agentes políticos,[4] que se revela incapaz, porém, de
alterar o enquadramento das políticas definidas. Como veremos, a presença e a
dor das vítimas não adquirem a grandeza (Boltanski e Thévenot, 1991) suficiente
para alterar os enquadramentos técnico-políticos e administrativos, na medida
em que configuram um grupo confinado, portador de uma agenda restrita. A
reivindicação da presença no espaço público por via da corporalização da
nuclearidade impede a luta dos trabalhadores de descolar da esfera local.[5]
As minas da Urgeiriça
A existência de jazigos de urânio e rádio em Portugal deu origem no início do
século XX a uma indústria votada, primeiro, à produção de concentrados de rádio
e, posteriormente, de urânio. A fase inicial reporta-se a 1907, com a
descoberta do primeiro jazigo urano-radífero, e prolongou-se até ao início da
Segunda Guerra Mundial, altura em que é abandonada a produção de rádio e se
inicia a segunda fase de exclusivo interesse pelo urânio (Nunes e Alves, 2004).
Na região Centro, o urânio foi explorado em diversas minas, das quais se
salientam as da Urgeiriça, Bica, Castelejo, Cunha Baixa, Quinta do Bispo e
Pinhal de Soto (Romão e outros, 2000: 103). Na Urgeiriça, um dos mais
importantes depósitos uraníferos da Europa, a “aventura do urânio” inicia-se em
1913, com a “descoberta de uma pedra pouco vulgar […] que exames revelaram
possuir elevado teor de urânio” (Veiga, 2006: 257).
De 1913 a 2001, a exploração e tratamento de rádio e, posteriormente, de urânio
serão da responsabilidade da Henry Burnay & C.ª (1913-1931); da Companhia
Portuguesa de Radium, Lda. (1932-1962); da Junta de Energia Nuclear (1962-
1977); da Empresa Nacional de Urânio, EP (1977-1990); e, finalmente, da Empresa
Nacional de Urânio, SA (1990-2001). Na Urgeiriça, nascerá e morrerá uma oficina
de tratamento químico, serão instaladas diversas estruturas de índole social e
o espaço e a paisagem circundante transformar-se-ão radicalmente pelas
escombreiras de rejeitados que foram ganhando volume ao ritmo da produção
(Veiga, 2006: 265).
Em 1990, quando a Empresa Nacional de Urânio, SA (ENU) assume a gestão do
complexo industrial da Urgeiriça, o tempo é, porém, de crise — comummente
associada à queda do preço do urânio no mercado internacional — e de
reestruturação. Depois de ensaiadas infrutiferamente diversas estratégias de
diversificação da actividade (pedreiras, rochas ornamentais, etc.), em Março de
2001, é decidido em Assembleia-Geral o início do processo de dissolução e
entrada em liquidação da empresa, processo este que coincide com a
implementação do enquadramento jurídico que sustenta a recuperação ambiental de
áreas sujeitas à actividade mineira em Portugal.
O Programa de Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras Degradadas: antecedentes
e enquadramento jurídico
O Programa de Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras Degradadas encontra
antecedentes que remontam, pelo menos, a meados da década de 1990. De acordo
com Luís Rodrigues da Costa (2000), em 1995, o Instituto Geológico e Mineiro
(IGM) e a Direcção-Geral do Ambiente (DGA) celebravam um protocolo de
cooperação no âmbito do qual o IGM iria desenvolver, entre meados de 1995 e
finais de 1998, um estudo de três casos-tipo que possibilitasse a obtenção de
experiência e conhecimento sobre os impactos ambientais correlacionáveis com a
actividade mineira, para uma posterior abordagem desta problemática a nível
nacional. Foram, então, seleccionadas as minas de Jales (Vila Pouca de Aguiar),
da Cunha Baixa (Mangualde) e do Pejão (Castelo de Paiva) (Santos Oliveira e
outros, 1999; 2002; Costa, 2000).
Em 1998, o IGM alarga os estudos às minas de S. Domingos (Mértola), Lousal-
Caveira (Grândola) e Vale das Gatas (Vila Real) e, em paralelo, leva a cabo um
“Estudo de Diagnóstico Preliminar” em sítios mineiros abandonados inventariados
em todo o território nacional, tendo em vista obter dados que permitissem
estabelecer uma hierarquização das situações e seleccionar os casos para a
realização de obras de reabilitação e/ou requalificação ambiental.
No caso concreto das minas de urânio, Luís Rodrigues da Costa (2000: 168)
informa que a Empresa Nacional de Urânio assumia, então, a responsabilidade “de
realizar o levantamento sistemático preliminar dos sítios mineiros onde
conduziu operações industriais, estendendo-se igualmente às explorações de
entidades que a antecederam (Companhia Portuguesa de Radium e Junta de Energia
Nuclear).
Em 1999, os ministérios da Economia e do Ambiente estabelecem um protocolo de
cooperação para a recuperação ambiental e a implementação de medidas
legislativas, organizacionais e financeiras para o sector mineiro. O protocolo
resultou num acordo de cooperação entre a DGA, o IGM e a Empresa de
Desenvolvimento Mineiro — holding que representa os interesses do Estado no
sector mineiro —, com o objectivo de desenvolver um programa de recuperação das
minas abandonadas e de estabelecer um enquadramento institucional para a
implementação desse programa (Baptista e outros, 2005).
Dois anos mais tarde, em Fevereiro de 2001, por ocasião do lançamento do
projecto de reabilitação da escombreira da mina de Jales (desactivada em 1992 e
cuja requalificação se iniciou em 2002), os ministros da Economia (Mário
Cristina Sousa) e do Ambiente (José Sócrates) apresentavam em Vila Pouca de
Aguiar o Programa de Reabilitação Ambiental de Áreas Mineiras Abandonadas.
Apontava-se, então, para a existência de 80 áreas mineiras abandonadas.
É, pois, neste contexto de “euforia reabilitadora” que aparece o Decreto-Lei
n.º 198-A/2001, de 6 de Julho, um marco importante na assunção por parte do
Estado da responsabilidade pela remediação do passivo ambiental provocado pela
indústria extractiva e de legitimação da intervenção da empresa responsável
pela requalificação, a Empresa de Desenvolvimento Mineiro, que se vê mandatada
pelo Estado para cumprir uma missão de reconhecido interesse público.
Este Decreto-Lei veio reconhecer, por um lado, que o exercício da actividade
mineira em Portugal gerou um passivo ambiental muito significativo e, por
outro, que a recuperação das áreas degradadas do território nacional constitui
um dever fundamental do Estado e uma tarefa de interesse público. Esse dever,
previsto na Lei de Bases do Ambiente (Lei n.º 11/87, de 7 de Abril), torna-se
particularmente forte no caso das minas de urânio desactivadas, entre outras
razões, porque em Portugal a exploração mineira de urânio sempre foi feita […]
pelo Estado, e em regime de monopólio, pelo que a responsabilização do próprio
Estado pela recuperação ambiental das minas é uma decorrência natural do
princípio de poluidor-pagador. Trata-se de um caso em que não há terceiros a
quem, alternativamente, possam ser imputadas responsabilidades ou que possam
ser co-responsabilizados pela degradação ambiental gerada. (Aragão, 2006: 126)
O exclusivo do exercício da actividade de recuperação ambiental das áreas
mineiras degradadas foi, então, adjudicado, em regime de concessão, à Companhia
de Indústria e Serviços Mineiros e Ambientais, SA (Exmin), detida na totalidade
pela já referida Empresa de Desenvolvimento Mineiro, SGPS (EDM) (Resolução do
Conselho dos Ministros n.º 93/2001, de 9 de Agosto).[6]
O referido Decreto-Lei constitui um marco importante, na medida em que fornece
um sólido fundamento jurídico à missão da qual a EDM foi incumbida pelo Estado:
a recuperação ambiental de antigas áreas mineiras degradadas, com vista à sua
reabilitação e valorização económica. Isto permite à EDM posicionar-se numa
esfera relativamente à qual todo o resto, tudo o que escapa à sua “missão”,
pode ser classificado como lhe sendo estranho, ao mesmo tempo que, como se
verá, lhe permite assumir posições de força relativamente a determinados
aspectos que entravam o cumprimento dessa missão.
Como salienta Gaspar Nero, coordenador da intervenção da EDM nas minas
abandonadas:
Nós estamos aqui num espírito de missão, missão que foi acometida por uma
concessão, concessão que foi considerada como sendo de interesse público.
Portanto, é nesse sentido que deve ser entendida a nossa intervenção.
[Entrevista realizada por José Manuel Mendes, em 27 de Março de 2009]
Antes, porém, da requalificação ambiental das minas da Urgeiriça começar a
adquirir uma materialidade que, por si só, este importante marco legislativo
não lhe confere, os protestos locais encontrarão fundamento na Resolução da
Assembleia da República n.º 34/2001, aprovada cerca de três meses antes no
rescaldo da suspeita da existência de uma “síndrome dos Balcãs”, atribuída à
contaminação com urânio das tropas da NATO em missões de paz na Bósnia e no
Kosovo.
A Resolução da Assembleia da República n.º 34/2001, de 29 de Março, recomenda
ao governo (XIV GC, António Guterres, PS) medidas para resolver o problema da
radioactividade nos resíduos e nas minas de urânio abandonadas nos distritos de
Coimbra, Guarda e Viseu, nomeadamente adoptando soluções concretas no perímetro
das minas da Urgeiriça. Das recomendações ao governo contidas na resolução,
retenham-se duas que irão marcar a agenda de protestos dos actores locais:
submeter as comunidades locais nos três distritos (Coimbra, Guarda e Viseu) a
vigilância epidemiológica activa para garantir uma minimização de riscos, tendo
em conta a radioactividade e a poluição química; e contribuir para assegurar
uma correcta situação social dos actuais trabalhadores da ENU, que deverão ser
apoiados social e profissionalmente, em qualquer quadro futuro.
Este debate é antecedido, como se disse, da polémica levantada pela utilização
de munições revestidas a urânio empobrecido pelos militares da NATO em missões
de manutenção de paz nos Balcãs (Bósnia e Kosovo) e do falecimento do cabo Hugo
Paulino, em Dezembro de 2000, que havia cumprido uma missão nesse território.
[7] A forma como o governo gere, então, esta situação revela, como salientam
Gonçalves e outros (2007), o recurso ao “discurso tranquilizador” com o
objectivo de desdramatizar as situações. Uma estratégia comum na gestão
política dos riscos, e que, como se verá com o estudo epidemiológico, se
estende neste caso aos cientistas “oficiais”.
Os protestos locais
A partir de 2001, estavam, portanto, reunidas as condições para dar cumprimento
ao Programa de Reabilitação de Áreas Mineiras Degradadas e, concretamente, para
avançar com a remediação das situações mais prementes, entre as quais se
encontra, desde a primeira hora, a barragem de rejeitados da Urgeiriça (a
Barragem Velha), cuja perigosidade e urgência de ser intervencionada, num
primeiro tempo, e a exemplaridade da execução, num segundo, serão avançadas
para reforçar a qualidade técnica da execução dos objectivos do Programa de
Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras Degradadas e a firmeza da vontade
política em executá-lo. Os trabalhos de “estabilização de taludes, selagem e
drenagem da Barragem Velha de Rejeitados da Mina da Urgeiriça” terão início
apenas em 2006 e serão inaugurados em 2008. No período compreendido entre a
aprovação do Decreto-Lei n.º 198-A/2001 e a inauguração dos trabalhos da
Barragem Velha, entre 2001 e 2008, o território não permanece neutro, objecto
passivo de uma incursão técnica do centro.
Metodologicamente, procedeu-se, primeiro, a um ordenamento cronológico dos
acontecimentos mais relevantes para a “intriga” (figura 1). Segundo, ao
levantamento das notícias em diversos órgãos de comunicação social das
intervenções públicas e acções de protesto relacionadas com o tema (2001-2008).
Finalmente, foram realizadas entrevistas em profundidade com os líderes dos
principais colectivos locais, com os ex-trabalhadores da ENU e com outros
informadores privilegiados. O cruzamento entre a cronologia dos acontecimentos
e a cronologia das intervenções públicas e acções de protesto permitiu dar
conta da emergência de determinados actores e problemáticas na esfera pública
ou, pelo contrário, do seu refluxo, à medida que o Estado vai respondendo de
forma parcelar às reivindicações.
Figura_1 Cronologia dos principais acontecimentos
Entre 2001 e 2008, diversos actores locais levarão a cabo acções de protesto e
actos públicos, ora visando os efeitos associados à actividade da ENU no
território (a questão ambiental), ora mobilizando outras questões, que
denominamos como tangenciais à requalificação ambiental. É este o caso dos
antigos trabalhadores da ENU, que serão aqui objecto de uma análise mais
detalhada.
Relativamente aos principais intervenientes (figura 2), na coluna da esquerda,
encontram-se o Estado e a EDM que funcionam em “circuito fechado”, focalizados
que estão, o primeiro, no capital político contido no Programa de Recuperação
Ambiental das Áreas Mineiras Degradadas e, a segunda, exclusivamente na sua
execução técnica. Os atrasos na requalificação são, notoriamente, um aspecto
que introduz “ruído” na relação entre o Estado e a EDM. Na base destes atrasos
estariam, para Gaspar Nero, então administrador da Exmin, a “falta de verba e
uma imensidão de procedimentos administrativos” (Ferreira, 2004). Mais
recentemente, o agora coordenador da intervenção da EDM nas minas abandonadas
contestou uma vez mais as imposições que são feitas à EDM nos processos de
avaliação de impacte ambiental e que os seus projectos tenham de se sujeitar ao
escrutínio do Ministério do Ambiente (Garcia, 2009).
Figura_2 Principais intervenientes
A comunicação social e a Comissão Europeia, embora apareçam como actores
indirectos, revelam-se fundamentais neste processo. A primeira enquanto
veículo, para os ex-trabalhadores, da dramatização dos efeitos para a saúde
associados ao urânio. A morte de ex-trabalhadores da ENU encontra-se
frequentemente no espoletar das acções de protesto cobertas pela comunicação
social, cada morte abrindo caminho para que o Estado assuma a responsabilidade
pelos vivos. É a dimensão social, e não técnica, o interesse humano, e não o
risco para a saúde pública, que atrai a atenção dos media (Sandman, 1994;
Delicado e outros, 2007), facto que os ex-trabalhadores serão céleres em
compreender, mantendo uma relação com a comunicação social que se poderia
classificar de recíproca. Relativamente à Comissão Europeia, a sua influência
aparece por via do comissário europeu do ambiente, Stavros Dimas, que, em Março
de 2005, ameaça apresentar queixa contra Portugal devido aos atrasos nas obras
de requalificação ambiental previstas para as minas de urânio desactivadas na
região Centro (Ambiente online, 14/3/2005). Esta ameaça não se virá a
concretizar, como, de resto, não se voltará a verificar uma transposição da
questão ambiental para outra escala, seja nacional ou internacional.
Na coluna do centro da figura encontram-se os actores locais e os principais
focos das acções de protesto desencadeadas por estes entre 2001 e 2008. No
âmbito deste artigo cingir-nos-emos aos protestos originados pela dissolução da
ENU e pelo processo de requalificação ambiental, procurando mostrar o trabalho
dos actores locais no sentido de estender a responsabilidade do Estado para
além da questão ambiental. Neste sentido, daremos particular ênfase à
Associação Ambiente em Zonas Uraníferas (AZU) e aos Antigos Trabalhadores da
ENU. E isso porque será na sequência do estudo epidemiológico, reivindicado
pela AZU como uma vitória da sua acção, que os Antigos Trabalhadores irão
encontrar fundamento para reivindicar uma responsabilização outra por parte do
Estado, uma responsabilização moral que deve ser acompanhada de uma reparação
ou compensação material.
Enquanto a AZU procura intervir directamente no processo de requalificação
ambiental,[8] encontrando nesta o seu “grande cavalo de batalha”, os Antigos
Trabalhadores da ENU levantam questões que ultrapassam as fronteiras técnico-
políticas do programa de requalificação ambiental. Questões que procuram
escapar ao “colete-de-forças” criado pela retórica do interesse público
nacional subjacente ao programa e extensível à sua territorialização nas minas
da Urgeiriça. Ao efeito de redução da problemática das consequências da
exploração de minérios radioactivos e da sua remediação introduzido pelo
programa, os Antigos Trabalhadores procurarão opor um efeito de ampliação da
problemática, no âmbito do qual passarão a ter cabimento os direitos laborais e
sociais e para a qual a doença e a morte funcionarão como importantes alavancas
de mobilização e de sensibilização visando políticos mais do que políticas.
A Associação Ambiente em Zonas Uraníferas e o estudo epidemiológico
Recentemente criada por ex-trabalhadores da Empresa Nacional de Urânio (ENU) e
alguns notáveis locais, em 2002, a AZU, de Canas de Senhorim, apela ao
cumprimento da Resolução n.º 34/2001, nomeadamente no que diz respeito à
realização de um estudo epidemiológico que venha clarificar se existe, de
facto, uma relação causa-efeito entre a exploração de minérios radioactivos e a
constatação popular de uma concentração de casos de cancro (Lusa, 8/6/2002).
Inicialmente associados à AZU, os trabalhadores da ENU irão, progressivamente,
abandonar a associação pelo facto de esta, mais vocacionada para as questões
ambientais, não dar prioridade às questões sociais e laborais.
Entretanto, em Março de 2003, na sequência do falecimento de um trabalhador da
ENU vítima de cancro, a AZU ameaça inconsequentemente responsabilizar
judicialmente o Estado pelas mortes e doenças relacionadas com a exploração de
urânio. Nas palavras de António Minhoto, então porta-voz da AZU, “o Estado tem
de ser responsabilizado, porque os trabalhadores estiveram expostos a perigos
para os quais não foram acautelados. Apenas era conhecido o risco dos mineiros
de fundo poderem vir a sofrer de silicose.” (Lusa, 7/3/2003).
Em Abril de 2003, dando resposta à resolução, o Instituto Nacional de Saúde Dr.
Ricardo Jorge (Insa) é encarregado pelo governo (XV GC, Durão Barroso, PSD) de
coordenar — em conjunto com o Instituto Tecnológico e Nuclear, o Instituto
Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, o Centro Regional de Saúde
Pública do Centro e o Hospital de São Teotónio (Viseu) — “a realização de
estudos que (identifiquem) as eventuais repercussões das minas de urânio e seus
resíduos, no ambiente e na saúde das populações a elas expostas” (Insa, 2005:
3). A AZU, pela sua parte, irá reclamar o estudo epidemiológico como uma
vitória da sua acção (Jornal de Notícias, 2004a).
O estudo epidemiológico, denominado MinUrar, toma à letra a resolução e, “face
à impossibilidade de estudar os eventuais efeitos associados a todas as minas
de urânio” (Insa, 2005: 3), centra-se exclusivamente na comunidade local de
Canas de Senhorim. O pioneirismo do MinUrar reside, inclusivamente, em abordar
os efeitos aos quais as populações que vivem próximo das minas de urânio estão
sujeitas e os efeitos que as escombreiras de minas de urânio e as lagunas com
águas residuais ácidas ricas em metais pesados exercem sobre a saúde dessas
populações, já que, relativamente aos trabalhadores, estes efeitos parecem
sobejamente estabelecidos e incontestáveis.[9]
Na introdução geral do primeiro relatório do Insa (2005), relativamente às
consequências para a saúde dos trabalhadores, afirma-se:
Pela exposição prolongada a que estão sujeitos, os trabalhadores de minas de
urânio têm sido alvo de vários estudos que pretendem associar a sua actividade
com causas específicas de mortalidade (Hornung, 2001). Uma das associações mais
documentadas é a do aumento dos riscos de mortalidade por neoplasia do pulmão
que deriva da inalação de produtos de decaimento do urânio. De acordo com
vários autores (Woodward e outros, 1991; Tomášek e outros, 1994; Kusiak e
outros, 1993; Shuttmann, 1993), o aumento da incidência de neoplasias do pulmão
encontra-se positiva e significativamente relacionado com a exposição a
produtos de decaimento do urânio e com a duração dessa exposição.
Apesar de o estudo MinUrar não estabelecer de forma inequívoca uma relação
causal entre a exploração de urânio e a incidência aumentada de neoplasias
malignas para a população de Canas de Senhorim, assume um papel preponderante
no modelar da luta por vir dos Antigos Trabalhadores da ENU, para quem essa
relação, apesar de o estudo não lhes ser dirigido, passa a ser incontestável e,
no âmbito da sua estratégia de acção, um suporte fundamental à “enfatização” da
nuclearidade da actividade mineira e, consequentemente, dos seus efeitos.
De facto, por via do MinUrar, a percepção relativamente ao trabalho na ENU
modifica-se num movimento de inversão da relação entre riscos e benefícios
(Slovic e outros, 2007; Figueiredo, 2008). De um meio para ganhar a vida, o
trabalho no complexo industrial da Urgeiriça torna-se num meio para a perder. O
que não representa em si uma novidade, na medida em que a actividade mineira
está, estatisticamente, atestada como uma actividade de elevado risco (Jacinto
e outros, 2007). O que é apresentado como uma novidade é a confirmação dos
efeitos para a saúde, o cancro e a morte. Na sequência do encerramento do
complexo industrial da Urgeiriça e por impulso do estudo epidemiológico,
modifica-se a aceitabilidade do risco por parte dos trabalhadores (Barthe,
2006; Gonçalves, 2007a), o que engendra uma nova definição da situação e
confere um valor moral às reivindicações dos trabalhadores, sustentado pela sua
qualidade de vítimas legítimas.
A volatilidade da comunidade reforça-se aqui na medida em que os efeitos para a
saúde, ou mesmo ambientais, não aparecem como uma “certeza” unanimemente
partilhada pela comunidade ou mesmo pelos próprios trabalhadores. Como se verá,
essa situação não se verifica relativamente aos direitos sociais e laborais dos
trabalhadores da ENU que granjeiam maior simpatia, sem que, todavia, essa se
transforme em solidariedade. Sem preocupações de exaustividade, apresentamos
duas possíveis causas para a ausência de consenso relativamente aos efeitos
para a saúde. Primeiro, a relação causal confronta-se com as excepções que
interferem na sua generalização, habitantes locais que trabalharam na ENU sem
contrair cancro ou, inversamente, que contraíram cancro sem trabalhar na ENU. À
“força das excepções” não será estranha a própria imagem popular associada ao
cancro como uma doença não totalmente compreendida pela ciência e cuja
etiologia depende, entre outros factores, do destino (Balshem, 1991; Schou,
1993). Uma doença que escapa, portanto, ao controlo individual e da medicina, e
à qual somos todos, sem excepção, vulneráveis.
Segundo, a “incerta realidade do urânio” confronta-se com a “certeza da terra”
e com o “medo do abandono”. É a imagem e o destino de Canas de Senhorim, caso
essa venha a adquirir os contornos de uma “comunidade contaminada” (Edelstein,
1988), que está aqui em causa. A posição da Junta de Freguesia é, deste ponto
de vista, esclarecedora, na medida em que, ao contrário dos ex-trabalhadores da
ENU, retém, à imagem do “discurso tranquilizador”, os resultados “menos
drásticos” do MinUrar, ou seja, como afirma o seu presidente, Luís Pinheiro,
aqueles que indicam existirem “valores alterados”, mas que não têm “nada de
preocupante” (Lusa, 13/7/2005).
Das incertezas do MinUrar — apanágio dos estudos epidemiológicos e
toxicológicos (Kroll-Smith e outros, 2000: 10) — o que os Antigos Trabalhadores
irão reter, para melhor hiperbolizar ou enfatizar, é a “certeza” de uma relação
entre trabalho na ENU e neoplasias malignas, abrindo desta forma caminho à
entrada de outras questões relativamente às quais o Estado terá de assumir
responsabilidade, se não pela força da lei então por uma questão moral.
Eu, no dia em que saí, quando me deram a proposta de despedimento, é que tomei
consciência do perigo que era a radioactividade ou o urânio. Se eu soubesse o
que era aquilo não tinha ido para lá trabalhar. Preferia andar no campo, na
agricultura, do que ir para ali. E hoje vê-se. Em 13 ou 14 anos, já morreram
mais de 70 ex-trabalhadores da ENU. […] Se a doença se manifestasse logo, a
gente ficava logo a saber, mas só agora é que se está a manifestar. [Mário
Simões, oficina de tratamento químico][10]
Ao contrário do que acontece em muitas controvérsias para as quais a ciência é
convocada na avaliação do risco,[11] os resultados do MinUrar não são nem
contestados, nem se verifica qualquer recurso a contraperitos para fornecer uma
interpretação alternativa ou não “oficial”. Recorrendo à terminologia utilizada
por J. Arriscado Nunes (2007: 51) para descrever os modos de envolvimento dos
cidadãos com a ciência, o que se verifica é um “alinhamento” com a posição
dominante ou “central”, que “exige dos cidadãos uma relação activa com os
enunciados dos cientistas especialistas e o recurso a esses enunciados enquanto
meios de argumentação”. O que se verifica, pois, é uma apropriação dos
resultados do MinUrar por parte dos trabalhadores para melhor os incorporar. À
aceitabilidade do risco associada ao trabalho na Urgeiriça substitui-se uma
“aceitação” do risco desde que contenha e permita veicular uma nova imagem de
si mesmos, a de “trabalhadores contaminados”. Uma imagem concordante com a do
“território contaminado” relativamente ao qual foram assumidas pelo Estado
medidas de reparação.
(Actuais e) Antigos Trabalhadores da ENU: nuclearidade, justiça e ressentimento
Para os Antigos Trabalhadores da ENU, na sequência do encerramento da
actividade do complexo industrial da Urgeiriça e, mais expressivamente, após o
estudo epidemiológico, a relação causa-efeito entre trabalho na ENU e riscos
para a saúde passa a ser incontestável e, no âmbito da sua estratégia de acção,
um suporte fundamental à “enfatização” da ameaça do urânio. Encontrando na
dramatização dos efeitos para a saúde e na morte fortes aliados na produção de
um efeito mediático, os Antigos Trabalhadores da ENU visam alargar o âmbito da
responsabilidade e de responsabilização do e pelo Estado que este, por sua vez,
procura confinar à questão ambiental. A comunicação social desempenha, como se
referiu, uma importante função amplificadora, não do risco para a saúde pública
em si (Sandman, 1994), mas da imagem dos “trabalhadores contaminados”, do
drama, o fundamento ético e moral na base do qual os trabalhadores reclamam o
alargamento da responsabilidade e responsabilização do e pelo Estado.
É fundamental, neste ponto, uma chamada de atenção relativamente ao colectivo
dos trabalhadores da ENU. Estes não formam um colectivo nem uno nem unido em
torno de uma “causa” comum, configurando antes um colectivo confinado. Na
origem dessa fragmentação encontra-se a promulgação do Decreto-Lei n.º 28/2005,
que aparece como um verdadeiro meio de “dividir para reinar”.
Em 2001, no início do processo de dissolução e liquidação da ENU, mantinham-se
em actividade cerca de 40 trabalhadores, entre os quais, Albertina Guimas,
porta-voz dos Actuais e Antigos Trabalhadores da ENU, que irão sustentar as
suas reivindicações na Resolução da AR n.º 34/2001. Recorde-se que esta
recomendava ao governo o melhor aproveitamento do know-how e do equipamento
especializado existente na Empresa Nacional de Urânio e que contribuísse para
assegurar uma correcta situação social dos actuais trabalhadores da ENU, que
deverão ser apoiados social e profissionalmente, em qualquer quadro futuro. Aos
olhos dos Actuais e Antigos Trabalhadores da ENU, isto equivale às “promessas”,
por um lado, da integração dos trabalhadores das ENU nos trabalhos de
requalificação e, por outro, da sua equiparação a trabalhadores do interior ou
da lavra subterrânea das minas para efeitos de acesso à pensão de invalidez e
de velhice.
Na sequência de diversas acções de protesto (Jornal de Notícias, 2004b; 2004c;
2004d; Bondoso, 2004; Jornal de Notícias, 2004e; 2004f),[12] o governo responde
com a aprovação em Conselho de Ministros, no dia 15 de Dezembro de 2004, do
Decreto-Lei n.º 28/2005, que concedia a equiparação de fundo de mina aos
trabalhadores que, à data da dissolução da ENU, mantinham um vínculo
profissional com a empresa, ou seja, cerca de 40 trabalhadores. A partir deste
momento, a referência aos “actuais e antigos trabalhadores da ENU” deixa de
fazer sentido, restringindo-se, agora, o colectivo, aos “antigos trabalhadores
da ENU”. Na liderança dos protestos dos ex-trabalhadores verificam-se
igualmente alterações, cedendo Albertina Guimas o lugar ao até então porta-voz
da AZU, António Minhoto.
Implodido o colectivo por via da diferenciação dos trabalhadores originada pelo
Decreto-Lei n.º 28/2005, o conflito cessa de opor exclusivamente os
trabalhadores ao Estado e passa a opor igualmente os trabalhadores entre si. Os
Antigos Trabalhadores da ENU não abrangidos pelo Decreto-Lei, para verem
garantidos os seus direitos, terão que encontrar outras bases de sustentação
para as suas reivindicações: a nuclearidade, a injustiça e o ressentimento. É
este o momento em que os efeitos para a saúde e a morte adquirem um novo
potencial de mobilização e, principalmente, de sensibilização. É como vítimas
legítimas que os “trabalhadores contaminados” se passam a apresentar,
encontrando na morte um meio para a afirmação da sua “causa”.
A entrada em cena das viúvas dos ex-trabalhadores da ENU, por via das
indemnizações aos familiares dos trabalhadores falecidos vítimas de doenças
oncológicas, representa uma extensão natural do enquadramento de injustiça
acima definido. As viúvas revelam-se incapazes de transformar a sua dor numa
força política autónoma e aparecem associadas aos antigos trabalhadores. Tal
como acontece em relação a estes, também as viúvas não formam um colectivo
aglutinador de todas as viúvas de ex-trabalhadores. Estas partilham a condição
de viúva mas, acima de tudo, a necessidade de obter uma reparação financeira
que complemente uma reduzida pensão de viuvez. De acordo com as viúvas
entrevistadas, aquelas que não participam têm uma fonte de subsistência que
lhes permite não “andar nisto”. Participar “não é um luxo”, sendo antes um
imperativo de sobrevivência. Mesmo se conscientes dos ataques que sofrem
localmente, que “o povo lhes morde nas costas”, vão e “irão sempre”.
Como salientam Jeff Goodwin e outros (2001: 18), “o prazer de participar traz
muitas alegrias que podem, só por si, motivar a participação sem recurso à
crença cognitiva de que o sucesso é possível ou provável”. Nas motivações para
participar e no significado que emprestam à sua participação, a injustiça e a
necessidade andam lado a lado com a alegria da participação em si. A revolta
colada ao riso. Se nada vier dos protestos ficarão as “histórias”, as
“aventuras”, as “viagens”. No autocarro que as conduz para as acções de
protesto rompem-se fronteiras entre mundos que, de outra forma, estas mulheres
nunca cruzariam. Ir a Lisboa, entrar na Assembleia da República, interpelar
políticos, ser entrevistada. Percebem que transportam consigo uma carga
emocional que não deixa ninguém indiferente. A visibilidade pública dá-lhes
outra existência, retira-as da condição de vítima silenciosa e momentos há, nas
entrevistas, em que a participação parece bastar-se a si própria. Como refere
Gail Holst-Warhaft (2000: 16), não importa que o abismo do seu luto seja
totalmente compreendido. A sua exposição provoca uma resposta de empatia e
confere-lhes um fórum para exigir reparação.
Concluindo, na acção dos Antigos Trabalhadores da ENU, o que aparece como o
elemento mais saliente é o recurso à enfatização dos efeitos para a saúde
associados ao trabalho no complexo industrial da Urgeiriça, com o objectivo de
estender as medidas de reparação propostas pelo Estado a outros domínios que se
situam necessariamente fora do âmbito da requalificação ambiental mas que são
conexos à actividade da ENU no território. Reivindicando a exposição
ocupacional à radioactividade como inacessível aos trabalhadores à época da
actividade do complexo e que só presentemente se começa a manifestar, os
Antigos Trabalhadores da ENU visam alargar o âmbito da responsabilidade e de
responsabilização do e pelo Estado. Reclamam-se, tal como é reconhecido ao
território, “contaminados”.
O processo de requalificação ambiental serve, nesta medida, de amplificador
para a reivindicação de questões que não têm os efeitos para a saúde como
principal factor aglutinador, mas sim o ressentimento e a injustiça originados
pelo Decreto-Lei n.º 28/2005.
Uma coisa [a equiparação a fundo de mina] vinha minimizar a outra [os
potenciais efeitos para a saúde]. Se houvesse justiça, a gente até se esquecia
que tinha trabalhado no urânio. Assim, não consigo esquecer! [Cassiano Estrela,
mineiro]
A gente não quer mais dinheiro ou indemnizações, queremos a equiparação a
mineiros, queremos essa justiça! Nós sofremos na carne! Famílias inteiras que
têm pessoas com cancros! [Diogo Rosa, administrativo]
A enfatização dos efeitos para a saúde encontra uma importante fonte de
sustentação no estudo epidemiológico MinUrar. Os Antigos Trabalhadores investem
fortemente numa interpretação parcial e alinhada ou comprometida dos resultados
do estudo que visa confirmar a veracidade da constatação popular de uma maior
incidência de neoplasias entre os trabalhadores da ENU e legitimar as
reivindicações de direitos não inscritos na proposta de reparação para o
território apresentada pelo Estado, ou seja, a requalificação ambiental. O
estudo epidemiológico confere argumentos para, retomando os termos de H. Becker
(2006), sustentar uma “linha de acção coerente” no âmbito da qual não apenas os
direitos dos trabalhadores passam a ter cabimento, como legitimidade. São as
consequências “aqui” e “agora” que os Antigos Trabalhadores da ENU procuram
acentuar para reclamar uma reparação que deve ser dada igualmente, “aqui” e
“agora”. As declarações do seu porta-voz, António Minhoto, na sequência da
morte de um ex-trabalhador vítima de cancro do pulmão são, deste ponto de
vista, esclarecedoras: “Se o governo pensa que, com a morte dos trabalhadores,
um a um, pode ficar descansado, engana-se. Enquanto houver um mineiro vivo,
lutaremos sempre com força, cada vez com mais força.” (Bondoso, 2008a)
A inauguração das obras da Barragem Velha: encerramento político e confinamento
da contestação
A 14 de Abril de 2008, são inauguradas as obras de requalificação da Barragem
Velha. Acontecimento importante na medida em que proporciona, aos Antigos
Trabalhadores da ENU, um palco mediático para as suas reivindicações e, à
Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), uma oportunidade para tornar público
o desfecho bem sucedido de um processo moroso, atravessado por diversos
protestos e polémicas, mas exemplar na sua execução técnica.[13] Nas palavras
de Delfim de Carvalho, presidente da EDM: “com o fim das obras de selagem da
Barragem Velha ficou anulado o maior foco de contaminação radiológica
resultante da actividade mineira no País”. (Bondoso, 2008b)
A sessão tem lugar no histórico Hotel da Urgeiriça. Cá fora, os ex-
trabalhadores da ENU manifestam-se. No fim-de-semana que precedeu a
inauguração, houvera falecido um trabalhador e um outro encontrava-se
hospitalizado. Alguns ex-trabalhadores envergam camisolas pretas, como forma de
luto, com três dizeres diferentes: “A dívida do Estado está por pagar”;
“Justiça e direitos iguais para todos”; “Urânio continua a matar”. Outros
seguram faixas: “Fomos vítimas de exposição à radioactividade. O Estado
português é culpado.”
A manifestação é encabeçada por António Minhoto, na qualidade de porta-voz dos
Antigos Trabalhadores da ENU, e será esse que, quando a comitiva que se
encontrava no hotel se dirige ao local onde se encontra a mesa comemorativa da
inauguração, interpelará os representantes das entidades oficiais. Segundo
relato da comunicação social:
O porta-voz, António Minhoto, dirigiu-se ao secretário de Estado adjunto da
Indústria e da Inovação, António Castro Guerra, pedindo-lhe apoio […]. Castro
Guerra [que é natural do concelho de Viseu] convidou António Minhoto para o
acompanhar. E, no momento de descerrar a mesa comemorativa, o membro do Governo
pediu para que fosse acrescentado o nome da Presidente da Câmara Municipal de
Nelas e a frase: Em homenagem aos ex-mineiros já falecidos. [Ferreira, 2008]
António Minhoto dirige-se, então, aos ex-trabalhadores, dizendo que a
requalificação foi uma vitória dos trabalhadores.
A requalificação não foi uma vitória dos trabalhadores. Nem, na verdade, esta
foi e continua a ser a sua “batalha”. E, no entanto, através deste acto
simbólico, deste acto de reconciliação — cujo alcance talvez não tenha sido
imediatamente inteligível para os intervenientes —, as fronteiras do Programa
de Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras Degradadas e da requalificação
atenuam-se para tornar os ex-trabalhadores participantes improváveis de um
objectivo que nunca foi o deles. Finalizada a requalificação da Escombreira da
Barragem Velha ficam soterrados, confinados e controlados os rejeitados da mina
da Urgeiriça e os seus efeitos nefastos. Soterramento, confinamento, controlo
que se estende aos “mineiros falecidos” e aos seus efeitos mobilizadores,
pondo, desta forma, fim ao seu “purgatório político” (Kearl, 1989: 300). Fazer
dos mineiros “memória” é iniciar a sua entrada no esquecimento.[14] E toda a
acção dos Antigos Trabalhadores se opõe a esse movimento, porque assenta
precisamente na emergência dos mineiros contaminados e falecidos.
Para os Antigos Trabalhadores da ENU, a morte reforça a responsabilidade do
Estado, por um lado, pelos falecimentos em si e, por outro, pela perpetuação de
uma questão cuja resolução depende apenas da sua vontade, apenas de uma decisão
política. O recurso aos mortos é uma expressão de resistência à fatalidade.
“Morrer para nada”, desta “morte não natural”, é o que está em causa. Não é
como memória que os trabalhadores se posicionam, mas sim como vítimas.
Até à data, o espaço na mesa comemorativa no qual deveria ter sido acrescentada
a simbólica homenagem aos “mineiros falecidos” continua em branco. Talvez faça
mais sentido que assim seja. Requalificada a Urgeiriça num deserto sem memória,
viúvas e Antigos Trabalhadores lutam efectivamente para que os corpos não
fiquem, também eles, desapossados de memória. Uma luta que revela o trabalho
inacabado dos mortos.
Conclusão
O longo ciclo da nuclearidade em Portugal culmina na afirmação de um dever do
Estado de recuperar o território e de gerir a situação dos ex-trabalhadores da
ENU. Neste artigo, procurámos mostrar a acção inesperada dos trabalhadores para
se reivindicarem como “contaminados”, igualando o território nessa qualidade e
adquirindo, por aí, igual direito à reparação. Parafraseando G. Hecht (2009),
infiltrando-se nos corpos dos trabalhadores, a radiação deu azo a que se
abrissem possibilidades políticas, sem que estas tivessem sido aproveitadas
pelos Antigos Trabalhadores da ENU. É nesse sentido que se afirma a falência na
reivindicação de uma “cidadania biológica” (Petryna, 2002).
Com as reservas que a escala impõe, poderia falar-se em relação aos
trabalhadores da ENU numa tentativa de aquisição de uma cidadania biológica,
entendida esta como “a exigência de um acesso selectivo a uma forma de apoio
social baseado em critérios médicos, científicos e legais que reconhece e
recompensa os danos biológicos” (Petryna, 2002: 6). Também na Urgeiriça, os
trabalhadores “recorrem ao conhecimento dos danos biológicos como um meio para
negociarem a responsabilidade pública, o poder político e uma protecção estatal
suplementar consubstanciada em compensações financeiras e cuidados médicos”
(Petryna, 2002: 7). Trata-se, porém, de uma tentativa falhada pelo facto de,
circunscrita a exploração de urânio a uma zona particular, a sua normalização
técnico-política operar no sentido de a tratar como confinada a um território e
a um grupo particular. Se o primeiro foi definido pelo Estado como contaminado,
já os trabalhadores, ao contrário do que aconteceu com os sofredores
(poterpili) do desastre de Chernobyl, revelam-se incapazes de transformar a sua
condição de vítimas num direito de cidadania.
Inicialmente concebido com o intuito de tranquilizar a população de Canas de
Senhorim relativamente aos riscos efectivos que representa o legado da
exploração de urânio, ou seja, relativamente à nuclearidade do território, o
estudo epidemiológico terá um efeito inesperado ao fundamentar a reivindicação
de direitos sociais e laborais por parte dos trabalhadores da ENU numa base
nova: a dos “corpos contaminados”. O trabalho político por parte do Estado e da
EDM vai, pelo contrário, no sentido de conter a contaminação ao território,
numa perspectiva de intervenção puramente técnica.
A verdade da ciência e a adequação da técnica não constituem objecto de
contestação pelos actores locais ou pelos trabalhadores. Pelo contrário,
verifica-se um alinhamento estratégico relativamente aos argumentos que aquelas
“revelam”, confirmando a contaminação do território e, mais importante, dos
corpos, ou seja, uma politização da contaminação, do sofrimento e da morte que
nem por isso lhe permite escapar ao seu localismo.
Pelo acto de memoriar a exploração mineira do urânio no território, ou seja,
pela sua redução a uma memória, o Estado visa a assunção da normalidade na
governação do território e o confinamento político das reivindicações dos
trabalhadores. O localismo da luta e o estatuto restrito de vítimas não outorga
direitos, permanecendo os corpos contaminados um particular não portador de
universalidade.