Cumes no horizonte arquitectónico do século XX
DIÁLOGOS
CUMES NO HORIZONTE ARQUITECTÓNICO DO SÉCULO XX
Luiz Cunha*
O meu pai tinha um curioso hábito - que eu tentei seguir sem o mesmo êxito
porque, ao mudar de casa por várias vezes, fui perdendo os testemunhos
anteriores: ele gostava de marcar na ombreira de uma porta pequenos traços a
lápis correspondentes à altura de pessoas amigas que o visitavam, deixando
anotada a data da visita e o nome delas.1 Nesta mudança de século e de milénio,
tempo propício para, com o auxílio de espelho retrovisor, apontar ou corrigir o
caminho futuro, esta imagem da porta recordatória ajuda-me a consciencializar
que também na porta da minha memória traços fortes da experiência vivida
moldaram indelevelmente o arquitecto que procuro ser.
Como estou convicto de que só se transmite o que nos passa pelo coração,
propus-me descrever-vos aqui as ombreiras desse meu portal. E como no fim deste
trabalho senti algum benefício e satisfação, convido-vos também, sobretudo aos
mais novos, a iniciarem quanto antes a construção dessa porta, esperando que
por ela passem muitas e boas amizades ao longo da vossa vida.
Antes porém de iniciar a enumeração dos edifícios seleccionados, e para que
este exercício de memória não fique truncado em aspectos que reputo basilares,
refiro, a título complementar, duas áreas de actividade arquitectónica que
podem ser consideradas como fazendo parte do húmus fértil em que as diversas
obras se nutriram:
· os planos urbanísticos que anteciparam a imagem da cidade moderna;
· os projectos de edifícios que não se construíram, arquitecturas de papel, que
nem por isso deixaram de marcar e influir os caminhos percorridos pelas obras
concretizadas.
O planeamento urbanístico
A Carta de Atenas (1933), documento emanado de um grupo de arquitectos,
sobretudo europeus, que na década de 30 se reuniu várias vezes em congressos
conhecidos sob a sigla CIAM, para confrontarem experiências e divulgarem
princípios técnicos, sociais e artísticos comuns, foi indiscutivelmente um
momento historicamente relevante.
Redigida a "carta" a bordo de um barco sulcando o Mediterrâneo, na primavera de
1933, a caminho de um dos locais fundacionais da velha Europa, os congressistas
simbolicamente reivindicavam os laços de família que as novas obras assumiam
como laços genealógicos.
Produto de uma atitude de pensamento jovem e idealista, sem o peso dos
compromissos da práxis ditada pelas confrontações provadas no terreno, foi a
Carta de Atenas o justificativo para muitas realizações de nível duvidoso, se
não mesmo negativo, que macularam a Europa, sobretudo no período de
reconstrução posterior a 1945. Mas também foi o passaporte para um punhado de
projectos e obras que marcaram o melhor que o século findo nos legou no esforço
de pensar a vida das comunidades humanas na sua expressão urbana racionalizada
e poeticamente bela.
As cidades novas
· Brasília, de Lúcio Costa e Niemeyer, 1960/70;
· Chandigarh, de Le Corbusier e Pierre Jeanneret, 1950.
Ambas, curiosamente, construídas fora da Europa, foram oportunidades raras de
concretizar e testar princípios organizativos previstos no documento de Atenas.
Apesar dos pontos discutíveis que sempre se poderão apontar a estas realizações
e a outras de menor dimensão - segregação de actividades, ao contrário do que
se passa nas cidades históricas onde as actividades se apresentam sintetizadas,
constituindo porventura uma das principais vantagens da organização urbana -,
são inegáveis "cumes" do pensamento urbanístico do século XX. Como pontos
positivos a credenciar à Carta de Atenas haveria ainda que anotar os diversos
planos, não executados, mas difundidos em publicações e conferências,
nomeadamente de Le Corbusier, de que recordamos sem preocupação de ser
exaustivos: Alger, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Bogotá,
Saint-Dié, La Rochelle-Pallice e, por fim, Marselha, de que um único edifício,
que adiante referiremos, ficou marcando a dimensão utópica, mas
indiscutivelmente fascinante dos planos do velho "capitão", a quem não custa
chamar "o arquitecto do século".
Ainda no domínio do pensamento urbanístico prospectivo e fazendo também a
transição para a "arquitectura de papel", uma referência rápida às utopias
metropolitanas dos anos 60, protagonizadas sobretudo pelos ingleses do grupo
"Archigram" e pelos japoneses "metabolistas", passando, nos anos 80, às imagens
sedutoras de um retorno ao espírito clássico e tradicionalista, que tão
sugestivamente difundiram os desenhos de Leon Krier.
A "arquitectura de papel"
Com a força da ideia pura que não sofre a usura da materialização degradável e
comprometida, foi, como disse, uma forte componente da evolução arquitectónica
verificada no século que estamos a recordar. Os exemplos poderiam ser muitos e
igualmente notáveis, mas cito três que marcaram o meu próprio imaginário e
certamente de muitos colegas da minha geração, e não só.
· O arranha-céus de vidro, de Mies Van der Rohe em Friedrich-Strass, Berlim,
1919, com os seus cunhais aguçados como lâminas e translúcidos como cristais.
· Algumas obras do construtivismo russo dos anos 20, de Chernikov e outros, com
a imagem, ingenuamente idealizada, de um paraíso industrial portador de
felicidade terrena a ser vivida num mundo de leveza e transparência
. · O projecto para a sede da Sociedade das Nações, em Genebra, de Le
Corbusier, 1927, antecipando, de modo definitivo, a morfologia da arquitectura
corporativa do nosso tempo.
· Entre muitas outras possíveis, lembro ainda a Sinagoga Hurva, em Jerusalém,
de Louis Kahn, 1960. Obra esta que, em nome do património mundial, se
justificava ver concretizada se os critérios de paz e de concórdia algum dia
vierem a consumar-se nessa terra conturbada que é também um lugar primogénito
da civilização ocidental.
Doze obras construídas
Vamos pois ao tema desta comunicação, que consta das marcas (cicatrizes,
talvez) da minha porta.
Seleccionei doze obras construídas que me parecem fundamentais para
caracterizar o século de rupturas e continuidades que estamos deixando para
trás. Como todas as escolhas, é uma selecção discutível com que muitos poderão
estar em desacordo. Poderá, por exemplo, notar-se a ausência de obras de Mies
Van der Rohe, ou a pouca representatividade concedida a Aalto ou Wright. Mas é
a minha escolha e, como tal, peço que a compreendam, sabendo que não nego a
ninguém o direito e a legitimidade de outras opções.
Começo, pois, por enumerar as mais recentes, caminhando em direcção às mais
antigas, já que a memória, ao enfraquecer, tem de apoiar-se na técnica dos
escoteiros para reconstituir o caminho de regresso ao acampamento, deixando na
floresta um rosário de marcas assinalando a passagem.
(1) Pavilhão de Portugal na Expo 98, em Lisboa, do nosso colega Siza Vieira
É a primeira obra que encontro. Na realidade são duas construções justapostas:
o palácio e a tenda. Poderemos multiplicar as oposições dialécticas: o cheio e
o vazio; o público e o privado; o contido e o aberto; etc.
Sobretudo o espaço, sob a cobertura suspensa na sua ambiguidade de "forma mole
- petrificada", cria uma tensão que impressiona fortemente quem dela se acerca.
Indiscutivelmente é um edifício que ficará para a história.
(2) Museu Guggenheim de Bilbau, por Frank Gehry, 1997
Neste caso, o que mais surpreende, e que constitui um notável exemplo a reter,
é o grau, até então impensável, da liberdade assumida pelo autor. A capacidade
de subverter a imagem tradicional da construção nunca tinha sido levada a tais
extremos. As conotações metafóricas são inúmeras e complexas: flor de metal;
explosão acidental de maquinismo gigante; escultura informalista à escala
urbana, etc. Pessoalmente, há nesta obra algo que me atrai e repele
simultaneamente. Qualquer coisa de semelhante com o que se passa com a luz do
raio durante a trovoada - luz bela mas que não serve para alumiar o caminho na
noite.
(3) Apartamentos em Makuari, Tóquio, de Steven Holl, 1996
Este conjunto habitacional prova que não é necessário renunciar à imagem da
cidade tradicional para inovar positivamente na composição dos espaços urbanos.
A teoria dos elementos "passivos" e "activos" na morfologia do corpo citadino
que o autor refere, revela uma aguda percepção do modo como vivemos os espaços
que habitamos. Neste exemplo, o pano de fundo dos grandes contentores
"silenciosos", contrapostos às pequenas construções de coloridos cativantes e
formas surpreendentes, ajudam a criar uma tensão altamente expressiva.
Ao fim e ao cabo reconstitui-se o modelo da cidade histórica com os seus
monumentos pontuando a trama de ruas e praças moldadas pelo casario anónimo.
Neste nosso tempo, em que alguns defendem a grande dimensão e o gigantismo como
garantias da vitalidade social e económica da cidade futura, o exemplo do
bairro de Makuari oferece uma alternativa muito válida, que obriga a pensar se
não há alguma futilidade ou, pior ainda, oportunismo economicista, nas teorias
defendidas pelo neoliberalismo urbanístico dominante.
(4) Sede do Banco Hong Kong e Shanghai, de Norman Foster, 1985
Hesitei na escolha deste edifício. Praticamente contemporâneo do Centro
Pompidou em Paris, ele é também um reflexo indirecto da arquitectura utópica,
virtualmente difundida em desenhos, do grupo inglês Archigram, nos anos 60.
Optei finalmente por incluir a obra de Foster, por esta, a meu ver, evitar o
equívoco de uma simples acumulação de peças fabris sem relação entre si nem com
o ambiente envolvente, como acontece com o edifício parisiense. O Banco de Hong
Kong, exibindo, igualmente de forma ostensiva, a sua estética "mecanicista" e
industrial, não deixa de lhe emprestar a mais-valia de uma forte presença
escultórica com fortes analogias metafóricas com a anatomia humana no que ela
pode ter de fisicamente mais exaltante, isto é, na sua exibição ginástica e
desportiva. O edifício, ainda hoje, apesar de rodeado de gigantescos novos
vizinhos que o confinam e diminuem, num contexto típico das explosivas cidades
asiáticas, representa um momento de alta dignidade, que se impõe, não pela
grandeza do volume, mas pela subtil articulação das suas formas.
(5) Ampliação da Staatsgalerie em Estugarda, Alemanha, de James Stirling
e Michael Wilford, 1984
Na calmaria das águas paradas em que navegava a arquitectura dos anos 70,
começou a tornar-se evidente, para alguns espíritos mais atentos e lúcidos, a
necessidade de rever os pressupostos teóricos do chamado "movimento moderno",
então quase exclusivamente atolado numa prática predominantemente utilitarista
e de pouca ou nenhuma atenção à melhoria das condições habitacionais, à
salvaguarda dos valores do passado e à qualificação estética da construção.
Como frequentemente acontece, na gestação de movimentos reformadores, sejam
eles artísticos ou não, grande parte das boas intenções soçobravam em
futilidades superficiais e nada convincentes.
Creio que não foi o caso do Museu de Estugarda, obra polémica, sem dúvida, mas
com um indiscutível poder de síntese de elementos, simultaneamente evocadores
de um passado clássico e coerente com um espírito contemporâneo, reflectindo o
carácter industrial da técnica em uso, sem excluir as preocupações artísticas
que definem a arquitectura perene. Para mim, o Museu de Estugarda foi uma das
obras chave do século que estamos a encerrar e que melhor o retrata na
multiplicidade das suas facetas negativas e positivas.
(6) Edifício principal da Escola Politécnica de Otaniemi, Finlândia, de Alvar
Aalto, 1964
Poderiam ser vários os edifícios de Aalto a ilustrar os pontos altos da
arquitectura do século XX. Escolhi a escola de Otaniemi por uma simpatia
pessoal por esta obra. Tratando-se de responder a um programa de espaços para o
ensino politécnico em que se misturam aulas teóricas e práticas, o que por
vezes conduz a soluções estereotipadas, em Otaniemi tudo é articulado com
grande fluidez e variedade. Destaca-se, como elemento aglutinador do conjunto,
o anfiteatro maior com a sua particularíssima luz sabiamente doseada e a
curiosa solução de a cobertura servir também como hemiciclo ao ar livre,
transformando parcialmente o terreno natural em proscénio, à maneira dos
teatros clássicos gregos da antiguidade. O efeito da luz conduzida para o
interior por clarabóias e superfícies reflectoras é de tal modo bem conseguido
que a mesma solução pôde ser igualmente utilizada em igrejas e edifícios
religiosos com igual êxito.
A actividade de estudo que no auditório da escola de Otaniemi se processa
beneficia assim de uma mais-valia espiritual que raramente se consegue em
construções para o ensino.
(7) Torre Velasca em Milão, do Grupo BBPR: Banfi, Belgiogioso, Peressutti,
Rogers, 1958
A propósito do Museu de Estugarda falei na revisão dos cânones modernistas que
essa obra documentava, mas a verdade é que essa reflexão crítica já
anteriormente vinha sendo tentada de diversos modos e com resultados de
diferente valor. Na Itália dos anos 50 foi particularmente fecundo o labor dos
que reconheciam a necessidade de não fechar os olhos à herança histórica do
passado, tentando compatibilizar a nova dimensão urbana com o tecido citadino
moldado pelo tempo. O desafio que a Torre Velasca empreendeu foi, nada menos
que, o de compatibilizar, num todo coerente e harmónico, o "arranha-céus"
típico da actividade terciária contemporânea com a morfologia do edificado
medieval ou renascentista.
Esta obra, hoje pouco recordada, parece-me ter representado um papel muito
válido e digno de estudo.
(8) Convento de Sta. Maria de la Tourette, em Lyon, França, por Le Corbusier,
1957
Esta obra, tardia na vida agitada e rica de Le Corbusier, reflecte, a meu ver,
muitas das preocupações do velho mestre, em domínios que vão do urbanismo à
habitação unifamiliar, traduzidas, na presente oportunidade, em fórmulas
expressas na dialéctica indivíduo-comunidade. Trata-se de uma obra tecnicamente
amadurecida, onde a imaginação se abre às moções do espírito. O convento é,
para além da função primária a que responde, um paradigma brilhante na sua
aparente modéstia, testemunhando como a arquitectura pode, em momentos felizes,
sintetizar no espaço limitado de poucas paredes todo um mundo humano banhado
pela harmonia que só o sentimento da transcendência pode assegurar. Eu diria
que o Convento de La Tourette foi a grande herança que Le Corbusier legou às
gerações que o seguiram, pois estão ainda longe de ser totalmente avaliadas as
virtualidades que encerra.
(9) Ópera de Sydney, Austrália, de Jorn Utzon, 1957/68
Os recentes Jogos Olímpicos de Sydney foram ocasião para divulgar à escala
mundial um edifício estranho e original que certamente uma minoria do público
conhecia, mas que desde há cerca de quarenta anos vem sendo objecto de
admiração e apreço de muitos arquitectos.
Trata-se, como é vidente, da sala de espectáculos da Ópera de Sydney. Situado
num lugar de eleição - uma plataforma artificial prolongando dramaticamente uma
pequena ponta de terra no meio do multi-recortado porto de mar da cidade -, o
edifício recorta a sua silhueta de veleiro branco no céu austral. Projecto
escolhido em concurso internacional, onde a proposta do arquitecto dinamarquês
Jorn Utzon pouco mais era que um belo apontamento rabiscado nervosa e
apressadamente, a sua construção deu origem a inúmeras peripécias, em que não
faltou a queda do governo responsável pela escolha da solução. Numa época em
que as telecomunicações estavam longe do desenvolvimento que hoje têm e os
transportes aéreos de longa distância eram difíceis, a obra correu várias vezes
o risco de ser interrompida e o autor acabou mesmo por abandoná-la, deixando os
responsáveis locais com o embaraçoso encargo de a terminar, declarando que do
seu ponto de vista pouco haveria a perder uma vez que "as ruínas também podiam
ser belos monumentos como o provavam as do Egipto ou do México".
Obra ímpar e insuperada ainda hoje, a Ópera de Sydney, para mim, será sempre a
certeza de que a arquitectura do século XX não foi inferior ao melhor que a
antiguidade clássica nos legou.
(10) Bloco residencial "Unidade de Habitação", em Marselha, França, de Le
Corbusier, 1946
Trata-se de um edifício paradigmático do tipo de módulos residenciais que
deveriam constituir os elementos base das cidades novas preconizadas por Le
Corbusier nos seus planos concebidos segundo os critérios programáticos da
Carta de Atenas e elaborados em frenética sequência como resposta à
reconstrução pós-bélica francesa, a partir de 1945.
Neste edifício, cuja população equivalia à de uma pequena aldeia rural da
época, às células habitacionais (vinte e tal modelos diferentes) juntavam-se as
instalações de apoio da função residencial, correspondendo às necessidades
primárias - comércio diário, jardim infantil, salas de reunião de condóminos,
ginásio, arrecadação de velocípedes e pouco mais. O comércio localizava-se ao
longo de uma rua interna situada a meia altura do prédio, isto é, desligada do
solo natural, o que originou de início fortes críticas dos utilizadores. Hoje,
ocupados esses espaços, a solução parece menos condenável. No entanto, a
dimensão urbana do empreendimento continua comprometida por falta de um espaço
público centralizado onde as actividades cívicas e políticas (Le Corbusier era
algo céptico nestas matérias) se possam realizar. Resta válida a extraordinária
força plástica da obra, como genuína criação artística demonstrativa de uma
visão generosa e optimista da cidade futura.
(11) Casa da Queda de Água, EUA, de Frank Lloyd Wright, 1937
Viver plenamente mergulhado na natureza selvagem e aparentemente virgem foi
sempre uma aspiração romântica do homem. Esta ideia está cada vez mais
comprometida pelas estruturas impostas pela vida comunitária.
Tal como em épocas anteriores, pelos mais diversos meios e formas, os
arquitectos tentaram dar corpo a este sonho. O século XX ensaiou também as suas
soluções.
Wright tentou resolver as contradições implícitas em tal objectivo usando, no
entanto, meios diferentes e, sobretudo, apoiados na sua enorme capacidade de
imaginação plástica. Em vez de recorrer ao tema das transparências vítreas,
optou pela disposição livre e sabiamente orquestrada dos volumes pesados e
opacos apoiados em suportes escondidos que criam a ilusão de aqueles voarem sem
peso próprio. A escolha do local, precisamente num terreno acidentado e com uma
passagem de água, que em condições normais seria rejeitado como terreno de
construção, dramatiza o empreendimento de modo único e fascinante.
(12) Parque Guell, Barcelona, por António Gaudi, 1914
Termino a lista que me propus apresentar não com um edifício, mas com um
jardim. Simbolicamente pode ser feita a leitura que associa o acto de "nascer"
com a terra donde tudo brota ou, na leitura inversa que adoptei nesta
exposição, com o regresso à terra onde a materialidade da vida se esgota e
consome.
O Jardim do Parque Guell é, pois, na minha perspectiva, um fim e um princípio,
já que contém nas suas formas simultaneamente racionalizadas e profundamente
imaginativas e originais, no seu mimetismo naturalista, os dois pólos que a
arquitectura do século XX tentou sempre sintetizar.
E desta obra, a todos os títulos singular, faço a passagem para uma breve
conclusão, que é simultaneamente uma perspectiva de evolução e um voto de
futuro.
Revendo de um golpe de olhar o conjunto de obras que escolhi e, sobretudo, da
análise global da produção arquitectónica que dominou o século que deixamos,
parece-me ressaltar uma evidência que vos proponho como tarefa a considerar: do
esforço de pôr em ordem a racionalidade de uma disciplina do pensamento e da
operacionalidade humana, que dominou o labor dos arquitectos nos primeiros anos
do século, foi-se consciencializando entre os praticantes mais lúcidos e
sensíveis da modalidade a necessidade de prestar maior atenção às exigências
espirituais da prática arquitectónica, reivindicando o carácter eminentemente
social e artístico, no caminho para a primazia dos "valores" perenes sobre os
mais transitórios e perecíveis.
Apesar de muitos profetas da desgraça afirmarem o contrário, eu creio que a
marcha para uma consciencialização desses valores pode ser detectada hoje com
alguma evidência no domínio dos equipamentos arquitectónicos. Basta reconhecer
a profusão de instalações dedicadas à melhoria das condições sociais e da
cultura, as quais não têm qualquer paralelo como o que as anteriores sociedades
humanas puderam realizar.
Apesar do mal existente no mundo, a que evidentemente ninguém pode ficar
indiferente, devemos reconhecer que a sensibilidade humana é hoje mais atenta
ao respeito pelas liberdades e pelos direitos dos indivíduos, à fruição de
vidas dignas e orientadas por valores de "respeito" em "independência de
pressões escravizantes".
Mas o caminho, sempre incompleto em que avançamos, deve, a meu ver, pugnar hoje
pelo reconhecimento das necessidades de ordem espiritual que se exprimem pela
consideração do lado transcendente da vida. Com estes votos, que transmito em
especial aos que agora iniciam o seu percurso escolar, manifesto a esperança de
que, no século XXI, os novos arquitectos sejam, cada vez mais, agentes activos
e responsáveis na melhoria das condições de vida e da felicidade a que todos
aspiramos.
Nota
1 Palestra proferida na licenciatura de Arquitectura do ISCTE, no início do
ano lectivo de 2000/2001.
*Luiz Cunha. Arquitecto. Professor na cadeira de Projecto, na licenciatura
de Arquitectura do ISCTE.