Infância e risco social: Retratos da imprensa portuguesa
Introdução
Em contextos marcados por paradoxos, incertezas e riscos socialmente
produzidos, procura-se informação e orientação junto de especialistas e
sistemas periciais nos quais se deposita confiança (Giddens, 1991). As notícias
produzidas pelos média em torno da infância surgem como um dos territórios de
conhecimento onde têm lugar vozes organizadas, fontes públicas e institucionais
de diferentes áreas, e constituem uma porta de acesso privilegiado a temáticas
que, de outra forma, estarão distantes de muitos indivíduos e grupos (Ponte e
Afonso, 2008). Deste modo, não é de estranhar a importância crescente dos média
na informação e sensibilização das comunidades para os problemas sociais que
afectam crianças, através da visibilidade dada a situações que, mesmo em tempos
recentes, não eram objecto de notícia.
As questões em torno dos riscos sociais que atravessam a condição da infância
têm vindo a ocupar um lugar central de discussão junto da opinião pública na
sociedade portuguesa. Tal é manifesto na emergência de discursos de natureza
diversa que apontam para um vasto leque de percepções, práticas e atitudes
individuais e colectivas. A vivência quotidiana está impregnada de
representações acerca desses riscos, que surgem como fonte de informação
constante na comunicação social de acordo com linhas de orientação
diferenciadas, e sob as mais variadas formas, independentemente do grau
efectivo de conhecimento científico que se possua a seu respeito.
As sucessivas (re)construções sobre o conceito de infância reenviam para
diversas formas de conhecimento da realidade social, reflectindo os passos de
uma evolução entendida à semelhança de um percurso de vida que se vai
manifestando nas múltiplas condições de ser criança em contextos histórica e
socialmente definidos. Se, por um lado, não se contesta actualmente a sua
relevância, o estatuto social que, ao longo dos tempos, esteve reservado à
criança apresentou fortes variações: de sujeito ignorado a objecto sacralizado
da civilização em diversas partes do mundo; simplesmente um bem ou valor
económico noutras. Neste conjunto de situações, algumas das quais
diametralmente opostas, nas sociedades contemporâneas as crianças são titulares
de direitos próprios cuja negação ou violação poderá corresponder à aplicação
de sanções.
Em Portugal este estatuto parece colocar-se com uma cuidada certeza em diversas
áreas, com uma especial incidência para o plano sociojurídico, onde se vêem
consagrados direitos à luz de princípios definidos internacionalmente. No
entanto, como entre o legislado e o vivido quotidianamente em muitos contextos
existe uma grande distância, com este artigo pretende dar-se a conhecer os
primeiros resultados de um projecto de investigação centrado na problematização
da cobertura jornalística sobre infância em risco social na imprensa portuguesa
em 2005.
1
Infância e risco social
Os olhares sociológicos desenvolvidos acerca da infância nas sociedades
ocidentais têm vindo a destacar um certo paradoxo: quanto menor é o seu peso
demográfico no total da população, maior parece ser o interesse sobre a sua
situação. Pode afirmar-se que quanto mais os adultos dizem desejar e gostar de
crianças, cada vez são menos as que nascem e é reduzido o tempo de que dispõem
para estar com elas (Qvortrup, 1999). Este interesse sobre a infância remete
para uma valorização construída à luz de factores de natureza sociopolítica que
trazem à superfície um conjunto de problemáticas que mais afectarão as
crianças. A representação social da infância moderna está enquadrada por um
conjunto de princípios relativos ao exercício de uma cidadania plena que a
todos sugere uma definição de bem-estar infantil(Almeida, 2000: 20). Contudo,
as dificuldades começam quando, partindo do próprio ponto de vista das
crianças, se percebe como esse bem-estar é um dado longe de estar adquirido por
muitas (Carvalho, 2004).
Nesta dualidade entre o individual e o social emerge uma ambiguidade estrutural
das sociedades, tornando-se necessário entender as razões que levam as
trajectórias de muitas a serem atravessadas por problemas sociais de ordem
diversa quando, paradoxalmente, nunca como agora se dispôs de tanta informação
e de tantos meios para efectivar a melhoria das condições de vida de todos os
grupos da população (Wyness, Harrison e Buchanan, 2004).
Em sociedades fortemente mediatizadas os sistemas simbólicos adquirem uma
função primordial na ordenação das questões sociais e das visões colectivas
sobre o mundo, constituindo parte fundamental da própria realidade. Ultrapassa-
se neste posicionamento a questão de saber se são os riscos que,
objectivamente, terão aumentado ou se, antes pelo contrário, o que se verifica
é a intensificação e alargamento da sua percepção (Beck, 1992). Porque um e
outro ponto representam duas faces de um mesmo objecto, a análise social sobre
a infância terá de atender à convergência e ao cruzamento entre ambos.
Mais do que o eventual aumento dos riscos sociais, aquilo a que se poderá estar
a assistir nos dias de hoje será antes a um potencial aumento da sua
representação no quotidiano, em função da crescente visibilidade que certos
actos adquirem, em parte fruto de uma mediatização permanente (Beck, 1992). A
explosão de uma sociedade mediática com acesso massivo, e em simultâneo, à
mesma informação em qualquer ponto do mundo, acarreta a divulgação e promoção
de estilos de vida, superando-se em todos os aspectos os limites da
territorialidade. Os modos de vida na contemporaneidade estruturam-se em torno
de um ideal de ordem social que se afasta dos tradicionais e onde a
transnacionalização dos problemas sociais e a percepção de risco são
determinantes.
Em certos casos, como no da sociedade portuguesa, o risco será mais
percepcionado e vivido como uma ameaça do que como uma oportunidade ou desafio.
Tal decorrerá de uma enfatização do processo de politização dos riscos com
consequências morais e políticas (Carapinheiro, 2001), emergindo a ideia de que
a sociedade de risco se converterá, potencialmente, na sociedade da
catástrofe, na medida em que muitos dos riscos só são debatidos politicamente
e só ganham visibilidade quando os efeitos da sua disseminação já se
consolidaram (Beck, 1992).
Regulação da cobertura jornalística sobre infância
Se até ao início da década de 1980 a protecção da infância e a administração da
justiça tutelar de menores eram assuntos da competência única dos estados, não
existindo documentos no plano internacional que favorecessem uma concertação
relativamente a intervenções a desenvolver, as duas décadas seguintes foram
decisivas para inverter esta situação. Desde então regista-se uma significativa
produção de textos fundamentais de cariz supranacional, que apontam para uma
nova representação da condição social da criança, na qual se evidencia a
necessidade de garantir melhor a promoção e a protecção dos seus direitos.
Nesta linha, diferentes instrumentos internacionais vieram a ser adoptados em
Portugal, visando assegurar a aplicação de princípios fundamentais de
liberdade, igualdade, legalidade e privacidade nas intervenções a desenvolver
no campo da infância.
Neste conjunto de normativos alguns destacam o papel dos média no enquadramento
da cobertura jornalística da infância, trazendo à superfície uma série de
preocupações até então pouco debatidas (isto é, os direitos de participação,
consentimento e audição das crianças e a difusão de informação relativa à
prevenção de riscos sociais) e linhas de orientação concretas pelas quais se
devem guiar (isto é, protecção da identidade e reserva da vida privada). Estão
neste caso as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça
de Menores-Beijing (1985), a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da
Criança (1989), as Directrizes das Nações Unidas para a Prevenção da
Delinquência Juvenil-Riade (1990) e as Recomendação N.º R (1993)2, Rec(2001)16,
Rec(2003)13 e Rec(2005)5 do Conselho da Europa relativas, respectivamente, a
aspectos médico-sociais do mau-trato infantil, à protecção das crianças contra
a exploração sexual e à difusão de informação sobre processos penais e aos
direitos das crianças acolhidas em instituição. Decorrentes dos Objectivos de
Desenvolvimento do Milénio (ONU, 2000) foram adoptados dois protocolos
facultativos, um sobre o envolvimento de crianças em conflitos armados, outro
sobre venda de crianças, prostituição e pornografia infantil. Neles foram
estabelecidas medidas que asseguram a consagração de direitos de protecção das
crianças envolvidas nestas situações e, simultaneamente, evidencia-se a
importância dos média no desenvolvimento de uma acção preventiva concretizada
pela difusão de informação específica sobre as mesmas.
As intervenções sociais e judiciárias que estas problemáticas suscitam em
Portugal vêm a realizar-se no quadro de uma jurisdição especial de protecção da
infância, que integra os princípios e normas consagrados em diversos diplomas
internacionais e outros nacionais, como a Constituição da República Portuguesa
e o Código Civil Português. Duas novas leis sobre a infância foram aprovadas
pela Assembleia da República, em 1999: a Lei de Protecção de Crianças e Jovens
em Perigo (Ministério do Trabalho e da Solidariedade) e a Lei Tutelar Educativa
(Ministério da Justiça). Tendo entrado em vigor no dia 1 de Janeiro de 2001,
ambas têm subjacente um novo paradigma que visa a promoção de intervenções
claramente diferenciadas: de protecção junto de crianças vítimas de diversas
circunstâncias pessoais e sociais; de responsabilização e de educação para o
direito para aquelas que, com idade igual ou superior a 12 anos e inferior aos
16, tenham praticado factos que, à luz da lei penal, seriam considerados
crimes.
No que diz respeito à cobertura jornalística as leis são claras, impedindo
qualquer divulgação de dados que permita a identificação de crianças em perigo
ou envolvidas em práticas ilícitas, sob pena de os seus agentes incorrerem na
prática de crime de desobediência. As restrições não se limitam às relações dos
órgãos de comunicação social com o tribunal e com as comissões de protecção
(actos processuais), mas abrangem todas e quaisquer situações enquadradas pelos
respectivos sistemas. Como aponta Bolieiro (2005: 206), estas limitações à
publicidade que aqui se pretendem preservar têm como justificação primeira, não
a concretização do interesse público da administração da justiça, em ordem a
uma eficaz investigação e acção processual de promoção e protecção, mas a
tutela de direitos fundamentais da criança e do jovem.
Decorrente da produção legislativa mencionada algumas entidades mais
directamente ligadas ao jornalismo vieram a mostrar a sua preocupação nesta
área, sobretudo a partir da década de 1990. A Federação Internacional de
Jornalistas adquiriu um maior protagonismo através da produção de documentos
como Prime Time for Children: Media, Ethics and Reporting Sexual Exploitation
(1996), que surgiu na sequência do Congresso Mundial sobre Exploração Comercial
e Sexual das Crianças, realizado em Estocolmo. Dois anos mais tarde foi
apresentada a resolução Information and Child Rights: the Challenge of Media
Engagement(1998), aprovada na Conferência Mundial que decorreu no Recife. Nela
identificaram-se os principais contornos a observar na cobertura jornalística
sobre infância a nível mundial e traçaram-se linhas de orientação legislativa.
Para além disso foram analisados os códigos deontológicos de 54 países,
constatando-se que era reduzido o número daqueles que continham orientações
expressas para esta área. Foi também reconhecido que entre os profissionais de
informação era escasso o conhecimento sobre a Convenção sobre os Direitos da
Criança e sobre outros documentos legais, pelo que, no ano 2000, foi lançado um
programa para três anos, Journalism 2000: Child Rights and the Media, através
do qual se procurou colmatar grande parte das lacunas sentidas. Neste âmbito,
foi produzido um documento orientador de fundamental importância, o guião The
Media and the Child Rights.
Perpassa por todos estes documentos a assunção da responsabilidade social dos
jornalistas através do exercício da função central de informar, ao que se
associa o dever de identificar quer falhas, quer aspectos positivos no campo
dos direitos humanos. Na tentativa de dar corpo a estas preocupações começaram
a surgir diversas organizações em torno dos média, das quais se salientam a
MediaPress, no Reino Unido, e a Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(ANDI), no Brasil. A nível nacional destacam-se as orientações do Sindicato de
Jornalistas e do seu Conselho Deontológico e da Alta Autoridade para a
Comunicação Social, nomeadamente sobre abuso sexual, acolhimento institucional
e delinquência. Fica a ideia de que não será por falta de normativos nacionais
e internacionais que no tratamento noticioso dos temas relacionados com
crianças os seus direitos não são respeitados.
O projecto Crianças e Jovens em Notícia
Animados pela Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), vários movimentos
sociais têm vindo a pugnar por uma maior visibilidade e debate das questões que
envolvem a infância, e diversos estudos nacionais e internacionais apontam para
o aumento de notícias sobre crianças nas páginas de jornais de informação geral
e nos noticiários de televisão desde essa altura (Ponte e Afonso, 2008). Em
sociedades marcadas pelos paradoxos da infância (Qvortrup, 1999) emerge uma
ambivalência entre a retórica de discursos públicos que fazem a apologia do
ideal romântico da criança e do seu lugar na família, e as práticas políticas,
económicas e sociais que dificultam o seu bem-estar. Seja associadas a uma
condição de vitimação, seja no lugar de agentes (culturas da infância), as
crianças tornaram-se um pólo de atracção para os média. A informação produzida
tende a reflectir uma certa contaminação pela lógica do espectáculo,
assistindo-se também ao crescimento de um discurso do medo, onde são
especialmente valorizadas como objecto de preocupação e ansiedade parental
(Altheide cit. em Ponte e Afonso, 2008).
É neste enquadramento que se situa o projecto Crianças e Jovens em Notícia
aprovado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (POCTI/COM/60020/2004)
2
e assegurado por uma equipa de investigadores de diferentes áreas e
instituições.
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Trata-se de uma pesquisa que assentou em duas linhas de orientação: 1)
analisar e problematizar a produção dos média em notícias relacionadas com a
condição da infância e juventude em Portugal; 2) identificar e analisar os
modos e formas de recepção dessa mesma produção por parte de crianças e jovens
em diversos contextos sociais.
Neste artigo dá-se a conhecer alguns dos resultados obtidos na primeira linha
de orientação, definida na continuidade de uma pesquisa longitudinal realizada
anteriormente sobre a noticiabilidade das crianças (0-14 anos) na imprensa
portuguesa de informação geral, no período compreendido entre 1970 e 2000. Em
intervalos de cinco anos analisou-se então o Diário de Notícias tendo-se
incluído no último ano o Público (Ponte, 2005).
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Essa pesquisa evidenciou linhas de mudança e de continuidade nos tempos
sociais e nas considerações sobre a infância e assinalou um notório aumento do
número de peças nos anos mais recentes, 1995 e 2000, sobretudo centradas em
questões de educação e de risco social. Partindo dos resultados aí obtidos,
procurou-se actualizar a análise das notícias sobre crianças publicadas nesses
dois jornais de referência mantendo o intervalo de cinco anos, o que levou à
selecção do ano de 2005. Simultaneamente, pretendeu-se ir um pouco mais longe,
trazendo para a pesquisaoutros dois jornais, ditos populares, o Jornal de
Notícias e o Correio da Manhã. Nesta linha, quis-se averiguar se nesta
cobertura sobre crianças e infâncias teria sentido falar de uma imprensa de
referência e de uma imprensa popular, com diferentes escolhas temáticas e
formas de tratamento.
Porque o conceito de criança não é uniforme em todas as áreas de intervenção,
optou-se por adoptar o que está definido na Convenção sobre os Direitos da
Criança e que constitui direito interno português, ainda que com discrepâncias
relativamente à sua aplicação, como acontece com a idade de imputabilidade
penal (16 anos).
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A pertinência desta opção residiu na necessidade de abordagem destes aparentes
paradoxos em torno dos diferentes posicionamentos que a criança adquire em
diferentes campos de acção.
Dada a pluralidade de formas e meios de se viver a infância, definiram-se seis
grandes áreas para análise: risco social; educação; comportamentos,
culturas e consumos; saúde, assistência e população; prevenção e
segurança; insólitos e fait-divers. Cada uma constituiu um ângulo de visão
privilegiado sobre o objecto de estudo, tendo uma certa correspondência com as
categorias definidas no estudo anterior, necessariamente reformuladas à luz das
mudanças sociais em curso, reflectidas em estudos e estatísticas nacionais e
internacionais.
Relativamente ao risco social a abordagem centrou-se nas situações e
problemáticas em que a vida das crianças ou o seu bem-estar e desenvolvimento
físico, psíquico e emocional se encontravam em risco por influência do meio
social, e onde se incluíam os casos definidos por lei, relativos aos sistemas
de promoção e protecção e tutelar educativo. Como refere Santos (2001), as mais
recentes (re)configurações do tecido social português assentam em patamares que
são, simultaneamente, de sobreposição e de integração numa dada comunidade, mas
também de fragmentação social pelas pertenças paralelas a diferentes grupos, de
massificação e ao mesmo tempo de individualização, de selecção e exclusão
social. É a gestão complexa das associações nestes diferentes patamares em
torno de diferentes pertenças que surge como um dos riscos mais importantes a
que importa atender quando se centra o olhar na infância. Assim sendo, para
este estudo levantaram-se as seguintes questões orientadoras:
* que representações da(s) infância(s) em risco social surge(m) representada(s)
na imprensa diária em Portugal?
* que situações nacionais e internacionais emergem nessas peças?
* quais os contornos da sua construção por jornal?
Pela necessidade de procurar leituras dinâmicas da realidade social, na
operacionalização da investigação articularam-se metodologias quantitativas com
outras de carácter mais qualitativo, ainda que neste artigo a apresentação de
resultados se centre apenas na abordagem quantitativa de algumas das áreas
abordadas.
Aspectos metodológicos
Como procedimento prévio à recolha e à sistematização da informação, optou-se
por criar um quadro categorial cuja definição de variáveis e respectivas
modalidades resultou de pesquisa bibliográfica sobre as problemáticas em
estudo, tendo sido estabelecidas duas dimensões de análise: uma relativa ao
estilo jornalístico das peças, cujas variáveis são comuns aos restantes temas
da investigação mais alargada;
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outra de carácter sociológico, na análise dos riscos sociais apresentados a
partir dos traços de caracterização dos contextos e das crianças neles
retratadas.
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Com vista à recolha dos dados levada a cabo por uma técnica da área das
ciências da comunicação seleccionaram-se as peças de informação e de opinião
nas edições diárias dos quatro jornais que focavam situações e eventos que
envolvessem directamente crianças, com idade até aos 18 anos, na qualidade de
protagonistas ou quando afectados pela intervenção directa de algo ou de
alguém. Foram também considerados estudos, estatísticas e outros conteúdos
sobre a situação da infância. Uma vez que a tendência gráfica dos jornais é
para uma fragmentação da informação pela página, agregando à peça chamadas,
destaques, gráficos e outros estímulos visuais, houve que dar uma particular
atenção ao processo de delimitação da unidade de redacção. Desta forma, a
delimitação da peça aqui definida como unidade de redacção e de contagem
decorreu da autonomia do seu conteúdo: informação ou comentário sobre um
determinado tema. Um mesmo material de base, de carácter informativo, ainda que
apresentado em textos separados, foi contabilizado apenas uma vez quando teve
por base a mesma forma de tratamento noticioso, o que permite que seja possível
sublinhar o espaço que lhe foi atribuído nos jornais. Neste caso, a peça é
identificada pelo título principal. De assinalar que foram excluídos desta
opção os textos jornalísticos de opinião (comentários de colunistas,
editoriais, etc.), de forma a que fosse possível dar conta de um tipo de texto
de carácter diferente do informativo, que avalia ou comenta a situação. Essa
unidade de redacção foi contabilizada singularmente e apresentada como
conectada à unidade informativa.
De acordo com os critérios definidos seleccionou-se o ano de 2005, considerando
todas as edições dos jornais compreendidas entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro.
Na sequência da codificação previamente estabelecida, os dados de 5421 peças
recolhidas foram introduzidos pela mesma técnica numa base informática em SPSS.
O tratamento da informação ficou a cargo das autoras deste artigo que, para
tal, seleccionaram as peças existentes sobre o risco social (2161) e, após
vários procedimentos de validação dos dados recolhidos, inclusivamente através
da consulta das próprias peças, procederam ao tratamento da informação, numa
primeira fase, pela análise estatística univariada e bivariada (tabelas
cruzadas simples). Num segundo momento, e à luz dos resultados obtidos nas
anteriores análises, procedeu-se à estatística multivariada (ANDAD). Dada a
natureza das variáveis (nominais), optou-se pela análise factorial de
correspondências múltiplas, que evidencia a estrutura interna dos dados e o
modo como as variáveis se tendem a associar entre si: se numa perspectiva de
proximidade, quando é maior a probabilidade de haver uma associação, se de
afastamento, quando ocorre o contrário. A informação obtida é apresentada sob a
forma de gráficos factoriais que resultaram da análise e da selecção das
variáveis estatisticamente significativas, tendo em linha de conta a variância
explicada pelos eixos, as contribuições absolutas e as contribuições relativas
de cada categoria (Lisboa e Roque, 2006). Assim sendo, ficou de fora um leque
considerável de indicadores estatisticamente menos pertinentes. O nível de
variância obtido foi elevado.
Ocorpusem análise
No conjunto dos quatro jornais, o tema risco social destaca-se claramente dos
restantes cinco, representando cerca de 40% do total das peças recolhidas.
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Seguem-se os temas educação (23,9%), comportamentos, culturas e consumos
(11,4%) e saúde, assistência e população (10,9%), prevenção e segurança
(8,4%) e insólitos e fait-divers (5,5%).
Para todos os jornais, o risco social é o mais representado: perto de metade
das peças no CM (48,4%), à volta de um terço no DN (33, 8%), e valores próximos
no PB (36,8%) e no JN (34,4%). No entanto, quando se passa à estatística
bivariada (tabelas cruzadas simples), observando a diferença entre valores
obtidos (N) e esperados (VE), regista-se que o CM é o único onde o risco
social aparece sobrerrepresentado.
Em todos os jornais a educaçãosurge em segundo lugar, ainda que no PB, no DN
e no JN se verifique a sua sobrerrepresentação. É no PB (32,9%) que se
encontram os valores mais altos, seguindo-se o DN (27,8%) e o JN (27,1%). No CM
(14,6%), a sua expressão é muito mais baixa e os valores obtidos ficam
significativamente abaixo do esperado.
O terceiro tema no corpus diz respeito a comportamentos, culturas e consumos.
Contudo, só no DN e no JN aparece, de igual modo, em terceiro lugar, e em ambos
ligeiramente acima do esperado. No PB aparece na quarta posição, depois das
peças sobre saúde, assistência e população, e no CM em quinto, a seguir às de
saúde, assistência e população e às de prevenção e segurança.
Se bem que os dois temas mais representados no corpus, risco social e
educação, surjam numa mesma ordem nos quatro jornais, a sua variação em
termos de peso relativo, assim como a diversidade de opções relativamente às
restantes categorias, aponta para a existência de linhas de orientação
editorial diferenciadas: se no CM é o risco social que se evidencia, nos
restantes é a educação.
Quadro 1 - Distribuição das peças por tema principal, por jornal
Passando a centrar o interesse apenas nas 2161 peças sobre risco social,
19,3% são do PB, 13,3% do DN, 23,6% do JN e 43,7% do CM. Esta variável abrange
doze temáticas definidas em função da natureza dos problemas sociais que lhes
estão associados, tendo como pano de fundo, em larga medida, o definido nos
quadros legais reportados à condição da infância em Portugal (figura 1).
Figura 1 - Risco social: distribuição das peças, por categorias
Fonte: Projecto "Crianças e Jovens em Notícia", Carvalho (2007).
Existem três temáticas que claramente se distanciam das restantes,
correspondendo, em conjunto, a 74,1% do total: violência sexual é a mais
representada (27,4%), seguida da delinquência (24,1%) e das negligências,
maus-tratos e abandono (22,7%). Por ordem decrescente do valor percentual
manifesto surgem depois as categorias de vítima de guerras e/ou catástrofes
naturais, criança objecto de disputa, funcionamento do sistema de
protecção, crianças em instituição, outros riscos sociais, pobreza,
tráfico de crianças, adopção e trabalho infantil.
Esta definição de categorias resultou de um processo prolongado no tempo, em
que se levantaram algumas questões nem sempre fáceis de ultrapassar. A mais
complexa diz respeito à necessidade de colocar lado a lado duas linguagens, a
jornalística e a jurídica que, debruçando-se sobre uma mesma realidade,
recorrem a diferentes ângulos de observação, não sendo sempre coincidente o uso
dos mesmos termos. Este foi um problema detectado em situações noticiadas pelos
jornais, como maus-tratos ou negligências que, juridicamente, configurariam
situações de outra natureza. Ainda que não se pretendesse uma análise da
informação estritamente centrada nos quadros legais vigentes, a sua importância
para a qualificação dos casos é determinante, não só para o estabelecimento de
prioridades como para a percepção dos contornos da realidade social. Assim,
teve de se agregar numa só categoria as negligências, os maus-tratos e o
abandono, casos que juridicamente são diferentes, mas cuja análise se revelava
difícil de obter em separado pela não coincidência de significados. Optou-se,
logo à partida, por daqui excluir os actos com cariz sexual explícito na
notícia, incluindo-os noutra, a de violência sexual, por se tratar de
situações em que à violência física e/ou emocional se sobrepõe uma de natureza
sexual.
Quadro 2- Risco social: temáticas, por jornal
Fonte: Projecto "Crianças e Jovens em Notícia", Carvalho (2007)
Recorrendo à estatística bivariada (tabelas cruzadas simples) para conhecer a
distribuição das temáticas por jornal, a violência sexual, apesar de ser a
categoria mais expressiva em termos absolutos, é também sobrerrepresentada, no
PB (30,6% do seu total) e no CM (28,8%). Em termos globais, a segunda é a
delinquência, muito acima dos valores esperados no JN (29,7%). Tanto no PB
(20,8%) como no CM (24,7%) surge como segunda temática, enquanto que no DN
ocupa o terceiro lugar. Digno de registo, o facto de no CM o número de peças
sobre este tema ficar dentro dos valores esperados e abaixo no PB e no DN. A
terceira mais representada no geral é a de negligências, maus-tratos e
abandono. No entanto, para o DNocupa uma posição de destaque com o primeiro
lugar no total das suas peças (29,3%); para os restantes, é o terceiro tema
mais abordado, ainda que no PB acima dos valores esperados, enquanto nos outros
dois acontece o inverso.
O tsunami no Sueste Asiático no final do ano de 2004 acaba por se reflectir nas
notícias centradas na categoria vítima de guerra e/ou catástrofes naturais, a
quarta mais expressiva, ainda que com valores muito distanciados das três
primeiras. Mais de dois terços destas peças dizem respeito a situações
decorrentes desse acontecimento, sendo muito poucas as relativas a guerras,
essencialmente em países africanos, ou de catástrofes naturais em diferentes
pontos do globo. Para os jornais de referência (PB e DN) esta categoria assume
a quarta posição, no JN está fora dos cinco primeiros lugares e no CM é a
quinta.
A seguir surgem as peças sobre crianças objecto de disputas, fundamentalmente
por parte de familiares. Independentemente do jornal, trata-se de uma categoria
em que para cada caso abordado foi, tendencialmente, identificada mais do que
uma peça. Nota-se uma preocupação sobre a evolução dos processos, iniciando-se
a abordagem com uma descrição ou denúncia, ao que se seguem outras notícias
durante as semanas seguintes, que relatam o desenrolar do caso até se chegar a
uma aparente resolução. Em alguns, fica-se por um impasse, deixando então de
constituir motivo de atenção. De entre estes, realça-se que um dos mais
mediatizados em 2007 Esmeralda tenha sido objecto de notícia em 2005, na
altura com destaque para a decisão judicial de entrega da menina ao pai
biológico, sugerindo-se como ilegal o processo de acolhimento anterior. O CM é
o jornal que mais destaque dá a este tipo de abordagem, tendo-o como quarto
tema mais representado. Em todos os outros não está sequer nos cinco primeiros
lugares.
Numa primeira leitura salienta-se que o PB e CM apresentam as três primeiras
categorias na mesma ordem, tal como elas se apresentam em termos globais,
variando nas duas seguintes. O JN coincide na escolha do segundo tema com o DN
e na do terceiro com PB e CM, mas varia em todos os outros, sendo o único que
apresenta uma não representada pelos restantes na quinta posição. O DN não
coincide com qualquer outro jornal na ordem de representatividade dos seus
primeiro e terceiro temas, mas apresenta no quarto e quinto lugares o mesmo que
o PB. Globalmente, dos doze temas, sete aparecem nas cinco primeiras posições
dos jornais, por diferentes ordens. Não se pode dizer que existe uma clara
separação entre jornais de referência e populares na medida em que foram
detectadas opções que ora aproximam, ora separam individualmente uns dos
outros.
A distribuição das peças ao longo do ano não aconteceu de modo regular,
registando-se grandes oscilações de um mês para outro, em larga medida devido à
visibilidade que uns casos vieram a obter no tratamento noticioso em detrimento
de outros. De entre estes, um dos que terá suscitado uma maior continuidade nos
quatro jornais terá sido o caso Joana, em fase de julgamento durante 2005.
Realce para o facto de as comemorações do Dia da Criança (Maio-Junho) e a
proximidade do Natal (Novembro-Dezembro) constituírem os pólos de atracção para
a apresentação de um número superior de notícias. O elevado número de peças em
Novembro está fortemente associado à violência urbana em França, que mobilizou,
por semanas, a atenção dos jornalistas e do público, sobretudo do DN e PB.
Figura 2 - Risco Social: distribuição das peças dos quatro jornais, por meses
Fonte: Projecto "Crianças e Jovens em Notícia", Carvalho (2007).
Alguns temas mantiveram-se sempre sob o alvo de especial olhar, constituindo
importante foco na construção das peças em todos os jornais. Salientam-se,
neste ponto, as notícias sobre violência sexual, presença constante e regular
sobretudo na exposição ou denúncia de casos, mais o processo Casa Pia, objecto
de maior atenção quando se tratou do início dos depoimentos das vítimas.
O maior número de peças em Janeiro deveu-se bastante ao tsunami ocorrido no
final do ano anterior, dominante em todos os jornais. Seguindo um pouco o que
as estatísticas oficiais sobre crianças em risco dizem, também aqui se nota uma
quebra acentuada no período do Verão, como se estas situações se resolvessem
por si mesmas ou desaparecessem nesta altura. Tal poderá evidenciar um ritmo
sazonal, ao qual não será indiferente a coincidência com o final do ano
lectivo, altura em que muitas crianças acabam por ficar remetidas a uma esfera
de menor visibilidade social. Levanta-se a questão de saber até que ponto as
denúncias ou sinalizações não estarão mais restritas a determinadas entidades,
grupos ou figuras que nesta altura se encontrarão ausentes. É de questionar se
este silenciamento, que em larga medida corresponderá a uma não exigência por
parte dos leitores, não é, por si mesmo, um factor de uma certa alienação na
sociedade portuguesa relativamente à dificuldade de olhar de frente e assumir a
sua quota de responsabilidade sobre os contornos de exclusão social que, ainda
hoje, marcam parte da condição da infância em Portugal (Carvalho e Serrão,
2008).
Maioritariamente, as peças em estudo são relativas ao contexto nacional
(70,9%). Existe uma sobrerrepresentação de notícias de âmbito internacional no
DN e o inverso no JN. Negligências, maus-tratos e abandono, violência
sexual, delinquência, crianças em instituição e funcionamento do sistema
de protecção encontram-se sobrerrepresentados nas de âmbito nacional, ao passo
que pobreza, trabalho infantil, tráfico de crianças e vítimas de
catástrofes e guerras situam-se significativamente no internacional.
Cerca de um terço das peças não são assinadas (32,6%). Quando assinadas por
jornalistas sobrepõe-se ligeiramente o sexo feminino, ainda que existam certas
diferenças por temas. Tal é o caso da delinquência, onde a maioria que assina é
do sexo masculino. Nas participações externas (leitores e colunas de opinião)
são os homens que aparecem mais representados. Relativamente à localização de
peças em página aberta, evidencia-se o DN nas manchetes e o CM nas que aparecem
na última página.
Caracterização das peças
Pela análise multivariada procurou-se detectar quais as principais associações
entre as problemáticas e os contornos das peças no que diz respeito ao género
jornalístico, âmbito nacional/internacional, extensão por parágrafos,
hierarquia na página, localização em página aberta e em página interior,
assinatura, valorização gráfica, número de fontes e óptica de investigação.
9
À luz dos resultados obtidos na estatística bivariada, e atendendo às
exigências técnicas da análise factorial de correspondências múltiplas, houve a
necessidade de proceder à condensação de informação relativa a diversas
variáveis. Efectuaram-se várias operações de agrupamento das categorias nas
variáveis em causa, de modo a construir-se um corpo de dados simultaneamente
consistente de um ponto de vista estatístico e coerente para a análise
sociológica. Neste processo, salienta-se a recodificação da variável
problemáticas que passou a contemplar apenas cinco categorias.
10
Numa primeira leitura do gráfico (figura 3) e das contribuições de cada
categoria, o que mais se evidencia, no plano inferior do lado esquerdo, é que o
risco social poucas vezes foi abordado na forma de trabalhos de investigação
com seis ou mais fontes, em mais de 20 parágrafos ou numa página. A modalidade
mais próxima deste tipo de abordagem é a das negligências, maus-tratos e
abandono, e num plano inverso as de violência sexual e delinquência.
Figura 3- Risco social: problemáticas e caracterização das peças
Legenda: NMTA ' negligências, maus-tratos e abandono; VSEX ' violência sexual;
DELQ ' delinquência; CJSP ' outros temas com intervenção do sistema de
protecção (adopção, crianças em instituições, funcionamento do sistema); RSOU '
outros riscos sociais; NAC ' nacional; INT ' internacional; notb ' notícia
breve; notc ' notícia; invj ' peça de investigação jornalística, entrevista ou
reportagem; gout ' outros géneros jornalísticos; manc ' manchete; cham '
chamada de primeira página; ulpg ' última página; Sass ' peça não assinada;
jorl ' assinada por jornalistas; coln ' peça de colunistas ou personalidades
externas ao jornal; leit ' peça de leitores; agif ' agência de informação; imn
' elementos de valorização gráfica (foto e outros); fccr ' foto com crianças/
jovens; fscr ' foto sem crianças/jovens; puni ' peça única; ppri ' peça
principal; psec ' peça secundária; p>1p ' peça com mais de uma página; prun '
peça de um só parágrafo; p220 ' peça 2-20 parágrafos; p>20 ' peça com mais de
20 parágrafos; Sfon ' sem fontes referenciadas; foun ' uma única fonte; 6fo '
menos de 6 fontes; p=6 f com 6 ou mais fontes; bsl ' peça com busca de solução;
den ' peça de denúncia; exp ' peça de exposição de factos
Fonte: Projecto Crianças e Jovens em Notícia, Carvalho (2007).
Apesar das mudanças sociais significativas nas últimas décadas no país, que têm
contribuído para tornar visíveis situações que até recentemente tendiam a
permanecer ocultas, a verdade é que estes dados sugerem que a sua cobertura
jornalística ainda se encontrará sujeita a grandes dificuldades por,
precisamente nestas peças, se colocar em causa os fundamentos da vida em
sociedade e a ordem social estabelecida. Como é referido por diversos autores
(Sarmento, 2000; Ponte, 2005; Tomás, 2007), os problemas sociais da infância, e
em especial as outras infâncias atravessadas por estes riscos de natureza
diversa, nunca terão suscitado interesse especial, quer por parte da população
em geral, quer por parte dos próprios decisores políticos. Levanta-se a
interrogação de saber até que ponto a sua apresentação não se restringirá a
corresponder a esse não investimento sobre a infância que ainda marca sectores
da sociedade portuguesa, mais ainda quando os quadros e contextos sociais
retratados, bem como as crianças que são objecto de notícia, se encontram
claramente afastados de um ideal de bem-estar infantil que as sociedades
ocidentais tendem a desejar (Almeida, 2000).
A análise das projecções factoriais das cinco categorias permite confirmar
diferenças no tratamento da informação, designadamente uma oposição entre os
contornos das peças sobre delinquência, outros riscos sociais e violência
sexual e as sobre negligências, maus-tratos e abandono e crianças sob
intervenção do sistema de protecção. As primeiras situam-se do lado direito do
plano factorial e as segundas do lado contrário. Os atributos que possibilitam
melhor a distinção destes dois conjuntos são os descritos pelo eixo 1,
nomeadamente, a extensão por parágrafos, a localização no interior do jornal, a
assinatura, a óptica investigativa, a valorização gráfica e o estilo
jornalístico. A variável âmbito nacional e internacional não é conclusiva,
não permitindo a sua leitura.
Constata-se que a violência sexual tende a ser apresentada com recurso a uma
fonte única ou tem como voz as agências de informação, ficando pela exposição
de factos, ao passo que a delinquência, ainda que estando próxima dessas
modalidades, apresenta uma maior possibilidade de ser noticiada em peças
secundárias, não assinadas e sem fontes, sob a forma de notícias breves, em
parágrafos únicos ou noutros géneros jornalísticos, suscitando quer chamadas de
atenção de primeira página, quer a opinião dos leitores.
Negligências, maus-tratos e abandono e crianças sob intervenção do sistema
de protecção são temas mais próximos de ser abordados por colunistas/
personalidades exteriores aos jornais e de terem fotos com crianças, imagens e
elementos de infografia numa perspectiva de busca de solução para o problema
apresentado. São as peças que se apresentam em melhores condições de terem sido
objecto de um tratamento jornalístico mais diferenciado, estando também mais
próximas de um outro tipo representado na parte superior do mesmo lado, onde se
evidencia um padrão quase típico em termos de abordagem: notícias de denúncia
de situações assinadas por jornalistas, com imagens sem crianças, em peças
únicas ou principais, com menos de seis fontes e extensão entre dois e 20
parágrafos.
Quando se analisou a distribuição das peças por jornal, e considerando que a
representatividade no seio de cada um tem pesos diferentes, detectou-se que a
construção da peça no que diz respeito aos seus contornos (forma) é transversal
a todos sem grandes oscilações. Sempre que se introduzia a variável jornais na
análise multivariada, o nível de variância descia consideravelmente, obstando a
uma leitura discriminativa. Vale a pena indagar se esta aproximação não
resultará de agendas noticiosas similares ou antes de um arrastamento entre
jornais que se digladiam por melhores posições no mercado, não arriscando
desvios aos modos e processos já implementados na abordagem destes temas.
Sobressai a ideia de que, perante as mesmas problemáticas, o posicionamento das
redacções na criação das peças surge de um modo já consolidado, por muitas
diferenças que possam vir a ser, eventualmente, detectadas noutros campos.
Fontes
Globalmente, o número de peças que não apresenta fontes é de 28,5%. De entre as
que apresentam a expressão mais elevada refere-se a fonte única (36,3%) e a
seguir as que têm entre duas e cinco (29,8%). À medida que se avança nas
categorias e se passa para um número superior, o valor percentual manifesto cai
significativamente. Num primeiro olhar sobre o quadro 3, os jornais de
referência destacam-se por terem uma expressão maior de peças com fontes, ao
contrário dos populares. No entanto, quando se situa a análise bivariada na
fonte única, o comportamento dos quatro jornais fica dentro do esperado, todos
com valores aproximados no seu seio: PB e CM (37,1%), JN (36,9%) e DN (31,3%).
Quadro 3- Risco Social: número de fontes em peça, por jornal
Habitualmente considera-se que a existência de um maior número de fontes
tenderá a traduzir um confronto de opiniões e de conhecimento sobre as
situações noticiadas (Maropo, 2008). No entanto, na análise qualitativa viu-se
que nem sempre isto se reflectia no mais adequado esclarecimento ou
aprofundamento da informação. Por vezes, havia uma sobreposição de umas em
relação a outras, noutros apareciam descontextualizadas, agravando-se a
situação por serem aparentemente demasiadas para o tratamento registado.
Independentemente do jornal, as forças de segurança são as vozes mais ouvidas,
tendo o maior peso no PB (26,3%), seguindo-se o CM (24,7%), o JN (22,9%) e o DN
(20,9%). Seguem-se as fontes oficiais (estado), as segundas mais representadas
no PB (19,1%), DN (18,1%) e JN (11,7%) estando o terceiro lugar reservado para
organismos e figuras não oficiais: PB (17,7%), DN (17,4%) e JN (10,4%). O CM
foge a esta lógica tendo as vozes dos familiares em segundo lugar (11,6%) e as
do estado apenas em terceiro (9,7%).
Procurando perceber a relação entre o recurso a determinadas fontes, seu número
e as problemáticas apresentadas nas peças, recorreu-se à análise multivariada,
seleccionando para o efeito apenas as variáveis relativas a essas três
dimensões. Na delinquência e na violência sexual destaca-se a fonte única
ou nenhuma, enquanto que na negligências, maus-tratos e abandono e na
crianças sob intervenção do sistema de protecção tende a usar-se um número
maior. Esta última temática é a que fica mais próxima do recurso a seis ou mais
fontes. Estas diferenças justificam uma atenção mais aprofundada,
identificando-se uma dicotomia que coloca de um lado, isoladamente, as forças
de segurança como quase exclusivas em peças de fonte única sobre delinquência
e violência sexual, ao passo que do lado oposto se situam as restantes vozes,
relativamente próximas umas das outras, geralmente em diferentes associações às
problemáticas com excepção dos outros riscos sociais.
Notícias sobre negligências, maus-tratos e abandono têm mais presentes as
vozes da comunidade (familiares, vizinhos, elementos do meio próximo da criança
podendo estar incluída a própria) e as da justiça, quer num patamar de
informação oficial das instâncias judiciais, quer da parte de advogados. Poder-
se-á sugerir que em algumas se trata da fase inicial do caso a que terá
correspondido a intervenção das forças de segurança na sequência da denúncia;
noutras, a gravidade dos acontecimentos em si mesmos obrigou de imediato a uma
acção das instâncias judiciárias, o que também justificará a maior expressão da
comunidade próxima para um aprofundamento de informação. Por outro lado,
incluem-se também aqui processos em fase de julgamento no ano de 2005
reportados a situações anteriormente fortemente mediatizadas.
Nas peças onde a acção oficial do sistema de protecção se evidencia, as vozes
mais representadas são as do estado e as da justiça. Até um certo ponto, tal
não é de estranhar, atendendo à natureza das questões aqui englobadas: adopção,
acolhimento institucional, disputas familiares e funcionamento do sistema,
correspondentes aos patamares mais elevados da pirâmide de intervenção neste
campo. A proximidade com as categorias de mais do que uma fonte parece suscitar
que, apesar da maior representatividade de fontes oficiais, outras existirão,
ainda que com uma elevada dispersão. Finalmente, salientam-se as entidades não
oficiais, especialistas ou outras figuras, situadas num plano transversal aos
dois temas atrás abordados, aos outros riscos sociais e ao âmbito
internacional.
Este padrão de uso das fontes associado a cada problemática é comum aos quatro
jornais.
Traços de caracterização da criança
Quando se tentou traçar um perfil da criança objecto de notícia nestes temas,
constatou-se a existência de duas linhas de orientação: no tratamento de
violência sexual, negligências, maus-tratos e abandono, delinquência e
criança objecto de disputa existe uma sobrerrepresentação de situações
personalizadas, casos pessoais apresentados com maior detalhe; o tratamento de
pobreza, tráfico, vítima de guerras/catástrofes naturais, crianças em
instituição, trabalho infantil e adopção está mais centrado numa abordagem
em termos globais, não existindo uma tendência para a discriminação pessoal. A
pessoalização, mesmo constituindo uma violação do que se encontra legislado,
parece fundamental para dar um rosto a determinadas problemáticas, nomeadamente
as que envolvem, aparentemente, um maior grau de violência, ou aquelas em que o
desfecho da situação foi o mais trágico, seja com as crianças no papel de
vítimas, seja no de agressoras.
Da análise multivariada sobre este perfil emergiu uma condição específica de
vitimação. Cada problemática retratada nos jornais foi discriminativa em função
da idade e sexo, coincidindo, apenas até um certo ponto, com o que apontam as
estatísticas oficiais. No entanto, o dado mais significativo que daqui emerge e
que se tem de questionar prende-se com o facto de quase sempre só se
descreverem situações que têm origem em agregados familiares das classes
sociais mais desfavorecidas. Perpassa para o público a ideia que o risco social
se reflecte exclusivamente nestes estratos, quase não havendo menção a outros,
como se tais problemas ocorressem apenas junto de quem se encontra na pobreza
ou em alguma forma de exclusão social.
Negligências, maus-tratos e abandono apresentam, essencialmente, crianças até
aos cinco anos,
11
seguidas do escalão seis-dez anos, fundamentalmente, do sexo feminino. Actos
de violência sexual estão mais associados aos grupos dos 11-14 e 15-18 anos,
isoladamente ou em combinação entre si, com maior probabilidade de vitimação do
sexo masculino ou, em simultâneo, de ambos os sexos. Tentou perceber-se se tal,
em larga medida, não resultaria do tratamento noticioso relevante dado ao
processo Casa Pia, cujas vítimas se enquadram neste perfil. Pela sua
representatividade estatística acabou por se verificar que esta ideia, por si
só, não serve para explicar os graus de proximidade detectados entre estas
categorias, havendo um padrão geral da vitimação sexual que é objecto de
tratamento nos jornais, que segue estas tendências e que parece ocultar esta
problemática até ao início da adolescência.
Na delinquência identificou-se uma maior probabilidade de encontrar peças sem
marcas de idade e de sexo. Mais do que a individualização de casos é o conteúdo
enquanto problema social que se vê reflectido e debatido em maior ou menor
grau. O arrastão na praia de Carcavelos e a violência urbana em França são
temas onde se detecta a clara dificuldade dos jornais na sua abordagem, numa
oscilação de discurso que vai da perspectiva de responsabilização e
culpabilização dos autores à semelhança dos adultos, até ao patamar inverso, da
sua desculpabilização na qualidade de vítimas dos sistemas sociais.
Outro aspecto a destacar prende-se com os outros riscos sociais serem de
âmbito internacional. Temas como pobreza, trabalho infantil ou tráfico
são retratados, com uma forte incidência, a partir de situações no estrangeiro.
Mesmo nos poucos reportados do contexto nacional, o principal enfoque das
fontes é de carácter internacional (UNICEF, ONU ou entidades europeias). Apesar
de estes problemas afectarem Portugal serão mais abordados quando o foco de
atenção é considerado para além das fronteiras, como se caísse apenas nos
outros ou fosse mais grave no exterior do que internamente.
Risco social: crianças em notícia
Da análise efectuada constatou-se a importância do papel da imprensa na
sensibilização da comunidade para os problemas sociais que afectam a infância.
No entanto, certos temas como maus-tratos e abandono, violência sexual e
crianças objecto de disputas familiares parecem ter-se tornado alvos de
especial interesse por proporcionarem um terreno fértil para a manipulação de
emoções e de sentimentos (Martins, 2001; Penedo, 2003). São, sobretudo,
evocados argumentos de interesse humano, várias vezes com base num forte apelo
emocional, mas quase exclusivamente centrados nos estratos social e
economicamente mais desfavorecidos.
Um dos maiores problemas prende-se com a reprodução deste e de outros
estereótipos sobre a representação social da infância. Tende a ignorar-se a
multidimensionalidade dos problemas sociais (Boudon, 1979) e não se questiona a
sua transversalidade à estrutura social, nem se colocam em causa outras formas
de risco. Existe uma clara sobrerrepresentação das problemáticas de abuso
sexual e de mau-trato físico, ao passo que os abusos emocionais são
praticamente ignorados. A negligência que, sob as mais diversas formas,
estatisticamente é o problema que maior número de crianças afecta em Portugal,
é um objecto desvalorizado, a não ser quando resulta em tragédia. São várias as
manchetes e as chamadas de atenção de primeira e última páginas, baseadas numa
linguagem quase sempre afirmativa e imperativa, à qual se alia, muitas vezes,
um grafismo de uma certa violência, e quase inexistentes as peças nas secções
nacional ou política. Trata-se de uma representação de uma infância fragilizada
(da pré-modernidade), que tenderá a sair mais fragilizada pela exploração das
fragilidades alheias (Almeida, 2000).
Uma das principais conclusões deste estudo aponta para a existência de uma
tensão clara na conciliação do direito ao exercício da liberdade de informação
e do direito à intimidade e reserva da vida privada da criança, aliado ao
princípio da proporcionalidade que a Lei de Protecção e a Constituição definem.
Tal acontece com vários dos casos ao longo de 2005 e em que o da bebé de Viseu
será, eventualmente, o mais paradigmático, pelas sucessivas violações
concretizadas, não apenas de jornalistas, mas também de técnicos ou
especialistas ouvidos como fontes.
Existe um significativo número de peças sem fontes ou com fontes únicas, sem
outro enquadramento, denotando-se dificuldades no equilíbrio entre o revelar, o
denunciar e o expor e contextualizar. São problemáticas que suscitam uma
abordagem que coloca em causa o cerne das relações sociais e, por isso, os
cuidados com a sua contextualização deviam constituir uma prioridade. Nem
sempre o processo de denúncia respeita os princípios éticos e os direitos da
criança de forma a não se tornar também violador desses mesmos direitos, seja
pela forma ou pelos conteúdos apresentados. Aquilo que é somente uma suspeita
de mau-trato ou de abuso que carece de confirmação posterior, poucas vezes é
assim revelado. O maior número de peças centra-se no mero registo factual e as
violências e os desvios extremos tendem a sobrepor-se às notícias sobre
prevenção. Na construção de peças os quatro jornais apresentam poucas
diferenças e, para uma mesma problemática, tendem a criar o mesmo tipo de
peças, com excepção da delinquência onde se registam maiores diferenças. O CM
e o JN destacam-se por manifestaram uma maior diversidade de abordagens,
capazes de potenciar, eventualmente, um maior conhecimento sobre alguns dos
contornos da sociedade portuguesa que são ignorados no PB e no DN.
Em certas notícias detectou-se a exposição pública da criança pela divulgação
de informação e imagens que, de modo directo ou indirecto, possibilitam a sua
identificação. Noutras, as fotografias evidenciam-se como uma marca que se vê
promovida diariamente, uma espécie de logótipo usado não apenas para se dar
conta da evolução do caso, mas também como símbolo da infância em risco, numa
tendência para a sobreposição de um discurso que promove a necessidade de uma
condenação urgente de culpados que satisfaça a ordem e a moral estabelecidas,
ignorando muitas vezes o respeito pela própria vítima ou o valor da reparação.
De notar que nas peças sobre delinquência existe uma menor exposição pública de
agentes de ilícitos abrangidos pela Lei Tutelar Educativa (12-16 anos) e pelo
Regime Penal (16 ou mais anos) quando comparados com as crianças seguidas no
âmbito da Lei de Protecção. Sendo casos em que o ilícito, no âmbito desta
última lei, deve ser encarado como expressão do perigo em que o seu autor se
encontra, por isso mesmo em patamar de vitimação, acaba por se evidenciar uma
dupla vitimação, desta vez centrada no protagonismo da criança na qualidade de
agressora.
Na abordagem às questões não apenas jurídicas, mas fundamentalmente nestas,
transparece, em muitas peças, uma ausência de conhecimento adequado do(s)
jornalista(s) acerca do enquadramento da matéria. Emerge uma falta de clareza e
cuidado na linguagem, numa confusa referência a leis e a situações
diferenciadas com dificuldades na passagem de informação adequada. Um exemplo é
o uso da expressão Comissões de Protecção de Menores que desde 2001 existem
sob outro modelo e designação. Também é flagrante a confusão e sobreposição de
alguns conceitos por exemplo, abuso sexual e pedofilia como se de sinónimos
se tratasse. Estranha-se que, durante o período em análise, todos os jornais
tenham tido a capacidade de apresentar peças bem construídas para, logo a
seguir, sobretudo em casos de maior visibilidade ou gravidade, porem de lado
essas qualidades e cuidados no tratamento noticioso. Verifica-se que existiu um
padrão semelhante de erros cometidos, transparecendo a ideia de que sob maior
pressão se seguem uns aos outros sem que tenha lugar um maior questionamento
sobre as opções tomadas.
Os problemas sociais da infância parecem continuar a ser encarados em Portugal
como um problema social menor, de menoridade (Rodrigues, 1999), e este é um dos
aspectos que se vê traduzido nas páginas dos jornais. Nunca terão suscitado (e
eventualmente não suscitam ainda ) grande interesse da generalidade da
sociedade, ficando-se por uma certa superficialidade, um certo voyeurismo. Tal
verifica-se pela frágil e inconsequente pressão da opinião pública sobre o
poder decisor e as instâncias políticas para mudanças em termos de investimento
e de políticas sociais e também sobre a própria comunicação social pela escassa
participação dos leitores.
Termina-se este artigo com uma nota positiva, evidenciando o JN, que reflecte
nas suas páginas um mais elevado grau de participação do seu público. Como se
constatou na análise das notícias sobre a bebé de Viseu, relativamente à qual
todos os jornais cometeram o mesmo tipo de erros, da reflexão interna do corpo
redactorial articulada com a participação crítica e activa do público e de
personalidades exteriores, este jornal acabou por desenvolver um processo
reflexivo sobre a sua responsabilização e actuação nos factos que se prolongou
pelo início do ano de 2006. Acredita-se que este exemplo é demonstrativo de um
dos possíveis caminhos para que o tratamento noticioso sobre a infância em
risco em Portugal possa atingir uma maior credibilidade e um outro estatuto no
respeito pelos direitos das crianças.